O Vegetarismo e a Moralidade das raças
Chapter 2
E diz tambêm: «Deixo de insistir no facto de que, se nos pozermos na dependencia do argumento da necessidade ou da utilidade (do carnivorismo), não podemos deixar de admitir por implicação que nós mesmos fomos criados só por causa de certos animais destruidores, como os crocodilos, as serpentes e outros monstros, porque não recebemos dêles o menor benefício. Pelo contrário, são eles que apanham, destroem e devoram os homens que encontram--fazendo o que não procedem de modo algum menos cruelmente do que nós. De resto, eles são assim selvagens por necessidade e fome; e nós por insolente lascivia e luxuriosos prazeres, divertindo-nos, como usamos no circo e nos morticínios da caça. Em tais acções fortificamos em nós uma natureza bárbara e brutal que torna os homens insensíveis ao sentimento da piedade e compaixão. Aquêles que primeiro perpetraram essas iniquidades fatalmente entorpeceram a parte mais importante da alma. Por isso é que os discípulos de Pitágoras consideram a bondade e a graça com os animais inferiores um exercicio de filantropia e graça».
Com Porfirio fecham-se as lições magnificas de vegetarismo que a antiguidade nos legou.
Seguem-se-lhe na ordem cronológica as desordens e violências da idade média, o desabar dum mundo em grande parte caduco e a anciedade duma renovação que sabe mal os seus trâmites e anciosamente os procura. Mas nem assim, nem em meio dessas ruinas e tumulto, o vegetarismo será uma doutrina morta. Aqui e além sentimos-lhe as palpitações; nas homílias dum João Crisóstomo cujos ascetas não conheciam entre si, segundo a expressão do Santo, «nem os rios de sangue, nem a matança e nem o cortar da carne no açougue, nem cozinhas delicadas, nem o peso da cabeça, nem as exalações horríveis dos manjares carnívoros e os fumos desagradáveis das cozinhas»; nas comunidades dos cataros perseguidos pela igreja católica, que nem mesmo perante o cadafalso se sujeitaram a matar um frangão, quando em 1052, em Goslar, eram enforcados; e Deus sabe em quantas ermidas, nas quais os revoltados contra a ortodoxia eclesiástica que na solidão procuravam refugio das torturas que os ameaçavam, guardavam as melhores tradições dos paulicianos e dos albigenses, esperando no futuro melhor religião e mais pura moralidade. Pelo que toca à superioridade moral dos seus preceitos anti-carnívoros, êsses herejes, que assim se chamavam e como tais eram martirizados, até entre os seus cruéis inimigos encontraram quem lhes fizesse justiça. S. Bernardo foi um dos que condenando os crimes e as imoralidades da ortodoxia do seu tempo reconheceu virtude em uma dieta anti-carnívora.
No século XVI entramos na renascença e com ela, reatado o fio da cultura antiga, dá signais de vida o senso moral que em tal agudeza sentimos nos primeiros tempos do império romano.
Vem o _Compêndio da Vida Sóbria_ do celebre Cornaro que, fraco e arruinado aos trinta anos por excessos de gula, consegue prolongar a vida além dos cem por uma dieta rigorosa. Vem a _Utopia_ de Tomás Moore, a cujo povo modêlo não era permitido acostumar-se a matar os animais «pelo uso dos quais julgavam que a clemência, a mais graciosa afeição da nossa natureza decaía e morria». E vem finalmente a ressurreição plena da filosofia humanitária em Miguel de Montaigne.
Grande leitor de Plutarco, seu legitimo discípulo, Montaigne renova brilhantemente as exortações do mestre contra as intoleráveis crueldades do carnivorismo.
