O Senhor Dom Miguel I E A Senhora Dona Maria Ii Comparacoes Ref

Chapter 1

Chapter 13,756 wordsPublic domain

O SENHOR DOM MIGUEL I,

E

A SENHORA DOM MARIA II.

COMPARAÇÕES.--REFLEXÕES.--DESENGANO.

PORTO: _TYPOGRAPHIA DE SEBASTIÃO JOSÉ PEREIRA,_ Praça de Sancta Thereza, n.º 28. 1852.

Não soffre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando.

CAMÕES.--OS LUSIADAS.

PRIMEIRA PARTE.

COMPARAÇÕES.

N'um folheto de 16 paginas, impresso na typographia da rua das Hortas, n.º 82 a 84, lêem-se umas comparações entre S. M. a Rainha e seu Augusto Tio.

O folheto tem por titulo «_O Snr. Dom Miguel de Bragança e a Snr.ª Dona Maria da Gloria--collecção dos artigos das comparações publicadas no_ «Portugal.»

A introducção foi escripta pelo _doutor_ Casimiro de Castro Neves, natural de Louzada, e hoje residente em Lisboa.

As _comparações_ diz-se que as escrevera o snr. Francisco Candido de Mendoça e Mello, bacharel da fornada de 1849, _natural de Bragança_ e residente no Porto.

Francisco Pereira d'Azevedo é o editor e recebe os patacos do folheto.

As comparações ei-las ahi:

«O Snr. D. Miguel não póde admittir em sua companhia a Snr.ª D. Maria, porque nada póde haver de commum entre ambos.

«O Snr. D. Miguel perseguiu os ladrões e assassinos; a Snr.ª D. Maria, diz o _Ecco_, que se bandeou com elles.

«O Snr. D. Miguel não perseguiu os seus amigos; a Snr.ª D. Maria tem perseguido a todos, e com muita especialidade o marechal Saldanha.

«O Snr. D. Miguel sahiu pobre do paiz, porque não roubava nem deixava roubar; a Snr.ª D. Maria, diz o _Ecco_, que ha-de estar bem rica, e nós tambem o dizemos.

«O Snr. D. Miguel sahiu rico das saudades e bençãos d'um povo que o adorava; a Snr.ª D. Maria, se sahir, não leva poucas maldições e insultos, como póde testemunhar quem tiver ouvidos para ouvir o que por ahi se diz, e olhos para lêr os papeis que no paiz se publicam. Saudades é que realmente, não é só a nós, que não deixa nenhumas!

«O Snr. D. Miguel demittiu magistrados por não serem limpos de mãos; a Snr.ª D. Maria cobriu esses, e outros d'honras e dignidades.

«O Snr. D. Miguel protegia e promovia tudo quanto era portuguez; a Snr.ª D. Maria fazia o mesmo a tudo quanto era estrangeiro.

«O Snr. D. Miguel conquistou Portugal com a sua pessoa _só_; a Snr.ª D. Maria com os estrangeiros de todos os paizes.

«O Snr. D. Miguel viveu com a maior economia, e foi fiel aos seus contractos; a Snr.ª D. Maria o contrario de tudo isto.

«O Snr. D. Miguel entregou intactas as joias da corôa; a Snr.ª D. Maria _consentiu_ que não só se roubassem as de seu augusto Tio, se não ainda que se lhe apoderassem dos bahus da sua roupa branca, que a Snr.ª Vadre lhe conduzia, e que lhe usurpassem os seus bens proprios.

«O Snr. D. Miguel enviou o brigue de guerra _Téjo_, commandado pelo 1.º tenente Caminha, ao Rio de Janeiro, levar aos seus parentes brasileiros a herança de seus augustos parentes fallecidos; a Snr.ª D. Maria consentiu que seu augusto Tio fosse defraudado não só da herança de seus augustos paes, senão ainda de todo esbulhado da herança universal de sua augusta irman fallecida em Santarem.

«O Snr. D. Miguel sustentou sempre os criados da casa real, ainda os de opinião contraria; a snr.ª D. Maria pô-los todos na rua, substituindo muitos por estrangeiros, e deixou morrer á fome as criadas da Snr.ª D. Maria 1.ª escapando sómente as netas do famoso João Pinto Ribeiro, que tanto concorreu para elevar a casa de Bragança ao throno; porque os legitimistas tomaram a si o seu parco sustento.

