O Thesouro Do Rei Fernando Historia Anecdotica De Um Tratado In

Chapter 2

Chapter 23,803 wordsPublic domain

Não é sómente pelo encanto da descripção do grande Chronista, que nos demorâmos n'estas minudencias.

É que ellas dão uma nota critica importante para a apreciação dos acontecimentos, até do proprio documento que estamos explicando.

Uma observação de passagem: outra idéa falsa muito vulgarisada, muito romanceada até pelos nossos philosophos e historiadores modernos, é a da nossa pobreza publica, como diriamos hoje, anteriormente á grande florescencia ultramarina que se diz ter-nos deploravelmente desviado das ideaes vantagens de uma austeridade pelintra.

É certo que Dom Fernando, em vez de seguir os exemplos dos seus predecessores, accumulando thesouros, parecia apostado a exhauril-os rapidamente.

Mas pela sua situação geographica, pelas suas aptidões, pela sua administração intelligente e pratica,--pois que a tivemos já, e d'ella principalmente deriva a força economica das Nações,--Portugal foi por largo tempo um dos Estados mais ricos da Peninsula, chegando até a ser considerado dos mais ricos da Europa.

Sem ter soffrido a semsaboria de encontrar-se com as forças navaes do _Bastardo_, muito occupado na invasão de Portugal e na pacificação do seu proprio Reino, a nossa pequena armada chegou a salvamento a Barcelona, e o--«thesouro»--,isto é, os 18 quintaes de oiro amoedado foram depostos n'uma camara bem cerrada e guardada, que o Rei Aragonez teve a amabilidade de ceder no seu proprio palacio.

Começou-se a fazer a moeda nova para o soldo da campanha, cunhando-se logo 200:000 reaes de prata, de 4 _maravidis_ cada _real_, com os signaes e cunhos do assassinado Dom Pedro de Castella, naturalmente para mais facil circulação nas terras Castelhanas que haviam de ser invadidas.

Affonso Domingues exercia, zelosa e livremente, o seu officio de Thesoureiro; Dom João Affonso diligenciava contratar e assoldadar os fidalgos empreiteiros que haviam de fornecer os homens de armas, e o genovez Balthasar de Espinola temperava a faina diplomatica galanteando, com excellente exito, a desolada viuva do Infante Dom Fernando, a Infanta Dona Maria, irmã do Rei Portuguez e cunhada do de Aragão.

Caetano de Sousa mostra-se muito indignado por Fernão Lopes tratar--«sem necessidade... tão incivilmente»,--a Infanta, com a revelação d'este galanteio e das consequencias d'elle.

Mas não prova, nem lhe seria facil, que o facto se não désse.

Teremos talvez de voltar ao incidente, mas diga-se desde já que bem mais confiança merece a ingenua e honrada--«incivilidade»--do Chronista do seculo XV do que a postiça e hypocrita gravidade cortezã do Genealogista do seculo XVIII, que ha pouco ainda tivemos occasião de surprehender a subtrahir e truncar de um testamento a justificação de uma consciencia briosa que ia desapparecer no tumulo, ficando na Historia com o labeu de uma morte aleivosa e injusta[9].

Tudo parecia, pois, correr excelentemente e julgou-se até conveniente melhorar, por conta e á custa do famoso--«thesouro»,--a convenção de Lisboa, elevando a 3:000 lanças o subsidio das 1:500 que elle era destinado a mover contra Castella. Tres mil _lanças_ correspondiam bem a uns 12:000 homens e mais.

Sobre isto se entabolaram novas negociações entre os dois Reis, não sendo muito temeraria a suspeita de que por este meio procurasse o do Aragão protrahir os seus compromissos.

Apenas duas pequenas nuvens,--que não poderia suppor-se que dessem uma grande procella,--pairavam realmente no horisonte illuminado por tão risonhos auspicios.

Era uma, a da necessidade da dispensa Pontificia para o consorcio da Infanta Aragoneza com o primo.

Tinha este escrupulo de consciencia o homem que expoliára a irmã, que esmagára o cunhado, que perseguira a madrasta e que assassinára o irmão.

Dom Pedro, o _Ceremonioso_, casara pela segunda vez, dissemol-o já, com uma tia do Rei Dom Fernando, a Infanta Dona Leonor, que morrêra em 1348. Logo no anno seguinte desposára outra Leonor, uma irmã do Rei Luiz da Sicilia, de quem tivera a que estava agora para ser Rainha de Portugal.

