O Romance da Rainha Mercedes

Part 1

Chapter 13,823 wordsPublic domain

E-text prepared by Pedro Saborano

O ROMANCE DA RAINHA MERCEDES

PORTO--TYP. OCCIDENTAL--PICARIA, 54.

A. PIMENTEL ---------------

O ROMANCE DA RAINHA MERCEDES

PORTO LIVRARIA PORTUENSE--EDITORA 121--Rua do Almada--123 1879

_... et erunt duo in carne una_ GENESIS, cap. II, V. 21.

OS REIS

I

OS REIS

Que secreto mobil determina as evoluções da humanidade atravez dos tempos? Que mysteriosa lei regula os destinos das sociedades no discorrer dos seculos? Eis o grande problema que ha duzentos annos preoccupa o espirito humano. É a Providencia: diz Bossuet. As nações teem uma natureza commum; a humanidade é obra de si mesma: sustenta Giambattista Vico. É a influencia do clima: propõe Montesquieu. É a fatalidade cega: proclama Voltaire. É Sua Magestade o Acaso: teima Frederico II. É a situação geographica: aventa, por sua vez, Herder, o philosopho allemão. E todavia o problema ainda não está resolvido, a grande duvida permanece não obstante os incontestaveis progressos da philosophia cada vez mais pejada de systemas...

Os acontecimentos succedem-se n'uma variedade caprichosa, que parece intencionalmente destinada a desorientar os philosophos da humanidade e da historia.

Hontem os reis eram personalidades sagradas, representavam na terra o poder divino. D'esta alliança do céo com o throno nasceu a corôa encimada pela cruz. O montante real estava ao serviço da religião; dizimava, como um vendaval de morte, os exercitos dos que não tinham a mesma crença religiosa. Beijava-se a mão dos reis como ainda hoje se beija a fimbria do vestido de uma santa. Elles eram recebidos, por toda a parte, debaixo do pallio, como uma reliquia. Os que os viam, ajoelhavam, como se faz para orar.

Hoje... Hoje os reis, no mesmo dia em que sobem ao throno, sonham com a via dolorosa do exilio. Sobre os almadraques do aposento real estão os preparativos indispensaveis para a jornada do desterro: o bordão do peregrino, e o chapeu do romeiro. No meio dos saraus da côrte ou nas horas silenciosas da meditação, elles ouvem, como um rumor sinistro, como uma voz presaga, o echo da revolução que se aproxima, como uma onda enorme, ameaçadora. Olhando para seus filhos, estremecem de horror, porque se lembram de que talvez um dia aquellas mimosas creanças terão de sentar-se á mesa do sapateiro Simão. Muitas vezes, contemplando o perfil melancolico da mulher que com elles comparte os cuidados da realesa, julgarão talvez que ella está já sob a pressão de uma loucura saudosa, como a viuva de Maximiliano. Um dia, d'entre o povo que outr'ora os abençoava, ergue-se um braço regicida, o de H½del ou de Nobiling, de Moucosi ou Passavante. Até a vida dos reis principia a ser disputada nos clubs secretos, como se fosse de uma fera. As arvores das alamedas publicas sacodem ao vento umas folhas crestadas e crivadas, como na _Avenida das tillias_; passou por ellas o fogo que devia fulminar o rei. Transformação completa!

Cesar Cantu deu por base á Historia as ruinas. Assim é com effeito. Esta pyramide, que memóra os seculos, e que se chama a Historia, é feita d'escombros. A hora em que desabam os thronos, sobram portanto os materiaes para historiar, a não ser que alguem os queira aproveitar para levantar cadafalsos como no tempo de Luiz XVI.

Nós temos pelos reis, n'esta hora tão açoitada de paixões politicas, um respeito melancolico, uma consideração dolorida. Vemos n'elles, desde que nascem, os escravos de uma corôa. Muitas vezes quizeramos repartir com elles a nossa obscura liberdade de fallar, de trabalhar, de viver. Desejavamos dar-lhes o nosso direito de se desafrontarem pela penna, pela palavra, pela espada. Folgavamos de lhes poder pôr no peito um coração para amar, para eleger esposa, como todos nós fazemos--menos elles. Depois, quando os vemos partir para o exilio, já velhos como Napoleão III, ainda creanças como Affonso XII, assistimos pela imaginação aos mais intimos episodios da vida de familia, que para elles deve de ter ao mesmo tempo o encanto da surpresa e o travor da amargura, o que faz com que nem no exilio sejam inteiramente felizes os reis.

