O sangue

Part 8

Chapter 83,948 wordsPublic domain

--Gostei...--respondeu seccamente Innocencio.

--E ouviste o que elles disseram?

--Ouvi, que estava perto.

--Cuidei que não...--disse-lhe ella ao ouvido.--A tua comedia esta noite é a Rosinha...

--És tola...--replicou brandamente o esposo.--Que me importa cá a mim a mulher!...

--E a mim importava-me menos o homem de Caminha...--voltou Thomazia.

Este breve dialogo correu sem attenção da familia, que se occupava em ponderações relativas aos casos tristes do acto 1.º

Innocencio foi fumar para o vestibulo.

Roque, o irmão discreto de Rosa, visinhou-se d’elle com bom semblante, apertou-lhe a mão, e deu-lhe os emboras do seu casamento.

Innocencio tartamudeava, humilhando-se com conscienciosa vergonha á superioridade do outro que devia ser o corrido.

--Sempre fui teu amigo desde a escola--disse Roque--e hei de sêl-o até á morte.

--Tambem eu fui sempre teu.... tartamelou Innocencio, pedindo-lhe o cigarro para accender o charuto.

--Lá com o que faz a minha familia não me importo. Se estiverem de mal comtigo, deixal-os estar. Pois hei de querer-te mal porque não casaste com minha irmã Rosa? Não... Fizeste o que te pediu o coração, e...

--Foi meu pae...--atalhou Innocencio abemolando piedosamente a voz.

--Eu logo vi que foi teu pae: que tu por tua vontade não casavas com quem casaste. Isso mesmo disse eu á minha familia... Parece que adivinhava! Quando me affirmaram que casaste por namoro, gritei sempre que era mentira; ou então não sabias quem ella era...

--Ella quem?

--A senhora D. Thomazia, acho que é Thomazia a mulher.

É; mas então... dizes tu... que eu não sabia quem ella era?

--Sim, não sabias...

--Sabia muito bem. O pae d’ella era um capitão que morreu no cêrco, e a mãe uma senhora que morou sempre defronte da minha casa, e era filha de um negociante fallido com honra, depois dos francezes.

--Não digo o que tu pensas, meu amigo. A minha idéa é outra.

--Sim, tu disseste que eu não sabia quem era Thomazia--insistiu Innocencio com a voz alterada.--Que vem isso a ser?

--Já que m’o perguntas com esse fogo, sempre te vou explicar o meu pensamento. Tu és um rapaz de caracter e brios. Diz-me cá: se te avisassem de que a menina com quem querias casar andava escrevendo cartas a uns e a outros, casavas com ella?

--Não; mas...?

--E se te contassem que um dos seus namorados vinha ler as cartas d’ella na Praça Nova, no meio de uma roda de lordes de luva branca, para que elles rissem até romper pelas ilhargas, casavas com ella? Sim, pergunto eu...

--Não, já t’o disse; mas que tem isso com minha mulher?

--Que tem? essa é boa! tem tudo; porque tua mulher é que escrevia cartas ao Costa Guimarães, que tu conheces perfeitamente, não conheces?

--Sim...

--E elle, ali á esquina da Praça Nova, que o vi eu com estes dois, esteve a ler em alta voz uma carta, em que ella por signal dizia tolices de palmo e meio, e eram as gargalhadas tantas que até parava a gentalha espantada. Aqui tens agora por que eu te dizia que...

--Tu juras pela vida de teu pae que não mentes, Roque?--exclamou Innocencio trespassado de dôr que só vilissimas almas ousariam motejar.

--Juro pela vida de meu pae que não minto, e que sustento o que digo deante do Costa Guimarães, e deante da tua criada Custodia que era a confidente da correspondencia.

Innocencio encostou-se á parede, livido e tremulo, com os olhos encarniçados e fitos no rosto do denunciante, jubiloso de sua vingança.

Depois, impetuosamente, saiu do seu torpor, e disse convulso:

--E que ganhaste em vir contar isso, tu?

--Não ganhei nada... nem te peço paga nenhuma. Isto veio a proposito de eu te ter sempre defendido, quando ouço dizer que tu bem sabias quem tua mulher tinha sido em solteira.

Innocencio rompeu de roldão por entre o povo apinhado no atrio e saiu, sem redarguir, ao irmão de Rosa.

