Part 5
--Está bom--redarguiu Alvaro--não se afflija, que eu não fallo mais n'isto; mas prometta de não dizer a meu pae nada.
--Eu, menino! Eu cahia lá n'essa! Tomára eu que elle nem por sonhos se lembre de que o senhor Alvaro me disse taes palavras!...
N'um dos proximos dias, Manoel Teixeira de Macedo, tinha sahido apressadamente, e deixára aberta uma gaveta cuja chave nunca lhe esquecera.
Alvaro entrou no escriptorio, e reflectindo disse entre si:
Não haverá aqui alguma cousa que me falle de minha mãe?
E diz elle no seu livro, por estas ou consentaneas palavras, que ouvira uma como voz do céo que o mandava abrir a gaveta da escrivaninha.
A tremerem-lhe as mãos, abalançou-se o moço ao que nunca se atrevera a fazer. Viu uma caixa de velludo encarnado, com fechos de prata. Abriu a caixa: era um retrato de mulher, sobre marfim.
--Será?--disse elle--«Senhora de rara formosura» me disse o mestre; e esta é tão formosa!...
Entrou de golpe Eufemia no gabinete particular de seu amo, e, como visse Alvaro ao pé da mysteriosa gaveta, com um retrato na mão, correu para junto d'elle, dizendo:
--Que está a vêr o menino?
--E de minha mãe este retrato?--respondeu elle sem turbação.
Eufemia, apenas lhe relanceou os olhos, exclamou:
--É, é; mas, pelo amor de Deus, não esteja aqui, metta o retrato na gaveta, de modo que seu pae não dê fé. Venha, venha commigo, menino!
--Não vou,--disse elle com firmeza--n'esta gaveta é que está o segredo que a Eufemia não quer contar-me. Hei-de procurar entre estes papeis alguma carta de minha mãe.
Eufemia espantou-se e assustou-se da gravidade inabalavel d'aquella resposta.
--Feche a gaveta, que eu prometto contar-lhe tudo--disse ella--Venha depressa, que eu ouço passos... E o paesinho que vem...
Não era; mas o medo figurava horrores na cabeça da pavida mulher.
Alvaro sahiu, depois que repoz o retrato no seu lugar, com tal cautela, que não podia denunciar mão estranha.
--Conte-me agora o que souber--instou elle com a ama.
Eufemia oscillou ainda; mas, obrigada por um gesto de justa severidade com que Alvaro censurava a hesitação, disse o seguinte:
--A razão por que sua mãesinha foi para o convento... ainda que eu lh'a diga, o menino não a entende.
--Mas diga, e depois me explicará, se eu não entender.
--Olhe, o seu pae foi a Macáo receber a herança de sua mãe, que era de lá...
--Já sei.
--Sabe?! quem lh'o disse? Credo! Aqui parece que anda bruxaria!
--E depois?
--Seu pae, quando voltou, passados dias mandou sua mãe para um convento...
--Na provincia do Minho, já sei tambem; mas isso não é o que lhe pergunto: o que eu quero é saber porque foi.
--Foi porque assacaram uma calumnia á sua mãesinha. Agora já sabe... Deixe-me, menino, por piedade lhe peço que me deixe.
--Calumnia! que calumnia!?... Então é isso o que me prometteu, Eufemia?
--Sabe que mais, senhor Alvaro?... quem lhe disse o que sabe, que lhe diga o resto...
Eufemia sahiu da beira de Alvaro, e foi, a correr como douda, refugiar-se no seu quarto, e pedir a Deus que trouxesse depressa o patrão para casa.
Alvaro dirigiu-se placidamente ao gabinete, abriu de novo a gaveta, e tirou ao acaso um massête de cartas d'entre muitos sobre que assentava a boceta do retrato. A tempo foi isto que se ouviu o toque conhecido da campainha: era Manoel Teixeira. Alvaro, tão senhor estava seu, que metteu na algibeira o massête de cartas, fechou a gaveta, e sahiu do gabinete.
Manoel Teixeira trazia o pensamento na chave esquecida. Apenas entrou no gabinete, correu á gaveta, e examinou-a; tornou a fechal-a, e não suspeitou levemente da curiosidade do filho, nem dos criados, que, salvo Eufemia, nunca entravam n'aquella recamara.
