O Romance d'uma cantora

Part 6

Chapter 63,661 wordsPublic domain

O _banqueiro_ que se seguia, deu ainda quatro _baccaras_.

Antonino continuava sorrindo.

O emprezario não o desfitava.

O rosto d'aquelle homem transformára-se de subito.

Brilhava-lhe sinistramente o olhar, rugas fundas vincavam-lhe a fronte, e gotas de suor perlavam-lhe o carmim das faces. Approximou-se de Antonino, a quem disse em voz baixa:

--Não joga, senhor visconde?

--Não...

--Como não se entretem aqui, se quer vamos até á sala d'esgrima...

--Pois sim.

--Muito bem. Para nos interessarmos um pouco mais no assalto, occorre-me uma idéa, que talvez não lhe desagrade tambem.

--Queira dizer.

--A um canto da sala ha dois floretes, cujos botões saltaram ha dias. Poderemos experimentar as nossas forças como elles... como quem não repara.

--Acceito, mas hei de eu escolher um dos floretes.

--Escolherá á sua vontade! respondeu Pozzoli tremente de raiva.

E accrescentou em seguida:

--A Linda está a olhar para nós. Não devemos sahir juntos. Vá o senhor adiante. D'aqui a cinco minutos sahirei eu.

Antonino fingiu seguir com attenção, por alguns segundos, a partida _baccara_, que já não despertava interesse a Laura, assustada pelo colloquio do visconde com Pozzoli.

Pouco depois Antonino sahiu da sala, sem afectação.

Laura procurou então o emprezario com o olhar.

Pozzoli conversava e ria n'um grupo de convidados, que não jogavam.

Passados dois minutos tomou o braço d'um d'elles, com quem pareceu entabolar uma conversação interessante, e sahiu com elle.

Quando chegou á sala d'esgrima, o visconde já o esperava.

Despujolles e Remissy, que não eram fortes em esgrima, estavam um em frente do outro, de sabre em punho.

--Queira examinar estas explendidas panoplias, sr. visconde, disse Pozzoli.

Antonino seguiu o emprezario, que, fingindo dar-lhe explicações sobre varias armas antigas, escolheu dois floretes desembolados, que deu ao visconde, sem pronunciar uma só palavra.

Antonino examinou-os, dobrou-os para lhes experimentar a tempera, escolheu um e deu o outro a Pozzoli.

--Está combinado, disse o emprezario, que, succeda o que succeder, não será mais do que o effeito d'um accidente?

--Está.

Todos os convidados presentes na sala d'armas seguiam com curiosidade o assalto entre Despujolles e Remissy, que, em mangas de camisa, esgrimiam enfurecidamente, como dois demonios.

Ninguem reparou para Pozzoli e para o visconde, que fizeram tudo o que deixamos dito sem serem percebidos.

Quando, porém, acabavam de trocar as ultimas palavras, entrou na sala a gorda Elvira, acompanhada de Lauretto Mina.

Dirigiu-se para Pozzoli, dizendo-lhe:

--Vamos para a galeria grande. As _pequenas_ vão executar a dansa das bailadeiras.

O emprezario franziu as sobrancelhas.

Por fim respondeu com voz brusca:

--Logo dansarão.

Elvira tocou com o cotovello em Lauretto, imperceptivelmente.

E sem dizerem nada, mas percebendo-se, foram-se sentar n'um _divan_, e accenderam umas cigarrilhas.

Despujolles tocava, pela terceira vez, o seu adversario, com applausos, um pouco ironicos, dos assistentes.

O violinista, já cançado, disse:

--Estou satisfeito, meu caro dr. Confesso-me vencido.

E ajuntou, sorrindo:

--De resto, nenhum de nós é forte ao sabre.

N'esse momento Pozzoli dizia ao visconde, em voz baixa:

--Como estou em minha casa, parece-me conveniente que o sr. me convide, para desviar todas as suspeitas... na hypothese d'um accidente desagradavel.

