O Romance de um Homem Rico

Part 2

Chapter 23,961 wordsPublic domain

Alguma vez, de longe em longe, um raio de luz furtiva e ephemera dá-lhe fugidia esperança; e elle pensa então e falla nas _Chronicas duas rainhas_ que trazia em laboração e tanto deseja concluir. A medicina promette-lhe, com intima fé, a regeneração dos seus olhos, e elle escuta, provoca a demonstração, comprehende-a, espera! Esperança fugidia como o relampago que lhe cruzára pela retina! A descrença volta inexoravel e com ella o inferno e os tratos do _sempiterno horror._

Então a ancia do suicidio toma-o de novo e elle afaga o rewolver, como seu ultimo recurso.

Tristissimo.

Assim vive,--se é vida esta dilaceração angustiosa mil vezes peior que a morte,--o nosso grande romancista, á hora em que escrevo estas linhas. Muitas vezes suffoca-o a dor, e elle pede em jubilos que a morte lhe venha n'um spasmo. Os seus raros e curtos somnos trazem-lhe pezadellos afflictivos; por isso pede muita vez que o não deixem dormir. Acorda era gritos lancinantes, estendendo convulsivamente os braços a procurar mão valedora....

Meu pobre amigo!

Comtudo a sciencia lucta e espera e com a sciencia espera, solicita, a amizade. Só elle não quer, ou não póde acreditar, sequer, n'esta esperança.

Vive hoje em Bemfica, em paiz primaveral; n'uma caza cheia de confortos e de luz, do seu e meu amigo Barjona de Freitas. Alli o visitam os seus mais intimos, esperando a cada momento vislumbres da nova luz que lhe faça esquecer tão fundos e tão prolongados tormentos.

Quantas vezes tem elle repetido:

--«Que eu veja! pouquissimo embora! o absolutamente indispensavel para poder trabalhar, e encerrem-me, por toda a vida, no carcere onde escrevi _O romance d'um homem rico!_»

Carnaxide, 1 de julho de 1889.

_Thomaz Ribeiro._

PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO

Este foi o mais querido dos meus romances; e, se o vaticinio, que aventuro sobre o meu futuro de escriptor, me sahe exacto, este romance prevalecerá a quantos a minha imaginação já desluzida, e como á força, der de si. Com tristeza sincera confesso que no que fui já mal me reconheço. As rugas da fronte empecem ao coar d'aquella flamma, que me aquentava a phantasia, e dentro me alumiava, como em lampada magica, lances da vida exterior, uns de riso, outros de lagrimas. E eu entrava em espirito e coração n'este interior mundo, e lá me sentia viver, soffrer e amar. A isto não ousaria eu chamar inspiração; mas, sem modestia de vaidade, podia chamar-lhe feliz capacidade para engenhar obras d'um dia, leituras de duas horas, recreio a ocios de quem os não sabia gastar melhor e mais aproveitados.

Como se foi amortiçando a luz da minha mocidade, e aquelle incansavel amor ao trabalho, languido a ponto de já agora deixar cahir a fronte esfriada e dorida sobre o papel em que escrevo? Acabou-se como tudo que principia, e mais depressa que o deperecer commum das faculdades inventivas. Esta é a sorte immerecida d'aquelles que não poderam ou não quizeram poupar o vigor do coração em vantagem do vigor da intelligencia. A mais ardente cabeça de homem empedrou debaixo da mão glacial da desfortuna.

Foi este romance escripto nas cadêas da Relação do Porto em 1861.

Quem dirá que tenho saudades d'aquelles dias negros e d'aquellas noites solitarias? Devo suppor que vim apparelhado para os maximos infortunios, quando o experimental-os levemente me incommoda, e o relembral-os me esperta uma quasi saudade! Penso que não é isto saudade da desgraça: deve antes ser pena de ver murcharem-se as chimeras que me infloravam de lá, este arido pragal, que vou trilhando agora.

Ao menos, lá e então, aviventavam-me uma grande dor e uma grande esperança: hoje, nem sequer as amarguras do fel nem a prelibação dos balsamos dôces.

Este silencio dóe mais que o estridor dos ferrolhos. Esta paz, em redor do meu espirito, é uma quietação de sepulturas.

