Part 11
--Seja assim, filho!--disse Maria com desafogo e alegria--seja assim, converte em sentimentos de bom irmão esse amor, cuja profundeza tu não sabes sondar ainda... Ainda mais te cede a tua boa mãe... Escuta, meu querido Alvaro... Fazes-me a vontade?... Olha... estuda dous annos o caracter de Leonor, espera-lhe o desenvolvimento que ella ha-de ter n'este praso; e, se, decorridos dous annos, a vires igual, toda absorvida na esperança de ser tua, e tão amante como virtuosa, dá-m'a como filha, e eu do amor que te tenho farei um segundo coração para lhe dar a ella.
Desanuviou-se por momentos a fronte do moço; mas a tempestade lá estava na alma. A carta da commendadeira estava ainda alli sobre a banca, e contra a exactidão d'aquella historia é que o praso do estudo não podia prevalecer.
Coincidiu com estes successos a vinda do morgado dos Olivaes, a convidar seu sobrinho para festejar os vinte annos de Leonor. Não trocaram palavra resabiada de despeito, nem o semblante de Maria denotou differença.
Alvaro é que notou magreza e pallidez no rosto da prima. A natureza tem ás vezes a caprichosa benevolencia de entrar n'estas comedias humanas. Duas noites mal dormidas, um defluxo, uma dispepsia, sombream o aspecto das cores morbidas de uma certa tristeza, que fica bem. Pode ser, e de certo é, não ter parte o espirito nas contingencias do ar atmospherico, da insomnia, e do alimento indigesto; mas a critica de poetas, e amantes, mesmo sem poesia, é tão phantasiosa, que quer ver, nas desfigurações do rosto macerado, o desfibrar-se o coração a si mesmo com as presas da sua propria paixão.
Se aos trinta e aos quarenta annos ha muita gente que se prende ao visco d'esta armadilha, que fariam os dezoito annos de Alvaro Teixeira? Sinceramente acreditou que sua prima padecia as dores do arrependimento e as do amor sem esperança. Se, porém, ia no exordio d'uma falla carinhosa, assalteavam-lhe a lembrança as palavras d'aquella carta da commendadeira, e o coração retrahia-se-lhe sobre si, como se o sangue congelasse subito.
Estavam sósinhos na janella de uma saleta. Leonor apoiara a testa na mão e o braço no peitoril. Alvaro tinha os olhos no céo estrellado, e ouvidos e coração banhados das ondas de harmonia que vinham das salas.
--Por que me não amas tu?!--disse Leonor encarando repentinamente no primo.
--Que fizeste tu no convento das commendadeiras, Leonor?--respondeu serenamente Alvaro.
--Expiei um desvario do espirito em que o coração não tinha parte alguma; obedeci á fatalidade, e abrandei-a com as agonias que padeci. Purifiquei a minha alma das manchas que me deixou a indiscreta educação que me deram. Paguei amargamente a culpa de perder minha mãe aos treze annos. Aqui tens o que fiz no convento das commendadeiras, Alvaro. Quando alguma mulher virtuosa te fizer semelhante pergunta, responde-lhe pela minha bôca.
Retirava-se; mas Alvaro susteve-a, e disse-lhe com muita ternura:
--Tu não amavas aquelle homem, Leonor?
--Não o amava; via n'elle a minha desgraça; obedecia-lhe á fascinação; sentia de antemão o prazer de me sentir despedaçar na queda ao meu abysmo. Poupa-me, Alvaro; não festejes assim os meus annos. Tenho vinte; e, se podesses vêr a minha alma, tão extenuada, tão envelhecida, chorarias, e dirias ás _virtuosas_ do convento que o seu rir das minhas loucuras era como atirar lama ao rosto de quem chora... Vamos para a sala, que é tempo.
Alvaro ficou n'aquella janella com os olhos sempre fitos na mesma estrella. Era alli que elle a via e ouvia, vinte e nove annos depois, áquella janella, quando o eu contemplava na outra das ruinas. Era alli!... que tristeza para quem tiver de Deus ou da desgraça o condão de compadecer-se nas dores alheias!
«Não serão precisos dous annos para te estudar o lento supplicio da tua purificação, minha pobre Leonor!» Isto dizia Alvaro em si, quando Sebastião de Brito o chamou para pedir á inflexivel Leonor que dançasse um minuete da corte. Alvaro pediu, e foi obedecido com um ar de victima contente do seu martyrio. Depois dos applausos, sentou-se junto á prima, e disse-lhe:
--Amas minha mãe, Leonor?
--Affiz-me a julgai-a tambem minha: queria poder... e cuidei que devia chamar-lhe mãe.
--Has-de chamar, Leonor... Por que não vaes vêl-a?! por que lhe não contas esses desgraçados desvarios, que se deram durante a nossa ausencia?!
--Quiz contar-lh'os, antes que a sociedade lh'os dissesse; mas a minha confissão devia ser do coração, e esse não tinha que confessar, e, se tivesse, só a ti se confessaria. Além de que, tua mãe deve ter vaidade da sua virtude soffredora, e seria intolerante commigo.
--A mãe não tem vaidade da sua virtude, prima!--redarguiu mansamente Alvaro--Eu queria que te ella amasse como a mim, e sei que tu o conseguirás, se quizeres. Vai ámanhã vêr-nos, conversa muito com ella, e não te molestes, se a vires menos risonha que de seu costume, não?
--Irei lá ámanhã; mas não me peças o supplicio de relatar extravagancias, que me envergonham. Sei que tua mãe m'as perdoaria aos meus annos; sei-o porque ella é boa, e padeceu. Os felizes é que não perdoam nem sabem os amargos descontos da leviandade... E de mais...--continuou ella passando da brandura á irritação--Que crime foi o meu? Em que perdi? que desaire pratiquei de que deva envergonhar-se meu futuro marido, ou minha futura sogra?
Alvaro ia responder, quando viu o rosto inflammado e o olhar sinistro de sua prima. Era o natural colerico de Leonor superando os empeços do artificio, e mostrando-se em toda a sua deformidade e nudez. A menina estorcia-se na cadeira, o arquejava de modo que lhe rangiam os espartilhos. Este accesso durou minutos, e tamanha força teve com ella que a obrigou a ir raivar sósinha no seu quarto, em quanto Alvaro, procurando o tio lhe dizia que a prima Leonor sahira de ao pé d'elle incommodada.
Voltou já outra, depois de meia hora, e explicou o accidente com dores de peito causadas pela compressão do collete.
Alvaro contou na manhã do dia seguinte estes acontecimentos a sua mãe, sobre o que dizia respeito a ella, e o conflicto do collete.
Maria da Gloria respondeu a tudo n'estes termos breves e sêccos:
--Muito bem, meu filho. Principiaste os teus estudos: continua-os. Tens dous annos, e vagar para estudal-a.
Decorreram oito mezes, sem, que Alvaro descobrisse sensiveis desigualdades no amor de sua prima. Se a encontrava triste, a si se dava conta d'aquella tristeza, attribuindo-a ao fastio de esperar na incerteza. Se lhe ella respondia com enfado agora, a arte corrigia logo as sabidas inconvenientes da natureza; e os reparos do moço desvaneciam-se. N'este longo intervallo, Sebastião de Brito fallou á cunhada na realisação do casamento, e esta decidiu-se pela vontade de seu filho: tão segura estava da palavra d'elle. O morgado, porém, infatigavel em desbaratar a casa, e forçado não tanto pelos credores como pela vocação do desperdicio, pediu dinheiro avultado á viuva, e obteve-o. Este resultado esfriou a actividade do morgado, e comprazeu a Leonor.
Em Março de 1832, foi Maria da Gloria com seu filho e Leonor a Vairão visitar algumas das suas amigas que ainda viviam, orar de joelhos sobre a sepultura de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor, e apresentar á prelada um aviso regio que concedia a Cecilia viver fora do mosteiro por tempo indeterminado na convivencia de Maria da Gloria.
Uma freira de Villa do Conde, amiga da familia Sotto-Mayor, fallando de poetas, disse que Miguel tinha escripto aos parentes, da ilha Terceira, d'onde o duque de Bragança brevemente sahiria com uma expedição para desembarcar em Portugal. Alvaro, durante a narrativa, não desfitou os olhos de Leonor, e viu-a muito attenta e excitada com a noticia. Interrogou-a particularmente, e recebeu como explicação uma casquinada de riso, com que o seu coração, absurdo como todos, se deu por satisfeito.
De volta de Vairão, dous mezes depois, Leonor e Alvaro subiram á collina dos arvoredos dos Olivaes, onde estão aquelles escabellos de pedra musgosa em que me eu sentei com o padre em 1859. Levava Alvaro um álamo para plantar, e, segundo elle, essa arvore era o symbolo da alliança eterna. Mal escolhida arvore, cuja folhagem tão movediça é! N'outro já mais entroncado talhou elle as duas letras: _L. A._ e dos sarmentos da arvore fez duas grinaldas com arte entretecidas, e as deixou pendentes dos braços tenros da arvore.
Finda esta bucolica, Leonor olhou para o interior de sua consciencia e coração. Chorou, e disse:
--Quem me déra ser feliz, meu Deus!
Nunca da consciencia e coração de mulher sahiu tão sincero grito! Se ha fatalidade, era aquelle presentimento da desgraça que lhe fazia tomar como escarneo e mentira o que para Alvaro estava sendo sacratissima poesia, pacto do coração confirmado por Deus, e uma festa de anjos celebrada com a innocencia da mais santa fé e esperança.
--Pois não és tu feliz, Leonor!?--exclamou o apaixonado moço, apertando ao seio a incomprehensivel mulher.
--Sou feliz, sou, primo... Tenho momentos de louca, de perdida... Nem sei o que quero, nem o que digo!... Talvez que o mais acertado fosse desejar a morte...
--A morte!...--atalhou com espanto Alvaro--E eu a amar-te tanto, e a não pensar senão na vida, na felicidade d'este mundo, em que eu creio como nas palavras de minha mãe...
Leonor não replicou: tomou-lhe o braço, e desceu para o palacete, onde os esperavam Maria da Gloria e Cecilia.
Quando, alta noite, Alvaro ia contando na carruagem a mysteriosa scena do bosque, Maria sahiu d'um recolhimento profundo, e disse:
--Já lá vão dezenove mezes de estudo, e parece que não estudastes ainda nada, meu pobre filho!... Espero que a Providencia te abra os olhos... Foi o que eu pedi á alma da santa de Vairão, e descancei na efficacia da supplica. Has-de vêr Leonor como eu te vejo a ti Alvaro.
XIII
«_Adeus!»... palavra fatal!_
BYRON (O Corsario).
Um mez ao certo, depois da plantação do alamo symbolico de eterna alliança, e do entalhe das iniciaes, desembarcou no Mindelo a annunciada expedição do duque de Bragança. Miguel de Sotto-Mayor era um dos sete mil e quinhentos, e soubera validar-se em intelligencia e linhagem para occupar entre os homens de porte uma apreciação distincta, sendo que o facto do exilio por amor á legitimidade, depois dos carceres de S. Julião, lhe bastaria a merecel-a.
Sabia Sotto-Mayor que as suas cartas, enviadas do estrangeiro, nunca chegariam ás mãos de Leonor, se as escrevesse. Apenas saltou em Portugal, aproveitou a desordem dos espiritos, e expediu aos Olivaes um caminheiro sagaz com carta a Leonor, prevenindo-a da sua chegada, caso ella estivesse fóra do convento. O enviado devia aventurar-se a entrar em Lisboa, e levar-lhe a nova ás commendadeiras. O habil confidente pernoitou na propria casa de Leonor, disse aos criados que vira desembarcar o exercito, e conseguiu entrar á presença do morgado e de sua filha. Em quanto aquelle, praguejando contra malhados e agourando-lhes derrota inteira em quinze dias, passeava na sala gesticulando, o hospede, que o applaudia, deixou cahir no regaço de Leonor a carta, e pronunciou subtilmente a palavra _Sotto-Mayor._
A sobresaltada menina sahiu da sala, e leu a longa carta com arrebatada alegria e convulsões de louca.
Miguel, exhaurida a linguagem maviosa do amor, fallava da sua esperançosa posição e dos grandes destinos a que o chamavam os seus talentos. Se não era modesto, seria injusto acoimal-o de visionario. Capacidades somenos o igualavam no immoderado das ambições, e lograram realisal-as muito além do escopo em que punham o fito. Dizia, porém; elle que renunciava á gloria, se Leonor a não quinhoasse com elle, e que poria o peito ás primeiras balas dos inimigos, se a encontrasse infiel aos juramentos.
