Part 10
Por vezes alcançára a casa de seus paes, exigindo dinheiro para excursões ao Porto: davam-lh'o para se livrarem dos escandalos na terra, e tinham muitas vezes de ir resgatal-o á cadêa onde o levavam os escandalos de fóra.
Em 1828, morrera o morgado, e succedera Miguel no vinculo, onerado de grandes dividas. Muita gente espantou-se do favor que a Providencia dá aos maus: gente van dos seus juizos que quer com olhos do rosto abranger o infinito dos juizos divinos.
Constituido senhor da casa, vieram de seu os desperdicios, com o nome de despezas necessarias á sustentação da dignidade de seus maiores e sua. Os sustentaculos d'esta dignidade estavam na estrebaria: eram-os arrogantes cavallos, que escouceavam os velhos machos de seu pae.
Posto que Miguel de Sotto-Mayor mantivesse correspondencia com Leonor de Brito, o coração era estranho áquella constancia, umas vezes passatempo, e outras calculo. Em quanto filho segundo, convinha lhe o patrimonio de Leonor, se bem que desfalcado pelo pae. Informára-se, e sabia ao certo o valor da morgada dos Olivaes. Depois que succedeu no vinculo, curou de agenciar mulher mais rica, e têl-a-ia, se a reputação lhe não deslustrasse o nascimento e os bens da fortuna. N'estas tentativas, malbaratou novos empenhos levantados sobre a casa, e em menos de dous annos--eram-lhe escassos para viver limpamente os rendimentos d'ella.
No entanto como quer que nunca deixasse de escrever a Leonor, ao vêr-se assim repellido das ricas herdeiras, e ameaçado d'uma fidalga pobreza, reaccendeu a poesia das cartas, e afogueou á mais alta temperatura o coração da donzella. Animou-o ella a pedil-a ao pae, ainda que não asseverava o bom exito da petição; todavia, tão da alma era escrava d'elle, e tão livre se sentia n'essa escravidão que, no dizer d'ella, quando o pae a negasse, o coração se obrigava a emendar o erro do pae.
Tinham assentado n'isto, quando Miguel de Sotto-Mayor, explorando o cançado veio das dividas, levantou o dinheiro para a jornada e consequencias d'ella.
Agora o temos nós em casa de Sebastião de Brito, como passageiro que se faz recommendavel pelos dous cavallos e lacaio. Ahi, primeiro, desenrola o hospede os pergaminhos da sua linhagem, e diz quantos reis godos lhe giram no sangue. Sebastião de Brito, regalado com uma pratica de sua maior predilecção, mostra os retratos de alguns avós, e lastima que os não retratados fossem mais antigos que a arte da pintura.
No dia immediato, fallaram em casamentos desiguaes, e prostituição da nobreza ao ouro das classes mecanicas. Sotto-Mayor verberava os indignos herdeiros d'um castello avoengueiro, que o arrazavam para erguerem pala cios, á custa de dotes ganhados ao balcão e na balança.
Brito foi remisso nos gabos á soberba de Sotto-Mayor, por que tinha de lhe dizer que sua filha ia casar com o filho d'um negociante seu irmão bastardo, e d'uma filha d'outro negociante de Macáo. Dito isto, perguntou o de Villa do Conde se era irrevogavel o plano de tal consorcio. O morgado dos Olivaes deu a sincera explicação do casamento, descrevendo o mau estado da sua casa, e a necessidade de braço forte que a subtrahisse aos vexames da usura. Desanimou algum tanto o poeta-fidalgo; mas a subita apparição de Leonor, linda como ouro aos olhos d'um aváro, fulminou com um relance de amoroso olhar a idéa sordida que surgira da baixa alma do seu poeta. Ousou Miguel pedir a filha ao pae, na propria presença d'ella. Sebastião de Brito disse a Leonor que respondes-se: tamanha segurança tinha de a ter conforme nos seus calculos, e no conhecimento do seu desvaliado dote.
Leonor respondeu que não podia ser esposa de outro, com approvação da sua alma. Gelou-se o sangue nas veias do pae, e nunca o ella vira tão mal assombrado e iroso. Mandou-a sahir da sua presença, e disse ao hospede que, em sua casa, só eram bemquistos os amigos, que lhe não traziam planos de completarem sua ruina.
