Part 6
--Ora vamos lá, vamos lá; o rapaz não é mal-ageitado; e, de mais d’isso, os homens todos são uns... E a riqueza, menina?--aqui levantou de ponto a voz e arregaçou as palpebras, entumecendo os olhos de emfase--E a riqueza? A menina sabe lá quanto esta gente tem de seu?! Quando eu vim crear a sua mãesinha, ha mais de quarenta annos, ouvi muitas vezes dizer a seu avô que os antigos d’este Gervasio eram judeus que mediam ás razas ouro em pó... Lá me custa, isso é verdade, que a menina se case com homem de raça judia; mas tanto o pae como o avô de Innocencio foram baptisados, e as senhoras essas são boas christãs. O rapaz, quando era pequeno, ainda ás sextas feiras lhe fervia o sangue; mas agora, eu tenho pedido ao Senhor que o faça bom, e hade fazer. Tome tento, menina; ande-me com o lume no olho, não deixe fugir a occasião, que isto de homens, são assim--disse Custodia, fazendo no ar um gatimenho com a mão descarnada.--Casar, e quanto antes, que não vá algum d’aquelles diabos da Praça-Nova dizer ao Innocencio que a menina mandou a carta.
--É verdade!--exclamou Thomazia transida já do receio de se lhe frustar o casamento que, pouco ha, desdenhára.
--Não se assuste... O Innocencio ámanhã vae p’ró Douro ver as vinhas de mando do pae, e só volta d’aqui a oito dias. Em quanto vae e volta ninguem já se lembra de nada.
Estavam a soar as badaladas do meio dia. Custodia disse a Thomazia que a deixasse sósinha, por que assim se fazia necessario.
Foi a velha á cosinha e colheu da saleira um punhado de sal. Fechou-se na agua-furtada, e pulverisou o sal n’um caco. Depois, accendeu uns gravatos de alecrim, e esperou que batesse o meio dia n’outra torre. Ao primeiro toque, tirou uma boa pitada de sal, lançou-a á lavareda do alecrim e ciciou estas palavras debruçada sobre a vaporação da fogueirinha: _Eu te salgo, Innocencio; eu te resalgo e torno a resalgar para que não possas comer, dormir, fallar, nem socegar, sem com a Thomasinha casar._
Seguiram-se mais duas pitadas de sal virgem e dois esconjuros no mesmo estilo.
Concluida a operação magica, acocorou-se a beata, sorveu duas vezes de simonte, ageitou o regaço, montou as cangalhas, e botou as cartas. Saiam-lhe dispostas as figuras do baralho tão de molde com o desejo que, á terceira vez, a sibilla ganiu um ai de puro jubilo, estremecendo sobre a tripode do capacho em que se amezendára. O rei de oiros, que era Innocencio, calhava sempre de _corpo e pensamento_ com a dama do mesmo naipe, que era Thomazia. Por isso ella ganiu com uma expressão torva, sobre-humana e como de vocalisação infernal; pois não ha duvidar que ha o que quer que seja satanico na cartomancia, quando as mãos escarnadas e roixas das profetisas cruzam sobre o baralho aquellas bençãos e murmuram umas vozes esconjuratorias que a mim, homem d’este seculo e progressista, me já tem feito arripiar as fibras intimas e riçar os cabellos.
Entretanto, estava jantando a menina. A cadeira de Innocencio defrontava com a sua. Reparou ella que o rapaz comia pouco, sem embargo de lhe estar a mãe avitualhando o prato com uns pés de sevado, iguaria dilecta do filho. Deu fé, além d’isso, de que elle lhe esguelhava a miudo os olhos, perfilando o rosto para a não encarar de fito.
--Ámanhã a estas horas onde estarás tu, meu filho?--perguntou a mãe já com tristeza da presentida saudade.
--Estou no rio Douro--respondeu altivamente Innocencio com semblante acabrunhado.
--Estás Entre-ambos-os-rios--disse Gervasio.--Não se esqueçam de lhe metter duas gallinhas no alforge. Deixa-te lá estar oito dias, e não venhas senão depois de bem desfolhadas as vinhas. Manda-me lavar os toneis, e olha se me aproveitam o sarro. Agora não te vás lá pôr a malucar; que tu não me trazes essa cabeça escorreita!...
--Deixa o menino!--atalhou a senhora D. Thomazia.
--O menino!--murmurou desdenhoso o pae--menino de vinte e dois annos!
Innocencio assoprou do fundo peito um suspiro demorado como o de borracha de vento que se esvasa vagarosamente. A menina levantou os olhos ao rosto do moço e surpresou os d’elle a fugirem do encontro.
Findo o repasto, e dadas graças a Deus, Thomazia foi chamar Custodia para vir jantar, e contou-lhe em breve o que passára na mesa. Custodia grasnou um riso protervo de brucha e disse:
--Deixe-o comigo.
Á ceia, no aspecto de Innocencio reluzia a inquietação interior. A mesma abstinencia e taciturnidade do jantar. Por mais que a mãe desvellada o desafiasse a fallar, não havia tirar-lhe frase que não fosse desconsolada e sêcca. Levantados da mesa, despediram-se todos d’elle porque Innocencio tinha de madrugar. Thomazia abeirou-se do triste moço, e deu-lhe um abraço, que elle recebeu com estranho estremecimento.
--Manda-me duas melancias da quinta, sim, Innocencio?--disse a menina compungida.
--Pois, sim...--murmurou elle, sentindo cair-lhe sobre o coração um cesto de melancias.
Custodia appareceu tambem para despedir-se, e deu ao moço uns bentinhos da Senhora do Rosario, compendiando n’um discurso apropositado as virtudes da nómina, e fechando a pia allocução com estas palavras:
--Cá ficamos todos a resar pelo menino. Não lhe hade succeder mal nenhum. As orações d’este anginho hão de guardal-o.
E, dizendo, apontava para Thomazinha, que abaixou os olhos.
Innocencio surriu-se, e disse:
--Hei de mandar-lhe as duas melancias que ella pediu.
Declaro que tenho noticia de poucos ditos com tanta graça e tão pouco desvanecimento! _Hei de mandar-lhe as duas melancias que ella pediu..._ Isto é bom, quando a pequena inclinava o pescoço em geito de magoada! E para que vejam que o moço açabarcára n’aquelle só dizer todo o espirito que a natureza dera proporcionalmente á familia, basta saber-se que ninguem atinou com a dolorosa ironia do surriso e das palavras.
Ao repontar do dia, Innocencio entrava no barco-da-carreira. Soavam as trez pancadas das Ave Marias em S. Francisco. Ao mesmo tempo, Custodia, com o saioto pelos hombros, e um olho ainda tapado d’exalações nocturnas, lançava a terceira pitada de sal virgem na fogueira do alecrim, e dizia: _Eu te salgo, Innocencio; eu te resalgo e torno a resalgar, para que não possas comer, dormir, fallar, nem socegar, sem com a Thomazinha casar._
E Innocencio, sentado á prôa do barco, olhava para as trapeiras da rua das Cangostas, e dizia entre si:
--Como diabo estou eu amando tanto esta Thomazia!...
Quando o coração se desentranha em gritos, assim eloquentes, está perdido um homem.
CAPITULO VII
Argumento
Descreve-se Innocencio, consoante as tradições. Como elle se carteava com a Mariquinhas e com a Rosa. Libertinagem do mancebo, desde as luvas côr de figado até ao quino do botequim da rua de Santo Antonio, e outras devassidões. O palacio de cristal e D. Ignez de Castro em 1868. Um passeio a _vol d’oiseau_ pelo espirito e coração de Innocencio José de Barros. Explica-se a ida d’elle para o Douro. Porta-se bem, e não póde comer, rio acima. Apostrófa Thomazia, e declama quatro versos dos _Ciumes do Bardo_. Espanta-se o gentio do barco da carreira, e elle assobia para disfarçar. Custodia continua a salgal-o, e elle cada vez mais insipido.
Ainda não é tarde para dizer de Innocencio o que pude averiguar das tradições guardadas por muitos que o conheceram, no anno de 1843 em que vão correndo os successos d’esta exemplar historia.
Era de sua pessoa bem ageitado o filho de Gervasio José de Barros. Largo de aspaduas. Entroncado e rijo. Trigueiro, côr de bom sangue. Olhos negros, grandes e um tanto pasmados. Nariz denunciante da raça, judaico, longo, adunco e transparente. Nariz de Judas Escariotes chamava-lhe Custodia, quando elle lhe macerava os perigalhos das ventas d’ella com a bengala do pae. Mãos e pés guardavam proporcional e harmonicamente um tamanho que fazia impressão. Não lhe vinha de Israel a superabundancia das extremidades: aquillo haviam-n’o ganhado seus avós na peninsula hispanica, onde as tribus dispersas e acurvadas por trabalhos rudes engrossaram os musculos e estiraram os tendões de pés e mãos. Isto não é regra. Se o fosse, a terra natal de Innocencio correria o risco de ser considerada uma conquista de hebreos.
Tenho dito da pessoa material; agora vejamol-o em espirito.
Passava por não ter nenhum na roda dos seus conhecimentos. Era taciturno e desconfiado. Sobejava-lhe instrucção para se fazer ouvir; porque notava em silencio algumas parvoiçadas alheias. Lia correntiamente, não envergonhava a ortografia; e a grammatica perdoava-lhe as offensas, por entender que elle nem a conhecia de nome.
Nem era necessario para se entender com algumas meninas. Desde os dezoito annos que se carteava ora com a Mariquinhas Gomes, ora com a Rosinha da Praça Nova. Os epistolarios d’estes amorios em flor acabaram em papelotes. Este destino foi o mesmo que rachar-se a urna onde estiveram os aromas do amor virginal de Innocencio. Vaporaram-se.
Aos vinte annos, o representante de Pero Barrios teve seis mezes de vida dissoluta. Comprava todos os domingos um par de luvas côr de figado ou côr de laranja alternadamente. Alugava cavallo ao Lopes, pedindo sempre que lhe puzessem telim orlado de vermelho, e despedia a chotar, a galopar, a ferir fogo por essas ruas. E não caía. O cavallo ia-lhe entalado nos calcanhares ingentes. Era um centauro o grupo.
Vestia-se a primor da moda e consumia verniz em barda, torturando-se com heroico stoicismo. Ninguem lhe ouvia um gemido, tendo razões para gritar como seus avós com os pés untados de gordo sobre brasas vivas.
Gervasio não o encrepava d’estas demasias de luxo, bem que ignorasse as cavalhadas dominicaes. Dava-lhe mezada para ir ao Tivoli, e achava que seu filho tinha razão de querer admirar trez vezes por semana o Grilocôcho, o Fontainhas, o Fidanza e a Grata, sujeitos que resplandeciam na prosperidade do theatro nacional do Porto, chegada ao seu apogeu, para depois cair até á IGNEZ DE CASTRO, representada hoje, 5 de janeiro de 1868, no _Palacio de Cristal_. O palacio faz avançar a gente a empurrões!
Apanhemos o assumpto, passando a voar por coisas da vida e costumes de Innocencio, assaz contraditorias do seu nome baptismal. Sobra razão para que o consideremos empestado da peçonha que afistulava a mocidade de ha vinte e cinco annos. O botequim da rua de Santo Antonio era um cardume de libertinos: quem ali entrasse a tomar um capilé, e se demorasse dez minutos, saía cinico. E Innocencio, começando a frequentar aquella caverna com o candido intento de jogar o quino, passou depois ao bilhar, e d’aqui ás mezas marmóreas onde a sã moral era espostejada como cadaver combalido em amfitheatro anatomico.
Por estas razões o filho de Gervasio não tinha sentido pela orfã o affecto dulcissimo que só florece em almas castas. Affeito a vêl-a formosa todos os dias, nem sequer a comparava com outras. Passava por ella como qualquer pessoa de juizo e medianamente admirativa pelas Venus de alabastro. Lembrava-se de a conhecer e trazer ás cavalleiras quando ella tinha dois annos. Depois viu-a crescer, desabotoar flores que lhe não rescendiam algum perfume; nenhuma florecencia o assalteou de improviso; todas as primaveras da Thomazia lhe pareceram uma e mesma primavera. Esta regularidade de vida fazia implicancia ao extraordinario que requer o amor. Fôra mister ajuntar á formosura de Thomazia vicio ou virtude que sacudisse, de repellão subito, o espirito adormecido de Innocencio.
Bem viram como saltou o coração no peito do rapaz, quando o galhardo Costa Guimarães remessava o cavallo pelas Cangostas. Amor assim nascido é o descredito de uma paixão que se gosa de ser a primeira na jerarchia das nobres. A gentileza do picador rival e a fina raça do cavallo, as duas coisas, produziram a instantanea irrupção da cratéra. Belleza, innocencia, agrados e caricias honestas nunca vingariam espertar o affecto do descuidado moço, que até áquella hora se andára narcizando a remirar-se no espelho dos alfaiates, ajustando ás mãos rebeldes as luvas côr de figado.
O abalo, porém, foi perdendo força, ao mesmo passo que a menina, docil á vontade de Gervasio e incapaz de reagir senhorilmente, se prestava a satisfazer a vaidade do cioso deixando-se desposar com elle.
Se a orfã conhecesse o jogo de scena da comedia humana, continuaria a fomentar as suspeitas do indifferente Innocencio, indo á janella na occasião em que as patas de cavallo denunciassem a passagem de algum façanhudo _Saint-Preux_, terror da moral desde a Porta Nobre até ao Poço das Patas. Então veriamos o amador um tanto velhaco de Rosinha de Barcellos apertar com o pae para que lhe désse a posse legitima e santificada da linda menina que os burguezes, notaveis na gineta e nobilitados por seus cavallos, lhe andavam disputando com sensivel vantagem.
Estamos chegados á ida de Innocencio para as quintas do paiz vinhateiro. Foi elle quem se offereceu. O pae maravilhou-se do insolito zelo vinicola do rapaz. Ora o caso tem explicação e misterio.
A explicação é que dois irmãos da Rosinha, interessados no casamento da irmã, denunciaram a Innocencio que o Costa Guimarães se gabava de ter recebido cartas de Thomazia. Cuidavam elles que este aviso impediria o ir por diante o tal ou qual affecto com que a menina da Praça Nova suspeitava inclinar o coração de Innocencio á sua bella hospeda.
Agora o misterio. Chama-se assim á mingua de o podermos destrinçar pelo claro. O inintelligivel está em que o moço não accusou a orfã ao pae, nem proferiu palavra indicativa das agonias do seu animo.
D’aqui procedeu a deliberação de ir para o Douro, apostado a distrair-se com uns ares filosoficos de pessoa sizuda que houvesse lido as doçuras e allivios que Zimmermann promette aos solitarios. Como quer que fosse, tudo que eu dissesse em honra d’este rapaz seria pouco encarecido, attentos o juizo e generosidade com que elle escondeu do pae as leviandades de Thomazia. Assim se absteve heroicamente de vingar-se d’ella e sair victorioso das suas suspeitas, assentando em honestas bases a repugnancia que lhe fazia tal casamento.
Elle ahi vae Douro acima. Ao dar do meio dia, olhou de soslaio para os alforges onde abundavam as vitualhas e disse de si para comsigo:
--Não tenho vontade de comer!... e vou em jejum!
Depois, concentrando-se em intestino mais fidalgo que o outro relacionado com os alforges, monologou, pondo os olhos nas ribas alcantiladas do Douro:
--Thomazia!... que diabo de feitiço me fizeste!...
E, pendendo a fronte, assentou a barba no seio, e meditou d’este feitio:
--Verdade é que eu nunca lhe disse que lhe tinha amor... Coitada!... ella bem sabia que eu fazia a côrte á Gomes, e nunca me mostrou má cara... Mas, se ella gostasse de mim, não m’o dizia? Dizia, sim... E talvez não dissesse, por que tem lá a sua soberba, e não queria mostrar que me queria bem por eu ser rico. Prompta a casar comigo estava ella, pois não estava?! Estava... eu bem lh’o ouvi dizer a meu pae... Mas então para que escrevia ao outro?... Seria p’ra me metter ferro?... Eu sei cá!
E aqui acudindo-lhe á memoria uns versos que elle tinha decorado dos _Ciumes do Bardo_, exclamou em voz soturna, bracejando com impeto não destituido de harmonia mimica:
Mulher! que mixto horrendo és tu na terra, para unir crimes taes com tantas graças? Que nome te convém? cruel? perjura, impia, blasfema, algoz, monstro dos monstros?
E calou-se.
Os barqueiros olhavam espantados para elle, e duas passageiras já idosas tomaram-lhe medo.
Innocencio, caindo em si do rapto, quasi se viu ridiculo, e entendeu que o disfarce era assobiar assim a modo de quem se vae divertindo monologando passagens de Castilho e relembrando no assobio trechos de Donizetti que elle conhecia dos realejos.
Como acima se disse, este caso passava ao meio dia em ponto. E á mesma hora, quando as nove badaladas caíam da torre dos Clerigos, a senhora Custodia da Porciuncula, de cocoras á beira da fogueirinha, fazia estalejar os espirros do sal virgem, e murmurava: _Eu te salgo, Innocencio; eu te resalgo e torno a resalgar, para que não possas comer, dormir, fallar, nem socegar sem com a Thomazinha casar._
CAPITULO VIII
Argumento
Como Innocencio foi enguiçado. Para onde lhe deu o vinho da colheita de 1817. Palestra afflictiva com o pae, que não crê em bruxêdos. Lastimas de D. Thomazia, e horrores das tias que julgam paradoxo um jejum de tres dias. Innocencio come á tripa forra, e ama á proporção. Discurso de Gervasio conducente ao casamento. Pudor da menina e pieguices amorosas do rapazola. Resolução de afogadilho. Casam-se em S. Nicoláo, e vão passar a «lua de mel» ao Bom Jesus do Monte, em Braga. Diz-se da mula e macho que os transportam e dos passarinhos que cantam.
Ao cabo de trez dias, Innocencio derivava em um barco de pipas na corrente do Douro. Que trez dias d’aldeia! Trez dias de insomnia, de dessocego, de afflicção e fastio. Repuxava-lhe a alma para o Porto uma força irresistivel. A espora da saudade picava-lhe fibras illesas até então. Chegado ao galarim do tedio e do desespero, furou uma pipa da colheita de 1817 e bebeu com aquellas sedes ardentes de Musset, de Espronceda e de outros infelizes que fizeram adegas dos corações vasios. Mas, ah! o coração de Innocencio estava cheio do amor de Thomazia. O vinho empoçou-se-lhe no estomago e d’aqui fumegou-lhe para o cerebro uns delirios que rompiam em apostrofes metricas, sacrilegamente apanhadas nos _Ciumes do Bardo_. Quantas vezes tenho ouvido relanços d’aquelle poema servindo a paixão declamatoria de alarves mais obstinados que Innocencio! Fazem-me lembrar onagros a pastar nos roseiraes, quando os ouço a espumar das sujas bocas aquelles versos de ouro!
Applacada a sesão, Innocencio correu-se de pejo da sua sombra. Revoltou-se contra si mesmo, exclamando:
--Oh! quanto sou asno! Que vim eu fazer ao Douro?! Não podia eu estar agora á beira de Thomazia, e livre d’estes ciumes que me...
E, dizendo, enganchou os dedos de fórma de garra, e fincou-os com força de ventoza sobre o lado esquerdo do peito, como quem diz que os ciumes lhe agadanhavam o coração.
Feito isto, chamou um gallego da vinha, entregou-lhe o alforge e a mala, desceu ao caes do Pinhão, e esperou que desatracasse barco de pipas.
Taes foram as angustias que precederam a partida e inesperado apparecimento de Innocencio no escriptorio do pae.
--Já por aqui?!--exclamou o velho.--Que novidade trazes, Innocencio?
--Nenhuma...--respondeu o moço com tristeza.--Não pude lá estar mais tempo... Estive a morrer...
--No rio? houve desastre?
--Não, senhor... Quero dizer que me vi tão afflicto, tão apoquentado, que...
--Que tiveste, rapaz?--atalhou o velho alvoroçado.--Tu estás amarello, meu filho!... Tens os olhos molhados!... Que é isso?...
--Meu pae!...--murmurou Innocencio, apanhando a cabeça com as palmas das mãos.--Eu desconfio que me fizeram feitiçaria... Não pude comer nem dormir trez dias!...
--Como assim?...--acudiu Gervasio despegando-lhe as mãos da testa--então que sentes, menino?
--Sinto-me doudo d’esta cabeça... A minha razão diz-me que não ame Thomazia, e eu não pude esquecel-a uma hora, um minuto, em quanto andei por lá...
--Então cuidas tu que isso é bruxedo?--atalhou o pae com ridentissimo carão.--Ó filho, isso não é o que tu cuidas; é um mal proprio da natureza que péga em todos. Qual feitiçaria, nem qual carapuça! Nunca os males sejam maiores... Se gostas d’ella, fazes o que deves; tambem ella morre por ti. Ainda não ha meia hora que Thomazinha me veiu aqui trazer esta carta para eu t’a mandar ámanhã dentro da minha pelo correio. Aqui a tens, olha, lê-a e verás que a mocinha estava cá como tu por lá. Esteve ahi a chorar como vides, e a dizer que tu, se a não querias, dissesses isso e não andasses a desacredital-a.
--Eu não a desacredito!--exclamou Innocencio indignado com razão.--Pois eu que disse?...
--Ora vamos lá... vamos lá... Tu disseste que o outro do cavallo andava por ahi a espinotar pela rua p’r amor d’ella, e que...
Foi interrompido Gervasio pela estrondosa descida da familia que recebêra do criado a nova de estar Innocencio no escriptorio.
A mãe e as tias penduraram-se no rapaz; e Thomazia, com os braços abertos, esperou a sua vez para o apertar ao seio.
Deixou-se estreitar, affavel e ao mesmo tempo melancolico, o ditoso, com uns tregeitos que seriam de tolo se não fossem antes umas mimalhices que a boa fortuna permitte aos seus beijamins. Innocencio fez um bico de beiços e um pendor de palpebras assim a modo de quem quer chorar as suas penas no seio de quem lh’as deu. N’este em meio, chegou Custodia, e encarando com os dois meninos abraçados e mudos, bradou, batendo as mãos:
--Está feito o milagre! ouviram-me os meus santos! Eu que disse, senhoras?--continuou ella virando-se para a mãe e tias de Innocencio--eu não disse ás minhas amas que elles se queriam como um casal de pombinhos? Ora ahi os teem a rever-se um no outro como dois serafins! benza-os Deus, que tão galantes são! Tomára eu não acabar sem ver os filhinhos d’estas duas creaturas! Vejam, vejam, como ella se faz vermelha!...
--Está bom, está bom, Custodia--disse o alegre Gervasio--vae dizer á cosinheira que ponha lá que comer na mesa, que o menino está a cair de fraco.
--Bem se te vê na cara, meu filho--confirmou a mãe.--Comeste pouco por lá?
--Ha trez dias que não come--explicou Gervasio.
--Jesus, santo nome de Jesus!--conclamaram as trez senhoras, benzendo-se.--Ha trez dias!...
--Ó meu Innocencinho!--lamuriou D. Thomazia de Barros, saltando-lhe outra vez ao pescoço.--Estiveste trez dias sem comer!?
O rapaz surriu-se tristemente e murmurou:
--Isso que tem?...
--Que tem?--voltou a velha lastimosa--que tem? Podia levar-te a bréca, meu querido filho! Trez dias sem comer!...
--É a primeira que ouço!--disse D. Florencia, com as mãos juntas sobre o promontorio da região hipogastrica.
--Trez dias!--obtemperou D. Juliana--eu não sei como elle ainda se tem de pé! Vamos p’ra cima, vamos, Innocencinho. Anda comer.
E queriam amparal-o todas para o ajudarem a subir as escaleiras.
--Não é preciso...--disse o rapaz, desviando-as.
Era um gosto de sibarita ver o amante a funccionar com o apparelho da mastigação, desobstruido já o canal onde o amor infeliz costuma empécer como salamandra em cano de chafariz.
Regalavam-se todos a cada naco de paio que rodava no trago de vinho. Não obstante, a mãe, de certo ponto em diante, pedia-lhe que não comesse tanto, que podia dar-lhe na fraqueira. O pae contraditava a esposa atirando-lhe para o prato colheradas de letria e ovos moles, bradando em tom aforistico:
--Come, que a barriga é como um sacco; emquanto couber, deita-se-lhe p’ra dentro.
Findo este repasto de Romeu, quanto era possivel ser-se na rua das Cangostas, Gervasio, que tinha bebido de meias com o filho uma garrafa de 1815, desatou a fallar com enthusiasmo e tal qual eloquencia. O discurso pozera a mira em concluir ali d’uma vez para sempre o tantas vezes mallogrado intento dos desposorios. Depressa chegou ao fito n’estes termos idíllicos e commoventes:
--Rapariga, tu gostas do meu filho, e elle quer-te deveras. P’r’amor de ti é que o Innocencio não comeu nem dormiu, nem parou, em quanto não veio para a tua companhia. É amor verdadeiro. Agora, não admitto réplicas de parte a parte. Casar, que é tempo. Casar, e acabaram-se as historias. Casar, e... tenho dito!
A menina lobrigou por debaixo da sobrancelha o repleto noivo, cujo coração se recostava regaladamente sobre o coxim do estomago; situação absurda nos termos, e todavia experimentada por todos os amantes felizes depois de um banquete em que se haja comido á portugueza, segundo as formulas de Domingos Rodrigues. Os olhos de Innocencio cheios de graça dardejavam aos de Thomazia um raio obliquo de ternura com o supplemento de um sorriso entre alvar e amoroso.
Gervasio, arrebatado pelo mutuo colloquio de olhos que todos presenciavam, levantou-se, foi ao pé da afilhada, chamou o filho, tomou as dextras de ambos, achegou-as com patriarchal gravidade, e disse: