Part 8
Afinal o arcebispo accedera com tanta mais vontade ao convite que o conde lhe dirigira, quanto era certo que, da sua visita ao castello, esperava ganhar a annuencia e o concurso do velho fidalgo para uma obra tão excellente de certo, e muito mais util, que a inauguração da capella.
Tratava-se de terminar um hospicio para marinheiros, edificado por subscripção em Saint-Servan, sob a direcção d'uma commissão, de que o arcebispo era presidente.
Tinham angariado já umas centenas de mil francos, com que o edificio principiára a ser construido, mas faltava ainda mais uma centena para material e mobiliario, e as bolsas estavam exhaustas.
Entretanto era indispensavel arranjar aquella quantia, e por isso o arcebispo desejava fallar com o conde.
Estephania fez no castello uma verdadeira revolução, para que a recepção de _monsenhor_ fosse em tudo digna do alto cargo ecclesiastico que elle desempenhava.
Enfeitou a capella com arbustos e flores, e mandou vir organistas e coristas da cathedral de Rennes.
A missa, por musica vocal e instrumental, estava distinada a produzir sensação, como effectivamente produziu, mas devido talvez a uma circumstancia com que a menina de Bizeux não contava.
Eram tantos os cuidados e attenções que a pessoa do _monsenhor_ lhe merecia, que Estephania não deu pela falta da cunhada no banco da familia.
Repentinamente, a seguir a uma nota grave soltada pelo orgão, elevou-se uma voz, melodiosa e pura, e cantou, com perfeição e expressão d'adoravel suavidade, um trecho de Handel, que conservou em extasi o auditorio maravilhado.
A mesma voz cantou depois o _offertorio_ do mesmo compositor, com tal arte e vigor que a todos causou espanto.
O arcebispo de Rennes, que era profundo conhecedor de musica religiosa, balanceava a cabeça e movia as mãos com beatitude.
Trocaram-se phrases d'admiração, e se não fosse o respeito á santidade do logar, com certeza todos os ouvintes teriam applaudido com delirio.
Terminada a ceremonia, a primeira pergunta do arcebispo, ao entrar na sachristia, foi:
--Mas quem é a admiravel _virtuose_ que a todos nos encantou?
O conde, que entrava acompanhado de Laura, respondeu triumphantemente:
--Foi minha nora, a sr.ª viscondessa de Bizeux, que tenho a honra de apresentar-lhe, monsenhor.
--Na realidade a sr.ª viscondessa é uma artista de primeira ordem! disse o arcebispo.
E depois accrescentou:
--Isto fez com que eu tivesse uma ideia, que não me parece de todo má... Logo lhe communicarei um certo projecto em que penso, meu caro conde.
Em seguida desfez-se em agradecimentos e cumprimentos, aos quaes dava um certo sabor particular a mistura que havia do padre e do _dilettante_.
Não foi só Laura que recebeu esses agradecimentos e cumprimentos; Estephania tambem compartilhou d'elles, e tão interdicta ficou, que não sabia se devia estar satisfeita ou vexada.
Laura commoveu-se e sorriu-se com melancholia.
Era o seu primeiro successo em dois annos!
XV
Saint-Malo
Tinham decidido que deixariam o castello para voltar a Saint-Malo quando chegassem os primeiros frios, nos fins d'outubro ou principios de novembro.
Na segunda quinzena d'agosto, porem, Estephania foi atacada de rheumatismo agudo, que ao principio apresentou um caracter inquietante.
Chamaram da cidade o medico da familia, clinico de talento e longa pratica, que, depois de dispensar os primeiros cuidados á doente, diagnosticou o mal de principio de rheumatismo articular.
O doutor demorou-se um dia no castello.
A sua ausencia da cidade não podia prolongar-se por mais tempo, porque, como era o medico mais considerado, tinha longa clientela a reclamal-o.
Prometteu voltar o maior numero de vezes possivel, duas ou tres por semana.
Entretanto declarou que julgava indispensaveis as visitas diarias e attenções constantes.
O medico de Saint-Pol-de-Léon inspirava mediocre confiança ao conde. Que fazer, pois?
O tempo estava explendido; o mar socegado como um lago.
Depois de pensar maduramente no caso, o conde resolveu-se.
Estephania foi transportada, n'uma especie de maca, para bordo d'um vapor, fretado para esse fim em Saint-Malo.
Algumas horas depois d'embarcar a doente estava installada no seu quarto do planalto da cidade.
O conde de Bizeux queria partir só com a filha, deixando no castello Antonino e a esposa.
Laura, porém, oppozera-se a essa determinação, dizendo:
--Estephania necessita dos cuidados d'uma senhora. O meu logar é á cabeceira do leito da irmã de meu marido.
Como a menina de Bizeux declarasse que não desejava incommodal-a, principalmente por ser ardua a tarefa, Laura respondeu:
--Pergunto a Antonino se eu sou enfermeira descuidada...
Laura, a _impia_, tinha o mais absoluto despreso pela morte, emquanto que Estephania, a _devota_, a temia sobremaneira, como d'ordinario succede a todos os espiritos fracos.
Essa circumstancia fez com que a menina de Bizeux acceitasse, sem mais opposição, o offerecimento de sua cunhada.
Durante mais de duas semanas em que a doença apresentou maior perigo, Laura tratou Estephania com a mais dedicada sollicitude, nem um momento desmentida. A menina de Bizeux parecia surpreza e commovida.
Entretanto, no primeiro dia em que poude sahir do quarto, disse simplesmente a Laura:
--Agradeço-lhe e peço lhe que acredite que, no seu logar, teria procedido da mesma fórma.
--Não duvido, replicou Laura surprehendida da frieza d'aquellas palavras.
D'este contratempo resultou que em pleno mez de setembro estavam em Saint-Malo.
A convalescença de Estephania e o adeantado da estação, impediam a volta ao castello.
Nos poucos dias que passara em Saint-Malo, de regresso da America, Laura apenas tivera tempo de ver superficialmente a cidade e a sociedade.
Depois do restabelecimento d'Estephania teve occasião para mais de perto observar uma e outra.
A cidade encantou-a, mas a sociedade pouco lhe agradou.
Das janellas de casa gosáva o largo panorama do mar e o aspecto da bahia, que se abre entre dois morros titanicos, a ponta da Verde e o cabo Frehel, gigantes de pedra que parecem estender os braços atravez as sete leguas de mar que os separam, por cima da ilha granitica de Cézambre, guardada por negros recifes, que por entre as suas pontas deixam apenas estreitas passagens aos navios.
O mar entra por essas passagens com fragor medonho e enormes acotovellamentos de vagas, vindas do largo em plena liberdade, e penetrando á força na bahia pelas portas de pedra, que jámais poderam arrombar.
Ao fundo do golpho, sobre uma ilhota, eleva-se a cidade dos corsarios, rodeada d'altas muralhas, onde se alinham os canhões de cerco, estendidos pachorrentamente nas suas carretas, e abrindo, sobre a herva dos revestimentos, as suas boccas ameaçadoras. O mar tem na bahia, durante o estio, a placidez langorosamente azulada dos lagos.
As ondas esperguiçam-se suavemente sobre a areia, junto das velhas muralhas.
Mas no inverno batem com furia nas pedras ennegrecidas, e sobem, em turbilhões d'espuma, a enorme altura.
A cidade, fechada pelas muralhas, assiste impassivel áquellas convulsões da agua.
As altas casas, de janellas sem rotulas, elevam as suas fachadas geometricas, socegadamente, como que seguras de não serem attingidas pela impetuosidade das ondas.
Mas nos angulos dos predios veem-se por vezes nichos da Virgem, aos quaes o vento arrebatou as imagens.
A ilhota que serve de base á cidade apenas apresentava para fóra d'agua, transposta a muralha, uma especie de calçada em declive, relativamente larga, mas que, a pouco e pouco, as tempestades teem desconjunctado.
D'antes Saint-Malo parecia um navio ancorado, e marinheiros os seus habitantes.
Os costumes da cidade eram d'uma severidade quasi selvagem, proverbial a sua lealdade rude.
A independencia d'aquelles homens não se curvava ante o governador da provincia, nem mesmo em frente da nobreza, á qual, de resto, d'uma vez emprestaram cincoenta milhões de francos.
Que de mudanças se teem operado!
