O Romance de um Homem Rico

Part 14

Chapter 143,926 wordsPublic domain

--Respondo, minha senhora. Primeiro que tudo, eu amo tanto vossa excellencia quanto a respeito. Acima d'estes dous sentimentos está o da amisade, que lhe dedico, e o da gratidão à benevolencia com que me tem distinguido em sua casa. Vossa excellencia não ama os grandes preambulos, e por isso vou já direito á materia sujeita. Se eu acceitasse a honra, que vossa excellencia me dá de querer alliar-se á minha vida, sacrifical-a-ia, minha senhora. O mesmo seria obrigal-a a trocar por um coração dedicado as regalias de que se está gozando com grande inveja das suas amigas. Que vale um coração dedicado em confronto do bem-estar, da segurança do dia seguinte, das considerações desveladas, que rodêam vossa excellencia?

--Elucide-me...--atalhou Leonor--A sua linguagem é escura!

--Escura é a existencia sem meios de a fazer brilhar, minha senhora. Eu sei, tambem como vossa excellencia, que os seus muitos recursos procedem da amisade d'uma tia millionaria, que vossa excellencia tem.

--Não ha duvida; mas eu não disse ainda a vossa senhoria que me dotava com estes recursos, e vossa senhoria, nas suas cartas, falla-me da felicidade da solidão, e da doçura do pão ganhado com o nobre trabalho da intelligencia.

--Tambem é certo--redarguiu algum tanto confuso o jornalista--era, porém, intento meu fazer o elogio da mediocridade em relação áquelles que não conheceram a opulencia. Neste caso não está vossa excellencia: estou eu; mas eu é que não devo sacrificar a felicidade real da senhora D. Leonor ás minhas phantasias de philosopho. Todavia...

--Queira dizer-me--interrompeu a viuva--a quem pediu informações dos meus recursos?

--Não as pedi, minha senhora: seria grandemente ignobil o pedil-as; não as averiguei; deram-m'as.

--Quem?

--Conhece vossa excellencia por ventura um mestre de inglez!?

--Conheço.

--Como conhece, minha senhora?

--Fallou-lhe esse homem em meu primo Alvaro Teixeira de Macedo?

--Não, minha senhora; limitou-se a dizer-me que vossa excellencia não tinha absolutamente nada que lhe segurasse a futura subsistencia, se contrahisse segundas nupcias contra vontade dos seus parentes.

Leonor ergueu-se, sahiu da sala pisando com soberana arrogancia, e o litterato ficou perplexo com os olhos cravados na porta por onde a vira sahir.

Instantes depois, entrou um criado de farda, e disse ao cavalheiro:

--Sua excellencia manda sahir.

Mascarenhas tomou o chapéo, e retirou-se tão affrontado como se tivesse espirito muito susceptivel ás injurias.

Leonor não recebeu alguém n'aquelle dia. O seguinte era o ultimo de Setembro de 1838. Eufemia era esperada com a mezada n'esse dia. Não era esperar, era ancear em phrenesis a agitação de Leonor.

Quando Eufemia entrou, estava a viuva vestida de preto, com o fato avelhentado do lucto de ha quatro annos e já de chapéo.

--A senhora vai sahir, e de lucto carregado?!--disse a criada--Que tem, senhora D. Leonor?! a menina tem febre!

--Trazes-me a esmola?--disse Leonor com desabrimento--Leva-a a tua ama, e ao teu amo. Diz-lhes mais que venham tomar conta do que esta casa encerra. Tudo isto não vale um terço do dinheiro, que recebi; mas é honra pagar pouco, e ficar sem nada. Diz a meu primo que esta nobre desgraçada repelle a mão bemfeitora que larga o ouro, e aperta o cabo do punhal com que se mata a dignidade dos infelizes. Diz a meu primo que o rotulo da sua caridade é um insulto a mim, que não lhe esmolei o seu ouro, ganhado sobre o balcão. Diz a minha virtuosa tia que a virtude não está sómente nos temperamentos de gelo, que facilmente são virtuosos. Diz isto. Agora, vai, ou fica.

Leonor ia a sahir, e Eufemia abraçou-se a ella, chamando soccorro, por julgal-a demente. Os criados vieram; mas recuaram ante o olhar imperioso de sua ama. Leonor sahiu a pé, só, com os olhos raiados de sangue, e o coração em convulsões. A longa distancia de casa, entrou n'uma sege de praça, e deu ordens ao boleeiro.