Viveram no meu ergastulo da Relação do Porto, commigo, noite e dia, o padre Alvaro d'este romance, e Maria da Gloria e Leonor, e a santa de Vairão; e Thereza, e Marianna, e meu tio desterrado do outro livro chamado «Amor de perdição.» Viveram commigo aquelles ditosos pares que eu casei, e o publico hospedou alegremente, com o livro «Doze casamentos felizes.»

E eu tenho saudades d'elles, e das noites em que os via sentados em volta do meu leito. Cá fóra, á luz em cheio do sol, não os encontro.

Bellas, 19 de Maio de 1863.

CAMILLO CASTELLO BRANCO.

INTRODUCÇÃO

_As tribulações dos santos são enigma: uma cousa parecem, e outra são e significam: parecem miserias da fortuna, e são concelhos da Providencia Divina, e signaes da felicidade eterna._

P. M. BERNARDES. (Silva de varios dictames espirituaes.)

Na primavera de 1859, comprei, na estação de Santa Apolonia, um bilhete da via-ferrea, para a ponte da Assêca. Saudades do campo, ancias de sorver do seio da natureza um hausto de ar puro; e, acima d'isto, o meu dorido amor a quantos sitios guardavam para a minha memoria do coração vestigios da infancia, que tão depressa passara com as flores d'outra mais formosa primavera... A que vem isto?!... É a saudade, leitor! Se a sente, se a já sentiu, recorde-se, e perdôe-me.

Entrei n'uma das mais flacidas carruagens do comboi.

Vejam a egoista e brutal natureza do homem-corpo! Nem quando a alma padecia tanto, se dispensou a ignobil materia dos regalos das almofadas! A angustia lamentosa de Lamartine era sincera; creio: mas em que recamaras de asiatica opulencia se lamentava elle! Que requintes de luxo para o corpo, e anhelos de gloria para a felicidade do espirito lhe não infloravam ao poeta de Elvira a dupla existencia, quando elle escrevia:

_Héritiers des douleurs, victimes de la vie, Non, non, n'espérez pas que rage assouvie Endorme le Malheur, Jusqu'á ce que la Mort, ouvrant son aile immense Engloutisse à jamais dans l'éternel silence L'éternelle douleur!_

E Petrarcha, tanto anno a chorar sonetos, aposentado no palacio d'um doge, rodeado de servos, e d'amigos, e de admiradores, n'aquella feiticeira Veneza, tudo a expensas da republica!

E todos os outros mestres de bardos melancolicos?

Que muito enganados andamos nós com os poetas lagrimantes!

Eu ia a scismar n'isto, quando me deu na vista um homem, companheiro de carruagem, o qual estava pendurando o chapéo no arame, e vestia a veneranda calva com seu barrete de troçal preto.

Cortejei-o, na hypothese de que elle me tivesse já cortejado, e eu não correspondesse, de abstrahido que ia a pensar no corpo e na alma, cousas disparatadas, que o leitor póde vêr mirificamente descriptas em S. Agostinho, e melhor ainda, em Xavier de Maistre; no primeiro, quando se confessa; no segundo, quando viaja á roda do seu quarto. O santo bispo chama ao corpo «bruto» e o conde francez chama-lhe «besta»--ao corpo entenda-se, e não ao bispo. Para mim tenho que o corpo é ambas as cousas, e muitas outras.

Se entro a desvariar, o leitor passa ao capitulo segundo, e isso é que eu não queria, porque os meus romances começam todos pelo principio, e este primeiro capitulo deve lêr-se.

Cortejei o padre. Parece-me que ainda não disse que era padre o meu companheiro. Dava-se logo a conhecer por tal n'aquelle apostolico semblante, se o não dissesse a volta e a sotaina, e o sapato de fivela de aço reluzente.

Correspondeu ao meu gesto com muita afabilidade, tirou-me da mão o chapéo para pendural-o, e offereceu-me rapé, depois de bater quatro vezes com os nós dos dedos na tampa da sonora caixa de tartaruga, marchetada de madre-pérola.

--Póde fumar á sua vontade, se fuma--disse-me elle.

Agradeci o agradavel consentimento, e offereci-lhe a minha charuteira, que elle não aceitou.

Recahi no meu lethargo. Agora era diversa a these: meditava n'esta palavra MORAL, e n'esta outra virtude, e lembrou-me Bruto. Todos sabem que Bruto, no ultimo instante de vida, dissera que a virtude era apenas uma palavra. Por isso é que eu ia conversando com o sanguento phantasma do heroico inimigo dos tyrannos.