Alvaro, a hora segura da noite, quando todos estavam recolhidos, deslacrou o massête das cartas, e leu-as e releu-as sofregamente como se as houvesse recebido da primeira mulher amada, n'aquelles dias de santo amor, de luz celestial, e de flores sem espinhos, em que tudo nos vem fadado do céo, e as cartas mesmo as cuidamos dictadas pelos anjos.
A primeira, conheceu logo que eram de sua, mãe as cartas, escriptas do convento de Vairão, em 1820, quatro annos depois da sua reclusão, e cinco anteriores áquella data.
Todas ellas expressavam a mesma supplica, não de perdão, nem de piedade; mas a esmola de um beijo de seu filho, esperança unica de que se alimentava e vivia a mãe infeliz. Os termos carinhosos do amor maternal, e commoventes rogos ao pae inflexivel da creança, iam crescendo de ponto, segundo o silencio desprezador com que as cartas de Maria da Gloria eram recebidas. Na ultima, que leu Alvaro, dizia ella que já não tinha forças para rebellar-se contra a vontade da Providencia, e receiava muito que a confiança na divina justiça a desamparasse. Terminava emprazando o seu algoz, e protestando pela sua innocencia, diante de Deus.
Na seguinte manhã, Alvaro disse ao pae que ia para o collegio, e não viria um mez a casa, porque se ia entregar todo a uma traducção de um livro inglez. Quiz o negociante dissuadil-o do trabalho como nocivo á sua saude; mas o moço, com afagos, e promessas de não fatigar-se, obteve licença de estar no collegio um mez.
D'aqui passou Alvaro a ter com Eufemia este dialogo:
--Vou ver minha mãe, Eufemia.
--Que diz, menino!? Está doudo!?
--Já lhe disse que vou vêr minha mãe: o pae não vem a saber nada, porque pensa que estou no collegio.
Eufemia replicou amontoando razões que não poderam nada com Alvaro, sendo a mais forte de todas esta:
--E o menino cuida que se póde ir ao convento sem dinheiro? Olhe que são sete ou oito dias de jornada para lá, e outros, tantos para cá. Quem lhe dá o dinheiro?
--Ha-de emprestar-m'o a Eufemia, para eu ir vêr minha mãe; e, se m'o não emprestar, vou a pedir esmola.
A ama abraçou a chorar o seu filho, como ella lhe chamava, e d'aquelle lance em diante não lhe negou dinheiro nem conselhos a fim de realisar-se o intento. Ella mesma, á tarde d'esse dia, ajudada por um seu irmão, foi alugar cavalgadura, e ajustar criado que acompanhasse o menino a Vairão, guardando n'estes passos tal recato que não ficasse alguem sujeito ás iras de Manoel Teixeira, se a desfortuna os descobrisse.
Foi Alvaro ao collegio, e contou ao seu mestre predilecto a ida a Vairão. Tão digno e respeitavel achou o mestre o arrojo do moço, que nem sequer lh'o tentou impedir com reflexões. Abraçou-o com vehemente admiração de tão energica e nobre alma em tal verdura de annos, e prometteu por sua parte mentir piamente ao pae, caso acertasse de encontrar-se com elle. Aos outros professores disse Alvaro que ia passar um mez nos «Olivaes» com seus tios, onde costumava ir ás temporadas.
Na madrugada do proximo dia, sahiu de Lisboa, o filho de Maria da Gloria.
II
_Começa o céo a dilucidar-se._
GOLDSMITH (o vigario de Wakefield.)
Maria da Gloria, depois que leu em tremuras uma carta que recebera do correio de Villa do Conde, correu transportada á cella da sua amiga Cecilia, e lançou-se aos braços d'ella, chorando de alegria.
--Que é, filha?--exclamou a religiosa alvoroçada.
--É a primeira alegria que Deus me dá em onze annos de martyrio. Olha, vê esta carta da Eufemia... deixa que eu leio...
E leu Maria uma carta em que a sua criada lhe contava miudamente as conversações, que tivera com o menino, até áquella hora em que o foi achar a contemplar o retrato de sua mãe.
--Oh meu Deus, meu Deus!--clamou a enlevada senhora, ajoelhando ante o oratorio de Cecilia--Bem haja a vossa mão que até hoje me opprimiu para que eu sentisse o immenso prazer d'esta noticia! Fallai, meu divino Jesus, fallai ao coração de meu filho, e dizei-lhe que sua mãe, se foi culpada, já deliu com lagrimas de sangue as nodoas do coração, para receber dignamente a vossa misericordia, e o amor de seu filho!
