Part 9
--Já conhece os poetas pelo nome--respondeu o pae com alegria--O Sotto-Mayor é um rapaz de Villa do Conde, por cuja musa a pequena perdeu a noite, e perderia a vida, se elle lhe promettesse uma eternidade de sonetos.
--Já é paixão de versos!--tornou a mãe de Alvaro--Sabes tu fazer versos, meu filho?
--Não, minha senhora: sou ainda muito nova--respondeu Alvaro--A prima Leonor é que tem lido muitos versos.
--Já li o Bocage;--acudiu a menina, acompanhando a expressão de tregeitos exquisitos--li tambem o _Belmiro_, e as poesias do Garção, e do Quita, e do Lobo, e muitas outras que o papá lá tem. E a senhora D. Catharina de Balsemão, e a senhora marqueza de Alorna gostam muito de me ouvir recitar sonetos, e ensinam-me quando eu não declamo bem.
--Bem está--disse Maria--estás uma doutora, minha sobrinha!... Queres tu ser freira para gozares as delicias d'um outeiro de tres em tres annos?
--Freira! Deus me livre! Eu não sei como ha quem possa viver n'um convento! Antes morte que tal sorte!
O morgado achou muita graça á esperteza da menina, e concordou com ella em não saber tambem como houvesse gente que quizesse sequestrar-se do mundo, que, segundo elle, não era tão mau como os misanthropos o calumniavam.
Todos os passeantes se empenharam n'esta questão, que Maria da Gloria defendia encarecendo a felicidade dos mosteiros, quando reina a paz no coração e na consciencia. N'isto appareceu o poeta de Villa do Conde, e Leonor, estremecendo, exclamou:
--Elle lá vem! é elle!
--Quem?--disseram algumas vozes.
--O meu poeta!
--O teu poeta!--disse, com molesta accentuação, Maria da Gloria: e chamando a segredo o cunhado, disse-lhe ao ouvido:--Não deixe assim fallar sua filha, que não é bonito aquillo!...
--Por que, mana?--disse em voz alta o morgado--Ahi está o effeito dos conventos! Temos bioquice! Que tem que ella diga _o seu poeta?_ Palavras n'aquella bôca não significam nada, mana Maria! É uma criança: deixal-a fallar.
Miguel de Sotto-Mayor tinha chegado ao grupo, e cortejou-o com desembaraço e elegancia.
--Viva o poeta!--disse Sebastião de Brito,--Eu amo os poetas, e gosto das suas relações. A sua bella musa está accesa para a noite?
--A minha musa--disse o moço--está sempre fria; e, se alguma fortuna tiver, devel-a-ha aos calorosos louvores que vossa excellencia lhe dá, posto que os não mereça.
--Pelo contrario: minha filha está encantada dos seus versos, e já sabe quem o senhor é. Alli tem uma criança que já leu os melhores poetas portuguezes!...
--Razão de mais--redarguiu o de Villa do Conde--para não gostar das minhas poesias incultas e sem mais merito que o da natureza.
O poeta foi indo no grupo, respondendo com frivolidades a outras do palavroso morgado, e agradecendo com delicados olhares á expressão penetrante dos olhos de Leonor, que parecia embevecida nas palavras d'elle.
Esmerou-se a communidade em lauto e primoroso banquete n'aquelle dia. A dona abbadessa, que tambem era capitão-mór de Vairão, infringiu amplamente a regra da ordem, admittindo as familias de Lisboa a jantarem com ella e outras religiosas de mais graduação. Ao mesmo tempo, os poetas, que o não eram senão de noite, comeram durante o dia como quem não fora alli senão para versejar, e honrar o refeitorio das monjas. Estas, porém, de ricas e generosas que eram, não se queixaram, como as do tempo d'el-rei D. Diniz, do muito que os ricos homens e infanções lhes comiam[9].
Os hospedes do convento sahiram ao cahir da tarde para o cruzeiro do pateo. Era um formoso intardecer de estio o d'aquelle dia de Setembro. Maria da Gloria não respondia ás alegrias de tanta gente que a felicitava, e não sabia entender a tristeza d'ella. Fallavam-lhe da sociedade de Lisboa as suas amigas desejosas de lá se verem. A melancolica senhora respondia:
--Que tenho eu que vêr com a sociedade!... O braço, que fere com a infamação jamais recua arrependido sem deixar ferida incuravel. Eu não detesto, mas desprezo o mundo. Dêem-me uma casinha e o meu filho, que eu não quero mais. Se este menino tivesse morrido, ha muito que eu dormiria na claustra d'esta casa; ou, se Deus me quizesse provar até mais tarde, nunca sahiria d'aqui.
Manoel Teixeira ouvira estas palavras, e interrompeu-as com muita amargura:
--Tens-me em conta de nada na tua vida, Maria?
--És o pae de Alvaro: estimo-te e respeito-te, hoje como sempre. Que mais queres de mim? A felicidade da mulher é muito fragil, e de certo irreparavel, depois que a matam com a peçonha da ingratidão... Desculpa-me, meu amigo. Não queiras milagres, que as orações das servas de Deus não conseguiram. Houve ahi muito quem pedisse ao Senhor um raio de conforto e de alegria para mim: o que o céo me concedeu foi a conformidade, e o amor d'este menino.
Maria já evitava o praticar a sós com seu marido. Magoavam-na os termos amorosos com que elle enfeitava a sua paixão para dar lenitivo aos pungimentos do seu remorso. Não o amava ella: afoutamente o digamos em nome da verdade e da natureza: não podia amal-o. Deveria perdoar e perdoou á paixão do ciume, enfurecido pelo orgulho; mas ao pertinaz desprezo de onze annos, ao silencio affrontoso áquellas apaixonadas cartas de mãe, que implorara em vão deixar no rosto de seu filho as ultimas lagrimas, não, não podia perdoar a virtuosa mulher.
Ao diante veremos que nobres e singulares espiritos eram os de Maria da Gloria.
Estamos na ultima noite de outeiro. A partida das familias para Lisboa foi marcada para as quatro horas da seguinte madrugada. Os poetas encarregaram-se de espancar o somno dos viandantes até essa hora, e galhardamente se tiraram da dificuldade. Bons tempos aquelles em que a poesia era inimiga do somno!
Quem de certo nunca bocejou foi Leonor. O vate de Villa do Conde excedeu-se a si proprio no mimo, na doçura, no amoravel dos seus sonetos e decimas. A paixão palpitava em todas as metrificações: no soneto, impetuosa e energica; na decima, toda em flores e maviosidades. O Ferro ouvira-lhe alguns versos de relance, e cantou-o assim n'um soneto, que, a meu pesar, me não repetiram completo:
Que dôces rullos rulla aquelle pombo A pomba enamorada e toda secia! Cuidado! que a virtude soffre um tombo, E vamos ter alguma peripecia!
Miguel de Sotto-Mayor, posto em riso pelas chufas da plebe, azedou-se contra o repentista portuense, e quiz desafial-o. Intercederam as senhoras religiosas, conscias do conflicto, e Leonor pediu com ellas, dizendo em voz de quem manda e não pede:
--Faça o que eu lhe digo, senão não sou sua amiga.
Ora o Ferro, que fingira escassamente entender que o desafiavam, apasiguada a sanha do trovador de Villa do Conde, deu mostra da sua impenitencia n'um soneto de cujos tercetos resta memoria:
. . . . . . . . . . . . . . . . . . Tão negro quadro meu pincel não toque! Calcarem do perdão as santas leis, Matarem-me por causa d'um remoque!...
Que homem tão cruel, ó Deus, fazeis! Se me elle ao ventre aponta o agudo estoque, Que diluvio de vinho e de pasteis!
Não averiguei as innocentes manhas de que usou Leonor para sahir da roda das senhoras, e sumir-se entre as criadas, que conversavam em prosa com os seus conhecidos, em janellas afastadas dos pontos concorridos. Miguel de Sotto-Mayor devia ter aviso d'esta mudança, porque desalojou tambem do local dos seus triumphos, dando a desconfiar de que sahira estomagado das facecias do doutor Ferro. As criadas convisinhas de Leonor ouviram este breve dialogo entre a menina e o poeta:
--D'aqui a uma hora vamos para Lisboa--disse ella.
--Para nunca mais nos vermos?!--respondeu elle--Este outeiro foi-me fatal! Permittisse o céo que os meus olhos se fechassem antes de eu vos ter visto, Leonor!
--Póde ser que eu vos torne a vêr; mas vós me esquecereis quando me não virdes!
--Primeiro esquecerei a vida, sentirei morrer o coração devodo de saudades. Jurai-me um eterno amor! Promettei escrever ao infeliz poeta, que, d'ora em diante, contará pelas lagrimas os minutos da existencia.
--Juro amar-vos eternamente...
--Juraes?! mas esqueceis que já sois a esposa promettida de vosso primo?
--O meu coração é livre--replicou ella...--Adeus, que me procuram; adeus, amai-me, e tende esperança!
Estavam as senhoras já na portaria, quando Leonor desceu. Faltava Maria da Gloria, e havia no convento, além do reboliço, afflicção em muitas freiras. Maria da Gloria tinha entrado no quarto de soror Joanna das Cinco Chagas, a dar-lhe o ultimo beijo, e desfallecera nos braços da religiosa e de Cecilia. Voltara a si, rompendo em gemidos, como se a partida fosse um arrancarem-na á felicidade. Alvaro chorava ao pé d'ella. Eufemia já pedia que a deixassem alli ficar com sua ama e com o menino. A santa, simulando coragem, impunha-lhe o dever de demudar o semblante para alegre, e feliz do bem-estar de seu marido. A força dos acontecimentos venceu a final; e Maria da Gloria, abraçando com phrenesi o filho, cobrou animo para trocar por elle a amisade angelica d'aquellas senhoras.
Rompia a luz da manhã, quando partiram, caminho do Porto. Tocou a matinas o sino de Vairão. As religiosas entraram no côro, e já encontraram soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor. Findos os psalmos, a santa ergueu a sua voz, sempre ouvida como a palavra d'um anjo, e disse:
--Suppliquemos á Misericordia Divina que aceite o calix da innocente Maria da Gloria, como desconto ás futuras amarguras d'esta familia, se os mysteriosos juizos de Deus lh'as reservam.
Quaes seriam as tuas visões, ó santa!?
[Nota 9: Aos leitores da _Introducção_ ao _Diccionario dos nonymos_, de Fonseca, é bem conhecida esta antigualha, divulgada por João Pedro Ribeiro: _Dom Danys, pela graça de Deus, Rey de Portugal... A vos meu Meyrinho moor saude. Sabede, que a abadessa do de Vairam mi envyou dizer que Ricos homens e Infançoens, etc. que son naturaes do dito moesteyro veem a este moesteyro comer as turas e albergar i desmesuradamente, e con mays ca he contheudo no meu Degredo, de guisa que ela e as outras Donas, que iam a servir a Deus, não podem i viver, nem manter o dito moesteyro; isto non tenho eu por bem, se asi he; por que vos mando que não sofrades aos desusuditos, etc. Unde al non ffaçades se não a vos me tornaria eu porem, e faryavos coreger de vossa cassa todos danos, etc._ Que fidalgos aquelles que iam de caso pensado albergar-se no mosteiro para comerem as naturas (quer dizer--os rendimentos) das monjas!]
IX
_Proichè suo fui, non ebbi ora tranquilla, Nè spero aver_...
PETRARCA (Rime).
Em breves termos darei conta do viver de cinco annos em casa de Manoel Teixeira de Macedo. Seria talvez do agrado do leitor a historia minudenciosa dos menores actos, que naturalmente se encadearam para reflorir a primavera de Maria da Gloria, e adoçar o agro que uma supposta deshonra devêra ter instillado no animo do banqueiro. É um engano. As primaveras da alma, se a aza negra d'uma tormenta as esfolha, nunca mais reverdecem; e os algozes, que afiam o gume de seu orgulho para lhe immolarem sem piedade as victimas, a si se golpêam, e tal chaga abrem de remorso que nem o balsamo do arrependimento a cerra.
Maria da Gloria, ao entrar em casa de seu marido, lhe disse a elle, sem testemunhas:
--Recebes em tua casa uma tua _irmã_, meu amigo. D'esta casa dá-me um quarto ao pé do quarto de teu filho. Se isto me concederes, enches o meu coração ambicioso: nada mais quero; e violentar-me a acceitar mais do que isto é mortificar-me. Acostumei-me á clausura: hei-de continual-a aqui. Se me lá era penosa por me Deus abençoar com o ardente amor de mãe, aqui, na tua casa, serei feliz porque tenho commigo tudo que me prendia á vida pela esperança. Não me leves á sociedade, nem me peças que a receba n'esta casa. Ser-me-ia doloroso contrariar-te, ou contrafazer-me. Não alteres, tu, Manoel, os teus habitos. Continua a ser o que eras antes de me ir buscar para a tua companhia. Nada te pergunto do teu passado, nem quero que m'o digas: basta que eu o tenha ouvido da malevola curiosidade de pessoas, que, ainda ha quinze dias, te absolviam a ti para me infamarem a mim. Isto bastaria para eu odiar o mundo, e presar viver em odio d'elle. A tua bondade tem-me ouvido com indulgencia para ser em tudo generosa. Dás-me assim a vida, que te peço, de portas a dentro?
--Vive como quizeres, Maria--respondeu Teixeira com semblante magoado--Hei-de obedecer a quantas condições estipulares, se d'ellas depender o teu bem-estar. Disseste-me que eras, em tua casa, meramente minha irmã.
--Tua irmã.
--Confirmas o que já me tens dito: o teu coração morreu para mim.
--Coração de irmã não é coração morto, meu amigo. A esposa has-de conhecel-a nos extremos com que ama teu filho, e na estima respeitosa com que ha doze annos te presava. A mesma te sou hoje e serei sempre.
--Comprehendi... Serás obedecida, Maria. Não me revolto contra o castigo: descontar em amarguras a culpa é allivio de remorso nas almas, que não estão de todo pervertidas. Acceito tudo.
E cumpriu religiosamente.
Aquella italiana do palacio de Belem achou-se de repente augmentada em riqueza; mas a riqueza era o ultimo saldo de contas. O millionario dera-lhe, com o dinheiro, o conselho de retirar-se a Napoles com os dous filhos. A cantora ficou com o dinheiro, e devolveu-lhe o conselho. Se até alli a perfidia fôra clandestina, d'alli em diante até por soberba se patenteava. O novo amante orgulhou-se da substituição, e ostentou-se redobrando a magnificencia da napolitana. Quiz Manoel Teixeira tomar conta dos filhos; ella, porém, respondeu que as velleidades da mulher não tinham nada commum com o coração de mãe; e não lhe deu os filhos.
Alvaro não voltou ao collegio, a não ser para ir mostrar ao seu mestre e amigo as lagrimas de alegria.
--Minha mãe--dizia-lhe elle--é agora a minha mestra. Tudo o que eu sabia era muito pouco comparativamente ao que ella me ensina. Disse-me que as horas de resignação, que teve em onze annos, as dera ao estudo. É um prazer ouvil-a discorrer a proposito de qualquer passagem de historia; mas o que mais me prende é o que ella diz da vida.
--Seu pae--disse o professor--deve sentir-se feliz, ouvindo-a...
--Meu pae raras vezes entra n'estas nossas conversações. Ha dous annos que minha mãe veio do convento, e desde então não sei como explicar o ar sombrio de meu pae. Falla-lhe com brandura e contentamento a ella; mas, se o encontro sósinho no seu gabinete, parece que vejo estarem-lhe os cabellos a embranquecer, e não tem ainda quarenta annos, penso eu. Começo a entender tudo, e o meu amigo ha-de dizer-me o que eu não souber. Lembro-me que meu pae é desgraçado porque minha mãe involuntariamente o mortifica com os signaes do sofrimento a que elle a obrigou. Ella é que envelheceu, e está para pouca vida. Muitas vezes me diz a chorar: «Quererá Deus que eu não vá d'este mundo sem te vêr homem, e no caminho da felicidade?» Receio muito que ella succumba aos effeitos dos padecimentos passados...
Um dia, Alvaro Teixeira encontrou João de Mattos, sentado ao lado do conde de Basto, na carruagem d'este. João de Mattos viu-o, e fez parar a carruagem. O ministro da justiça apeou, e abraçou Alvaro.
--Nunca mais se lembrou de mim?--disse-lhe elle.
--Lembro sempre; mas não me atrevi a procurar vossa excellencia.
--Pois procure-me, e nunca esqueça as minhas ultimas palavras.
Este encontro é posterior cinco annos á visita do intendente geral da policia a Manoel Teixeira.
Em 1830, o negociante abandonou inteiramente o trafico commercial. Falleciam-lhe forças para o trabalho, e sobravam-lhe os haveres. O seu estado era relativamente limitado. As antigas equipagens tinham sido reduzidas ao indispensavel. Maria da Gloria apenas ia com seu filho aos Olivaes, a horas em que não podesse ser observada. Alvaro, e só elle, era a sua constante companhia. As antigas amisades de sua casa retiraram ofendidas do ar ceremonioso e reservado com que eram recebidas, e mais se irritaram contra uma feroz virtude que não pagava visitas. As bem-vindas palavras ao quarto de Maria da Gloria eram as cartas de Vairão, umas da santa, outras de Cecilia, e muitas de todas as religiosas, a quem ella respondia sempre. As de soror Joanna cessaram ao cabo de cinco annos; dizia, porém, Maria da Gloria que a via em sonhos, e a ouvia do céo. Depós ella, como se a santa fosse eleita para guia da bemaventurança, algumas outras levaram a sua luz ao altar do Eterno. Os dias d'estas novas eram celebrados com muitas lagrimas de Maria. «Se tu não existisses, dizia ella ao filho, estas santas creaturas teriam expirado nos meus braços.»
Manoel Teixeira peorava de dia para dia. A medicina aconselhou-lhe os ares de Italia, depois um passeio recreativo pela Europa. Perguntou a sua mulher se o acompanhava, e ella respondeu que a magoava a pergunta, sendo esse não só o dever d'ella, que tambem a sua mais ardente vontade. Lembrou-se o pae de Alvaro levar tambem Leonor. Maria approvou a lembrança e Alvaro não soube esconder a alegria que lhe ella dava. O morgado dos Olivaes folgou tambem com o convite; Leonor, porém, nem sequer por condescendencia contrafez o desgosto de tal viagem. Disse que não tinha inclinação a viajar, e fez com que o pae inventasse desculpas que dispensassem a filha.
Maria da Gloria, como adivinhasse a tristeza do filho, fallou-lhe assim:
--Alvaro, o coração não se esconde a tua mãe. Tens dezoito annos: posso fallar-te sem rebuçar as palavras. Tu amas tua prima?
Alvaro corou, e balbuciou.
Maria proseguiu:
--Já respondeste, meu filho. Amas tua prima; e eu te digo que faças tudo quanto podem forças humanas para esquecel-a.
--Por que, minha mãe?!
--Aquella menina tem condão fatal. Os instinctos seriam bons; mas a educação degenerou-lh'os. Pódes tu imaginar que espaço vai abrir-se diante de teus olhos? A chave das maravilhas d'este mundo ha-de dar-t'as a riqueza. Não quero dizer que o teu ouro descubra corações nobres e dignos de ti; mas é certo que em volta do homem que tu has-de ser, se ajuntam os thesouros mais raros, e tu escolherás então o mais primoroso. Esquece Leonor, filho. Faz de conta que viste uma vibora enroscada entre as flores, que amavas desde a infancia. Um dia verás seccas as flôres, e a vibora em toda a sua peçonha. Perguntarás então á imagem de tua mãe que voz do céo lhe disse á alma a prophecia, que te faço hoje.
Alvaro não respondeu, senão com um sorriso de complacencia, triste sorriso, e dolorosa significação de uma angustia, que se peja de confessar-se. Estas linhas escriptas de Alvaro a Leonor dizem mais:
«Eu cuidava, minha prima, que eras feliz acompanhando a nossa familia. Meus paes amam-te muito, e eu... bem sabes quanto te amo. Não és grata ao nosso amor, Deus sabe os motivos, que tens para ficar. Lembra-te de nós, e de mim; e vem dar-me um abraço antes da nossa partida.»
No dia seguinte, veio o morgado e a filha a Lisboa.
--Não sabe quem eu hoje encontrei nos Olivaes?!--disse Sebastião de Brito a Maria da Gloria--A mana lembra-se d'aquelle poeta, chamado Miguel de Sotto-Mayor?
--Perfeitamente... Está nos Olivaes?!
--O mesmo em pessoa. Perguntei-lhe o que fazia por alli, e elle respondeu que viera a Lisboa, e andava visitando os arrabaldes. E o caso é que o rapaz viaja como grão-senhor! Traz criado de libré, e dous bonitos cavallos. Pelos modos, ha poetas que tem libré e cavallos.
--Isso que admira?!--acudiu com azedume Leonor--O pae não ouviu dizer que elle era filho segundo da casa mais antiga de Villa do Conde! É boa! querem que os poetas sejam todos uns maltrapilhos, porque Camões, Bocage, Tolentino e outros não tiveram senão versos que mostrar ao mundo! Eu cá de mim, não lhe admirei os cavallos nem a libré; o que mais notavel vejo no poeta é o seu talento!
--E o fogo que tu tomas n'estas cousas da poesia, minha sobrinha!--disse Maria da Gloria.
--A pequena é maniaca por versos--replicou o pae--E o mais é que já os faz tambem. Tu ainda não fizeste versos a teu primo, Leonor?
--Meu primo não gosta de versos...--respondeu ella com fastio.
--Eu não desgosto;--disse Alvaro--e, se fossem teus, gostaria muito, prima...
--Ora! não ha muitos dias que eu estava a lêr-te o _Oriente_, e tu disseste que os versos do padre José Agostinho eram gordos e atoucinhados como o author.
--Pois sim, eu disse isso a brincar; mas, se não gosto do _Oriente_, poderei, lendo os teus versos, tomar gosto pela poesia.
O coração de Alvaro estava cheio de lagrimas. Fizera-se-lhe uma luz súbita no espirito. Recordou-se do enthusiasmo pueril de Leonor pelo poeta de Villa do Conde, e concluiu d'elle para a visita aos Olivaes. Apenas nascido, o abutre do ciume recurvou-lhe as garras no seio. A paixão deu-lhe o desembaraço, e a dor a eloquencia. Buscou ensejo de estar só com Leonor, e disse-lhe com os olhos marejados de pranto:
--Tu de certo não vens comnosco para Italia?
--Que pergunta! Eu já disse que não ia.
--E por que não vaes, Leonor?
--Porque não quero deixar meu pae, nem troco os regalos de ver mundo pelos afagos d'elle.
--Mas teu pae tem vontade que venhas...
--Deixal-o ter; se elle não présa a minha companhia, préso eu a d'elle.
--Ha outro motivo, minha prima--redarguiu Alvaro com muita tristeza corada por um suave sorriso de artificio.
--Qual?
--Tu amas o poeta, que hoje viste nos Olivaes.
Leonor descompôz-se n'uma risada toda da garganta, e disse a final:
--Tens graça, primo! Estou eu agora feita castellan, com trovador debaixo do balcão do castello a chorar amores!... Valha-te Deus, Alvaro! A mim importa-me cá o homem de Villa do Conde!
--Mas elle de certo alli foi por tua causa...
--E, se foi, que culpa tenho eu! Os poetas tem aquellas cousas, e eu não posso ser responsavel das tolices alheias...
Leonor lançou mão do primeiro pretexto para rematar o dialogo. Alvaro, quasi repellido quando ia a fallar, foi ter com sua mãe, e desabafou por estas palavras no seio d'ella:
--Tem razão... devo esquecer minha prima.
--Menos, quando ella fôr desgraçada...--disse Maria da Gloria--Lembre-te isto sempre, meu filho.
Sahiram para Veneza.
Auras bonançosas lhes assopre brandamente as vélas, e renasçam para elles debaixo d'outros céos as lagrimas do coração!
X
_Se alguem provou já o golpe d'um desprezo aconselhe á minha dôr os remedios da sua._
D. F. MANOEL (Epanaphoras).
Não estava em si Leonor em quanto se não viu nos Olivaes. A olhos enxutos vira ella sumir-se o navio, e já dizia ao pae que lhe doía o braço de agitar o lenço para responder ao adeus de Alvaro.
Miguel de Sotto-Mayor, decorridos dous dias, appareceu nos Olivaes, de volta de Sacavem, e Villa-Franca, para acceitar a honrosa hospedagem de Sebastião de Brito, offerecida no primeiro e casual encontro, casual digo com respeito ao morgado.
Leonor sabia que Miguel de Sotto-Mayor alli vinha. O juramento, feito em Vairão aos quatorze annos, não tinha sido ainda quebrantado aos dezenove. Recebera sempre cartas, e respondera a todas do seu poeta, na esperança de ser um dia, embora tarde, sua esposa.
Havemos de esboçar a indole d'este moço, se trinta e dous annos podem adornar-se com as graças da mocidade.
As freiras tinham dito que Miguel de Sotto-Mayor era mau filho; péssimo devia elle de ser, quando as virtuosas linguas do mosteiro não escrupulisavam em murmurar do proximo. Fora elle academico, duas vezes riscado por contumaz na desordem e outros effeitos da vinolencia. Este vicio dominava-o no seio da familia, e desafogava por maus tratos e injurias aos paes e irmãos. Entendêra elle que o éstro da poesia carecia a confirmação da extravagancia. Lêra de Byron os atrevimentos do genio conformados com os desvarios da vida, e não achou cousa impossivel nascer em Villa do Conde o Byron de Portugal. Em verdade, as musas não lhe eram avêssas; mas, posto que na desordem se avantajasse ao lord inglez, o genio ficava-lhe áquem, na distancia que vai d'um soneto de abbadessado ás «Peregrinações de Childe-Harold».