--A moral!--dizia eu só commigo, depois que a imagem de Bruto se vaporou--a moral é que não é meramente uma palavra. Aqui vai quem poderia dizer-me o que é a moral. Este homem tem um rosto lucido e intelligente: como que estou vendo por elle uma boa alma.

Fitei os olhos suaves do sacerdote. Estava elle com os dedos inclavinhados e as mãos postas sobre o peito. Dava ares de profundo recolhimento, senão tristeza. Gostei de o vêr assim n'aquella postura, a mais artistica e significativa de paz, e conformidade vencedora dos maus e dos males da vida.

Comparei-me com elle. As minhas dores surdas, disfarçadas n'um sorriso convencional, e timorato do escarneo dos insultadores! O contentamento interior d'aquelle homem, revendo-lhe ao rosto, em suave tristeza, contrasenso se quizerem, mas expressão leal d'alma pura e sem temor! Aos olhos de um observador inexperiente, qual de nós dous seria o feliz?

Sahiu-se o padre do seu absorvimento, e disse-me:

--Serei indiscreto, perguntando-lhe onde tenciona ir?

--A Santarem.

--É um passeio aprazivel! O «valle» é um paraizo, povoado de saudades, que chamam sempre o espirito de quem lá teve uma hora de felicidade. Uma hora, digo, porque a felicidade d'este mundo, e só d'este mundo, não dura mais que uma hora.

--Ha quantos annos eu lá não fui!...--continuou o padre no tom magoado de entranhada saudade--E já agora é tarde... é o anoitecer da vida...

--Parece-me tão facil de satisfazer esse desejo!--interrompi eu.

--É facil, diz bem; mas é que ha saudades, que desabafam nas lagrimas; e outras, que se embebem d'ellas. A saudade do objecto, existente a distancia, converte-a em delicias a aproximação; porém, quando a saudade de um sitio é a dôr repercutida de vidas que lá viveram, e não podem reviver com a nossa, essa não tem allivio.

--Creio que tem--disse eu--é vêr e amar essas vidas em Deus, chamal-as em espirito ao lugar onde as amamos, e conversal-as na linguagem das lagrimas...

--E da oração...--disse o padre, e proseguiu, depois de breve silencio--Prouvera a Deus que todos os que soffrem de affeições perdidas tivessem o desafogo de buscal-as no céo...

E calou-se de súbito, cerrando as palpebras, e encruzando as mãos longas e ossudas sobre o peito.

Estavamos no «Poço do Bispo.» Pesava-me a idéa da separação, cuidando que o padre sahiria alli. É que já o estimava, captivo de sua linguagem e semblante. Eu sou assim com todos os homens, se me elles parecem intelligentes e desgraçados.

--Fica no «Poço do Bispo?»--perguntei.

--Não senhor; vou para os «Olivaes.»

--A passeio, ou é de lá?

--Vivo lá: tenho alli arrendada uma vivenda, umas ruinas pittorescas, em que me sinto bem. Estou alli como encasado n'aquellas paredes abaladas que parecem estar-me dizendo todos os dias: quando cahiremos nós comtigo?

Abriu um sorriso de extrema tristeza, e ajuntou:

--Se o senhor vier aos «Olivaes» alguma vez, e quizer hospedar-se na humilde casa, que lhe offereço, e sentar-se á mesa em que ha sempre o _riso e vacca_ de frei Bartholomeu dos Martyres, pergunte pela quinta do Canavial, e procure o padre Alvaro Teixeira. Raras horas no anno estou fóra do meu quarto, ou dos arredores da casa. Encontra-me sempre, salvo se algum visinho lhe disser que o pobre presbytero passou a morar n'outra residencia onde as pessoas que me visitarem terão a caridade de pedir a Deus o descanço da minha alma.

Disse isto o padre sem o menor tregeito beatifico. N'aquellas palavras doridas sorria a consolação da esperança, e a jovialidade do justo que se não teme das contas finaes de sua alma com Deus, e da memoria, que de si deixou, com a justiça humana.

--Espero ir encontral-o com muita vida, senhor padre Alvaro Teixeira, e não será muito tarde. A sua povoação está ás portas de Lisboa; mas, ainda que muito longe fosse, eu iria passar uma hora com o homem communicativo e estimavel, para quem o coração me está fugindo com a palavra «amigo.»