«Pela sua parte», disse, «nunca foi capaz de vêr sem desgôsto perseguir e matar um animal inocente e sem defesa, do qual não haviamos recebido mal ou ofensa. Quando um gamo, como vulgarmente acontecia, esfalfado e sem fôrças, sem outro recurso, se prostrava e rendia, como se pelas lágrimas pedisse misericórdia aos seus algozes, sempre lhe pareceu um desagradável espectáculo. Raro ou nunca apanhou vivo um animal que não o restituisse á liberdade. Pitágoras tinha o costume de comprar para o mesmo fim aos passarinheiros e aos pescadores as suas víctimas. As disposições sanguinárias relativamente aos outros animais demonstram uma crueldade natural com a nossa própria espécie. Desde que em Roma se habituaram ao espectáculo da chacina dos outros animais, passaram à dos homens e dos gladiadores. Temia que a natureza tivesse dado certo instinto de desumanidade às inclinações humanas. Ninguém tira prazer de vêr os outros animais alegres e afagando-se; e ninguém deixa de se alegrar vendo-os desmembrados e feitos em pedaços.»
Repetindo o exemplo de Plutarco, Montaigne considera um caso de consciência mandar para o matadoiro a vaca que tantos anos nos serviu. Com Plutarco e Porfírio aponta os prejuizos sobre as faculdades mentais das raças não humanas, insistindo em que a diferença é de grau e não de espécie. «Platão» diz, «no seu quadro da Idade d'Oiro conta entre as principais vantagens dos homens d'aquêle tempo o comércio que êles tinham com os outros animais, investigando, instruindo-se e aprendendo as suas verdadeiras qualidades e as diferenças entre nós e êles, pelo que adquiriam um perfeitíssimo conhecimento e inteligência e dêste modo fizeram as suas vidas mais felizes do que a nossa. Isto digo com o fim de nos fazer retroceder e juntar-nos á multidão. Não estamos nem acima nem abaixo do resto. «Quantos estão sob o céu» diz o sábio judeu, «sofrem igual lei e destino.» Ha certa diferênça, ha ordens e gráus, mas acham-se sob o aspecto duma única e igual natureza.»
Depois de Montaigne, é Pedro Gassendi que repete as lições de Plutarco, enquanto medita a _Vida e Moral de Epicuro_ que sabiamente traçou, encontrando, como este, «o bem supremo, _summum bonum_» no seu pequeno jardim. E logo após a sua morte, dentro de poucos anos, nasce Hecquet que por sua vez, no seculo XVII vinha acrescentar à Bíblia Vegetariana páginas definitivas.
A êsse notável reformador da arte médica parecia «incrível a soma de prejuizos que se deixaram trabalhar em favor da carne, quando tantos factos se opõem à pretensa necessidade do seu uso». Renova todo o argumento fisiológico contra a dieta carnívora e, citando numerosos exemplos de homens eminentes e de nações que em todos os tempos a condenavam, observa com muito particular e inatacável sagacidade que «está provado que não é difícil sustentar sem carne os animais que vivem de carne, enquanto é quási impossível alimentar com carne aquêles que vivem ordináriamente de substâncias vegetais».
Grande época de moralistas, o seculo XVII não deixaria escapar sem reflexão os problemas morais da dieta, e de facto os julgou com a severidade que uma sã moral reclama. Onde se insinuarem sentimentos de simples justiça, à parte mesmo toda a exaltação religiosa ou qualquer frouxa inspiração de poesia, logo a baixeza do carnivorismo será apontada e castigada como infração de princípios supremos.
Bernardo de Mandeville, que nasceu em 1670, comenta nestes belos termos os hábitos carnívoros que ao tempo deveriam estar em plena expansão entre nobres e gente abastada:
«Muitas vezes pensei que, se não fosse pela tirania que o costume exerce em nós, os homens duma natureza medianamente boa nunca se reconciliariam com a acção de matarem tantos animais para seu sustento quotidiano, enquanto a liberalidade da terra tão abundantemente lhes faculta as delicadas variedades de vegetais. Sei que a razão nos provoca a compaixão mas frouxamente, e por isso não me admira que os homens sejam tão desapiedados com criaturas imperfeitas como o caranguejo, a ostra, a ameijoa e, em geral, todo o peixe, porque são mudas e o seu intimo e a sua configuração externa largamente diferem de nós. Para nós, exprimem-se ininteligivelmente, e por conseguinte não é de estranhar que a sua dôr não afecte o nosso entendimento que ela não alcança; pois coisa alguma nos move mais seguramente à piedade do que os sintomas de miséria que ferem imediatamente os nossos sentidos. Encontrei comovendo-se com o rumor que uma lagosta faz quando a espetam gente que com prazer mataria meia dúzia de aves.