«O Snr. D. Miguel tratou sempre bem as familias dos presos politicos, como póde testemunhar entre outras a filha de Pedro de Mello Breyner; a Snr.ª D. Maria tratou muitas como a esposa do conde de Villa Real, D. Fernando, que regressou do paço moribunda.

«O Snr. D. Miguel não consentiu nunca que nos actos officiaes se insultassem os seus parentes brasileiros; a Snr.ª D. Maria tem _consentido_ que nesses mesmos se insulte constantemente seu augusto Tio.

«O Snr. D. Miguel augmentou o patrimonio real; a Snr.ª D. Maria tem-no dissipado, alienado e destruido.

«O Snr. D. Miguel nunca mandou festejar os dias em que portuguezes derramaram o sangue de portuguezes; a Snr. D. Maria não só consentiu que se festejassem esses dias, senão ainda aquelles em que estrangeiros mataram portuguezes e tomaram navios portuguezes.

«O Snr. D. Miguel escolheu para ministros d'estado homem de inconcussa probidade e limpeza de mãos; a Snr.ª D. Maria escolheu os caracteres mais corrompidos e corruptores que havia no reino, e expoz-se a sete revoluções para sustentar, a despeito da opinião publica nacional e estrangeira, o homem mais detestavel que tem produzido a nossa terra--o homem que roubou descaradamente--o maior dos concussionarios--o valido mais torpe--o homem de _Queen's bench_--_o conde de Thomar_!

«O Snr. D. Miguel fez respeitar sempre o palacio de nossos reis; a Snr.ª D. Maria fê-lo descer até onde não podia descer mais.

«O Snr. D. Miguel foi compadre de muitos bravos soldados de seu exercito; a Snr.ª D. Maria foi comadre do villão mais cobarde que havemos conhecido.

«O Snr. D. Miguel escolheu para diplomaticos os homens mais conspicuos e probos do paiz; a Snr.ª D. Maria escolheu _muitos_ contrabandistas e ladrões descarados.

«O Snr. D. Miguel não podia pôr pé fóra do paço que não o acompanhassem ondas de portuguezes; a Snr.ª D. Maria tem atravessado Lisboa e as provincias no meio d'um silencio sepulchral.

«O Snr. D. Miguel respeitou sempre os bispos, ainda os que eram indigitados de contrarios á sua opinião; a Snr.ª D. Maria consentiu que os perseguissem todos, e ainda ha alguns no exilio.

«O Snr. D. Miguel queria reformar as ordens religiosas, e de accôrdo com a Sé romana nomeou reformadores; quem governava em nome da Snr.ª D. Maria destruiu-as, e expulsou os seus membros, depois de esbulhados de quanto possuiam.

«O Snr. D. Miguel era escravo da opinião publica; a Snr.ª D. Maria sempre a tem despresado, tornando-se necessaria uma revolução para se mudarem os ministros corruptos e corruptores.

«O Snr. D. Miguel foi chamado ao throno pelas antigas leis da monarchia, applicadas por tribunaes que não creou; a Snr.ª D. Maria foi chamada ao throno por uma carta de lei, feita expressamente para este fim pelo imperador do Brazil, seu pae, e applicada por bayonetas estrangeiras.

«O Snr. D. Miguel estava em Vienna á morte de seu augusto pae, e foi proclamado e sustentado pela maioria da nação com as armas na mão, sendo necessario vir o exercito de Clinton para que lh'as podessem arrancar; a Snr.ª D. Maria só teve por si, na maxima parte, os estrangeiros que cobiçavam as preciosidades das egrejas e dos conventos.

«O Snr. D. Miguel vestiu e calçou os seus soldados com objectos portuguezes; a Snr.ª D. Maria mandou vir para os seus fardamento e calçado da Inglaterra, pesando-lhe por não poder mandar vir de lá tambem a agua para se lavar.

«O Snr. D. Miguel apesar da amizade que o ligava a seu Tio Fernando 7.º, recusou entregar-lhe os refugiados politicos hespanhoes, e pagou-lhes a passagem para sahirem livremente do paiz; a Snr.ª D. Maria consentiu que assassinassem no paiz alguns emigrados carlistas, conservou outros em duros ferros, e entregou alguns para serem garrotados.

«O Snr. D. Miguel empregou muitos constitucionaes, sómente porque tinham merecimento; a Snr.ª D. Maria não só demittiu todos os legitimistas, senão ainda que tem demittido aquelles que por ella se teem sacrificado.