Miguel de Sotto-Mayor mandou apparelhar os cavallos, esperou no pateo que o lacaio lhe apresentasse o seu, e disse ao capellão de Brito:
--Diga ao cavalheiro que lhe não pergunto quanto devo de hospedagem, por que hei-de fazer contas com elle, quando for seu genro.
Isto entendeu elle que era puro _byronianismo_; o dono da casa, porém, é que deu á cousa o seu verdadeiro nome, chamando-lhe «patifaria»; e lamentou que os seus criados lhe não pozessem o espirito e a carne em lençoes de vinho.
Ao romper da manhã do dia proximo, Sebastião de Brito foi com Leonor para Lisboa, e deu-a em guarda a parentes, que lhe vigiavam as minimas acções. D'ahi a dias, foi ella intimada para recolher-se ao convento das Commendadeiras, e esperar alli que seu primo voltasse da viagem para se realisar o casamento. Leonor ostentou brava reacção; mas cedeu, por fim, á força, dizendo que o tempo era a arma e a victoria dos fracos.
Miguel de Sotto-Mayor, abonado e recommendado por cartas que apresentou ao ministro da justiça, vindas de Barcellos, tentou remover judicialmente do convento Leonor. João de Mattos, ouvindo do proprio morgado dos Olivaes as razões da sua negativa, afastou de si o pretendente, e foi em pessoa ao convento para despersuadir a filha rebelde, e concital-a a reservar o coração para Alvaro, que, no dizer do ministro, havia de ser o herdeiro dos centenares de contos de seu pae e do angelico espirito de sua mãe. Leonor passou da contumacia á dissimulação, e prometteu submetter se á vontade paternal.
A traça ardilosa d'esta condescendencia fôra-lhe suggerida por Sotto-Mayor. João de Mattos era barreira mais insuperavel á primeira tentativa que os muros e grades do convento. Apesar de sua ousadia, o de Villa do Conde receiou que o Limoeiro lhe embargasse o passo. A inimisade do ministro da justiça equivalia a um cerco de esbirros lançado no seu encalço. Soccorreu-se, por isso, da velhacaria, e, delineado o plano por cartas a Leonor, sahiu de Lisboa.
Sebastião de Brito duvidou da reforma da filha. Decorreram seis mezes, sem que os rogos de Leonor o movessem a tiral-a do convento. «Ha-de sobejar-te tempo de seres feliz--dizia-lhe o pae--Teu primo não póde demorar-se... Que te diz elle nas cartas?»
--Diz que o tio está cada vez peor.
--Pois ahi tens, Leonor. Se peora, vem; e, se morre, mais depressa vem, e mais depressa és senhora da enorme riqueza de teu sogro.
--E que dirá meu primo--replicava ella--vendo-me reclusa n'um convento?! O pae não receia que elle me rejeite, sabendo os motivos que eu dei para ser aqui encarcerada? Se elle tiver dignidade, não me quer; e, se a não tiver, não o devo eu querer a elle.
--A tua fama não está manchada--volveu o pae--Teu primo de certo perdoa a innocente volubilidade d'uma menina, engodada por um homem matreiro, ou apaixonado por ti. Não ha dama da corte a quem não tenham succedido estes episodios trinta vezes, e raras sahem d'elles com a sua reputação illesa como tu. Que culpa tens tu, se por ti enlouqueceu o poeta minhoto? E quem pede contas da sua fascinação a um espirito noviço, incauto, e impersistente d'uma menina da tua idade? Se toda a gente te desculpa, que fará Alvaro que te ama desde criança?!
Replicava a tudo isto Leonor instando por sahir do mosteiro, e mostrar-se com o arrependimento, e quietação na casa do pae, mais digna de desculpa. A passo igual cresciam as suspeitas, e o morgado dilatava a época da sahida. Leonor, levada da sua irritabilidade, resolveu fugir, e preveniu Sotto-Mayor. Não era sujeito de emendar desatinos alheios o poeta: quando muito, mais por medo da justiça que do descredito, abstinha-se de os aventar primeiro. Pareceu-lhe heroica e byroniana a fuga da morgada. Deu-se pressa em chegar a Lisboa, avisando Leonor por intercessão de terceira pessoa, que os trazia vendidos ambos a Sebastião de Brito. E o caso foi que Miguel de Sotto-Mayor, horas depois que chegava a Lisboa, era preso por malhado, e conduzido ao castello de S. Julião da Barra.