Eufemia contou o succedido. Maria da Gloria chorou, e pediu a Deus que não desamparasse da sua vista a perdida mulher. Alvaro ouviu serenamente repetirem-se os afrontamentos de sua prima, e parecia gozar-se dos novos espinhos, que lhe sangravam o coração.

--Esperemos...--disse elle a sua mãe.

XVIII

_N'aurez-vous point pitié, jeune homme?... Non, non, j'en ai le pressentiment, une ère nouvelle commence_...

R. de LORGUES. (L. das Communas.)

Leonor, apeando no pateo do palacete dos Olivaes, chamou o feitor, e pediu a chave da casa da Luiza: por este nome era conhecida a casa que Leonor dera á sua velha criada, e herdara d'ella, mezes antes. A passo firme abriu a porta, fechou-se dentro, abriu os dous postigos envidraçados, e sentou-se no bahú, que estava aos pés da cama em que morrera a criada. Alli estava tudo como a fallecida o deixára, pobre, mas limpo, a não ser a capa de pó que assentara no verniz de alguns velhos moveis, que Leonor lhe dera. O feitor, se bem que prohibido de a seguir, teimou em vigial-a, suspeitoso do descuido em que a vira vestida, e do desconcerto do rosto. Afoutou-se a pedir-lhe que abrisse a porta, e entrou, rogando que não repellisse o seu velho servo, se estava afflicta. Leonor pediu-lhe um copo de agua, e a chave do bahú de Luiza, parte da herança que ella não tivera tempo de examinar, nem quizera dar a outras criadas, que lh'a pediam, como farrapagem inutil á herdeira.

Abriu Leonor o bahú, e entre a roupa branca, recendendo a alfazema, encontrou um embrulho de dinheiro em prata. «Isto é que é verdadeiramente meu, disse ella; posso com este legado da minha Luiza resistir á morte da fome por alguns dias.» Como o mordomo persistia em rondar as avenidas da casinha, Leonor deu-lhe dinheiro para lhe comprar um jantar como costumava ser o de Luiza, e accrescentou:

--Não cuide que isto é dinheiro de minha tia... É meu, que m'o deixou a minha criada. Achei-o no bahú. A boa velha, que criou minha mãe, economisou toda a sua vida para matar a fome de alguns dias á filha da sua ama, a Leonor de Brito, á ultima morgada dos Olivaes.

O tom d'este dizer dava azo a que o mordomo ia tivesse em conta de douda. Assim o creu, e mandou aviso a Maria da Gloria.

Alli passou o restante do dia. Ao trazerem-lhe o jantar, recebeu-o por um dos postigos, e tomou d'elle o prato menos exquisito, uma pouca de vacca, dizendo que não tinha posses para mais. Pernoitou no leito de Luiza, e abriu alta noite as janellas porque sentiu aquelle especial e nauseabundo cheiro das exhalações cadavericas.

De madrugada, abriu a porta, e sentou-se no unico degrau. Estava abrazada em febre, e, a intervallos, deixava pender para o seio a cabeça extenuada de vagados. Quando presentiu passos nos arredores da casa, recolheu-se e fechou a porta: era o feitor, que passara a noite velando a casinha onde dormia a filha de seus amos.

A febre abrazou-se até ao delirio. Leonor prostrou-se na barra, e sacudia vertiginosamente os braços e a roupa. O feitor chamou criados, arrombou a porta, e collocou sua mulher ao pé do leito da febricitante. Como recobrasse alentos, e se visse rodeada de gente pobre da aldêa, Leonor sorriu a todos, e pediu que a deixassem. Queria ficar de força a mulher do mordomo; ella, porém, tão affligida se mostrou da contrariedade, que conseguiu ficar sósinha. Ergueu-se, cambaleando aturdida, e trancou a porta, porque a fechadura tinha saltado aos empuxões de fóra.

Depois, abriu o bahú, tirou o cesto de costura da criada, e experimentou na extremidade do dedo indicador da mão esquerda a ponta d'uma tesoura. Feita a experiencia e ensanguentado o dedo, escreveu no verso de um papel sellado, que era a certidão de idade da defunta criada, as seguintes palavras, com a cabeça de um alfinete:

«A minha tia Maria da Gloria.