Os caminhos de ferro, os casinos escalonados pela costa, o contacto periodico com estrangeiros, a convivencia com os banhistas que de toda a França ali concorrem, e, na cidade propriamente dita, a invasão dos jesuitas, teem modificado as linhas, deprimido os angulos, alterado o caracter brusco mas franco d'aquelles homens, filhos da terra que deu á França Lammenais, Chateaubriand, Jacques Castier, Dagaray-Tronin, Surconf e tantos outros pensadores e homens de superior talento.
O caracter dominante da geração moderna é, nas casas nobres, um formalismo devoto, de que o fanatismo não exclue a immoralidade.
Apenas algumas familias de burguezes ricos resistiram ao contagio.
Os membros d'essas familias tornaram-se republicanos, e fazem todos os esforços para que o povo adore a republica.
Mas para esses nem chaves d'ouro lhes abririam as portas dos cenaculos aristocraticos, onde vêem a luz e se desenvolvem as intrigas monarchicas e clericaes. Sobre a grande massa banal da burguezia pouco dinheirosa, logistas, empregados, industriaes, sobresahem alguns, raros, perfis intelligentes d'advogados, de medicos, d'artistas, de jornalistas, isolados n'aquelle entorpecimento provincial.
D'inverno ha bailes officiaes, e bailes no casino de verão.
Esses bailes são frequentados por varias camadas sociaes, mas jámais tal facto produziu a mais insignificante mistura de castas.
O orgulho geral produz em todos a mais absoluta falta d'affabilidade.
Comprehende-se, pois, que, na sociedade restricta e altiva da nobreza de Saint-Malo, Laura se achasse completamente deslocada.
XVI
A sr.ª baroneza
A rainha da moda, a que dava as leis e fazia a opinião da alta sociedade em Saint-Malo, era a sr.ª baroneza de Pontual, uma formosa mulher de trinta annos. Havia umas cinco ou seis estações que ninguem se atrevia a disputar-lhe a elegante auctoridade.
A baroneza era ainda parenta, em grau affastado, da menina por quem o conde se apaixonára antes de casar com a mãe d'Antonino, e parecia-se até, um pouco, com a infeliz a quem o desgosto matára.
Essa circumstancia atrahira o conde, contra o seu habito, para a esphera d'acção mundana da joven baroneza, elle que tanto amava a vida retirada, onde podesse entregar-se completamente ás suas melancholicas recordações.
O barão de Pontual era um insignificante.
Sendo o primeiro admirador e adorador da esposa, ella facilmente o conduzia por todos os caminhos, bons ou maus, por onde lhe aprouvesse caminhar.
Adelia, que assim se chamava a baroneza, declarava ter _alma d'artista_, o que é uma percebivel ambição, quando não seja pretenciosa.
Ora, para completo esclarecimento do leitor, devemos dizer que á baroneza faltava simplicidade e sinceridade.
Cultivava simultaneamente, segundo a sua propria phrase, as lettras, a pintura e a musica.
A sua especialidade em litteratura era o genero epistolar, á semelhança da sr.ª de Sévigné, sua compatriota.
Os correspondentes previligiados da baroneza, como no passado os da marqueza, colleccionavam as cartas e os bilhetes, em que havia tres estylos diversos: o serio, o sentimental e o jocoso.
Em pintura _orvalhava_ as suas aguarellas, e _dava vida_ ás paysagens.
Mas a sua arte predilecta era a musica.
Possuia voz agradavel, mas mal educada.
Comtudo recebera lições de canto de Delle Sedia, como recebera lições de piano de Lecouppey.
Tinha opiniões cortantes, audacias pouco vulgares em mulher.
O seu deus era Gounod.
Eatretanto não desgostava de Berlioz, que ella declarava ser _quasi sempre extravagante, mas algumas vezes sublime_.
A baroneza, ao principio, quando no seu horisonte viu despontar a viscondessa, inquietou-se.
Laura era mais formosa e mais nova que ella.
Além d'isso a situação dos srs. de Bizeux era muito mais brilhante do que a do barão de Pontual.
Tudo isto fazia com que Laura podesse ser uma rival terrivel.
Mas socegou em breve, vendo o aspecto modesto e simples da viscondessa, que apenas parecia desejar não dar nas vistas, occultar-se na sombra.
A formosa Adelia foi desde logo indulgente e quasi amiga de Laura.
--A viscondessinha é encantadora! disse ella.
