O Romance de um Homem Rico

Part 7

Chapter 73,931 wordsPublic domain

Na garganta do negociante ficou afogada uma insolencia.

O brioso mestre tinha sahido voltando as costas ao ricaço.

A inquieta Leonor entrou logo perguntando as novidades. O tio não respondeu, e mandou-a sahir com insolito enfadamento. A breve espaço, sahiu de carruagem, a dar execução a uma traça concebida rapidamente. Era simples: logo que o filho chegasse, mandal-o para Inglaterra, demoral-o annos n'um collegio, interceptar-lhe a correspondencia com a mãe, e removêl-a a ella para convento estrangeiro. Chegou a dar ordens para ser procurado Alvaro em Vairão, ou no caminho; mas, reflectindo, entendeu que era mais prudente deixal-o chegar inadvertido, que não fosse elle evadir-se ao castigo premeditado.

Eufemia foi severamente interrogada, acerca das revelações que poderá ter feito ao menino; e, como balbuciasse nas respostas, foi despedida, e ameaçada de cadêa, se elle viesse a descobril-a cumplice na fuga de seu filho. Sahiu a pobre mulher, e escreveu a sua ama; esta carta, porém, chegou a Vairão dous dias depois da sahida de Alvaro, e não foi subtrahida no correio de Lisboa, porque ia endereçada a uma das criadas de Maria da Gloria.

Agora é que temos Alvaro em Lisboa.

Mal apeou, informou-se da residencia de João de Mattos Vasconcellos Barbosa de Magalhães, e foi apresenta-lhe a carta da religiosa. Estava o magistrado com altos dignatarios d'estado em occupações gravissimas, quando se lhe deu parte de um menino, que era portador de uma carta de Vairão. Afastou-se á parte com Alvaro, leu a carta, muitas vezes interrompida pelo relance de olhos embaciados que lançou ao menino. No fim da leitura, tomou-o para si, beijou-o, e disse-lhe com muita meiguice:

--Sua mãe fez-lhe muitos carinhos? Que horas de felicidade o menino lhe levou!... Ora deixe estar, que ha-de ser muito feliz com ella... Espere aqui um pouco, que eu volto já.

Voltando, tocou uma campainha. Appareceu, afastando o reposteiro, o aguazil, que escoltára Maria da Gloria a Vairão.

--Onde mora o menino?--disse João de Mattos.

--Na rua de S. Bento, numero 12--respondeu o esbirro.

--Vá já ter á rua de S. Bento n.° 12 com aquelle homem do Limoeiro--disse o intendente--Agora vamos, menino.

Esperava-os a carruagem blasonada do sobrinho da santa de Vairão.

--Quem será o _homem do Limoeiro?!_--ia dizendo entre si o filho de Maria da Gloria.

V

_Os insensatos não comprehendem como se enlaçam o merecimento e a felicidade._

GOETHE (Fausto).

N'uma das suas muitas horas de desgraça impaciente e raivosa, é que estava Manoel Teixeira, ao annunciarem-lhe que parára á sua porta uma carruagem com a libré do intendente geral da policia. Não tinha elle ainda despregado a lingua do céo da boca meio-aberta de pasmo, quando o guarda-portão fez annunciar João de Mattos, e Alvaro. Aqui nos fallecem termos com que digamos ao justo o esgar de surpreza com impetos de loucura rapidamente figurados no aspecto do negociante. E da alçada de todos imaginar a turbação que devia sentir o marido de Maria da Gloria, vendo entrar seu filho ao lado do amante de sua mulher!

Estava já na sala de espera João de Mattos, algum tanto embaraçado em sua especial posição; mas tranquillo na apparencia. Já o dono da casa se ia demorando, quando a sala immediata se abriu, e o escudeiro veio ahi dizer a sua excellencia que o snr. Teixeira de Macedo não se demorava.

Alvaro tremia, e enfiava. João de Mattos tomava entre as suas as mãos do menino, e dizia-lhe:

--Que medo é esse, menino?! Seu pae não lhe faz mal... Tranquillise-se, que isto não é nada. Por que treme?

--Nem eu sei dizer... Não é medo...

Durante um curto dialogo assim travado entre o homem e a criança, vagava como allucinado o negociante, remettendo contra a porta que o separava da sala em que era esperado, e recuando com o gesto cada vez mais descomposto. N'esta afflictiva oscillação, tornou ao seu quarto, tirou d'um estojo uma pistola de dous tiros, accommodou-a na algibeira do chambre de cachemira, e entrou na sala com sinistra serenidade.

