O Romance de um Homem Rico

Part 4

Chapter 44,019 wordsPublic domain

Recolhi-me ao meu quarto, e juro que me tremia a mão, quando abri o livro. Na primeira pagina, li este dictame de Isaias:

_Ingredere in petram, et abscondere fosso humo_

Quer dizer:

ENTRA NA SEPULTURA, E SOME-TE NA TERHA D'ESSA COVA.

E mais abaixo o verso do psalmo 117:

_Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini._

Póde assim trasladar-se em vulgar:

NÃO MORREREI; TEREI VIDA PARA NARRAR AS OBRAS DO SENHOR.

A fórma da narrativa é em divisões de annos, mezes e dias. Alguns capitulos estão incompletos, e d'estes vi uns poucos suspensos em conjuncções, ou n'uma virgula. O dizer é singelo, familiar, mas correcto e sempre puro na linguagem. Rara é a pagina com emenda ou entrelinha. De vêr é que fallava o coração, e que as suas primeiras palavras eram as mais expressivas, e respondiam fielmente ao pensamento.

Na primeira tarde poucas paginas li: tão detidamente as ponderava e relia. Entrei por noite alta com a leitura, e apaguei a luz, já quando a do sol me dispensava da outra.

Conhecia já Alvaro Teixeira de Macedo desde os dezeseis até aos seus vinte e sete annos. Isto me bastava para eu não poder sujeitar á modestia do levita os raptos da minha admiração, que melhor se entendera por idolatria.

O escripto dispensava os commentarios do author. Não pedi elucidação, nem promenores. Era tudo claro e minudencioso como historia escripta de hora a hora, entre lagrima e lagrima, com o coração na humanidade, e a consciencia em Deus.

Ao oitavo dia, fechei o manuscripto, e fui restituil-o ao padre. Não cheguei a dobrar o joelho, quando me elle tomava das mãos o livro; mas o coração pesava-me como para cahir e humilhar-se aos pés d'aquelle justo. Conheceu-o elle, e abriu-me os braços, e apertou-me ao seio, balbuciando commovido do meu embaraço:

--Tem o meu segredo: não abracei ainda outro seio que o tivesse. Diga-me agora: que aproveitou?

--Aprendi a conhecer a magestade do ultimo ser da creação. Assim, sei agora, o que não podéra ainda perceber na sagrada escriptura: «que Deus fizera o homem á sua imagem e semelhança.»

--E viu que o barro do homem se recoze ao fogo da desgraça...

--E d'essa depuração ao fogo lento, vi eu tambem que sahia o anjo...

--Pouco aprendeu...--replicou o padre--Eu queria mais que tudo isso... Queria ensinal-o a ser paciente, quando for desgraçado. Não lhe posso dizer mais singelamente o resumo de tudo que leu, nem lhe darei, se m'o pede, e mesmo se m'o não pede, mais encarecido conselho. Paciencia, é a arma, é o triumpho, é a porção divina do homem, é a bemaventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam, e encontram os de Deus. Padecer é a quebra, a falha irremediavel e commum; resignar-se é a perfeição. A virtude, que todos alcançam, se a querem, é dar largo e por igual a amigos e inimigos, uns o seu ouro, outros as suas luzes, outros o seu braço, e o seu descanço. A virtude dos raros, a maxima virtude, a mais edificativa, é soffrer sem amaldiçoar, no asco da pobreza, no desamparo do descredito, na ignominia de não ter um amigo. Isto ninguem o vê, ninguem o admira, ninguem o vulga aos respeitos publicos. E que vai n'isso? Basta-me Deus. Não posso duvidar que elle me está vendo. Sinto-o no repouso da minha consciencia. O coração está passado de dores, o espirito conturba-se de angustias, a noite não acaba no termo de vinte annos. Assim é; mas que importa. Basta que a consciencia me diga: «não devias padecer, porque és bom.» Quando o homem que soffre se diz isto a si, é Deus que lh'o diz. Esta é a altissima rocha que vê em baixo as tormentas a fremir-lhe na base. Este é o berço providencial do menino, lançado ás ondas, e mandado buscar por Deus, para contar ao mundo os seus primeiros dias. Esta é a arca do justo, a caverna dos leões inofensivos, o _post tenebras spero lucem_ de Job.[1]