O barão de Pontual era o thesoureiro da commissão que tratava da fundação do hospicio para marinheiros.
O conde de Bizeux foi eleito, por essa occasião, vice-presidente da mesma commissão.
Uma ultima subscripção produziu approximadamente sessenta mil francos.
Faltava, pois, arranjar apenas os quarenta mil que faltavam para prefazer a quantia julgada indispensavel.
Esplendidas regatas, organisadas em Saint-Malo, produziram quinze mil francos.
O arcebispo de Rennes foi então d'opinião que se devia angariar o restante, dando um grande concerto.
Foi convencionado que o concerto se realisaria nos fins de setembro.
Tratariam d'accumular attractivos, que justificassem os preços elevados, e attrahissem a Saint-Malo a _élite_ da nobreza e da finança de toda a Bretanha.
A baroneza de Pontual estava naturalmente indicada para preparar e dirigir aquella festa.
Haveria canções populares bretãs, para as quaes recrutariam executantes nas classes baixas.
O celebre pianista Nobillet, natural de Lorient, prometteu o seu concurso, e egual promessa fez o barytono Gressier, que nascera em Nantes.
O restante, para conservar ao Concerto o caracter aristocratico que devia ter, a baroneza de Pontual tratou de o procurar e encontrou-o, nos salões da melhor sociedade; homens e senhoras, cujos nomes e talento dessem ao programma grande attracção, tornando-o de fórma a aguçar a curiosidade de todos, prestaram-se a tomar parte na festa.
O salão da baroneza era pequeno para n'elle se fazerem os ensaios.
O conde de Bizeux offereceu o seu.
A viscondessa, como Estephania estava ainda convalescente, viu-se obrigada a fazer as honras da casa.
O sr. de Bizeux, que tomára a peito a terminação da grande obra de caridade, perguntou á nora se não queria dar o seu contingente para o brilho do concerto.
Laura, sem recusar abertamente, observou-lhe que se arriscava a trahir o seu incognito d'artista e a deixar descobrir a cantora na viscondessa, tomando parte n'esse espectaculo, a que de certo concorreria muita gente.
O conde, ainda que com pesar, acceitou aquellas razões.
Um incidente imprevisto tornou inutil aquella precaução.
A baroneza devia cantar, no concerto, a _Ave Maria_ de Gounod, o seu deus.
D'uma vez ensaiava, em casa do conde, aquelle delicioso trecho de musica, ante um auditorio que, n'aquelle dia, por acaso, era numeroso.
Obteve o successo costumado, e todos os presentes foram, no fim, fazer-lhe os seus cumprimentos...
Laura, como todos, foi testemunhar a sua admiração á baroneza.
Adelia requebrou-se toda, segundo, o seu habito, defendendo-se dos cumprimentos com a mais falsa das modestias.
--Não, não... Favores!... Hoje não estava com voz... De certo reparou que, no fim, a respiração faltou-me!...
--Permitte-me que lhe diga de que foi resultante essa falta? perguntou Laura com simplicidade.
--Pois não, minha querida!... Falle... peço-lhe...
--Parece-me, disse a viscondessa, que, em vez d'observar o _crescendo_ phonico obrigado, a sr.ª baroneza o atacou demais no principio, faltando-lhe depois a força no final, que deve ser cantado com toda a intensidade de tom possivel.
--Não percebo bem... objectou a baroneza deveras contrariada.
E depois d'um momento de silencio, perguntou:
--A sr.ª viscondessa sabe musica?
--Um pouco...
--Ah! sabe?... Então queira ter a bondade de juntar a pratica á theoria, cantando o trecho como entende que elle deve ser cantado.
--Depois da sr.ª baroneza ter cantado, não devo eu...
--Não faça ceremonia... Cante... peço-lhe, insistiu a baroneza com frieza.
Com a insistencia esperava collocar em terrivel embaraço a imprudente conselheira.
Laura fez um movimento de contrariada, mas accedeu ao pedido.
Começou muito _piano_, com intensão de cantar a meia voz, quando muito.
Mas o instincto d'artista foi mais forte que ella: arrastou-a.
Quando chegou ás ultimas notas, a sonoridade da sua voz foi tal, manifestou-se tanto o conhecimento do methodo, que todos os assistentes, admirados, romperam em bravos e palmas.
