Part 13
Os primeiros dias de sua viuvez passou-os Leonor no seu quarto, e Maria da Gloria com ella. Era de vêr os assiduos desvelos com que as familias de sua numerosa parentela aporfiavam em mitigar-lhe as penas, desde que a souberam restituida á graça da supposta millionaria Maria da Gloria. E, como fosse notorio e vulgar o amor de Alvaro a Leonor, já diziam os aruspices, atarefados em prognosticar a vida alheia, que as segundas nupcias da morgada pobre com o filho unico do banqueiro Macedo seriam espectaculo de pouca delonga e muita graça. Houveram sujeitos imaginadores de tragedias que aventaram a verosimilhança de ter sido assassinado Miguel de Sotto-Mayor por ordem de Alvaro de Macedo. A sociedade teve sempre d'estes carrascos, para assim dizer, encarregados de mostrarem do cadafalso á canalha, sedenta de escandalos, as melhores reputações a escorrerem sangue. Eufemia ouviu, uma vez, n'uma, loja de capellista esta calumnia. Chegou a chorar e espavorida ao pé da ama, repetindo o que ouvira. Maria da Gloria respondeu ás afflicções da criada com um sorriso, e estas palavras:
--Deus sabe quem matou o marido de minha sobrinha: a calumnia é que não mata a honra de ninguem.
Ficou Leonor com seu pae.
Dizer que a viuva se definhava de dia para dia, consumida de saudades do defuncto marido, seria inventar. Não seria mais exacto o dizer que a purpura da juventude lhe retingiu as faces, e que o lindo oval do rosto se recompoz. Leonor nunca mais foi bella, desde o primeiro dia que se viu desmerecida aos olhos do marido pela mesma causa que a sociedade a lançava de si:--a pobreza. Devorou-lhe a vaidade, insoffrida e furiosa na dôr, a alegria da alma, e o mesmo foi tirar-lhe ás flôres do rosto a seiva que as alindava.
Em que pensava Leonor, n'aquella sua rapida mudança de vida? Parecia não pensar. Decorridos seis mezes, sahiu a pagar visitas em Lisboa, menos a de Maria da Gloria, que lhe não dera a isso azo. Viram-na nos theatros, e nos bailes, passado um anno. Apontaram-lhe os binoculos os conquistadores da época; e, com quanto a denominassem «bellas ruinas», fosse ella menos esquiva, e teria sobeja belleza, para acorrentar os leões de S. Carlos, jaula então muito mais de aterrar que hoje.
Em que pensava Alvaro? Como scismava elle em sua prima? Amava aquella mulher, que vira cinco annos antes. Não formava idéa alguma da mulher, que era cinco annos depois. Nunca mais a vira, nem quizera ver. Desde que pessoa descuriosa lhe disse, sem proposito, que a vira, muito outra do que era, em casa da prima condessa de tal, e no theatro de S. Carlos, Alvaro deixou de frequentar o theatro, local unico onde o levava a suave tristeza da musica.
Dizia-lhe sua mãe, um dia, que Leonor se queixava a Eufemia de não ser convidada para casa de sua tia. Alvaro respondeu:
--A mãe póde recebel-a; mas avise-me com antecipação para nos não encontrarmos.
--E, todavia, meu filho--replicou a mãe--estás sempre perguntando-me se a mezada será sufficiente para o bem-estar de Leonor!...
--Que tem que ver uma cousa com outra, minha mãe!? É um pouco de dinheiro inutil, dinheiro que nunca me lembrou quando eu pensava em ser feliz com Leonor. Se o dinheiro não entrava por nada nas minhas contas, signal é de que não representa algum affecto de coração a minha prima.
--E se ella se despenhasse em novo precipicio? Se casasse com um homem que a expozesse a novas miserias?
--Dando-me minha mãe licença, continuaria a soccorrel-a, e a luctar contra a estrella fatal d'aquella infeliz.
--E crês tu na fatalidade, filho?...
--Creio, minha mãe.
--E a virtude que fica sendo?
--A fatalidade do bem.
--Não achas mais racional submetter á Providencia Divina, e á deducção dos actos humanos o que tu chamas fatalidade?!
--Eu--disse Alvaro com profunda amargura--não sei o que é melhor, nem mais racional, minha mãe... Se quer que eu lhe diga o que sinto... o melhor é... não viver; o bem supremo da vida é esquecêl-a. O que é a embriaguez no homem de espirito que conhece o travo da peçonha que bebe? O que é o suicidio, senão a passagem para o esquecimento?
--Deves ter soffrido muito, meu filho, porque te vejo sem religião?...
--Não tenho a religião que ora, tenho a que perdôa, e se amisera de amigos e inimigos. Minha virtuosa mãe tem esta, e a da oração. Deus me será bom e piedoso pelos merecimentos de minha mãe...
Este dialogo foi interrompido por um recado de uma senhora que desejava fallar a Alvaro.
--A mim!?...--disse elle, admirado--e foi á sala onde o esperava a senhora.
Viu elle uma dama trajada de preto, com semblante de quarenta annos amargurados, e um complexo de adornos, que denotavam pobreza.
--Não a conheço, minha senhora--disse Alvaro.
--De certo, não. Eu sou a mãe de dous filhos de seu pae--respondeu ella em italiano--sou a desgraçada que acompanhou seu pae do theatro de Milão para Lisboa ha dezeseis annos. Vi o snr. Alvaro criancinha ao peito de sua ama, e torno a vêl-o homem com a reputação igual á das virtudes de sua nobre mãe.
A italiana enxugava as lagrimas.
--Queira continuar--disse Alvaro.
--Quando seu pae me abandonou ao meu funesto destino, tinha eu dous filhos, dos quaes elle quiz senhorear-se; eu, porém, sobre ser infeliz, era caprichosa, e não sei mesmo se boa mãe: não lhe dei os filhos. Em quanto a belleza me inflorava o vicio, aturdi-me nas pompas, e nos delirios d'uma brilhante ignominia; mas não olvidei a educação dos meus pobres filhos: sustentei-os n'um collegio, até 1832, época em que eu envelheci, e de repente cahi dos ouropeis da minha opulencia ao charco da miseria. Tirei do collegio os meus filhos: o mais velho era um demonio, o outro um anjo. O anjo levou-m'o Deus um anno depois, quasi fulminado pela colera-morbus; o outro ficou ao pé de mim como instrumento nas mãos da Providencia para minha expiação. Meu filho pedia-me contas do luxo, que vira em minha casa, quando criança: eu não podia responder-lhe. Quiz eu forçal-o a respeitar-me, e elle reagiu com ameaças á minha severidade. Um dia desamparou a minha casa, roubando-me as poucas alfaias de algum valor, que eu guardava para não ir tratar-me na ultima doença a um hospital. Passados dias, soube que elle estava no Limoeiro, preso por furto. Desfiz-me de quanto tinha para as primeiras necessidades do meu uso, e consegui restituir o furto ao dono, e a liberdade a meu filho. Fui, depois, lançar-me aos pés d'um homem, que me conhecera em tempos felizes... _felizes!_... que falsa apreciação!... Pedi uma qualquer occupação para meu filho, e alcancei empregar-se na alfandega, em lugar de bastante responsabilidade. O desgraçado parecia regenerar-se; não houve queixa d'elle em dous annos; eu julgava-me bemquista da sorte, e contava com o pão da velhice. Ha oito mezes que um grande roubo se descobriu na alfandega, e meu filho é convencido de ladrão de grandes valores, valores que elle perdeu no jogo e dissipou na libertinagem. Ha quinze dias que o filho de seu pae, senhor Alvaro, foi condemnado á grilheta por toda a vida.
A italiana esperou que os soluços a desafogassem, e continuou:
--Eu não venho pedir ao generoso filho do pae do condemnado que o salve, pagando o roubo, que sobe a muitos contos de reis. O que venho de mãos erguidas supplicar é que vossa excellencia empregue o valimento dos seus amigos para que a pena seja commutada em degredo perpetuo, sem o ferro aos pés, que assim o pede o desgraçado.
Alvaro ergueu'a mulher, que ajoelhara, e disse-lhe:
--O nome de seu filho?
--É Julio de Macedo.
--Farei o que poder. Vá a senhora dizer-lhe que espera alguma cousa dos meus esforços.
A italiana fez menção de ajoelhar outra vez, desconfiada da frieza d'aquellas palavras: impediu-a Alvaro, e seguiu-a até ao topo da escada.
Maria da Gloria, mais por amor de mãe que por curiosidade de mulher, tinha ouvido tudo. Sahiu, como desapercebida ao encontro de Alvaro, e disse-lhe risonha:
--Com que então as damas de Lisboa vem assim á hora do dia procurar-te em casa!? Queira Deus que me não raptem o meu Alvaro!...
Sorriu-se o moço, e ficou pensativo, cogitando no modo como fallaria a sua mãe.
--Em que pensas, filho!?--tornou ella rindo em gargalhada--Estás ainda arrobado na visão da deidade, que te veio roubar o socego?!... Diz o que sentes, Alvaro!
--Logo, minha mãe, logo...--respondeu Alvaro, cada vez mais enleado.
--E por que não ha-de ser já?!--redarguiu Maria da Gloria com gravidade--Estarás tu espantado, ou envergonhado de saber que uma boa arvore produziu fructos tão maus!?
Alvaro encarou com assombro em sia mãe, e tartamudeou alguns monossyllabos.
--São aberrações--proseguiu ella--Não lhe ouviste dizer á pobre mulher que o mais novo era um anjo? Ahi tens... Foi como as arvores que dão aromas e veneno... Não tens porque scismar, meu Alvaro. Faz a tua vontade completa e generosa como eu a adivinho. Tens authorisação minha para levantares o dinheiro que quizeres. O teu fausto, segundo vejo, é a caridade obscura: pois bem, goza plenamente as regalias que a fortuna te dá.
Alvaro Teixeira foi encarregar o advogado de sua casa de solicitar o perdão do condemnado a preço da quantia em que fôra avaliado o roubo. O solicitador desanimou quando lhe disseram o avultado da quantia. Alvaro, porém, authorisou-o a advogar o livramento, por todo o preço. Julio de Macedo foi um dia chamado para receber o alvará de soltura, e appareceu em casa de sua mãe, quando esta, esperançada nas promessas de Alvaro, desfazia os ultimos lençoes para fazer camisas, que seu filho levasse para Africa. O perdoado não sabia dizer como fora livre; a mãe, desvariada de alegria, não atinava a contar ao filho o modo como o salvara. N'este lance, appareceu Alvaro, e recebeu nos braços a italiana, e o filho de seu pae, a quem chamou irmão.
O filho da italiana não conhecia o filho de seu pae. Balbuciava palavras de gratidão, tão envergonhado do crime, como assombrado d'uma virtude em que não acreditava. Alvaro atalhou assim as exclamações da antiga locataria do palacio de Belem:
--Seu filho inutilmente pediria hoje um emprego. A senhora não póde contar com os meios d'elle para a sua sustentação. Meu pae, como a senhora sabe, tinha uma propriedade nos arrabaldes de Napoles, que eu conservo ainda, da qual, com o consentimento de minha mãe, lhe faço doação. Acho acertado que a senhora e seu filho vão lá viver, e levem as lições da desgraça para a conservarem.
D'um mesmo impulso, mãe e filho se lançaram aos pés de Alvaro, com exclamações e lagrimas.
--As lagrimas são um segundo baptismo em alguns olhos--disse Alvaro--Permitta Deus que o filho de meu pae se regenere com as que lhe vejo no rosto.
D. Maria da Gloria firmou a doação, e a milaneza com seu filho, partiram para Italia. Vinte e dous annos depois, me disse aquelle santo dos Olivaes que a antiga actriz morrera velha e feliz; que Julio de Macedo conservava ainda a quinta, e honrava uma alta patente no exercito da Sardenha. Perguntando-lhe eu quanto lhe custou a regeneração d'aquelle homem e a velhice venturosa da amante de seu pae, elle me respondeu:
--A fortuna de duas familias independentes.
XVII
_Un groupe de Dalila et de Sanson avec celui de la farouche Judith serait toute la femme expliquée._
BALZAC.