João de Mattos ergueu-se, e disse com pausada gravidade:

--Não me é difficil lêr no rosto de vossa senhoria o abalo que o meu nome lhe fez. E tão natural esse sentimento de odio, que deshonrado seria vossa senhoria se o não sentisse contra mim.

--E vem a minha casa?!--disse Manoel Teixeira com os olhos fitos no pavimento que se interpunha aos dous.

--Venho a sua casa, senhor Macedo, offerecer-me desarmado e sósinho á sua justa vingança...

--E como se acha meu filho ao lado do senhor intendente?--interrompeu o commerciante, relanceando os olhos fuzilantes sobre Alvaro.

--Vai vossa senhoria sabel-o; mas eu peço que o menino nos deixe sósinhos por alguns segundos.

Alvaro sahiu da sala; João de Mattos fechou a porta; e Manoel Teixeira encostou-se ao bordo de um tremo, e cruzou os braços em postura, que seria dramatica, se não fosse incivil.

João de Mattos, com a mão esquerda na lapella da casaca, e a direita, segurando o chapéo, sobre a cintura, fallou assim:

--Creio que o snr. Manoel Teixeira tem sobeja intelligencia para conhecer que um homem, como eu, na sua presença e em sua casa, significa um successo extraordinario movido por um impulso tambem extraordinario.

--Eu desejo realmente saber o que vem vossa excellencia fazer a minha casa.

--Venho...

Um criado cortou a resposta, dizendo que um meirinho que acompanhava um preso entre soldados queria fallar a sua excellencia.

--A mim?!--disse o negociante.

--É a mim--acudiu sorrindo João de Mattos.--Queira vossa senhoria consentir que o preso esteja ás minhas ordens na sua sala de espera.

Manoel Teixeira ergueu os hombros, e disse enleiado das estupendas occorrencias:

--Mas esse preso é cousa que tenha relação commigo?!

--É o facto importante da nossa pratica--respondeu João de Mattos, e accrescentou com tristeza:--é o fecho d'esta abobada, debaixo da qual vossa senhoria ha-de sentir esmagado o coração... Queira attender-me. Eu morei, ha onze annos, em frente do seu palacete. Não era já moço de paixões violentas; mas... era homem. Amei a snr.a D. Maria da Gloria porque a vi, e porque ella me não dava o mais leve signal de estima nem sequer de preoccupação das minhas constantes solicitações. O coração humano é assim absurdo. Vossa senhoria foi n'essa época á India, e eu cuidei miseravelmente que a esposa fiel deixaria de o ser na ausencia de seu marido. Havia na sua casa um criado, que adivinhara as minhas intenções, e se me offereceu para entregar uma carta a sua ama. Acceitei e paguei liberalmente o serviço do seu criado; porém, escrevi mais cinco cartas instando pela resposta da primeira. Sua esposa nunca me respondeu. Um dia, fui animado pelo meu confidente a entrar furtivamente em casa de sua esposa, e esperal-a na passagem do seu quarto para uma sala. Cego da minha paixão, não comprehendi que praticava uma deshonra; mas sua mulher lançou-m'a em rosto, e eu sahi de sua casa, cuidando que me era sobejo castigo o despreso com que fui expulso por um ligeiro aceno de mulher. Momentos depois, o criado era despedido tambem, e a esposa sem macula ficou pensando que Deus abençoara a sua resolução, e que o mundo lhe seria sempre uma testemunha e um applauso da sua dignidade. Terminei. Agora peço licença para ser trazido á nossa presença o preso.

Manoel Teixeira fez um gesto como de automato. João de Mattos levantou o feixo da porta, e disse ao meirinho:

--Entrem... Conhece este homem?--disse elle ao negociante, indigitando o preso.

--Tenho idéas...--respondeu Manoel Teixeira, affirmando-se.

--Diz a este senhor quem és--tornou o intendente com terrivel sombra ao preso.

--Eu sou aquelle criado, chamado Gregorio, que cá estive ha onze annos em casa de vossa senhoria.

Mal o preso proferiu estas palavras, cahiu de joelhos aos pés de Manoel Teixeira.

