O Romance d'uma cantora

Part 7

Chapter 73,821 wordsPublic domain

--Ha um mez, disse-lhe ella, deu-me uma extraordinaria prova d'amor, fazendo por mim o maior sacrificio que uma mulher póde esperar do homem que ama. Hoje chegou a minha vez. Sei, sinto que o amo, e quero provar-lhe quanto esse amor é intenso. Dava-me o seu nome, e, para satisfazer a minha paixão d'artista, consentia em que eu continuasse no theatro. Depois do que me disse, reflecti muito. Tenho reconhecido duramente quanto, nas condições de fortuna e de posição em que o senhor está, me seria difficil, se não impossivel, ficar no theatro, passando a fazer parte da sua familia. Venho, pois, dizer-lhe o seguinte: acceito com a maior satisfação o seu nome, e, salvo uma condição que d'aqui a pouco exporei, renuncio ao theatro.

--Ah! minha querida Laura! murmurou Antonino no auge da alegria.

Ella continuou:

--Seu pae, que tão bondoso é, ficará satisfeitissimo. Parece-me conveniente evitar o mais possivel que se torne do dominio publico o nosso projectado casamento. O visconde de Bizeux esposará a filha do conde de Marcia. A Linda desapparecerá.

--O que vale a minha abnegação ao lado da sua! disse Antonino. Eu repudiava prejuizos que considerava mesquinhos e absurdos; a minha querida Laura renuncia aos seus triumphos, á sua arte, ao que, segundo affirmava, era metade da sua vida! Pesou bem toda a importancia do sacrificio?

--Tudo pensei e tudo previ. É justamente por essa circumstancia que ha pouco resolvi apresentar-lhe uma condição. N'este momento creio firmemente que o nosso amor, e o amor dos nossos filhos se os tivermos,--como em tempo lhe disse, e decerto ainda se lembra, é esse o meu mais delicioso sonho,--creio, dizia, que a felicidade da esposa e da mãe não permittirá que me recorde das minhas satisfações e dos meus successos d'artista. Entretanto é possivel que um dia, d'aqui a cinco ou d'aqui a dez annos, a tristeza se apodere de mim e que uma irresistivel necessidade me leve a voltar á minha querida arte, e a procurar, ainda que não seja senão temporariamente, as luctas e as victorias d'outr'ora. Se tal succeder, meu amigo, peço-lhe, simplesmente sob a sua palavra de gentilhomem, que n'esse dia não se opporá a que eu volte ao que era no passado, deixando-me de novo entrar para o theatro, que abandono apenas pelo muito amor que lhe tenho.

--Dou-lhe a minha palavra d'honra, Laura, de que não a impedirei de satisfazer o seu desejo, respondeu Antonino. De resto, amo-a tanto, fal-a-hei tão feliz, que certamente esquecerá para sempre o theatro.

--Assim o espero e desejo ardentemente. Mas comprehende que, para que eu caminhe de futuro sem preoccupações, desassombradamente, é indispensavel que me sinta sempre senhora da minha vontade, senhora de mim propria. Se eu tiver um dia de assignar um contracto com qualquer emprezario, a opposição de meu marido pode annullar esse contracto. Fica assente, Antonino, que renuncia por completo a qualquer opposição d'esse genero?

Elle reflectiu alguns instantes.

Depois dirigiu-se a uma secretária, pegou n'uma folha de papel e escreveu:

«Dou o meu consentimento e approvação ao contracto feito entre Laura Marcia, minha mulher, e...»

Assignou e entregou o papel a Laura, dizendo:

--Aqui tem a sua liberdade. O rouxinol pode sahir da gaiola quando quizer, que a porta está aberta.

--Obrigada, meu amigo! disse alegremente Laura.

E agora cuidemos do presente, dos nossos projectos, do nosso amor. Concluamos o nosso romance.

A conclusão foi a seguinte:

Occultaram de todos a sua felicidade, mesmo de Despujolles e de Remissy.

Trataram do casamento com todo o segredo.

Só o pae d'Antonino teve conhecimento dos projectos do filho.

Combinaram que logo que o visconde estivesse completamente restabelecido, partiriam para Inglaterra, casando em qualquer povoação do littoral, religiosamente, por um padre catholico, e civilmente, no consulado de França.

Depois não partiriam para qualquer parte: desappareceriam.