Chegou a meio do largo da Batalha e retrocedeu. Entrou outra vez no camarote, quando corria já na ultima scena o acto 2.º la desfigurado. O pae tirou-o fóra pela lapella do casaco, e obrigou-o ora suave, ora asperamente a contar-lhe a conversação com Roque. Ouviu-o retraindo os assomos da ira, esteve-se a scismar rematado o conto, e disse placidamente ao filho attribulado:

--Innocencio, não tomes a peito isso que póde ser mentira, e, se o não fôr, tambem não é crime que te envergonhe. Thomazia fez uma acção má em escrever ao Guimarães; mas olha que na idade d’ella essas coisas não tem aquella nenhuma. Todas namoram, todas escrevem e a gente não póde pedir-lhes contas do que fizeram antes de serem nossas mulheres. Tua mãe, quando me escreveu a mim, já tinha escripto a outro; e ha muitas senhoras honradas que escreveram a uma duzia d’elles ao mesmo tempo. Mau é terem ellas quem lhes leve as cartinhas...

--É verdade!--atalhou o filho.--E Custodia? que me diz vocemecê á desaforada da Custodia! aquella beata que ouve trez missas!...

--A Custodia, meu filho, está cá por minha conta... Agora o que te peço é que venhas para o camarote, que não te mostres d’avessas com tua mulher, que te rias para ella de modo que lá os Barcellos te vejam... Pois tu não entendes que o bregeiro do Roque o que quiz foi metter-te a garrocha e fazer-te saltar? Esta hora estão elles lá muito regalados de verem que saiste do camarote, e ámanhã vão espalhar que tu bateste na mulher... Vem, Innocencio, vem, que Thomazia está innocente. Cartas escrevem-n’as todas. Ora olha cá o que te eu digo. A Rosa não te escrevia?

--Sim, senhor.

--E a Gomes? tambem. E a Luiza Leite? tambem. E a Emilia Fernandes? tambem. E as outras trapalhonas que andavam á pilha da tua fortuna? Todas te escreviam. Eu sabia a tua vida hora por hora. Olha cá o que te eu digo agora: essas raparigas, que te escreveram, ficaram deshonradas por isso?

--Não, senhor.

--E, se ellas casarem, os maridos ficam deshonrados por que tu te carteaste com ellas? Não; não ficam. Ficam ou não?

--Não, senhor.

--Então que estás tu ahi a malucar? Cuidei que tinhas outra cabeça, homem! Eu, se fosse a ti, e o Roque me viesse cá com essas trampolinices, dizia-lhe: «Ora, meu amigo de Peniche, vá dizer a sua irmã que metta a viola no saco, e que vá cavar pés de burro.» E, se lhe não dissesse isto, dava-lhe dois pares de murros á portugueza, que elle havia de ter que contar ao sarrafaçana do pae, que está levado de dez milhões de diabos por que não poude metter-me em casa a lambisgoia da filha. Arre, ladrões, vão ganhal-o!

E, dizendo, levou o filho pelo braço, recommendando-lhe que entrasse a rir-se, muito satisfeito no camarote.

E, de feito, Innocencio entrou a rir-se no camarote, com a mais infeliz cara que imaginaram Gavarni e Molière. O rir d’elle era uma dilatação lateral de bochechas, e o vertice da lingua apontado aos dentes. São tão poucos os infortunios sem um reverso ridiculo!

Perguntou-lhe Thomazia onde tinha estado.

--Andei a conversar com os amigos--respondeu elle meigamente, sem desmanchar o apparelho do riso.

--Não viste o segundo acto que era tão bonito!--tornou ella.

--Ai, filho!--confirmou a mãe--sempre aqui temos chorado!...

--Eu cuidei que perdia os sentidos!--abundou D. Florencia, em quanto D. Sebastiana enxugava ainda os residuos das lagrimas estancadas nas rugas.

Corrido o pano para o terceiro acto, Innocencio sentou-se á beira de sua mulher, fallando-lhe com fervoroso interesse e geitos muito acariciativos, em coisas que era natural dizerem-se sisuda e gravemente.

Estava como admirada Thomazia. Aquelles modos causavam-lhe certa estranheza e desconfiança; porque não eram usuaes nem naturaes em seu marido. Além de quê, a senhora desejava seguir o entrecho da tragedia, e elle a cada instante, com a bocca cheia de riso, lhe cortava a attenção com algum dito de tão desengraçado espirito que propriamente Thomazia o achava parvo.

Decorreram assim dois actos.