Vá o meu amigo escutando com boa sombra estes «Exercicios espirituaes» com que eu principio a ensaiar a sua paciencia. Isto lhe ha-de acontecer mais vezes, porque é vêzo padresco entrar de vontade pelas homilias, quando o auditorio lhe não dá campo para prégar, e até para passear desassombradamente.

Veio a senhora Eufemia cortar-me a resposta. Trazia ella uma carta chegada de Lisboa. Padre Alvaro enfiou ao lêl-a; mas a pallidez habitual voltou, passados instantes. A perseverante desgraça já lhe havia dado pulso de ferro para sofrear os impetos do sangue.

--Vou hoje de tarde a Lisboa--me disse elle, placido e triste--Se quer ficar, e esperar, meu amigo, cá fica a boa Eufemia para cuidar de si. Se quizer vir tambem, e lá ficar, fique; e, se prefere tornar para as ruinas, mais contente voltarei.

Fui com o padre para Lisboa. Sem elle, a solidão dos «Olivaes» ser-me-ia dolorosa.

Separamo-nos no Rocio, onde apeamos do carro que nos transportou de Santa Apolonia. O padre disse-me a sua pousada, e eu fui para a minha hospedaria. Procurei-o no dia seguinte: estava elle a ponto de sahir para o convento de religiosas de Santa Martha. Opportunamente saberá o leitor o que elle ia fazer duas vezes em cada dia ao convento de Santa Martha.

Vinte dias, ou mais seria, acompanhei padre Alvaro Teixeira até ao pateo do convento, e d'alli a sua casa. N'este breve termo, o semblante do homem das dores declinou rapidamente para a lividez e magreza cadavericas. As ultimas idas ao mosteiro fêl-as de sege, e ahi mesmo tinha syncopes que o extenuavam a ponto de uma vez o levarmos em braços da sege a uma grade, onde o esperava uma senhora muito idosa, de veneravel aspecto, a quem o padre chamou prioreza. De relance, vi que esta, senhora estava soluçando e limpando as lagrimas, quando entramos na grade.

Sahi logo com o boleeiro, que me ajudara a amparar o meu amigo; mas ainda ouvi estas palavras da religiosa: «Acabaram-se os seus trabalhos.»

Ao toque de Ave-Marias fui chamado pela porteira do convento, e esta me disse que o senhor padre Alvaro me pedia a esmola de lhe ir dar o meu braço para se elle encostar. Maravilhei-me da reanimação em que o achei; mas conheci logo que era excitação de febre. Nada lhe ouvi durante o transito. Levava, como da primeira vez que o vi, as mãos encruzadas sobre o seio, e as palpebras descidas como se quizesse esconder de mim as lagrimas, que eu bem via estancadas nas rugas, á semelhança das que regelam na face d'um cadaver.

E eu, que não podia enganar-me no motivo d'aquella afflicção, tão absorvido ia, e tamanha parte quinhoava n'ella, que não tive uma palavra só de lenitivo, que lhe dissesse!

Parou a sege.

Saltei para amparar o padre na descida.

--Tenha a bondade, me disse elle, sem mover-se, de subir ao terceiro andar, e dizer ao dono da casa, que tenha a paciencia de vir aqui fallar-me.

