O Romance de um Homem Rico

Part 8

Chapter 83,973 wordsPublic domain

--A nosso Senhor falla-se com humildade. Supplique, filha; mas não se queixe. Job tinha uma pedra por leito, e outra com que se alliviava da flagellação das suas chagas. Esse ousou perguntar a Deus, porque o tirou do ventre materno. A misericordia divina perdoou-lhe ao tom arrogante da sua afflicção. Não duvide de ser tambem perdoada, Maria. Afervore-sa e rese commigo.

Durava a oração mental alguns minutos, quando subitamente se levantou um grande reboliço nos dormitorios. Maria da Gloria alvoroçou-se, e disse:

--Será outra vez bulha lá fóra?

A freira não respondeu, nem sequer desfitou os olhos do Senhor crucificado.

Cresceu o rumor já perto do quarto, e vozes distinctas, clamando «milagre!»

--Gritam _milagre!_--exclamou Maria da Gloria, erguendo-se, com os olhos na freira.

Soror Joanna sorriu e disse:

--Não é milagre, filha: é a justiça de Deus, que a razão humana comprehende.

Entrou uma chusma de fieiras e noviças, conclamando á mistura:

--Ahi está o menino!

--E acho que vem tambem o pae!

--E muita gente a cavallo!

--E duas liteiras com senhoras!

--E traziam archotes!

Soror Joanna estava em pé, encostada a Maria da Gloria, cujas pernas tremiam de modo, que ella chamou Cecilia para se amparar.

--Ó filhas! vós fallaes todas juntas, e quebraes a minha pobre cabeça!--disse a santa--Falla tu, Cecilia, diz o que viste.

--Vi o snr. Alvaro, e um senhor com elle, que deve ser o pae. Vi mais pessoas a apear dos cavallos, e umas senhoras saltaram das liteiras, e já lá ficou a senhora abbadessa á portaria.

Maria da Gloria, posto que sustentada nos braços de Cecilia, dobrou os joelhos para orar; mas a perturbação era tanta que perdeu a consciencia de si, se não é antes que a sua alma se entranhou toda no seio misericordioso do Senhor.

Novos estrondos se aproximaram do quarto, e logo entraram tres senhoras de mui gentil presença e entre estas uma ainda menina de treze annos, que o leitor já viu e reconhece agora por aquella Leonor dos Olivaes, sobrinha de Manoel Teixeira. Com estas senhoras vinha tambem Alvaro, a quem os seus poucos annos consentiram, por segunda especial graça da prelada, ingresso no convento. Fóra da portaria tinham ficado o marido de Maria, Sebastião de Brito, pae de Leonor, e tres cavalleiros casados com as tres damas. Entrara depois d'estas uma mulher, que não ousava mostrar-se ao pé das outras, receiosa de que o amor fizesse mal á sua humildade: era a criada Eufemia.

As senhoras cercaram Maria da Gloria, chamando-a todas, e perguntando cada uma se a conhecia ainda. Leonor dizia-lhe que era a sua sobrinha. Alvaro dava-lhe aquelle doce nome, a cujo som toda ella se estremecia. Eufemia, essa, obscura a um canto do quarto, estava como esperando que sua ama a chamasse.

--Onde está Eufemia?!--disse Alvaro admirado.--Ella vinha comnosco!

--Estou aqui, senhor Alvaro--disse a criada, a quem as freiras abriram passagem.

--Venha cá ao pé de minha mãe, Eufemia...

Maria da Gloria abrira os olhos apavorados, relanceando-os por todos até encontrar os de Alvaro, que fora ao encontro de Eufemia. Reconheceu-os ambos, ergueu-se, expediu um grito, e abraçou-os juntos com tamanho impeto, que foi preciso ampararem o grupo as senhoras mais chegadas. Leonor acudiu de novo dizendo quem era. Maria fitou-a com amor, e disse-lhe:

--Bem vinda sejas! isto é uma festa de anjos!

As tres senhoras offereceram-se aos olhos d'ella, perguntando se as não conhecia.

--Conheço--disse Maria com a voz extenuada,--conheço as minhas amigas de ha quatorze annos. São as mesmas formosas meninas. A felicidade não deixa envelhecer... E a mim conhecerme-hiam?

Não responderam: tão absurda seria a lisonja, se quizessem mentir ao seu proprio assombro.

--Senhora D. Maria--disse a abbadessa--á portaria está seu marido. Vossa senhoria poderá descer até lá?

