O sangue

Part 1

Chapter 13,769 wordsPublic domain

COLLECÇÃO ECONOMICA

Volumes de in-16.º, de 240 a 320 paginas

ROMANCES DOS MELHORES AUCTORES

A 100 réis o volume (pelo correio 120 réis)

Eis os titulos dos ultimos volumes publicados:

N.º 21--Forte como a morte, por Guy de Maupassant. * N.º 22--A alma de Pedro, de J. Ohnet. N.º 23--Camilla, de Guérin-Ginisty. N.º 24--Trahida, de Maxime Paz. N.º 25--Sua Magestade o Amor, por A. Belot. N.º 26--Magdalena Férat, por Emilio Zola. N.º 27--Os Reis no exilio, por A. Daudet. N.º 28--Divida de odio, por Jorge Ohnet. N.º 29--Mentiras, por Paul Bourget. N.º 30--Marinheiro, por Pierre Loti. N.º 31--A montanha do Diabo, por Eugenio Sue. N.º 32--A Evangelista, por A. Daudet. * N.º 33--Aranha Vermelha, por R. de Pont Jest. N.ºˢ 34 e 35--Odio antigo, por Jorge Ohnet. N.º 36--Parisienses!... romance, por H. Davenel. N.º 37--Ao entardecer!... rom., por Iveling Ramband. N.º 38--A confissão de Carolina, romance. N.º 39--Um casamento no mosteiro, por Alfredo Assolland. N.º 40--Os Parias, original de Francisco da Rocha Martins. N.º 41--O abbade de Favières, romance, por J. Ohnet. N.º 42--A agonia de uma alma, romance, por Ossip Fchubin. N.º 43--Memorias d’um burro, por Madame Ségur. N.º 44--A nihilista, por Catulle Mendés. N.º 45--O grande Industrial, por George Ohnet. N.º 46--Morta d’amor, por Albert Delpit. N.º 47--João Sbogar, por Carlos Nadier. N.º 48--Viagem sentimental, por Sterne. N.º 49--O milhão do tio Raclot, por Emile Richebourg. N.º 50--A confissão de um rapaz do seculo, por Musset. N.º 51--O romance de um principe, por Pierre de Lano. N.º 52--O castello de Lourps, por J. K. Huysmans. N.º 53--Amor de Miss, por J. Blain. N.º 54--A sogra, por Dubut de Laforest. N.º 55--Colomba, por Próspero Merimée. N.º 56--Katia, pelo Conde Leon Tolstoï. N.º 57--Alma simples, por Dostoiewsky. N.º 58--Duplo amor, por J. H. Rosny. N.º 59--Contos fantasticos, por Hoffmann. N.º 60--A princeza Maria, por Lermontoff, traducção de Alberto de Oliveira. N.º 61--Rosa de maio, por Armand Silvestre. N.º 62--Manon Lescaut, pelo Abbade Prevost. N.º 63--O romance do homem amarello, (costumes chinezes), pelo General Tcheng-Ki-Tong. N.º 64--A dama das violetas, (imitação), por F. Guimarães Fonseca. N.ºˢ 65 e 66--Nemrod & C.ª, por J. Ohnet, traducção de Luiz Cardoso. N.º 67--Prisma de amor, por Paul Bonhome.

Os vol. com este signal * estão esgotados mas vão ser reimpressos.

Collecção ANTONIO MARIA PEREIRA

VULGARISAÇÃO DOS MELHORES LIVROS

DAS

LITTERATURAS PORTUGUESA E ESTRANGEIRAS

Romances, Contos, Viajens, Historia, etc., etc.

Volumes in-8.º de 160 a 200 paginas, em corpo 8 ou 10, excellente edição, em optimo papel.

Preço de cada volume 200 réis brochado, ou 300 réis elegantemente encadernado em percalina.

Para as provincias accresce o porte do correio, 20 réis cada vol.