Antonino não estava presente, mas o conde de Bizeux assistiu ao triumpho de Laura, o que, no intimo, lhe deu grande satisfação.
A baroneza de Pontual ficou abysmada!
A incontestavel superioridade de Laura esmagava-a ao primeiro recontro.
Entretanto assaltou-a uma duvida.
Quem seria aquella mulher que tinha dissimulado, e que subitamente revelava, uma voz e uma arte de cantar pouco vulgares entre amadoras, e mais do que sufficientes para fazerem a reputação d'uma cantora de primeira ordem?
Entretanto a baroneza não foi a ultima a felicitar Laura.
--Mas que admiravel surpreza! disse ella. Porque me não fez conhecedora, ha mais tempo, do seu maravilhoso talento, sr.ª viscondessa?
Comtudo cohibiu-se de perguntar a Laura se queria tomar no concerto o logar que lhe pertencia.
É porque percebeu perfeitamente que esse logar seria o primeiro, e a baroneza não desejava occupar o segundo plano.
No dia seguinte, porém, a infeliz baroneza recebeu do arcebispo de Rennes, a quem enviára o programma, uma carta desoladora.
O arcebispo admirava-se de não ver figurar n'esse programma, o nome d'aquella que devia ser a grande attracção, e que produziria o mais brilhante successo.
Esse nome era o da viscondessa de Bizeux.
Fôra ouvindo-a cantar na missa d'inauguração da capella do castello, que ao arcebispo occorrera a idéa de dar um concerto, cujo producto revertesse a favor da subscripção para o hospicio de marinheiros.
Em seguida o arcebispo perguntava se a baroneza de Pontual desconhecia o raro talento da nora do conde de Bizeux.
Pois a extrema modestia da viscondessa fazia com que ella não desejasse manifestar o seu talento em publico?
Quando se tratava d'uma obra meritoria, não se tinha o direito de ser modesto, e por isso instava com a baroneza para que convidasse Laura.
Ante esta especie d'intimação, a baroneza não poude deixar de convidar a viscondessa.
Portanto, no dia seguinte, foi officialmente perguntar-lhe se queria prestar ao concerto o seu valioso concurso.
Laura, perplexa, respondeu que necessitava consultar o marido e o sogro.
Houve conselho privado entre o conde de Bizeux, Antonino e Laura.
O conde foi d'opinião que a nora não devia deixar de prestar-se a dar a sua contingente para tão santa obra.
A Linda desapparecera havia mais de dois annos.
Que mal podia resultar d'ella reapparecer, uma unica vez, n'uma cidade tão distanciada de Paris, diante d'um publico local, que não estava ao corrente do movimento dos theatros parisienses?
O maior numero de probabilidades, era de que Laura não seria reconhecida.
--Mas se o fôr? perguntou a viscondessa.
--Se assim succedesse, respondeu o conde, a descoberta far-se-ia em condições tão honrosas, tão respeitaveis para todos nós, que, ante o facto consumado, os mais rigoristas não tinham o direito d'arguir meu filho de a ter amado sufficientemente, Laura, para lhe dar o seu nome, nem a mim por lhe chamar filha.
Houve um momento de silencio.
O conde, passados instantes, accrescentou:
--Nada tem no seu passado, Laura, de que deva envergonhar-se. Estephania, que tem os prejuizos que sabe, sem duvida ficaria contrariada se lhe tivessemos, de principio, revelado toda a verdade. Mas agora ella já a conhece e apprecia. Tratou-a com uma dedicação tão fraternal, que minha filha está reconhecidissima. O arcebispo de Rennes, que possue um espirito superior, reclama este serviço; depois seria o primeiro a não consentir que elle se voltasse contra aquelles a quem o pede. Se o seu segredo, que é tambem nosso, tem de ser conhecido mais tarde ou mais cedo, parece-me que não encontraremos occasião mais favoravel do que esta, para que todos saibam que a esposa de meu filho foi cantora.
Antonino, menos optimista que seu pae, e vagamente inquieto, nada achou que oppôr ás razões apresentadas pelo conde.
De resto, como sempre, desejava fazer-lhe a vontade.
Assim pois, foi Laura a unica que resistiu á idéa de reapparecer e cantar em publico.
Mas não queria ou não podia dizer tudo o que pensava sobre o caso.
A verdade era que, sobretudo, ella temia-se a si propria.
Sabia com que intima alegria estremecera no dia da inauguração da capella.
Dois dias antes, ao cantar, ante um auditorio ainda assim restricto, a _Ave Maria_ de Gounod, experimentára maior satisfação.
Os bravos e palmas que então ouvira, tinham a como que transportado aos bellos tempos em que ella arrebatava uma platéa inteira.
O que lhe succederia se de novo se encontrasse na frente d'um publico numeroso?
Que effeito lhe produziriam os bravos, as chamadas, as corôas?
Ah! a queda era tão facil e podia ser tão desastrosa!
Tel-a-iam esquecido em Paris tanto quanto o conde julgava?
Não.
Poucos dias antes lera n'um jornal da capital, a proposito da abertura da nova Opera e da companhia que n'ella devia cantar, que o director do novo templo da arte, devia, se fosse habil, lembrar-se da Linda.
N'essa mesma noticia accrescentava-se que a diva estava no Mexico, mas dizia-se tambem que o Mexico não era no fim do mundo, que se volta de lá dentro d'algumas semanas.
Mas a Linda não estava longe!
Podia chegar a Paris, ao seu querido Paris, em algumas horas.
Laura, em seguida, pensou no seu amor por Antonino, sempre inalteravel no seu coração.
Era esse sentimento que ainda a retinha junto d'elle.
Mas ao mesmo tempo recordava-se da palavra que o visconde lhe dera, e que a tornava livre se achasse muito pesada a cadeia que a prendia.
Eram todos estes pensamentos que a tornavam hesitante. Não tinha, porém, a coragem de os expôr.
Se a tivesse, seu marido e seu sogro ficariam convencidos de que ella não devia cantar no concerto de benificencia.
O conde persistia, insistia, e Antonino juntava os seus rogos aos do pae. Ella, por fim, disse:
--Reconhecem bem, não é verdade, que o que está mais em jogo não é o meu interesse pessoal, mas o interesse da familia?
--Sem duvida, respondeu o conde, e é por isso mesmo que insistimos e somos de opinião que deve ceder, como nós cedemos.
Laura, replicou então:
--Visto assim o quererem, cantarei no concerto!
N'essa noite, Laura disse á baroneza, pouco satisfeita, o seguinte:
--Pode accrescentar no seu programma, minha senhora, que a viscondessa X... cantará as arias _Fidelio_ e o _Rei dos Alamos_.
XVII
A tempestade
O dia em que devia realisar-se o concerto foi por fim fixado: 29 de setembro.
Faltavam, pois, dez dias.
Laura propôz ao marido não os passasem em Saint-Malo.
Que necessidade tinham de juntar ao perigo d'ella ser reconhecida no concerto, o risco de a reconhecerem nos ensaios?
Até então a viscondessa não encontrára ninguem que a conhecesse.
Os artistas que deviam tomar parte no concerto, Nobillet e Gressier, nunca a tinham visto.
Fallava-se, comtudo, em reforçar o programma, accrescentando-lhe os nomes d'outros artistas.
O mais prudente, pois, era não apparecer senão na noite do espectaculo.
Como escolhera dois trechos de musica que conhecia perfeitamente, bastava a Laura uma simples recordação com a orchestra, na manhã do dia do concerto.
Nos seus passeios maritimos Antonino e Laura não tinham ido alem do Monte de Saint-Michel.
Decidiram por isso visitar durante aquelles dias, na sua chalupa, as costas do departamento da Mancha, e Jersey, onde Laura nunca tinha ido.
O conde de Bizeux e Estephania, já completamente restabelecida, receberiam as pessoas que iam ensaiar-se.
A baroneza de Pontual seria a unica a dirigir a festa, sem temer a intervenção da que ella considerava sua rival.
Laura partiu alegre e despreoccupadamente para aquella excursão, a mais longa que ainda tinham feito.
A viagem foi encantadora.
A volta da ilha de Jersey, que durou cinco a seis dias, foi sobretudo uma verdadeira delicia.
Passaram em todos os portosinhos naturaes que a ilha tem, desembarcavam, jantavam e dormiam nas estalagens mais ou menos mediocres com que deparavam, rindo do jantar, rindo do leito, rindo de tudo.