«Animais perfeitos como as ovelhas e os bois, nos quais o coração, o cérebro, e os nervos diferem tão pouco dos nossos, e a separação do sangue e do espírito, os órgãos dos sentidos, e por consequência o próprio sentimento, são os mesmos que são em criaturas humanas, não posso imaginar como um homem que não esteja endurecido no massacre e no sangue póde vêr indiferente a sua morte e as agonias em que ela se consuma.
«Em resposta a isso, a maior parte das pessoas julgarão suficiente dizer que, tendo sido feitas as _coisas_ para utilidade do homem, não póde haver crueldade em dar às criaturas o uso para que foram designadas. Mas tenho ouvido esta réplica, enquanto a natureza íntima de quem a deduz lhe acusa a falsidade da asserção.
«Se não foi criado num açougue, não haverá numa multidão um homem entre dez que por sua vontade escolhesse entre todas as profissões a de magarefe; e pergunto se sequer alguém matou pela primeira vez sem relutância uma galinha.
«Alguns não podem resolver-se a provar de quaisquer criaturas que tenham visto todos os dias e que conhessem quando estavam vivas. Outros não levam os escrúpulos alêm daquelas criaturas que viram todos os dias e conheceram enquanto vivas e lhes pertenciam. Outros limitam esses escrúpulos ás suas próprias aves, e recusam-se a comer daquelas que sustentaram e cuidaram. Todavia, todos se alimentam, sem remorsos e de coração leve, de carne de caça, de carneiro e de aves quando foi comprada no mercado. Neste procedimento, imagino, transparece qualquer coisa como a _consciência da culpa_; parece que se esforçam por se salvarem da imputação dum crime (cujas ligações percebem) afastando de si quanto possivel a respectiva causa. E nisso descubro vivos sinais da primitiva piedade e inocência, que o poder arbitrário do costume e a violência da luxúria ainda não foram capazes de conquistar.»
Por êste mesmo tempo de Bernardo de Mandeville, no período tão fecundo de renovação religiosa e filosófica que vai do meiado do século XVII ao meiado do século XVIII, o respeito da vida dos animais inferiores encontrou invariavelmente defensores convictos nos melhores espíritos da época. Wesley foi um dêsses e Pope, o célebre poeta inglez, recordando lições do «excelente Plutarco» que, dizia, «tinha mais impulsos de boa natureza nos seus escritos do que qualquer outro autor de que se lembrasse», repete-lhe os conselhos analisando e condenando os costumes sanguinários de então que, como hoje, passavam para o maior número por admirável destreza física e modos sãos e legítimos de existência moral e fisiológica.
«Não posso imaginar extravagante», escreveu Pope, «que o género humano seja, relativamente, menos responsável pelo mau uso do seu domínio sôbre as camadas inferiores dos seres do que o é pelo exercicio da tirania sôbre a sua própria espécie. Quanto mais completamente a criação inferior se encontra submetida à nossa fôrça mais responsáveis deveremos ficar pelo seu máu govêrno; por maioria de razão se deve considerar esta responsabilidade, visto que a própria natureza dos animais inferiores os torna incapazes de receberem em outro mundo qualquer recompensa dos máus tratos que sofrerem nêste. É de notar que os animais nocivos, com mais poderosas qualidades para nos fazerem mal, evitam naturalmente os homens e nunca nos ofendem senão provocados ou coagidos pela fome... Não parece fácil defender meramente por _sport_ a destruição de qualquer coisa que tenha vida. Todavia as crianças são educadas nesta ideia e um dos primeiros prazeres é a licença de infligir penas a animais sem defeza. Mal nos tornamos sensiveis ao que a vida é para nós, fazemos um passatempo de a roubarmos aos outros... Quando crescemos e nos fazemos homens, temos outra série de passatempos sanguinários, particularmente a caça. Não ouso atacar um divertimento que tem a sustentá-lo tal autoridade e costume; mas consintam-me que tenha a opinião de que a agitação daquêle exercício, com o exemplo e o número dos caçadores, contribue não pouco para resistir áqueles impulsos que a compaixão naturalmente sugere a favor dos animais perseguidos.»