--Mande erguer esse homem--disse o intendente.--O juiz aqui sou eu. Levanta-te, e responde. Entregaste alguma vez cartas minhas a tua ama, esposa d'este senhor?

Gregorio balbuciava, e João de Mattos atalhou com formidavel e colerico accento:

--Se faltas n'um só ponto á verdade, mando-te espedaçar os pulsos com dous anneis de ferro. Responde. Entregaste cartas minhas á senhora D. Maria da Gloria?

--Sim, senhor--disse o preso.

--Entregaste-me algumas cartas da senhora D. Maria da Gloria?

--Não, senhor.

--Quem me disse que entrasse na casa de tua ama, e me encaminhou até ao lugar onde ella havia de passar?

--Fui eu, senhor.

--Qual foi o procedimento de tua ama, quando me viu ajoelhado a seus pés?

--Mandou-o sahir de casa...

--E a ti que te disse?

--Mandou-me embora.

--Que disseste tu a teu amo, quando elle voltou de Macáo?

O preso ajoelhou outra vez aos pés de Manoel Teixeira, exclamando:

--Eu menti a vossa senhoria, e fui a causa da desgraça de minha ama; mas quem me aconselhou foi um logista, que tinha sido caixeiro de vossa senhoria. Perdôe-me pelo amor de Deus, que estou ha tres mezes com ferros aos pés n'uma enxovia sem ar nem luz!

João de Mattos fez um signal ao quadrilheiro. Este, puxando pela gola da vestia de Gregorio, quasi o arrastou para fóra da sala, a tempo que Manoel Teixeira, como se espertasse d'um sonho vertiginoso, engatilhava a pistola, visando com olhos convulsivos e escarlates de sangue o peito do preso.

João de Mattos collocou-se entre o negociante e o preso, dizendo:

--Este homem não se castiga assim, senhor Macedo. E preciso matar-lhe uma existencia em cada fibra. A morte instantanea d'este miseravel não vale onze annos de lagrimas.

O negociante, offegando, já com as lagrimas no rosto, e a voz embargada pelos soluços, lançou-se a um canapé.

Alvaro, alvoroçado pelo ruido, correu á sala. João de Mattos tomou a mão do menino, e approximou-o do pae, dizendo-lhe:

--Diga a seu pae que sua mãe lhe perdoa; e peça-lhe de joelhos o perdão para quem unicamente precisa d'elle, que sou eu.

Alvaro ajoelhou, e sentiu-se apertado nos braços do pae, que escassamente balbuciava exclamações cortadas de gemidos.

João de Mattos, abrasado d'aquella flamma electrica que experimentam as almas apaixonadas da terrivel sublimidade da angustia, tirou da algibeira uma carta, que leu com voz solemne, cava, e pungitiva por seu tremor nervoso:

«Meu sobrinho.

«Quando esta carta receberes da mão do filho de Maria da Gloria, pede a Deus, no fervor de tua alma, que te dite ao coração as palavras com que has-de convencer o pae d'esse menino da innocencia d'esta santa. Não seja contra ti e contra a vontade Divina, a soberba da tua posição. Vai, filho de meu irmão, vai, e não peças perdão para Maria da Gloria, que não tem culpas; pede-o para ti, que foste a causa da sua desgraça, e d'outra que te ha-de castigar ainda, se fores testemunha dos remorsos do marido. Vai, meu sobrinho, vai, guiado por esse anjo, e Deus te ajudará n'essa hora a alumiares o coração do infeliz marido; infeliz, sim, porque eu tenho uma quasi certeza de que as horas de agonia d'esse homem podem bem comparar-se ás d'esta sublime e nobre desgraçada. Vai já, meu João, não demores o resgate d'esta martyr que é pura aos olhos do Senhor, mas está perdida no conceito das pessoas a quem Deus não conta os segredos do coração das suas creaturas escolhidas. Eu espero com ancia que me digas o que o meu coração espera. Se a minha fé tem luz do céo, Maria da Gloria cedo estará com seu marido e com o filhinho que lhe leva o coração. Eu perco a companhia do anjo d'esta communidade; mas ganho-a para a sua felicidade, e onde quer que ella esteja dar-me-ha sempre o mais doce dos seus sorrisos, e a mais amarga das suas lagrimas. Não te digo mais nada, porque as minhas muitas enfermidades, bemdito seja Nosso Senhor Jesus Christo, não me deixam escrever. Eu te deito a minha benção, sobrinho da minha alma. Escreve-me na volta do correio. Deus te guarde. Tua tia muito amiga.