«Não posso com a dependencia, nem tive educação para agenciar a independencia com o meu trabalho. Matei-me d'uma só vez para não morrer mil vezes, aceitando esmolas com a condição de me fazer escrava d'ellas. Dou louvores a Deus por me ter defendido de alguma tentação deshonrosa, até cahir n'esta desgraça. A minha memoria será longo tempo escarmento para infelizes; mas não será vexame para os meus parentes. Agradeço o bem que me fez minha tia; e sinto não ter tido uma alma bastante vil para se não conhecer aviltada. Escrevo no meu perfeito juizo.

_Leonor de Brito._»

Dobrou o papel, e collocou-o sobre a mesa em que o escrevera. Arregaçou a manga do vestido, e cravou a ponta da tesoura no sangradouro do braço esquerdo. Como a cisura apenas revesse o sangue, ligou e comprimiu o braço com uma tira de lençol. O sangue espirrou com força; e, de o ver, turvou-se-lhe o animo de modo que já não pôde passar á cama.

Era á hora do jantar. A mulher do feitor batera e chamára sobresaltada; o marido veio depós ella, e quebrou os caixilhos das vidraças, por onde saltou dentro.

Estava Leonor cahida no pavimento. O braço nú gotejava sangue, que salpicava e fazia rego no soalho. Tomou-a nos braços, e levou-a sem sentidos ao leito. Sondou-lhe o pulso, e achou-a viva. Mandou chamar o cirurgião, que morava a um quarto de legua, e vedou-lhe o sangue com pannos adhesivados e compressas.

De repente, deram passagem a alguem os muitos visinhos, que alli chamara a gritaria da mulher do feitor, e se agrupavam á porta: era Alvaro Teixeira.

Foi direito á barra, onde Leonor arquejava, com a vista terrivel de mortal espasmo.

--Leonor! minha prima!--exclamou elle--passando-lhe a mão na fronte--Que sangue é este?!--bradou, vendo as compressas tingidas.

--É que a senhora morgada abriu a veia do braço com uma tesoura...--disse o feitor.

--A minha carruagem depressa aqui!--bradou Alvaro--Ajudem-me a transportal-a.

Tomou-a elle em todo o peso nos braços, fez entrar a mulher do feitor na carruagem, e, com o auxilio d'ella, pôde encostar Leonor ao respaldo, e, com duas cadeiras, formou-lhe apoio para o restante do corpo. Recebeu das mãos do mordomo o papel escripto com sangue, leu-o quanto as lagrimas lhe permittiam, e mandou seguir a carruagem para Lisboa, a passo.

A meio caminho, Leonor reconheceu seu primo, e estremeceu. Fitou os olhos esgazeados nas compressas, e agitou o braço direito como se tentasse arrancar o apparelho. Alvaro segurou-lhe o braço, e disse:

--Que queres fazer, minha prima?! Espera mais algum tempo... Morre, quando me não vires n'este mundo... Deixa-me viver, e vive tu, o tempo necessario para ires d'este teu inferno com a certeza de que eu te amei sempre...

Dilataram-se os labios roxos de Leonor n'um gesto que podéra chamar-se um sorriso, e murmurou:

--Um cadaver...

Alvaro tomou para o peito a cabeça, outra vez, desfallecida de Leonor, e chorou-lhe sobre a face algumas d'aquellas lagrimas, que são no coração humano, como o alimento, a seiva das ultimas esperanças.

E contemplou-a.

Nunca mais a vira desde aquella noite de Julho de 1832. D'aquelle viço esplendido, d'aquella belleza viva e irrequieta, da exuberancia de vida que lhe sahia aos olhos em faiscas e em risos expansivos aos labios, restava a pelle cortada dos ardores da febre, os ossos descarnados, o pallor da agonia, e a desfiguração inteira de todas as feições. E parecia absorvido n'aquelle atormentador enlevo! A expressão dos seus olhos não a soube dizer elle mesmo! Fôra-lhe aquella uma infernal hora de cujas sensações a alma, desmemoriada de tamanho horror, não guardou lembrança.

A carruagem parou á porta de Alvaro. Maria da Gloria e as suas criadas, chamadas pelo desvariado moço, desceram ao pateo, e ajudaram a tirar Leonor, e leval-a a um leito.

--Creio que vem morta...--disse Alvaro--e sahiu para logo voltar com dous medicos. Do exame rapido que estes fizeram, concluiram por esperanças de vida; mas vida de continuados padecimentos, disseram elles.

--A vida da alma--dizia Alvaro com assombro dos medicos--deem-lhe a vida da alma, que eu quero que ella me veja, e me julgue antes de morrer! Um corpo varado de dores, não importa; mas um espirito com a luz da razão!

E, fallando assim, erguia as mãos supplicantes aos medicos. D'estes dizia um ao outro com o frio desdem da sciencia:

--Espirito sem luz de razão creio eu que é o d'elle.

E o outro bamboando sinistramente a cabeça, dizia ao ouvido do collega que Leonor perdera em sangue o que Alvaro perdera em sizo.

Maria da Gloria, a martyr sem treguas, andava repartida entre Deus, e o filho, e Leonor. Invocava o Altissimo pedindo-lhe a vida da sobrinha, que chamava e beijava, cuidando que o halito dos seus labios lhe coavam vida; abraçava-se ao filho alvoroçado, rogando-lhe que esperasse em Deus o salvamento da prima.

Leonor descerrou os olhos quebrantados, mas serenos. Reconheceu a tia e comprimiu-lhe a mão, que sentiu na sua; fitou-os com doçura em Alvaro, e balbuciou:

--Salvam-me as tuas lagrimas, meu amigo!... Pobre Alvaro!... o que tu tens penado!...

Não se enganaram os medicos. A vida voltou lentamente a Leonor, mas jamais a saude. Afrouxaram-lhe os musculos motores de todas as articulações; generalisou-se a enervação, a atrophia, e a frialdade, excepto na cabeça, de que se ella queixava como de fogo que lhe estivesse calcinando as fontes. A isto succederam espasmos, senão antes intermittentes de paralysia em parte dos vasos sanguineos, que formam o coração. O ancear d'estas horas era angustissimo.

Maria da Gloria e Alvaro revesavam-se ao pé do seu leito. Um e outro, conversando, chamavam-lhe o espirito ás ridentes imagens d'uma esperançosa viagem que os tres fariam aos locaes mais pittorescos da Italia. Leonor agradecia-lhes, com sinceras lagrimas de remorso, o amor com que velavam os seus longos paroxismos, e dizia que a viagem a fazer era certa, e de encantadoras visões para sua virtuosa tia e primo; mas não para ella.

É bem de vêr que então a mãe de Alvaro se desentranhava em encarecimentos á misericordia divina, convidando a sobrinha a rezar com ella as orações que soror Joanna das Cinco Chagas lhe ensinára. E Leonor rezava, e com ardente fé, e muito pranto, em cujo espectaculo o coração de Maria da Grioria se embriagava de santas delicias.

Alvaro simulava jovial semblante a sua prima. Fechado, porém, no seu quarto, desafogava chorando, ou escrevendo paginas de muitissima tristeza, mixto de saudade e desespero, saudade da Leonor da sua mocidade, e desespero de não poder tornal-a á belleza de alma e de feições, perdidas para sempre. Cegueira da sua paixão! Alma, com as bellezas da innocencia, quando a teve a fatidica Leonor? Ai! a belleza das fórmas essa é que não ha olhos enxutos que a vejam fenecer de hora a hora; essa é que influe ao animo um pungimento de saudade tão vivo, que eu não sei se ha dor a igualar-se áquella saudade da perdida formosura da mulher que amamos, perdida tambem para nós, no instante em que mais fervorosa adoração lhe da vamos!...

O primeiro dia em que Leonor sahiu do leito, foi festejado não com bailes nem banquetes, mas com liberalidades de esmolas, levadas por Alvaro, de ordem de sua mãe, a muitas familias indigentes, que a denominavam anjo de beneficencia, e gloria do céo. A todos os conventos de religiosas pobres, ou empobrecidas pela mudança do regimen, enviava Maria mensalmente uma delicada dadiva, e Alvaro tinha de sua mão soccorrer alguns egressos, que corriam de noite as ruas de Lisboa, estendendo a mão á caridade indifferente d'aquelles primeiros annos rancorosos do velho odio civil.

Com o lento crescer de forças, accedeu Leonor ao empenho de Alvaro e sua tia: sahiram de Lisboa no estio, correram as provincias do norte, e visitaram Vairão, onde Cecilia, sempre saudosa da sua cella, se deixou ficar esperando a morte bemaventurada dos que a esperam ao pé do altar. Nas visinhanças de Hespanha, Maria da Gloria, desde muito valetudinaria, e então muito quebrantada, causou receios a seu filho, e retrocedeu para Lisboa. Aqui, melhorou de aspecto, e transferiu a sua residencia para a quinta do valle de Santarem.