Eis os titulos dos ultimos volumes publicados:

N.ºˢ 20 e 21--=A Irmã da Caridade=, por Emilio Castellar, traducção de L. Q. Chaves. N.º 22--=Migalhas de historia portugueza=, por P. Chagas. N.º 23--=A Cruz de brilhantes=, por A. Campos. N.º 24--=Contos=, por Affonso Botelho. N.º 25--=Contos phantasticos=, por Theophílo Braga. N.º 26--=O mysterio da estrada de Cintra=, por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão. N.º 27--=O naufragio de Vicente Sodré=, romance historico de Pinheiro Chagas. N.º 28--=Vida airada=, por Alfredo Mesquita. N.º 29--=O Bacharel Ramires=, por Candido de Figueiredo. N.ºˢ 30 e 31--=Amor á antiga=, romance de Caïel. N.º 32--=As Netas do Padre Eterno=, por Alberto Pimentel. N.º 33--=Contos=, por Pedro Ivo. N.º 34--=O correio de Lyão=, por Pierre Zaccone. N.º 35--=Vida de Lisboa=, por Alberto Pimentel. N.º 36--=Historias de Frades=, por Lino d’Assumpção. N.º 37--=Obras primas=, por Chateaubriand. N.º 38--=O Exilado=, romance historico, por Mauricia C. de Figueiredo. N.º 39--=Poema da Mocidade=, por Pinheiro Chagas. N.ºˢ 40 e 41--=A vida em Lisboa=, por Julio Cesar Machado. N.ºˢ 42 e 43--=Espelho de Portuguêses=, por Alberto Pimentel. N.º 44--=A Fada d’Auteuil=, por Ponson du Terrail, traducção de Pinheiro Chagas. N.º 45--=A volta do Chiado=, por Beldemonio (Eduardo de Barros Lobo). N.º 46--=Séca e Méca=, por Lino d’Assumpção. N.º 47--=Ninho de guincho=, por Alberto Pimentel. N.º 48--=Vasco=, por Arthur Lobo d’Avila. N.º 49--=Leituras ao serão=, por Antonio Xavier Rodrigues Cordeiro. N.º 50--=Luz coada por ferros=, por D. Anna Augusta Placido. N.º 51--=A flôr secca=, por M. Pinheiro Chagas. N.º 52--=Relampagos=, por Armando Ribeiro. N.º 53--=Historias Rusticas=, por Virgilio Varzea. N.º 54--=Figuras Humanas=, por Alberto Pimentel. N.º 55--=Dolorosa=, por Francisco Acebal, traducção de Caïel. N.º 56--=Memorias de um Fura-vidas=, por Alfredo Mesquita. N.º 57--=Dramas da Côrte=, por Alberto de Castro. N.º 58--=Os Mosqueteiros d’Africa=, por J. da S. Mendes Leal. N.º 59--=A divorciada=, por José Augusto Vieira. N.º 60--=Phototypias do Minho=, por José Augusto Vieira.