«O Snr. D. Miguel vestia e calçava objectos portuguezes; a Snr.ª D. Maria até manda engommar a roupa a Inglaterra.

«O Snr. D. Miguel, do que produziam as quintas reaes, distribuia gratuitamente aos seus criados, e ao povo; a Snr.ª D. Maria não só destruiu a matta dos buxos de Queluz para ser vendida aos torneiros, senão ainda mandava vender á praça até salsa e hortelan.

«O Snr. D. Miguel folgava de fazer cultivar as terras da corôa, e de ser o primeiro lavrador de Portugal; a Snr.ª D. Maria alienou tudo na maxima parte, e o que não alienou, arrendou ou deu ao seu valido.

«O Snr. D. Miguel tratava com esmero a formosa raça d'Alter; a Snr.ª D. Maria mandou vender tudo, até mesmo os cavallos e muares da casa real, conservando apenas alguns poucos rabões inglezes e hanoverianos.

«O Snr. D. Miguel respeitou o banco, apesar de lá estarem os fundos dos seus contrarios, e de ser administrado pelos seus adversarios politicos; a Snr.ª D. Maria fez-lhe crua guerra.

«O Snr. D. Miguel reconheceu os emprestimos feitos para debellar os principios que o elevaram ao throno; a Snr.ª D. Maria não quiz reconhecer nunca o emprestimo do Snr. D. Miguel contrahido para matar a fome aos empregados publicos.

«O Snr. D. Miguel tinha captado de tal sorte o amor dos soldados, que apesar de rotos, descalços, famintos, e quebrantados de uma lucta tão prolongada, quebravam as armas que os estrangeiros vinham arrancar-lhes das mãos; a Snr.ª D. Maria tem contrariado de tal modo os sentimentos do paiz, e alienado as affeições dos seus mesmos, que em todas as contendas vê rarear as suas fileiras de soldados que vão engrossar as dos contrarios.

«O Snr. D. Miguel tinha e queria sómente os empregados necessarios; a Snr.ª D. Maria consentiu que se arvorasse ametade do reino em empregados para devorar outra ametade.

«O Snr. D. Miguel fez-se idolatrar a tal ponto do povo, e do exercito, que até os seus mesmos adversarios o reconheciam a ponto de lhe cantarem:

_Quanto mais a fome aperta Mais se canta o rei chegou:_

e não tem bastado a longa ausencia de dezesete annos para destruir as affeições e esperanças dos portuguezes; a Snr.ª D. Maria tem-se feito detestar dos seus mesmos, e o que é maior desgraça ainda o seu nome está sendo coberto de improperios.

«O que se tem dito do Snr. D. Miguel, diz-se de todos os monarchas decahidos; porém o que se diz da Snr.ª D. Maria, diz-se de pouquissimas rainhas no throno.

«O Snr. D. Miguel, quando viu que a lucta só concorria para derramar sangue portuguez inutilmente, e acarretar desgraças inevitaveis ao paiz, porque parte da Europa dormia á beira da abysmo, e a outra parte estava colligada contra elle, convencionou em Evora-Monte, estipulando que se respeitasse a vida e propriedade dos seus, e que se lhe désse a elle, que de tudo era privado, uma parca subsistencia; quem governava pela Snr.ª D. Maria, desconheceu logo a convenção que tambem fôra assignada pela _leal_ Inglaterra--condemnou ao ostracismo e á fome o Principe generoso e uma grande parte da nação portugueza--fez derramar ondas de sangue portuguez, e com a nefanda lei das indemnisações esbulhou da propriedade quem a tinha--a Snr.ª D. Maria acceitou a herança de todos estes maleficios, e _consentiu_ que continuassem--applicou-os depois aos seus mesmos, e pretende conservar-se no throno a risco de perder a dynastia.

«O Snr. D. Miguel rejeitou as propostas de Christina Munhoz de fazer entrar o exercito de Rodil em seu auxilio, e de o casar com uma sua irman se mandasse sahir D. Carlos de Portugal; a Snr.ª D. Maria não só tem acceitado todas as propostas para se firmar no throno, se não ainda as tem deprecado, subindo até lá nos braços de Rodil e Parker, e sendo sustentada por Concha e Maitland, executores, do famoso _protocollo_, e se os estrangeiros se não oppozerem agora á sua sahida, e ella se verificar, como dizem, são os portuguezes quem a poem fóra a contento do clero, nobreza e povo!