Leonor escassamente se vigorisára para um curto passeio. Tinha semanas de soffrer e chorar, pedindo a Deus que lhe tirasse a vida. Alvaro era o consolador d'estes desconfortos, umas vezes rodeando-a de improficuas juntas de medicos, outras abalando-lhe o espirito com alegres esperanças. Perguntava-lhe se a convivencia com as suas relações lhe seria desagradavel; experimentou, apesar d'ella, chamando alguns parentes e amigos ao campo, e preenchendo as horas tristes, que lá se vivem, com o que podia inventar o seu espirito attento a minorar as amarguras da inconsolavel doente: inutil tudo, Leonor rogou a seu primo que a não obrigasse a esconder os seus soffrimentos de pessoas estranhas; que a deixasse gozar os instantes de allivio na companhia d'elle e de sua mãe.

--Se não podes dar-me vida, Alvaro--dizia ella--que vem aqui fazer esta gente, a quem o espectaculo da dor enfada?! Cuidas tu que os move a piedade d'este meu estado? Deixa de ser a candida alma, que tens sido, meu primo! Estas familias, que vieram a um teu aceno, souberam que eu vivia miseravel nos Olivaes, e encarregavam-se de exaltar a Providencia Divina, dizendo que eu estava expiando; e, como o valerem-me seria contrariar a vontade de Deus, abandonaram-me... Se me eu tivesse esvaido de sangue n'aquella casinha, onde o nosso fatal anjo te encaminhou, estes parentes, obrigados a fallarem de mim a quem lhes perguntasse a razão do seu lucto, diriam que o meu fim desastrado tinha sido o natural remate das minhas loucuras. Por que não estudaste o mundo, Alvaro? Quando te eu ralava o coração de desgostos, se tu cedesses á curiosidade interesseira do mundo que te chamava, serias a esta hora feliz!...

--Feliz!...--atalhou Alvaro, contemplando Leonor, e cuidando vêl-a formosa, como a tinha amado, quando amava e esperava.

--Feliz, sim; terias odiado, e esquecido a tua pobre Leonor... Se a visses infamada, e perdida nos mais baixos sedimentos da sociedade, passarias por ella, sem que o pejo te dissesse que era nobre estender-me a tua mão. A sociedade não ousaria dizer-te: «valha áquella mulher!» porque a sociedade, se censurasse a tua indiferença la fóra, ao pisar os tapetes das tuas escadas, subiria estudando phrases de louvor á tua probidade. E tu, meu Alvaro, louvado e querido em particular e em publico, andarias feliz e convencido de tua honra. Muita gente diria de ti: «E tão nobre que nem falla d'ella, nem dá margem a que lhe fallem. Os seus amigos, com medo de lhe ferirem o nobre coração, não se atrevem a pedir-lhe que dê as migalhas da sua toalha a Leonor.» E não eras tu assim tão venturoso, Alvaro?! De que te ha servido a tua riqueza? Poderás dizer-me que tens remediado a pobreza de muita gente, principiando por mim e acabando por essas famílias indigentes, cujas bençãos te enchem a alma de thesouros do céo. Pois sim; mas que contentamento é esse da alma, que te não transparece no rosto?! Por que te vejo eu sempre triste?! Por que não ha-de a virtude ostentar as exterioridades de jubilo, que eu muitas vezes senti, sendo tão culpada e contando tantas horas cortadas de desgostos?

Alvaro reprimiu a resposta que, repulsa dos lábios, fallou em lagrimas. Leonor tomou-lhe as mãos com estremecimento carinhoso, e disse-lhe:

--Por que é, meu querido primo? Por que te não dá Deus a felicidade que mereces?

--Dá, minha Leonor...--balbuciou o internecido moço--Dá... é a tua amisade... são as melhores lagrimas do teu coração... Que lhe tenho eu pedido? N'aquelle tempo em que eu olhava para esta época, e te via continuando a estação de felicidade que minha santa mãe me trouxera do seu carcere... n'aquelle tempo, Leonor, gozei horas de alegria celestial... Eu, sem ti, não sabia recordal-as, e nem o bem da saudade me era dado. Agora, quer Deus que a minha alma se alumie á luz dos meus dias alegres... pallida luz, como a da lampada do sacrario ao amanhecer... mas, aqui estou vendo os olhos, que me viram feliz... E tu, Leonor, o teu espirito vive e falla... O melhor de ti era o sentimento que hontem acordou... e a amisade sem os dissabores da paixão... N'aquelle tempo...