A familia Barcellos espreitava, simulando indifferença, os movimentos do camarote. A vista de Innocencio, apurada pela raiva, tudo via de soslaio. Quanto mais o espreitavam assim elle requintava em ternura com sua mulher, chegando á demasia de lhe estar brincando com as guarnições do decote.

Na penultima scena do 5.º acto, pediu-lhe Thomazia que a deixasse ouvir a falla de _Gabriella_, apontando para o cadaver de _Cuci_.

As trez velhas, chegado o drama a este abuso da sensibilidade humana, já não choravam sómente, gemiam gemidos de tal arrancar do seio, que Thomazia mal poude ouvir os derradeiros versos de Gabriella que gritava assim pela bocca da Grata:

Sim, meus votos recebe, sombra amada; Por teus manes ensanguentados juro Um amor te prometto, que escarneça De seus furores. Não, já te não temo! A minha mesma dôr me arranca a vida.

Ora, como Fayel corresse então sobre a mulher, e a matasse com um punhal, Gervasio não teve mão de si que não murmurasse em tom indignado:

--Era da pelle do diabo o homem!

Vae, depois, Fayel mata-se tambem. São já trez os cadaveres em ruma. O terror abafa a respiração do auditorio, emquanto a razão não emerge do seu lethargo para applaudir e vozear pelos artistas. A esposa e irmãs continuam a soluçar entaladas, puxando a custo a respiração dos gorgomillos.

Gervasio reveste-se da sua dignidade critica e diz:

--Vossês são tolas! Olhem que isto é tudo uma tramoia inventada pelo sabio que fez a comedia. Levantem-se d’ahi, e vamos embora.

Innocencio deu o braço a sua mulher. As trez senhoras velhas ainda trajavam mantilha. Desceram ao pateo, e esperaram o carroção. Esta demora assanhou a ulcera latente de Innocencio. Thomazia sentiu um brutal repellão que lhe torturou o braço. Olhou para o marido, e viu que elle cravára os olhos n’um homem que, d’entre a multidão, lhe estava espreitando para a consorte. Ella seguiu aquelle raio de luz sinistra e viu João José da Costa Guimarães. Córou: incendeu-lhe as faces o odio, estimulado pela vergonha.

Havia ainda muita coisa boa na alma d’aquella mulher. Córava!

CAPITULO XI

Argumento

Innocencio resiste á ceia de pescada cosida. Injurias selvagens que elle dardeja á esposa. Acode Gervasio embrulhado n’um capote de trez cabeções. Socega o truculento. Gervasio manda sair Custodia. A velha faz chorar as pedras, saudosa da sua menina. Lança-se-lhe nos braços, e sae d’elles moribunda. Expira a velhinha. O author escreve o elogio da defunta, e dirige-lhe uma allocução commovente, como consta d’este sentimental capitulo.

No transito da Batalha á rua das Cangostas, os beiços de Innocencio não se abriram. Entrou em casa carrancudo como um somnambulo. Não quiz cear, com quanto a mãe, o pae e as tias lhe asseverassem que a pescada cosida a podiam comer os anjos, de boa que estava. A esposa escassamente comeu, e foi para o seu quarto onde o marido passeiava rapido e assoprando.

--Que tens tu?--perguntou ella mais altiva que carinhosa.

--Tenho vergonha de ser seu marido!--respondeu com selvagem e concisa eloquencia o aprumado Innocencio, voltando-lhe as espaçosas costas.

A senhora ficou transida de frio e assombrada largo tempo sem poder articular a réplica.

Voltou-se rapido contra ella o marido e repetiu:

--Sim, é o que lhe digo: tenho vergonha de ser casado com a senhora!

--Por que?--murmurou ella com humildade.

--A senhora sabe-o; não me faça perguntas.

Calou-se alguns segundos e voltou com impetuosa vehemencia:

--O que a senhora quiz foi ser rica, não é assim?

--Eu...

--Sim. Não me tinha amor nenhum; mentiu-me, andou a imposturar para me illudir...

--Não digas isso, Innocencio...--redarguiu ella energicamente; mas a consciencia esfriou-lhe logo a reacção.

--Então isto é mentira? A carta que você me escrevia para o Douro não era sua?

Thomazia abaixou o rosto e chorou. Em situações analogas, mulheres sem defeza, choram. As lagrimas são supplicas n’estes lances. Se os juizes teem boa alma e a virtude da delicadeza, rasgam o processo. Se são da indole rustica do filho de Gervasio, enfurecem-se em dobro e vociferam. Para esta ralé de homens faz-se mister que a mulher, bem que culpada, relucte e rebata as accusações, simulando arrogante innocencia. Se não ganhar o pleito, perde-o sem humilhar-se.