«O Snr. D. Miguel não gastava ao thesouro annualmente acima de 20 contos de reis; a Snr.ª D. Maria gasta ao _misero_ e _defecado_ Portugal 365 contos de reis por anno, e ainda 100 contos para seu marido, afóra as dezenas e dezenas de contos para seus filhos.

«O Snr. D. Miguel conservou a Tapada real de Villa Viçosa, na mesma grandeza com que seus augustos predecessores a tiveram; a Snr.ª D. Maria manda vender as lenhas e as estevas, que todos os dias d'ahi sahem em abundancia para Borba e Villa Viçosa, e n'esta ultima terra tem um açougue publico de carne de veado e gamo, que os seus criados todos os dias matam na tapada; negoceia-se com a bolota, com as pelles dos veados, e até com os chifres!»

E então, não fallam bem destravadamente estes ridiculos fanfarrões?.. Elles, os selvagens, que ainda ha poucos annos _tinham mêdo d'apparecer no Porto_, não estão agora, com as suas roncas, armando aos patacos dos papalvos?... E cuidaes que é um acto de valor pessoal--que é, ao menos, uma temeridade que praticam?... Nada d'isso.--Não será verdade que elles mesmos andam por ahi a dar a explicação do seu arrojo, assoalhando, com espantoso cynismo, os presentes que fazem ao snr. _delgado_--vangloriando-se dos bellos córtes de panno da Belgica, que lhe remettem, e dos bellos pintos, que elle lhes chucha?...

Diga-o... quem o souber--e no entanto passemos á

SEGUNDA PARTE.

REFLEXÕES.

_Quem diz o que quer, ouve o que não quer._ Assim reza um adagio, que, pela sua antiguidade, merece, por certo, a approvação dos _escribleros_ do «_Portugal_.»

«O Snr. D. Miguel--dizem elles--não póde admittir na sua companhia a Snr.ª D. Maria.»

E é verdade. Não póde--porque assim o quizeram meia duzia de sanguinarios--meia duzia d'aristocratas estupidos--meia duzia de fradalhões devassos--meia duzia d'ambiciosos e algumas duzias de scelerados, que, entre o Tio e a Sobrinha, cavaram um abysmo insondavel, precipitando n'esse abysmo o infeliz Portugal,--não o ridiculo e o infame «_Portugal_» de que foi editor um sapateiro demente e estuporado--de que é editor e especulador um negociante de _algo_-DÃO--mas este Portugal de sete seculos, esta nação que se envergonha de ter no seu seio um bando de selvagens e desavergonhados, um bando de parasytas, um bando de zangões e empalmadores.

«O Snr. D. Miguel perseguiu os ladrões e assassinos.»

Mentis, senhores da _tripeça-gazetal_, e mentis como perros.--O Snr. D. Miguel teve desejos de fazer punir os ladroes--mas os ladroes cercavam-no por toda a parte, e como andavam _mascarados_, era difficil conhecêl-os

«O Snr. D. Miguel não perseguiu os seus amigos--a Snr.ª D. Maria tem perseguido a todos.»