Tinham decorrido dous annos depois da viuvez de Leonor. Na correnteza d'este espaço e quasi no termo d'elle, falleceu Sebastião de Brito, legando simplesmente alguns rolos de pergaminhos e a memoria dos seus desvarios senis. De paixão d'alma diziam os facetos que elle tinha acabado; mais serias averiguações, porém, dão que o homem succumbiu a uma febre gastrica, procedente de uma cêa no Farrobo, em casa do hospedeiro e luxuoso conde d'aquelle titulo. Não devem esquecer alguns desastrados successos pertinentes a esta época, e vem a ser que o fidalgo de Porto-Alvo morreu envenenado, consoante a fama dizia; e que sua sobrinha passou a segundas nupcias com um primo de Alemquer, e vivia ainda honrada e feliz em 1859. Achei tambem nota de que a criada, confidente da morgada, dias depois do assassinio de Miguel de Sotto-Mayor viera á margem direita do Tejo, cuspida por uma onda, e com claros vestigios de ter sido estrangulada. E de presumir que o fidalgo atirasse ao Tejo com a unica testemunha do seu crime. Se o boato da peçonha é exacto, não será peccado dizer que a casa do Porto-Alvo, não desfazendo no seu brazão, encerrava uma tribu de scelerados.
Leonor, não podendo com a soledade dos Olivaes, pediu a sua tia licença para viver em Lisboa. Maria da Gloria hesitava em conceder lh'a; mas Alvaro achou rasoavel o pedido, e desculpou a solicitação de sua prima.
Transferiu-se para Lisboa a viuva e com ella o seu trem. Tomou um palacete em Buenos-Ayres, e abriu os seus salões a uma partida semanal de parentes e amigos intimos. Estes chapados «amigos intimos» são ás vezes os inimigos de fóra. Taes foram os que vulgaram o cortejo da viuva a um moço sem nascimento nem posição, homem de letras em disponibilidade, insinuando-se, a titulo de genio, entre as pessoas, tambem de genio tão benevolo e tolerante que o recebiam.
Soube Maria da Gloria as atoardas que corriam á conta de sua sobrinha, e communicou-as a Alvaro.
--Pois a mãe que esperava!?--disse este--Leonor teve treguas de dous annos. A fatalidade refez-se de vigor, e volta á lucta.
--E qual achas tu que é o nosso dever?
--Luctar a favor da mais fraca. Aconselhe-a, minha mãe; e, se não podér nada com ella, ampare-a como até aqui.
--E se eu lhe retirasse os meios--replicou Maria da Gloria--crês tu que o segundo calculista a não deixaria em paz?
--Deixaria: mas Leonor desceria na escala social até achar um indigente como ella.
--Á vista d'isso, filho, julgas incurável tua prima!?
--Julgo, mãe.
Foi Maria da Gloria a Buenos-Ayres, em hora de não receiar concorrencia, e poz logo o dedo na chaga.
--O teu mau anjo não te deixa, Leonor?
--Porque falla assim, minha tia?
--Dizem-me que estás á beira d'um segundo abysmo. São falladas as tuas intelligencias com um homem, que offerece menos condições de felicidade que o primeiro. Como tens tu coração para o amor, filha? Por que não quer Deus que chegue para ti a hora da reflexão? Como pagas tu o que deves a ti, á sociedade, e a mim? Levanta-te d'essa miseria, Leonor! Recobra a tua dignidade enxovalhada! Lembra-te das lagrimas, que choraste nos braços de Eufemia! Medita um pouco no nobre coração de meu filho, cuja alegria mataste, e envergonha-te dos novos ultrajes que preparas áquelle anjo, que te protege!
Leonor sahiu d'uma reconcentração de minutos para beijar a mão de sua tia, soltando estas palavras:
--Agradeço a esmola a minha tia, e a meu primo a philantropia. Agora fallarei, se me dá licença. Meu primo tem-me beneficiado: eu bem sabia que elle não era estranho á esmola que tenho recebido; mas quizera antes a certeza de que esta beneficencia pertencia exclusivamente a vossa excellencia. Meu primo tem-me favorecido para me humilhar.
--Explica-te, Leonor...--atalhou Maria da Gloria estarrecida de espanto.
