O Romance de um Homem Rico

Part 3

Chapter 33,977 wordsPublic domain

Subimos a escadaria do patim, e entramos n'uma sala pouco alumiada e muito extensa. De relance vi que o tecto era de castanho e profundo, com artezãos grosseiros, e um brazão de extraordinario tamanho e lavor no centro. D'este pendia uma corrente de arame e um grande lampadario, através de cujos vidros afumados, a custo uma tocha lograria coar o seu clarão. Ornato n'esta sala não vi algum, a não serem dous escanos de castanho, de altissimo respaldo, com a pintura duplicada a ocre das armas do tecto.

Segui o padre ao longo d'um comprido corredor ladeado de quartos, á imitação de dormitorio claustral. A maior parte d'estes quartos não tinham tecto, nem portas, nem pavimento. Na extrema do corredor estava uma velha sentada, quando apontamos á outra extrema. Levantou-se então, e forcejou por tirar do cinto duas chaves encambadas n'um atilho, operação não facil, porque o atilho se lhe enredara nas camandulas, e estas no fuso, e este no fiado.

--Não se impaciente, senhora Eufemia,--disse o padre.--Ande lá de seu vagar, que nós não temos pressa.

--Valha-me Deus!--disse a velha afreimada--este berzabum do negalho parece que tem cousa má! Não querem ver isto? Olhe onde o rosario se foi imbelinhar!

A senhora Eufemia já suava, e cada vez embrulhava mais as cousas, a tempo que o padre, tomando-lhe das mãos a tarefa, ia desdobando a miada, sorrindo e gracejando com a velha, que não podéra sahir-se d'aquellas difficuldades, por ter dous dedos da mão esquerda inutilisados n'uma grossa pitada de simonte, que resfolegou, em quando o padre pacientemente desenredava a cambulhada.

D'alli passamos á porção mais reparada e habitavel do palacete, e residencia do locatario. Era uma sala, e dous quartos contiguos. N'um d'estes estava a cama e livraria do padre; o outro era devoluto para hospedes. A sala tinha mobilia, que fora sumptuosa no começo do século passado: eram tremós dourados, cadeiras de estofo estreitas com espaldar alto e douraduras floreadas, mesas lisas orladas de embrechados a ouro, com fechaduras de prata rendilhadas, jarrões indianos com reluzentes matizes de escarlate e azul. Das paredes, cintadas de florões a oleo, pendiam os retratos de D. João V, ao de D. Pedro III e D. Maria I n'um só retabulo. Outros retratos innominados, afóra o do ministro da justiça no reinado de D. Miguel, João de Mattos Vasconcellos Barbosa de Magalhães, oriundo de Barcellos, e morto no desterro, adornavam, a grandes intervallos, as quatro paredes da sala, cuja limpeza abonava o cuidado da senhora Eufemia.

Abriu o padre Alvaro a vidraça do seu quarto, e eu fui á janella examinar os contornos da casa. Vi em baixo uma pequena parte d'um grande jardim cultivado e retalhado por meandros de murta e alecrim. O restante estava abandonado. Feixes de herva myrrada afogavam um cysne de pórfido, o qual se levantava sobre um pentágono de granito, no centro de uma bacia de marmore de todo sêcca, e esborcinada. Arvores de densa copa e muita grossura de troncos formavam, emmaranhando-se, a enorme sebe do antigo jardim. Através das clareiras interpostas aos troncos entrevi um paul, reliquias do que devera ter sido um vistoso lago. Rebalçavam-se no charco alguns patos, e saltitavam e ralavam as rãs como á competencia com as cigarras.

Defronte, a duzentos passos, vi uma casa nobre, toda ladrilhada de amarello, com as suas tres chaminés pintadas de azul, e brazão de armas, retocadas de novo, no triangulo em que remata o frontal do edificio.

--Quem vive n'aquella bonita casa?--perguntei eu.

--Aquella casa é d'um commerciante de Lisboa--respondeu o padre--Foi dos que foram donos d'esta em que vivo...

Observei no semblante do padre mudança de côr, e muita tristeza no olhar para uma das janellas do palacete. Dava a cuidar, pela insistencia com que fitava a janella, que devia alguem apparecer alli; mas tanto aquella, como todas as mais, estavam fechadas, e nenhum signal de vida, se não o chilrear das andorinhas ao longo das cornijas da casa, podia responder á observação attentiva do meu amigo. Não era observação, era absorvimento, por motivos que o leitor saberá opportunamente.