Subi, e desceu commigo o dono da casa, ao qual o padre disse o seguinte:

--Meu amigo, não tenho mais que fazer em Lisboa. Vou para os «Olivaes» agora mesmo, se o boleeiro quizer fazer a jornada de noite. Escuso dizer-lhe que está com Deus a pobre senhora. Agora é erguermos as mãos em acção de graças aquelles que a conhecemos. Eu cá me vou avisinhando das minhas ruinas como o reptil, ferido de morte, da conhecida caverna, onde se quer sósinho com as suas agonias. Dê-me a sua mão de amigo, e adeus.

Voltou-se para mim, e disse-me:

--Quando eu lhe escrever, a pedir a sua companhia, vá ter commigo, se o poder fazer sem custo.

--Pois não me quer comsigo agora?!--atalhei.

--Não, por ora não. Estes primeiros dias não podem ser repartidos nem consolados por ninguem.

Beijei-lhe a mão, que transpirava um suor rescaldado.

--Queira perguntar ao boleeiro se me leva aos «Olivaes»--ajuntou elle. Levei-lhe a resposta affirmativa, e a sege partiu, a passo rapido.

Fiquei conversando com o amigo do padre.

--Não o tornaremos a ver--disse-me elle consternado--Padre Alvaro não vive muitos dias; o senhor verá. Eu d'antes, quando o via desconfortado e com signaes de pouca vida, dizia-lhe:--«lembre-se d'aquella infeliz, que não tem mais ninguem no mundo.» Parece que isto lhe dava alma nova! Agora, não ha nada que o prenda á vida, senão o sofrimento...

--Mas eu cuido--interrompi--que o padre Alvaro ha-de achar sempre na sua vida occasiões de ser util a muitos outros desgraçados, embora se ofereçam com titulos menos valiosos á sua beneficencia. Em quanto houver um homem que lhe peça conselhos, esmolas, ou intercessão com Deus, o padre, qual elle é, não póde julgar terminada a sua missão n'este mundo.

--Essas conjecturas são conceituosas, e de bom juizo--redarguiu o sujeito--mas os negocios do coração alheio correm de modo muito diferente das nossas razões, pensadas, a espirito socegado, embora nos doam os infortúnios do nosso amigo.

E ficamos concertados a mandar no dia seguinte saber novas do nosso amigo.

O portador não nos trouxe resposta á carta. A snr.a Eufemia hesitara em levar-lh'a á camara, onde se elle fechára; fôra por fim; mas voltara sem resposta, ou promessa de responder, quando podesse.

Decorrera uma semana em esperanças, até que um dia o amigo do padre me procurou para me dizer que a velha Eufemia lhe escrevera, dizendo-lhe que o seu amo estava em perigo de vida. D'alli partimos no mesmo ponto para Santa Apolonia, e de lá para os «Olivaes».

Estava o sacerdote sentado n'uma poltrona, junto á janella que olhava para o palacete fronteiro do negociante de Lisboa. Deu-nos as mãos, que cada um de nós aproximou dos labios. Respondeu a esta reverencia com um sorriso, e estas palavras pausadamente pronunciadas:

--O martyrio, que se alcança com as paixões da terra, tem tambem a sua santificação. Os meus amigos igualam-me nos seus respeitos a um S. Francisco de Sales ou Vicente de Paula...

--Esse sorriso abre-se em luz de esperança para os seus amigos, senhor padre Alvaro--disse-lhe eu.

--E eu me congratulo na esperança dos meus bons amigos. Tambem vejo a luz, que illumina e abraza... _Ardere et lucere_...[2] Padeci muito, e esperei muito d'estas horas finaes. Misérias e oppressões de uma longa vida aqui se acabam: _Miser factus sim ego, et curvatus sum usque ad finem_[3]. Curvado o corpo, sim, que o desconcerto total d'esta fragil machina é a repellões de dôr; mas a alma folga, e sorri no extremo dia: _Ridebit in die novissimo_[4].

Estas vozes extenuaram-no como se fossem um desafogo vehemente. O meu companheiro disse abundancia de palavras que, a seu juizo, deviam refrigerar o afogo febril do enfermo. Eu não tinha alguma fé nas consolações d'elle, e menos ainda nas minhas. Assisti silencioso á perdoavel verbosidade de um, e ao recolhimento offegante do outro.