OBRAS

DE

CAMILLO CASTELLO BRANCO

EDIÇÃO POPULAR

LIX

O SANGUE

VOLUMES PUBLICADOS

N.º 1--Coisas espantosas. N.º 2--As tres irmans. N.º 3--A engeitada. N.º 4--Doze casamentos felizes. N.º 5--O esqueleto. N.º 6--O bem e o mal. N.º 7--O senhor do Paço de Ninães. N.º 8--Anathema. N.º 9--A mulher fatal. N.º 10--Cavar em ruinas. N.ºˢ 11 e 12--Correspondencia epistolar. N.º 13--Divindade de Jesus. N.º 14--A doida do Candal. N.º 15--Duas horas de leitura. N.º 16--Fanny. N.ºˢ 17, 18 e 19--Novellas do Minho. N.ºˢ 20 e 21--Horas de paz. N.º 22--Agulha em palheiro. N.º 23--O olho de vidro. N.º 24--Annos de prosa. N.º 25--Os brilhantes do brasileiro. N.º 26--A bruxa do Monte-Cordova. N.º 27--Carlota Angela. N.º 28--Quatro horas innocentes. N.º 29--As virtudes antigas--Um poeta portuguez ... rico! N.º 30--A filha do Doutor Negro. N.º 31--Estrellas propicias. N.º 32--A filha do regicida. N.ºˢ 33 e 34--O demonio do ouro. N.º 35--O regicida. N.º 36--A filha do arcediago. N.º 37--A neta do arcediago. N.º 38--Delictos da Mocidade. N.º 39--Onde está a felicidade? N.º 40--Um homem de brios. N.º 41--Memorias de Guilherme do Amaral. N.ºˢ 42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa. N.ºˢ 45 e 46--Livro negro de padre Diniz. N.ºˢ 47 e 48--O Judeu. N.º 49--Duas épocas da vida. N.º 50--Estrellas funestas. N.º 51--Lagrimas abençoadas. N.º 52--Lucta de gigantes. N.ºˢ 53 e 54--Memorias do carcere. N.º 55--Mysterios de Fafe. N.º 56--Coração, cabeça e estomago. N.º 57--O que fazem mulheres. N.º 58--O retrato de Ricardina. N.º 59--O sangue. N.º 60--O santo da montanha.

_CAMILLO CASTELLO BRANCO_

O SANGUE

ROMANCE

1907

PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA Livraria editora e Officinas Typographica e de Encadernação Movidas a electricidade _Rua Augusta--44 a 54_ LISBOA

1907

OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO

Movidas a electricidade Da Parceria Antonio Maria Pereira _Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.º e 2.º andar_

LISBOA

INTRODUCÇÃO

--Como tu estás conservado, homem!

Exclamou, n’um d’estes dias, o meu amigo Antonio Joaquim, encarando comigo, na revolta d’uma esquina.

--Nem pés de gallinha, nem calvo, nem bigode grisalho, os dentes todos!--proseguiu elle, encruzando os braços sobre a placida cornija do abdomen.

«Nem sequer duzentos kilos de toicinho, envolucro sujo com que a natureza veste os seus filhos maiores de quarenta annos, para que o alfaiate não possa jámais embonecal-os com as graças seductoras d’um tisico sorvido pelos vampiros do amor!... És invejavel! Pois convence-te de que és velho!

--Vinte annos ha que eu me convenci, amigo Antonio. Passados mais alguns, morri. Hoje, o que vês n’este arcaboiço, é uma alma insepulta e penada que se offerece penitente e docil ás tuas injurias. Não espremas, comtudo, a esponja, meu amigo. Sabe que todas as passadas, que dou, vão na vereda escabrosa do meu calvario...

--Devo prevenir-te que não venho disposto para fazer via-sacra--atalhou o meu velho amigo.--Se vaes até ao calvario, faz lá recommendações ao mau ladrão, e diz-lhe que, se florescesse em Portugal, mil oitocentos e trinta e cinco annos depois, seria visconde de Gestas, visto que elle se chamava _Gestas_. Diz tambem a Dimas, ao bom ladrão, que os do nosso tempo todos são bons como elle, e por isso todos se salvam. E, se quizeres questionar com algum dos apostolos, caso lá os topes, diz-lhes que, presentemente, a gente graúda, á imitação de Christo, considera os bons ladrões dignos do céo; e que, desde o facto algum tanto reparavel de ser perdoado um salteador com prejuizo de terceiro, todos os salteadores «de sobrado alto», como lhes chama a _Arte de furtar_, são, sobre perdoados, honrados,--o que até certo ponto é christianismo progressivo.

--Então, como te vae?--atalhei eu, cortando a insulsa calumnia apontada ao brioso peito de muitos dos meus melhores amigos.

--Vae-me bem, não vês? Tenho esta grande barriga em que está sepultado o melhor do meu _eu_ subjectivo, e tenho gôta n’este joanete do pé direito. Tu, pelos modos, és alma penada, e eu sou alma despennada, que é peor. Tu ainda sobes ao calvario e respiras ar desafogado, em quanto eu a custo me desatasco da lama. Em summa, estou velho...