Como de golpe, sahiu o padre do seu transporte, e, voltando-se risonho para mim, disse:

--Vamos vêr se o meu amigo se conforma com a mesquinha hospedagem que lhe dou. Venha d'ahi.

Segui-o ao quarto visinho, onde estava a senhora Eufemia toda azafamada a desdobrar lençoes para a cama. Era esta um grande leito liso de pau preto com as quatro hastes do pavilhão. Completavam o adorno da camara duas cadeiras e uma banquinha, e lavatorio de ferro, onde já se via a fina e alvissima toalha. Na parede estavam doze estampas enquadradas em ébano, as quaes representavam a vida de Barnabé Chiaramonte, com referencia a Napoleão, segundo a conta Beauchamp na «Historia dos infortunios e captiveiro de Pio VII.» A alfaia mais rica do meu quarto era um festão de trepadeiras, com flôr escarlate, que ensombrava a metade superior da vidraça. A limpeza, a frescura, o perfume, e a doce melancolia d'aquelle recinto não podiam invejar pompas, se as ha, que mereçam comparação com as do meu saudoso e lindo quarto das ruinas dos «Olivaes.»

--Já sabe--disse o padre--que tem de fazer aqui penitencia da irreflexão com que se fiou da minha hospitalidade.

--Como isto é gracioso, senhor padre Alvaro!--disse eu sem simular o enthusiasmo--A poesia está aqui!

--A poesia dos prophetas de Jerusalem;--atalhou o levita--a poesia das lagrimas...

--E a da esperança, que é tão formosa, tão do céo, e dos desventurados n'este mundo!--acrescentei eu, enlevado no meu rapto de cinco minutos--Aqui, devem vir os luctadores invenciveis da má fortuna ungir os braços para sahirem de novo á arena. Aqui, restauram-se os alentos do espirito, extenuado por perdas do seu sangue, que--é a fé, a fé perdida dos pusillanimes, que apoucam a obra de Deus a uma guerra brutal entre o forte e o fraco, entre a creatura manietada, desvalida, e vil, e a besta-fera em toda a pujança dos seus musculos de ouro, da sua impavidez, e soberba. Mal d'aquelle, que foge o mundo, e se refugiarem si: é um engano; é render-se o homem ás garras do dragão que encerra, e nutre com a peçonha que a desgraça lhe vara no seio. O homem, desfavorecido dos acasos de que depende a felicidade, o bem, e a fortuna, não póde nada comsigo, nem deve estar lacerando-se com as suas proprias unhas para extirpar com o sangue a raiz do mal. Fóra de si é que está a salvação. Em Deus é que...

--_Em Deus_--interrompeu o padre. É essa a palavra, onde eu o estava esperando, meu amigo. Não se contradiga. Disse ahi que «a felicidade, o bem, e a fortuna são dependencias do acaso.» Quem isto sente, não acha absolutamente necessaria a intervenção da vontade divina nas contingencias, meramente casuaes, d'esta vida. Offerece-se-me cuidar que o meu amigo não meditou no desconcerto dos seus principios com as consequencias. Se a felicidade--a da consciencia, entendo--é obra do acaso, o acaso é a lei de Deus na ordem do mundo. O paradoxo salta! Não serei eu quem peça a Deus o milagre de fazer-se absurdo por meu respeito, até ao ponto de pôr á minha disposição uma cadêa de acasos felizes. O bem-viver, meu amigo, é tão rigorosa consequencia do bem-fazer, como a luz o é d'aquelle astro, que alli está no céo, protestando contra a sua theoria dos acasos. O homem não acha em si os allivios da razão, quando os vicios lh'a degeneram. A razão depurada dos sedimentos da antiga culpa, no crisol do Evangelho, é Deus. Deus não é sómente puro amor, é pura razão tambem. E, se não, veja que os bem-aventurados n'este naufragio da vida são aquelles que, rebatidos d'uma vaga contra a outra, emergem á flôr de cada escarcéo, abraçados á razão, taboa de infallivel salvamento. O embriagado da sua falsa fortuna, cuidando-se, um momento, domador das tormentas, póde sorrir de desprezo ou mofa, vendo quam dissaboridos e minguados passam os dias do justo. Aquelle dirá que o acaso prospero lhe bafeja a si, e o funesto ao outro? Dirá; no entanto, meu amigo, será tudo escuridade á volta d'este fatuo dos seus bens exteriores, quando a roda do acaso desandar. O interior, a quem me soccorro desconfortado, é a minha razão. Se as paixões me apagaram esta luz bemdita, a quem pedirei eu a esmola d'outra luz, se não a Deus?