--Póde, pois não póde?!--disse soror Joanna das Cinco Chagas--Se eu lá vou com os meus oitenta e oito e a minha gota, por que não ha-de ir ella? Ora vamos. Quem lhe dá o braço sou eu, e o senhor Alvaro dá-me o braço a mim. Imaginem que levam a eternidade no meio; e acho que não é mal posta a comparação: a boa eternidade começa pela innocencia da vida, que é o menino, e continua-se na bemaventurança do soffrimento, que é a minha Maria, e esta, de mais a mais, chama-se _Gloria!_

No emtanto, a poesia do pateo estava estagnada nos corações repletos dos vates espantadiços. Tinham elles visto chegar a caravana ladeada de archotes, e por pouco que o doutor Ferro não improvisa uma elegia áquelle simulacro de sahimento. Dos poetas noveis, alguns rodearam as esbeltas matronas, sahidas das liteiras, e sentiram intumecida a veia da poesia ao profano. O Mormo queria vêr n'aquillo tudo uma violencia de clausura feita áquellas senhoras, e teve o zeloso desafogo de ir perguntar aos proprios maridos que senhoras eram aquellas, e por ordem de quem eram inclausuradas á meia noite. Os maridos tiveram a complacencia de desvelar o mysterio; com a qual explicação se afoguearam os filhos de Apollo, e em cada labio borbulhou uma estrophe de enthusiastica ode á redempção de Maria da Gloria. O Ferro, sabendo que se machinava um fogo preso de odes, disse em voz alta, que dava uma peça a quem fosse buscar n'um carro os dous conegos de Braga e as odes correlativas.

Com estas e outras facecias mantiveram os poetas o outeiro animado, apesar de sahirem das janellas todas as freiras, noviças, e criadas attrahidas pelo espectaculo novo, e mais levadas do coração que da curiosidade.

Ficou de memoria a primeira quadra de um soneto declamado n'esse intervallo pelo doutor Ferro:

Vão freiras, vá noviça, e vá a moça Gosar d'um coração que desabafa; Mas deixem na janella quem nos ouça; Seja um vulto qualquer... uma garrafa!

VII

_Na oração que ha senão aquella duplicada força, capaz de amparar-nos na queda, ou solicitar-nos o perdão, se nos despenhamos?_

SCHAKSPEARE (Hamlet).

Manoel Teixeira esperava encostado a uma columna do portico. Os amigos cuidavam em preparal-o para a impressão. Tão agitado o viam que receiavam o effeito do abalo que a primeira vista de Maria da Gloria devia fazer-lhe.

Dizia Sebastião de Brito:

--Deves estar prevenido, mano Manoel, para veres uma mulher muito differente d'aquella gentil dama, que era Maria da Gloria ha onze annos. No ar do convento dizem os santos que as almas respiram regaladamente; mas eu, que não sou medico, nem sequer santo, defendo que o ar do convento deve ser como peste para os pulmões de uma menina galante.

A comitiva fez o favor de rir á graça do morgado dos Olivaes; o negociante, porém, fez um gesto de enfado, e limpou o suor da fronte.

Abriu-se a porta: era a prelada, á frente d'uma procissão de monjas, noviças, e criadas. Entre todas, vinha Maria da Gloria pelo braço de soror Joanna das Cinco Chagas, e esta com a mão apoiada no hombro esquerdo de Alvaro. A luz, que as alumiava, era de tochas de cera, ao clarão das quaes procurava Manoel Teixeira, com espavorido olhar, sua mulher. Viu-a e reconheceu-a. Levado da sua ancia, chegou a transpôr o limiar da porta; mas a prelada, estendendo para elle a mão, disse com affectuoso sorriso:

--Queira ter a paciencia de esperal-a aqui: não é permittida a entrada nem mesmo aos maridos penitentes.

Maria da Gloria não podia ver claramente os vultos que divisava fora da portaria. Quasi suspensa do fragil braço da decrepita freira, pediu a Cecilia que a amparasse pelo outro braço. Porfiavam em sustental-a todas, e quasi no collo a trouxeram á porta. Ahi sentiu ella que uns labios lhe osculavam a mão com afogo e tremor. Era Manoel Teixeira, que dobrara o joelho diante d'ella.

--És tu?--disse ella--E podeste conhecer-me?

--Quando te não conheceria eu, infeliz?--respondeu elle afogado de lagrimas e gemidos.