--E rico?

--Tambem.

--E feliz?

--Feliz como um cerdo amarrado com uma corrente de ouro. Tu não sabes ainda o que é a felicidade da pobreza, homem! Não soubeste ainda abrir o thesouro em que a Providencia divina te remetteu o arnez impenetravel aos golpes da desgraça...

--Não sei... Terei eu lá em casa isso?!

--Tens, ingrato, se tens!... É o trabalho.

--Ah!

--Esse _ah!_ é alvar. O trabalho é como aquelle anjo que em fórma de pomba pairava sobre a face de Santo Adelino adormecido, para que os raios do sol não lhe acordassem os sentidos e a consciencia da dôr. O trabalho é um absintho celestial, que suavemente embriaga e entorpece as faculdades cognoscitivas atormentadoras do infeliz ocioso. O trabalho é a compensação da pobreza...

--E a riqueza que é? uma calamidade que dispensa a pomba de Santo Adelino ... não é?

--Se alguem ha ahi, até certa idade, verdadeiramente feliz por ella,--o que não creio--a riqueza é um abutre cruelissimo que principia a espicaçar o rico, assim que o espelho, e a dispesia, e as insomnias, e a indifferença das novas, e a consideração das velhas, e o commedimento dos rapazes em sua presença se conjuram para lhe dizer: «envelheces». Aqui tens o verdugo, que dá o laço ahi pelos quarenta e cinco annos, e aperta e arrocha, até aos setenta, até aos oitenta, prolongando-lhe o supplicio, ao apuro de lhe fazer invocar a morte, execrar o ouro, amaldiçoar os homens e blasfemar de Deus.

--E que me dizes do pobre que, na tal idade das insomnias e dispepsias, carece de saude para o trabalho e do trabalho para o pão de seus filhos?...

--Eu te digo...

--Podes responder d’uma assentada a outra pequena duvida: se será mais infeliz o rico enfermo rodeado de filhos fartos, do que o pobre alanciado de suas dôres e dos olhos supplicativos de sua familia?

--Ahi vens tu com o estilo!... Se entras a commover-me, cessa o nosso debate que é todo philosophico e ouro puro de Droz, de Franklin e d’outros moralistas...

--Que moralisavam os desgraçados lá d’entre as cortinas adamascadas dos seus gabinetes, tapetados de alcatifas de tres pêllos... Se elles fossem os desvalidos, quem lhes ensinaria a moral da paciencia?

--Socrates, Philo, Jesus Christo, João Jacques Rousseau...

--Que sacrilega camaradagem!... Rousseau havia de ensinar os paes pobres a engeitar os filhos... Meu caro Antonio Joaquim, rico sei eu que estás; mas a tua philosophia não é a peça mais valiosa que possues. Eu não sei o que póde ensinar-me Socrates nem Philo. De Christo sei tres palavras em latim e espero que no outro mundo os anjos m’as decifrem. _Beati qui lugent_ «felizes os que choram» disse o amigo dos pobres. Como ninguem o tinha dito, nem escripto, nem pensado, a interferencia da divindade na desprezada condição dos infelizes começou na hora em que foram ditas as palavras «felizes os que choram». E quem as disse não podia ser mero homem... Em summa, se queres consolar algum engeitado da devassa fortuna, não lhe reprezes as lagrimas com o dique da philosophia; deixa-o chorar. Lá estão as estrellas que saem fóra do céo para levarem ao seu creador a relação das agonias que gemem de noite não vistas nem escutadas de alguem.

--Estás comigo...

--Mas não estou com o teu Rousseau.