Succedia ainda,--e era esta a segunda nuvem,--que a futurada Rainha, tendo sido creada com o filho e herdeiro do _Bastardo_,--depois João I de Castella,--só pela tenaz opposição da mãe não casava com elle, o que não impedia que fosse esse o seu desejo, o do seu companheiro de infancia e o do pae d'este, o proprio e habil Dom Henrique.

A politica matrimonial do tempo enredava-se ás vezes na politica amorosa dos corações juvenis.

A Infanta aragoneza não seria positivamente uma formosura e os velhos Portuguezes eram um pouco exigentes no assumpto.

Gostavam de Reis fortes, desempenados, viris, e de Rainhas formosas, esbeltas, graciosas, que, alem de tudo, fossem capazes de os conceber taes.

Por muito tempo corrêra mundo a fama de belleza das Princezas Portuguezas.

Ora Dom Fernando era, na phrase singela e expressiva do seu Chronista, um--«mancebo valente, ledo e namorado, amador de mulheres e achegador a ellas».

Estava na conta dos bons Reis Portuguezes: e nada mais natural do que não terem ficado muito tranquillos e satisfeitos os amigos e enviados de Dom Fernando, ao aspecto da sua nova Rainha, não sendo ella realmente formosa.

Ha até uma versão antiga de que lhes desagradára muito por feia e mal feita, tirando d'ahi motivo para não apressarem o consorcio ou para o mallograr.

Mas Fernão Lopes contradiz energicamente esta versão, como desmente outras, observando que a rasão do que succedêra não fôra--«por ella ser tal como alguns, historiando, feiamente a pintaram, porque de corpo e gesto a natureza lhe dera tão boa parte que a nenhum Senhor descontentaria de a haver por mulher».

E deve ser assim. Não seria uma formosura, mas pouco ou nada importou isso para os successos futuros, até porque o Rei Portuguez não procurava tanto a mulher, como o auxilio do Rei de Aragão.

Da parte d'este ultimo é que naturalmente se disfarçaria na desculpa da dispensa Pontificia a pouca vontade de se aventurar á guerra contra o novo Rei de Castella, que elle proprio auxiliára, um pouco, e conquistar o Throno, e quem sabe se tambem qualquer rebate de desconfiança ácerca do espirito versatil de Dom Fernando, o não movia a demorar o negocio?

O que é certo é que demorando-se a Dispensa,--se é que chegára a ser pedida pelo Rei de Aragão, o que é duvidoso,--e como ao mesmo tempo se protrahia o começo da estipulada campanha, Dom João Affonso voltou a Portugal sem a Infanta, mas com a coroa «marchetada de aljofares», o que evidentemente não parecia indicar uma perfeita confiança de que ella tivesse de servir muito breve.

Ficaram, porém, em Barcelona--«o thesouro»,--e os outros negociadores, que em 24 de julho de 1370 revalidavam ainda com o Rei do Aragão as estipulações anteriores.

Dom Pedro, o _Ceremonioso_, enviava a Dom Fernando um novo embaixador explicando a involuntaria tardança, offerecendo até que se tornasse effectiva a caução inicialmente prestada da occupação pelos Portuguezes do Castello de Alicante.

Bisarramente, Dom Fernando não quiz usar d'esta faculdade.

Confiava no futurado sogro e tanto persistia no ajuste, que recommendando aos insurrectos castelhanos de Carmona que se defendessem como podessem do apertado cerco que lhes pozera Dom Henrique, porque sentia muito não poder, de momento, soccorrel-os, em 21 de outubro (1370) ratificava e jurava, novamente, nos «Paços de Vallada», com o embaixador aragonez, as combinações e accordo de Barcelona.

Estava, pois, assente, confirmado e umas poucas de vezes jurado, que dentro em pouco, o tempo necessario apenas para chegar de Roma a Dispensa Pontificia, se ultimaria o casamento de Dom Fernando com a filha do Rei de Aragão, a Infanta Dona Leonor, iniciado já na Igreja de São Martinho de Lisboa, e que o _Bastardo_ de Castella se acharia mettido entre dois fogos, tendo necessariamente de acudir á sua fronteira de leste, invadida pelos aventureiros aragonezes ao soldo de Portugal.