--D'accordo, replicou Antonino no mesmo tom.

E em voz alta disse:

--Sr. Pozzoli, o sr. Lauretto Mina, disse, ha dias, na minha presença, que o meu amigo era de primeira força ao florete. Quer dar-me a honra de ser meu adversario?

--A honra será toda minha, sr. visconde, respondeu o emprezario.

Pegaram, como por acaso, nos dois floretes desembolados, como se fossem os primeiros que encontrassem á mão.

Ao despirem os casacos, Pozzoli disse a Antonino, baixo:

--Venha um pouco para a penumbra, para que não reparem na falta de botões dos floretes.

A sala era illuminada por uma enorme lampada persa, de cobre avermelhado, trabalhada com arte.

Estava suspensa ao centro da casa.

As extremidades da sala, que era rectangular, ficavam um pouco na sombra.

Foi para uma d'essas extremidades que os dois esgrimistas se dirigiram.

Cumprimentaram-se com os floretes, segundo as regras, e cahiram em guarda.

Em volta formou-se rapidamente um circulo de curiosos, que engrossava de momento a momento.

Na sala não se ouvia mais do que o tenir das laminas.

Os dois adversarios começaram sem demora a bater-se com encarniçamento, _parando_ com toda a rapidez e _ripostando_ vigorosamente.

Lauretto Mina, que tinha boa vista, e estava meio prevenido por Elvira, percebeu immediatamente que os floretes estavam desembolados.

Sem deixar de fumar, apontou o facto á amante de Pozzoli. Ao cabo de dois minutos, continuando a observar os dois contendores, disse:

--Sabes, Elvira?...

--O quê?...

--Estás prestes a enviuvar, minha querida.

--Pois suppões?...

--Ou, pelo menos, destinada a enfermeira durante dois ou tres mezes.

--Que estopada? Parece-te então que Pozzoli?...

--Será ferido? Com certeza!... Nem parece meu discipulo! Verdade seja que o visconde é de primeira força. Repara para elle...

Laura, que continuava na sala do jogo, reflexionou com temor que a sahida de Pozzoli, quasi immediata á de Antonino, não era natural.

Poucos minutos passados, não podendo conter-se por mais tempo, chamou o conde de Vereuil, que estava proximo, e disse-lhe:

--Não vejo Pozzoli. Queria fallar-lhe n'um assumpto urgente... Se o sr. conde o procurasse e trouxesse aqui muito me obsequiava.

O conde inclinou-se e sahiu.

Demorou-se dez minutos.

Á angustia de Laura parecia que elle partira ha mais de uma hora.

Por fim o conde voltou.

Vinha só.

Laura perguntou-lhe, logo que o viu:

--E então?... Pozzoli?

--Perdôe-me a demora, mas com difficuldade o encontrei. Fui dar com elle na sala d'armas.

--Ah! Fallou-lhe?

--Não. Era impossivel, porque no momento em que cheguei começava elle um assalto ao florete.

--Com quem?... com quem?...

--Com Bizeux.

Laura levantou-se, como que impellida por mola occulta.

Estava pallida como uma morta.

Passados instantes disse ao conde:

--Queira dar-me o seu braço. Vamos até lá. Desejo ver o assalto. Sou tão curiosa!

Tomou o braço do conde, que, surprezo, a sentiu tremer.

Entretanto não se atreveu a perguntar-lhe o que tinha.

Laura apressou o passo.

Quando entraram na sala d'armas, Pozzoli, extremamente pallido--porque tinha percebido, antes de Lauretto Mina, que estava em frente d'um adversasario de primeira ordem,--concentrava toda a sua vontade e todos os seus recursos d'esgrimista em guardar a defensiva.

Comtudo sentia-se perdido.

No momento em que Laura se approximava, Antonino cahiu a fundo. Pozzoli _parou_, curvando-se.

A cantora, ao primeiro olhar, percebeu que o florete de Pozzoli não tinha botão.

--Acautelle-se!... gritou ella ao visconde.

Antonino olhou para o lado d'onde partira a voz de Laura.

Esta distracção fez com que se conservasse descoberto durante dois segundos.

Pozzoli aproveitou o momento para lhe vibrar uma estocada, de que o visconde não teve tempo de defender-se.

A ponta do florete attingiu-o debaixo do sovaco.

Antonino cambaleou e cahiu nos braços do dr. Despujolles.

Um ruido confuso espalhou-se por entre as testemunhas d'aquella scena tragica.

Transportaram o ferido para um _divan_.

Laura, fóra de si, d'olhos esgazeados, gritava:

--Fui eu que o matei.

O dr. examinou cuidadosamente o ferimento do visconde.

Passados momentos, disse:

--Ferida quadrangular!... Não sangra!

Alargou com a ponta do dedo a abertura do ferimento, d'onde apenas sahiam umas gotas de sangue, e introduziu a sonda, que sempre trazia comsigo.

O rosto alegrou-se-lhe.

Laura, ajoelhada junto d'elle, perguntou-lhe:

--Então, dr?...

--O ferimento é grave, mas não é mortal. Vou sangral-o.

Durante esse tempo, Pozzoli, tendo nas mãos os dois floretes, dizia para Lauretto Mina com aspecto consternado:

--Ah! Foi aquelle idiota do Antonio que deixou aqui os floretes que nós, a semana passada, tinhamos desembolado. Que miseravel! Nem mais uma noite dormirá em minha casa!

E mostrou o florete do visconde, para provar que não tinha botão, como aquelle de que se servira.

Antonino reabriu um pouco os olhos depois de sangrado. Olhou para Laura, sorriu-lhe, e perdeu os sentidos.

Despujolles parecia ter pressa de o fazer sahir d'aquella casa.

--Pode já ser transportado, disse elle.

--Irá na minha carruagem, observou Laura.

--Não. Uma padiola é mais conveniente.

Foi improvisada a padiola sem detença.

Deitaram n'ella o ferido, e levaram-o.

O visconde continuava sem sentidos.

Ao chegarem ao vestibulo, cheio d'homens e senhoras em _toilette_ de baile, os conductores perguntaram:

--Para onde devemos seguir?

--Boulevard Haussmann.

--Não, disse Laura. Para minha casa, rua de Bolonha. É mais perto.

--Mas... ia a observar Despujolles.

--Em casa d'elle não terá ninguem que o trate. Para minha casa... para minha casa!...

--Veja o que faz... disse-lhe baixo Despujolles, que via trocarem-se entre os espectadores d'aquella scena, olhares e sorrisos significativos. Asseguro-lhe que respondo por elle...

E voltando-se para os homens que conduziam a padiola, ajuntou em voz alta:

--Levem o sr. de Bizeux...

--Para minha casa, interrompeu Laura. Já lhe disse, doutor... quero que o levem para minha casa!

Ainda não eram tres horas da madrugada, e o baile devia prolongar-se até pela manhã.

Aquella scena inesperada, porém, desgostára todos os convidados de Pozzoli.

Em menos de meia hora as salas ficaram desertas.

Os convidados retiravam-se commentando, de mil formas diversas, o assalto, ou o duello, de Pozzoli e do visconde.

Remissy dizia ao baritono Lunier, com quem descia o _boulevard_:

--Ninguem sabia ao certo, até agora, o que era a casa de Pozzoli. Passava por ser um bordel. Desde hoje é tambem um covil. Completou-se.

Em quanto os creados apagavam as ultimas velas, Pozzoli, ficando só com Lauretto e a Elvira gorda, disse-lhes:

--Vamos para o salão reservado.

Contiguo ao quarto de cama de Pozzoli, no salão reservado não entravam senão os intimos do emprezario.