--O meu Rousseau... não lhe chames meu, que eu não o tenho nem o li; citei-t’o por me parecer incrivel que o não tivesses lido, andando elle nos alforges de todos os fisicos que ungem de unguentos a lepra da humanidade. Pois tu imaginas que eu leio coisa nenhuma? Faz-me justiça, se queres que eu admire as tuas novellas sem as lêr... A proposito de novellas, lembrei-me ha dias de ti, n’um lance que me pareceu original...

--Um lance original!...--atalhei eu.--Coisa que dê um livro original!?

--Um livro? isso não sei; mas, se é verdade o que ouvi dizer de ti...

--Que ouviste dizer de mim?...

--Franqueza! Tu não te offendes, nem eu sei se é louvor, se offensa a censura: ouvi dizer que fazias dez livros originaes de uma idéa sem originalidade nenhuma. Isto é verdade?

--Parece-me que sim... Eu tenho calculado que a Providencia me concedeu dez idéas: foi prodiga comigo. Estas idéas repartidas por cincoenta volumes conferem com a conta da censura. Vaes tu dar-me uma idéa original: tenho que explorar no restante da vida... Então que foi?

--Não é historia que se conte na rua. Vem jantar comigo. Tu ainda comes? Ás almas insepultas é concedido errar, em volta da lagôa estigia d’uma terrina de sôpa do «hotel Francfort»? Não ha inconveniencia em que as almas penadas assimilem alguns bocados de boi assado? Se não ha, vem, puro espirito! Jantarás comigo alguns dias; e no ultimo, ao troar a trombeta clangorosa, os teus ossos, melhormente vestidos, não irão perfurando a encontrões as carnes dos que merreram gordos e apopleticos. Vens?

--Vou. Posso desde já dizer ao meu editor que descobri a idéa numero onze? E que a descobri na transparencia da tua cabeça?

--Isso não. Se por ahi desconfiam que tenho terço de idéa, minam-me os creditos. Deixa-me fruir a reputação que me faz insuspeito á confiança de pessoas com quem tenho negocios. A besta é coisa superiormente importante, desde que S. João, o apocaliptico, viu uma corpulentissima. Todas as bestas, mais ou menos aparentadas com a do vidente de Pathmos, trazem boa sina comsigo. Pelo menos, emquanto eu tiver que vender e comprar faz-me a mercê de me não vilipendiar com a denuncia de que eu te dei uma idéa... Lembra-te dos desgostos que me iam dando as tuas VINTE HORAS DE LITEIRA. Foi preciso que o teu livro esquecesse para que eu recobrasse os creditos fallidos.

--E esqueceu já o meu livro?!

--Ora!... se esqueceu!... quando eu voltei ao Porto, quinze dias depois da publicação, apenas se lembrava d’elle consternadamente a empreza editora. Vamos jantar.

O repasto do hotel Francfort foi leve.

Quem come francezmente cria alma; corpo é que não.

Aquelle magro môlho em que boiam cascas farináceas não entulha os ductos da intellectualidade. A viscera vital por excellencia não escoiceia o visinho de cima como succede nos casos em que o esôfago arfa sacudido pelo estomago repleto de fibrina. O coração agita-se docemente quando o novo chilo se está elaborando.

Respeitado nos seus altos camarins e não azoado com o estridor dos dentes e das funcções digestivas, o espirito exercita-se em pleno gôso de suas faculdades.

A alimentação franceza póde levar á dispepsia, sem duvida; porém, o que no homem ha digno da maior estima e merecedor de toda a cautela, a alma, essa asseguro eu que não tem senão um passo a dar entre a cosinha franceza e a idealisação germanica. Se os jejuns espiritavam os cenobitas de Isthria até entreverem Deus por um postigo do céo, as aguas aromaticas das caçoulas do «hotel Francfort» subtilisaram o espirito do meu amigo Antonio Joaquim a uns altos devaneamentos, que me não pareciam d’elle nem dos seus annos.