«Mas se os nossos _sports_ são destruidores, muito mais o é a nossa gula e duma fórma muito mais desumana. As lagostas assadas vivas, os porcos fustigados até à morte, as aves amanhadas, são testemunho da nossa luxúria. Aquêles que, na frase de Sêneca, repartem a vida entre uma consciência ambiciosa e um estômago enauseado, teem a justa recompensa da sua gula nas doenças que ela acarreta. Porque os selvagens humanos, como os outros animais bravios, encontram ratoeiras e venenos nas provisões da vida e enganados pelo apetite correm à propria destruição. Não conheço nada mais repelente do que o aspecto duma das suas cozinhas coberta de sangue onde se ouvem os gritos dos seres que expiram em torturas. Dá-nos a imagem da caverna dum gigante nos romances, juncada de cabeças dispersas e membros lacerados daquêles que a sua crueldade chacinou.»
Com tão bons guias, chegaremos ao humanismo do século XVIII que Rousseau e Voltaire consubstanciaram maravilhosamente.
Voltaire, no _Dicionário filosófico_, discorrendo sôbre a palavra carne, escreveu:
«Sabe-se que Pitágoras, que estudou com os brahmanes a geometria e a moral, adoptou a sua doutrina humana e trouxe-a para a Itália. Muito tempo a seguiram os seus discipulos: os célebres filósophos Plotino, Jâmblico e Porfírio, recomendaram-na e até mesmo a praticaram, posto que seja muito raro fazer aquilo que prégamos. A obra de Porfírio sôbre a abstinência de carnes animais, escrita pelo meiado do nosso terceiro século, é muito estimada dos eruditos mas não fez mais discípulos entre nós que o livro do médico Hecquet. É em vão que Profírio propõe para modelos os brahmanes e os magos persas de primeira classe que tinham horror ao costume de engolfar nas suas entranhas as entranhas das suas criaturas. Não é seguido hoje senão pelos padres da Trapa. O escrito de Porfírio é dirigido a um dos seus discípulos, Firmus, que, diz-se, se fez cristão para ter a liberdade de comer carne e de beber vinho. Adverte a Firmus que abstendo-nos da carne e dos licores fortes conservamos a saúde da alma e do corpo, vivemos mais tempo e com mais inocência. Todas estas reflexões são dum teólogo escrupuloso, dum filósofo rígido e duma alma doce e sensível. Julgariamos ao lê-lo que êste grande inimigo da Igreja é um padre da Igreja. Considera os animais como nossos irmãos porque são animados como nós, porque teem os mesmos princípios de vida, porque teem, assim como nós, ideias, sentimento, memória, engenho. Só lhes falta a palavra. Se a tivessem, ousaríamos matá-los e comê-los? Ousaríamos cometer fratricídios? Qual é o bárbaro que poderia assar um cordeiro, se êsse cordeiro nos conjurasse por um discurso comovedor a que não fôssemos ao mesmo tempo assassinos e antropófagos? Este livro prova pelo menos que entre os gentílicos houve filósofos da mais austera virtude; mas não conseguiram prevalecer contra os magarefes e os glutões. A gula, o jôgo e a preguiça baniram do mundo toda a virtude.»
