O Romance de um Homem Rico

Part 6

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--Acordal-o para o vêr ir de mim!...--dizia ella, chorosa.

Resolveu-a um recado de soror Joanna; mandava dizer que estava esperando o menino, e que fosse, porque eram horas de coro. As palavras da santa deram-lhe alma para o trance.

Foi Alvaro ao cubiculo da religiosa, e sua mãe com elle.

--Entrem, meus filhos--disse soror Joanna--Venha aqui o menino: não ha tempo para demoras. Aqui tem a lembrança que leva d'esta sua velha amiga. Logo que chegue a Lisboa, antes de entrar na sua casa, vá entregar esta carta. A pessoa é bem conhecida. Quem quer lhe dirá onde mora esta pessoa. Agora vá com a Virgem Santissima. Quando voltar, me dará novas da pessoa a quem escrevo. Emquanto a vós, minha penitente--continuou acariciando Maria--notae bem o que vos digo. Prohibo-vos de vêr o subscripto da carta que vosso filho leva. Entendeis, Maria?

--Oh minha senhora!--disse a conturbada mãe, beijando-lhe a mão.--Sou incapaz de desobedecer-lhe.

--Bem o sei: conheço o vosso coração melhor que vós mesma. Ide com Deus, meus filhos.

Do ultimo abraço que Maria deu em seu filho passou sem sentidos para os braços de Cecilia.

Alvaro escassamente chorava. Sentia em si o coração forte do homem. Quando, porém, relançou os olhos para a portaria, que se fechava, não viu senão o alvacento véo das suas lagrimas.

III

_Quem não vê por isto que o mundo é um juiz iniquo?_

S. FRANCISCO DE SALES (Introd. á vida devota).

Temo que me chamem milagreiro, e tomem este livro como additamento á «Flôr dos Santos» de Ribadeneira. Não quero semelhante nota. Vou demonstrar que soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor não fazia milagres: antevia unicamente, com os olhos de sua virtuosissima alma, as consequencias do que já sabia. Saiba tambem o leitor que este romance, por ter o merito da verdade, pouco tem que fazer: é a natureza que o faz.

É já sabido que Manoel Teixeira de Macedo foi a Macáo, em 1815, liquidar a herança paterna de sua mulher.

Maria da Gloria tinha então vinte e tres annos, e muita formosura. Não direi que amava, mas estimava grandemente seu marido, mais velho que ella doze annos. Não casara apaixonada, nem sequer voluntaria. Seu pae, commerciante laborioso, sympathisou com o incansavel bastardo do titular; tomou-lhe o pulso dos haveres, e achou-o já rico aos trinta e dous annos; e, como deixasse o seu negocio na India entregue a caixeiros, accelerou o casamento com o duplo fim de desapressar-se de cuidados, que lhe inquietavam os ocios de ricaço aposentado. Não quero dizer que os esposorios de paixão assegurem felicidade duradoura: sobejam ahi exemplos do contrario; estou, porém, em affirmar que os casamentos involuntarios é que não asseguram felicidade nenhuma.

Na ausencia de seu marido, a vida de Maria da Gloria era o amor de encanto á criancinha de tres mezes. Não a mortificavam grandes saudades, e menos ainda ciumes. Toda no filho, não curava d'outras sensações, como quem já não era sua, e só vivia para elle.

Defrontava com a sua casa um cavalheiro de annos adiantados, quarenta teria, mas sobravam-lhe qualidades para ser presado. Umas dava-lh'as a figura, outras a posição e os creditos. Era um magistrado, e chamava-se João de Mattos e Vasconcellos Barbosa de Magalhães.

Está o leitor como attonito de vêr em romance um galan que não se chama _Alfredo, Ernesto, Arthur_, ou _Julio._ Acceite-o assim, que era aquelle o nome do cavalheiro, que foi depois intendente geral da policia, e ministro d'estado, e holocausto de suas idéas liberaes no desterro, se bem que exilado pelo illegitimo soberano a quem honradamente servira.

João de Mattos reverenciava a sã moral, nunca violara os deveres de bom cidadão, respeitava os direitos alheios por amor de si, tinha que farte d'este util egoismo que equilibra os actos humanos, e fórma o pilar das virtudes sociaes, sem absoluta dependencia dos preceitos religiosos. Pensava com Benthan, e não tinha ido mal com tal guia. O caminho do philosopho inglez não é tão abrolhado de dificuldades como o dos moralistas ascéticos, e tem de bom que conduz ao mesmo ponto--á virtude, sem penitenciar o corpo nem a alma.