III

Mal teria tempo o Embaixador aragonez de apresentar ao seu Rei a franca e leal revalidação do ajuste, pelo de Portugal, quando no começo de 1371 se abriam aqui, por mediação ostensiva do Legado Pontificio, as negociações de paz com Castella.

Terminavam em 31 de março, em Alcoutim, estas negociações, por um definitivo tratado entre Dom Fernando e o _Bastardo_, em que este fazia comprehender o Rei de França, seu alliado, e aquelle tão perfeitamente desinteressado se mostrava dos compromissos com o Rei do Aragão, que contratava novo casamento com uma das filhas do de Castella, outra Infanta Dona Leonor.

Os amadores de coincidencias fatidicas podem bem appellidar Dom Fernando o Rei das Leonores.

O vortice recrudesce de actividade, quasi não dando logar ao assombro, como tambem não deu tempo ao Castelhano para gosar a sua plena e singular desforra.

Muito--«amador de mulheres e achegador a ellas»,--como Fernão Lopes o caracterisa, Dom Fernando, no meio d'estes extraordinarios e incommodos acontecimentos, achegára-se por tal fórma a uma irmã natural, a Infanta Dona Beatriz, que as murmurações eram grandes e dava-se já como certo que pretendia casar com ella--«cousa nunca vista»,--observa severamente o grande Chronista.

Frequentava-lhe muito a casa em que ella, na falta de Rainha, sustentava uma verdadeira côrte, e--«eram os jogos e falas entre elles tão a miudo, misturados com beijos e abraços e outros desenfadamentos de similhante preço que fazia a alguns ter deshonesta suspeita de sua virgindade ser por elle minguada».

Dona Beatriz fôra a ultima filha dos tragicos amores de Dom Pedro I e Dona Ignez de Castro, e casou tres annos depois, em 1374, com um grande Senhor Castelhano, Dom Sancho, Conde de Albuquerque, producto tambem de um amoroso enlevo: o de Affonso XI de Castella por Dona Leonor Nunes de Gusmão, Senhora de Medina Sidonia.

Enviuvou no anno seguinte, tendo no ventre a celebre Dona Leonor Urraca de Albuquerque--_la rica hembra_,--a que havia de ser Rainha do Aragão, como mulher de Dom Fernando o de _Antequera_, e mãe de duas Rainhas tambem: Dona Leonor de Portugal, mulher de Dom Duarte, e Dona Maria, mulher de Dom João II de Castella.

Parece que a gentil Infanta não se illudiu com a gravidade da situação e com os perigos de levar aquelles desenfadamentos demasiadamente fraternos ate á resolução escandalosa que o doido do irmão fantasiava.

Como boa amiga lembrou-lhe o compromisso do consorcio Castelhano que acabava de sellar a paz entre as duas Corôas, e prestou-se até a entrar n'outra intriga amorosa que repentinamente surgiu entre uma sua hospeda e o voluvel coração do Rei Portuguez.

É ainda o que diz Fernão Lopes, que evidentemente profundava com vontade e consciencia a Historia e estava muito longe de sacrifical-a, como os chronistas de mais adiantadas epochas, a hypocritas e inuteis cortezanias. Quem denunciava os desenfadamentos não hesitaria em contar as naturaes consequencias d'elles.

Entre as damas da Infanta havia uma, Dona Maria Telles de Menezes, com a qual viera passar algum tempo uma irmã, Dona Leonor Telles, casada com um fidalgo beirão, Martim Lourenço da Cunha, Senhor de Pombeiro.

--«D'esta se começou de namorar maravilhosamente»--Dom Fernando--«e ferido assim do amor d'ella, em que seu coração de todo era posto, de dia em dia se acrescentava mais sua chaga».

Eram as duas, sobrinhas de Dom João Affonso, o que fôra receber ao Aragão a primeira noiva Regia e voltára sem ella.

D'aqui se originou naturalmente a versão de que o Embaixador maliciosamente concorrêra para o mallogro da missão por interessado em favorecer o impetuoso galanteio do Rei.

Mas a breve chronologia do caso poupou realmente a esta premeditação perversa o velho fidalgo, posto não o exhima á cumplicidade das ambições que sustentavam a manhosa resistencia da sobrinha.

Cautelosa e astuta, como naturalmente seria um seu ascendente proximo, que merecêra dos contemporaneos o appellido de---_Raposo_,--Leonor Telles, sentindo agitar-se-lhe no ventre o primeiro producto do legitimo consorcio, deixou-se ficar na Côrte, de accordo com a parentella, e poz, intransigente, por preço á sua honestidade de esposa e á sua prosapia de fidalga, a Corôa de Portugal.