Disse bem, meu amigo: «mal d'aquelle que foge o mundo, e se refugia em si.» Não andaria melhormente avisado o naufrago que, escapado do mar alto, entendesse que o salvar-se estava em ser revessado contra os penhascos das costas. Antes prolongar a agonia na esperança d'uma vela salvadora que nos póde chamar e reanimar para maior esforço. Antes esvasiar o calix da injustiça humana, sem o repellir, esperando que o Senhor dos mundos se amercie dos seus reptis, occasionando-lhes um dos imprevistos encontros, que lá estão delineados na sabedoria divina. A solidão, sem Deus, não serve para infelizes maus. Os bons, os absolvidos por sua consciencia, refrigeram-se, convalescem, e saram no ermo; bom é, porém, que não venham aqui _ungir os braços para sairem de novo á arena._ O proveitoso, o melhor, o sobre-excellente é que os _luctadores invenciveis da fortuna não façam timbre em se degladiarem com ella, e deixem a arena aos vencedores lacerados de uma hora, e aos vencidos manietados da hora seguinte. Dito isto, meu amigo, pergunto-lhe eu se tem horas de jantar acostumadas._

Este remate, posto com um riso de graça, fez-me rir tambem. Como eu respondesse consoante mandava a cortezia, fomos para a mesa, que era proxima da cozinha, e ficava longe, em outro pequeno lanço habitavel da casa, para onde passamos, sobre um passadiço de tabões, fincados nas soleiras de duas portas.

......................... _No has visto mas?... Vuelve á la pradera, hijo mio, por que hay en ella cosas mas dignas de tu atención_......................... _Dios estaba en medio de los campos. No le has visto? A él debe la pradera su belleza; las miradas de Dios animabam la claridad del sol_.......................... _No has oido mas que él murmullo de los arroyos, et gorgéo de las aves, y el viento que mecía las ramas de los árboles? Vuelvebe al bosque, hijo mio, porque tus oidos percibiran cosas mucho mas grandes_...

ILDEFONSO MIRANDA (Himnos de la primera edad.)

Passaram tres dias sem me eu lembrar que era delicadeza, se não dever, despedir-me do meu gasalhoso amigo: tão dulcificante me era aquelle remançoso descanço do corpo e socego de espirito.

A minha vida aligeirava-se a conversar, meditar, e lêr, toda instructiva e de proveito, sendo que poucas horas bastam á alma para se nutrir em colmeia copiosa, como era aquella, do mel que ao depois edulçora os azedumes de largos annos.

Tinha o padre umas horas da manhã, e sobre tarde, em que evitava delicadamente a minha companhia, e se fechava em seu quarto. Na terceira tarde, estava eu á beira da lagoa onde se rebanhavam os patos, e, por entre as frondes do arvoredo, vi o padre á janella do seu quarto, com o rosto entre as mãos, e os cotovelos apoiados no peitoril, e os olhos immoveis e fitos na casa fronteira do negociante de Lisboa. Naturalmente, e não sei se até curiosamente, relancei a vista para a casa, e vi, como sempre, as janellas hermeticamente fechadas. Estive n'este reparo até ao toque das Ave Marias. Padre Alvaro levou então ambas as mãos á cabeça, tirou o solidéo, e afastou-se da janella, já com as mãos erguidas.

Á hora do chá, a mais taciturna e recolhida do padre, disse-lhe eu:

--Vossa senhoria de certo não reparou ainda no meu apêgo ás suas ruinas; creio que não, porque é bom, e sente o bem que me vê gozar. Não obstante eu devia já ter dado por concluida a minha visita, sem comtudo julgar esgotada a hospedeira bondade do meu presado amigo. Não me culpe a mim, condemne a sua affectuosa convivencia, e o mundo tambem que me não dá outro amigo como o snr. padre Alvaro...

--Onde vai dar comsigo n'esse arrazoado?--atalhou.

--Era o prologo da despedida e do agradecimento que eu estava fazendo.