João de Mattos amou Maria da Gloria.

Mandam-me, talvez, cancellar o periodo em que ficam elogiadas as qualidades do magistrado. Não consentem que se compadeçam as virtudes sociaes com aquelle amor. Isso é juizo de vulgo errado.

Aqui tenho eu aberto um livro de grande nomeada. É o DEVER, d'um professor de moral em França. A academia premiou-lh'o, e os seus concidadãos consomem as edições, e moralisam-se. Este livro dá preceitos para regrar todas as propensões da alma. Explora a origem d'estas, e tenta corrigil-as desde a raiz.

Quando, porém, entende no sublime verbo do «amor», exprime-se d'est'arte: «A origem do amor, e os alimentos que o nutrem, quaes são? Como cresce? Como acaba? Não lia dizel-o: tão variavel é tal sentimento. No maximo dos casos, é pelos olhos que nos sentimos captivos; mas o amor acha mil avenidas por onde insinuar-se na alma. É notorio o modo como o poeta fazia fallar Othello: «Contava-lhe os meus azares: não empreguei outra magia...»

N'outro relanço diz:

«D'onde vem o amarmos as cousas bellas? porque são bellas; e as boas? porque são boas.» Vão tomando nota.

Outra passagem:

«Uma paixão nos senhoreia e nos abandona, sem podermos atinar com o porquê. Sahimos a negocios, e depara-se-nos ao dobrar d'uma esquina a mulher, que vae transfigurar-nos o coração.»

Ultima citação:

«Como havemos de conjecturar uma paixão que a si mesma se defenda de demasias? Absurda cousa! Para a paixão ha um freio sómente: é o desgosto ou o fastio.»

Conclusões a tirar em favor da paixão de João de Mattos, sem implicancia das suas excellentes qualidades:

Não sabia elle como nascera o seu amor; menos sabia ainda como havia de matal-o. Amou pelos olhos Maria da Gloria; mas as mil avenidas da sua alma tinham sido escaladas pelo amor. Amou a formosa porque era formosa. Achou-se transfigurado no coração, quando o cria esmagado sob a graveza dos cálculos ambiciosos de gloria. Quiz enfrear os impetos do sentimento; mas, antes do fastio, não ha hora alguma em que o amor, coma o leão sezonatico, se deixe acorrentar.

Ahi está. Se eu não consegui desculpar o magistrado com o livro--O DEVER, perdôem-lhe os leitores por misericordia.

Quaes foram, porém, ás demasias do visinho de Maria da Gloria? Escreveu uma, duas, seis cartas, longas e eloquentes como devia dictal-as o coração e o genio. A esposa de Manoel Teixeira peccou lendo a primeira, e lendo todas; mas não respondeu a alguma.

João de Mattos subiu um dia as escadas da esposa leal, e ajoelhou-lhe, quando ella sahia da sua antecamara para ir beijar o filho no berço. Maria da Gloria estendeu o braço para a porta da sahida, e disse ao homem corrido e allucinado:

--Quem lhe abriu as portas para esta infamia? Sáia, senhor!

Não respondeu, e sahiu.

A mulher pura chamou o criado, que lhe entregara as cartas, por intervenção da ama. Não lhe viu os olhos. Atirou-lhe com a soldada, e despediu-o. O criado quiz explicar a entrada de João de Mattos. Maria da Gloria fez-lhe um gesto severo de silencio, e mandou-o descer no rasto de quem lhe comprara a fidelidade. Vacillou em despedir a criada. N'esta oscillação olhou para o menino, e disse á ama: «perdôo-te por amor do meu filho, e porque sei que a tua culpa é de estupidez e não de immoralidade.»

Maria da Gloria tinha este crime: lêra seis cartas de João de Mattos, e dissera comsigo:--«Isto entretem.»

Voltou de Macáo Manoel Teixeira de Macedo. Depois de abraçar a esposa, acordou o filho, e tanto o acarinhou que pôz a criança a pique de morrer abafada. A bemaventurança estava alli no viver de Manoel Teixeira. Senhor d'uma mulher bella, e virtuosa, e meiga; pae d'um menino lindo como os amores; rico sem ambições que não podesse logo comprar a ouro; estimado de uns sinceramente, e lisongeado por outros; cheio de saude e promessas de longa vida... que mais póde dar este mundo?

O mundo não póde dar mais; mas póde tirar n'um momento tudo isto.

Uma tarde, entrou no quarto de sua esposa Manoel Teixeira, e disse-lhe, com rosto sêcco e pesado:

--Por que despediste o criado Gregorio?

--Porque me não convinha respondeu Maria, descórando.

--Porque descóras?

--Pois eu descórei?!--balbuciou ella--Impressionou-me a mudança do teu rosto.

Sahiu Manoel Teixeira, porque n'este ponto entrou Eufemia com o menino.

Maria seguiu-o, e entrou com elle n'uma sala.

--Por que me fazes semelhante pergunta?!--disse-lhe ella, resolvida a contar-lhe o acontecimento.

O marido fitou os olhos n'ella e nas janellas de João de Mattos. Maria ia a fallar, quando lhe elle voltou de golpe as costas, e sahiu.

--Deus sabe a minha innocencia: nada temo--disse ella.

É certo que Deus vê o crime e a innocencia de nós todos; consente, porém (e louvados sejam por isso os altissimos juizos do Senhor!) que os innocentes sejam condemnados em muitas instancias, antes de serem citados ao seu tribunal supremo, e--n'isto vai muito a dizer--parece que vê sem offensa de sua justiça a impunidade dos que delinquiram. Os theologos é que sabem dizer como isto é, e convencem a gente de que os romancistas são os menos azados para deslindarem esta meada. Consultem-se, pois, os theologos.

Na porta visinha de João de Mattos morava um especieiro que fora criado de Manoel Teixeira, e se estabelecêra com o credito d'este. O logista procurou o seu antigo amo, e contou-lhe que vira entrar e sahir João de Mattos de sua casa, uma vez pelo menos, em quanto o seu protector estivera em Macáo. Antes e depois da revelação, o mercieiro deu as razões da denuncia: achava-se obrigado a não consentir que o seu segundo pae fosse deshonrado por uma mulher indigna. E taes cousas disse n'este sentido, e com tamanha dôr, que chorou!

Manoel Teixeira não viu sua mulher durante vinte e quatro horas. Decorridas estas, convidou-a a dar um passeio de carruagem ao campo. Maria da Gloria tremia de vago terror, quando se vestia para sahir. Já preparada, foi ao berço do menino, e ajoelhou para beijal-o. Manoel Teixeira contemplava inalteravel este lance. Que esforço de homem! não digamos maldade.

Fora de portas estava uma liteira, uma mulher sobre umas andilhas, e dous cavalleiros, que D. Maria não conheceu. A carruagem parou.

--Apeie-se,--disse elle depois que saltou rapidamente da sege.

Maria sahiu machinalmente.

--Entre n'aquella liteira.

--Para onde vou?!--exclamou ella.

--Sabel-o-ha onde a pozerem. Não ha tempo para explicações. Aquella mulher é sua criada.

--E meu filho?

--Lá irá. Estes homens são seus criados até ao ponto onde a deixarem. Adeus.

--Mas o meu filho!--exclamou, estendendo os braços ao marido--Dá-me ao menos aquelle menino, se me lanças barbaramente de ti!...

--Olhe que nos ouvem, senhora! As altercações aqui, além de tardias, são indecentes.

A criada tinha apeado. Maria da Gloria foi transportada quasi sem sentidos á liteira. Manoel Teixeira já não viu este doloroso conflicto.

Deixemos ir aquella martyr, e esperemos em Deus.

O capitalista não entrou mais em sua casa. Pessoas estranhas tomaram conta de todo o contheudo n'ella. Eufemia e o menino foram recebidos em casa de uma familia, e d'ahi levados para outro domicilio, onde os esperava Manoel Teixeira. N'esta nova casa, medianamente adornada, não havia um só movel da antiga, que suggerisse execraveis lembranças.

Correu a fama a contar os successos pelas mil bocas da diffamação. Dizia-se que a criminosa esposa do desditoso fora encerrada n'um convento de Hespanha; que os remorsos a matariam alli; que o extremoso marido estava a ponto de enlouquecer; que os seus amigos desvelavam as noites á beira d'elle, receiosos d'um suicidio. Isto é o que se dizia no gremio das familias, onde as atoardas da fama iam buscar a sancção de evangelhos.

No entanto, João de Mattos, indigitado amante de Maria da Gloria, estava em Barcellos, sua terra natal, convalescendo da enfermidade do coração, medicada a tempo pelas offensas do amor proprio. De volta á capital, ouviu a historia, e deliberou-se nobremente a procurar Manoel Teixeira, e contar-lhe a innocencia de sua mulher, confessando a propria culpa. Era honrada; mas extemporanea a tenção. O ricaço tinha ido viajar pela Italia, com o filho aos peitos da ama, e comprara uma quinta nos arrabaldes de Napoles.

Decorreram tres annos primeiro que Manoel Teixeira voltasse á patria. João de Mattos, já no topo das grandezas sociaes, nem deu conta da chegada do negociante, nem é de crer que a lembrança dos passados successos o perturbasse no exercicio dos seus altos cargos. Imaginava Maria da Gloria em Hespanha, e, por decoro seu e d'ella nunca inquiriu o local, nem lhe parecia facil averigual-o. O homem é isto.

E o homem era tambem Manoel Teixeira de Macedo. Não ha julgal-o d'outro estôfo, vendo-o trazer comsigo de Napoles uma gentil italiana, e dous filhinhos, que aposentou em Lisboa n'um palacete de Belem. Consola, porém, dizer que o filho de Maria da Gloria era o mais querido, o que elle apertava ao coração com lagrimas, o que desde os quatro annos, trazia sempre sobre os joelhos, na carruagem, e offerecia aos carinhos de todos os seus amigos.

Entretanto, a martyr de Vairão, ajoelhando supplicante ou recuando blasphema dos degraus do altar, sentiu-se morrer em agonias atrozes durante os milhões de instantes de quatro annos. Estava da mão de Deus, por que era de Deus um anjo, que ella via ao seu lado, envolvido no habito de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor.

N'este largo espaço, teve noticias de seu filho a longos prasos: eram cartas que Eufemia lhe escrevia de Napoles. Logo que as recebeu de Lisboa, escreveu a seu marido muitas cartas, que elle lia commovido. Não alcançou resposta de alguma. Já sabem o que ella pedia: vêr seu filho, antes de ser chamada com o pae ao tribunal de Deus.

IV

_Dico vobis: Omnia quœcumque orantes petitis, credite quia accipietis, et evenient vobis._

Eu vos affirmo que todas as cousas, que na oração pedirdes, as recebereis, e succeder-vos-hão.

S. MARC. 11. 24.

Em 1825, era empregado, em qualidade de aguazil, na intendencia geral da policia, um homem que merecera a confiança de João de Mattos nos mais importantes segredos d'aquella magistratura.

Na presença do intendente e d'este homem, alguem fallou um dia em Manoel Teixeira de Macedo, como suspeito partidario de D. Carlota Joaquina, e dos assassinos do marquez de Loulé, no anno anterior.

Cahiu a proposito fallar da graciosa napolitana, que vivia ostentosamente em Belem, e da esposa, que fora encarcerada n'um mosteiro de Hespanha.

O quadrilheiro, que assistira mudo a esta conversação em que João de Mattos denotava ainda vestigios do antigo sofrimento, a sós com elle, pediu-lhe, muito em secreto, licença para lhe dizer que a mulher de Manoel Teixeira não estava em Hespanha; mas sim em Vairão, onde elle a conduzira com outro homem da sua confiança, diligencia de que fora liberalissimamente pago, sob condição de divulgar que D. Maria da Gloria tinha sido entregue na raia a pessoas encarregadas de conduzirem-na ao convento hespanhol.

João de Mattos recebeu de bom rosto semelhante nova, e sem detença escreveu a uma sua tia professa no convento de Vairão, pedindo-lhe mui reservadamente esclarecimentos acerca de Maria da Gloria, entrada no seu mosteiro em 1817. Soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor era a tia de João de Mattos.

A discreta religiosa, sem dar a saber tal carta á sua infeliz amiga, contou ao sobrinho, com piedosas expressões, o atormentado viver da pobre mãe, que, a ser de todo innocente como a ella julgava, devia já ter nas mãos dos anjos a sua corôa de gloria.

Escreveu de novo o magistrado a sua tia, confirmando a conta em que ella tinha a enclausurada, por uma confissão exacta dos simples successos, que precederam a desgraça da infeliz senhora. Accrescentava elle que punha á disposição de Maria da Gloria todo o seu valimento para ella intentar contra o marido acção de divorcio, separação do casal, e posse do filho, visto que o pae escandalosamente amancebado com a mãe de filhos bastardos, não podia curar dignamente da educação nem bem gerir o património do filho legitimo.