Fallava-me da nossa mocidade como quem perdêra com ella muitas coisas bellas e irreparaveis. Elle, que não tinha perdido senão o direito que todo o homem tem a fazer uma dada somma de tolices! Elle que, entre o berço e o thalamo, apenas teve tempo de crescer, engrossar e depôr no regaço de sua esposa um coração cheio de casta ignorancia das coisas boas e más d’este mundo!...

Que saudades do passado eram pois as d’elle? Seriam as dos prazeres não experimentados na idade competente, e dos quaes o coração vasio lhe estava agora, no declive da vida, a pedir contas? Assim como a demasiada cautela da dieta enfraquece o estomago e o predispõe á anemia e á enfermidade, porventura, guardadas as distancias que topograficamente não são grandes, ao coração minguado de alimentos fortes virão afinal as doenças resultantes da inactividade violenta a que o forçaram preceitos ou circumstancias?

Parece-me que sim.

De qualquer das maneiras, Antonio Joaquim, discorrendo tristemente sobre a brevidade da vida, e o reflorir da alma, quando o fogo da cabeça já não derrete a neve eminente de quarenta e tantos invernos, fez-me dó e ao mesmo passo desafiou-me a chorar com elle: situação ridicula que sustentamos por espaço de meia hora.

Elle adivinhava o que perdêra; e eu sabia o que tinha perdido; elle anhelava imagens lucidas que tardiamente se lhe espelhavam na alma; e eu tocava em mortalhas que se desfaziam em cinzas.

Estas angustias eram entremeadas com alguns tragos ardentes de cognac, que mais me accendia no peito rebates de saudade de um tempo em que o absinto me era doce e refrigerante como a orchata e capilé d’estes meus caducos dias emplasmados em linhaça e refrigerados com soda-wather.

As lagrimas estancaram-se. E eu, para divertir o animo da inconsolavel tristeza, perguntei ao meu amigo:

--E a idéa original que me prometteste?

--Vou dar-t’a. O prefacio foi longo, mas ajustado ao assumpto. Fallei da nossa mocidade, porque a historia principia então. Ha vinte e dois annos que eu te conheci no theatro de S. João. Lembras-te?

--Muito. Quem fez as apresentações foi um meu contemporaneo, que vinha de Coimbra comigo. Chamava-se...

--Nicoláo d’Almeida; vinha com o acto do 4.º anno.

--Ainda vive?

--Vive morto.

--Como? Vive morto?!

--Lá chegaremos... Representava-se a _Degolação dos Innocentes_, e era um domingo de tarde...

--Bem me lembro--atalhei eu.

--Estás certo d’aquelle pedaço de omoplata de carneiro que caiu sobre ti d’um camarote de 3.ª ordem?

--Se estou!

--Muito folgo que te lembres. O Nicoláo apanhou-a do chão n’um lenço que levantou pelas pontas, e convidou-nos a seguil-o ao camarote onde o cordeiro, tambem innocente, soffrêra as consequencias da degolação. Recordas?

--Mal. Ajuda a minha memoria que se está deliciando n’essas recordações liricas.

--Fomos e vimos uma familia de varios Herodes, descarnando as costellas da victima com um ranger de dentes bastante a justificar que ainda temos que farte sangue e queixos hellenicamente ruidosos, d’aquelles que Homero cantou. No camarote estavam, á primeira luz, varios sujeitos gordos e mulheres de condigno bojo que representavam em geral e cada qual em particular um curral de carneiros assados e digeridos. As esposas e filhas e irmãs, ou o que eram d’aquelles antropófagos, tinham as mantilhas penduradas dos cabides, dando ao interior do camarote um aspecto lugubre de ágape gentilica onde as victimas sacrificadas fossem logo comidas. Um dos sacrificadores, que parecia o mais auctorisado por ter em punho a cabeça meio descascada do cordeiro, suspendeu-se no lanço de a levar aos dentes engatilhados, e, arrotando, regougou:

«Os senhores que querem?!»

Nicoláo fez uma grave mesura, estendeu o braço para dentro com o lenço pendurado e respondeu solemnemente:

--Foi d’este camarote, sem duvida, que uma das senhoras deixou cahir a parte respectiva do bôdo?

--Do bode??--perguntou o chefe dos cannibaes, forçando com um arranco interior a descida do bocado que lhe entopia os gorgomilos.

--Do bode,--tornou Nicoláo--se vossa senhoria quer que seja bode, carneiro, porco-espinho ou como é que deva chamar-se o animal comido e ex-proprietario d’esta pá.

--Foi o Felizardo que deixou cair...--disse uma creatura femeal, relançando a vista repreensiva sobre o sujeito que se chamava Felizardo.

No entanto, o nosso amigo, com ademans de quem entrega uma luva que alguma formosa senhora lhe deixou feliz e acintemente cair ao alcance da mão, acercou-se d’uma das trez senhoras esphericas, e deu ares de lh’a querer depositar no regaço, largando trez pontas do lenço.

--Ai, credo!--exclamou a velha sacudindo as mãos e encolhendo contra o tabique a parte proeminente da região umbilical, expressões que deves empregar, se escreveres a historia, por que o termo do uso commum é d’aquelles que tresandam a theatro anatomico. Lembras-te d’isto?

--Como se o estivesse vendo--confirmei eu alanciado de saudades.--Até me recordo de uma bellissima rapariga que estava n’esse camarote.

--Bem sei eu por quê... Era ella uma das formosuras que ficam impressas na alma, atravez de annos e seculos, como as virgens de Urbino ou as outras imagens menos virgens de Ticiano. Que sabes tu d’essa mulher que viste ha vinte e dois annos?

--Nada: creio que nunca mais a encontrei... decerto não. Apenas me lembro de que Nicoláo d’Almeida me escreveu para a provincia, dias depois do episodio do carneiro, e me dizia que estava apaixonado pela mulher divina que comia carneiro. Não dei peso á linguagem chula da noticia, nem tornei a vêr Nicoláo d’Almeida. Alguem me disse depois que elle vivia relegado no seu solar do Alto Minho, e que não concluíra a formatura. Ha mais de quinze annos que ninguem me fallou d’elle. Agora me dizes tu que o Nicoláo vive morto... Coitado! Queria ainda vel-o n’esse estado extravagante!... Começo a crer que me dás uma idéa original...

--Lá chegaremos... O caso é que te recordas bem da menina que se escondia entre as mulheres gordas com uma andorinha entre trez peruas?

--Sim.

--Pois então ahi tens um dos personagens componentes da idéa original que te offereço.

--Quem? a tal?! Aquella familia como _original_ podia figurar nas exposições fotograficas; mas considerada _idéa_ não me daria para um capitulo. Pelo que vejo, a idéa offerecida com tão magnanimo desinteresse é a pá descarnada do carneiro!...

--Principia ahi pontualmente. Olha que começos teve uma tragedia obscura!... Continuemos as reminiscencias de 1845. Nicoláo, ao dar de rosto na mulher que se retraía de ser vista, quedou-se dois segundos a a contemplal-a, perdeu o engraçado atrevimento, e saíu do camarote canhestramente como se fosse corrido. Quando desciamos a platéa, disse elle: «Eu vi aquella mulher em Caminha ha anno e meio; e, desde que a vi, outra imagem não pude mais vêr em meus sonhos, nem encontrei mulher que m’a fizesse esquecer. Aquella é a minha inevitavel fatalidade!»

--D’isso é que eu de todo me não recordo.

--Talvez lh’o não ouvisses. Entramos á platéa. Nicoláo nunca mais desfitou a vista do camarote da 3.ª, sem que visse a linda cabeça de Thomazia (chamava-se Thomazia) por entre os volumosos commensaes. Saimos ao vestibulo, concluida a tramoia de Herodes, e esperamos que ella descesse. Tu já tinhas saído no intervallo do 3.º acto, e por isso não assististe a um rasgo de generosidade com que pódes fechar originalmente a introducção do teu romance.