Affonso XII offerece, na historia das monarchias modernas, um exemplo notavel: principiou por onde os outros acabam,--pelo exilio. Conheceu-o, sendo ainda principe. O seu coração formou-se lentamente na saudade confusa da patria, e no habito de ouvir pronunciar a palavra--destêrro. Ao passo que os mais obscuros collegiaes da provincia fallavam, no collegio de Theresianaw, em Vienna, nos bosques e nos campos da sua terra natal, o filho da que havia sido rainha de Hespanha olhava melancolicamente para as arvores que a Austria lhe emprestava por compaixão, e não tinha siquer uma recordação da infancia para acrescentar áquelle poema de saudade que os seus condiscipulos estavam devaneiando.

Mas o principesinho hespanhol pôde, sem o suspeitar decerto, tirar do exilio um grande ensinamento: que um rei deve preparar-se para o exilio. Como? Obstinando-se em amar livremente. Escolhendo noiva, em vez de acceitar a que lhe escolheram. Procurando uma mulher que, pelo amor, possa supprir a patria, quando a rainha desappareça.

Por isso, depois que o golpe de estado de Martinez Campos o chamou ao throno onde porventura encontraria ainda alguma pallida flôr desprendida das tranças de uma bella italiana, a rainha Maria Victoria, e quando de repente, no meio das pompas da acclamação, cuidou ler mais uma vez n'essa flôr desbotada a triste verdade da instabilidade das monarchias modernas, Affonso XII lembrou-se de que se devia preparar para o exilio, sem mesmo poder ter a certeza de que as petalas que encontrava esparsas sobre o throno de Hespanha fossem os despojos de uma grinalda da princeza de Aosta ou da rainha Izabel, sua mãe...

Desde esse momento a imagem adorada de Mercedes, a neta de um rei desthronado, fixou-se no seu coração. A imaginação peninsular do rei idealisou a desgraça do exilio, como se nunca a houvesse conhecido, tendo aquella mulher ao pé de si. Com ella, levaria a familia, para onde quer que fosse, e a patria, porque ella tambem era hespanhola. Então principiou a desdobrar-se aos olhos da Europa o formoso poema da resurreição dos grandes amores antigos e cavalheirescos.

Como nos romances da idade media, o braço descarnado da morte imprimiu n'esse poema escripto em folhas de rosa o sêllo de uma fatalidade mysteriosa, extranha. O lucto da viuvez envolveu de repente o throno de Hespanha e o coração do rei amantissimo.

É a historia d'esse grande amor e d'essa grande fatalidade o que nós intitulamos, aproveitando o doloroso colorido dos factos, _O romance da rainha Mercedes_.

* * * * *

ELLE

II

ELLE

O rei de Hespanha faz lembrar estas plantas mimosas que, nascendo no topo de um outeiro batido dos ventos, se tornam fortes. Creado nos regalos da côrte, educado sob a influencia da tradição religiosa do seu paiz, parecia unicamente destinado a ser algum dia um simples rei catholico e constitucional, como os seus antecessores. Como elles, seguindo as praxes da primogenitura, depôz o seu vestido branco no altar da Virgem da Atocha, e vestiu um uniforme militar para cumprir o velho estylo tradicional, que, desde os primeiros annos da existencia, rouba toda a originalidade, annulla todas as disposições naturaes aos principes destinados ao throno.

O sentimento poetico, que tanto dulcifica os costumes, e que prepara a alma para a concepção do bello, bebeu-o certamente com o leite da robusta camponeza das Asturias, a quem a sua amamentação foi confiada. Mas esse germen de poesia, tão necessario á alma de todos os homens, especialmente de um rei, devia aniquilar-se na atmosphera dos paços reaes, na temperatura abafadiça das pragmaticas anachronicas, longe do espectaculo da natureza, e das grandes correntes do pensamento humano. Um rei, como uma flôr muito resguardada, é um producto meio artificial, por um vicio de educação, que já seria tempo de banir. Faltam-lhe as commoções profundas, as eloquentes lições da sociedade, a aprendizagem casual que robustece o espirito e o torna apto para a lucta. Recebe a instrucção como recebe a luz, o sol, e o ar: em pequenas doses regradas, systematicamente, para que o não molestem. Podia ser um bello espirito, mas a tradição faz d'elle um espirito vulgar. É pouco mais ou menos como seu pai; seu filho será como elle.