Soror Joanna contrariou o plano judiciario de seu sobrinho, dizendo que o Senhor não faltava em tempo opportuno aos padecentes humildes, e gostava que os desgraçados fiassem d'Elle a inteira execução da sua justiça.

João de Mattos recalcitrou ainda na opinião de que a justiça humana era a expressão da vontade divina; mas a freira redarguiu de força que o sobrinho não teve animo de contradizel-a, e meditou mais summaria traça a libertar Maria da Gloria, sem dependencia da vontade do marido.

A ponto estavam estas intenções de serem executadas, quando chegou a Maria da Gloria a carta em que lhe era dada a noticia da ida de Alvaro. Soror Joanna, n'aquelles ultimos dias anteriores á fausta nova, raras horas sahira do coro. Ahi a viam como arrobada em oração mental, e tão fervoroso devia de ser o seu orar, que as lagrimas, nunca vistas no rosto sereno da santa, eram inexhauriveis durante aquellas horas do coro. Ás vezes, em communidade, erguia a voz, clamando: «Peçam commigo a nosso Senhor Jesus Christo que manifeste o poder do seu braço n'uma obra de muita necessidade.» E as freiras, e Maria da Gloria com ellas, rezavam ferventemente.

Dizem que Soror Joanna estava no coro, a tempo que chegou a noticia da vinda de Alvaro, e que, sem ninguem lh'a ter communicado, rompera em altas vozes de acção de graças, na presença de muitas testemunhas, que não souberam atinar com a causa d'aquella subitanea exaltação. Eu não affirmo isto; mas quero acredital-o para mim. A poesia do céo é esta. Não sei que hajam ahi outros incentivos que me chamem aos olhos as lagrimas do coração. Quem me quizer ver chorar, e vibrar de não sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me casos da natureza d'aquelles: faça-me acreditar, na existencia d'umas almas que vão entender-se com Deus por um raio resplendoroso de graça divina.

Dispensa o leitor que lhe refresquem a memoria dos successos decorridos com Soror Joanna, durante as vinte e quatro horas de visita de Alvaro a sua mãe. Agora sabe que, no tom prophetico das palavras da santa, não ha que vêr com milagres. Aquelles acontecimentos vieram de seu, naturalmente, depois da troca das cartas antecedentes, entre a freira e o sobrinho. Per si mesma tem a virtude umas sahidas tão maravilhosas que não ha que dizer se as lançamos á conta de milagres, nós, os cegos d'aquella celestial claridade a que as almas escolhidas a si se veem, e se vão alumiando nas escuridades da vida, sempre tenebrosas para nós... _Para mim_, devia ter dito; porque, em verdade, não posso nem devo duvidar das lavadas entranhas e clara fama dos meus leitores.

É tempo de voltarmos a Lisboa com Alvaro. Iremos; porém, vejamos, em quanto elle caminha chorando d'alma com saudades de sua mãe, e sorrindo ás esperanças que lhe dera a freira, os successos que tão triste resultado promettem á temeridade do bom filho.

Ao terceiro dia da sua supposta ida para o collegio, o morgado dos Olivaes Sebastião de Brito e Macedo, e sua filha Leonor, foram a Lisboa, e hospedaram-se em casa de Manoel Teixeira, irmão natural, como se disse, d'aquelle fidalgo de antiga linhagem.

Leonor era a destinada esposa de Alvaro, desde o berço. N'este enlace pozera o bastardo o fito de sua vaidade, e o legitimo o da sua ambição. A passo igual, enriquecia Manoel Teixeira, e alcançava-se Sebastião de Brito. Este encostava-se ao plano restaurador dos seus haveres; o outro gozava-se a cada nova hypotheca que o irmão fazia. Se lhe emprestava quantias avultadas, cobrava titulo d'ellas, armas de vingança com que um dia, infringida a palavra do morgado dos Olivaes, cortaria as esperanças cubiçosas de outro pretendente.

Leonor perguntou logo por seu primo, ao subir a escada. Manoel Teixeira disse que Alvaro estava no collegio, e que pedira um mez de solidão para se dar todo a traduzir uma obra. Sebastião de Brito mofou das canceiras litterarias de seu sobrinho, e disse que não queria philosophos nem poetas para genros. Censurou que Alvaro não tivesse ainda recebido lições de equitação, indispensaveis n'um mancebo que era Brito e Macedo. Manoel Teixeira gostou da censura, e disse que o pequeno apenas tinha doze annos, e era de compleição franzina para aturar as fadigas da cavallaria. Redarguiu o morgado que era uso na familia dos Britos e Macedos passarem os varões do berço para a sella. Se outrem o dissesse, era epigramma de certo.

No entanto, Leonor dizia que, a não vir o primo vêl-a, iria ella sósinha ao collegio, na carruagem do tio. Foi applaudida a galanteria da menina; e Sebastião de Brito, deixando-a ao irmão, foi visitar alguns primos e primas.

Foram Manoel Teixeira e a sobrinha ao collegio com o intento de surprehenderem Alvaro e trazerem-no comsigo. O professor de inglez é que foi o surprehendido.

--Não mande parte a meu filho,--disse o negociante,--que eu quero apparecer-lhe de repente com a prima.

--O senhor Alvaro não está cá--disse o director do collegio.

--Como?!--meu filho sahiu?

--Ha quatro dias que nos disse que ia passar um mez com os seus parentes dos Olivaes--tornou o director.

--Isto que significa?!--replicou, entre colerico e espantado, Manoel Teixeira, interrogando o mestre de inglez.

--O senhor director disse a verdade...--respondeu aquelle, denotando enleio e turbação.

--Então foi o meu filho que me mentiu?--tornou já muito alterado o commerciante--Não creio! Aqui ha embrulhada!

--Que embrulhada póde haver aqui?--disse com azedume o proprietario do estabelecimento.

--Não sei; é preciso que me digam onde está meu filho.

--Não sabemos, senhor Macedo; já dissemos a vossa senhoria que o suppunhamos nos Olivaes: se seu filho mentiu, castigue-o vossa senhoria, e não nos culpe a nós por nos havermos fiado na palavra d'um menino, que nos merecia toda a confiança.

Manoel Teixeira sahiu de maneira aturdido que deixaria a sobrinha, se o ella não seguisse. A sua primeira idéa foi... quem póde dizer qual foi a primeira idéa do negociante, cujo amor paternal era de extremos? Levar a casa Leonor foi de certo a primeira idéa.

Eufemia, desconfiada do que havia de succeder, logo que viu Leonor sahir com o tio, ficou em sezões, e esmoreceu de todo quando ouviu a voz clamorosa de seu amo chamando o filho.

Acudiram os criados todos, menos ella. Leonor foi ao quarto de Eufemia, e achou-a em desmaios. Tornou ao tio, contando lhe o estado em que deixava a pobre ama.

N'estas aperturas, soou a campainha, e annunciou-se o professor de inglez, que pedia fallar particularmente com o dono da casa. Manoel Teixeira reanimou-se.

--Vem dar-me alguma boa noticia?--exclamou o negociante com alegre rosto.

--Creio que sim.

--Appareceu o meu filho? diga, diga.

--Seu filho nunca esteve perdido, snr. Macedo.

--Onde está, pois?

--Vossa senhoria sabe que eu sou o mestre que seu filho mais tem presado.

--Sei, e merece-o.

--A nobre alma de seu filho não podia ter um segredo que eu não soubesse. Ha quatro dias que elle disse ao director do collegio que ia estar nos Olivaes algum tempo; a mim, porém, disse-me que ia vêr sua mãe ao convento de Vairão.

Manoel Teixeira deu tres upas na cadeira, e, á quarta, exclamou:

--Quem disse a Alvaro que a sua mãe está em Vairão?!

--Fui eu, snr. Macedo.

--E como sabe o snr. que ella está em Vairão?!

--Sei-o da voz publica.

--E que lhe importa ao senhor'o que diz a voz publica para o communicar a meu filho?

--Não me importa muito o que a voz publica diz; mas interessava-me muito servir os nobres sentimentos do filho de vossa senhoria.

--Fez-lhe um grande serviço, não tem duvida nenhuma!--disse ironicamente o negociante--Quer-me mais alguma cousa?

--Quasi nada,--disse o professor--restituir a vossa senhoria seis mezes da prestação que o director do collegio recebeu adiantados.

E, dizendo, tirou d'uma carteira dinheiro em papel, que estendeu sobre a banca a que Manoel Teixeira encostava o cotovelo direito.