--Tambem tu tens cabellos brancos!...--tornou Maria da Gloria, sorrindo--Os felizes envelhecem tanto como os desgraçados! Não estejas assim, Manoel... Aos pés de uma amiga não se ajoelha... Ou ella perdoou antes da posição humilhada; ou não perdoa nunca. Ergue-te...

--Ajoelhe diante de Deus, diante de Deus, senhor Manoel Teixeira--disse soror Joanna--e dê-lhe muitas lagrimas de louvor e gratidão por este anjo. Agora, torno a fugir-lhe com ella; por ora é nossa; ámanhã lh'a daremos. Vá vossa senhoria e mais os seus amigos para a hospedaria do mosteiro. A nossa boa prelada lá lhes manda o chá. Vão repousar, ou façam versos, se são poetas, que esta noite todos somos poetas, todos temos no coração hymno em acção de graças ao Senhor da misericordia e da justiça.

Maria da Gloria apertou a mão do marido, balbuciando algumas palavras, e o mesmo fez ao cunhado, que a saudou com esta tirada de palaciano e enamorado de todas as palacianas:

--Olhe que eu não a esperava ver tão encantadora, mana Maria! Agora vejo que o condão das perpetuas se mudou para as rosas da sua formosura--(Sebastião de Brito havia dito isto, mezes antes, a uma marqueza bem conservada, e soubera que a marqueza repetira em ar de enfado a toda a gente a fineza; porém, gostosa de que a metaphora fosse applaudida, como de feito era). A graça do mundo--continuou elle, offerecendo simonte em caixa de ouro á abbadessa--desbota as flôres, e a de Deus reflorece-as. A mana Maria está como era; e, se não fosse a sympathica pallidez que lhe realça o mimo, seria menos bella, ou tão bella como foi.

Maria da Gloria riu-se, e as senhoras de Lisboa com ella, mas delicadamente. Ao mesmo tempo espirraram de um grupo uns frouxos de riso, que estalaram em gargalhada mais longe: eram as noviças, gente bravia, como a abbadessa lhes chamava, que traziam o mosteiro em desordem, e nunca podiam dar grande sahida pelos caminhos do céo.

A madre porteira fez menção de fechar a porta, quando Brito calou o refolhudo comprimento. Manoel Teixeira beijou a mão de Maria, e perguntou-lhe se o menino ficava.

--O menino fica--disse soror Joanna com ar alegre--porque tem de me levar á cella. Estas senhoras, se quizerem, e a senhora dona abbadessa consentir, podem tambem ficar. O patriarcha S. Bento tudo tolera hoje, por amor do nosso anjo, que não pediu a felicidade só para si. Ora vamos com Deus.

Fecharam-se as portas. Maria passou a noite de vigilia, com o seu leito rodeado das antigas amigas, das freiras mais da sua alma, e do filho acariciado, que adormecera com a fronte encostada ao travesseiro de sua mãe.

Manoel Teixeira e os seus companheiros, excepto Sebastião de Brito, pernoitaram na hospedaria do mosteiro. O dos Olivaes, tão amante das musas, quanto o ellas tratavam esquivamente, foi até ás quatro da manhã o primeiro enthusiasta do auditorio, batendo palmas delirantes, e bradando os _bis_ com todas as potencias da sua admiração pulmonar.

Agora, abro mão do seguimento da historia, para acudir a uns reparos d'algum leitor.

Diz elle:

«Eu estava preparado para lêr algumas paginas bonitas e sentimentaes, occasionadas pelo encontro de Maria da Gloria e Manoel Teixeira. Fiquei logrado. Nenhum d'elles disse cousa que fizesse chorar, nem escassamente commover a gente. O author deixa perder as marés cheias de poesia. Aqui era que devia ostentar os thesouros do seu estilo lamuriante. Nem um aprendiz de romances deixava, pelo menos, de tirar do peito do marido quatro apostrophes, com grande chuveiro de lagrimas. Era bello fazêl-o discorrer uma hora de joelhos aos pés da esposa, desfallecida de cinco em cinco minutos. Que ella perdoasse, isso sobre ser justo, era dramatico; todavia, a palavra misericordiosa devia fugir-lhe do coração, depois que as freiras todas chorassem em coro, e soror Joanna discorresse dilatadamente acerca do perdão das injurias. Além de que, nenhum desmaiou! O tocante era ir ella nos braços das esposas do Senhor para cima, e elle ficar cá fóra, senão sem sentidos, ao menos declamando um quarto de hora, e cahir a final extenuado nos braços dos amigos. Isso sim, era uma passagem que bastava á reputação da novella, e a venderem-se mais alguns milhares de volumes. Escrever as cousas como ellas se passam no mundo, como nós as vêmos por ahi! Então é melhor não dar cópias da realidade. O que a gente quer é que o romancista nos pinte a sociedade, a vida e as paixões melhores ou peores do que são. Regala estar lendo uma scena sem naturalidade, e dizer «isto não é assim; mas, se assim fosse, era mais agradavel o mundo.» Onde está a imaginação do novellista, que repete o que viu, ou leu, ou lhe contaram?! E como dizerem que o theatro deve ser a photographia da vida! Vão para lá com os seus dramasinhos verdadeiros, e verão que nem os musicos da orchestra lh'os aturara. O romance é tal e qual a mesma cousa. Se nos não maravilha, enfada-nos. Viram cousa assim?! Deixar o author correr glacialmente aquella scena da portaria do convento! Ainda agora podiam estar os conjuges a dissertar a respeito da calumnia que custou onze annos de martyrio á esposa sem nodoa! Pois o remorso não era aguilhão sufficiente para fazer andar o marido em bolina n'aquelle local tão poetico, e obrigal-o a raivar contra si, e a desentranhar-se em eloquencia de phrases e lagrimas aos pés da mulher! Nem um _ah!_ nem um _oh!_ lhe ouvimos!... É de mais! Póde ser que assim acontecesse, e que o facto assim descripto o lêsse o author no manuscripto do padre Alvaro Teixeira; mas isso não indulta o artista, que recebe das mãos da natureza uma pedra, e faz d'ella uma Nióbe ou um Laocoonte. O romancista é o esculptor das paixões: enfeital-as, corrigil-as, dar-lhes com palavras a expressão que ellas estheticamente não podem exprimir, é seu officio. E, se o author me não entende, eu lhe aclaro a idéa: É de crêr que as pessoas testemunhas do lance, entre Manoel Teixeira e sua esposa, se commovessem, porque lhes viram nos semblantes os movimentos da alma; nós, porém, que os não vimos, precisávamos de receber da phantasia do escriptor uma descripção, que nos sacudisse os nervos, e levantasse o espirito á altura em que o levantam os romancistas da moda. Fique-lhe, pois, de memoria esta amigavel censura; e, para outra vez, belisque a imaginação, se quer que o seu nome de romancista reverdeça, orvalhado com as nossas lagrimas, ou festejado com as nossas gargalhadas. Chorar ou rir, é onde bate o ponto. Quem não conseguir uma das cousas, não nos importune.»

Respondendo, digo ao leitor sisudo que me conformo com o seu parecer, e de experiencia tenho que a verosimilhança, qualidade em que tenho aperfeiçoado esta minha arte, me tem grandemente desmerecido a valia dos meus romances. Ha muito tempo que não mato ninguem senão de molestia: quando muito, para aformosentar a morte com um nome bemquisto dos poetas, e dos leitores sentimentaes, tenho denominado tisica pulmonar, ou congestão cerebral, o que em boa pathologia se denomina hydropesia ou inflammação intestinal. Não se tem suicidado ninguem nos meus ultimos romances, nem mulher alguma perdida tem sido rehabilitada ao amor virginal. Isto é nocivo ás minhas curtas aspirações, bem o sei; mas já agora não arripio a carreira; liei-de ir indo assim, dispendendo-me pouco em imaginações, de que me sinto muito alcançado, e pondo as melhores tintas e pinceis na copia da verdade, embora a verdade seja descorada e dissaborida aos amigos das visualidades. Já n'outros livros me tenho cançado a responder a reparos que a critica, não impressa mas em familia, me tem feito. Paciencia. A França, de Bernardin de Saint-Pierre menosprezava a historia singela de Paulo. Arguiam de infecundidade o author que o não fez carpir-se em desesperado monologo ao pé do cadaver de Virginia. Quem me dera a mim para um dos meus livros uma sombra do renome d'aquelle romance! Quantos milhares de romances, decantados uma hora, pensa o leitor que a voragem do esquecimento enguliu, desde que a obrinha do grande naturalista recebe o tributo de lagrimas, que Napoleão lhe dava em Santa Helena?

N'este genero de escriptos, o sello da perpetuidade grava-o a natureza. O templo dos livros immortaes é servido de poucos sacerdotes; mas, grande gloria lhes é esse culto sem estrondo! Não vão agora cuidar que eu estou já d'aqui espreitando o nicho do templo da eternidade em que me hão-de encolher os vindouros--encolher, digo, porque não podemos lá caber todos! Não, senhores! eu no que penso é em converter o meu leitor á religião da verdade, e levo em vista movel-o a lêr outra vez aquella fria e frouxa scena da portaria de Vairão. E, se alguém disser que eu estou dando satisfações impertinentes, respondo que é isto respeitar os meus leitores, e proposito de adelgaçar as rudezas de alguns raros, que me trazem entre os dentes da sua critica, porque os eu não faço chorar nem rir.

Respondi, e volto ao outeiro.

Alvorecia a manhã, quando a maior parte dos poetas se retirou com as musas roufenhas da friagem matinal. As damas lisbonenses, captivas da novidade do outeiro, nem se deitaram, e com Leonor andaram, de grade em grade, pedindo que lhes ensinassem a dar motes. Notaram as freiras que particularmente a menina, se o verso que lhe davam era para assumpto sagrado, não ficava contente, nem se enthusiasmava a repetil-o ao poeta. Se, porém, no mote vislumbrava idéa amorosa, era muito de vêr e admirar o desembaraço com que a azougada menina se espevitava, proferindo eom certo requebro as palavras do verso. O pae, que andava, como dissemos, entre os poetas, regosijava-se de ouvir a voz da filha, e como tal a apresentava aos trovadores embellecados da voz argentina e insinuante, que ella tinha. D'estes, o mais verde em annos, e mais verde em esperanças, sentiu-se namorado d'aquella voz, e d'amor tão engenhoso que, até dos motes ao divino, profanava a idéa convertendo-os em madrigaes. Leonor estava encantada de ouvir o seu poeta, e já perguntava com anciosa curiosidade quem elle era. Disseram-lhe que era um filho segundo de uma nobre casa de Villa do Conde, tão bom poeta como mau filho, que tinha dado grandes desgostos a seus paes. Esta ultima parte da informação não a desviou de já, sol nado, sustentar com algumas noviças o outeiro, cujo unico poeta era o de Villa do Conde. Não queria ella retirar sem vêr o rosto do vate dos amorosos sonetos. Viu-o, e ouviu-o em prosa, e achou-o na sympathia igual ao poeta. Disse-lhe de entre as grades um adeus affectuoso, e foi passear na cêrca, e scismar, como podem os corações fatidicos scismar aos quatorze annos.

VIII

_Oh!.............................. Nec te aleator ullus est sapientior_... Nunca velhaco algum mais destro fora.

PLAUTO.

Maria da Gloria, Leonor, e as damas, depois do almoço do dia seguinte, sahiram com Alvaro para o recinto exterior da grade mais ampla do mosteiro. Ahi eram esperadas pelos cavalheiros, tirando Manoel Teixeira, que fizera pedir á prelada uma grade especial em que elle podesse estar a sós com sua mulher. Maria da Gloria, sabedora da petição, escreveu a seu marido estas linhas:

«A tua dignidade e a minha impõe a nós ambos a delicada obrigação de não proferirmos uma palavra com relação aos acontecimentos que me trouxeram a esta casa. Sobeja e inutilmente te fallei da minha innocencia: emenda tu agora a culpa de me não teres attendido, portando-te aos meus olhos como se a consciencia te não doesse. Se precisas desafogo, procura-o em Deus, e sentirás allivio. A Divina Providencia escuta os innocentes e os criminosos.

«O pedido, que fizeste á senhora abbadessa, não póde ser por minha parte satisfeito. Irei á grade; mas Alvaro estará comnosco. Sei que te has-de cohibir de confessar as tuas culpas, na presença de teu filho, que as ignora.»

Estava já Manoel Teixeira na grade, quando recebeu o bilhete, e minutos depois chegou Maria e Alvaro. O marido apertou-a ao coração, e disse-lhe:

--É assim que te vingas, Maria?

--Que me vingo!...

--Sabias que estas dôres do remorso só podiam as lagrimas allivial-as, e prohibes-me de fallar, e chorar, para que eu não ouça da tua boca a palavra «perdão»!...

--Perdoei...--balbuciou ella.

--E o teu perdão, minha amiga, devo tomal-o como esperança de me poderes, um dia, restituir o amor que tão mal paguei?

--Cala-te... Não me falles em amor... Que vens tu pedir a uma desgraçada mulher, que envelheceu e morreu aqui?! Parece que não sabes imaginar os dias e as noites de onze annos! Quem espera achar coração em mulher que padeceu tanto! Pergunta-me se eu posso amar meu filho, e mais nada. E que mais queres tu de mim, Manoel?

--Queria ter com meu filho quinhão do teu amor. E impossivel? não me queixarei. Acceito a tua indifferença como castigo; mas não me odeies, filha, não. Fui teu algoz porque era teu verdadeiro amante...

--Basta!...--disse com esforço Maria, relanceando sobre Alvaro os olhos sem lagrimas--Esqueces o meu pedido?

Manoel Teixeira obedeceu a sua mulher e contemplou-a em silencio, a tempo que Maria encostava ao coração a face do filho. N'esta contemplação de minutos o que seria o espirito d'aquelle homem? Uma agonia mortal, tormento sem nome, nem remedio, quando a piedade recusa abrir-lhe o espiraculo das lagrimas. Que via elle? As reliquias d'uma grande formosura, os cabellos brancos, as palpebras roxas, as rugas sobre os ossos aridos, a decomposição de um rosto que fora a imagem, o symbolo vivente da graça e da harmonia. Que fizera elle durante os onze annos que devoraram a belleza e o coração d'aquella martyr? Devia de ser esta a pergunta que elle a si se fez, quando o choro lhe borbulhou dos olhos. Que fizera elle? Vivera em toda a parte a vida exterior da alegria e da opulência. Tivera palacios em Napoles, e alteára-se em suas pompas a tão elevado ponto, que deram d'elle fé os indifferentes de Paris. Em quanto a esposa pura d'alli pedia uma visita de seu filha unicamente, e deixava ao pae o gozo inteiro das regalias do seu patrimonio d'ella, quem era aquella mulher que, fatigada de felicidade, se reclinava na espaldar-setim das suas carruagens, e se aborrecia do luxo dos seus palacios de Napoles e de Belem? Como pôde elle tão depressa mitigar as saudades da esposa com as venaes caricias da italiana, a cujos pés elle rolava o ouro, que trouxera de Macáo, grangeado pelo incansavel lavor d'um pae, que a si tirava o que lhe parecia necessario á futura magnificencia de sua filha!

Devia ser este o affligido meditar do negociante, ou maiores seriam suas dores, quando elle de impeto se lançou aos pés de Maria, exclamando:

--Tu não podes perdoar-me!

Acudiu Maria a erguel-o, e disse-lhe:

--Se te mereço compaixão pelo passado, não me afflijas. Ergue-te. Vamos sahir, que me sinta aqui sem ar. Vamos experimentar as minhas forças. Dá-me o teu braço, Manoel. Iremos vêr de perto as arvores, que eu vejo, ha onze annos, da minha cella.

Manoel Teixeira recobrou vigor dos alentos e sorrisos de sua mulher. Sahiram, e sósinhos, e silenciosos. Queria Alvaro chamar Leonor, mas o pae rejeitou a lembrança.

--Vamos sós--disse elle--sejamos egoistas d'esta felicidade... embora minha sómente...

Maria sorriu-se, e disse com accentuação melancolica:

--_Felicidade!_...Tem-l'a conhecido no amor d'este anjo?... Creio-a, se me disseres que sim... De resto... como poderias tu ser feliz, se ha Deus!...

Teixeira sentiu o golpe involuntario d'estas palavras, e murmurou:

--Deus, que deixou a tua innocencia nas trevas de onze annos... Que Deus!...

--Não offendas a mão Divina que me amparou...--tornou Maria.

As familias, reunidas na grade, sabendo que os esposos tinham sahido do pateo, desceram a seguil-os. Sebastião de Brito bradou de longe:

--Olé! Esperem lá, que nós vamos tambem. Duas luas de mel é muita lua! Conversem sósinhos em Lisboa, e dêem á gente uma particula da sua felicidade.

Quando se ajuntaram, continuou o morgado dos Olivaes:

--Queres saber, Manoel? A tua sobrinha Leonor está poeta... Não falla senão em versos. E preciso que Alvaro seja poeta.

Riram todos, porque de todos era sabido o projecto de matrimonio entre os dous primos.

--Então gostas muito de versos, Leonor?--disse Maria.

--Muito, principalmente dos que faz o senhor Sotto-Mayor.

--Quem é o senhor Sotto-Mayor?!--tornou Maria da Gloria com espanto.