Laura desejára sempre viver em qualquer ponto da America hespanhola.

Antonino, apesar de ter viajado muito, nunca fôra aquelles paizes calidos.

Refugiar-se-hiam ahi até que a nostalgia os vencesse, isto é, até que a felicidade diminuisse.

Trespassaram a casa da rua de Bolonha.

Os moveis que Laura mais estimava foram remettidos para Saint-Malo, e os restantes vendidos.

Antonino conservou os seus quartos de rapaz no _boulevard_ Haussmann, residencia pouco dispendiosa que desejava conservar em Paris.

Laura levaria Jacintha, que tinha fallado em matar-se se a separassem da sua senhora, e que era sufficientemente doida para executar a ameaça.

Pozzoli recebeu da Linda a multa de cincoenta mil francos, importancia estipulada no contracto para a rescisão d'elle.

--Tu estás meio contente, meio desapontado, disse Lauretto Mina ao emprezario. Eu estou satisfeitissimo. Eis aberto o massudo livro da virtude da Linda. O primeiro capitulo começa por um rapto. É promettedor o romance. Desejo chegar o mais breve possivel ao capitulo segundo.

Alguns dias depois lia-se nos _Echos_ d'um jornal _geralmente bem informado_:

«A Linda não cantará no Theatro Italiano este inverno. Falla-se n'um contracto fabuloso que assignou para uma _tournée_ nos Estados-Unidos.»

Poucas linhas mais a baixo via-se ess'outro _echo_:

«O visconde de B... parte, diz-se, para os Estados-Unidos logo que esteja completamente restabelecido. Cumpre assim um voto que fez durante a doença. Como chegou a julgar-se condemnado a deixar este mundo, prometteu, se escapasse, ir visitar o novo. Feliz viagem.»

XIII

Regresso a França

Dezoito mezes depois, no fim de abril, o conde de Bizeux e Estephania de Bizeux, sua filha, esperavam, no molhe de Saint-Malo, a chegada do vapor de Jersey, em que vinham o visconde e a viscondessa de Bizeux, de regresso da America do Sul, via Liverpool e Southampton.

O conde era um velho extremamente sympathico, de elevada estatura e aspecto veneravel e terno.

A menina de Bizeux contava trinta e seis annos.

Tinha o rosto ossudo, aspecto altivo e severo, e comtudo, do conjuncto das suas feições e de toda a sua pessoa, resaltava o cunho da alta estirpe.

O conde esperava ancioso a chegada do filho que estremecia, e que ia tornar a vêr depois de prolongada ausencia.

Assistira ao casamento do visconde em Inglaterra, e depois viajára durante um mez, com os recém-casados, pela Escocia e pelo paiz de Galles.

A nora conquistara-o sem difficuldade logo nos primeiros dias, pelo finissimo espirito de que era dotada, e pelos cuidados, affectuosos e ternos, de que o rodeava.

Sentia tanta impaciencia de a abraçar, como de abraçar o filho.

A menina de Bizeux esperava a cunhada, que nunca vira, com disposições menos benevolas, e até com uma especie de desconfiança.

O pae occultara-lhe cautellosamente que Laura tinha sido cantora, e que estivera escripturada em diversos theatros.

Se a tivesse prevenido d'essa circumstancia sem duvida a menina de Bizeux abandonaria o lar paterno, refugiando-se n'um convento, para não estar em contacto com uma _comediante_.

Para não sympathisar com a cunhada bastava-lhe saber que o irmão a desposara por amor, e que, apezar de ser d'alto nascimento, filha d'um conde hespanhol, não tinha outro dote além da belleza.

Estephania soubera, pela que lhe dera o ser, a historia do primeiro amor de seu pae, historia em tudo semelhante á de Antonino, á excepção de que no primeiro caso a moral social e religiosa e o direito augusto da familia tinham triumphado, emquanto que, no caso d'Antonino, fôra o amor, o amor profano, que vencera.

Parecia a Estephania que o irmão, esposando a mulher que amava, insultara a memoria de sua mãe.

O vapor de Jersey não tardou a chegar.

Logo que desembarcou, Antonino abraçou o pae com effusão, e seguidamente deu um abraço na irmã.

O conde, depois d'abraçar o filho, abraçou a nora, com alegria, e apresentou as duas senhoras uma á outra.