Ao mesmo tempo que Voltaire, Rousseau fazia suas as ideias de Plutarco sôbre o regime alimentar; e proclamando-as com a violência habitual do seu carácter, com aquela mesma impetuosidade que incansavelmente empregou em fustigar a depravação do seu tempo e em incitar a uma regressão salutar ao contacto e à simplicidade da natureza, inscreveu o vegetarismo entre os artigos da nova fé. Sobretudo na educação da criança quer que rigorosamente o vegetarismo prevaleça porque uma das provas de que o sabor da carne não é natural ao homem é a indiferença das crianças por este gênero de alimento e a preferência que elas dão aos alimentos vegetais como as sopas, as massas, os frutos, etc.[B] É de suprema importância que não se lhes desnature o gôsto primitivo e não se tornem carnívoras, senão por motivos de saúde, pelo menos por causa do carácter. Porque, seja qual fôr a explicação da experiência, é certo que os grandes comedores de carne são, em geral mais cruéis e ferozes do que os outros homens. Esta observação é verdadeira em todos os lugares e em todos os tempos. É bem conhecida a grosseria inglesa. Os gauros, pelo contrário, são os mais gentis dos homens. Todos os selvagens são crueis, e não é a sua moral que os leva a isso; a sua crueldade provém do seu alimento. Vão para a guerra como para a caça e tratam os homens como tratam os ursos. Mesmo na Inglaterra os magarefes não são admitidos como testemunhas legais, assim como os cirurgiões. Os grandes criminosos endurecem-se para o assassinio bebendo sangue. Homero representa os ciclopes, que eram carnívoros, como homens terríveis, e os lotófagos como um povo tão doce que mal alguém tinha comércio com êle, logo esquecia tudo e a sua pátria para viver com êle... Já se viu alguém aborrecer o pão e a água? Veja-se o cunho da Natureza! Veja-se aí pois uma regra de vida. Conservemos na criança pelo mais largo tempo possível o seu gôsto primitivo; deixemos que o seu alimento seja simples e vulgar; façamos que o seu paladar sómente se familiarize com os aromas naturais e que não se forme gôsto algum exclusivo... Algumas vezes observei a gente que dá importância a _viver bem_, que pensa, mal acorda, no que ha-de comer durante o dia e descreve um jantar com mais exactidão do que Políbio usa na descripção duma batalha. Pensei que todos esses chamados homens eram apenas crianças de quarenta anos, sem vigor e sem consistência. A gula é o vício das almas que não teem fundo. A alma do glutão está no seu paladar. Veio ao mundo para devorar. Na sua estúpida incapacidade, só à mesa está à vontade. A sua capacidade de julgar limita-se às suas iguarias.»
Um Shelley, um Lamartine, um Michelet ou um Gleizès tiveram na verdade bem desbravado o terreno para deixarem voar livres os seus sonhos duma nova existência toda de pureza que aborrecesse a carnificina e o sangue onde quer que os encontrasse, na floresta, no lar ou no campo da batalha, e sómente alimentasse o corpo e a alma nos inocentes e perfumados frutos da terra. O desenvolvimento do vegetarismo no século XIX, a discussão e consolidação da sua doutrina e o derramamento da sua prática, não serão já a aspiração de gênios privilegiados mas o patrimônio comum de milhares e milhares de espíritos esclarecidos e de corações exaltados em amor. Convinha que assim acontecesse, desde que uma vaga de libertação da humanidade, sem precedentes na história, nos punha deante de Deus, da natureza e do dever desprendidos de todo o estôrvo da opressão do costume e das tiranias sectárias. Mas não será em vão que os mais bem inspirados combatem pelo advento do novo reino. A liberdade de proceder não significa o domínio e a supressão da ruindade. O que nesse campo havia e ha a conquistar e é o legado funesto de gerações sôbre gerações de crueldade, é infinito. O que se conquistou é minimo relativamente ao que importa conquistar.
Por isso um homem como Wagner descerá do altíssimo pedestal a que o próprio talento e a fama o ergueram e virá com os mais humildes exortar os infieis e os ignorantes a iniciarem a sua redenção no vegetarismo.
Lichtenberger, no seu excelente estudo de Ricardo Wagner como poeta e pensador, expõe-nos nestes termos as ideias daquêle soberbo gênio sôbre o vegetarismo, particularmente sôbre a importância que ele lhe atribuia na regeneração física e moral das sociedades humanas.
