Part 4
Seguiam-se os timbaleiros e cornetins das regias cavallariças, e os respectivos criados, e empregados, de grandes fardas, e fumo no braço; os cavallos de passeio da rainha, roçagando crepes; os cavallos de estado; o estandarte da real irmandade; a cruz da capella real; capellães, musicos e cantores; gentis-homens e officiaes-móres, oito grandes de Hespanha, duques de Sexto e de Uceda, marquezes de Salamanca, de Benemejis, de Malpica, de Valdegrana, de Monistrol, o conde de Guaque; batedores, correios das cavallariças reaes, e, finalmente, tirado por quatro parelhas de cavallos negros, o coche funebre, ladeado pelo capitão-general de Madrid, Primo de Rivera, e seguido pelo marquez de Santa Cruz, mordomo-mór da rainha, pelo notario-mór do reino e ministro da justiça, Calderon Collantes, pelo patriarcha das Indias. Este coche da morte, rodando vagarosamente, era recebido pelas lagrimas da multidão, cuja commoção subia de ponto, quando os olhos cahiam involuntariamente sobre o coche rico do rei, tirado por oito cavallos brancos, o mesmo coche que cinco mezes antes conduzia no regresso da Atocha o par enamorado atravez de uma chuva de flôres.
O corpo de alabardeiros, de uniformes resplendentes, a pittoresca guarda real, de elmos scintillantes, e uma força de cavallaria fechavam o derradeiro cortejo d'essa noiva mallograda.
No Escurial preparou-se dentro em poucos dias, pouco mais de um mez, o panthéon provisorio que devia receber as cinzas mortaes da rainha.
Encantadora simplicidade a d'esse tumulo!
Seis columnas de marmore branco sustentam o sarcophago, em cujas faces foram insculpidas sentenças biblicas, que relembram o passamento prematuro da rainha. Este singelo monumento occupa a primeira capella do corpo central da egreja, á esquerda do altar-mór, e junto á parede interior. Sobre o altar da capella, uma tela notavel, attribuida a Zurbaran, representa a imagem de Nossa Senhora das Mercedes. Defronte d'este quadro, encimando quatro grandes sustentaculos de prata, relevam as corôas que outr'ora ornavam o sumptuoso tumulo de S. Francisco, o Grande.
Tal é, no vasto e sombrio templo do Escurial, a camara mortuária da noiva do rei de Hespanha.
Poucos dias transcorridos após o funeral, D. Affonso XII sahiu de Madrid. Seguiu o mesmo caminho que o feretro da rainha percorrera. Um rastro de lagrimas o guiava para o Escurial. E um discreto segredo guarda ainda hoje a confidencia das angustias do rei n'essa primeira entrevista, depois da morte, com a doce companheira do seu ninho de amor.
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LUCTO
XIV
LUCTO
Episodio encantador:
«Um cego, de apparencia decente,--contáram os jornaes,--costuma postar-se todos os dias na Porta do Sol, em Madrid, tocando flauta e permanecendo descoberto, mesmo nas estações mais rigorosas.
«Assim que circulou em Madrid a noticia do fallecimento de sua magestade a rainha D. Mercedes, o pobre cego envolveu a flauta n'um pedaço de _gaze_ preta, e foi collocar-se no mesmo sitio, sem tocar.
«Nem por isso foi menos farta a colheita das esmolas. A caridade publica soube comprehender e recompensar aquella commovente delicadeza.»
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VIUVEZ
XV
VIUVEZ
Quando ao sol-pôr, n'uma suave tarde de primavera, nos vamos sentar, profundamente melancolicos, sobre o fraguedo que domina o horizonte, onde os longinquos resplendores do occaso fazem lembrar os reflexos de um palacio aereo illuminado para um sarau cavalheiresco, o nosso olhar tem o condão de não vêr atravez do florido scenario da natureza e do fundo auriluzente do céo mais que o ideial da sua melancolia.
Assim tambem o rei Affonso, atravessando com o seu pensamento maguado as festas ante-nupciaes do archiduque Frederico de Austria, o companheiro querido de collegio, só tinha presente a imagem saudosa de Mercedes, a solidão immensa da sua viuvez inconsolavel.
Por isso escrevia:
_Meu querido Frederico._
«A rainha Mercedes morreu. Que Deus te conceda no matrimonio a felicidade que me negou. Nas tuas proximas horas de felicidade, recorda-te das horas de martyrio e de dôr que estou soffrendo.