Respondeu Leonor contando-lhe mentidamente o assedio em que seu coração tinha gemido até aquella hora. Louvava-se da sua constancia, attribuindo-a mais á dôce fatalidade que os aproximava, do que ás debeis forças de mulher. Pedia-lhe que a salvasse sem demora dos últimos assaltos do amor do primo e da ambição do pae. Sujeitava-se a fugir para o Porto, com qualquer pessoa da confiança de Sotto-Mayor, e ser sua esposa lá, como da alma o era desde a primeira vez que o vira.
O portador da nova, sem o menor empeço, entrou no Porto, e sahiu dias depois a nova commissão para os Olivaes, onde a anciedade de Leonor alongava as horas interminaveis. A resposta correspondeu á ancia. Na sahida da aldêa estavam as cavalgaduras, tomadas em povoação fóra da estrada real, e o confidente, espiando hora propicia, entregara a carta, e planeara o momento da fuga.
Era no ultimo dia de Julho d'aquelle anno de 1832.
Alvaro Teixeira e sua mãe sahiram de Lisboa n'uma tarde de muita calma, e foram gozar a fresca da noite nos Olivaes, com o intento de levarem Leonor, no dia seguinte, ao valle de Santarem, onde a viuva tinha um casal, que não via desde que fora enclausurada.
A inesperada visita conturbou Leonor. Era aquella a noite da fuga, e o morgado, se a cunhada não viesse, iria para Lisboa, curioso de saber se os rebeldes tinham sido espingardeados no Porto. Como, porém, Alvaro dissesse que se movia o exercito em direcção á cidade heroica, Sebastião de Brito esfregou as mãos, e disse que os malhados áquella hora de certo já tinham embarcado para salvarem as orelhas. Leonor intimidou-se, mas o seu brilhante futuro não lh'o empanou sequer uma sombra de desistencia.
Ás onze horas, disse-lhe Alvaro:
--Vamos ao lago, Leonor? Vejo-o d'aqui tão lindo e prateado pela lua!...
--Vamos--respondeu ella após curta hesitação.
E Alvaro replicou:
--Parece que não vaes de vontade!
--Vou; mas deixa-me ir buscar um chale, que estou levemente constipada.
--Então não vamos, não, minha prima... Eu não sabia...
--Havemos de ir...--tornou ella--Espera um pouco...
Foram. A superficie do lago estava em verdade encantadora. A bacia era franjada de festões curvados e espelhados na agua morta e limpida. Entre os arbustos relampejavam os vaga-lumes, e á flôr da agua saltitavam uns insectos cujas azas reluziam douradas pelo luar. A espaços, resaltavam os escallos á tona, e abriam muitos circulos e em cada circulo uma zona de prata.
--É dizem que não ha felicidade n'este mundo?...--murmurou Alvaro, tomando nas suas as mãos de Leonor--Que é isto que eu sinto, e tu deves sentir agora!...
Leonor não respondeu, e Alvaro proseguiu:
--Estás em extasis diante d'este formoso quadro, prima? Tens razão! Tudo isto diz melhor o que sentimos do que a pobre linguagem do homem...
--Isto é bello!...--disse Leonor machinalmente, e ouviu, ou não ouviu o amor eloquente de Alvaro, que n'aquella noite fora mais que nunca eloquente; e amante.
Soaram os tres quartos depois das onze.
--Ó primo, disse Leonor inquieta, vaes tu buscar-me a minha capa de capuz?
--Vou; mas tens frio?
--Receio têl-o e não quero sahir d'aqui...
--É melhor irmos, vamos, prima...
--Não vamos: vai buscar a minha capa, sim?
Apenas Alvaro desappareceu no fundo da rua fechada de murtas, Leonor correu ao longo d'uma alea de acacias em direcção opposta. Da extrema d'este passeio, desceu por degraus a um pomar de laranja, e tirou da abertura d'um aqueducto uma pequena caixa, e um chapéu de velludo emplumado. D'alli seguiu rente com o muro da quinta, e abriu uma pequena janella de umas poucas eminentes á estrada, e saltou, auxiliada por um homem que a esperava, e a quem entregou o cofre das joias de sua mãe. A poucos passos, estavam as cavalgaduras, e o caminho franco para celerada fugida.
Alvaro tinha pedido a capa com aquella pressa do amor que nas menores cousas se desvela e impacienta. O morgado acudiu perguntando o que tinha Leonor; e, como o primo não respondesse para ganhar tempo, vieram depós elle Sebastião de Brito, Cecilia, e Maria da Gloria.
Quando abordaram o lago, ouviram Alvaro chamar Leonor.
--Onde está ella!?--perguntou o pae--Falla, Leonor, não andes a fazer fosquinhas!...
--O local é proprio para jogar as escondidas...--acrescentou Maria da Gloria.
--Eu vou dar com ella--tornou o morgado, batendo os caramanchões, e dando gargalhadas do seu logro, e da esperteza da menina.
N'isto demoraram alguns minutos, até que Alvaro disse:
--Leonor já não está aqui.
--Pois onde ha-de estar? essa é boa?--replicou o tio. Vamos dar com ella no laranjal.
E foi com o sobrinho pelo caminho, que ella seguira. Correram o pomar, e viram aberta uma janella.
--Aquella janella aberta!--disse Sebastião de Brito.
--Foi por alli que ella sahiu--ajuntou Alvaro; mas a ultima palavra proferiu-a tão afogada, como se fosse a ultima da sua vida.
O morgado debruçou-se no peitoril da janella, e viu um lenço branco. Tentou saltar ao caminho; mas o instincto do rheumatismo da perna esquerda conteve-o em contemplação arquejante. Chamou a altos brados os servos; mas ninguem o ouviu: dormiam todos. Chegavam n'este conflicto Maria da Gloria e Cecilia perguntando ambas por Alvaro. O morgado não lhes respondeu, de açodado que ia, caminho de casa. Correram o pomar, e acharam Alvaro encostado ao tanque, como se fora uma estatua de adorno. Pôz-lhe a mão na testa a mãe, e sentiu-a fria de marmore, tirou por elle para o seio, e dissereis que a estatua cahia hirta e inteiriça, impulsada pelos braços de Maria da Gloria.
--A maldita de Deus matar-te-ia, meu caro filho--exclamou a mãe.
Alvaro desligou-se dos braços de ambas, pediu que o deixassem, e sentou-se, escondendo nas mãos a face.
--Por que não ergues as mãos a Deus, Alvaro?--tornou Maria da Gloria--Vês agora o abysmo de que tua mãe te queria salvar?
--Não me falle, minha mãe--disse Alvaro com energia--A que vem Deus aqui?!... Deixe-me ver se esta agonia acaba commigo.
Maria da Gloria sentou-se ao lado do filho, invocou a alma da santa de Vairão, e pediu a Cecilia que orasse com ella. Eram passados minutos, quando no palacete se levantou grande rumor de vozes, de portas, e de passos. O morgado mandara apparelhar cavallos, e destinou um criado para a estrada de Lisboa, e outro para Villa Franca. Maria da Gloria disse a Cecilia que mandasse pôr a parelha á carruagem. Alvaro ouvindo esta ordem, ergueu-se, e disse chorando:
--Tenho ainda minha mãe... Bemdito seja Deus!...
Maria, abraçando-o com transporte, exclamou:
--E que coração de mãe tu tens aqui, meu querido filho!... Não morrerás, não, Alvaro?
--Morrer!... Não se morre assim, minha amiga... Os seus onze annos de martyrio envergonham a fraqueza de quem succumbe... Hei-de viver, minha mãe...
Alvaro, perpassando certos sitios, parava, e contemplava-os alguns instantes. Ao sahir do jardim, voltou-se de rosto para elle, e articulou:
--Adeus!...
Depois, fitou os olhos em sua mãe, e acrescentou:
--Ora veja que mocidade a minha!... Estou no principio da vida!...
Não lhe respondeu a mãe: os soluços cortavam-lhe a palavra. A carruagem veio tomal-os no pateo. Sebastião de Brito acudiu á portinhola perguntando se o deixavam sósinho com a sua afflicção: Maria disse lhe que não havia alli ninguem que podesse consolal-o.
O cavalleiro, que seguiu estrada do Porto, só de madrugada encontrou almocreves que não tinham visto senhora alguma. No decurso de algumas leguas nenhum viandante lhe deu melhores noticias. Retrocedeu á noite, ignorando que as pessoas, que fogem, só aproveitam o melhor caminho, quando não tem o peor atalho. Ora o confidente de Miguel de Sotto-Mayor tivera tempo de estudar a topographia do terreno, e atravessai o por povoações menos praticadas até Coimbra. D'ahi passou a Aveiro onde tomou um hiate, e desembarcou a salvamento em Mathosinhos, quando a esquadra de D. Miguel se estava batendo com a de almirante Sartorius, defronte de Vigo, e a costa do Porto era de facil accesso.
Miguel de Sotto-Mayor foi surprehendido nos trabalhos do entrincheiramento por Leonor, e apresentou-a como esposa aos seus camaradas, attonitos da formosura d'ella. O titulo com que a apresentara foi d'ahi a poucas horas confirmado pelo primeiro padre, que em sua consciencia se julgou idoneo para supprir o consentimento paterno. Miguel não daria grande valor sacramental ao acto mas entendeu que pendia d'elle a dignidade de Leonor, e o respeito de si proprio.
Não direi que a apaixonada e viril senhora seguisse o esposo ás trincheiras, ou fizesse ondear as plumas do seu chapéo ao sopro das batalhas. Seria falsear a chronica affirmar que o poeta se achou muitas vezes ao lado dos Garretts e Herculanos que mordiam o cartucho com tanta seriedade de espirito como escreviam a «Harpa do Crente» ou «O Arco de Sant'Anna.» O fidalgo de Villa do Conde, oferecendo os seus talentos especulativos, conseguiu empregar-se nas rodas intellectuaes d'aquelle grande apparelho de guerra; e, tão acrisolado foi nas funcções do espirito, que chegou ao termo da guerra com as carnes intactas, e grande fama de prudente. Os bravos, que o viam com mulher tão bella, achavam-lhe racional o medo, e diziam que por tal preço todos aceitariam o estigma de cobardes. Os assustadiços cogitavam na traça de salvarem as immunidades pessoaes, á sombra de tão bella egide, sem damno da sua reputação patriotica. Os casamentos, porém, eram difficeis n'aquella época, e o imperador costumava dizer que a namorada dos valentes era sua filha.
Abriram-se as linhas, entrou o exercito libertador em Lisboa, e Miguel de Sotto-Mayor, com quanto não assistisse á victoria de Cacilhas, foi um dos expedicionarios. Dias depois chegou a Lisboa Leonor, e procurou noticias de seu pae. Soube que sahira dos Olivaes para uma quinta do Além-Tejo, logo que a tropa liberal estanceou em Leiria. Escreveu ella a seu pae, em termos que os não diria mais amaveis uma boa filha. Convidava-o a aceitar a validissima protecção de seu marido, e recolher-se a Lisboa, sem temor de desfeita, ou desforço de antigos odios politicos.
Sebastião de Brito era um tolo com uma boa alma, amigo extremoso de si mesmo, apegado á vida por muitos, posto que apodrentados liames do coração, e namorado ainda de algumas velhas matronas da corte, que tinham tido a temeridade de ficar em Lisboa, sem receio dos barbaros invasores. Ir para Lisboa, quando toda a sua gente fugia, excepto ellas, pareceu-lhe cousa de aproveitar, e foi.
Leonor recebeu-o com muito carinho; deu-lhe de seu marido uma conta que invejariam anjos; ostentou felicidade nos menores incidentes da sua gloriosa aventura; convenceu o pae de que o seu destino era aquelle, e rematou pedindo-lhe novas de seu primo.
--Nunca mais o vi--disse elle--consta-me, porém, que vive muito triste, e que passa a maior parte do tempo com a mãe no valle de Santarem. Pobre rapaz!...
--Mas não morreu!--acudiu Leonor.--Todas as paixões assim são, meu pae. Uma mulher deixa muitas vezes de seguir o anjo do seu destino para se inundar a um homem, cuidando que o matará, se não renunciar á vida, ao coração, á gloria, e ás imperiosas exigencias da sua indole. A mulher sacrifica-se; e o homem, a quem se deu, passado tempo, não reconhece o sacrificio, nem se julga devedor da abnegação da martyr. E o que me estava reservado com meu primo, cujo genio é perfeitamente o envez do meu. O que seria eu agora com elle? Uma mulher muito rica e muito enjoada da minha riqueza. Assim que sou? Uma esposa que não tem tempo de calcular quantos contos de reis necessita para comprar um capricho. E elle? Soffreu no seu orgulho, soffreria tambem no coração; mas estas duas dores, quando se juntam, lá se curam uma á outra. Ora aqui tem, meu pae!
--Parece-me que tens razão, filha...--disse Sebastião de Brito, tingindo umas mechas de cabello, que tinham passado do branco ao escarlate.
XIV
... _Que direz vous de l'indigence?_
MONTAIGNE (Essais.)