Mas ao rei Affonso estavam reservados acontecimentos que deviam modificar completamente a acção enervadora da educação palaciana. Passou os primeiros annos da vida no exilio, para onde a revolução arrojou sua mãe. Não viajou como um principe, como o futuro rei de Hespanha, sob as vistas de aulicos vigilantes e aduladores. Era então um simples particular, uma creança que podia vêr e ouvir, mediar e fallar, viver, n'uma palavra. Passando de paiz em paiz, esteve n'um collegio de França, depois n'outro de Vienna, por ultimo no de Sandhurst, em Inglaterra. Tratou de perto, deixem-me assim dizer, muitas ideias differentes, porque é forçoso convir em que as ideias da França não são precisamente como as da Austria, e as da Austria justamente como as da Inglaterra. A natureza, variando de contornos de paiz para paiz, varia tambem a sua lição. As creanças, que são, no fundo, a mais completa manifestação da natureza, porque são a natureza n'um estado de puresa immaculada, como que impregnam quem as conversa do espirito das nacionalidades que representam, sobretudo se quem as conversa é igualmente creança, porque n'esse caso a sua alma recebe profundamente as impressões, que ficam gravadas como caracteres alphabeticos sobre uma camada de cera. Ora o moço Affonso, em qualquer dos tres collegios, viveu sempre entre creanças, que não só representavam ideias differentes, mas tambem genios e classes differentes. Magnifica lição para qualquer principe que tivesse de occupar um throno! Ao pé do alumno fidalgo, o alumno burguez: ao pé do pergaminho, a riquesa; o alumno estudioso ao pé do alumno madraço: a força ao pé da inercia; o alumno intelligente ao pé do alumno estupido: a gloria ao pé da indifferença. Cada classe e cada genio equivalia a uma nova lição, porque, por mais estupida que seja uma creança, ella sabe sempre encontrar argumentos para desculpar o estado do seu espirito. «Não sou eu que não aprendo; é o professor que ensina mal; são os livros que não prestam.» O joven filho da rainha exilada habituou-se, portanto, a conhecer as individualidades atravez de todos os veus. Estudou os homens nos homens, o que é muito differente de estudal-os nos cortezãos, que são uma contrafacção. Não aprendeu exclusivamente para rei; aprendeu a sciencia da vida, praticamente, como se fosse um simples vassallo, porque o throno era para elle uma coisa muito incerta...

Foi assim que os vendavaes do exilio fortaleceram a planta mimosa. O que nascêra principe fizera-se homem. Teve, portanto, razão o duque de Miranda, quando photographou Affonso XII com uma simples phrase: _É um homem._

O maior elogio dos reis está precisamente em serem homens. Assim pensava uma antiga rainha de Castella, quando, fallando de D. João II de Portugal, dizia que elle havia sido _um homem_. E foi.

Mais do que qualquer outro throno da Europa, o de Hespanha precisa de reis que sejam homens. Ser rei em Hespanha é luctar. A historia falla eloquentemente. Carlos IV morreu no exilio; Fernando VII atravessa vinte annos de revolução; Izabel II é ainda hoje uma illustre exilada; Amadeu I deve conservar, como a vaga lembrança de um sonho, a ideia de ter reinado em Hespanha. N'esta serie de reis falta ainda uma nodoa de sangue entre Carlos IV e Fernando VII: É José Bonaparte. O herdeiro de tão revolta monarchia precisava ser um espirito forte, um homem perseverante, energico, mesmo audacioso. «_Io no soy de los reyes que se van. De muerte natural ó violenta moriré sobre el trono._» Estas palavras de Affonso XII dão a medida da justa comprehensão que elle tem do seu dever. Cesar morreu em pleno senado; Molière agonisou sobre o palco. Cada um no seu logar. A vida é uma batalha; cada soldado no seu posto.

Quando Affonso XII entrou em Hespanha para reinar, tinha aproximadamente vinte annos. Veio por mar, entregue aos caprichos da onda, porque um rei, desde que principia a sel-o, precisa de se entregar cegamente ao destino. Mas, logo que desembarcou em solo hespanhol para tomar o caminho de ferro de Madrid, em vez de uma chuva de flôres, esperava-o uma chuva de balas. O desespero carlista queria enviar a D. Affonso XII uma saudação de morte. Mas o rei passou impunemente, e o carlismo continuou a debater-se nas vascas da agonia. Era uma serpente que se revolvia entre chammas.

Então a Hespanha viu sobre o throno um rei profundamente hespanhol--no animo e na physionomia. Um dextro _torero_, um valente caçador, um cavalleiro eximio. Figura esbelta, _salerosa_, rosto moreno, cabellos pretos, bocca expressiva, dentes alvissimos. Um adolescente de _serenata_, um trovador de vinte annos sobre um throno de seculos.

Para completar o typo peninsular, um coração amante. Toda a vida de um hespanhol está no amor ou no ciume. O rei amava. Facto verdadeiramente extraordinario e ousado: um rei amar! Para um principe de vinte annos, uma princeza de dezesete. Mercedes, sua prima, era uma creança idealisada pela formosura. O rei amava-a em segredo, com um culto sagrado. Adorava-a.

* * * * *

ELLA

III

ELLA

A princeza Maria de las Mercedes, filha do duque de Montpensier, Antonio de Orleans, e da infanta hespanhola Maria Luiza, irmã de Izabel II, realisava, pelo nascimento, uma seductora consubstanciação, o enlace de duas fascinações. Por seu pae, francesa, por sua mãe, hespanhola, ella reunia em si as duas nacionalidades que maior relevo dão aos encantos femininos. Juntai a graça _francesa_ ao salero hespanhol, a alegria da França á vivacidade da Hespanha, juntai Pariz a Madrid, e tereis uma figura encantadora: Mercedes.

Ide aos _parterres_ das Tulherias, que foi um jardim de principes, colhei uma rosa d'aquellas com que outr'ora a imperatriz Eugenia enflorava os seus bellos cabellos, e deponde-a sobre uma fina jarra de Triana n'um palacio de Sevilha: havereis conseguido copiar a graciosa individualidade de Mercedes.

A França e a Hespanha começaram a disputar, á beira do berço da princeza, o direito de lhe conceder dons. Dou-lhe um raio de sol para os cabellos, disse a França. E eu os reflexos sombrios do azeviche, accrescentou a Hespanha. E da reunião d'estas duas dadivas nasceu a côr das tranças castanho-claras de Mercedes. Tratou-se de colorir-lhe as faces. Que façam inveja á perola, disse a França. Sim, mas os olhos pertencem-me, replicou a Hespanha; eu quero que os olhos sejam hespanhoes. Faces côr de mate; os olhos como os de Affonso, côr de noz. Era preciso animar a bella estatua. A França chamou Pariz, e disse-lhe: Derrama sobre o corpo d'essa gentil princeza as ondas d'esse fluido mysterioso a que em toda a parte se chama--a graça pariziense. A Hespanha chamou Madrid e disse-lhe: Temos n'uma só mulher uma princeza e uma hespanhola; extrae a mais fina essencia do teu _salero_ e concede-lh'a. Animada a formosa esculptura, disse a França: Pertence-me; é neta de um rei francez. Perdão, contestou a Hespanha, é neta de um rei hespanhol.

Quanto a educação, Mercedes havia sido creada como seu primo: no meio da sociedade. Os habitos democraticos de Luiz Filippe fizeram impressão em França; o rei quiz que seus filhos frequentassem as escholas publicas. D. Antonio de Orleans seguiu, n'este ponto, a tradição paterna. Como seu primo, Mercedes foi uma simples collegial. Usava, como as outras creanças, chapéu de palha com grandes abas, vestidos curtos, botinas sem saltos. Como as suas condiscipulas, associava-se ás pequenas rebelliões de classe; como as outras, soffria castigos, os enormes castigos femininos, passeiar meia hora n'um corredor, para que quem passasse a visse... Tambem como as outras, ou talvez mais do que as outras, brincava no _recreio_. Faltava ás suas companheiras a vivacidade hespanhola que a animava a ella, a pujança com que annos depois havia de fatigar ao _crocket_ um dos mais destros jogadores, o duque de Baños. N'outra coisa se distinguia ainda: tratavam-n'a por _madame_. Achou a superintendente do collegio que seria desarrasoado chamar menina a uma princeza, e princeza a uma menina. Cortou-se o nó gordio dando-lhe um tratamento que representasse uma certa superioridade moral: _madame_. Os quatorze annos da princesa, que os tinha então, riam-se alegremente por entre as velhas arvores da cerca, quando ouviam gritar: _Madame!_

Mas o que é certo é que _madame_ atravessando o collegio, como o principe das Asturias, adquiriu o conhecimento pratico da sociedade, aprendeu principalmente o valor que teem as lagrimas, porque as chorou nas horas de correcção ou de saudade pela sua familia, em particular por seu primo, e porque as viu chorar em circumstancias identicas. Ora uma boa rainha, para que não deixe de amparar os desgraçados, precisa de saber quanto custa o chorar. Tambem o collegio lhe deu por ventura uma exacta comprehensão do amor. Quasi todas as collegiaes tinham um primo ausente, idealisado pela saudade da terra natal e do tecto paterno; um companheiro de jogos infantis, um Paulo que, por sua vez, pensava áquella mesma hora em Virginia... Por elle choravam, fallavam d'elle baixinho, umas com outras. N'essas horas de intimidade desapparecia a _madame_. «Ó Mercedes, tu tambem tens um primo da tua idade...» «Tenho». E córava, e sorria.

Era o principe das Asturias.

De repente apparecia a preceptora. Então as dissimuladas confidentes modificavam-se: _Madame_ d'aqui; _madame_ d'alli.

E a gentil _madame_ de vestidos curtos afugentava com uma alegre risada sonora a lembrança saudosa do nobre priminho, e agitava os seus pequenos braços para suster na queda uma folha solta que vinha descendo do arvoredo, ou para cortar o vôo a uma borboleta iriada.

Quando o duque de Montpensier residiu em Lisboa, Mercedes, com suas irmãs, continuou a viver na sociedade, que era a primeira de Portugal, a gozar, no meio das regalias fidalgas, a desoppressão das etiquetas cortezãs. Ao mesmo tempo ia estudando o mundo atravez da sua ventarola sevilhana. E quem sabe? quem sabe se este céo de Portugal, este bello céo que é naturalmente quem nos faz amorosos, tão amorosos que até no extrangeiro temos fama de o ser, quem sabe se elle não emprestou para os idyllios de Mercedes os seus reflexos azues e as suas aureas radiações, se elle não contribuiu para divinisar na alma da gentil princesazinha a imagem adorada de seu primo?!

* * * * *

O AMOR

IV

O AMOR

A diplomacia moderna annullou o coração dos reis. Não é o amor a base das familias reaes; a diplomacia aconselha os principes reinantes a procurarem esposa segundo as conveniencias da politica internacional. Todo o homem tem o direito de escolher a mulher que mais o captivou pelos encantos ardentes da formosura ou pela serena attracção da virtude; de preparar o seu ninho conjugal com a doce phantasia de quem estivesse alfaiando um templosinho para uma divindade adorada; de antegostar pela imaginação as delicias de uma vida cheia de remanço e conforto, chilreada de palavras meigas, estrellejada com os reflexos luminosos dos sorrisos leaes e honestos; quer dizer, todos podem conquistar pela familia a immortalidade do coração, reviver pelo amor no futuro dos filhos idolatrados, todos--menos os reis. O que se exige dos monarchas não é, em primeiro logar, que constituam familia, é que constituam dynastia; em segundo logar o que se exige não é que simplesmente pensem na familia a que vão dar origem, mas que ponderem reflectidamente se a familia a que a princeza escolhida pertence reune as condições de riquesa e poderio que, segundo a politica, convém ter em vista. De modo que um rei não desposa uma mulher; casa com uma nação. Não é uma alliança individual; é uma alliança internacional. Depois que a diplomacia intendeu nos casamentos dos reis, são vulgares na historia de todos os povos os tristes romances em que as rainhas dissolutas perturbam a vida de uma nação inteira por um capricho do coração, sedento de amar. Dos casamentos diplomaticos resultam escandalos tamanhos como aquelle a que Portugal assistiu no tempo de Affonso VI. Ora os exemplos são tanto mais prejudiciaes quanto mais d'alto partem; parecem-se n'isto com as torrentes: quanto maior é o despenho, tanto maior é o impeto da agua. Os escandalos que se exhibem nos thronos teem um publico numeroso, a nação. Portanto, contaminam muita gente.

No velho codigo indiano de Manú, os casamentos de inclinação são chamados da _musica celeste_. N'esses casamentos de Deus, como diz ainda o nosso povo, ha com effeito uma harmonia santa, celeste. Sob a bençam da Egreja reunem-se dois corações em flôr, cheios de esperança e de alegria, de sonhos e de sorrisos. São duas primaveras que se enlaçam, e é certo que não ha primavera que não deixe vêr a Providencia por detraz do véo transparente dos seus jubilos. Aqui está, pois, explicada a expressão de Manú.

Affirma Lichtenstein que entre os cafres koussas não preside ao casamento o menor sentimento affectuoso. Pois a diplomacia parece tambem apostada em asselvajar os reis, em tornal-os á barbarie. Culpa da politica, quasi se poderiam comparar aos algonquinos, em cujo vocabulario falta um verbo que signifique _amar_; e dizemos quasi, porque nos lembrou que os reis costumam dizer officialmente: _Minha muito amada esposa_: existe a palavra, mas falta, as mais das vezes, o sentimento que ella exprime. O que é muito peior, porque representa uma falsidade, que as civilisações toleram.

Os vocabularios algonquinos são n'esse ponto mais sinceros...

Michelet disse n'um dos seus livros historicos que a Hespanha pendia para barbara, apezar do estreito; _l'Espagne tient à la barbarie, malgré le detroit._ Pois justamente á hora em que nos paizes mais civilisados os reis casavam obrigados pelos seus ministros, e nos paizes mais dôces, em que o céo e a terra parece deverem embalar a alma em branduras amorosas, não eram mais felizes nem mais livres; na Hespanha, apezar de barbara, como disse Michelet, um rei, que subia a um throno em que não estava ainda firmado, teve a coragem de repartir o seu coração entre a patria e uma mulher.

Affonso XII comprehendeu, em plena mocidade, a verdadeira missão do homem. Realmente, por mais brilhante que seja um espirito, por mais perseverante que seja uma vontade, sempre a vida de qualquer homem ha de derivar por entre duas religiões: a da familia e a da patria. São duas prisões que aferram toda a existencia: preso á familia pelo amor; preso á patria pelo trabalho. Aos reis, apezar da sua elevada posição, não cabe menor quinhão de trabalho do que aos vassallos; por isso já um monarcha portuguez, que tinha uma perfeita comprehensão dos seus deveres, chamou aos encargos de um rei o _officio de reinar_.

Mas o amor de um rei era facto tão raras vezes presenciado, que precisava ser tractado com recatos. Atirai bruscamente com uma flôr delicada, e vel-a-heis desfolhar. Ora nada ha mais delicado do que o amor, sempre que elle mereça este nome. Se D. Affonso XII houvesse feito alarde do seu amor, corria risco de vêr maltratada a pura flôr do seu coração. Um rei da Europa, em pleno seculo XIX, precisava ser cauteloso, embora perseverante, nas expansões do amor. Importava que a politica e o paiz se fossem habituando lentamente a vêr amar um rei.

Era em verdade para receiar que a interposição de uma corôa fosse obstaculo insuperavel á ardente paixão dos dois primos. Portanto, o joven rei de Hespanha quiz tranquillisar o animo de Mercedes. Mas, como poder dizer-lh'o livremente, no meio da côrte--a côrte, a eterna sombra dos reis? Era preciso aproveitar o menor incidente; sobretudo, era preciso sabel-o aproveitar.

D. Affonso triumphou d'esta difficuldade.