_Joanna das Cinco Chagas do Senhor._»

--Que hei-de eu responder a esta carta, senhor Manoel Teixeira?--disse João de Mattos.

O negociante ergueu-se, enxugando as lagrimas; estendeu a mão a João de Mattos, e disse:

--Eu vou levar a resposta a sua tia.

O magistrado pôde suster-se contra o impeto do coração que o impellia aos braços do negociante. Conteve-o a lembrança de que nunca podia merecer a amisade do marido de Maria da Gloria, porque a paixão não era desculpa, nem a impossibilidade do delicto innocencia.

E este sentimento adivinhava o de Manoel Teixeira. Qualquer que fosse a commoção sentida, ouvindo o sobrinho da religiosa de Vairão, não era isso bastante para que o homem compadecido offerecesse a sua amisade a outro que entrára em sua casa supplicando de joelhos a deshonra de uma familia, embora o effeito da tentativa criminosa fosse apenas a desgraça de onze annos, e a certeza da causa vilipendiosa d'ella. Sem embargo, não era tudo dor no animo de Manoel Teixeira. Era-lhe de grande alegria a evidencia da lealdade de sua mulher; sentia-se como rehabilitado perante sua propria consciencia. N'isto vae muito para a vaidade, quando não seja tudo para o coração do homem. Se remorsos o alanceavam, o muito amor ás victimas da injustiça é a penitencia d'estas culpas. O arrependimento inventa carinhos novos; e a innocente parece vingar-se, perdoando, e sorrindo ao algoz, que exora perdão com lagrimas. Assim é, assim quer Deus que seja; mas o que não póde ser é um marido, que amou sua mulher e se amou a si por orgulho de a ter, perdoar ao homem, quer elle seja primeiro ou infimo, que pôz em acção os meios de empeçonhar uma legitima felicidade, embora a pureza invulneravel da mulher mais depure o quilate da sua virtude, encarecendo a vaidade do marido. A toda a luz se vê que Manoel Teixeira, no recesso de sua alma, odiava João de Mattos; e este, homem de altos espiritos e coração, conhecia o odio, e apertara a mão do negociante por não poder, sem desaire, recusar-lhe a sua.

Alvaro não desfitava os olhos lagrimosos do affavel e magestoso semblante do intendente.

Trinta e quatro annos depois, o padre Alvaro Teixeira, apontando o retrato de João de Mattos, me dizia n'aquella casa dos Olivaes:

--Contemplava-me assim com aquelle rosto de graça! Nem a minha alma conserva tão fiel a cópia do momento em que me elle disse: «Se seus paes lhe derem licença, menino, seja meu amigo; aproveite a minha velhice; eu lhe direi o que é o mundo, e o amargo castigo das acções más.»

Foram estas as palavras do homem virtuoso, ao despedir-se de Manoel Teixeira. Este escassamente curvou a cabeça respondendo á cortezia do intendente. É que, esfriado o momento do abalo, o negociante pejava-se talvez já de ter offerecido a mão a João de Mattos com a vehemencia expansiva de amigo.

VI

_Apollon prend les armes._

VOLTAIRE (Sat.)

N'um dos ultimos dias de setembro de 1825, amanheceram embandeiradas as janellas, e as torres do mosteiro de Vairão. Os sinos repicavam desde o abrir da manhã. Feixes de murta, e as flores da estação entravam ás cargas e em taboleiros para o convento. As criadas chilreavam de janella em janella, e em magotes, á portaria. As religiosas, misturadas com as moças, e as velhas com as noviças, tinham provisoriamente rasoirado as jerarchias da posição e dos annos. A criada passava a correr por diante da ama; a noviça não beijava a mão á prelada; a prelada consentia que as moças lhe desfolhassem rosas sobre a touca. Das noviças algumas vestiam trajes masculinos: esta remedava um alferes de milicias, aquella um desembargador, uma um camponio, outra um pescador. E á volta de cada qual eram tantos os grupos, quantas as estridulas risadas, que applaudiam o chiste da noviça mascarada.

Estas folias celebravam um abbadessado, em que devia ser reeleita pela duodécima vez a prelada, a quem todas davam mais o coração de filhas, que a submissão de subditas.

