Part 2
Estava a côrte em Aranjuez. Passeiavam o rei, sua prima Mercedes, a infanta Christina, o duque de Sexto, as damas de honor, sob o arvoredo da Cintra hespanhola. De repente, pela estrada de Toledo, roda uma carroça, envolta em turbilhões de poeira. Com uma simples palavra, o rei faz detel-a. Sobe para ella, quer que sua prima suba. A dama de honor de Mercedes sobe tambem. Parece a todos um capricho de rei, um brinco de adolescente. Ah! mas não era só isso... D. Affonso, em pé, vigoroso e alegre, solta as bridas á parelha, faz estralejar o chicote. Parte a carroça n'uma carreira doida. Sobresalta-se a côrte com a imprudencia; gritam, chamam...
O que! Quem póde deter esse vertiginoso vôo do Amor, Phaetonte que parece ir despenhar-se n'um mar de fogo?!
Era o primeiro momento de liberdade, mas ainda assim incompleta, porque havia dois ouvidos extranhos. A dama de Mercedes não fallava allemão; foi justamente por essa razão que os dois primos escolheram essa lingua para as suas confidencias.
E emquanto as nuvens de pó se enovelavam sob as patas de duas possantes mulas hespanholas, e o chicote estralejava elegantemente vibrado, emquanto pareciam correr para um abysmo, n'uma aventura romantica, dizia a sua prima Mercedes o rei de Hespanha, em puro idioma teutonico: «Deixa dizer o que disserem, e fazer o que fizerem, has-de ser minha mulher. Mas guarda segredo.»
Mercedes pôz o dedo sobre a bocca, e sorriu.
Então o rei refreou as bridas á parelha. A carroça começou a rodar suavemente. A dama de honor agradecia provavelmente a Deus o havel-a livrado de um perigo, que as palavras mysteriosas do rei lhe fizeram de certo receiar cada vez mais. E D. Affonso tambem agradecia á Providencia o presente d'aquella carroça, d'aquelle instante de liberdade.
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JUBILOS
V
JUBILOS
O rei D. Affonso XII soube vencer, por um trabalho lento, surdo, perseverante, as difficuldades que a politica naturalmente havia de levantar contra um casamento de inclinação, especialmente n'um paiz tão desorganisado, tão inquieto como a Hespanha. A politica, firme no seu papel, quereria decerto que o rei casasse ao sabor das paixões partidarias; cada facção desejava porventura que a nova rainha de Hespanha representasse no throno as ideias que mais lisonjeassem as suas ambições. As mulheres são como as flôres; diga-se mais uma vez. Teem muito do paiz em que nasceram: n'um sorriso feminino revela-se a cada momento uma nacionalidade. Ora a princeza extrangeira que fosse sentar-se no throno hespanhol, se pertencesse, por exemplo, a uma forte nação, profundamente monarchica, agradaria especialmente aos affonsistas, que veriam n'essa alliança uma ancora capaz de aguentar, contra os mais rebeldes temporaes, a açoitada nau da monarchia hespanhola.
O rei tinha de vencer, portanto, a obstinação dos seus amigos, o que ás vezes é ainda mais difficil do que vencer a pertinacia dos inimigos. Para conseguir a victoria, era mister um grande trabalho de paciencia, de tenacidade. Apezar de muito novo, o rei soube aplanar o caminho, vencer os obstaculos, triumphar.
No dia em que fez vinte annos, a sua obra estava realisada; podia já declarar á Hespanha, e depois á Europa, que elle procurava no amor a estabilidade do throno, porque nenhum laço ha ahi mais forte do que o amor.
«Quando a minha patria vir, pensava certamente o rei, que a familia real de Hespanha offerece, como todas as outras, um doce espectaculo de vida tranquilla e simples, quando reconhecer que somos todos hespanhoes, na côrte e fóra da côrte, sentir-se-ha cada vez mais identificada com a monarchia que resuscita em mim, verá na minha familia o espelho da sua, nos meus filhos uns irmãos, ao passo que eu verei nas familias de Hespanha como que uma reproducção multipla da minha, porque todos serão meus filhos.»
Entrincheirado n'estas nobres convicções, havendo vencido pela perseverança todas as difficuldades politicas, o rei pôde emfim fazer annunciar o seu casamento pelo ministro dos negocios extrangeiros ás côrtes da Europa.
Em Portugal, pelo menos, esta noticia foi recebida com profunda sympathia. Em Lisboa a princesa Mercedes era conhecida, estimada; o rei D. Affonso tambem. Um casamento por amor chama sempre sobre si as bençãos dos que teem coração; especialmente quando os noivos deixaram no nosso animo uma grata impressão.
Portugal abençoou-os pela bocca da sua imprensa, como se em verdade se não tratasse de um casamento de principes, mas de dois simples primos enamorados, que, depois de haverem regressado á patria, iam santificar á beira do altar as suas alegrias da infancia e as suas tristezas do exilio.
Dez dias depois do vigessimo anniversario do rei, partiram para Sevilha o marquez de Alcañices, o duque de Sexto, o marquez de Frontera, e D. Fernando de Mendonza a pedir officialmente a mão da bella princeza. Era, finalmente, o epilogo do gracioso episodio da estrada de Toledo. Perto de Aranjuez, o ousado conductor da carroça dissera, fustigando a parelha, _digam o que disserem, e façam o que fizerem, tu has-de ser minha mulher; mas guarda segredo_. Mercedes soubera ser discreta como a estatua do silencio. Mas os emissarios do rei de Hespanha, entrando no palacio de S. Telmo, aclararam o mysterio d'aquella tarde aventurosa.
A dama de honor da princeza aprendeu talvez n'esse momento a traduzir allemão...
Dias depois, partia para Roma um enviado a solicitar a dispensa de parentesco. Roma respondia mandando ao mesmo tempo a dispensa, e a bençam do papa para essa união celestialmente harmoniosa, como diz a tradição indiana. Affonso e Mercedes iam finalmente casar, segundo a expressão catholica, com o osculo de Deus.
Então, ao passo que a phantasia do rei se comprazia em povoar de _bijoux_ encantadores o ninho conjugal, a Hespanha preparava-se para uma grande festa, a festa do amor. A municipalidade de Madrid abria o seu thesouro para resuscitar as tradições cavalheirescas da Hespanha, os torneios, as touradas, os jogos floraes; Sevilha escrevia palavras de felicitação e encerrava o manuscripto dentro de um cofresinho delicioso, cravejado de brilhantes; Valencia colhia as mais raras, as mais mimosas flôres para enviar á rainha um _bouquet_ colossal; Barcellona preparava os seus mais delicados artefactos para envial-os aos noivos, como preito da industria á monarchia; finalmente, estas e outras provincias queriam assistir á festa, e mandavam a Madrid vinte e cinco grupos de camponezes, que representassem, em toda a puresa do trajo popular, a individualidade ethnica de cada uma, de modo que os reis sentissem que tinham a Hespanha inteira á volta de si...
A Europa tambem não faltou na festa: as côrtes extrangeiras mandaram embaixadores. Uma onda de curiosos, de _touristes_ invadiu Madrid.
Entretanto o rei, com a delicada imaginação de um poeta, com o fino gosto de um amante, dirigia em pessoa a ornamentação da camara nupcial; e, perdidamente enamorado, aproveitava uma recente invenção de Edisson, o telephone, a fim de dialogar de Madrid, onde estava, com Mercedes, que esperava em Aranjuez o dia da ceremonia nupcial.
O casamento realisou-se em janeiro de 1878; pois, não obstante a estação, fazia em toda a Hespanha um tempo de primavera.
Mas no meio d'esta festa geral, profundamente hespanhola, alguem que quizesse procurar dolorosos vaticinios, havia de encontral-os atravez das alegrias nupciaes que atapetavam de flores de laranjeira o solo da cavalheiresca Hespanha.
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PRELUDIOS
VI
PRELUDIOS
De um beijo trocado entre o amor e a elegancia nasceu a ornamentação da camara nupcial do rei de Hespanha. O amor forneceu as lembranças delicadas, as apaixonadas galanterias, os objectos symbolicos; a elegancia, que é tanto maior artista quanto mais desleixada parece, distribuiu-os sorrindo, lançou-os como ao acaso, dispersou-os como se tratasse de espalhar uma nuvem de flores: brincando. D'esta allianca nasceu um idyllio em vez de uma camara, um palaciosinho feito de maravilhas dentro de um palacio feito de pedra; um ninho tecido de preciosidades para receber um par enamorado; dirieis que um poeta omnipotente conseguira realisar um sonho de riquesa e felicidade architectando aquelles aposentos com pedaços de crystal e raios de sol.
As ideias mais tristes e mais terrenas tomavam alli uma encarnação phantastica. Nada mais atrozmente positivo que a lembrança de que o tempo foge com uma velocidade insensivel, de que nem com punhados de ouro se póde embargar-lhe o passo. Mas o amor, nos aposentos destinados á rainha Mercedes, até sobre os relogios soube poisar sorrisos, de modo que o tempo deixou de ser cruel alli. Era o amor quem devia avisar a rainha de Hespanha das horas que fugiam, mas com tal encanto obrigára o relogio a fallar, que certamente as horas pareceriam breves, muito breves. Sobre um pedestal de marmore branco, dois amantes enlaçados n'um beijo longuissimo, estendidas as mãos para um livro, que um Cupido de ouro abria, indicando uma phrase--_Para sempre_: esta graciosa pendula devia recordar a Mercedes, hora a hora, que o tempo fugia mas que o amor ficava. _Para sempre_, em vez de ser a cruel ameaça da eternidade, tornava-se uma promessa de felicidade ininterrompida. O leve rumor da pendula pareceria, de instante a instante, o rumor de um beijo: olhando para os dois que se beijavam sobre o pedestal de marmore, a rainha de Hespanha acreditaria facilmente que o esculptor primoroso soubera animar o bronze.
A França mandára para alli, para aquelle édensinho principesco, quanto de maravilhoso as artes haviam produzido. O que os reinados de Luiz XV e Luiz XVI viram de mais assombroso, espalhou-o n'aquelles aposentos a mão de uma fada. A par das grandes obras da arte, as pequenas coisas galantes. O amor tem o seu tanto ou quanto de selvagem: quer engalanar-se com constellações de missangas. Os ramilhetes seccos, uma luva, um lenço eram alli as missangas do amor. Tudo aquillo pertencera a Mercedes: portanto era justo que tudo aquillo completasse o idyllio.
Na atmosphera, um suave conjuncto de aromas delicadissimos, subtis;--este perfume tenue mas penetrante que faz lembrar a respiração das coisas bellas.
A luz, nitida, mas discreta, sem os tons petulantes com que ella invade as alcovas burguezas.
O que quer que fosse de branda indolencia, de deliciosa preguiça na luz, nos moveis, nos perfumes. Quanto alli estava parecia viver, mas dormir. Era uma alvorada sem canticos, banhando n'uma serenidade narcotica a sua formosura.
Fóra, a contrastar com esta extranha placidez que esperava alli os noivos, a anciedade do publico, o rumor das praças, o rodar das equipagens, o estrepito das fanfarras, o tumultuar de uma cidade em festa.
As damas da primeira sociedade preparando as suas _toilettes_ enormemente ricas: só o vestido da duqueza de Santonia, costurado em Paris, valia onze contos de reis.
A princeza Mercedes, no palacio de Aranjuez, remirando, n'um encantamento de felicidade e de surpresa, os brindes maravilhosos que de toda a parte lhe mandavam: o rei, uma corôa de brilhantes, um _pendant_, de Froment Maurice, um bello camapheu antigo com uma allusão mythologica; Izabel II, um manto de velludo, estrellejado de ouro, acolchoado de arminhos; D. Francisco de Assis, uma corôa real constellada de diamantes, um raio de sol cinzelado em diadema.
Á volta da formosa hespanhola, que ia ser rainha, as suas novas damas de honor, as duquezas de Bailen e de Ahumada e a condessa de Villapaterna acercando-lhe, como n'um sonho féerico, todos esses brindes encantadores, todas essas maravilhas, que pareciam destinadas a uma noiva de ballada mediévica.
A bazilica da Atocha aberta de par em par para receber os dois que se amavam. Deante do portico do templo, um arco de triumpho colossal, construido pelos invalidos, formado de canhões, de armas, de tropheus de bandeiras conquistadas, um pensamento cavalheiresco a completar a festa do amor, que ia ser abençoada por Deus.
Ide. Deus vos espera, noivos.
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A BENÇÃO
VII
A BENÇÃO
O cortejo nupcial era imponente, magestoso.
A grandesa das velhas côrtes europêas resuscitou n'aquelle dia sob o céo da formosa Hespanha.
Houve um momento de silencio e de anciedade quando se avistou a vanguarda do prestito, quando o cavallo do timbaleiro, ricamente ajaezado ao antigo estylo hespanhol, constellado de brazões, rompeu a marcha, seguido por um esquadrão de cavallaria, pelos arautos, e por vinte corceis arreiados ao tempo de Carlos V.
Depois começou a desdobrar-se a longa fila das carruagens, em numero superior a duzentas. Na frente, as do conde de Paris, da rainha Christina, dos fidalgos da casa do rei, dos mordomos de semana, das infantas irmãs do rei, de D. Francisco de Assis. Empós, o coche deslumbrante da princesa das Asturias, um antigo coche de tartaruga, incrustado de ouro, com as arestas cobertas de grinaldas de flôres, que um artista do seculo XVII pintou; interiormente forrado de setim, com lavores do tempo de Luiz XVI; tirado por oito cavallos emplumados e ladeado por officiaes da casa real. Dentro d'esta berlinda encantada destacava o busto gracioso da princeza, que cingia o manto de côrte sobre um vestido de velludo vesuvio, bordado a cravos de varias côres. Esta visão encantadora, que o sol parecia rodeiar de reflexos phantasticos, não tinha ainda desapparecido, e já outra, verdadeiramente féerica, attraía o olhar.
Era a carruagem do rei.
As esplendidas librés á Luiz XVI, ostentando as côres dos Bourbons, quatro parelhas com jaezes cuja riqueza só podia competir com a das librés, os homens das maças, os picadores, os criados a pé, que se affiguravam barras de ouro a andar, como disse por esse tempo um jornalista, eram como que uma muralha transparente, tecida de ouro e de sol, atravez da qual os procurava com a vista a figura esbelta de rei dentro da sua carruagem olympica.
Excede tudo o que se possa imaginar esta velha carruagem real, que já tem dois seculos de existencia, feita de acajú, com ornatos de bronze dourado, encimada por um grupo de figuras mythologicas, que se enredemoinham aos abraços n'uma lucta confusa, sob o peso da corôa, que remata esse zimborio de um trabalho cellinesco. A caixa do trem arquea-se sobre laminas douradas, á similhanca das carruagens de gala da côrte portugueza. O interior, acolchoado de setim, cheio de paizagens, de figuras bordadas, emmoldurava o perfil do rei, que vestia a sua grande farda de general, com o tosão de ouro sobreposto.
Mais tres carruagens, de um esplendor levantino, completavam o numero dos coches de gala: uma de ébano e de lapis-lazuli marchetada de ouro; outra de marfim, e a ultima de crystal de rocha, uma especie de barquinha de vidro, que tremeluzia ao sol, como se se fosse movendo sobre uma onda azul do mar Jonio.
Uma escolta numerosa encerrava este cortejo phantastico, que passava deslumbrando como no fundo de um kaleidoscopio.
Tudo havia sido dirigido em tão exacta conformidade com o programma, que a carruagem do rei chegou á bazilica da Atocha ao mesmo tempo que a da princeza Mercedes.
Sob O arco de triumpho, o cardeal Benevides, patriarcha das Indias, acompanhado pelo nuncio apostolico e por quinze bispos, esperava os noivos.
Affonso XII foi recebido debaixo do pallio de velludo vermelho bordado a ouro, ondulante de grandes plumas brancas, que faziam lembrar o adejar de um bando de pombas irrequietas.
Atraz do rei seguia o conde de Paris, que vestia a farda de tenente-coronel do exercito hespanhol; os duques de Montpensier, trajando a duqueza um vestido de setim amarello e preto; as infantas irmãs do rei e da rainha, que levavam mantos de côrte e vestidos de _faille_ azul celeste, guarnecidos de crepe liso, estrellejados de perolas finas, e arregaçados por _bouquets_ de rosas brancas e de myosotes.
Empós este coro nupcial que rodeiava Mercedes, este bello grupo de princezas, e de damas nobres como a duquesa de Sexto, que vestia de setim vermelho com rendas de Alençon, e a condessa de Guaqui, que trajava vestido de setim branco guarnecido de pennas de abestruz e perolas finas, entraram no templo o senado, os deputados, e o corpo diplomatico.
O rei subiu ao throno, onde a sua gentil figura se conservou de pé alguns momentos, e desceu depois para ir ao encontro da sua noiva, que vestia de tafetá branco, bordado com innumeros _bouquets_ de rosas nevadas, roçagando sobre o tapete do templo, entretecido por cem senhoras da primeira sociedade hespanhola, a sua immensa cauda.
Então celebrou-se a missa, que foi expressamente escripta pelo compositor cubano Villate, author da opera _Zilia_, e o patriarcha das Indias cruzou sobre os noivos a benção nupcial. Este acto foi acompanhado por uma allocução do patriarcha, depois da qual, subindo a rainha ao estrado, o patriarcha fez ouvir esta solemne saudação: «A Egreja sauda-vos rainha de Hespanha.»
Cantado o _Te-Deum_, D. Affonso XII e a eleita do seu coração subiram á carruagem real. O magnificente cortejo atravessou as ruas de Madrid por entre nuvens de pombas, que, lançadas das janellas, n'um numero prodigioso, esvoaçavam ás doidas por sobre as carruagens.
Nos labios do rei desenhava-se um fino, um doce sorriso de felicidade, cuja expressão se póde traduzir n'uma só palavra: «Emfim!»
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FESTAS
VIII
FESTAS
Seguiram-se as festas. Madrid accendeu-se como um só facho phantastico, cujos largos reflexos prysmaticos e agitados faziam lembrar um enorme _bouquet_ de luz, osculado pela viração da noite. O Prado affigurava-se uma montanha de estrellas; as fontes de Neptuno, de Cybele e de Apollo jorravam scentelhas. Os palacios particulares, entre os quaes avultava o do marquez de Campos, pareciam feitos de crystal illuminado. Nas ruas, a multidão fremente ondulava como a superficie de um oceano. Fallava-se, bailava-se, cantava-se ao som dolente da guitarra. Os trovadores populares recitavam epithalamios no velho estylo romantico, cheios de pomposa rhetorica: «Luz que inundas de fulgôres os horisontes da patria; arco-iris da paz, penhor de felicidade, vive feliz e cumpre a tua missão.» Na praça de la Armeria seiscentos musicos e quatrocentos cantores entoavam um côro grandioso. Na Porta do Sol tres focos de luz electrica conservavam uma claridade metallica, prateada. A transição da noite para a aurora não se sentiria, se o sol não parecesse pallido, um sol de noivado, alegremente desbotado e malicioso, a todos os que ainda tinham os olhos habituados aos esplendores das fontes luminosas do Prado.
No dia seguinte, 24 de janeiro, cantou-se na capella real de Santo Izidro o _Te-Deum_ que as auctoridades de Madrid e a deputação provincial tinham resolvido mandar celebrar. Este acto religioso fez despertar a côrte, recomeçar o movimento das carruagens brasonadas. O rei e a rainha faltaram a esta festa, demasiadamente matutina, mas appareceram, radiantes de felicidade, na sala do throno, á hora da recepção: o rei vestido de capitão-general, com as suas gran-cruzes traçadas sobre o peito, a rainha em _costume_ de côrte, de côr de rosa, que é a côr predilecta das noivas.
Na tarde d'esse dia, Luiz Godard, areonauta por hereditariedade, realisou no campo de Móro, em frente do Palacio Real, a ascenção de um enorme balão, que media setecentos metros, e que se elevou desdobrando as alegres côres hespanholas no seu monstruoso bojo de seda.
Na tarde do dia seguinte, uma festa verdadeiramente hespanhola despertára o mais vivo enthusiasmo. Dezeseis mil espectadores affluiram á tourada em que um grupo de moços fidalgos, e outro grupo dos mais famosos espadas de Hespanha, Frascuelo, Angelo Pastor, Gayetano Sanz, realisaram proezas de ousadia tauromachica.
O rei e a rainha, depois de haverem recebido vinte e cinco pares de noivos, que se tinham casado no mesmo dia em que o rei casou, e que vestiam o trajo pittoresco das provincias a que pertenciam, deram entrada na tribuna real da _Praça dos Touros_, radiantes de uma franca alegria juvenil, cheia de scintillaçoes e de sorrisos.