--Pois fique no prologo; e se, de força, quizer entrar no discurso, reduza-o á simples confissão de que está aborrecido, e quer ir espairecer nos «cafés» de Lisboa.

--Seria a primeira injustiça que o meu amigo fizesse, pensando tal de mim.

--Então, deixe-se estar mais oito ou quinze dias. Se quizer ir á caça, eu arranjo-lhe os petrechos; se quizer dar passeios mais largos, tambem lhe arranjo cavalgadura; se tem precisão de ir a Lisboa, vá e volte; se está bem e quer estar assim, não se despeça nem me agradeça, que o mesmo é lembrar-me que sou eu o obrigado.

O veneravel velho pozera-me então a mão no hombro, e eu respondi beijando-lh'a. Chorei, e sei dar a explicação d'estas lagrimas. Lembrou-me meu pai, cuja face eu beijei no esquife ha vinte e sete annos. As ultimas palavras amoraveis d'um homem de cabellos brancos, meu pai m'as dissera. Depois, não ouvi outras, senão as do sacerdote. Ahi está a razão das lagrimas, que o santo homem viu, e me galardoou com um abraço.

No dia seguinte, sahimos pela fresca da manhã, e subimos uma ladeira de olivedos, que no topo se espalmava em hervecida chã, assombrada de grandes arvores. Em nosso alcance, sahiu a snr.a Eufemia com o almoço, e retirou com ordem de nos trazer alli o jantar.

D'aquella eminencia iam os olhos a muito longe buscar a suave melancolia que levanta o espirito. Enlevavam as lezirias com as suas manadas de gado, os grupos alvejantes de casas, as granjas dispersas na esplainada, os pomares de laranja, os olivedos, e o rumorejo confuso e indistincto das aves, dos regatos, do brando ramalhar das arvores, e da toada de vozes distantes nas veigas, que se espraiavam ao sopé e em redor do nosso outeirinho. Estavam entre as arvores umas pedras musgosas convidativas de repouso. O acaso as talhára á feição de escabello com seus encostos. O padre sentou-se na menos commoda, e disse-me:

--Almocemos aqui. O meu mais longo passeio, ha vinte annos, é até este ponto do mappa-mundi. São estas as bellezas unicas, que eu mostro aos meus raros hospedes. Esse alamo, a que o senhor encosta o hombro, plantei-o eu em 8 de Junho de 1832. Tem vinte e dous annos.

Reparei n'outra arvore proxima, e vi duas iniciaes: _L. A._, quasi illegiveis pela sobreposição da casca.

--E estas letras escreveu-as tambem o snr. padre Alvaro?

--Tambem.

Obrigava-me a discreto silencio a brevidade da resposta, e o recolhimento visivelmente magoado do padre. Tomei do cabaz as provisões do almoço, e accommodei-as sobre a pedra que melhor se ageitava. Fiz o chá e servi o padre, dizendo chistes, que me occorreram, tocantes aos cenobitas, moradores das brenhas, estomagos fortalecidos por fructos silvestres e raizes, os quaes não sabiam sequer da existencia do chá hysson nem do assucar, nem da manteiga de Cork, ignorada até do proprio Theocrito, Columella, e outros amantes da natureza e do leite. Se o leitor não acha sal n'estes ditos, o padre tambem lh'o não achou. De instante a instante fez-se noite n'aquelle aspecto, um quarto de hora antes claro e aberto ao contentamento interior.

--Que tristeza é essa?!--perguntei.

--A tristeza do homem, que não póde ser anjo--respondeu elle, trabalhando por reprimir as lagrimas.

De maneira dizia elle estas breves respostas, que eu não sabia replicar, nem consolar.

Aquelles minutos do almoço correram assim tristonhos, e terminaram, tirando o padre do fundo do cabaz dous livros: um era o breviario da sua reza, o outro era um romance... Um romance! e, de mais, um romance denominado VOLUPTÉ, _Voluptuosidade!_ isto oferecido pelo homem de Deus, pelo vaso de eleição, pelo santo, cuja mão eu beijei hontem com fervor d'um catechumeno inflammado por um raio de graça, que a oração do justo me trouxera do céo! A _voluptuosidade_ de Sainte-Beuve, aqui, n'este sitio, ao pé do livro de Job, do rei penitente, dos dictames do Espirito Santo!...