Mentis, e mentis com o damnado fim de amargurar a existencia do infeliz Principe, que chora no exilio os negros crimes de que vós e os vossos o fizeram victima.--O Snr. D. Miguel não queria perseguir os seus amigos mas perseguiu-os o estupido bando de scelerados, a que vós pertenceis.--Lembrai-vos de que escreveis no Porto, senhores do «_Portugal_» e que no Porto, no tempo em que vós dominaveis, foram cacetados, indistinctamente, liberaes e realistas--ainda mais, no Porto foram cacetadas as proprias auctoridades constituidas em nome do Snr. D. Miguel.--É aqui bem publico e notorio que o corregedor do crime foi cacetado, no largo do Carmo, pelos soldados do 12, e como lhes gritasse «Senhores, eu sou o corregedor!»--«É por isso mesmo!»--lhes tornavam elles--redobrando com nova furia as cacetadas.--É aqui bem sabido que n'esse tempo bastavam tres testemunhas das de quartilho de vinho--para se levar um homem á forca;--bastava alcunhar qualquer realista de _malhado_, para o vêr martyrisar por essas ruas;--bastava calumniar alguém, chamando-lhe _pedreiro-livre_, para o vêr gemer n'uma cadêa.--Podiamos aqui escrever um longo capitulo d'historia--que vós fingis ignorar--mas poupamo-nos a esse trabalho, porque fallamos no meio d'uma cidade onde todos sabem quantos realistas gemeram nas cadêas por vinganças particulares--quantos caloteiros se fingiam realistas para perseguir os seus crédores--quantos ladrões se infeitavam com o tope azul e vermelho, para atterrarem aquelles a quem tinham roubado.--Era n'esse tempo que o vosso chefe d'então e vosso chefe d'agora--o scelerado fradalhão Luiz................. levava a tiro de pistola as mulheres que se não dobravam aos seus desenfreados appetites;--era n'esse tempo que elle, o malvado _pedréca_, arranjava empregos para os paes, a troco da deshonra das filhas;--era, finalmente n'esse tempo, que muitos bandoleiros se acobertavam com o nome d'amigos do Snr. D. Miguel, para o tornarem odioso, e para augmentarem, como augmentaram, o partido liberal.--E ainda hoje continuaes a acobertar os vossos crimes com o nome do infeliz Principe, trazendo-o para a discussão a todo o proposito; e ainda hoje continuaes a perseguição aos seus melhores e mais leaes amigos.--Aqui estamos nós--nós que fomos emballados na affeição mais pura á pessoa do Snr. D. Miguel--nós, que, pensando servil-o, temos constantemente sacrificado o nosso futuro e arriscado a nossa vida,--e que hoje, desenganados, só pedimos a Deus que o Augusto Exilado não caia de novo nas vossas mãos--porque seria um instrumento de perseguição e de morte para metade dos filhos d'esta terra;--nós, em fim, que podemos dar testemunho da vossa ferocidade. E porque nos perseguistes vós?... Porque não pudémos deixar-nos roubar, sem que gritassemos _aqui-d'el-rei_ sobre os ladrões, denunciando-os ao publico, de viva-voz e pela imprensa.

Calai-vos, _honrada-gente_!... calai-vos, que é esse o maior serviço que podeis fazer ao Snr. D. Miguel de Bragança.

Não nos daremos agora ao infadônho trabalho de reflectir sobre cada uma das vossas _comparações_--talvez o façamos, se continuardes a provocar-nos; no entanto, sempre vos repetiremos que é damnada a intenção com que comparaes S. M. a Rainha com seu Augusto Tio, attribuindo a este alguns actos, com que pretendeis acobertar os vossos crimes, e áquella alguns erros, de que não póde nem deve ser responsavel--porque reina e _não governa_, como acontece a todos os Monarchas constitucionaes.--O que vós quereis--não nos cançamos de o dizer--é fazer pesar sobre o Snr. D. Miguel a responsabilidade de todos os assassinios, de todos os roubos, de todas as tropellias, de todas as perseguições, que praticastes em seu nome.

As vossas comparações--se não fôsse bem conhecida a damnada intenção com que são feitas--só serviriam para tornar odioso o nome do Augusto Tio da Soberana.

Se a Senhora Dona Maria II deve ser responsavel--como Rainha constitucional--pelos actos do seu governo, como vós quereis; é assaz logico, é concludentissimo, que o Snr. D. Miguel--como Rei absoluto--é o unico responsavel por todos os erros, por todos os crimes, que em seu nome praticou esse bando de scelerados a que pertence o «_Portugal_.»

Não illudaes o povo, _honrados homens_!... não especuleis com a ignorancia das turbas...

O Snr. D. Miguel I foi Rei absoluto, e comtudo não deve ser responsavel por muitos crimes, que se praticaram em seu nome, e que elle ainda hoje ignora.

A Snr.ª D. Maria II é Rainha constitucional, e n'esta qualidade irresponsavel pelos actos do seu governo.

Portanto, as _comparações_ do «_Portugal_» são filhas da mais refinada hypocrisia e estupidez, e tendentes só a desacreditar o Augusto Exilado.

Estaes ahi a fingir-vos victimas da perseguição dos agentes do governo, e se houvesse _um delegado_, que soubesse cumprir com o seu dever, como vos attreverieis vós a asseverar pela imprensa, que a Soberana manda vender salsa e hortelã!!! e que negoceia com bolota, com pelles e até com chifres???!!!!...

Senhores do «_Portugal_» não falleis em _chifres_, que se ri o povo.... não falleis em _salsa_ e _hortelã_, que deitaes por terra, por vossas proprias mãos, essas _salsadas_ que escreveis no vosso despresivel papel.

Silencio!... e deixai-nos respirar um pouco, antes de passarmos á

TERCEIRA PARTE.

DESENGANO.

Quem ouvir desprevenido as _roncas_ do «_Portugal_»--quem lêr as suas _lamentações_--ha-de julgar que alli ha convicções profundas--um valor a toda a prova--uma resignação para o martyrio.

Pois se ha quem tal pense, está completamente enganado.

O «_Portugal_» é uma especulação mercantil de Francisco Pereira d'Azevedo--mais vulgarmente conhecido pelas alcunhas de Ignez das Hortas e de Francisco da Velha.

O snr. Francisco é ao mesmo tempo editor, proprietario da imprensa e da gazeta, e negociante de _algo_-DÃO.

A gazeta intitula-se realista, e não é mais do que _farcista_. É a mesma gazeta de que foi editor o sapateiro José Ferreira da Silva.

Sabemos que nas provincias ha muita gente que não quer acreditar, que um miseravel sapateiro, estuporado e tonto, fosse o editor da gazeta dos _fidalgos velhos_, do periodico da aristocracia de _sangue azul_! Pois, para que se desenganem, aqui lhes vamos dar alguns apontamentos para uma byographia do sapateiro, primeiro editor do «_Portugal_.»

José Ferreira da Silva, filho de paes pobrissimos, e natural d'esta cidade, foi, ainda creança, para casa d'um sapateiro, onde começou por engraixar botins, remendar sapatos de gallegos e chinellos velhos, até que, por meio das suas _habilidades_ e com a ajuda d'alguns patacos, que os freguezes do mestre lhe davam de _molhadura_, quando lhes hia levar as botas, pôde estabelecer-se e casar. Tendo já loja sua, fez-se _carola_ por especulação, e tal era a _habilidade_ e a _ligeiresa de mãos_ de que a natureza o dotára, que, dentro de poucos annos, achava-se possuidor d'alguns contos de reis, arranjados ou empalmados nas confrarias e irmandades, em que se mettia, como piolho por costura. Por occasião da invasão franceza, uniu-se aos anarchistas, cujas _proezas_ são bem sabidas n'esta cidade, e dentro em breve tempo montavam os seus haveres a trinta mil cruzados, chegando a ser capitão dos bandoleiros do _chuço_. Desde então, começou a trabalhar menos pelo officio, mettendo-se a onzeneiro, e dando dinheiro a juros, com enormissimas usuras; porém, o que n'este mister ganhára, levou-lh'o o diabo para as mãos de um negociante, que, pouco depois, se declarou em estado de fallencia. Estonteado com este revéz, teve o primeiro attaque de estupôr, e começou desde então a andar quotidianamente pelas igrejas. Era tão enthusiasta pelas idéas liberaes, que, no tempo do cêrco, foi denunciar os moveis, pratas e mais objectos de valor pertencentes ao fallecido snr. José Antonio (empregado na policia do Porto), que era seu inquilino, e tinha acompanhado o exercito realista, achando-se, por isso, ausente. Tudo foi sequestrado, e foi tal a raiva do sapateiro, quando o Snr. D. Pedro deu a amnistia, mandando levantar os sequestros, que ficou mais estuporado do que estava. Era tal a sua avareza, que, tendo ainda uma boa fortuna, andava vestido como um mendigo, e seus filhos não morriam de fartos, como é notorio pela visinhança. Estando completamente estuporado e tonto, houve um delegado, que, por empenhos, _ou pelo quer que fôsse_, o acceitou para editor da infame gazeta, intitulada «_Portugal_», e com quanto não recebesse por isso dinheiro (por estar tonto de todo) recebia-o por elle um filho, que ainda hoje é caixeiro da _tripeça-gazetal_ da rua das Hortas. Nos ultimos tempos da sua vida, tinha uma loja d'adeleiro na rua Formosa, onde continuava a emprestar dinheiro sobre ouro, prata e roupas, com enormissima usura, levando de juros, de cada cruzado novo, trinta e quarenta reis por mez, o que equivale a _cento por cento ao anno_!!!... Falleceu d'uma queda no dia 29 d'Outubro de 1851, testando duas moradas de casas, a roupa e moveis da adella e algum dinheiro.

_Deus se compadeça da sua alma._

Eis-aqui uns apontamentos para a byographia do miseravel sapateiro, escriptos conscienciosamente, sem odio ou affeição.

Agora, se querem desenganar-se da refinada hypocrisia e cynismo da infame gazeta dos _farcistas_, comparem estes apontamentos com os que se lêem no «_Portugal_» de 10 de Novembro de 1851: