Part 3
--Isso é muito possivel; e, se elles vão n’este affecto, chegados á idade, não ha mais que leval-os á egreja; que bem casados levam elles já os corações. Mas olha, Thomazia, que não ha fiar n’estas affeiçõesinhas. Eu conheço alguma cousa o mundo, e por isso andei sempre por longe d’elle, e mettido cá no meu trabalho, por não saber em que havia de gastar a vida, que bem depressa gastei... Estas creanças que brincam, em começando a olhar seriamente uma para a outra, já não acham gosto ás brincadeiras da meninice. Depois, cada qual trata de procurar cousas e affeições novas, porque o coração humano é assim. O moço não tem o coração do menino, nem o velho o coração do moço, percebes? O que eu te quero dizer é que não vás tu por engano casal-os muito cedo, sem elles saberem o que fazem nem o que querem. É muito perigoso que, na idade de saberem o que são e hão de ser até á morte, se não submettam ás obrigações para que a sua razão não foi consultada. Entretanto, Deus os faça tão bom homem e digna mulher como são bons e amigos em creanças.
O paraense foi-se embora com grande jubilo de Innocencio e Thomazia. Os paes do menino tambem exultaram, ficando-lhes a certeza da herança proxima ou remota.
Principiaram as aulas de Innocencio, e minguaram as horas da folia. O pequeno applicava-se ao estudo, e ia ensinando a Thomazia o que aprendia, já com certo aprumo e vaidade de preceptor. A menina entretinha-se com mediocre prazer nas praticas do alfabeto, e ia arguindo vocação negativa para cultivar o entendimento. Era a soberana ordem das cousas, raras vezes desconcertada. Chovia-lhe a natureza dons de infantil formosura, e dava-lhe ao mesmo tempo sequidões esterilisadoras de intelligencia. Cada dia lhe abrolhava flores novas; e cada dia lhe entibiava mais a percepção. Por maneira que a menina já choramigava quando Innocencio lhe pedia contas da invencivel difficuldade de soletrar.
--Deixa lá a pequena!--exclamou a madrinha compadecida.--Eu tambem não sei ler, e graças a Deus não me tem feito falta. Uma mulher de casa não lhe chega bem o tempo para cuidar do seu arranjo. Isso de lêr é lá para as fidalgas que não sabem no que hão de gastar as horas. Aprende tu, que és homem, e deixa a menina. Se ella não tem geito, para que apertas com ella? É forte birra a tua, rapaz!
--Eu não quero que ella seja bruta!--disse Innocencio com uma authoridade e sobrecenho irrisorio, attentos os seus doze annos.
--E que tal!--clamaram as tias em quanto a menina córava, e a mãe se benzia, murmurando:
--Ora esta! querem vocês vêr! O rapaz já diz que não quer que ella seja bruta! Assim nos vae chamando brutas a todas! Então tu governas em Thomazia?--tornou a risonha senhora.--Ella é tua parente ou _adrente_?
Innocencio fez uma pirueta de educação mediocremente esmerada e saiu da presença da mãe aos pinotes.
Ora vejam agora como a serpente da vaidade mordeu de assalto o amor proprio da menina. Ao outro dia, pediu ao seu impertinente mestre que lhe ensinasse a lição, estudou-a, deu de si boa conta á custa de muito martelar na combinação litteral dos nomes bisillabos, e conseguiu em poucos mezes livelar-se com a sciencia do pedagogo. Fez-se o prodigio em razão de lhe ter chamado elle bruta!... Indicio de alguma coisa, a meu vêr; se boa, se ruim, o futuro, querendo Deus, nos irá assentando as bases para seguro juizo.
Na aprendizagem incompleta das primeiras letras consistiu a educação litteraria de Thomazia Alves. O padrinho entendia que as quatro operações não lhe desconvinham e a leitura de uma carta lhe podia ser util. D’aqui em deante, nem elle sabia nem lhe constava que mulheres podessem aprender coisa proveitosa.
Por encurtar fastios, sigamos de salto os annos de Thomazia até aos quinze.
Eil-a bella quanto póde imaginal-a a mais artistica e ambiciosa fantasia. Faltava, porém, alma e luz n’aquelle rosto, porque as imperfeições, embora poetas e romancistas as esqueçam, são inevitaveis. A estatua de certo tinha vida bastante para valer em tresdobro da Galathea e das notorias Venus de innocente marmore; todavia, a glacial placidez do semblante, se não fosse natural, deslustral-a-ía com umas sombras de desvanecida e concentrada na contemplação de si mesma. Não era; e que fosse, ainda assim daria muito que invejar ás poucas a quem a prodigalidade do destino concedeu peregrino rosto e adoravel alma a transluzir-lhe em olhos e sorrisos; que alteza de pensamento e profundidade de conceitos isso não vale tanto á mulher bella como quatro flôres do campo nos cabellos.
Thomazia ganhára fama, bem que os pregoeiros da sua formosura escassamente a vissem nas egrejas, nas procissões, nos camarotes da 3.ª algum domingo de tarde, e uma ou outra vez nas hortas do Reimão, onde Gervasio José costumava desde menino ir merendar sob a folhagem das parreiras. Se o apetite lhe faltava e o cirurgião lhe formulava oleo de mamona, dizia elle á familia:
--Bem sei... Vamos ao Reimão merendar uns linguados com a respectiva salada. O meu oleo de mamona é o verdasco de Basto ali tirado da pipa, e quatro azeitonas de Sevilha.
Apesar das precauções do avisado enfermo nos lanços da preguiça de estomago, Thomazia era vista dos peraltas que ainda em 1841 se não pejavam de apear de seus cavallos e carruagens á porta das tavernas do Reimão e Barros-Lima.
Se o commerciante reparasse nos seus confrades da medicina do linguado e da azeitona, podia vêr alguns d’elles caracolando os ginetes que lhe pateavam sonoramente a testada da sua casa nas Cangostas.
Elle, de certo não; mas a sua afilhada, menos mal servida de reminiscencia, reconhecia trez ou quatro dos cavalleiros que uma vez e diversas vezes tinha visto nos bucolicos festins do padrinho ou nos festins espirituaes da madrinha mui devota do Senhor-exposto de Bello-Monte e da Misericordia.
Isto, porém, não desluz nem mareia a candura de Thomazia. Era um acto de memoria e mais nada; acto, porém, que não condizia com a frouxa faculdade de reter a taboada salteada. Ha compensações; é o que é. Ora agora, que a senhora D. Thomazia de Barros (o _dom_ começou a honorifical-a ahi por 1840, anno em que seu marido foi da camara) que a senhora D. Thomazia e suas cunhadas e marido não tinham sombra de suspeita da leviandade da menina, é bem de entender, sendo tal e tão crescente o amor que lhe davam.
Ahi por volta dos dezeseis annos da moça, a familia Barros congregou-se em sessão, cujo memento se infere de terem descido ao escriptorio de Gervasio. Se um caso desatado da historia podesse ser contado aqui, sem enfado de quem lê, diriamos que Thomazinha, vendo-se só e ouvindo estrupiada de cavallo, entreabriu as portadas da varanda, e por um resquicio espreitou o cavalleiro até á revolta da rua para o largo de S. Domingos. Está averiguado que elle a viu tambem com olhos satanicos; mas ella, por sua parte, ficou illesa e quieta de coração. Quando é que a lua, nas alturas onde os poetas lhe mandam declarações de amor, se deu por offendida ou perdeu tanto como isto da sua proverbial castidade? Thomazia podia pleitear isenções com a lua n’este caso e vencel-a em muitas qualidades amaveis.
Desçamos ao escriptorio.
É proposto e não discutido o casamento de Innocencio José de Barros com a ditosa menina. Divergem ainda assim os pareceres, no tocante ao prazo da realisação. Os tios Jeronimo e Felizardo opinam que o rapaz está muito novo. As tias Sebastiana e Florencia abundam n’este parecer; mas Gervasio, bamboando trez vezes a cabeça como quem prefacía uma revelação ponderosa, diz:
--O rapaz tem dezenove annos. Vocês cuidam que o tempo de hoje é o nosso? Estão enganados. No meu tempo, antes dos vinte e cinco, homem que tolejasse com mulheres, era um asno de quem as pessoas serias não faziam cabedal. Eu tinha vinte e oito e alguns mezes, quando pensei em procurar companheira. Isto agora é outra coisa. Voltou-se o mundo. As mulheres estão _desaustinadas_ e os mancebos, assim que lhes pinta o buço, ninguem tem mão n’elles...
--O nosso filho é bem comportado--atalhou a senhora D. Thomazia com applauso do auditorio, que se mexeu nas suas cadeiras de segovia marchetadas de botões de cobre.
--O nosso filho, repetiu com intencional surriso o orador, o nosso filho é como os outros. Eu que lh’o digo é que o sei; e agora... vão vocês saber que Innocencio... namora!
--S. Bento!--exclamou a senhora D. Thomazia, sobrelevando ás interjeições dos outros ouvintes.
--Namora, sim, senhores. Pois que cuidam? Vocês não sabem que elle é rico? não sabem que ha por ahi muita moça que pensa que ha de casar-se rica, porque tem um palmo de cara ageitada? Não sabem--proseguiu elle alteando a voz graduada pela inspiração propria e espanto dos ouvintes--não sabem que assim que ahi chegam brasileiros ricos ao Porto, são os proprios paes das raparigas casadoiras que os mostram ás filhas e as picam para que ellas andem para deante antes que as visinhas os apanhem? Não sabem...--continuou Gervasio José adivinhando o quilate rhetorico do _quousque tandem_ de Cicero, repetido com ascendente energia.--Não sabem que meu cunhado, quando cá veio do Pará, me disse a mim que lá na America não se feiravam tão desavergonhadamente as pretas como aqui as brancas? Se não sabem,--concluiu o velho restaurando a respiração esbofada--saibam que mais de seis mulheres andam na piugada de Innocencio, e de quatro que eu conheço, não ha uma que tenha dez réis de seu, assim que eu levar ao tribunal as lettras reformadas que cá tenho dos paes d’ellas.
D. Thomazia tinha-se benzido tantas vezes, quantas foram os triumfaes _não sabem_. Jeronimo e Felizardo bufavam, e coçavam-se como se quizessem arrancar á unha das cabeças d’elles idéas condignas da sua indignação. As tias do rapaz pareciam corridas do seu sexo e espantadas da pureza dos seus costumes.
Seguiu-se ao silencio de trez minutos esta pausada interrogação de Gervasio:
--Que me dizem agora vocês? É tempo de o casarmos ou não?
--E quanto antes--responderam tios e tias.
--E tu que dizes, Thomazia?--tornou elle voltando-se á esposa, que sobre-estivera silenciosa e cogitativa.
--Que hei de eu dizer?... Estava a pensar no que meu irmão me disse quando cá veio... Homem! e se elle não gosta da nossa afilhada? Amisade é uma coisa, amor é outra... Achas que o nosso filho, se quizesse casar com Thomazia, andaria lá com esses namoros que dizes?...
O marido surriu-se, e, por entre os beiços velhacamente franzidos, murmurou:
--Namorar não é casar... Vocês são mulheres, e não sabem nada do mundo... Eu cá me entendo... O rapaz, já lhe disse, é como os outros do seu tempo. As raparigas desafiam-n’o; elle que lhe ha de fazer?
--É não lhe dar trela!--respondeu pressurosa a senhora D. Thomazia.
--Valha-te Deus, mulher!--redarguiu o esposo, editando segunda vez o surriso sôrna e justificativo de que o homem não resalvára a sua innocencia da peste contemporanea--valha-te Deus! Um homem é um homem. A culpa não n’a tem elles; são ellas. Eu cá me entendo... Se o rapaz fosse creado com as leis e costumes de ha quarenta annos, os namoros custavam-lhe um par de trochadas boas; mas hoje em dia não ha rei nem roque logo que elles asneam. O mais prudente é um pae leval-os ás boas; se não, quando um homem mal se percata, está-lhe em casa o juiz e o escrivão com um requerimento lá de uma trocatintas que lhe tira o filho de casa e o leva para a sua. Isso está-se vendo, e medo não me falta a mim; por isso me tenho posto á espreita, e não faço bulha, que não vá o rapaz atirar dois couces ao apparelho, e por aqui me sirvo. Só aqui ha dias lhe disse: «Innocencio, tem-me lume n’esse olho: não faças cavallada. Olha que as moças que te fazem festas, o que querem é o teu dinheiro; mas vão erradas; que eu o que tenho, posso perdel-o; nemja que um filho m’o leve para onde eu não quero que vá o suor de teus avós, entendes, Innocencio?»
--E vae elle que disse?--interrompeu com alvoroço a senhora D. Thomazia.
--Nem uma nem duas; sentou-se ali áquella mesa e esteve a riscar com a penna sobre o papel uns narizes que ainda lá hão de estar. Aqui teem vocês o que se passou. Agora estou resolvido a dizer-lhe que é minha vontade que elle se case com Thomazia. Se sim, bem estamos; se disser que não... veremos.
--Se elle disser que não,--obviou a esposa bem aconselhada pelas advertencias do mano Luiz--acabou-se; á força não quero casamentos.
Discutiram detidamente os dois conjuges e vieram afinal em que, por suaves modos, se consultasse a vontade do moço.
A vontade da orfã não foi discutida. Discutir o coração da pobre... para quê?!
CAPITULO III
Argumento
Discorre o author ácerca das reticencias com singular originalidade. De como as duas creaturas não se amavam. Thomazia e pilhada a escrevinhar e ingrampa o velho. Intenta elle debalde convencer o filho, chamando-lhe pedaço de asno, como se não fosse plus quam-perfeito. O que Gervasio José entende por amoricos de caquerácá, e outras coisas que do capitulo melhor se verão.
Não se amavam.
Que grande milagre não se amarem!... O uso de se verem duas pessoas entre-amadas gasta-lhes o amor. O uso de se verem as que muito se estimaram, não lh’o deixa nascer. O imprevisto, a surpresa, o dominio incerto e disputado, isto sim, é céo ou inferno, onde o amor rejubila como anjo, ou se estorce em fogo de reprobo.
Não se amavam: é onde bate o ponto.
Innocencio respondeu, rodeando rethoricamente o assumpto, que era amigo de Thomazia; mas que...
E ficou-se.
A menina, recebida a noticia que a madrinha lhe deu, disse que a sua vontade era a dos seus bemfeitores; mas que...
E nada mais.
Adiante das reticencias ponha o leitor uma coisa insignificante chamada «coração». As reticencias podiam dar a misteriosa origem de bastas agonias. Onde ninguem vê nada, estão ladeiras de muitos abismos. Ha ahi muita gente transviada na vereda que leva ao deserto sem horisontes--deserto, onde não enfolha arvore com sombra, nem borbulha fonte que reviva peitos sedentos de vida. Na historia d’essas almas que já aqui levam o letreiro fatal do poeta florentino--almas sem esperança, e, por tanto, sem amor, sem alegria, sem fé, sem Deus--na perdição d’essas, ha um quê indescriptivel, origem fatidicamente inescrutavel. Seria uma palavra? um acto de irreflexão cega? destino? impulso irresistivel da bossa? Não. Foi uma frase cortada, uma expansão sincera afogada pelo pejo, pelo respeito, pelo terror. Foram as reticencias.
Gervasio, posto que transigisse com a insanavel gangrena da geração nova, não abdicava da rigidez de sua authoridade paterna. Avisado do _mas_... de seu filho, saltou logo furioso a filar a peior das conjecturas, imaginando-o em arranjos de se fazer raptar judicialmente por alguma das seis oppositoras ao rapaz.
Assombrou a cara de ameaças, accendeu os olhos de coriscos, fez dos narizes respiradouro de cólera fumegante, e, esbarrando com o filho n’um corredor, expediu do peito estes gritos:
--Estás enganado, marióla! Casar, casarás tu; mas dinheiro meu não vês uma de _x_. Arranja mulher que te dê de comer e vestir e casa; que eu... não sou de uns certos paes que mudam de genio quando os filhos desobedientes lhes levam os netos...
--Mas, meu pae--atalhou Innocencio--eu não o entendo... Quem lhe disse que eu...?
--Lérias, meu amigo! não me conte lonas! Você que respondeu a seus tios a respeito de Thomazia? Venha cá... entre aqui dentro n’este quarto da tia Sebastiana, que não quero que a pequena nos escute...
E, dizendo, tirou pelo filho para o quarto de sua irmã, que tinha saido com a outra para o Lausperenne das Almas de Santa Catharina.
No lanço, porém, de empurrar a porta, soou dentro do quarto um ai espavorido.
Era Thomazia.
--Que é isso?!--perguntou Gervasio.--Que medo tiveste, rapariga?!
--Eu estava aqui...--tartamudou a orfã, encostando-se a uma commoda, sobre a qual estava uma folha de papel e o tinteiro da sua escripta.
--Estavas a fazer o teu traslado?
--Estava... a escrevinhar...--tartamudou a candida assucena acerejando-se lindamente.
--Deixa lá vêr como estás adiantada...
--Ora...--tornou ella, oppondo uma atrapalhada resistencia ao velho, que foi direito ao papel.
Innocencio desconfiaria dos inoffensivos exercicios caligraphicos da sua discipula? Parece que sim; por que, adeantando-se á moderada curiosidade do pae, estendeu o braço e subtraiu o papel por entre os dois.
Thomazia ia começar um desmaio, quando a innocencia reagiu ao insulto nervoso, recobrando-lhe a alma para sair-se bem do apêrto.
Innocencio leu alto, alternando os olhos entre ella e o pae.
_Meu caro amor do meu coração, e unico bem da minha paixão..._
--Ai!--exclamou o risonho velho.--A menina faz versos? ou isso não é da tua cabeça?...
Thomazia respondeu com um tregeito de modestia acompanhado de tosse de pigarro; tudo, porém, lhe realçava a graça do semblante.
O moço continuou, lendo:
_Não tenho palavras com que possa explicar-vos..._
E estacou. É que não continha mais a carta.
Innocencio atirou o papel ao chão, entortou os beiços com dois sorrisos sarcasticos, e murmurou:
--O pae não sabe o que é isto?... Não sabe?
--Não: pois que é isso? respondeu Gervasio.
--É uma carta de namoro.
--Que é?--bradou o velho. Tu escrevias esta carta a alguem, Thomazia?!
A menina sorriu-se e disse com imperturbavel candura:
--Escrevia, sim, senhor; mas não a mandava... Eu bem sei que me não ama a pessoa a quem eu escrevia...
--Querem vocês vêr...--atalhou Gervasio com o carão allumiado de dois raios de esperteza e alegria interior--querem vocês vêr... Tu ainda não percebeste, Innocencio?
--Eu, não, senhor.
--Pois não percebeste, pedaço d’asno?... A carta era para... Diz tu, menina... Para quem era a carta?...
Thomazia olhou carinhosa para o padrinho, e balbuciou muito dengosa:
--Elle bem sabe... mas... não lhe faz conta dizer.
--Entendeste agora, rapaz?--bradou o velho victorioso e inchado de sua soberba.
--Ora, meu pae...--replicou o incredulo fazendo um momo plebeu como a frase--eu não engulo maranhões... Esta carta não era para mim...
--Pois p’ra quem havia de ser, bruto?--retorquiu o pae, batendo palmas na cabeça.
A orfã, apparentando doloroso constrangimento, pediu ao padrinho liçença para sair do quarto.
--Vae, afilhada, que eu bem sei que és uma boa menina--condescendeu o velho.--Pena é que este rapaz não tenha o coração de teu padrinho...
Thomazia saiu de rosto abatido e braços pendentes.
--Ó alma de cantaro!--apostrophou Gervasio--pois tu acharás debaixo da rosa do sol rapariga mais galante e que mais te encha as medidas?!
--Esta carta não era para mim...--tornou Innocencio, relendo a parte poetica, no dizer do velho, e a oração incompleta que parecia ser prosa.--_Não tenho palavras com que possa explicar-vos_--leu elle.--Pois ella que me queria explicar?! Sim; que me queria explicar ella a mim?
--Queres que eu te responda, menino?... Espera, que eu já volto.
Saiu Gervasio, tirando-lhe da mão o papel. Foi entender-se com a afilhada, deteve-se alguns segundos, e tornou:
--Eu te desengano já, pateta. Thomazia estava para pôr adeante d’isto que aqui está... Que diz? Deixa-me lêr: _Não tenho palavras com que possa explicar-vos..._ ahi vae o resto: _a satisfação que recebi quando vossa mãe me disse que nos queria ligar pelos sagrados laços do..._ não me lembra do que ella disse... é uma coisa muito fallada nas comedias... _sagrados laços do... laços do..._
--Do himeneu?--acudiu-lhe o rapaz.