Era uma sala octogona, sem janellas, alumiada apenas por lampadas arabes mettidas em vidros de côres, que espalhavam uma luz mysteriosa e sensual.

Espessos tapetes persas cobriam o sobrado e amontoavam-se para formar um largo _divan_ baixo, que circundava toda a casa.

Tamboretes de madrepérola e marfim, espalhados ao acaso, completavam a mobilia da casa, cujas paredes eram forradas d'espelhos caros.

A pintura do tecto representava a dansa de sete odaliscas nuas, deante do senhor, acocorado e fumando, com os olhos semi-cerrados e os labios, entre-abertos.

--Uff! Não posso mais! disse Pozzoli ao entrar na sala, atirando-se para o _divan_. Não bebi quasi nada durante a noite, para estar senhor de mim. Vou desforrar-me!

Carregou n'um botão.

Um dos espelhos moveu-se, deixando uma abertura, a que appareceu um creado.

--Antonio, _chypre_ para mim, e _champagne_ para a senhora e para o sr. Lauretto Mina.

--Temos de beber á tua dupla victoria, disse o tenor. Ah! meu caro, palavra! cheguei a suppôr-te um homem morto!

--Tambem eu cheguei a considerar-me n'esse lindo estado! replicou Pozzoli, tirando das algibeiras, á mistura, notas de banco e moedas d'oiro, que ia pondo sobre um tamborete proximo.

Depois d'alguns instantes de silencio continuou:

--Se não fosse a intervenção da nossa querida Laura, tinha-me levado o diabo! Esteve toda a noite a meu favor, a Linda! Só lhe apanhei cinco mil francos, mas ficou-me a dever quatorze, o que prefaz um total de desanove. E aquelle grito de prevenção, que soltou, salvou-me a vida. Ah! é tão bom viver!

--O pobre visconde, chasqueou Lauretto, é que não pode dizer o mesmo por muito tempo. Entretanto é de esperar que viva ainda bastante. Reparaste? A Linda mandou-o conduzir para casa d'ella. Aposto em como o vae amar loucamente. A noite foi boa, Pozzoli. Trataste satisfatoriamente dos teus negocios e adeantaste os meus. Obrigado!

--Não te calarás? gritou a Elvira gorda acotovellando o tenor com rudeza.

Lauretto riu-se.

--Deixa-o fallar, Elvira, disse Pozzoli. Lauretto tem razão. Vou por elle. Has de ser amante de Laura!

E rindo-se, pegou em quatro notas de mil francos cada uma.

Dobrou-as e atirou com duas a Elvira, dizendo-lhe:

--São para ti.

--Obrigado, Eurico!

E accrescentou dando as outras duas ao tenor:

--E estas para ti, Lauretto.

O tenor metteu as notas na algibeira, sem pronunciar palavra.

--Pois nem me agradeces?

--Para que? Dás sempre qualquer coisa com uns modos que provocam explicações.

--Então restitue-me o dinheiro!...

--Estás doido!... Olha, eis o vinho que chega. Bebamos. Para isso é que tu és um homem! Esvasias muito melhor os copos do que as algibeiras.

Pozzoli deu aos hombros despresadoramente.

Desrolhadas as garrafas, o creado sahiu.

Os tres começaram a beber em silencio.

Pozzoli, sobretudo, bebia com uma especie de bestialidade avida e feroz.

De repente interrompeu as libações para dizer:

--Então, não dizem nada?... Estão esta noite muito monos!...

--Espera, respondeu Elvira. Vou chamar as _pequenas_.

Carregou no botão d'uma campainha electrica.

Quasi immediatamente appareceram quatro bailarinas, jovens e formosas.

Elvira disse-lhes:

--Executem a dansa das bailadeiras, sem córtes.