Do meio dia em diante, começaram a confluir de diversas estradas uns sujeitos bem postos sobre as suas cavalgaduras, e de semblantes radiosos, que de si mesmos estavam dizendo cujos eram, e que altíssimos destinos alli vinham a cumprir: eram os poetas. D'estes, uns vinham por convite, outros espontaneos, ou esporeados pelo furor metrico. Uns tinham alli os seus idealissimos amores; outros já os tinham tido e encanecido com elles; e alguns iriam com esperanças de merecêl-os. Poetas de Guimarães eram tres; do Porto um, que valia por muitos, o celebrado Ferro; de Braga dous conegos em Apollo, e alguns abbades circumvisinhos; de Villa Real o famigerado Mormo, e o não menos conhecido Mesquita, cujo nome se laureara entre os contemporaneos da Universidade.

Quanto pode de Athenas desejar-se, Tudo o soberbo Apollo aqui reserva; Aqui as capellas dá tecidas de ouro, Do bacharo, e do sempre verde louro.

Pelas capellas tecidas de ouro não fico eu; mas que as monjas hospedavam lautamente os seus poetas das mais raras gulosinas e carissimos licores com que já de mezes antes enriqueciam a frasqueira, isso juro eu, e ainda estão vivos alguns, que deram como esgotada a Castallia, no dia em que os garrafões monasticos seccaram requeimados pelo sol ardente da civilisação, a qual (digamol-o muito á puridade) trouxe comsigo o segredo de civilisar pela fome, e de restaurar direitos, violando-os.

A noite illuminaram se as janellas, e os postigos, e os frisos das torres, e as cornijas da igreja. O chá foi servido na espaçosa grade da abbadessa, primeiro aos vates e seus amigos, depois aos notaveis d'aquellas cercanias. O terreiro do espaçoso pateo estava colmeado de gente, anciosa de versos. As freiras, mais expeditas em improvisação de motes, estavam a postos. As senhas tinham já sido pactuadas entre a freira e o seu poeta, entre a noviça delambida e o seu incognito versista, e entre a propria criada, ou _tacho_, e o bardo menos aristocrata, que não se dedignava incensar a mocinha conhecida, e dadivosa das mais recheadas cestinhas de bolos e garrafas do vinho furtado á ama por amor de Apollo.

Rompeu o outeiro auspiciosamente. O doutor Ferro improvisára um magnifico soneto, sem resaibos da sua costumada licença. Os conegos bracarenses traziam odes de grande fôlego, que o Ferro dizia serem _ôdres_ e não _ódes._ Os de Guimarães chamavam á octogenaria prelada a paphia deusa, e decima musa. Tudo isto ia intervallado por libações amiudadas, que accendiam a furia sonorosa, e trasbordavam do peito em colloquios rimados de tanto amor que o proprio patriarcha S. Bento, se alli estivera, e tomara quinhão dos enfeitados cestinhos, que desciam das rêxas, pediria mote para uma decima, sem damno da sua santidade e bom siso.

Depois da meia noite, é que o gloriosissimo santo não quereria de certo tal camaradagem. Os poemas rebentavam já, não da vehemencia do coração, mas da exuberancia do espirito. Qual este espirito fosse, vae dizel-o um dos proprios inspirados.

Era este o abbade Mormo, de Villa Real, inimigo do seu patricio Mesquita. Nunca se haviam encontrado em outeiro d'onde não sahissem mal-feridos de estocadas metricas, e desafiados para o outeiro proximo. Mesquita era filho d'um cortador de carnes, e gastara muitos milhares de cruzados para conseguir cartas de bacharel, que a estulticia do tempo não concedia sem attestados de sangue limpo. O ingeneroso Mormo mais de uma vez, em redondilha maior, alludira cruelmente á filiação de Mesquita, e este como desforço unico, lancetava a devassidão do abbade.

O doutor Mesquita foi vexado do demonio da satyra mais cedo que o seu patrício Mormo. Os remoques eram já pungentes, como este:

Já cede Pégaso o passo, Escoucinha, espirra, e rincha, Ouvindo ornear o pechincha, O abbade sujo e devasso, etc.

A isto o concitavam as gargalhadas de alguns seus contemporaneos; e a mais se prostituiria a musa alcoolisada, se um mote não viesse impôr aos poetas mais respeitosa linguagem. Era o mote:--«A melhor de entre as preladas.»