--Eu vou explicar-me, minha tia. Se Alvaro olhasse com piedosa vista para os meus infortunios, aliás respeitaveis por serem do coração, teria apparecido a meu lado, não como o amante despeitado, mas como o parente, que sacrifica os caprichos do coração ao dever misericordioso de rehabilitar moralmente uma mulher. Fui muito desgraçada, e era-o mais por entender que meu primo se regosijava a cada escaleira, que me via descer para a miseria, na esperança d'elle ahi descer com alguns punhados de ouro a fartar-se de vingança. Quando minha tia me enviou a sua criada com a primeira esmola, cuidei que mais tarde acharia nos meus parentes proximos a esmola de consideração, que mais necessaria me era. Passaram mezes, e o vilipendio do ouro vinha regularmente ás mesmas horas, e no mesmo dia; mas uma palavra de amor, o pão do espirito, essa nunca. Eu aceitava o ouro porque tinha um marido que me culpava da minha pobreza; porque tinha um pae que me regalára a mocidade com magnificencias superiores ás suas posses; porque tinha um nome que as sombras do infortunio empanavam, como se a arvore de tronco illustre se atascasse no lodaçal da pobreza; porque tivera uma educação com que a penuria se não conformava; porque, finalmente, humilhada por parentes, começava a sentir-me despresivel aos meus proprios olhos. Depois de viuva, permaneci dous annos nas austeridades que raros exemplos me tinham ensinado. Contrafiz a minha indole para bem merecer a estima de Alvaro; esperei que elle fosse á minha soledade santificar a esmola com uma palavra de irmão. Se elle ahi tivesse ido, eu curvaria a cabeça diante do heroe, e pedir-lhe-ia licença para beijar a terra honrada pelas suas botas. Vim para Lisboa, depois de dous annos de humilhação; e pedi licença a minha tia, porque receei que meu primo, não saciado ainda da desforra, contrariasse a minha vontade, e me reduzisse a voltar ao ermo dos Olivaes por não ter com que comprar a vida luxuosa de Lisboa. Quer minha tia saber como eu denomino este acto de desesperação? É uma cousa que modernamente chamam «cynismo»; é aquillo que eu já disse--o despreso de mim propria. Agora vamos ao ponto da sua inesperada visita. E certo que eu amo um homem, que nasceu não sei de que mulher, e tem tanto a dizer-me das suas qualidades pessoaes que nunca fallou das qualidades dos seus avós. É pobre como eu. Não pede a ninguem o pão de cada dia; lavra-o com a sua intelligencia. E creia, minha tia, que elle acha quem lhe dê por duas horas de trabalho o que me não dariam a mim pelas pedras de armas da quinta que meu pae desbaratou. Este homem pobre é quem convém á mulher nas minhas circumstancias. Eu hoje comprehendo melhor as privações com um amigo do que as pompas na solidão. Tenho vinte e sete annos. E cedo para o claustro, e é tarde para esperar, no recato de donzella, que algum singular amante da Thebaida me vá procurar na minha obscuridade. Se minha tia me vem dizer que retira a sua esmola, beijo-lhe as mãos pelo que lhe devo, e beijaria as de meu primo tambem pela sua philantropia. Ámanhã voltarei para os Olivaes. É verdade que os bens que possuo estão hypothecados a uma antiga divida de meu pae a meu tio Manoel, e vossa excellencia póde mandal-os tomar como seus. Não importa. Está lá uma casinha, que eu mandei fazer para uma velha criada de minha avó. A velha morreu ha pouco, e testou-me a casinha, que os credores de certo não querem; irei lá viver.
Calou-se Leonor.
Maria da Gloria, já em pé, olhou com muita amargura a sobrinha, e disse:
--Foste injusta, Leonor. Devem até os anjos compadecer-se da alma injuriada de meu filho. Não te castigue Deus, que eu, em nome de Alvaro, te perdôo. Cumpre o teu destino, desgraçada; e, quando o remorso te perseguir no extremo refugio do que tu chamas «cynismo», foge para mim que eu te abrirei os braços.
Leonor não ergueu os olhos das alcatifas: era de soberba, e não de abatida, que ella desfitara a vista do magestoso aspecto de sua tia.
Sahiu Maria da Gloria, e não teve que dizer ao filho. Interrogada por elle, escassamente referia alguns dos queixumes de Leonor, como a necessidade d'um amigo, a negação para a vida solitaria, o cançasso do sofrimento, e a sympathia que a ligava ao homem, com quem desejava casar-se.
Alvaro apparentou natural placidez, e, n'outro ensejo em que fallavam sobre o mesmo motivo, disse:
--Esse homem julgará rica a prima Leonor?
--Cuido que não: elle deve saber que Leonor vive da beneficencia dos seus parentes.