Laura, prevenida pelo marido, tinha resolvido tratar a cunhada por fórma identica áquella por que fosse tratada.

Estephania não a abraçou, limitando-se a estender-lhe a mão, dizendo:

--Senhora viscondessa!...

--Minha senhora...

As relações futuras ficaram assim fixadas, graves e dignas.

Ficou um creado para fazer conduzir as bagagens, e os quatro metteram-se n'uma carruagem que os levou a casa, ou antes, que os levou a suas casas.

O visconde tinha casa sua, junto á do pae, que lhe legara um tio, fallecido, viuvo e sem filhos, dez annos antes.

As duas casas, juntas e separadas a um tempo, tinham portas de communicação em todos os andares.

Eram dois velhos palacetes patrimoniaes, de construcção antiga.

O primeiro pavimento habitavel era no terceiro andar, porque os antigos navegadores e corsarios de Saint-Malo desejavam poder deitar sempre a cabeça por cima das muralhas da cidade, afim de não deixarem de gozar a vista do mar.

Os Bizeux descendiam de velhos bretões, marinheiros de raça.

Da sua familia sahiram, nos reinados de Luiz XIV e de Luiz XV, dois almirantes francezes.

O pae e o filho tinham combinado, em cartas, que passariam uma vida simultaneamente separada e commum.

Viveria cada um em sua casa, mas tomariam as refeições juntos.

De resto, como chegara a primavera, demorar-se-hiam em Saint-Malo apenas uma ou duas semanas, o tempo indispensavel para apresentar a viscondessa ás pessoas mais intimas.

Depois partiriam para o castello da familia, situado proximo a Saint-Pol-de-Léon.

Deviam tomar todas as cautellas possiveis para que a Linda não podesse ser reconhecida na viscondessa de Bizeux.

Depois de viverem por algum tempo juntos, o conde, que no fundo temia a filha, suppunha que, habituada á cunhada, attrahida pela meiguice e encanto de Laura, Estephania revoltar-se-hia com menor violencia, na hypothese d'uma revelação sempre possivel.

Laura installou-se, pois, em sua casa, e, como uma verdadeira artista que se accommoda a tudo que não seja burguez e vulgar, sentiu-se immediatamente á vontade no velho palacete, cujas rasgadas janellas e mobilia á Luiz XVI tinham a dupla vantagem de ser commodas, elegantes e hygienicas. A vida, no castello, seria mais desafogada ainda, apesar de dever ser, no fundo, um pouco monotona.

Laura, porém, não dava por essa monotonia.

Para isso era necessario que ella, habituada ás emoções do trabalho, da acção, do combate, achasse muita novidade e muita variedade em volta de si.

O primeiro anno do seu casamento foi para ella um verdadeiro encanto.

A lua de mel durára doze luas, sem uma nuvem no céu d'anil.

Gosou, sem a mais leve interrupção, o prazer d'amar e ser amada, que é o melhor da vida.

Percorreram os admiraveis paizes da America do Sul, o Perú, o Brazil, visitaram as suas melhores cidades, atravessaram as mais esplendidas paisagens, aventurando-se até ás florestas virgens.

Mas o que acima de tudo os absorvia era as suas proprias pessoas.

Aquella magnifica natureza não era mais do que uma moldura apropriada para servir no quadro do seu amor.

Ao cabo d'um anno, porém, começaram a achar, sem o dizer, nem mesmo dar por isso talvez, que um homem e uma mulher, vivendo sós, vivem em solidão.

O quer que fosse parecido com o aborrecimento começou a avoejar sobre aquelle perpetuo colloquio.

Durante tres mezes soffreram aquella sensação intermitentemente.

Depois confessaram um ao outro que as viagens, a continua e fatigante mudança de logar, os dias passados em carruagem de caminho de ferro ou nos hoteis, tudo isso, por fim, cança o espirito e o corpo.

Passou-se anno e meio, e o mais fagueiro sonho de Laura, ter um filho do homem que adorava, fugia, fugia sempre diante d'ella, como um phantasma.

--Acautella-te! dizia-lhe Antonino. Um filho pode-te fazer perder a voz.

--Ah! se tivesse um filho, respondia Laura, jámais teria saudades!...

E teria ella saudades, effectivamente?

O marido começára por se apaixonar pela voz, e continuava-a amando por isso, sem prejuizo d'outros predicados.

Todos os dias cantava para satisfazer os desejos d'Antonino, que, excellente musico, a acompanhava ao piano, extasiando-se como d'antes, e mais do que d'antes até, ante aquelle delicioso e divino canto.

Mas se continuava a ser a mesma cantora, Laura deixára de ter o mesmo publico.

Foi essa a razão porque, depois de dezoito mezes d'ausencia, elles annuiram em que o paiz natal, o socego do lar, a vida de familia, tinham tambem o seu encanto.

E como estavam d'accordo, regressaram a França.

XIV

A vida no castello

O castello de Bizeux, proximo de Saint-Pol-de-Léon, e a um quarto de legua de Roscoff e do mar, estava edificado n'uma encantadora região, em que o ondeado da copa do arvoredo se perdia ao longe no accidentado das colinas.

Como estava um pouco isolado, porque o castello mais proximo distava cinco kilometros, afóra durante a epoca da caça, a vida ali era muito retirada.

No caso presente esse facto não devia considerar-se um inconveniente.

Laura estaria no castello completamente ao abrigo d'indiscripções e encontros.

Nos primeiros dias percorreu, a cavallo ou a pé, as immediações do castello; mas depois de vistas as casas, as egrejas e as paysagens, recahiu na monotonia da vida ociosa, quebrada apenas pelas fidalgas e ininterruptas attenções do conde, sempre previdentemente delicado com a nora, sempre ancioso por lhe procurar distracções.

A menina de Bizeux desapprovava o procedimento do pae para com a cunhada.

A solteirona dizia por vezes comsigo:

--Mas que fórma de tratar esta desconhecida! O que tem ella que a recommende? apenas a belleza, essa dadiva do demonio.

Para Estephania a fealdade era certamente dadiva de Deus.

O natural instincto de mulher invejosa fazia confusamente adivinhar a Estephania que o passado de sua cunhada devia ter tido uma phase brilhante, que lhe occultavam.

Parecia-lhe que no menor gesto ou na mais insignificante palavra pronunciada por Laura havia sempre dissimulação.

--Mais outro vestido novo! disse-lhe Estephania um dia, vendo-a sentar á mesa com uma _toilette_ que ainda não lhe conhecia. Lembre-se que estamos no campo!

--Por isso o vestido é simples e campestre! replicou Laura rindo.

--Mas nós estamos em nossa casa... não recebemos visitas. A quem deseja agradar? A meu pae?

--E porque não?

--Agradecido! disse o conde sorrindo.

--A seu marido?

--Certamente...

--Um marido não é um amante, minha querida!

--Para mim é.

E estendeu a mão ao visconde, que lh'a beijou com prazer.

Antonino gracejou com a irmã, que conservou o seu habitual aspecto ironico e altivo.

Aquellas picadas d'alfinete não tinham importancia, mas faziam soffrer Laura, que, como todos os espiritos ternos, resentia-se da falta de sympathia que a cunhada constantemente lhe testemunhava.

Estephania tambem julgava Laura com severidade sob o ponto de vista religioso.

Entretanto a viscondessa, educada por uma mãe excessivamente devota, era crente, e por vezes até supersticiosa como uma hespanhola.

Para a menina de Bizeux, porém, havia duas religiões, a que os homens seguiam, e a que era seguida pelas mulheres.

Os homens podiam contentar-se em ir á missa aos domingos, comer de magro ás sextas feiras, e confessar-se uma vez por anno, pela quaresma.

As mulheres deviam, alem d'isso, comer de magro todos os sabbados, dia em que deviam tambem confessar-se, commungar todos os domingos e jejuar nas vesperas dos dias santificados.

Ora Laura limitava-se a seguir a religião dos homens; portanto era uma impia, votada ás chammas eternas!

De fórma que a unica mulher com quem podia ter relações d'amisade fugia da sua convivencia.

Em vez de ser amiga e irmã, Estephania era inimiga.

E se Laura procurasse relações entre as damas que viviam nos castellos mais proximos não encontraria espiritos mais esclarecidos do que o de sua cunhada.

O conde adorava a musica quasi tanto como Antonino, e sentia-se verdadeiramente feliz quando Laura se sentava ao piano e cantava qualquer das arias em que d'antes fôra tão applaudida.