A citação será longa mas convém que se faça, é indispensável, aponta dados primaciais do problema:
«Se consideramos primeiro a evolução humana como fenômeno fisiológico, verificamos, segundo Wagner, que duas causas trouxeram a degeneração da raça branca: a má alimentação, que do homem primitivamente frugívoro fez um carnívoro, e a mistura das raças que profundamente alterou o temperamento primitivo e as virtudes hereditárias dos antigos arias. Estas duas causas tem por efeito uma alteração do próprio sangue entre os povos modernos e em particular no povo alemão, alteração que deve ser considerada como a razão fisiológica, como o princípio inicial da corrupção profunda que hoje aparece no seio das nações europeias.
«O homem natural, inocente e feliz, de que Wagner traçara outrora a imagem ideal no seu moço Siegfredo, não mais se concebe agora (nesta época da sua vida) sob as linhas do germânico belo e vigoroso, sempre pronto para a guerra e para as aventuras, belicoso pelo prazer de medir suas fôrças com os rivais, e inacessivel ao temor. É agora o índio dos tempos primitivos, o índio morigerado e reflectido por uma religião de suavidade: «Uma natureza generosa lhe oferecia o que era necessário para satisfazer as necessidades da vida; a vida contemplativa, a meditação séria podia levar estes homens, livres de todo o cuidado da sua sustentação, a reflectirem profundamente sobre a natureza deste mundo onde, como a experiência passada lhes havia mostrado, reinava a indigência, o cuidado, a dura necessidade do trabalho e mesmo da luta e do combate para a posse dos bens materiais. Ao brahmane, possuído do sentimento de ter em certo modo entrado em uma vida nova, o guerreiro parecia-lhe necessário como guarda da segurança exterior e por esta razão tambêm digno de piedade; o caçador, pelo contrário inspirava-lhe um horror profundo e o carrasco dos animais domésticos parecia-lhe inconcebível». Estes homens de costumes tão doces sabiam todavia dar provas duma fôrça dalma sem igual, quando disso era ensejo próprio: nenhuma tortura, nenhuma promessa pôde jámais obriga-los a renunciarem á sua fé religiosa; e Wagner cita com admiração a história comovente de tres milhões de indios que, por ocasião duma fome causada pelos especuladores ingleses, preferiram morrer de fome a tocar nos seus animais domésticos. Mas o homem primitivo, vegetariano e manso, que recusa derramar o sangue dos seus semelhantes e o dos seus irmãos inferiores, os animais, degenera pouco a pouco sob a pressão das circunstâncias exteriores. Transportado, no correr das emigrações, para climas menos clementes, torna-se caçador e carnívoro, para escapar á fome; aprende a alimentar-se com a carne dos animais domésticos. Desde os primeiros tempos da história, vemo-lo transformar-se assim em um animal de prêsa ávido de sangue e por fim deleitando-se em matar, não só para satisfazer a fome mas pelo prazer de matar. Este animal de prêsa conquista vastas províncias, subjuga raças frugivoras, funda por guerras sucessivas grandes impérios, dita leis e cria civilizações para gozar em paz da sua rapina, Hoje é mais perigoso e mais sanguinário do que nunca; aperfeiçoou dum modo terrível os engenhos de destruição, exgota-se em armamentos estéreis e vive num estado de _paz armada_ periodicamente interrompida por carnificinas medonhas. Depois, ao lado do homem de prêsa militar desenvolveu-se no correr dos séculos o homem de prêsa especulador, tão de temer e tão mortífero posto que menos bravo do que o primeiro, e cuja acção devastadora se exerce sem interrupção sobre a massa do povo que êle votou á miseria e à ruina. Mas se o homem de prêsa domina o mundo como a fera reina na floresta, é como ela degenerado: «Do mesmo modo que o animal de prêsa não prospera, diz Wagner, do mesmo modo vemos o homem de prêsa vitorioso finar-se lentamente. Por causa do alimento contra a natureza que êle usa, é vítima das doenças que só nêle aparecem, e nunca alcança nem o termo normal dos seus dias nem uma morte doce: sob o aguilhão de sofrimentos e de torturas que só êle conhece e que lhe ferem o corpo como a alma, apressa-se através duma vida de agitações vãs, para um fim sempre terrível».