Então começou a festa, deslumbrante de grandeza, de magestade. Rodaram na arena os grandes carros que conduziam os toureiros amadores, acompanhados pelos seus patronos, grandes de Hespanha. Depois entraram os _espadas_, impávidos, esculpturaes, preparados para a lucta; os bandarilheiros, traçadas as capas de côres vivas sobre o braço direito; por ultimo os arautos vestidos á Henrique III, e o carro de morte, a tumba, tirada por cavallos que sacudiam cocáres multicores, e fitas variegadas.
Estava alli a Hespanha, nobremente selvagem, a Hespanha que oppõe Tarifa a Tanger e Algeziras a Ceuta, a Hespanha que por sobre o estreito estende um braço para a Africa, como para receber de lá o que quer que seja de rude; esta grande e bella Hespanha que se diverte applaudindo um espectaculo de sangue, como se no sangue ainda quente visse apenas, não a morte, mas a força, a vida dos que morrem pelejando, combatendo; esta ardente e incomprehensivel Hespanha que n'esse mesmo dia, como sempre, passou d'esta festa de morte, do circo romano para o theatro da Opera, da tempestade para a bonança, de Frascuelo e de Pastor, para Chapi, a musica, e para Borghi-Mamo, o canto, da tourada, uma carnificina, para _Roger di Flor_, uma partitura.
O _Theatro Real_, n'essa noite em que se cantou o _Roger di Flor_, tinha um aspecto de grandeza oriental, porque uma facha de diamantes, que scintillavam sobre o peito das damas da côrte, formava um circulo de luz verdadeiramente deslumbrante, phantastico.
No dia seguinte, concerto no theatro Apollo; no dia 27, revista militar em que trinta mil homens tomaram parte; depois... um diluvio de festas ruidosas, soberbas, e, no futuro--quem sabe?--talvez uma sombra, uma grande dôr, o reverso d'este quadro maravilhoso...
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PRESAGIOS
IX
PRESAGIOS
Por entre o resplendor das festas atravessa não raras vezes uma sombra fugitiva, que deixa no nosso espirito uma ligeira impressão. É a desgraça que passa agitando subtilmente a sua grande aza negra; adivinhando-a, nasce em nós o presentimento.
Por entre as enormes lampadas de ouro, que, no dia da benção nupcial, illuminavam a bazilica da Atocha, adejou essa terrivel ave presaga, e, demorando-se um momento sobre uma das capellas lateraes, chamou para aquelle ponto a attenção de quantos alli tinham mais fina sensibilidade. Comprehendendo, estremeceram esses que viram isto. N'essa capella, um monumento de estylo antigo, um sarcophago de ferro com embutidos de ouro, guarda os restos mortaes do general Prim. Haviam escondido o tumulo para que elle não fizesse ouvir a sua voz sinistra por entre os canticos religiosos, e os hymnos da festa. Mas, postoque escondido, o tumulo fallava, e o presentimento chamou a attenção para o que elle dizia. Era a ideia da morte, do invencivel poder que tudo derruba, que desfolha todas as grinaldas, que envenena todas as felicidades: adivinhava-se tudo isto. Involto em tapeçarias, para que se não deixasse vêr, o gigante, se não podia bracejar, deixava presentir o seu vulto; de mais a mais aquelle tumulo era o do general Prim: poisavam sobre aquelle sarcophago dois vaticinios terriveis.
Quem sabe, ai! quem sabe! se Mercedes, a noiva ditosa, ao inclinar a fronte deante do patriarcha das Indias para ligar o seu destino ao do rei de Hespanha tão moço e tão namorado como ella, não relanceara involuntariamente o olhar para aquella capella que escondia um tumulo, e não sentira no coração a dôr lancinante de uma punhalada vibrada por mão invisivel! Quem sabe até se uma lagrima, uma lagrima crystallina e esquiva, não rociára por momentos a face da bella hespanhola, refrangendo a luz dos lampadarios! Se alguem viu essa lagrima, se o rei D. Affonso a surprehendeu, tomal-a-ia por uma d'essas perolas em que a alegria, quando é profunda e immensa, se desentranha, porque a lagrima é o verbo mudo de todas as grandes commoções.