Fallou-se em ir buscar medicos a Lisboa. O padre sorriu-se, encarando no amigo, que propozera a consulta.

--Medicos!...--murmurou elle--O caixão... Mortalha cá está esta...

Dizia, tomando em ambas as mãos convulsas as abas da batina. Ao fim da tarde, pedimos que se recolhesse á cama, e elle respondeu, fitando os olhos no céo:

--D'aqui vejo melhor a patria; mas a hora não chegou ainda. Já era muito esperar... O Senhor é piedoso com os que não desesperam, e com os pacientes. Espero... e, posto que padeci muito, não direi como o néscio: «minha alma descança, que possues muitos bens»[5]. Eu espero tudo da misericordia Divina.

Proseguiu fallando a intervallos, e até alta noite não consentiu que fechassemos a janella.

Pernoitamos ao seu lado, e vimol-o dormir duas horas serenamente. Palpei-lhe o pulso, e senti-o refrigerado e sem ponta de febre. Cobrei esperanças, contra o parecer do meu companheiro de vigilia.

Ao repontar da aurora, o padre olhou em nós ambos, e disse em tom compadecido:

--Caro tributo paga a amisade!... Vão deitar-se, meus amigos. Estou melhor. Digam á minha criada que vá chamar o parocho.

Fui dar as ordens, e voltei ao quarto, d'onde sahi, quando entrou o prior.

Durante o dia conheci que as minhas esperanças eram desmentidas por desfallecimentos e agonias passageiras do enfermo. A criada chorava alto a cada accidente, e eu via, no semblante contrahido do meu amigo, quanto o pungiam aquelles gritos. Pedi á criada que reprimisse o choro, e ella respondeu-me:

--O senhor talvez não saiba que eu criei aos meus peitos esse santo que está a morrer!...--E lançou-se de joelhos a orar em voz alta. Curvei-me diante d'esta dor, e adivinhei as angustias d'aquella mulher através dos ultimos vinte annos.

Ao fim da tarde, foi ungido o moribundo. Quizemos então quasi de força passal-o á cama: não o conseguimos.

--A morte é suave em toda a parte. Aqui adormecerei. _Dulcis est somnus soperanti_[6]--disse elle.

E, fitando no azul do céo os olhos embaciados, continuou:

--O céo da minha mocidade! Assim era n'aquellas noites de tanto e tão puro amor! A serenidade da natureza, e as agonias da creatura! Só o homem se dóe do homem, e Deus de todos. As creações sublimes do universo olham todas para o seu Creador, e não sabem como morre o reptil, nem quando despega da arvore a folha secca.

Vinham ditas com cançasso e violencia estas palavras. Pedimos-lhe que não fallasse, e elle apoiou a barba no seio, e cruzou as mãos, murmurando vozes imperceptiveis.

As onze horas da noite, estremeceu o agonisante na cadeira, e estirou os braços convulsivos. Pensei que era o extremo estertor. Volveu, porém, á sua quietação, e viu-me de joelhos, com as mãos apoiadas nos seus joelhos. Pôz-me no rosto a mão, e disse:--_Beati qui lugent_[7].

Soaram as doze horas n'um relogio de parede. O padre parecia contal-as, por um movimento nervoso dos labios. Tinha cahido a ultima pancada, e elle disse:

--_Media autem nocte clamor factus est: ecce sponsus venit_[8].

Ergueu as mãos em oração, inclinou a cabeça para o espaldar da cadeira, e suspirou. Cuidei que elle ia adormecer, quando vi calarem-lhe lentamente as mãos por sobre os braços da cadeira.

Era aquelle glacial dormir, que espera novo dia annunciado pelo anjo do ultimo juizo.