Lauretto Mina pegou n'uma guitarra, e cantou, acompanhando-se com o instrumento, uma canção arabe, primeiro lenta e terna, mas accelerando gradualmente o movimento, até tornar-se ardente e rapida.

As bailarinas seguiram-o, executando uma d'essas dansas egypciacas, brandas e lascivas, que terminou n'uma especie de furia de bacchantes.

Pozzoli soltava gargalhadas estridentes, batia as mãos, rebolava-se pelo _divan_.

Quando o bailado acabou, elle berrou:

--Mais! mais!...

--Mais não! replicou Lauretto. Eu e ellas é que sabemos se foi bastante.

--Então bebamos!

--Olha, cá está o teu copo grande, disse o tenor.

E apresentou-lhe um copo enorme, que podia conter todo o liquido d'uma garrafa.

Pozzoli encheu-o de vinho de _chypre_.

Depois de beber a grandes golos, disse:

--Ah! isto consola!

E bebeu o resto.

--Basta, disse-lhe Lauretto. Já estás bebedo.

--Deixa-o beber, meu querido Lauretto! observou a Elvira gorda sem se dar ao incommodo de baixar a voz. Mais depressa ficaremos livres e sós.

Lauretto apenas respondeu com um movimento de hombros approvativo, e accendeu um cachimbo.

--Não fumes esse veneno, meu idolatrado! aconselhou Elvira. Repara, eu já não bebo...

Mas elle continuou a fumar em silencio.

Pozzoli rolára do _divan_ para o tapete, balbuciando:

--Deem-me de beber!... Quero _chypre_!... Estão na mesa quinhentos _luizes_... Aposta, visconde?...

As quatro bailarinas descançavam, sentadas no _divan_, de pernas cruzadas, olhando com curiosidade para os patrões.

Elvira fez-lhe signal de que podiam retirar-se.

Ellas desappareceram immediatamente.

Entretanto Lauretto bebia e fumava.

--Meu querido Lauretto, peço-te que não bebas mais! supplicava a Elvira gorda.

E passava os braços em volta do pescoço do tenor, tentando tirar-lhe o cachimbo da bocca.

Elle deu-lhe um murro.

--Deixa-me, ursa!... Safa-te! Ou és tu como Laura? Se és, vem!... Mas, não... ella é mais formosa... Não te pareces com a Linda, nem ao longe... Ah! Laura!...

As palpebras cerraram-se-lhe.

No rosto desenhou-se-lhe uma expressão d'extasi voluptuoso.

--Laura! vem!... Leva-me comtigo para o infinito, onde as estrellas executam uma dansa luminosa!... Meu Deus! como os teus cabellos cresceram desde a ultima vez que os acariciei, Laura!... Vejo-os fluctuar ao longe, atraz de nós, cauda d'um cometa d'ouro, entre a harmonia dos astros... A brisa eterna fal-os soltar notas maviosas... Vibram como cordas d'harpas eolias... Ouço por toda a parte a sympathonia do amor, em que canta um beijo que dura um seculo!...

Calou-se.

Elvira passou apenas a ouvir os roucos estribulos de Pozzoli, curtindo socegadamente a bebedeira.

Lauretto foi em breve fazer companhia ao emprezario, sobre o tapete.

Elvira olhou primeiro para Pozzoli, que parecia dormir o somno da innocencia, e depois para Lauretto, que conservava a bocca e os olhos entreabertos, n'uma expressão mystica de Christo em extasi.

Por fim levantou-se; arredou-os com o pé para passar, dizendo despresadoramente:

--Que dois brutos!

E entrou, só, no quarto da cama.

XII

A cura

Durante uma semana em que fluctuou entre a vida e a morte, Antonino viu, atravez o delirio, passar e repassar uma sombra, branca e silenciosa, que corria para elle ao ouvil-o soltar um gemido, ou se inclinava para lhe humedecer a fronte escaldante de febre ou para lhe dar de beber.