João de Mattos fôra estranho áquella vil arteirice do morgado dos Olivaes, e, conscio d'ella, deu-lhe o nome que ella devia ter; chamou-lhe infamia. Contra vontade do intendente geral da policia, chefe dos quadrilheiros, mandou o ministro da justiça dar liberdade ao preso, e chamal-o á sua presença.
Miguel de Sotto-Mayor teve uma hora de lucidez, na presença de João de Mattos: adoptou o conselho de sahir de Portugal por algum tempo, unica sahida por onde podia salvar-se da perseguição politica, e dos tormentos que elle testemunhára nas cavernas da Torre. Partiu, pois, sem demora para França, onde então o nucleo do partido liberal fomentava a restauração dos legitimos poderes. No entanto, João de Mattos, suspeito liberal por este e semelhantes actos de consciencia honrada, attrahia sobre si accusações, que mais tarde lhe sortiram a deportação para Abrantes.
Por esses dias, recebeu Leonor esta carta de Alvaro:
«Estou sem pae, minha prima. Deixei minha mãe n'um lethargo para vir escrever-te estas linhas. Estava tudo prompto para a partida, quando meu pae morreu, nos braços d'esta santa. Como ella o amava, ou como é o amor das martyres n'este mundo! Em quatro mezes de agonia, minha mãe nunca desamparou o leito do infeliz, que parecia contar os instantes de vida nas dores do coração. Foi uma aneurisma que o matou. Dizia em cada dia:--Que tristeza! contemplar-vos, amar-vos tanto, e ter n'esta agonia a certeza de que hei-de deixar-vos breve! Viver sem ti os melhores annos da vida, minha querida esposa, e chamar-te para mim, quando já via esta morte! Que fiz eu da tua felicidade e da minha! Que espectaculo eu te dou para levar a tua desgraça á perfeição! Cinco annos de doença, de desgosto, e de pedir a Deus, por intercessão da tua santa alma, que me abrevie estas penas! Se as padeço como expiação, diz tu ao Senhor que me perdoas-te as culpas. Pede-lhe, Maria, que me deixe viver tres annos por amor de ti e d'este filho, d'este anjo da reconciliação que nos veio das mãos de Deus. Pede-lhe, minha virtuosa amiga, que me dê horas de descanço e horas de tribulação. E, se Deus quer que eu acabe, roga-lhe que seja já, antes que eu perca a fé na misericordia Divina.» «--Minha mãe debulhava-se em lagrimas; sentia-se extremosa amante pelas palavras de consolação que lhe dava; ia invocar a alma da santa de Vairão; e voltava cheia de esperança ao leito de meu afflicto pae a pedir-lhe paciencia e confiança. Aqui tens a nossa vida dos ultimos quatro mezes. Bem fizeste em não vir comnosco: terias um quinhão d'estas amarguras, minha prima. Mas, ao mesmo tempo, que allivio para mim, se eu te visse ao pé de minha mãe! Eu não sei como hei-de consolal-a! Tu saberias, Leonor, porque no coração da mulher é que Deus depositou as suas palavras de consolação para os desgraçados sem culpa... Chama-me a minha pobre Eufemia... Minha mãe está delirando; faz contra si propria accusações que me traspassam a alma. Pede perdão a meu pae por lhe não ter podido dar a felicidade, que ella em si não tinha!... Não te accuses, minha santa mãe! Tu foste o anjo que se fez nas cinzas do teu coração, anjo de ternura e de piedade, anjo de perdão e de supplica por todos que te injuriaram, e te mataram, primeiro que a meu pae... Não posso mais... Logo que minha mãe tenha forças vamos para Portugal. Adeus, minha querida Leonor. Chora uma lagrima, que t'a merecem os infelizes que mais te amam n'este total desamparo, de amigos.
«Napoles--Maio 15 de 1831.
«Do teu _Alvaro._»
Leonor não tinha lagrimas. Requeimára-lh'as o odio ao pae, e o anceio da vingança.
Pouco antes de lêr aquella carta, recebera ella a noticia do desterro violento de Miguel de Sotto-Mayor.
As commendadeiras do convento houveram horror e não piedade dos esgares phreneticos da morgada.
XI
_C'était Ninon de Lenclos qui disa-ti qu'elle remerciait tous les soirs, de son esprit, et qu'elle le priait, tons les matins, de la préserver des erreurs de son cœur._
MIRABEAU (Lettres à la marquise de Monnier).
Já Leonor não estava no mosteiro, quando Maria da Gloria, mez e meio depois da morte de seu marido, chegou a Lisboa. O pae, temendo que a exasperação a allucinasse até o extremo do suicidio, levou-a para os Olivaes, e cuidou em amaciar-lhe a braveza com os antigos carinhos e distracção de amigos e parentes, devotados todos a delir-lhe da lembrança a imagem do expatriado.
Alvaro, no dia immediato ao da sua chegada, recebeu recado urgente de João de Mattos, para ir fallar-lhe.
--Chamei-o--disse-lhe elle--para lhe dar o que o senhor Macedo me não pede: é um conselho. Seu pae, que Deus haja, tinha em vista casal-o com sua prima Leonor de Brito. O senhor consultou alguma vez o seu coração sobre este designio de seu pae?
--Sim, senhor, e achei-o conforme aos meus mais ardentes desejos.
--Tem o senhor Alvaro alguma especie de confiança nos merecimentos de sua prima? Crê que ella o estima?
--Devo suppôr que sim.
--Está n'um erro. Agora o conselho sem preambulos: não case com sua prima, nem exponha o seu bom coração ao escarneo e á deshonra que inevitavelmente lhe ha-de vir com o arrependimento extemporaneo. Se não póde esquecêl-a, converta essa lembrança em estima, e a estima em virtude: quando a vir desgraçada, ampare-a. Imagine que sua prima ha-de passar pelos élos d'uma cadêa fatal. Não está nas suas mãos quebrar-lhe a cadêa; mas a misericordia póde muito, e a caridade faz milagres. Ainda o chamei para outro fim. Eu vou depois de ámanhã deportado para Abrantes, á ordem do senhor D. Miguel. Vou ralado de desgostos, e vaticino que toda a força de minha alma, e a muita energia que me dá a consciência pura, me não sustenham na queda. Se eu cahir, e o não tornar a vêr, lembre-se, no longo curso da sua vida, d'estas lagrimas que viu na face de um velho, e por ellas lhe rogo que, em meu nome, ajoelhe aos pés de sua santa mãe, e lhe peça perdão para mim que lhe matei a felicidade de toda a vida.
João de Mattos apertou ao seio o filho de Maria da Gloria, e disse-lhe:
--Vá!... Eu não o verei mais... Na eternidade saberei se sua mãe me perdoou.
Alvaro appareceu a sua mãe ainda com lagrimas. Interrogado acerca d'ellas, contou o successo, e fez de joelhos a supplica. Maria da Gloria ergueu as mãos, e disse em seu coração: «Vós bem sabeis, meu Deus, que eu perdoo a quantos me fizeram mal; e a este, que peccou, e se rehabilitou pela contrição da honra, dai vós, Senhor misericordioso, as consolações que a mim me daes por intervenção de meu filho.» E accrescentou em voz alta:
--Vai dizer a esse nosso _amigo_ que tua mãe lhe deu este nome. Pede-lhe licença para saber as intimidades da sua vida. Se elle quizer emigrar, e não tiver recursos, diz-lhe que és rico: pede-lhe com encarecimento que t'os acceite. Ouvi dizer á santa de Vairão que seu sobrinho era pobre, e morreria pobre. Disse-m'o em elogio da sua probidade. Vai, meu filho, que esse homem perdeu tua mãe para a felicidade; mas restituiu-t'a para o amor.
João de Mattos ouviu da bôca de Alvaro as textuaes palavras de sua mãe. Balbuciou muito commovido expressões de reconhecimento, e apontando para um grande painel, disse:
--Guarde de mim aquella lembrança: o retrato de um pae honrado é um constante pregão de honra; o do amigo verdadeiro, e inflexivel no infortunio, é um consolador, quando não póde ser um conselheiro mudo.
Agradeceu Alvaro a dadiva, e ajudou a deslocar o quadro, para o levar comsigo. Foi esse mesmo o que eu vi nas ruinas dos Olivaes.
D'este probo e desditoso estadista não fallaremos mais. Logrou ser propheta do seu repouso. Finou-se com pouco tempo de desterro. A sua ultima carta ao filho de Maria da Gloria era uma reminiscencia dorida dos dias em que a paixão o ensandecera a ponto de não vêr o abysmo em que a virtude e a paz d'uma mulher se despenhavam com a honra d'elle. Esta carta denotava desconcerto de espirito; e, por ser a ultima, de perto se seguiu o apagar-se aquella grande luz, que de mais, no entender dos magnates e dos aulicos, alumiava a ignominia e a protervia d'aquelles que empeçavam na virtude do homem, leal ao throno; mas leal ainda mais á honra.
Choraram-no Alvaro e sua mãe. Tão afeiçoado lhe era o moço, que pedira licença a Maria da Gloria para o ir visitar em Abrantes, e conduzil-o para sua casa, indultada a sentença. Algumas horas, scismando n'elle, pensava Alvaro em vêr sua mãe ligada em segundas núpcias a um homem de quem elle já tinha no coração palavras paternaes, e segura base para o amar e respeitar no futuro com o amor e veneração de filho. Deu mate a estas doces cogitações a morte; mas a saudade ficou imperecivel no coração de Alvaro, e a gratidão no espirito de Maria da Gloria.
Se não cahisse a proposito este incidente, logo de começo teria eu dito que Sebastião de Brito foi logo visitar sua cunhada, e offerecer-lhe a sua casa dos Olivaes. A viuva não acceitou, porque a soledade com seu filho era tudo o que lhe restava bom e acceitavel n'este mundo. Leonor, algum tanto desvanecida de Miguel de Sotto-Mayor, cujo silencio de alguns mezes a desmemoriára, e ao mesmo tempo industriada por amigas e parentas, mostrou affavel sombra ao primo, por entre uns gestos de tristeza insinuante. Dizia ella que um anno de vida lhe modificara em muito o genio, e que ainda agora começava a sentir-se no coração. Recebia carinhosa, ou antes desafiava, os agrados de Alvaro, já commovendo-se com arte ás saudades com que elle relembrava o pae, já seguindo-o ás inspirações da vindoura felicidade, e phantasiando-a com elle na vida do campo, na ausencia dos esplendores sociaes, e na permutação intima e obscura dos sentimentos de duas almas apaixonadas. Com Maria da Gloria não era ella menos artificial, ou encarecendo-lhe as virtudes do filho, ou pedindo-lhe conselhos para o igualar em merecimentos.
Escutava Alvaro sua prima com assombro e desconfiança; e Maria da Gloria ouvia a sobrinha, notando-lhe a sagacidade, em que fora industriada pelo pae ambicioso, e pelas mulheres da roda illustre, professas no logro e nas fraudes do coração. E d'ahi, o silencio de ambos no tocante a casamento; e os sustos de Sebastião de Brito, e os despeitos da filha orgulhosa, á conta d'aquelle silencio.
Seccára a fonte perennal dos recursos do morgado com a morte do irmão bastardo. A cunhada não se afoutava elle a pedir as grandes quantias, nas occasiões apertadas; e ainda menos ao sobrinho, o qual, se bem que tivesse dezoito annos, nada pedia nem acceitava dos grandes haveres de sua mãe. Lastimava-se o morgado á filha, arguindo-a de ser causa de tantos desgostos e vexames com o seu proceder. Esta, que os principiava a sentir em certas faltas que a superabundancia sem regimen faz conhecer, duplicava as ciladas ao coração do primo e á bemquerença da tia.
Uma vez estava ella a sós com Alvaro. Este entretinha-se n'esse tempo a escrever as memorias da sua infancia, e deixára o manuscripto aberto na mesa de estudo. Pediu Leonor licença para lêr algumas paginas, e elle hesitou; mas insistiu Leonor tão meigamente que o primo deixou-a lêr as duas ultimas. Tinham estas referencia aos oito annos de sua idade, e terminavam assim: «Não esqueceria nunca os dias dos Olivaes, ainda mesma que da affeição, então nascida, mais odiosa me fosse a lembrança.» Seguiam-se algumas reticencias.
Leonor depoz o manuscripto, e disse triste:
--Estes pontinhos que significam?
--Nada, minha prima.
--Dás-me licença que eu complete o teu pensamento? Deixas-me escrevêl-o sobre as reticencias?
--Escreve--disse Alvaro risonho.
Leonor, sem demora de pensar, continuou assim a escripta:
«Aquella criança, innocente e formosa como um anjo aos meus olhos, n'aquella idade, amava-me, e não sei que amor era o seu, porque o amor dos anjos deve ser mysterioso, e é. Mais tarde, eu não podia amal-a, porque não poderá entendel-a. Senti-me enfastiado d'ella, como as crianças das flôres com que brincam uma hora. Não a esqueci porque a vejo sempre; mas esquecel-a-hei quando a mulher, que vagamente me falla nos sonhos, me disser: _Sou eu._ A tua Leonor era o amor da innocencia; e eu sou a mulher da paixão.»
--Aqui tens--disse ella--Agora, sim; está completa a pagina.
Alvaro leu, fitou os olhos em sua prima, e disse:
--Por que te enganas a ti propria, ou por que me mentes, Leonor?!
--É uma nova injuria que o meu coração te agradece assim...--E dizendo, beijou-lhe a face e retirou-se.
Ai! Maria da Gloria, como has-de tu combater o veneno corrosivo d'aquelle beijo?!
João de Mattos, varão justo, que tinhas no tom e no gesto a modulação e a postura do propheta, as tuas palavras esculpiram-se no espirito de Alvaro; mas o coração não fora chamado a jurar nas promessas do espirito!
Venceste, Leonor, venceste!... Uma victoria só te falta: olha se rebellas o filho submisso contra a vontade da mãe; espedaça os liames, que prendem essas duas almas; e então levarás a rojo da tua astucia os mais sagrados deveres do coração.
XII
_Como se é criança!... como se é criança!_
GOETHE (Werther).
Viu Maria da Gloria seu filho amargurado, e mysterioso. Notou igualmente a ausencia prolongada de Leonor e do cunhado. Industriosamente, se fazia admirada, a vêr se surprehendia o coração do filho. Mallogrados estes meios, foi em direitura à chaga suspeita, e descobriu-a.
--O teu sofrimento são saudades de tua prima, Alvaro.
--Eu não posso mentir a minha mãe...
--São?--interrompeu Maria.
--Saudades, e duvidas que me atormentam.
--Que duvidas? se te ama?
--Penso que temos sido injustos com ella, minha mãe...
--Diz-me o que te faz assim pensar, Alvaro.
Não se fez rogar o moço: contou a scena das «memorias da infancia» e mostrou o acrescentamento escripto da mão de Leonor. Maria leu, sorriu, e disse:
--Tanta palavra! tanta palavra!... Crês isto, filho?
--Diga-me a minha mãe se não devo acreditar.
--Não deves. Vai ao convento das commendadeiras e pergunta o que fez alli tua prima, durante oito mezes.
--Minha prima esteve no convento das commendadeiras!?
Maria abriu a gaveta d'uma escrivaninha, e mostrou a Alvaro uma carta, recentemente recebida, de uma senhora, sua amiga de collegio, que a predispunha contra o enlace de seu filho e uma _douda furiosa_, dizia a carta. Era isto o prologo de miuda noticia de todos os actos de Leonor, desde a entrada e tentativa de fuga, até ás contorsões de possessa que a fizeram suppôr demente.
Alvaro dobrou a carta, e encostou a fronte á mão para esconder de sua mãe as lagrimas.
--Crês no arrependimento de Leonor?--continuou a mãe serena e affavel--É possível; mas o segredo que teu tio escondeu de nós, e o ar de candura com que ella se tem offerecido á nossa estima, qual provam mais, arrependimento ou astucia? A culpa arrepende-se, confessando-se. Estas palavras são uma hypocrisia, e o beijo d'essa menina é...
Maria da Gloria susteve a palavra que era a própria, e córou-a assim:
--É uma liberdade que deve magoar um coração delicado como o teu.
Seguiram-se alguns segundos de silencio, e, após elles, Maria continuou com vehemencia e magestade:
--Alvaro! tu és um homem. A tua dor é questão mais de honra que de coração. Eu tenho ciumes dos bons sentimentos da tua alma, e, por vontade minha, hei-de cedel-a unicamente a quem te chamar «esposo» com o extremoso amor com que te eu chamo «filho». Se Deus não quer que as minhas contas com o infortunio estejam saldadas, casa embora com Leonor. Não te lanço da minha alma; mas não contarei mais com a tua. A minha vida não alcançará a tua desgraça. Morrerei a tempo de ir pedir a Deus que te dê forças para ella.
Alvaro ergueu-se de golpe, e apertou nos braços a mãe lavada em lagrimas.
--Não me falle assim, minha mãe!--exclamou elle--Perdeu a confiança no poder da sua vontade?! Eu não lhe disse que casava com Leonor, nem mesmo lhe disse que a amava com paixão... Deixe-me ser para ella o que minha mãe uma vez me disse que eu fosse:--amigo d'ella, quando a visse desgraçada...