--Agradeço-lh'a, e afago-a; respondeu, e estendendo-me a sua mão--Que o sentimento generoso sahe espontaneo do coração, sem consultar o raciocinio; ao passo que frequentemente as melhores qualidades do homem, que tratamos longo tempo, não vencem a descaridosa antipathia de um primeiro encontro.

--Como se chama?

Disse-lhe o meu nome. O padre repetiu-o tres vezes pausadamente, syllaba por syllaba, e depois exclamou de repente:

--Não me engano. É o mesmo. Eu conheço o seu nome ha onze annos. Entre os meus livros estão vinte paginas da sua infancia litteraria. Nem, talvez, já se lembre d'ellas! Pois não deve esquecel-as... Eu lhe cito o titulo: O CLERO E O SENHOR A. HERCULANO.

--É a verdade; são minhas. Classificou magistralmente a cousa: vinte paginas da minha infancia litteraria, felizmente esquecidas...

--Mas não as esqueça em si o homem de coração, que deve prevalecer ao homem d'estudo. Foi temeridade assentar-se á beira do caminho, por onde passava triumphantemente o primeiro sabio de Portugal; mas, _feliz culpa_, ditoso atrevimento o do rapaz, que não tinha exhauridas ainda todas as lagrimas da compuncção. Atrevimento reprehensivel fora o da porção do clero, que desenrolara do pulpito abaixo o sudario da sua ignorancia, disputando á sciencia o que era da sciencia, e arriscando a causa da verdade ás vaias de ingenerosos adversados, os quaes, não podendo hombrear com o historiador doutissimo no solio da sciencia, e castigar de lá os ignorantes, entenderam que bem mereciam do mestre apanhando-lhe a lama do chão das suas botas, e atirando-a á cara dos padres. No folheto do meu amigo não havia polemica nem sciencia; mas sobejavam conselhos aos parciaes do clero, que porfiavam em levar vantagem de injuria aos inimigos. Não se corra de ter, um dia, escripto que o padre é ignorante porque o não ensinam, e que as verdades santíssimas de Jesus não podem ser menospresadas pelas argucias da razão philosophica, nem pela rude e escura hermeneutica dos mal aviados defensores da exclusiva razão do catholicismo...

N'esta esteira foi navegando o padre, a todo o panno da sua muita critica e erudição. Pedem os leitores que os poupe ás conferencias do levita, e eu de melhor vontade os dispenso de ouvir-lh'as, mesmo porque me era preciso saber tanto como elle, para o não desprimorar da eloquencia com que me aligeirou em instantes a hora decorrida até os «Olivaes.»

Parou o comboi, e o padre suspendeu o discurso n'uma conjuncção.

--E portanto...--disse elle--Adeus, meu amigo, não ha tempo para mais.

--E portanto--disse eu--não o dispenso de concluir o seu discurso. Eu é que digo por hoje adeus ao valle de Santarem, e fico nas pittorescas ruinas dos «Olivaes.»

--Fica!--exclamou elle com alegria--Pois bem haja!

Saltei, dei a mão ao padre, e apresentei o meu bilhete ao conductor.

Merece chronica um episodio de instantes que se deu entre mim e o conductor n'esta estação. O meu bilhete designava a «Ponte da Asseca» e o conductor formalisado dizia-me que eu não podia deixar de ir á «Ponte da Asseca.» N'um breve discurso tentei debalde provar ao funccionario que a companhia não era prejudicada com o receber mais oitocentos e tantos reis acima da minha passagem para os «Olivaes.» O homem, que era belga, não entendia o meu vasconço de Poitou. O padre encostado ao cunhal da estação, arquejava de riso; o belga relanceava os olhos envinagrados, avinhados é mais exacto, d'elle para mim e de mim para elle, julgando-nos ambos cumplices na logração. A final soou, segunda vez, a campainha, e o habil empregado lá foi fazendo de mim um mau conceito. Isto prova que bem avisado andou o governo, collocando o intelligente belga, no lugar onde podia fazer tolices algum portuguez estupido. E, se não provasse isto, provaria a embriaguez do homem, e ainda assim a boa escolha.

--Ora vamos lá--disse o padre Alvaro Teixeira, encostando-se ao meu braço--Temos dez a doze minutos de caminho. Vamos pisando este chão que é como sagrado para mim. Repare nestas flôres das ribas e vallados, que eu vejo ha trinta annos, sempre com o mesmo viço e a mesma côr em cada primavera. Ha na natureza um aspecto de indiferença que exacerba a dor dos infelizes, se é que todas estas boninas não renascem para chorar commigo. Um poeta diria e pensaria isto. Quando alguns traços do passado se me varrem da memoria do coração, e, depois, acerto de encontrar-me com a madresilva, com a margarita, com a flôr do rosmaninho, revivem as lembranças todas, umas pungentes, outras doces de saudade; mas nenhuma de esperança... Esperança! Não se ri d'esta palavra na boca de um velho, que cahiria extenuado se apressasse a corrida após de uma esperança, áquem da sepultura?...

--Por que não? A esperança de encontrar mais um amigo, e depurar alguma alma empestada pelas más paixões, não é tão digna de si, e dos seus annos!? E além de que o senhor padre Alvaro não é velho.

--Veja se me lisongêa, meu amigo. Olhe se faz com as suas palavras a maravilha da fabula: rompa n'aquella pedra a fonte da juventude do corpo e a da alma. Remoce o achacoso velho que já conta... diga lá, quantos annos me faz?

--Cincoenta e seis, ou sessenta, quando muito.

--Não, senhor: tenho quarenta e seis.

Contemplei-o com assombro e piedade. Quarenta e seis annos aquelle homem, que me ia pesando no braço, e se abordoava á grossa bengala que lhe oscilava na mão! A luz dos olhos serena, mas quasi apagada. Os vincos da testa escalvada encruzados e fundos, travando-se em miuda rêde ao redor das orbitas. As faces arregoadas, lividas, e flacidas. As cordoveias do pescoço repuxadas pelos tendões descarnados. O dorso recurvo, e as extremidades tremulas e morosas nas articulações dos joelhos. Quarenta e seis annos! Que fogo voraz se retrahe no coração d'este homem, quando o involucro assim se fende e estala febra a febra! Foi a mão de Deus, que me guiou a ti, filho da dor, para me humilhar diante da tua paciencia!? Falla, falla, ensina-me a compor dos meus gemidos o hossana da victoria, sobre as agonias, que me vergam, quando eu mais me afadigo a despontar-lhe os espinhos com a rebellião insoffrida. Diz-me através de qual fibra illesa e invulneravel te vem do espirito aos labios esse teu sorriso! Dá que eu prove o fel de cada lagrima, que enxugaste com o punho da batina nas tuas faces aradas! Não cáias arvore bemdita, sem que eu colha fructos de benção d'essas magestosas frondes, que se abaixam até ao raso da minha miseria. Se adivinhaste um infeliz no homem, que deixou em tua memoria as vinte paginas do coração juvenil, deixa-o sentar-se á tua beira, a meio caminho da vida; aponta-lhe d'aqui o trilho menos escarpado da sepultura; ensina-o a converter cada espinho em flôr; cinge-lhe os rins com o cilicio que revigora a alma; dulcifica-lh'a com o travor das lagrimas penitentes; dá-lhe a força de homem, e reserva para Deus a tua essencia de anjo.

_Este era o seu refugio, o seu descanço._

Fr. LUIZ DE SOUZA. (V. do Arc.)

A tristeza das ruinas é uma tristeza particular, da qual nem todas as almas se magoam. Já observei vezes sem conto isto mesmo no semblante das pessoas que foram commigo a visitar um palacio derrocado, ou as alpendradas d'um convento, ou algum lanço empenado de muro de castello.

No convento de franciscanos, cerca de Vianna, reliquias santas em cujas abobadas credes ouvir ainda o ciciar dar oração dos frades comtemplativos, estava eu, por uma tarde de estio, com um amigo, que escrevera muito sobre a poesia da cruz. Subimos a um teso d'onde se avistavam descampadas e fertilissimas varzeas. A fronte do meu amigo pareceu-me alumiada do sacro lume do estro. Esperei, com reverente silencio, a estrophe inspirada pela soledade, e esmaltada dos matizes do sitio, que eram poesias feitas para um genio que as bem soubesse ler. Entre-abriu o poeta os beiços, como flôr matutina o calice ao primeiro beijo do sol, e disse:

«Se fosse meu tudo isto que vejo d'aqui, ia viajar n'um vapor meu, comprava um palacio em Milão, outro em Paris, outro em Londres, e havia desbancar quantos luxos orientaes o Byron inventou para o seu Sardanapalo!»

Não respondi, de triste que fiquei, e de triste que já estava.

Outra vez, fui com outro amigo ao castello de Palmella. Desci ás masmorras em que não seria custoso com uma enxada trazer á flôr da terra as ossadas dos que alli morreram ha cem annos emparedados á ordem do conde de Oeiras. Refugi com o pensamento d'este laivo sangrento da historia, e fui em cata de glorias aos seculos primeiros d'aquelle baluarte da nossa independencia de Castella e da mourisma. Enleavam-me estas meditações, quando o meu amigo, cabisbaixo n'um angulo d'um bastião, resmoneou:

«Fizemos uma crassa tolice em não trazermos de Setubal um pedaço de carne assada e duas garrafas do Cartaxo, que era optimo vinho, e havia de saber-nos aqui que nem o nectar dos deuses.

Ora, este poeta era amantissimo de ruinas, quando as poetava no seu gabinete, em artigos, a um tempo, de saudade do que fomos, e fulminação contra os governos barbaros, que deixavam ao camartello iconoclasta demolir os vetustos moimentos da nossa extincta grandeza.

Outro caso:

Nos arrabaldes de Lisboa, ha um espaçoso jardim abandonado, junto de uma casa esburacada de balas, e aberta em largas fendas, desde o cerco de 1833. Por entre hervas e arbustos silvestres rompem algumas hastes enfezadinhas de rarissimas flôres, que teimam em reflorir na sua estação, como se a esperança lhes não morresse ainda de voltarem aos cuidados da mão delicada, que as semeara e amimára alli, com o coração em flôr tambem. Quem se lembra ainda da formosa jardineira que descia com o sol a colher ao seu jardim os mais gentis enfeites do seus cabellos? A formosa passou, e a rosa de toucar floreja ainda ao pé do myrto, á sombra da anemola e da romanzeira, abafada pelas moitas das papoulas, que são o ephemero adorno das sepulturas. Que triste eu scismava n'isto, quando o meu amigo, author de idyllios que faziam amar a botanica e adorar as flôres, rompeu n'esta canção:

--Este jardim, aqui ás portas de Lisboa, se o dono o pozesse a couve lombarda e feijão carrapato podia render vinte e tantas libras annuaes.

Disse, e perguntou-me se iriamos jantar ao _Matta_, ou á _Taverna ingleza._

Por estas e outras, puz eu que a tristeza das ruinas é uma particular tristeza, da qual nem todas as almas se magoam.

Eu de mim, liberalmente dotado de dores minhas e intimas, já fujo de ir onde está a solidão lamentosa, parque nunca me ella deu o remedio que deu a muitos, mal feridos do mundo. E de ruinas é que fujo mais esporeado pela lembrança das más horas, e peçonha para muitos dias que tenho trazido de lá, em vez do balsamo, que a meu ver, só é salutar nas almas golpeadas, se a consciencia não se dóe com ellas.

As unicas ruinas de que tenho saudosa memoria são as da vivenda do padre Alvaro Teixeira, nos «Olivaes.»

A casa tinha claros vestigios de palacete. Os cunhaes estavam em pé, amparando alguns lanços de parede, recortados em escaleiras desiguaes. Através de nove janellas das quatorze da fachada coava-se o azul do céo, apenas interceptado por algumas vigas e ripas empenadas e torcidas pelo calor. Nas padieiras e cornijas amarelleciam fetos e outras hervagens resequidas que deixavam realçar o verde da hera. Esta marinhava do interior das paredes para os batentes e couçoeiras das janellas, sem portadas, e n'algumas enredava-se em urdidura tão agradavelmente tecida, que dissereis ser a natureza tanto mais de vêr-se quanto mais desalinhada é da esquadria da arte.

Entramos n'um largo portal, que abria para um pateo espaçoso, alcatifado de relva, nos pontos de juncção entre as lageas. As paredes circumpostas eram ladrilhadas de tijolo azul e apainelado, figurando passagens mythologicas e campestres. No rebordo superior d'este ladrilho, corriam em toda a roda argolões feluginosos, que deviam ter sido as prisões dos cavallos, nas tardes calmosas, quando os antigos senhores, refestelados nas suas cadeiras encouradas, vinham, do patim imminente ao pateo, gozar-se do espectaculo dos mursellos e alazões rinchando, escarvando, e folgando em airosas upas.