Por vezes essa que para o visconde era apenas sombra, dirigia-lhe palavras meigas, que elle não comprehendia, mas que o embalavam, socegando-o.

Um dia o pensamento fixou-se no seu cerebro perturbado.

A febre diminuiu, e, como accordando d'um pesadello terrivel, Antonino olhou em volta, parecendo distinguir e perceber.

A sombra branca lá estava junto d'elle.

Não sonhára, pois.

Ella lá estava, envolvendo-o n'um olhar em que o sorriso transparecia por entre as lagrimas.

O visconde reconheceu-a.

Sorriu-lhe tambem e murmurou:

--Laura!

--Não falle, observou ella. Está melhor, está salvo, mas não está ainda completamente curado. É necessario estar calado e quieto, porque foi essa a recommendação do doutor.

Elle repetiu com enlevo, despresando o conselho:

--Laura!

Depois, olhando em volta demoradamente, perguntou:

--Onde estou eu?

Despujolles entrava n'esse momento.

--Ah! doutor! disse Laura indo ao encontro do medico, ainda bem que chegou! Elle vê e falla. Voltou completamente a si!

--Admire a minha sciencia! Preveni-a hontem de que hoje se daria esse facto, respondeu Despujolles.

E depois, voltando-se para o visconde, accrescentou:

--Vejamos o pulso. Bem. A febre quasi desappareceu de todo. Tudo vae bem.

--É o senhor, meu caro Despujolles? disse Antonino. Mas o que succedeu?... Porque não estou eu em minha casa?...

--Não falle, recommendou o medico. Vou pôl-o ao corrente do caso. O meu amigo foi ferido ha oito dias, n'um pretendido assalto d'esgrima, pelo patife do Pozzoli. O ferimento era serio, muito serio até! A nossa querida Laura mandou-o transportar para casa d'ella. O meu amigo está no salão da nossa amiga, deitado n'um leito que eu mandei arranjar de proposito, e que facilita muito os pensos. Durante essa terrivel semana, o meu caro visconde não teve, tanto de dia como de noite, senão uma enfermeira: Laura Linda, que apenas admittia que Jacintha a ajudasse algumas vezes na sua dedicada missão e nas vigilias longas. Está em via de cura rapida e completa, mas é necessario ter juizo, obedecendo ao seu medico como a um deus, não se mover, fallar pouco e pensar menos.

--Seguirei á risca as suas instrucções, meu caro doutor, e agradeço-lhe reconhecido os seus desvelados serviços, disse Antonino.

Em seguida estendeu a mão para Laura. A cantora pegou n'aquella mão descarnada, e disse, sem poder suster as lagrimas, que lhe deslisaram pelas faces:

--Como é estupido chorar d'alegria!

--Sobretudo, accrescentou Despujolles, quando se corre o risco d'enternecer um doente. Nada de pieguices! Vou fazer o penso.

Antonino não cessava d'olhar para Laura, com expressão de reconhecimento e amor.

--Juizo! disse o medico no tom brusco que lhe era habitual, quando estava no desempenho das suas funcções. Espero que, logo que eu sahir, não comecem a contar historias um ao outro ou a cantar duetos. Addiem, addiem as explicações e os projectos para mais tarde. Creio que dei ao ferido todos os esclarecimentos necessarios...

--Entretanto, meu caro doutor... interrompeu Antonino.

--O que quer dizer?... Deixaria eu d'explicar claramente tudo o que se passou? Ah! como está em casa de Laura, é possivel que deseje que lhe expliquem o caso...

--Sim, doutor, disse a cantora, parece-me necessario...

--Bem, seja... concedo... Mas procedam de fórma que não pronunciem mais de tres palavras.

--Oh! doutor!...

--Nem mais uma. Expliquem-se em tres palavras, sem commentarios, e com a condição de que depois serão mudos como dois peixes. Adeus, meu caro visconde, até ámanhã e juizo.