A descendente do Rei Dom Ordonho II de Leão, a mulher do Senhor de Pombeiro, que vinha do Rei Ramiro e era ainda bastardo bisneto de Affonso III de Portugal[10], não se entregaria nos braços de Dom Fernando, como simples barregam Real, embora para isso lhe prestasse auctorisados exemplos a sua gloriosa prosapia de Telles, Menezes e Cunhas.

Assim o declarou peremptoriamente ao Rei, por ella e pelo Conselho da briosa familia, a irmã, a Dona Maria Telles, que annos depois havia de repetir por sua propria conta a comedia com o irmão de Dom Fernando, o Infante Dom João.

Importando-se tanto com o tratado que acabava de jurar a Castela, como jurando este se importára com o que acabára de revalidar perante o Embaixador do Aragão, Dom Fernando, açulado pela sensual obsessão e pela manhosa resistencia d'esta terceira Leonor, desposou a mulher de João Lourenço da Cunha.

Dom Henrique, o _Bastardo_, teve a longanimidade, ou melhor, de certo, a esperteza de se conformar com este brusco repudio da filha.

Nunca a politica hespanhola se doeu muito pelos acontecimentos que podessem perturbar e arriscar a paz, a segurança ou o prestigio da Corôa Portugueza.

Comprehende-se.

Mas o Rei do Aragão, a quem não parece que Dom Fernando ensaiasse explicar, sequer, a dupla e flagrante deslealdade, é que entendeu que devia pagar-se d'ella com outra, apoderando-se do que restava do famoso--«thesouro»--enviado a Barcelona para a negociada campanha, que aliás não se mostrára muito empenhado em apressar.

Dos delegados portuguezes um houve que prudentemente se absteve de voltar: foi o Balthasar de Espinola, que pela--«affeição longa»--que tinha com a Infanta Dona Maria, fugiu com ella para Genova, onde a viuva irmã do Rei Portuguez--«viveu minguadamente, morrendo muito afastada do que á sua honra devia»,--segundo attesta a--«incivilidade»--de Fernão Lopes contra o improductivo e dedicado esforço dos geneologistas cortezãos em fazel-a morrer e jazer em Aveiro com fóros de Santidade.

Já agora, acrescentemos de passagem, a tradição que da boa fortuna obtida com portuguezes parece ter ficado n'esta fidalguia dos Espinolas, um seculo depois mais decentemente enxertada na nossa nobiliarchia, pela nacionalisação de Antonio de Espinola, genovez estabelecido na Madeira[11].

Aqui temos, pois, no expedito e desceremonioso sequestro do--«thesouro»--uma das principaes origens do interessante documento encontrado pelo sr. Carlos Urseau.

Não poderá, pois, dizer-se que fosse inteiramente inutil a nossa summaria retrospecção.

O--«thesouro»--estava já um pouco diminuido.

Grossas sommas tinham sido distribuidas aos que se obrigavam a fornecer combatentes; saíra d'elle a paga dos delegados portuguezes, e, por exemplo, só á sua parte, o Conde Dom João Affonso recebêra 11 florins por dia; logo á chegada a Barcelona havia-se distrahido a somma necessaria para pagar á matatolagem em atrazo, de 20 galés que andavam no cruzeiro da Andaluzia; finalmente comprára-se por 260 gentis um abastecimento importante para o Arsenal de Lisboa.

Em summa: o Rei Aragonez sómente podéra lançar a mão a 2:024 marcos de oiro, alem de 107 que lhe haviam sido directamente emprestados, e este sequestro não parece ter desde logo preoccupado muito a politica versatil e prodiga de Dom Fernando, que até naturalmente contava continuar a entender-se com o Aragão, provando-lhe que só forçada e ostensivamente fizera a paz e alliança com Castella.

De feito, no mesmo anno (abril 1372), em que facilmente obtinha em Tuy, do Rei Castelhano, a alteração do tratado de Alcoutim, na parte relativa ao casamento com a filha d'elle, tão escandalosamente preterida por Leonor Telles, Dom Fernando tratava de romper e violar esse tratado mandando um agente, o Chantre da Sé de Braga, Vasco Domingues, ao Duque de Lencastre, filho de Duarte III de Inglaterra, para que viesse reivindicar contra o _Bastardo_ o seu pretendido direito á Corôa de Castella como marido de uma das filhas de Dom Pedro, o _Cruel_.

Alliado com o Aragão, gostosamente receberia o Inglez o auxilio que lhe era offerecido do outro lado da Peninsula, e logo em julho firmavam em Braga os seus enviados, um emigrado castelhano João Fernandes Andeiro e Roger Hoor, uma liga com o Rei Portuguez contra Dom Henrique.

IV

Tendo rebate das negociações com os Inglezes e desilludido pela embaixada que mandou a Portugal, de que Dom Fernando lhe não guardaria a paz e a lealdade recentemente jurada, o _Bastardo_, com a sua habitual intrepidez, antecipou-se, invadindo de surpreza o paiz e vindo cercar Lisboa, no meio da leviana imprevidencia do Rei e do escandalo do seu casamento com Leonor Telles.

A resistencia popular, e, ainda, a intervenção Pontificia, abreviaram o termo d'esta brusca campanha, e em 19 de março de 1373, Dom Fernando assignava em Santarem novo tratado com Castella, que fazia n'elle, mais uma vez, comprehender a França, e pelo qual não sómente revalidava com estas duas Corôas a paz anterior, mas se obrigava a ser sempre alliado d'ellas contra a Inglaterra e a prestar as suas forças navaes contra o Duque de Lencastre.

Pouco confiado, porém, naturalmente, na firmeza dos juramentos da vontade de Dom Fernando, procuraria, então, a politica castelhana outra alliança mais pratica,--d'estas que se não pactuam em verbosos diplomas,--assegurando-se da cumplicidade e da influencia dominadora da extraordinaria mulher que encontrava junto do Rei Portuguez, presidindo a todo o governo do Estado com a sua numerosa camarilha de parentes e cortezãos.

Certos factos e circumstancias fazem-n'o rasoavelmente suppor, e em todo o caso, Dom Fernando pareceu, d'esta vez, positivamente deliberado não só a manter a paz com o _Bastardo_, mas a estreital-a por vinculos de sangue e de interesse dynastico, rompendo, definitivamente com o Aragão e procurando, até, pagar-se, exactamente com o auxilio de Castella! do malfadado--«thesouro»--contra ella enviado ao Rei Aragonez.

Assim, no anno seguinte, em 1374, Dom Fernando convencionava com o _Bastardo_ uma séria campanha contra o Aragão, offerecendo contribuir com dez galés perfeitamente armadas.

Mas o habil Trastamara que procurava fechar a Peninsula ás atrevidas pretensões do Lencastre e consolidar fortemente n'ella a sua disputada Realeza, avisava, pouco depois, Dom Fernando de que talvez tivesse de fazer a paz com o Rei Aragonez, insinuando vagamente que promoveria junto d'este a reparação de quaesquer aggravos que tivesse feito a Portugal, e pedindo que as forças navaes portuguezas fossem empregadas em auxilial-o contra o Inglez, segundo o anterior ajuste.

Por seu lado, escusando-se á obrigação d'este auxilio, Dom Fernando, percebendo a approximação de Castella e do Aragão, procurava fazel-a mallograr; enviava nova embaixada a Dom Henrique insistindo na guerra contra o _Ceremonioso_, e successivamente promovia os casamentos de duas filhas com dois filhos naturaes do _Bastardo_.

O segundo d'estes casamentos, que não havia de realisar-se, mas que chegou a ser definitivamente pactuado e jurado pelo Rei Castelhano, a 19 de janeiro de 1377, era o de Dom Fradique, filho natural d'este ultimo, com a filha de Dom Fernando e de Dona Leonor Telles, a Infanta Dona Beatriz, que mais tarde havia de ser entregue ao proprio primogenito e successor do Rei de Castella, com o direito da Successão Portugueza.

Rompendo a alliança aragoneza e associando-se a Castella, Dom Fernando quebrára uma tradição de boa e intelligente politica nacional, commettendo o erro, depois infelizmente repetido, de desembaraçar e facilitar as tendencias hegemonicas da Monarchia Central.

Perdido o equilibrio Peninsular, Portugal ficava sendo cumplice e satellite d'essa monarchia, e o facto não podia deixar de ter, tambem, uma singular importancia para a politica aragoneza, quando exactamente graves acontecimentos a ameaçavam do outro lado.