Esta curta e arrobada prece foi seguida do desfallecimento. De crêr é que o espirito quebrantado da penitente não tivesse força para vibrar longo tempo abalado pela felicidade. Cecilia tomou-a nos braços, e reanimou-a, communicando-lhe as visões de futuros gozos que a vinham resgatar, pelo amor do filho, e talvez pelo remorso do pae.
Esta nova correu logo os dormitorios, e todas as freiras se alegraram, porque Maria da Gloria era amada de todas, e respeitada das mais escrupulosas por sua resignação e conformidade. Encheu-se de gente o seu quarto, a dar-lhe os parabens, como se no animo das mais virtuosas senhoras preluzisse o vaticinio de começar d'alli a desenredar-se a trama que a desgraça urdira á innocencia da reclusa, nos melhores annos de sua vida.
Passou a febril mãe algumas horas da noite escrevendo ao filho e á criada. Eram paginas sobre paginas levantadas em amor e jubilo, como um hymno de acção de graças, a carta que ella escreveu a Alvaro. Todo e tanto amor, onze annos retraindo, e sem desafogo no proprio seio da religião, dilatou-se alli em termos de sorte amoraveis, que nunca a imaginação apaixonada do poeta os achou assim.
Passaram tres dias n'esta abrazada ancia de outras noticias. Ao quarto, Maria da Gloria recebia nova carta de Eufemia, escripta na occasião em que andava alugando cavalgadura para a jornada do menino a Vairão.
O ambicioso coração d'aquella mãe não esperava, nem sequer sonhava tanto. Sossobrou-a o transporte de alegria; e as formidaveis angustias nunca poderam tanto. Quizeram as amigas, e sobre todas a inseparavel Cecilia, modificar os sobresaltos da esperança em contentamento sereno. Não poderam. A vehemencia das pulsações denotava febre, e já as timidas senhoras se arreceiavam mais da felicidade imprevista, que das flagellações de onze annos de saudade.
Maria cahiu de cama; e, ao terceiro dia, depois da ultima carta, mallogrou se-lhe o desejo de levantar-se. Agora já a enfermava tambem o receio de que as tenções do filho fossem estorvadas por algum dos mil successos que a phantasia escaldada lhe antepunha. A bondosa abbadessa, a fim de socegal-a, promettia-lhe, chegando o menino, abrir-lhe a portaria, contra o estatuido na regra benedictina, e dar-lhe quarto ao pé do de sua mãe. Dissereis que Alvaro era o bem-vindo de todas as monjas, e para a festa da chegada se apostavam todas, com offertas e mimos, e um ar commum de festa, como se estivesse á porta o solemnissimo dia do patriarcha, cujas filhas eram.
Que folgazãs, e não sei se, ao mesmo tempo, santas, eram aquellas creaturas do mosteiro de Vairão, onde, n'esse tempo, florejava em dons do espirito e primores de coração a secular que depois esposou um dos maiores talentos de Portugal, o inimitavel poeta Antonio Feliciano de Castilho! Com que amor e enlevo se liam então alli as riquezas balbuciantes do bardo de «Ecco e Narciso» e os maviosos regorgeios d'aquella «Primavera» em que ainda hoje o espirito inverniço do leitor se póde sentir verdejar aos balsamos das flôres, que lá estão em perpetuo viçor e aroma na grinalda do então, e hoje, e sempre juvenil poeta!
E vinda a hora da acção, e frouxo ha-de ser o traslado, não á conta de o termos escassamente debuxado na idéa, mas é que o desenho de Maria da Gloria, ao dizerem-lhe que entrara o filho no pateo do mosteiro, não o faz a linguagem, e só o pincel de artista de sentir delicado o tiraria a limpo.
Chegou Alvaro ao pateo do mosteiro.
Foi Cecília a da nova, e depós ella vinham todas, alviçareiras, a esbofar de cançadas.
Maria sentou-se de impeto no leito, e abraçava, vertiginosamente, quantas entravam ao pé da cama, onde todas vieram. Até a prelada, menos gotosa que nos outros dias, regamboleava a perna, revel á propria sineta de matinas! A mãe de Alvaro pedia os vestidos, e todas á porfia lhes davam os fatos em duplicado para se vestir, chilreando destoadamente uma inglezia de que as proprias noviças estavam como pasmadas. Já Maria saltava do leito meio-vestida, quando entrou a dona abbadessa, e a obrigou brandamente a recolher-se á cama, que assim o mandára o medico, e não se fazia mistér ir buscar nos braços quem alli vinha ter por seu pé.
A este tempo, correu a chusma das noviças á porta da cella, como ouvissem de longe o rangido de botas nos sonoros corredores dos dormitorios. Vinha Alvaro com a madre porteira, com a madre escrivã, e com a madre que estava de semana no encargo de acompanhar os facultativos ás cellas das suas doentes.
O filho de Maria da Gloria quando viu um grupo de treze noviças, com os seus véos brancos e as toucas graciosas, onde enquadravam rostos mais encarnados que seraphicos, não formou idéa de todo horrorosa do carcere de sua mãe. O interior d'um mosteiro era-lhe novidade; e posto quer n'aquelle tempo, a frequencia das grades monasticas era uso e moda das boas familias, Alvaro nunca vira freiras, e julgava d'ellas pelas que via macilentas e magras nos retabulos das igrejas.
As noviças, como já não coubessem no quarto de Maria da Gloria, agruparam-se no corredor a um lado da porta, abrindo passagem ao hospede e ás tres senhoras. No limiar da cella estava a prelada, que tomou a mão do menino, e o guiou ao pé do leito. Maria, quasi a resvalar da cama, recebeu o filho nos braços, e apertou-o contra o seio em silencio de sofregos beijos, e, a rapidos intervallos, o afastava de si e contemplava com olhar frenetico, e tregeitos convulsivos como os da loucura.
--É o meu filho!--exclamou ella circumvagando os olhos mais soberbos que maviosos pelas religiosas que choravam--É o meu filho! é a minha riqueza! tenho vivido em tormentos de onze annos para este instante... Deixem-me desabafar, que a felicidade suffoca-me...
E bracejava, atirando a repellões as tranças soltas para as costas.
Alvaro contemplava a mãe com ar de assombro. Tinha visto um retrato, como elle, n'aquelles annos, poderia imaginar um anjo. A mulher, que alli via, era magra, livida, e com as rugas da velhice precoce nos rebordos macerados dos olhos. Raros vestigios das feições antigas conservava a infeliz aos trinta e quatro annos, idade em que o toque morbido e desmaiado da belleza é muitas vezes mais de captivar que o viço dos vinte annos.
--Não me esperavas assim ver tão velha, meu filho?--disse ella, correndo as mãos no rosto de Alvaro.
--Faz muita differença do seu retrato, que lá tem o papá--disse o menino a custo, de apertado que estava nos braços da mãe.
--Quando eu tirei aquelle retrato, meu filho, era feliz, e tinha dezeseis annos. Não sabes que me foste arrancado, ha onze annos, dos meus braços, Alvaro? Onze annos a pedir a Deus este dia, meu querido filho!... Onze annos!... E Deus sabe se tornarei a vêr-te!
Maria da Gloria debulhou-se em lagrimas, e rompeu em gritos. Todas as freiras a um tempo lhe disseram palavras consolativas e de esperança. Alvaro, vendo que sua mãe ia cahir exhaurida de forças para o espaldar do leito, tomou-a para si, e submetteu o hombro ao rosto pendido e gotejante de suor.
A prelada mandou sahir as religiosas, que pejavam o quarto mal arejado. Abriu-se a pequena janella, e Maria tornou a si, sentindo a mão do filho afastar-lhe da face os cabellos já passados da copiosa transpiração.
A discreta abbadessa tambem sahiu, cerrando a porta.
--Sinto-me vigorosa...--disse Maria--Olha, meu filho, entra n'aquella cella, e espera-me lá.
Alvaro passou á especie de ante-camara que sua mãe tinha, com serventia interior, por graça especial da prelada, e porque lhe sobejavam recursos para as mal denominadas regalias do convento.