Laura acompanhou Despujolles até á porta da escada.

O medico mais uma vez lhe assegurou que o doente não corria perigo, recommendando-lhe de novo socego absoluto para Antonino.

O visconde, com o olhar fixo na porta da sala, esperava com impaciencia a volta de Laura.

A cantora entrou.

Elle quiz fallar, mas ella collocou um dedo sobre os labios do doente, ajoelhou junto do leito, e com voz d'anjo, disse:

--Amo-o!

Amava-o! Oito dias antes nem ella propria o sabia.

Os diversos acontecimentos que successivamente se deram revelaram-lhe aquelle amor, que existia latente no seu coração.

Primeiro o sacrificio d'Antonino surprehendera-a.

Aquelle honesto e grave fidalgo bretão, rico e considerado, dera-lhe a mais irrefutavel prova de confiança e d'amor, offerecendo-lhe a sua mão e permittindo que ficasse no theatro.

A insolente interrupção de Lauretto Mina no momento em que o seu contentamento de mulher e de artista mais se expandia, tinha-lhe torturado o coração, demonstrando-lhe a impossibilidade d'acceitar o offerecimento inesperado d'Antonino, que n'um momento, sem hesitação, renunciava a todos os prejuizos d'educação e de familia.

Mas tudo o que sentia então podia ser apenas admiração e reconhecimento pelo cego amor do visconde.

Na _soirée_ de Pozzoli, Laura não tinha percebido que era ciume o que sentira, quando viu uma outra mulher parecendo querer monopolisar a attenção e as amabilidades do visconde, que ella considerava como pertencendo-lhe.

Depois, quando Pozzoli e Antonino tinham trocado em voz baixa as phrases pelas quaes deviam bater-se, poderia ella classificar a angustia que experimentou, sentindo os espinhos da desconfiança picarem-lhe o coração?

Por fim, toda a chamma do seu amor latente rebentou, como no incendio da Opera, ao ver Antonino prostrado pelo florete de Pozzoli, morto talvez, e morto por ella!

Então tudo esquecera: posição, reputação compromettida, futuro perdido.

Quizera levar para casa o seu amado, para o ter bem junto a si, morto ou vivo.

No dia seguinte pela manhã, levada pelo horror que sentia por aquelle miseravel Pozzoli, Laura nada quiz dever ao que ella considerava assassino, nem mesmo o dinheiro que na vespera elle lhe tinha roubado ao jogo.

Para obter esse dinheiro mandou Jacintha, com parte dos diamantes que possuia, a um joalheiro, que n'outra occasião lhe adiantára, com um juro modico, uma quantia importante sobre o mesmo penhor.

Antes do meio dia, Pozzoli, esfregando as mãos de contente, estava pago.

Durante oito dias, volteando em redor do leito de Antonino, espiara, attribulada, o soffrimento do ferido.

Emfim o dr. Despujolles annunciou um dia que o doente estava livre de perigo.

Elle estava salvo, e ella salva tambem!

Tinha a certeza d'isso, porque, emfim, sentia que amava.

Desde então aquella alma tão ardente e sincera não teria que confranger-se, nem que hesitar.

Seria sua esposa, seria sua amante, o que importava, com tanto que pertencessem um ao outro para sempre!

A cura d'Antonino caminhou rapidamente, activada pela felicidade.

Ao cabo de quinze dias, o visconde levantava-se, pallido ainda e enfraquecido pela dieta e pelo sangue perdido, mas sentindo que a força e a vida lhe voltavam gradualmente.

A Linda, obedecendo ás prescripções de Despujolles, fallava pouco a Antonino e não consentia que elle fallasse.

Por fim o medico declarou uma manhã, sorrindo indulgentemente, que, se ella tinha alguma coisa importante a dizer ao visconde, podia fazel-o, sem que o doente corresse risco de peorar.

Laura poude então abrir completamente o seu coração a Antonino.