--Responda a isto!--bradou Innocencio.--A carta era sua... ou foi por engano que m’a quiz mandar?... Sim... pergunto... póde ser que a tal cartinha fosse para o Costa Guimarães.

--Logo vi...--soluçou a senhora--logo vi que a tua raiva era por estar no theatro aquelle maldito...

--E acha você que é só por isso, eim? Acha que não tenho mais nada que lhe bote na cara, a respeito do tal tratante? Faz de mim tão tolo que estou aqui assim zangado porque elle olhou para a senhora!... Ora, minha amiga, outra vida!... Sabe que mais?--e destampou a voz de subito como trovão inesperado--Sei tudo! sei tudo, ouviu? Sei tudo e sei tudo!

Aterrou-se Thomazia. Tremiam-lhe os dentes e os labios.

Os berros do homem estrondearam na casa. Gervasio saltou da cama, embrulhou-se n’um capote de trez cabeções, e veio bater á porta do quarto do filho, a tempo que elle bramia:

--Escrevia-lhe a elle você e fazia-me a côrte a mim ao mesmo tempo! Essa acção é de mulher sem honra!

--Quem é?--disse elle, suspendendo a apostrofe, e attentando a orelha á porta em que batia o pae.

--Sou eu--disse Gervasio--vem aqui fóra.

Innocencio saiu. O pae levou-o para uma saleta na extrema do segundo andar, e disse-lhe severamente:

--Portaste-te como um gallego. Estás ahi a berrar com tua mulher, depois de eu te ter pedido que não fizesses caso da intriga. Isso é feitio, rapaz? É assim que tu começas a tratar tua consorte? Que começos de vida levas! Quando isto é no primeiro mez, que será d’aqui a seis! Mal haja a hora em que esta rapariga veio para minha casa?...

Gervasio disse isto com dôr, e anciado do peito.

O filho teve compaixão do velho; pediu-lhe que se deitasse e dormisse, na certeza de que elle não tornaria a questionar com Thomazia.

O pae recolheu-se ao primeiro andar, onde já estavam as duas irmãs espavoridas perguntando á cunhada que _autemgeni_ era aquelle na alcova de Innocencinho.

Cumpriu a promessa o irado esposo, posto que o sangue lhe engorgitasse o coração.

Deitou-se. Thomazia passou o restante da noite sentada n’um canapé, a chorar e a tremer de frio. Innocencio perguntou-lhe de madrugada o que estava a fazer ali.

--Nada... respondeu a esposa.

Elle grunhiu o que quer que fosse. Já era dia, quando Thomazia se levantou em direitura á porta no proposito de subir ás aguas-furtadas e contar a Custodia os successos. Innocencio sentou-se de golpe na cama, e bradou:

--Onde vae a senhora?

--Vou sair lá para dentro.

--Quer ir entender-se com a beata? Não vae. Deixe-se estar ahi.

Voltou-se a sentar-se, tremente de raiva, a medrosa senhora.

Ao nascer do sol, Gervasio José de Barros já andava na rua. Entrou no mosteiro de Santa Clara, deteve-se meia hora a conversar com a prelada, foi d’ali ao paço episcopal, e voltou com um papel assignado pelo bispo.

Chegou a casa esbaforido. Mandou chamar ao escriptorio Custodia da Porciuncula, e disse-lhe com semblante carregado:

--Custodia, não podes estar mais tempo em minha casa. Escuso de te dizer as razões que tenho para te despedir. Não me serves...

--Então...--exclamou Custodia, erguendo as mãos em affligidissima postura--assim se põe na rua uma velhinha de sessenta e nove annos!...

--Não vaes p’rá rua, mulher. Venho de te arranjar um encôsto no convento de Santa Clara, onde te mandarei dar todos os mezes o necessario para o teu passadio. Vaes para onde possas rezar e ouvir muitas missas á tua vontade. Cá em casa é que me não serves.

--E a minha menina!--tornou Custodia, lavada em lagrimas--a minha filhinha do meu coração... heide deixal-a!... ai! que eu morro! ai! que eu morro!

--Não faças gritarias, mulher!--atalhou Gervasio, sustando o alarido da consternada velha.--A tua menina ia por bom caminho, se tu continuasses a levar e trazer cartinhas de sujeitos que tu lá sabes...

--Eu!... seja pelas almas!--interrompeu ella.

--Está bom, está bom--concluiu o negociante--não quero _plemicas_! Vae lá tratar de arranjar a tua caixa, que d’aqui a uma hora has de ir para o convento; e, se não quizeres ir com a boa esmola que te dou, procura a tua vida lá por onde te fizer conta.

Custodia pediu quasi ajoelhada que a deixasse despedir da senhora D. Thomazia.

--Sim, sim, ella está lá por cima--abreviou Gervasio, fechando-lhe a porta na cara.

Subiu Custodia e encontrou n’um corredor a filha da senhora, creada aos seus peitos. Lançou-se a ella, suffocada de soluços, beijando-a e molhando-a com a torrente das lagrimas.

--Adeus, até ao dia do juizo, minha filhinha!--foram as unicas palavras que poude proferir, porque perdeu o alento nos braços da senhora.

Thomazia sentou-se no pavimento e deitou-a no regaço, bafejando-lhe as mãos regeladas. N’esta postura a encontrou o marido. Parou, e disse carrancudo:

--Que historia é esta?!

A esposa não respondeu e continuou a aquecer com a fricção das suas as mãos da criada.

Passou Innocencio adeante e chamou as tias, mandando-as conduzir Custodia para as aguas-furtadas.

Acudiram as senhoras todas, ainda ignorantes do successo; que Gervasio apenas tinha segredado a sua mulher que a tal santinha de Custodia era uma desavergonhada de mão cheia.

Thomazia disse ás senhoras que a velhinha estava fria de morte.

Pegaram n’ella e conduziram-n’a ao leito. Agitaram-n’a, chamaram-n’a, deram-lhe um pediluvio de agua espertada com mostarda, e borrifaram-lhe a cara com vinagre. Não dava signal de vida a pobre Custodia.

D. Thomazia de Barros foi ao escriptorio dizer ao marido que a velha parecia morta.

--Isso ha de ser fingido para não ir p’ró convento,--disse Gervasio--mas eu vou lá vêr...

Quando Gervasio chegou acima e se abeirou do catre de Custodia, já a velhinha tinha os olhos abertos, e circumvagava com elles espantados por toda a gente.

--Eu não te disse que era fingimento!--segredou Gervasio á esposa.--É matreira como o diabo a tal beata! Pois ha de ir...

N’este comenos, as palpebras de Custodia desceram outra vez; mas não chegaram a unir-se; porque as inferiores já tinham perdido a força vital da elevação. Estava morta: morrêra da sua fulminante agonia. Foi a saudade que lhe desfez o coração em que não tinha mais sangue que o das ultimas lagrimas choradas nos braços da sua ama. Não levou á presença de Deus culpa que a excluisse da misericordia do céu. Peccou por ignorancia e demasiada fé em S. Gonçalo e outros santos da mesma respeitabilidade. Peccou attribuindo á magia do sal virgem o exito de um casamento que se lhe figurou a felicidade da sua menina. Foi medianeira nos amores de João José emquanto acreditou que o homem trazia missão do alto quando solicitava a sua protecção. Odiou-o assim que lhe descobriu a protervia dos planos, e voltou os seus esconjuros a favor de Innocencio, por lhe parecer o melhor marido, á falta de outro eleito nos conclaves dos santos, martires, doutores e apostolos do seu conhecimento.

Descança, pois, em paz eterna na tua cova do cemiterio de S. Francisco, pobre Custodia da Porciuncula! Dorme até que a trombeta chame ás alvoradas do dia eterno a tua alma. E, se n’essa occasião este meu livro sobreviver, como espero, ao renovado cháos, pede ao teu anjo da guarda que junte este capitulo ao autos do teu processo, e eu terei tambem o duplo prazer de ter concorrido para a tua salvação, e de ser citado no valle de Josaphat.

CAPITULO XII

Argumento

Odio entranhado de D. Thomazia ao marido. Novas libertinagens de Innocencio. Segredos do thalamo contados com exemplar melindre e não vulgar habilidade. O virginal enthusiasmo das senhoras D. Sebastiana e Florencia. Os pagodes nocturnos do devasso. Morre Luiz de Pinhel, e Innocencio vae ao Pará. Admoestações epistolares do pae. O filho commove-se, mas Thomazia não n’o ajuda. De como a rethorica de Innocencio estava nos pés do mesmo. Vae-se o marido e ella passa soffrivelmente. Renascem as franciscanadas do Reimão e do theatro. Cyclo da prosperidade dramatica no Porto. A «Degolação dos Innocentes». Recorda-se a pá do carneiro com explicações supplementares.