Viu Alvaro n'este recinto, pequeno, mas bem assombrado e até bonito com aceio de adornos, uma livraria, que tomava um dos quatro lados, e alguns retratos, que eram os de seus avós maternos, e outros paineis de devoção. Sentou-se á banca onde sua mãe escrevia, e relanceou os olhos por sobre os papeis espalhados n'ella. Entre estes estava aberta a ultima carta, que Eufemia escrevera a sua ama. O pequeno não adivinhou a delicadeza de furtar os olhos ao estimulo da curiosidade. Leu a carta, e entendeu a promptidão com que lhe foram abertas as portas do mosteiro, onde a sua ama lhe havia dito que não era permittido o accesso, salvo ás grades, e um momento na portaria, se sua mãe solicitasse o prazer de abraçal-o. Maravilhou-se do segredo que Eufemia velára d'elle, occultando-lhe as suas relações epistolares com a mãe. Sentiu-se mais obrigado a estimar a virtuosa mulher, que para escrever á encarcerada, de todo o mundo se escondia, temendo ser repellida da casa, onde estava o filho da martyr, e ella, a alma unica de quem podia a mãe fiar as suas queixas, e receber palavras que lhe temperassem as desesperadas saudades.
Maria da Gloria, vestida em desalinho, entrou no quarto, onde Alvaro estava.
Sentou-se n'uma cadeira de espaldar, e achegou de si o filho, que parecia tomado de melancolico espasmo.
--Estás tão triste, Alvaro?... É a vista de tua velha mãe que te entristece?
--Não, minha senhora; é o pesar que eu tenho de a não vêr em nossa casa. Porque está aqui ha tantos annos, minha mãe?
Maria empallideceu, e balbuciou por entre beijos, em que parece que desabafava a vehemente oppressão da innocente pergunta:
--Tu não me entenderias, se te eu dissesse a causa d'esta minha desgraça, filho do meu coração. Es muito menino ainda para comprehenderes a calumnia de que sou victima.
--Mas--atalhou Alvaro com intervallos de suspensão, que denunciavam mais a innocencia de sua ignorancia das calamidades da vida--o pae não póde ser tão mau que tenha aqui presa sem alguma culpa a minha mãe... Diz a Eufemia que elle fora muito seu amigo, e o meu mestre de inglez tambem me disse que eu nascera na época da felicidade.
--Cala-te, cala-te, meu filho--exclamou Maria, afogada em soluços.
--Não chore assim, minha mãe--acudiu o menino, a chorar com ella--Escreva ao papá, peça-lhe que a tire d'aqui; talvez que elle tenha pena de si agora. A mãe já não lhe escreve como ha quatro annos?
--Quem te disse que eu lhe escrevia, filho?
--Eu li as cartas, ás escondidas do pae, e trago-as commigo, porque não tornei a encontrar aberta a gaveta d'onde as tirei. São todas de 1820. A mãe não escreveu mais algumas?
--Não, porque teu pae nunca me respondeu a ellas.
--Escreva-lhe agora, sim? Escreva-lhe quando eu já estiver em Lisboa...
--Que farias tu, meu querido filho, que importaria escrever eu a teu pae?
--Eu pedia-lhe que tivesse compaixão da minha mãe...
O dialogo durou assim até á hora em que Maria da Gloria e seu filho foram chamados a jantar em casa da abbadessa.
Todas as religiosas e noviças foram commensaes no banquete dado pela prelada ao filho da senhora, querida de todas. Alvaro ficou sentado entre sua mãe e a abbadessa. Defronte estava uma religiosa de annos dilatados, a qual, desde muitos mezes, só na sua cella e no coro se encontrava. Não tinha sido convidada, em respeito â sua austera soledade e continuada oração mental em que praticava com Deus. Foi ella mesmo que se offereceu para o jantar, dizendo que não podia faltar áquella honra feita a um anjo de dor e de paciencia. Isto, dito por soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor, impressionara fundamente o animo de algumas senhoras para quem a innocencia de Maria da Gloria era uma piedosa hypothese. Durante o jantar, a santa, que n'esta conta era tida e assim denominada a decrepita monja, fallou algumas vezes com Alvaro, já perguntando-lhe se desejava ficar com sua mãe, já queixando-se de que a sua vinda fosse o prognostico de ella ser brevemente furtada ás suas amigas do convento.
A este dito, respondeu Maria da Gloria que a vinda do seu filho era uma felicidade, que ella devia ás orações de soror Joanna, e d'outras virtuosas senhoras, suas dignas companheiras na terra e no céo; accrescentava, porém, que não esperava ser restituida a seu filho e á sua dignidade de esposa.
Viram todas erguer a religiosa o braço descarnado, e abrir a mão como quem impõe silencio ás palavras de duvida, e contradictorias com as do espirito divino que lhe fallava. Deu-se um religioso silencio, tal que nem as respirações se ouviam.
Estas foram as palavras de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor:
«A mãe será restituida ao filho, e a esposa ao coração de seu marido, e aos respeitos do mundo».