--Hei-de sabel-o com certeza. Se o homem a ama pobre, e não conta com o beneplacito nem com os recursos dos parentes para o casamento, é um nobre caracter. Estou que a belleza de Leonor não fascina alguem...
--Como has-de tu sabel-o, filho. Conheces por ventura o homem?
--Conheço-lhe os escriptos, e recordo-me vagamente de o ter visto no collegio, nos meus ultimos tempos.
Foi Alvaro ao collegio, e fallou largo tempo com o seu antigo amigo, professor de inglez. Dias depois, procurou-o o mestre, e respondeu assim ao encargo, que recebera:
--Fallei com o jornalista. Aquillo é uma alma lavada como pedras de amolar! Apenas lhe toquei no assumpto, accendeu o cachimbo, cobriu as pernas com as abas do chambre de sêda desbotada, e refestelou-se na poltrona velha como um turco, para me dizer o seguinte: «Não ha duvida que eu namoro a viuva, primeiro porque é romantica, segundo porque é romantica, terceiro porque é romantica.»
--E porque é rica--atalhei eu.
--Ah! sim! e porque é rica: então é por quatro razões, e não por tres. Acho eu que vem a ser quatro as razões...
--Não, senhor, são simplesmente tres, porque a quarta é uma sem-razão. D. Leonor é pobre.
--Pobre! ora essa! conte-me isso, meu bom amigo!
Disse-lhe eu que a viuva vivia da beneficencia dos seus parentes, e que os parentes da viuva não estendiam a sua caridade até aos maridos inconvenientes das suas parentas necessitadas.
--Mas aquelle palacete dos Olivaes, que eu hontem fui vêr--redarguiu elle--e aquell'outro de ruinas tão poeticas; e aquellas duas quintas que se espreguiçam na margem do aurifero Tejo... que me diz o senhor a isto?
--Digo-lhe que os palacetes e as quintas não são mais da viuva que meus. Tudo aquillo está hypothecado, penhorado, consumido, &c., &c. Mas--conclui eu--as tres razões, que o meu nobre amigo expendeu, prevalecem, apesar de tudo. A viuva Sotto-Mayor é sem questão tres vezes romantica.
--Diz muito bem--acudiu elle:--o casamento ha-de fazer-se, quando eu for tres vezes romantico; mas, por em quanto, bem vê o meu caro mestre e amigo que eu laboro na prosa villôa do artigo de fundo.
--Quer dizer...
--Que hei-de abrir o meu coração á viuva, e a minha bolsa mesmo, se ella quizer. Se me não engano, a viuva é litterata, e sabe da seita philosophica, que tinha, como eu tenho, horror ao vacuo. Resta-me agradecer-lhe as tão espontaneas como miudas informações, e aqui estou ás ordens.
--Aqui tem o senhor Alvaro--continuou o professor de inglez--o que passei com o litterato Mascarenhas. Agora, peço perdão da liberdade com que expuz fielmente o texto da nossa conversação.
Alvaro, tendo contado a sua mãe o picaresco dialogo do litterato e do mestre de inglez, disse:
--Agora, minha mãe, esperemos. Não estão muito no meu genio estas encobertas operações; mas a intenção é salvar Leonor.
Mascarenhas foi á partida da viuva, como costumava. Nunca tão amorosa e manifestamente se revelara Leonor, a elle e aos hospedes maravilhados. Ao despedir-se do escriptor, disse-lhe ella:
--Extremamente desejo fallar-lhe ámanhã depois do meio dia. O cavalheiro de certo não falta.
--Oh! minha senhora!... quem quer faltar á sua propria dignidade!?
--E por que não diz «ao seu proprio coração...»?--retorquiu ella com despeitado sorriso.
--O coração, minha senhora, é tão de vossa excellencia, que não se atreve a entrar nos juizos do espirito...
Leonor achou conceituosa a razão alambicada do litterato, e esperou anciosa o dia seguinte.
--Vou responder--disse ella--cathegoricamente ás suas cartas. O pensamento reservado de todas ellas é uma ligação, que faça respeitavel e sagrada a paixão que o meu amigo encarece nas suas cartas, não é assim?
--Com que outro intento podia eu dirigir-me a vossa excellencia?!
--Bem! Resolvido está por tanto a ser meu marido?... Não lhe cause estranheza o estilo secco e desornado da pergunta... assim é preciso.