Se o canto fosse religioso ou mesmo popular, Estephania escutava com indulgencia.

Se, porém, a palavra _amor_ fosse uma só vez pronunciada, levantava-se cheia d'indignação e sahia altivamente da sala.

Este ultimo caso dava-se com frequencia, porque o amor é um thema musical frequentemente usado pelos compositores.

Pelo menos Laura, agora, tinha mais um ouvinte: o conde.

Isto não a impedia, como já estava em França e lia os jornaes parisienses, de suspirar quando encontrava nos periodicos noticias de theatro e as narrações dos debutes e das primeiras representações.

O que lia era para ella o brilho, o ruido, a vida!

Se não tivesse abandonado o theatro, seria d'ella que os jornaes fallariam!

Esse eterno esquecido que se chama Paris, tinha-se por muito tempo occupado d'ella!

Decerto não sentia a falta da antiga cantora, mas a diva d'outro tempo percebia que Paris lhe faltava.

Estava prestes a ser inaugurada a nova Opera, e Laura não assistiria á inauguração!

Felizmente, por entre as saudades e os desalentos, conservára intacto no coração o amor que tinha por Antonino.

É verdade que o marido adorava-a como no primeiro dia de casados, mas elle não tinha um passado de que lembrar-se, em quanto que ella, ao casar-se, dera metade da sua vida despresando a arte.

O amor dos dois esposos, substituira o ardor da paixão dos primeiros tempos pelo prazer ineffavel do habito tomado.

E ella consolava-se, chegava a encantar-se até, quando, por uma bella manhã de sol, sahiam ambos, e atravessavam bosques e prados, caminhando ou correndo, na alegria doida de dois collegiaes em férias. Passeiavam sobre a relva, ella appoiada ao braço do marido, e levantando um pouco as saias para não as molhar nas plantas humidas, ou conservando-se direita, o tronco bem vertical sobre os quadris airosos, em quanto Antonino, curvado, cortava com as unhas os pés das violetas, de que Laura fazia, ramos deliciosos, cercados de folhas d'um verde pallido.

Muitas vezes o caminho que seguiam afundava-se n'um declive pedregoso, ou descia até á praia.

Divertiam-se então em saltar precipitadamente, como creanças, elle segurando-a por uma das mãos, e ella levantando com a outra as saias, que tremulavam ao vento como um ruido d'azas, n'um vôo d'aves anciosas de liberdade.

Paravam na areia, e sentavam-se para contemplar a baixamar ou a maré que subia.

E ficavam-se por muito tempo a admirar as ondas lambendo com fragor as saliencias dos rochedos, ou traçando na superficie lisa e clara da areia o seu rasto sinuoso, coberto d'espuma.

Uma manhã tiveram uma alegria que terminou em tristeza.

Acharam um ninho de melros.

Os passaritos tinham sahido da casca havia pouco tempo.

Antonino mostrou-os a Laura, quebrando um ramo de madresilva brava que os occultava por entre a espessura d'uma sebe d'espinheiros.

Eram cinco.

No fundo do ninho, apenas se viam bicos amarellos que se abriam com voracidade.

Laura ficou penalisada por não ter que dar aos passarinhos.

--Voltaremos ámanhã com provisões, disse-lhe Antonino.

No dia seguinte voltaram com as algibeiras cheias de bolos.

A mãe estava no ninho.

Logo que sentiu ruido, levantou vôo para uma arvore proxima, saltando depois de ramo em ramo, dando gritos desolados, inquieta por ver os filhos á mercê de seres humanos.

Laura sentiu um prazer quasi maternal, em metter pelos bicos dos passarinhos esfaimados, com a ponta do seu dedo côr de rosa, bocados de bolo, que previamente amolecia entre os labios.

Ao outro dia foram tambem ver o ninho.

Estava vasio.

O pae e a mãe tinham levado os passaritos.

Laura ficou triste, sem saber porque.

Como Antonino lhe perguntasse a razão d'aquella tristeza, Laura respondeu:

--É lugubre este ninho abandonado, lugubre... como um berço vasio!

Depois d'um momento de silencio, perguntou:

--As aves, quando encasalam, teem sempre filhos, não é verdade?

--Sempre, pela primavera, respondeu Antonino.

--Como as aves são felizes!

Antonino comprehendeu.