_Affonso._»
Dôr profunda, que uma mulher, tambem rainha, e tambem viuva, comprehendia chorando. A rainha Victoria enviava ao rei de Hespanha estas eloquentes palavras:
«O meu coração está profundamente ferido pela vossa desdita, meu querido irmão. Que espantosa desgraça quiz Deus enviar-vos! Que Elle vos dê a força necessaria para supportar tão terrivel perda.»
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A BAZILICA
XVI
A BAZILICA
N'uma deliciosa novella de Octavio Feuillet, que toda a gente conhece, _Le roman d'un jeunne homme pauvre_, avulta, entre outras, uma nobre figura de velha fidalga, a snr.ª Porhoet, que, atravez dos gelos dos seus oitenta annos, entreve os caprichos architectonicos d'uma sonhada cathedral, em cuja edificação consumirá os fabulosos haveres a que se habilita por um antigo pleito.
Ha uma doce poesia religiosa n'esta veneranda figura de mulher, em cujos sonhos se lhe entremostra a esplendida cathedral, arremessando para o azul os seus corucheos phantasticos, as suas agulhas floreadas, que se enlabyrintham n'uma aerea floresta de marmore.
Este templo que a pouco e pouco se vai erguendo na sua phantasia senil, porque todos os dias a snr.ª Porhoet modifica a direcção de uma linha, a architectura das longas naves magestosas, os finos labores dos ornatos, resume todo o seu pensamento, é a sua ideia fixa, a sua vida.
Similhantemente á snr.ª Porhoet, o moço rei de Hespanha principiou a planear, na solidão da sua alma, uma bazilica não menos grandiosa, cujo phantasioso zimborio cobrisse ao mesmo tempo o altar de Nossa Senhora e o sarcophago definitivo de Mercedes.
N'esse vasto templo, sonhado pelo rei de Hespanha, o amor e a saudade entralaçarão os longos cordões de pedra que formarão as columnas, tecerão as formosas rendas de marmore que se recortarão em ondulações caprichosas, elles ambos architectarão as abobadas, levantarão os altares, guardarão, como dois anjos lacrimosos, o cinerario de Mercedes.
Será esse o mais formoso poema que a saudade concebeu até hoje; poder-se-ha chamar á projectada bazilica de Santa Maria de Almodena o templo christão do amor, como a Batalha é o templo christão da victoria.
O vento ao perpassar pelas flechas da bazilica suspirará elegias á bella rainha que alli dorme, sob as azas de Maria; e o sol, o sol formoso da peninsula, procurará reanimar, com os seus beijos de luz, o cadaver da noiva mallograda.
Todos os annos sahirá da lista civil um milhão de reales para a edificação do templo grandioso. Annualmente, o duque de Montpensier e a princeza das Asturias auxiliarão com duzentos mil reales cada um a realisação d'esse religioso sonho do rei. Os diamantes e joias existentes na egreja da Atocha, que pertencem á mãe de Affonso XII, foram por ella cedidos, a pedido do filho, em favor do esplendido monumento projectado. A carta de cedencia diz assim:
«Filho da minha vida. Acabo de abraçar o duque de Montpensier, que me entregou as tuas cartas. Vendo-as, vejo que como rei catholico e como gentilhomem sentes as tuas dôres e pensas em Mercedes, refugiando-te em Deus, e querendo fazer bem á tua capital; queres sobretudo depôr aquelles restos queridos aos pés da Virgem, n'um grandioso templo.
«A tua mãe, meu filho, não só consente que as joias da Atocha sejam vendidas, mas ainda te abençôa, e se associa ao teu projecto digno de um rei, de um christão, e de um bom esposo.
«Para isto como para tudo o mais conta sempre, Affonso, com o immenso amor, e com a cooperação de tua mãe, que deseja tornar bem conhecido que de longe é e será sempre a mesma para Madrid, para a Hespanha, e para o seu rei.
«Recebe mil beijos, bem como os filhos da minha alma, e para todos vós a benção da tua affectuosa mãe
_Isabel_.»
Será, pois, a bazilica de Santa Maria de Almodena, levantada sobre columnas de lagrimas e de diamantes, um novo e maravilhoso templo de Salomão, cujos esplendores deslumbrarão a phantasia dos artistas e dos poetas. Mais feliz do que a velha snr.ª Porhoet, o moço rei de Hespanha logrará vêr realisado o seu ideal. E esta bazilica assombrosa será, para assim dizer, a ultima pagina do melancolico romance da rainha Mercedes. A arte escreverá a palavra final n'este grande poema que o amor concebeu e que a saudade rociou de uma dôce chuva de lagrimas.