Por que é que os cabellos estremeceram, e o calefrio vibrou os nervos de quantas pessoas ouviram o tom prophetico da virtuosa anciã? De feito, havia instincto do céo n'aquellas palavras, o som d'ellas tinha a um tempo a força electrica de que o ouvido se estremece, e a uncção suavissima que banha a alma de luz da fé.
Maria da Gloria mandou o filho beijar o habito da religiosa. Alvaro foi, tão passado de devoção e como alheado na santa poesia do lance, que lhe tomou de joelhos a mão.
Soror Joanna deu-lhe a beijar a mão tremula, fez um geito de levantal-o da postura humilde, e, assentando os dedos afilados sobre as faces descoradas do menino, disse com um ar de graça maviosa como se nos labios lhe abrisse Deus um sorriso de sua misericordia:
--O anjo do resgate veio emfim; e não veio tarde, porque chegou á hora em que Deus o mandou chegar.
Os animos ficaram tão absorvidos n'esta affectuosa scena, que só volveram os risos e os gracejos depois que, findo o jantar, a santa se retirou encostada a duas religiosas, que haviam sido suas discipulas de noviciado, e contavam para mais de setenta annos.
Duas horas depois do jantar, foi Maria da Gloria com seu filho visitar soror Joanna. Encontraram-a em oração, e iam retroceder, quando ella fez signal de ficarem.
--Que pena tenho eu--disse a freira com muito alegre semblante--de não ter n'esta minha pobre cella um mimo que dê a este menino, para se lembrar da velha que viu no mosteiro de Vairão!
As suas palavras gravam-se para sempre no coração, minha senhora--disse Maria da Gloria, beijando-lhe o escapulario.
--Ora, deixe estar--tornou a religiosa--hei-de ver se o não deixo ir sem uma lembrança minha... Quando vae embora o menino?... não deve demorar-se muito...
--Eu desejava estar mais tempo--disse Alvaro--mas não tenho remedio senão ir ámanhã, que não vá o papá dar fé da minha falta.
--Ámanhã!--exclamou Maria--pois já me deixas ámanhã!?
--E deve ir ámanhã--respondeu soror Joanna com impressiva firmeza, como se désse ordens.
--Quando tornarei a vêr-te, ó filho da minha alma?--tornou debulhada em pranto a mãe de Alvaro.
--Mulher de pouca fé...--murmurou a santa, com brando sorriso, e um meneio triste de cabeça--O menino--ajuntou voltando-se para elle, e tomando-lhe as mãos entre as suas--sahe de madrugada, sim?
--Sim, minha senhora, se a minha mãe deixar.
--Sua mãe deixa. Pois ás quatro horas, antes do toque a matinas, venha dizer-me adeus. Vá agora, menino, vá com a mãesinha para as outras senhoras, que hão-de estar saudosas d'ella.
E sahiram ambos com sobrenatural alegria de esperanças no coração. Vieram-lhes ao encontro nos dormitorios, na claustra, na cerca, as freiras, as noviças, e as criadas a felicitarem-se com ella do termo dos seus males, jurando todas no vaticinio da santa. Maria já não duvidava. Recebia os parabens como se a promessa lhe descesse directamente do céo. Já o apartar-se de seu filho não lhe doía tanto. Fez-se um mundo novo n'aquelle espirito. As aves da floresta entoavam por ella louvores a Deus. As flores dos taboleiros recendiam os perfumes das flôres da sua mocidade. O azul do céo já não tinha o aspecto triste e de ferro com que se mostra a olhos marejados de lagrimas. Riam-lhe as aves, e o céo, e as flôres. A natureza inteira a dar-lhe as boas vindas do seu filho! E elle, sempre ao pé d'ella, com as faces anuviadas de tão doce melancolia, que fazia lembrar o grave e sereno rosto do cherubim, que no retabulo do templo, traz á Virgem de Nazareth o annuncio da sua maternidade!
Fugiam as horas do dia. As do silencio, na breve noite que se seguiu, passou-as desveladas a ditosa mãe ao pé do filho que adormecera de fatigado. De hora a hora despertava-o com a pressão dos beijos, e acalentava-o depois, como douda de felicidade com lembrar-se do amor com que o velara no seu primeiro anno.
Soaram tres horas. O criado estava já no pateo com a cavalgadura arreada. Maria, forçada pelas instancias, tentava, mas não podia acordar o filho.