Acceitei o livro, e li, no prefacio, estas linhas: . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . «Entende o editor d'esta obra que as pessoas nimiamente escrupulosas, acaso espavoridas pelo equivoco titulo que ella tem, pouco perderiam, em verdade, não lendo um escripto cuja moralidade, por mais grave que ser possa, só diz respeito a corações menos puros e menos despreoccupados. Ao revez, pelo que toca ás pessoas, convidadas justamente pelo titulo que repelle as outras, essas, não achando no livro o que desejam, não ha que temer o derrancarem-se.»

Fui folheando e salteando os capitulos, e os relanços da obra que mais brevemente podiam ensinar-me o enredo da historia. Comprehendi-a toda em trinta minutos de leitura. É um homem que amou, e cobriu com a mortalha de levita a mulher que amara e perdera. É a analyse minuciosa e pungente d'uma paixão; e poderia tambem ser instructiva a analyse, se o espectaculo das agonias d'um naufragio fosse causa a gelar de terror os futuros navegantes e deixar rugir o oceano sósinho com os seus furores.

Fechou o padre o seu livro, e eu continuei a lêr.

--Sainte-Beuve escreveu esse livro em fórma de carta a um amigo--disse o padre--Se o senhor tivesse em mim um amigo, capaz de escrever com profundeza e graça, e me pedisse conselhos, eu mais quizera ter-lhe escripto este romance que o «Manual d'Epicteto» ou a «Imitação de Christo.» Ahi verá o philosopho, o sabio, o mundano, o penitente, o christão, e o martyr, se quizer. E sobre ser tudo isto, é ainda mais, é o homem. Quão raros são os livros que bem definem o homem, a não ser o de Job: _Homo natus de muliere..., repletus multis miseriis_ «homem, nascido da mulher, acervo de miserias sem conto.»

--Poderei fazer uma pergunta, sem preambulos, que m'a desculpem?--atalhei eu.

--Porque não? faça.

--Entre o senhor padre Alvaro Teixeira, e este homem que veio cingir os rins n'um claustro das margens do Tejo, ha uma dôr commum, não ha?

--Ha uma dôr igual, um mesmo calvario,--perdôe-me a profanidade--mas as veredas muito differentes.

Após o silencio de alguns segundos, que eu não ousei quebrar com alguma pergunta melindrosa, o padre, erguendo a face inflammada, com a luz dos olhos estranhamente viva, disse n'um impeto de espirito:

--Hei-de mostrar-lhe algumas datas que tenho assentadas n'um livro. Não é auto-biographia, nem romance simulado com suppostos nomes, nem «Memorias» ambiciosas de futura vulgaridade. São cauterios applicados á chaga ínsanavel... Ha-de lêr os meus papeis.

--Mereço eu tanto?!--disse, sentindo-me vaidoso da confiança, e lisonjeado na minha cubiçosa curiosidade.

--A leitura do meu livro não paga merecimentos de quem quer que seja, nem sequer é uma lição nem um bom exemplo: é a parte d'um dia, menos fastidioso, que eu dou ao meu hospede. Lerá esta tarde.

Esteve-se em meditação o padre, sem desfitar os olhos do alamo e das letras, e continuou depois d'este theor:

--Se a não tivesse escripto, contava-lhe a minha vida. Tinha precisão d'este desafogo. Digo-a a cada noite que Deus manda com os seus silencios para m'a ouvir. Repito-a a cada aurora, que se aclara, não já para mim, que só espero vêl-a despontar além da sepultura. É natural este desejo de infelizes que se querem lastimados na sua dor. Esse mesmo desejo tenho submettido ao jugo de todos os outros. Nunca fallei do homem que foi aos que a mera curiosidade tem aqui trazido a ver o homem que é, em sua mesma obscuridade, um segredo estimulante de ociosos. A parte essencial da minha vida sabem-na muitos, e eu não sei quantos romances por ahi correm á conta dos meus soffrimentos. Sei que os velhos da minha creação me chamam «romantico» ou «tolo» que monta o mesmo. D'esses alguns não quizeram envelhecer ainda, e a cada passo os encontro em Lisboa, como os lá deixei ha vinte annos, gentis, perfumados, galãs, viciosos, e salvando-se da irrisão com o pouco cabedal que fazem da sua mesma dignidade. Outros avelhentou-os o mesmo vicio, e de crêr é que me julguem por si, ao verem-me assim encanecido. Haverá algum que me leia no coração e desculpe das injustiças dos outros; esse, porém, não me perdoa o feio envez em que eu espontaneamente voltei uma vida, que principiára mostrando uma face agradavel, e esperançosa de todos os bens que se tomam em conta de melhores n'este mundo. E assim é que tenho vivido e morrido só commigo, e affeiçoado aos que me lastimam e aos que me escarnecem. Uns e outros erram sem vontade. Na sociedade, em que elles medraram e se acreditaram, sou e devo ser aquillo que de mim pensam: um exquisito, que se goza das suas singularidades; ou um martyr excruciado por sua infeliz e dissociavel imaginação. Hypocrita é de presumir que me não taxem, porque a hypocrisia tem n'este mundo a sua ganancia, e elles bem sabem que eu nada tenho ganhado, nem solicitado. Isto, que vou dizendo, tem sombras de defeza propria, não tem, meu amigo?

--De defeza, não me parece, senhor padre Alvaro!--respondi--Quem é que o accusa? Escarnecer ou lastimar não é accusação. O que eu entendo das palavras de vossa senhoria é que perdoa aos baixos espiritos, que se querem levantar para avalial-o, e resvalam á lama.

--Não tanto--replicou sem embiocar a caridade--Sejamos generosos e até piedosos com as almas remissas e afrouxadas na trabalhosa fabrica das posições, das honrarias, dos bens da fortuna, da immortalidade e da perpetuidade dos seus nomes na riqueza e gloria herdada á sua descendencia. Entre estes, que muito é ser eu olhado como inutil, como o menos previdente dos tres a quem o Senhor distribuiu os talentos? O sacerdocio é havido como officio, e o sacerdote que não cura sequer de agenciar uma murça, ou uma abbadia rendosa, é um inhabil, que retrocedeu pela estrada obscura ao tempo escuro da religião. Que ha-de dizer a gente illuminada, segundo o tempo, d'um homem, que foi abastado, que se fez padre antes de ser pobre, e que empobreceu, e não cuidou de voltar a si com artes infalliveis o bom rosto da fortuna, e nem sequer escassamente soltou uma palavra de queixume contra os ingratos?

--Deve dizer--respondi commovido--que homem, que tal fez, é um dos escolhidos de Deus, um exemplo, e uma gloria da especie humana.

--A especie humana não dá fé de glorias tão baratas, meu amigo. Eu tive alguns annos de homem social e amoldado ao feitio vulgar. Pois saiba que se a mim me perguntassem então o que eram glorias da especie humana, eu apontaria Cesar, Alexandre, João de Castro, Colombo, Vasco da Gama, Camões, e os outros que escreveram para sempre os seus nomes no padrão d'um mundo novo descoberto, na pagina d'um livro, ou na lamina d'uma espada. Se me lá fossem dizer que aqui nos «Olivaes» vivia um padre, que nem sequer escrevera os sermões de Vieira, ou as «Orações funebres» de Bossuet, eu de certo responderia com um sorriso desdenhoso á admiração de quem me viesse fallar em tão pêcas glorias da especie humana.

A conversação prolongou-se n'este sentido até horas de jantar.

Jantamos.

Não quero que o leitor diga que ninguem sabe o que comem e quando comem os heroes dos meus romances. Eu tenho a sinceridade de fazer comer, com vulgar semceremonia, não só os heroes de más manhas, mas ainda os santos, como o padre Alvaro.

_Ibit homo in domam œternitatis suœ_ Irá o homem para a casa da sua eternidade.

ECCLES.--12. 5.

Na tarde d'aquelle dia chamou-me o padre para junto de si, diante da mesa em que escrevia. Abriu uma das quatro gavetas da escrivaninha, e tirou um grosso volume de papel almaço, encadernado em papelão, sem alguma outra cobertura.

--Ahi tem--disse entregando-me o livro--Leia, como quem lê um romance de historia authentica, escripto por pulso não vezado a escrever novellas. Ahi vai o coração do seu amigo, a cinza das flôres de vinte primaveras, flôres que se abriam já queimadas, porque o bolbo de cada uma rebentava já doentio da venenosa rega das lagrimas.

Lembra-me que recebi das mãos do sacerdote o livro com o respeito do acolito ao receber o evangelho das mãos do celebrante. Póde ser que na minha reverencia houvesse menos ceremonia de ritual e mais religiosa devoção.