Ajoelhei de novo, e disse:

--Santo! pede a Deus por mim, e por todos os infelizes.

[Nota 1: Espero a luz, depois das trevas. Cap. VII, v. 12.]

[Nota 2: S. João--5. 35.]

[Nota 3: Psal. 37--7.]

[Nota 4: L. dos Prov. Cap. 31. 25.]

[Nota 5: S. Lucas--12. 19.]

[Nota 6: É suave o dormir a quem trabalhou.]

[Nota 7: Felizes os que choram.]

[Nota 8: Ouviu-se á meia noite este grande clamor: é chegado o esposo. S. Matheus. 25. 6.]

FIM DA INTRODUCÇÃO.

I

_Grande, très-grande révélation. Ce n'est pas ici un vain spectacle d'art et de sensibilité, simple volupté du cœur et des yeux. Non, c'est un acte de foi, un mystère_...

MICHELET (La Femme.)

Alvaro Teixeira de Macedo nasceu, em Lisboa, no anno de 1813. Foi seu pae um commerciante rico, bastardo d'um fidalgo da côrte.

Cresceu Alvaro, e nunca seus labios proferiram a palavra mãe, nem tinha o coração memoria d'ella. Entrou n'um collegio. Ahi, ouviu de seus companheiros aquella dulcissima palavra, como grande parte e incentivo das saudades d'elles. Dizia um «minha mãe recommenda-me, que estude muito, que me ha-de levar á feira do Campo Grande», outro, repartindo confeitos ou amendoas pelos condiscipulos, dizia: «foi minha mãe que m'as mandou»; este escrevia a sua mãe, pedindo-lhe que o mandasse buscar no sabbado; aquelle chorava e adoecia de saudades de sua mãe.

Alvaro devia acreditar que a sua tinha morrido; mas ninguem lh'o dissera; nunca seu pae, nem sequer sua ama lhe fallaram em mãe.

Estava de ferias em casa, e tinha nove annos, quando perguntou a Eufemia, sua ama de leite, porque não lhe tinha fallado nunca de sua mãe. Eufemia, atalhada pelo repente da pergunta, tartamudeou algumas palavras, que exprimiam o em baraço d'ella, suspeitoso á precoce esperteza de Alvaro.

--Vou perguntar a meu pae--disse elle.

--Ora!--acudiu a ama--para que ha-de ir o menino fazer essa pergunta a seu pae?! Não queira saber d'essas cousas.

--Então que tem?!--tornou Alvaro, cada vez mais enleado, e curioso como creança--Eu havia de ter mãe por força, não é assim?

--Isso é; mas...

--Mas quê?

--E se ella morresse!?...

--Se morreu, é outra cousa... Então diga-me que morreu. Morreu ou não?

--Está bom, menino; deixe-se de querer saber o que não lhe importa--disse, em conclusão, a perturbada ama, fugindo a novas perguntas.

Manoel Teixeira, pae de Alvaro, queria do coração ao seu filho unico. Amimava-o n'aquella idade como no berço. Parecia crescer o amor á proporção que as feições do menino se iam compondo, retrato fiel das suas.

N'esse mesmo dia de inquietação para a boa Eufemia, estava o menino sentado nos joelhos de seu pae, que lhe anediava os cabellos, e aparava as unhas.

--Ó papá--disse Alvaro com um gesto carinhoso--a minha mãe já morreu?

Manoel Teixeira ficou por um pouco tempo suspenso; mas continuou a aparar as unhas do menino, e disfarçou a resposta com algumas perguntas concernentes ao collegio.

Estava Alvaro a ponto de sahir do gabinete de seu pae, e, como levado de providencial impulso, retrocedeu, e disse:

--O papá não me disse se a minha mãe morreu...

--Morreu--disse seccamente o pae.

Foi o primeiro gesto de enfado que viu Alvaro no rosto d'elle, sempre de riso e meiguice.