Percebia perfeitamente qual era o vacuo que havia na vida de Laura, e esforçava-se sempre por lhe procurar distracções.

Não servira na marinha, como muitos dos seus antepassados, mas todo o bretão é marinheiro.

Adorava o mar, e um dos seus maiores prazeres era andar embarcado.

Poucos dias depois de chegar a Saint-Malo, comprou uma chalupa de recreio.

O barco era estreito na proa, baixo de caverna, branco, com uma larga facha vermelha, e tinha meia coberta.

Os passageiros tomavam logar á pôpa, n'uma especie de camara oval, cercada d'um banco em que cabiam oito pessoas.

Na coberta tinham improvisado um casinhoto em que mettiam as malas e as provisões, e um leito estreito, em que uma pessoa tinha suficiente espaço para dormir ao abrigo do vento.

O apparelho da chalupa compunha-se d'um mastro e d'um gurupés, d'uma vela grande e d'uma bergantina.

Com mau tempo tomavam quatro rizes á vela grande, e como o mastro se inclinava para a proa, a chalupa navegava maravilhosamente com aquelle unico panno.

Graças á largura do barco e ao pouco comprimento relativo do casco, a chalupa virava com facilidade, cedia bem ao vento e obedecia docilmente á canna do leme.

Antonino mandou o barco para Roscoff, ensinando com precisão a Laura toda a manobra das velas.

Era necessario um marinheiro, mas o visconde achava mais encanto a embarcar só com sua mulher, e Laura era um marinheiro agil e encantador.

Muitas vezes embarcavam de manhã.

Um creado levava-lhes, até ao caes, um cesto com provisões.

Antonino embarcava primeiro, e, antes que Laura estivesse a bordo, armava a vela.

Depois ajudava a esposa a saltar para a chalupa, e sentavam-se ambos na camara oval, tendo a resguardal-os do sol um toldo de lona.

Então Antonino gritava ao creado, que ficava no caes:

--Larga!

O cabo cahia na agua como um fustigamento de pingalim.

O visconde amarrava a vela, suspendia a ancora, impellia o barco com o croque, e puchava a canna do leme para bombordo.

A chalupa inclinava-se graciosamente ao vento, balouçava por instantes como indecisa, e por fim vogava.

Cinco minutos depois, fendia a agua com uns movimentos de sereia.

Percorreram assim as costas da Bretanha, d'um lado até Donamaner, e mesmo a Lorient, e do outro até ao Mont-Saint-Michel.

Algumas vezes succedeu estarem ausentes durante dois ou tres dias, com grande inquietação do conde.

O pae d'Antonino sabia que o vento contrario e o mau tempo não os fazia parar.

O menos temerario dos dois, era justamente o visconde.

Laura sentia-se bem a bordo.

O perigo incitava-a porque era uma emoção, e eram as emoções o que faltava a Laura, a quem a vida socegada mais fazia recordar o passado.

A caça divertia-a muito menos.

Por vezes recusava-se até a acompanhar o marido e o sogro, e só ia á tapada do castello, se o almoço fosse servido ao ar livre.

Não acceitára até uma esplendida espingarda de caça, que Antonino lhe offerecera, e que passava por ser uma verdadeira maravilha.

As poucas reuniões que o conde entendeu dever dar no castello, não lhe mereceram maior attenção, nem lhe proporcionaram o menor attractivo.

Entretanto fazia as honras da casa com tão fino tacto e tão affavel dignidade, que a propria Estephania se admirava.

Uma d'essas reuniões, mais solemne que as outras, teve, comtudo, para Laura, verdadeira importancia.

Foi a festa da inauguração da capella restaurada do castello.

Havia já tres annos que Estephania, que possuia fortuna pessoal, emprehendera, com o concurso, felizmente habil, d'um architecto de Rennes, a restauração da referida capella, uma verdadeira joia do seculo XV, no gosto de Folgoet.

A obra terminara emfim.

Faltava baptisar o sino e consagrar a capella.

O arcebispo de Rennes fôra convidado para esse fim, respondendo que iria proceder á dupla ceremonia no primeiro domingo do mez d'agosto.

Esta noticia, como era de suppôr, causou grande sensação em todos os castellos e parochias dos arredores, e todos foram unanimes em declarar que só ao conde de Bizeux se poderia dever semelhante honra.