Este sucesso enluctou o coração de todos. Thomazia, a esposa de Innocencio, cobrou odio entranhado ao marido: odio que superava o sentimento saudoso da morta. A Gervasio asseteavam-n’o remorsos, que o impediam de justificar a si mesmo o violento passo de despedir a pobresinha. As trez senhoras e os dois velhos lastimavam a defunta, e mais ainda o morrer-se tão atormentada e sem sacramentos. Innocencio andava a scismar e a querer divertir o animo das zargunchadas da consciencia.

Evitava-o com invencivel repugnancia a mulher, se elle parecia querer reconciliar-se. Sumia-se na alcova de Custodia, e desafogava n’um alto chôro, que a sogra não ousava increpar-lhe. Como Gervasio lhe dissesse que a velha, a não ter morrido, gosaria um descançado fim de vida no mosteiro de Santa Clara, a opprimida senhora mandou-lhe pedir pela tia Florencia que lhe désse no convento o encôsto destinado á criada.

O negociante injuriou a irmã portadora do recado, e foi, passado pouco tempo, affagar Thomazia, com promessas de lhe amaciar as rudesas do genio de seu filho: promessas que ella recebeu com desdem significativo de que preferia ser aborrecida.

E não havia congraçarem-se os esposos. Á mesa não se encontravam com olhos nem palavras. Innocencio demorava-se em casa o escasso tempo de comer; e de noite recolhia-se depois que os botequins o despediam, ou a intemperie do tempo o necessitava de abrigo. O espaçoso leito conjugal, desde a morte de Custodia, nunca mais deu o licito calôr áquellas duas almas em commum. Thomazia senhoreou-se do seu antigo catre, armando-o na alcova escura contigua á saleta do seu aposento. O marido vira-o feito, e não lh’o contrariára. Quando as irmãs lhe deram assombradas a noticia, Gervasio não impediu, não se interpoz, cuidando que a duplicidade das camas não significava coisa de vulto. As duas solteiras benziam-se, chamando «modernismo» á separação, e protestando com virginal enthusiasmo que, sendo casadas, jámais consentiriam semelhante moda.

Por parte de Innocencio a reconciliação não foi solicitada. Minguava-lhe amor para arrepender-se, e generosidade para perdoar a venial aleivosia das caricias ante-nupciaes. Assim mesmo, deante da familia esforçava-se em parecer senão amante ao menos amigo de sua esposa. Assim, porém, que a topava a sós, desviava-se, sem perceber que ella já de longe planeava o desvio. Tinha ella vida nocturna, que não era contemplativa nem ralada de solitaria tristesa. Os antigos conhecidos dos _cafés_ blasonavam de se banquetearem em festins por noite alta com parceiras condignas, sob a presidencia bisarra e liberal de Innocencio José de Barros. Gervasio não foi dos ultimos avisados da prodiga libertinagem do filho. Repreendeu-o, sem azedume, receioso de que o filho lhe replicasse: «Deixasse-me estar solteiro». Era fraco e pouco menos de estupido, além de delinquente, Gervasio José de Barros. Delinquira insinuando a violencia no tom de auctoridade paternal e coadjuvando a deslealdade de Thomazia. Estava pagando.

E dobaram-se assim trezentos dias e noites, quasi um anno, sem que Thomazia podesse relembrar dia ou noute em que não chorasse.

Em janeiro de 1845 recebeu Gervasio a nova de ter fallecido no Pará seu cunhado Luiz de Pinhel. O informador acrescentava que o maximo da herança coubera aos filhos legitimados do rico fazendeiro; isso não impedira, porém, que o finado se lembrasse de sua irmã Thomazia, a quem deixára trinta contos de réis fortes. Pedia o noticiador habilitação e poderes para liquidar, se Gervasio não quizesse antes enviar directamente procurador que agenciasse a facilima cobrança.

--Deixe-me ir, meu pae! deixe-me ir a mim!--exclamou Innocencio.--Vou eu ao Pará, se me derem a procuração. Deixem-me ir, que me fazem um grande bem. Preciso sair do Porto por algum tempo. Ha muito que eu andava para pedir a meu pae que me deixasse ir ao Pará ver o tio...

Gervasio meditou, e disse:

--Pois prepara-te e vae... Queres levar tua mulher?