A questão do Reino da Maiorca, afogada em sangue, parecia resurgir de novo, sob temeroso aspecto.

O filho do infeliz Dom Jayme II conseguia fugir do seu longo captiveiro de Jetiva, e desposado pela celebre Joanna de Napoles, reivindicava o titulo de Rei de Maiorca, com o auxilio da França e de Castella, ensaiando atrevidamente uma invasão na Catalunha pelo valle do Segre.

Mallograda a tentativa, o desgraçado rapaz abrigára-se em Castella, morrendo pouco depois, em 1375, na cidade de Soria, mas outro competidor surgira, mais para receiar, de certo, ao Rei Aragonez.

Era o Duque Luiz I, de Anjou, chefe da segunda casa de Anjou, filho de João II o _Bom_, que lhe fizera o Ducado, e irmão immediato do Rei de França Carlos V; homem moço, intrepido e habil, cheio de uma grande ambição e de uma grande manha.

Luiz auxiliára o Trastamara a conquistar o throno de Castella, e recebêra de uma filha de Jayme II, a Infanta Isabel, Marqueza de Montferrat, os direitos da extincta Realeza e Senhorio de Maiorca, do Rossilhão, da Sardanha, como annos depois havia de ser instituido herdeiro de outra Corôa pela Rainha Joanna de Napoles.

Desde que o Aragão e a Catalunha se haviam constituido n'uma só Soberania sob o impulso vigoroso e habil dos Belengueres, e que um filho de Luiz VIII de França fizera a conquista do Reino das Duas Sicilias, as Casas de Anjou e do Aragão, ou as influencias franceza e aragoneza, tinham de encher o Mediterraneo occidental com o antagonismo fatidico das suas pretensões e das suas aventuras de expansão e de predominio.

Desembaraçada Castella do lado de Portugal, a alliança de Dom Henrique com a França, collocaria entre dois fogos o Rei Aragonez.

Naturalmente desilludido das promessas e estimulações inglezas, Dom Pedro o _Ceremonioso_ acabou por ceder ás disposições conciliadoras do Rei Castelhano, fazendo com elle definitivamente a paz em 1375.

Morria-lhe n'esse anno a terceira mulher, Dona Leonor da Sicilia, que vivamente contrariára os amores da filha, a Infanta Dona Leonor, com o primogenito do _Bastardo_, e por isso o penhor da paz entre as duas Corôas foi exactamente o consorcio da mallograda noiva do Rei de Portugal com o futuro Dom João I de Castella.

Estes acontecimentos naturalmente approximaram, pela identidade das situações e das vontades, Dom Fernando e o Duque de Anjou, associando-os no interessante documento que estamos explicando.

Sentindo-se isolado, e comprehendendo que não conseguiria obter da sua nova alliança com Castella que esta o ajudasse a desaggravar-se de Dom Pedro de Aragão, o Rei Portuguez deveria sentir um singular prazer vendo chegar á sua Côrte dois enviados do poderoso Duque a propor-lhe que fizessem causa commum contra o _Ceremonioso_.

No proprio documento encontrado pelo sr. Urseau se confirma positivamente a existencia d'esta primeira negociação iniciada pelos mensageiros do Anjou:--«_dominos Robertum de Nogeriis, archidiaconum Rothomagensem et Yvonem, procuratores domini Ducis_,»--ou, como diz Fernão Lopes:--«Roberto de Noyers, bacharel em Leis e Yvo de Gernal, do seu Conselho».

Em abril de 1377 chegaram elles a Tentugal, onde Dom Fernando estava.

A alliança portugueza não podia deixar de ser desejada pelo ambicioso pretendente francez, quando menos seguro poderia considerar-se de uma cooperação efficaz e franca no seu proprio paiz e na Peninsula. Excellentemente serviria tambem os interesses inglezes e os do Duque de Lencastre. Alem de que a attitude de Portugal poderia mover as ambições da Côrte Castelhana a uma acção commum contra o Aragão, e em todo o caso lhe impediria que soccorresse este, era evidentemente de um alto valor estrategico a concorrencia das forças navaes portuguezas operando sobre as costas catalãs; fazendo diversão aos afamados recursos maritimos de Dom Pedro, e obrigando este a dividir as suas forças terrestres, atacado, simultaneamente, ao norte e ao sul, no Rossilhão, na Ceritania, nas Baleares e na Catalunha.

Foi, pois, acceita a idéa da Liga com o Duque.