Contou o menino este caso á ama, e esta, profundamente magoada, disse-lhe em ar de reprehensão:

--Não lhe disse eu que não fizesse taes perguntas?

Tornou Alvaro para o collegio, e contou innocentemente a um dos mestres, que mais seu amigo era, o que passara com a ama e com o pae. Ficou o mestre admirado do acontecimento, e entendeu de si para si que Alvaro era filho natural do capitalista, e póde ser que da propria criada, a quem elle chamava ama. Estas desconfianças não eram boas para serem communicadas aos nove annos do collegial, e calou-se com ellas o mestre. O menino, porém, não fallava n'outra cousa, e instava por esclarecimentos, até que uma vez o mestre, mal assombrado, lhe disse:

--Estude, Alvaro; não lhe importe saber o que não lhe é necessario.

O alumno mais estudioso do collegio fora Alvaro até áquelle dia. Maravilhava o pae e os mestres com o seu adiantamento, e cuidado em aproveitar o natural engenho. De repente, com igual admiração dos mestres e do pae, o mais descurioso e desleixado do estudo era Alvaro; mas tambem, ao mesmo tempo, o mais triste e recolhido dos seus condiscipulos.

Manoel Teixeira, informado d'isto, sentiu a tristeza do filho e deu medíocre apreço ao desgosto dos mestres, no tocante a estudo. O negociante não; queria que seu filho seguisse as letras, nem se gloriava de procrear um talento. O que elle desejava era dar-lhe um verniz de boa sociedade, e habilital-o para casar com uma sobrinha sua, morgada rica, da linha paterna, menina que teria dez annos n'esse tempo. Entrava n'isto por muito o orgulho do bastardo, que pelos degraus da riqueza conseguira hombrear com os filhos legitimos de seu pae, e acudir-lhes, por orgulho tambem, nas crises fidalgas em que se elles viam apertados, no dia immediato á noite do jogo, ou do baile, ou dos casamentos e natalicios da côrte.

Decorreram tres annos. Quiz Manoel Teixeira, n'este espaço de tempo, por muitas vezes tirar o filho do collegio, á conta de magreza, de fastio, de doença, e de mil causas que inventa um pae extremoso. Alvaro resistia á ternura paternal, pedindo que o deixasse estar no collegio, onde se affeiçoára ao seu quarto, aos seus mestres, e a alguns condiscipulos, de quem o separar-se lhe seria muito penoso.

Tinha Alvaro já doze annos. Os tres ultimos, mal aproveitados nos livros, fructearam temporãos em discernimento e porte varonil. D'entre os professores, aquelle que muito o estimava e conversava, tinha-o em conta de homem, e como a homem lhe fallava. Por vezes, em intima pratica, relembravam aquella instancia de um, acerca de sua mãe, e a resposta enfadosa do outro. Notou, porém, o mestre que estas recordações traziam tristeza mais sombria para o alumno, e abstinha-se de revivel-as. Que montava isso, se Alvaro não podia esquecel-as, nem o mestre desconhecer a origem da melancolia do discipulo!?

--O senhor Alvaro está homem no espirito;--disse-lhe um dia o seu affeiçoado mestre de inglez--vou dizer-lhe o que não quiz explicar á sua ignorancia dos nove annos, quando o senhor me pedia esclarecimentos ácerca de sua mãe. Presumi eu n'aquelle tempo que seu pae tinha alguma forte, ou pelo menos desculpavel, razão para não lhe dizer quem era sua mãe. Bem podia ser que o menino fosse filho de uma das criadas de seu pae, ou mesmo ainda de uma senhora, cuja reputação corresse risco de ser manchada. Creio que me comprehende...

--Manchada... por que?--disse Alvaro.

--Por ser sua mãe.

--Por ser minha mãe!... Não entendo!...

--Assim me quer parecer; mas eu lhe aclaro a escuridade. Honram-se de serem mães, e o mundo honra aquellas mães, que estão ligadas por um sacramento aos paes de seus filhos. Agora de certo me entendeu.

