O senhor Dom Miguel I, e a senhora Dona Maria II Comparações, reflexões, desengano
Part 2
«O snr. José Ferreira da Silva, natural d'esta cidade, e filho de paes pobres, mas honrados[1], acaba de descer á sepultura, no cemiterio da ordem 3.ª de S. Francisco, com todas as honras funebres e com mais de 80 annos d'edade. Era laborioso e de boas contas[2], e tão amante de seus paes, que os teve em sua companhia até que falleceram. Agenciára elle pelas suas economias o melhor de 25,000 crusados[3] que empregou muito bem em promover a educação de sua familia, e em obras pias[4]. Era tão apaixonado das confrarias[5] que pertenceu a quasi todas as d'esta cidade, sendo provedor da de S. Chrispim[6] definidor da 3.ª de S. Francisco, mesario e protector de diversas outras. Serviu de juiz d'Artes[7], e foi capitão d'ordenanças por occasião da invasão francesa[8]. Era muito estimado e acolhido das principaes familias d'esta cidade[9]. A sua nimia boa fé o fez ser victima d'uma quebra em que se fundiu a maior parte da sua fortuna que tinha em mãos do quebrado[10]. O seu animo religioso não se abateu com a adversidade, e hauriu perennes consolações no bom desempenho dos seus deveres domesticos e no exercicio dos actos religiosos, ouvindo missa quotidianamente, visitando o SS.mo Sacramento, e assistindo ás numerosas funcções religiosas que se celebram n'esta cidade. Era portuguez de velha tempera, e tão decidido legitimista[11], que se offereceu para editor _gratuito do Portugal_[12], e o foi com a melhor vontade até que Deus o chamou a si[13]. Não o arredou nunca do seu honroso posto a bateria d'insultos com que o mimosearam os nossos adversarios[14] que estranhavam que um honrado popular fosse editor d'um periodico legitimista, como se a legitimidade excluisse classes. No entanto á borda da sepultura todos os collegas adversarios se portaram cavalheirosamente com o nosso editor. Houve apenas uma excepção no _Pobres_. Nós lhe perdoamos o seu cynismo em nome do fallecido. Pelo que nos toca depositamos aqui um penhor eterno de gratidão e respeito ao veneravel[15] ancião que nos escudou perante a lei, e esperamos que na presença do Eterno advogará a nossa causa que é a da justiça e do direito[16]. O nosso bom amigo falleceu d'uma queda e testou com acerto[17], deixando uma viuva inconsolavel e uma filha e um filho herdeiros de sua honra e virtudes[18]. _Deus o tenha á sua vista_[19].
E que tal! Assim é que se engoda o povo, para lhe hir pilhando os pataquinhos! É assim que o _Portugal-gazeta_ costuma dizer a verdade!
Que honrada gente! E não lhes coram as faces, quando apparecem em publico!
Comparai estas amabilidades para com um miseravel sapateiro, estuporado e tonto, com o grosseiro procedimento do snr. Francisco Candido para com a «_Neta e Sobrinha de Reis_» procedimento que escandalisou muitos realistas sensatos, que não comem nem querem comer a custa da illusão dos povos.
D'um lado uma consciencia tão larga, que fez do sapateiro um homem honrado, piedoso, realista, &c. &c. Do outro uma consciencia tão estreita e mesquinha, que se despede da Assemblea, porque a quasi totalidade dos socios resolvêra obsequiar S. M. a Rainha!!!
Parece-nos que não haverá ninguem que não suspeite qual é o fim d'estes _fogachos facciosos_...
Do direito fazem torto Estes astutos velhacos; Chamam gente a um asno morto... Tal é o poder dos patacos!!!
Uma das duas: ou o snr. Francisco Candido é o unico homem escrupuloso e de convicções profundas, dos que escrevem no _Portugal_--ou pretende enganar o povo.
Se agarra na primeira ponta do dylemma--deve largar já a redacção do infame _Portugal-gazeta_, fazendo assim a vontade ao padre Luiz, ao F. da Velha, e ao garoto do pião.... Se agarra na segunda--tambem não podêmos deixar de lhe dizer, que procure um modo de vida mais decente.
Fóra d'ahi, snr. Francisco Candido! Um homem de probidade austéra não póde, nem deve escrever na infame gazeta inaugurada sob a responsabilidade do homem mais despresivel que existia no Porto. Fóra d'ahi! Deixe o logar a esses scelerados que lh'o cobiçam. Fóra d'ahi, que a questão, para elles, é só questão de dinheiro. Fóra d'ahi, se não quer que o publico o tenha na mesma conta em que os tem a elles.
Ignora, snr. Francisco Candido, que ahi se levam moedas pelas correspondencias que, em sua defesa e em defesa do seu partido, mandam lançar os proprios homens, a quem o _Portugal-gazeta_ chama seus correligionarios e amigos!! O snr. Cachapuz que o informe... elle, que aggredido pelo _Ecco Popular_, como auctoridade realista, teve de dar bons pintos pela defesa que fez inserir na gazeta dos _farcistas_.--«_Um pataco por linha e nada menos._»
Não acontecia assim com a PATRIA, que nunca levou nem um real por semelhantes correspondencias--porque o redactor da PATRIA[20] não sabia ser gazeteiro, e o snr. Francisco Candido bem conhece aquelles que o roubaram, abusando do seu demasiado cavalheirismo e boa fé.
Veja se gosta d'esta comparação, snr. Francisco Candido, e saiba (se o ignora) o que é uma gazeta na mão d'um _negociante_.
Agora, ouça mais duas palavras, e ouça-as tambem o povo, para ficar completamente desenganado ácerca do _Portugal-gazeta_.
Ha cousa d'um anno, appareceram no _Ecco Popular_ uns artigos infames (cuja publicação foi provocada por uma polemica do infame _Portugal-gazeta_) nos quaes se davam ao Tio da Rainha os nomes mais injuriosos, e entre estes, o de _assassino_!!--O editor do _Ecco_ póde dar testemunho dos esforços, que eu fiz, invocando a sua generosidade, para que retirasse da discussão o augusto nome do infeliz exilado; mas, apesar d'estes esforços, lá appareceram no infame _Portugal-gazeta_ umas allusões torpes, involvendo a perfida insinuação de que era eu o auctor de semelhantes artigos!--Um dia, ao cahir da noite, encontrei, na rua dos Lavadouros, o snr. Francisco Candido de Mendoça e Mello, e perguntei-lhe se já estava desenganado de que não eram meus os artigos. Respondeu-me «que entre mim e elle (snr. Mendoça) não havia motivo algum d'inimisade; que até algumas vezes havia dito que eu tinha razão de me queixar do que acontecera com a PATRIA; e que elle (snr. Mendoça), avisado do que se passára commigo, era redactor _independente_ do «_Portugal_» e não recebia ordens de ninguem, nem mesmo quanto á politica do jornal; que já se sabia que não eram meus os artigos em que o Snr. D. Miguel era tão atrozmente calumniado; que as allusões, de que eu me queixava, tinham nascido d'uma errada persuasão, e não de odio ou vindicta.»--Fiquei _quasi_ satisfeito com a declaração do snr. Mendoça; e para o ficar _completamente_, disse-lhe que era justo rectificar a perfida insinuação que se fizera. Assim o julgou o snr. Mendoça, e assim m'o prometteu; mas, até hoje, estou á espera do cumprimento da sua promessa!--Quereria o snr. Mendoça cumpril-a, e serviriam d'obstaculo os _negociantes de politica_, que já não é a primeira vez que negoceiam com o meu credito, com o meu suor e com o meu sangue?... Fóra d'ahi, snr. Mendoça! Um homem de probidade austera, não póde conservar essa posição.--Olhe que não escrevo isto para augmentar os seus embaraços. Sei que ha promessas solemnes de lhe apalpar as costas, e se os meus pedidos valessem, eu pediria que ninguem fizesse caso da sua despedida da Assemblea, das suas cartas, e do mais que se tem passado.
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Duas palavras ao snr. _Antonio Pinto Cardoso da Gama_, e peço tambem para ellas a mais séria attenção do publico.
O snr. _Gama_ é delegado do procurador regio na 2.ª vara, e debaixo da sua alçada está a typographia do _Portugal-gazeta_. A mim não me importa que o snr. _Gama_ deva obrigações a ninguem; o que desejo é vêl-o applicar a lei igualmente a _amigos_ e adversarios.
Snr. _Gama_: No dia 29 d'Outubro de 1851 falleceu o sapateiro José Ferreira da Silva, que foi editor do _Portugal-gazeta_. Este infame papel continuou a publicar-se _illegalmente_, até ao dia 10 de Novembro, _debaixo da responsabilidade do fallecido_, e o snr. Gama não procedeu, senão depois que eu requeri procedimento! Por fim, o «_Portugal_» foi absolvido; mas o seu proprio defensor teve a franqueza de me confessar que a sentença estava mal fundamentada--porque a lei é muito clara e a infracção era muito visivel! Eu sei tudo o que se passou com esse _decantado_ processo, e calo-me por ora, mas hei-de fallar, e _fallar muito claro_, quando fôr tempo para isso.... Agora, snr. Gama, vou mostrar-lhe quanto é nociva a impunidade, e quanto é prejudicial que se não observem as leis.
O snr. Gama já sabe (porque o escripto se vende publicamente, e devia ser-lhe remettido, na conformidade da lei), que na imprensa dos _negociantes_ do _Portugal-gazeta_ se imprimiu um folheto intitulado==_Descripção da viagem de SS. MM. desde que sahiram de Lisboa até á sua entrada n'esta cidade._==Este folheto não traz o nome da officina, como a lei manda, e a lei pune severamente esta infracção, e a lei, snr. Gama, diz que qualquer pessoa do povo poderá accusar os delegados, quando estes não cumprirem com o seu dever.--Fico á espera, snr. Gama, e pouco me importa que o infame _Portugal-gazeta_ me chame _denunciante_. Deus me livre de que elle me chame homem honrado. As cousas tomam-se como da mão de quem veem. Uma injuria na bôcca do immundo papel dos _farcistas_ é o maior elogio que se me póde fazer.--Ao seu dispôr, snr. Gama.
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Já me vai faltando a paciencia, e creio que--para quem não for muito estupido, muito hypocrita, muito desavergonhado ou muito simplorio--já bastam os factos que deixo apontados para todos se desenganarem de que o _Portugal-gazeta_ é uma tôrpe especulação mercantil; que o editor, redactores e collaboradores só tractam d'illudir o povo, para lhe irem comendo os patacos; e, em fim, que publicam o papel mais infame que tem prostituido a imprensa;
Porque o _Portugal-gazeta_
«................... pirata inico Dos trabalhos alheios feito rico»
--insulta a Rainha, e ao mesmo tempo imprime uma incomiastica descripção da viagem ao Porto, com a mira nos _pataqinnhos_.
Porque se finge victima d'uma perseguição acintosa, e encontra um delegado mais macio do que velludo.
Porque calumnía por gôsto, para especular com a honra, com o credito e com o suor alheio.
Porque se diz realista, e foi chuchando as moedas do snr. Cachapuz, para o defender como auctoridade realista.
Porque anda todos os dias a atirar á praça publica o nome do Tio da Rainha, só pelo gôsto de o vêr desacatado pelas turbas, para depois ganhar patacos com as suas defesas e comparações.
Porque, finalmente, os que no _Portugal-gazeta_ se declaram hoje defensores do Snr. D. Miguel--são os mesmos que hontem o cobriam d'injurias, e lhe chamavam tyranno e usurpador.
Este desengano é para aquelles que ainda acreditavam na boa fé do _Portugal-gazeta_. Resta-me dar tambem um desengano aos _gazeteiros farcistas_.
Escusaes de andar com investigações, prohibindo os vossos empregados de fallarem commigo--porque eu sei tudo o que se passa entre vós, e fui avisado, em tempo competente, d'aquella proposta, que se fez em certa reunião......................, de se darem algumas moedas a quem..................... e folguei muito de que alguns cavalheiros se portassem como verdadeiros fidalgos portuguezes, embora illudidos, repellindo uma proposta tão miseravel.
Podeis continuar a perseguir-me, que com isso só conseguis augmentar a aversão que vos tenho.
Este é o desforço que eu tiro das vossas provocações.--Tornai a provocar-me, que eu cá fico a colligir a _papellada velha_....
Senhores do _Portugal-gazeta_, procurai bem entre os do vosso bando, a vêr se encontraes os fabricadores de _moeda falsa_, de que ha pouco vos queixastes... Já estaes calados?!.. Dar-vos-hiam para isso alguma _moeda verdadeira_?...
Senhores do _Portugal-gazeta_--silencio!...
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Leitores, desculpai a duresa da phrase e a desigualdade do estylo. Este folheto foi escripto ao correr da penna, e resente-se das alternativas da minha vida.--Eu penso com Chateaubriand (sem possuir o seu talento) que é uma loucura atirar com o meu nome ao meio da multidão;--comtudo para que se não julgue que declino a responsabilidade, aqui pônho a minha assignatura.
Porto 18 de Maio de 1852.
_João Augusto Novaes Vieira._
[1] Não podêmos deixar de fazer algumas annotações a este ridiculo _apontoado_ d'imposturas.--Acreditariamos piamente que os paes do sapateiro fossem muito probos, apesar de pobrissimos; mas, desde que os _farcistas_ lhes chamam _honrados_, ficamos com nossas duvidas... Deus nos livre de ser _honrado_ na bocca de semelhante _gentinha_...
[2] Bastava que fôsse de tão boas contas como os que _tomaram á sua conta_ a empreza da PATRIA... Arreda!
[3] E que tal? Um sapateiro que, em poucos annos, arranja 25 mil cruzados pelas _suas economias_, devia ser muito honrado...
[4] Ninguem sabe que elle praticasse taes obras, senão os _farcistas_ do «_Portugal-gazeta_.»
[5] E como não seria apaixonado, se d'ellas é que _economisou_ o dinheiro que tinha?...
[6] Por ser a confraria dos sapateiros.
[7] E era muito bom juiz, especialmente da arte do padre Antonio Vieira.
[8] Capitão dos bandoleiros do _chuço_, que assassinavam e roubavam a torto e a direito, dando ás suas victimas o nome de _jacobinos_.
[9] Pêta refinada.
[10] Por _Diós_ veio, por _Diós_ foi.
[11] Pois não! Todos os que forem ladrões, tractantes, calumniadores e desavergonhados--são decididos _legitimistas_, na bôcca do _Portugal-gazeta_.
[12] Refinadissima pêta.
[13] Foi uma occasião chamado á policia, _por impostura do delegado_, e perguntado se era o editor do «_Portugal_» respondeu primeiro que não sabia, e depois negativamente. Não obstante, continuou a figurar como editor, contra a expressa determinação da lei.--Quem quizer, que commente.
[14] Se elle estava tonto de todo, que lhe havia de importar?
[15] Miseravel e bem miseravel. O _Portugal-gazeta_ troca os nomes a tudo.
[16] Fóra, _farcistas_!
[17] Ou alguem testou por elle.... quem sabe?...
[18] Podéra não!
[19] E lhe perdoe. _Amen._
[20] Falla-se do verdadeiro fundador e redactor do jornal, e não do _doutor_ Cazimiro de Castro Neves, _que ainda tem saudades do tempo em que jogava o seu pião_, como elle proprio disse em letra redonda, não obstante as nossas advertencias. Disse tambem que era «_uma pessoa physica_.» Veja-se, no diccionario de Moraes, a definição de pessoa, e conhecer-se-ha que o tal _menino dos olhos azues_ é um _doutorasso_.... no jogo do pião, que é jogo de garotos.