--Oh! por piedade, cala-te, Alvaro!...--atalhou Leonor, afogada de soluços...--Não me castigues tu, meu anjo de desgraça e de compaixão...

XIX

.... _Já dava no rosto a friagem da noite da eternidade; só faltava regelar de todo... e cahir._

A. F. DE CASTILHO (Fr. F. de Monte-Alverne).

Leonor, ao cabo de dous annos de padecer, difficultosamente sahia do leito. A extrema fraqueza e tremor espasmodico das pernas seguiu-se a paralysia, e a inteira inactividade. Se a tiravam do leito, transferiam-na a uma poltrona de rodas, que Alvaro com sua mão conduzia a uma varanda envidraçada, onde Leonor ficava horas embebecida nas bellezas do céo, e do valle de Santarem. Duas maravilhas então occorreram: nunca mais Leonor se lastimou da sua desgraça. E se acontecia Maria ou Alvaro olharem-na com piedade, sorria ella, e dizia:

--O espirito é feliz; e as dôres abrandaram muito, desde que metade do corpo morreu. Vejo-me meia morta, e não me aterro.

A outra maravilha foi o remoçar-se-lhe o rosto, até á formosura que ella naturalmente conservaria, com vida quieta e bonançosa, nos seus vinte e nove annos. A nutrição encheu-lhe os sulcos das faces; a pelle amaciou-se e restaurou a antiga alvura; volveram as cores purpurinas, e contornou-se o oval do rosto. Eufemia esmerava-se em toucal-a, em quanto ella, sorrindo, dizia:

--Queres por força que a morte se namore de mim!

Alvaro depunha muitas vezes o livro, com que sua prima se recreava, e extasiava-se nos olhos d'ella; mas que amargura elle escondia n'aquelles extasis!

--Vejo os teus dezoito annos, Leonor!--disse-lhe elle um dia.

--Valho hoje mais, Alvaro! Perdi meio corpo, e ganhei o coração!--respondeu ella--A primeira paralysia era a peor...

Maria da Gloria chamou uma vez o filho ao seu quarto, e disse-lhe:

--Vaes ouvir-me, sem sobresalto, meu Alvaro. Eu tenho até hoje escondido de ti o unico segredo, que devia esconder--a sensivel aproximação do meu fim.

--Que é, minha mãe?!--exclamou o filho, correndo a abraçal-a.

--Não é isso o que eu te pedi, Alvaro!... Escuta-me com socego: sê até ao meu ultimo dia o homem forte. Pedi ao meu medico que nunca te revelasse a minha molestia, depois que lhe arranquei a confissão de que ella é incuravel. Eu morro do coração. Os rebates d'esta dolorosa doença senti-os no meu primeiro anno de convento. A minha vida tem sido um milagre. Quiz Deus por intercessão das almas que me presaram, que eu chegasse até aos teus vinte e sete annos, filho. E choras como aos dez, Alvaro! e tiras-me assim as forças de que eu tanto carecia para te dizer o fim para que te chamei!...

--Diga, minha mãe... — atalhou Alvaro com simulada quietação.

--Pois, sim; socega, escuta-me, filho... Que farás tu, depois da minha morte? Em que destino tens tu pensado? Assistirás á agonia de Leonor, ou acabarás por pedir ao mundo um quinhão do contentamento qualquer que te compense da triste vida que tens vivido!? Acharás um dia uma esposa com o coração de tua mãe, ou ficarás esperando a tua hora final, depois que deres a mortalha a tua prima? E a ti quem te amortalhará, meu pobre Alvaro!?

--Hei-de eu amortalhar-me, minha mãe--respondeu elle tranquillamente após alguns instantes de concentração--Agora, rogo-lhe, por quanto amor lhe tenho, que me não faça mais perguntas.

No dia seguinte, pediu licença a sua mãe, e foi Alvaro a Lisboa. Apresentou-se ao cardeal-patriarcha, e demorou-se algumas horas em pratica secreta. Commetteu importantes encargos ao advogado de sua casa, e voltou ao valle. No caminho encontrara o medico de sua mãe, e, como quem ouvira da enferma o terrivel segredo, obteve do medico a confirmação d'uma breve morte. Era a doença um scirro no coração, já em seu periodo final.