Alvaro fez um gesto afirmativo, e disse:

--E minha mãe não estava assim ligada a meu pae?

--Era isso que eu cuidava; mas, estimulado tambem da sua curiosidade, pedi informações, que obtive logo, e já podéra ter-lh'as revelado, se as julgasse d'alguma utilidade, ha mais de dous annos. Vou agora contar-lhe o que sei de sua mãe. Conheço a causa da sua tristeza: é ella. Esse seu amor vago de filho tem influxo do céo. Alguma cousa quer Deus que se esconda n'esse amor; e a minha consciencia manda-me fallar.

Seu pae casou ha quatorze annos com uma senhora de rara formosura e rica, filha d'um negociante portuguez em Macáo. Maria da Gloria é o nome de sua mãe.

Os olhos de Alvaro reluziam, e a purpura do rosto inflammava-se á medida que o professor ia rompendo o véo que, para assim dizer, lhe velava um novo mundo de affectos, de sentimento, de esperanças, e um destino imprevisto.

Continuou o mestre:

--Seus paes viviam extremamente felizes, e o menino nasceu ainda na época da felicidade. Tinha Alvaro alguns mezes, quando sua mãe sahiu da companhia de seu pae, para, volvidos alguns dias, entrar n'um convento da provincia do Minho, onde vive agora. Não me peça esclarecimentos que não posso dar á sua idade, nem os daria ao seu pundonor, se o senhor Alvaro, em vez de doze, tivesse vinte e quatro annos. Fique sabendo que sua mãe é viva.

Foram as breves e ultimas palavras que o mestre lhe disse a tal respeito.

Alvaro não respondeu, de confuso que devia naturalmente ficar. A educação, a convivencia de moços como elle innocentes, a ignorancia das novellas que ensinam o espirito a tirar, por comparação, os vicios reaes da desnudez dos vicios imaginarios, eram causa a serem de todo o ponto mysteriosas para Alvaro as razões que haviam levado sua mãe a um convento, de modo que seu pae a tinha em conta de morta, e queria que seu filho assim a julgasse.

Foi Alvaro, de vontade sua, passar alguns dias a casa. Fez especie em Manoel Teixeira a extraordinaria vivacidade do moço. Folgou com a mudança, e foi agradecer aos professores, e especialmente ao mais amigo de seu filho, as melhoras do pequeno. De feito, Alvaro estava preoccupado de uma idéa que lhe dava novos espiritos.

Estava elle, um dia, em conversação acintemente promovida com Eufemia, e encaminhada ao ponto de lhe dizer:

--Quem me dera vêr um retrato de minha mãe!

Eufemia fitou os olhos n'elle, abraçou-o, beijou-o, como quando o tinha ao peito, e, entre lagrimas e soluços, balbuciou:

--Se a visse!...

--Ella de certo morreu, minha Eufemia?--tornou elle, acariciando-a--Falle a verdade... Não minta ao seu Alvaro!...

--Para que me faz essa pergunta, menino Valha-me nossa Senhora dos Remedios! Deus me não salve, se eu sei o que lhe hei-de dizer.

--Diga a verdade, que é o mais agradavel a Deus.

Eufemia quiz fugir; Alvaro susteve-a pela saia, e acrescentou:

--Venha cá, sente-se aqui, e responda-me, se é minha amiga: Porque está minha mãe n'um convento?

--Santo nome de Jesus!--exclamou Eufemia, levantando as mãos á cabeça--Quem lhe disse isso, menino?

--Que lhe importa a vossemecê saber quem m'o disse? É isto verdade? É, sei que é; o que eu lhe pergunto é a razão por que minha mãe não está n'esta casa.

--Senhor Alvaro, se continua a perguntar-me cousas assim, eu vou-me embora d'esta casa--replicou a ama com resolução feita de sahir.