--É isso... É o que ella queria escrever, por que diz que se acovardava de t’o dizer de cara a cara. Percebes, homem? Que estás ahi malucando? A apostar que tens alma de não amar este serafim!! Esta creaturinha tão linda que foi creada comtigo! Rapaz! olha bem para mim! Ouve lá, que isto é a valer. Se a não quizeres para tua companheira, quero-a eu para minha filha. Percebes tu? Para ella ter que comer á farta não precisa de casar comtigo. Olha se me entendes, Innocencio. O pae d’ella sou eu. Tu anda lá por onde quizeres, que eu... cá estou. O filho podem levar-m’o; o dinheiro não... Cuidas que eu não sei a tua vida? (aqui Gervasio espirrou um riso de maganão). Tenho-me calado, por que pensava que lá essas tuas raparigas eram amoricos de cáquerácá. A coisa é seria pelo modo... Deixas a minha afilhada lá por alguma farropilha que te botou o anzol? Bem asno és... Tu cá virás com a cella na barriga... Lá t’avém. Boas noites.
CAPITULO IV
Argumento
Desengano aos fariscadores de escandalos. Como póde o engenho fazer o milagre de conservar personagens honestos até ao 4.º capitulo inclusivé. De como no Porto de ha vinte annos houve homens endiabrados com senhoras, e outras coisas tristes. Por que dizem que a esperança é verde. Entra na historia a senhora Custodia da Porciuncula, e as santas manhas d’ella, que foi amada de um boticario poeta. Vê-se que a menina gostava do enviado de S. Gonçalo de Amarante, mas não lhe entende o estilo. Explica a senhora Custodia o que é o rolo a suspirar pela rola, servindo-se do texto do boticario, que por signal se chamava Gregorio. Dizem-se outras coisas que tocam o coração.
Não se alegrem os pessimistas, os corvos que crocitam onde ha sómente podridão. Cuidam que teem escandalo já no capitulo 4.º? Vem mal parados cá para os personagens das minhas novellas, os quaes só começam a derrancar-se do 5.º capitulo por deante.
Aquella cartinha de Thomazia era casta como os coloquios amorosos das virgens com as estrellas, segundo poetas dizem que ellas se palram a horas improprias e suspeitas. Eu de mim declaro que ainda não surpreendi palestras d’essa especie: o que eu tenho visto é virgens, mais authenticas que as onze mil da legenda, conversando, pelo alto silencio da noite, não já com estrellas, mas com uns corpos opacos, a espaços luminosos por effeito da luz de algum fosforo.
E Thomazia não fazia isto nem aquillo; não conhecia estrella nenhuma, nem dava azeite nos gonzos da janella para a deshoras chover sobre o objecto amado o maná dos favos do coração.
A carta seria coisa, por pequenissima, mal-cabida nas grandiosas proporções d’esta historia, se eu não tivesse avesado o leitor a saber as miudezas de tudo. Vejam se tanta candura merecia a pena de duas ou trez paginas em 8.º!
Foi assim: Aquelle sujeito, que passou galhardamente, no seu estrepitoso fouveiro, Cangostas acima, quando a familia Barros estava congregada no escriptorio, era um moço bem apessoado, enlevo de olhos incautos, e D. João Tenorio quanto cabia nas forças seductoras de um portuense de 1843. Havi-os então de bico revôlto, fataes, menos scientificos que Fausto, e com mais quatro diabos no corpo que o outro. Que devastadores de corações em flôr e do mais!
Se é certo tudo o que se conta dos peraltas portuenses de ha quarenta annos até á regeneração da moral, que data ahi de 1850 para cá, somos todos pouco mais ou menos filhos d’elles, embora nos assignemos com os appellidos dos maridos de nossas mães. Isto, se é verdade, bem que não leze as leis da procreação, é deshonesto e digno de esquecimento. Esqueça-se. Viva tanto esta lembrança como ha de viver o livro que leva a denuncia.
Pois o cavalleiro, freguez do Reimão, e consumidor do linguado frito das hortas do Barros Lima, era um d’aquelles açoites que traziam espavoridos no Porto os anjos do pudor, custodios das mulheres respectivas.