O abbade Mormo ergueu-se de sobre uma alfombra de relva onde parecia sopitado, e bateu as palmas, apenas soou o mote.

--Lá vai!--disse elle--_A melhor de entre as preladas._

Boas noites! vou-me embora; Já não posso estar com somno, Nem me apraz soffrer o mono, Borrachão a toda a hora. Oh! quanto melhor lhe fora Ter as facas amoladas, E ir cortar as colladas No outeiro sanguinoso, Em quanto eu louvo ditoso _A melhor de entre as preladas!_

Não podia ser mais nú o insulto ao filho do magarefe! A multidão riu muito, salvo os partidarios de Mesquita. Este, espicaçado pelos glosadores da injuria, procurou o velho abbade entre a populaça, que o victoriava, e remetteu com elle a murros fechados. O aggredido não podia com o adversario; mas sobravam-lhe alli admiradores que o defenderam, immolando-lhe o nariz contuso de Mesquita. Acudiram os amigos do doutor, e a briga assanhou-se entre os dous partidos a ponto de ficar despejado o pateo do mosteiro. As freiras de compleição mais debil desmaiaram. As noviças fugiram das janellas para não insultarem com o riso as monjas velhas. As criadas estendiam as bugias e lanternas fóra das grades para alumiarem o terraço, onde estalavam as bordoadas ora nos paus, ora nas cabeças com um som mais surdo. As lages do pateo estavam juncadas de chapéos e capotes. O reboliço afastára-se em turbilhões cujo alarido redobrava o terror. A prelada ordenou que se apagassem as luzes, e mandou tocar a silencio. Meia hora depois, os poetas e os demais hospedes do mosteiro voltaram á hospedaria conventual, e passaram o restante da noite em regalado somno, excepto os dous conegos bracarenses, que d'alli se partiram logo para suas casas com as melhores odes ineditas, e sem chapéo. O doutor Ferro, como estivesse já na cama, e soubesse que os conegos não voltaram, nem voltariam ao outeiro das seguintes noites, ergueu-se de golpe, e de pé sobre a cama, com um lençol sobre as espádoas, lançado em fórma de clamyde grega, e os cabellos descompostos, improvisou um soneto, que começava assim:

Altissimo Senhor, que tudo pódes! Transfigura em cajadas os cajados Que pozeram em fuga os desalmados Estomagos, que tem só vinho e odes . . . . . . . . . . . . . . . . .

Queria a abbadessa dar por concluida a festividade da eleição, á conta da desordem, e do receio que se ella repetisse. Conjuraram muitas religiosas em demovêl-a da tenção, e os poetas, acaudilhados pelo doutor Ferro, foram incorporados solicitar a continuação do outeiro. Os requerimentos em verso foram a final deferidos, e á noite seguinte concorreram, afóra os conegos bracarenses, os mesmos poetas, sem excepção de Mesquita e Mormo, que vieram ás boas, mediante as diligencias de algumas senhoras, que muito podiam com elles.

Correu a noitada muito à prazer de freiras e poetas. Nenhuma senhora deixou de contribuir com os seus applausos para a glorificação dos vates, salvo Maria da Gloria que passava a noite no quarto de soror Joanna, recontando-lhe pormenores da sua feliz infancia, e tristonha mocidade. O pendor de todas as conversações de ambas era para Alvaro. A religiosa consolava com a esperança; Maria chorava de saudades, e temores do futuro incerto. Se, porém, a santa lhe punha os olhos expressivos de reprehensão, a turbada senhora, dizia em tom de supplica:

--Perdoe, minha amiga, perdoe á minha desgraça a sua tibieza de fé. Eu sei que Deus a escuta; mas, se me olho inculpada, e tão infeliz, pergunto a mim mesma que virtudes novas tenho eu agora para merecer que o Senhor esqueça as minhas culpas passadas! Eu pensei sempre como hoje. O crime nunca teve para mim outra cor nem o meu coração se abriu aos encantos do vicio. Sou a que era; penso que serei sempre desgraçada como tenho sido.

Soror Joanna fez um esforço para ajoelhar á beira da poltrona em que estava sentada, e conseguiu-o coadjuvada por Maria da Gloria. Esta, sem convite da santa, ajoelhou tambem, e ouviu da freira estas brandas palavras: