O Romance d'uma cantora

Part 5

Chapter 53,739 wordsPublic domain

Elle não se incommodou por não obter resposta, e continuou:

--Com que então cantamos ámanhã juntos, na _soirée_ de Pozzoli, o dueto da _Lucia_! É por essa razão que venho a tua casa. Se queres, vamos ensaiar-nos, minha querida.

Antonino estava irritadissimo.

Aquelle homem atrevia-se a tratar Laura por tu!

Chamava-lhe _minha querida_, como se estivesse fallando com a creada de quarto!

Deu um passo para Laura, interrogando-a com o olhar ancioso.

Ella de certo ia zangar-se, mandaria pôr fóra o atrevido... ou, pelo menos, com uma só palavra, permittiria que elle, Antonino, interviesse, dando uma lição ao insolente.

Laura, gelada de pavor, percebia tudo o que se passava no espirito do visconde.

Mas deveria ella provocar um conflicto entre aquelles dois homens?

Do conflicto resultaria um duello talvez...

Aquelle miseravel mataria Antonino.

Por isso, com um sorriso forçado, balbuciou apenas:

--Ensaiar o dueto?... Não, é inutil... Agradeço-lhe ter-se incommodado...

--Como queiras, _cara mia_, replicou o tenor.

E sem ceremonia pegou n'uma cadeira e sentou-se perto de Laura.

Percebia perfeitamente o effeito que estava produzindo, e no intimo alegrava-se com ferocidade.

Via no rosto de Laura pintada a consternação e a angustia, e nas feições do visconde a indignação e o furor.

Lauretto, ao contrario, estava cada vez mais tranquillo.

De resto, que podiam elles fazer ou dizer?

Por mais indignados que estivessem intimamente, estavam condemnados ao silencio.

Se ella se irritasse pelo procedimento indelicado do tenor, se por uma palavra ou por um gesto deixasse perceber que se considerava offendida, o visconde tinha o direito e o dever de intervir.

E o que se seguiria?

Uma altercação, de que resultaria um desafio, com todas as suas perigosas consequencias.

Se Antonino, retrahindo-se Laura, se mostrasse mais susceptivel que ella e levantasse qualquer termo insolente de Lauretto, faltaria ás mais rudimentares praxes da boa educação, comprometteria a cantora, porque se daria ares de mandar mais que a dona da casa.

O tenor, divertindo-se com a situação embaraçosa do visconde e da cantora, continuou fallando a Laura com toda a liberdade.

E, para completa impertinencia, fallou-lhe na sua lingua patria.

Antonino sabia o italiano quasi tão bem como o francez, mas podia desconhecel-o, e n'esse caso era excluido da conversação.

--Não necessitas ensaiar o dueto, _cara_? Eu, desde que o cante comtigo, estou certo de que hei de cantal-o magnificamente. Não o canto com tanta correcção com qualquer outra. Como sabes, quando se sente o que se canta, a emoção communica-se. Decididamente obteremos um verdadeiro successo! Ah! _cara mia_, que alegria sinto por cantar de novo a teu lado! O meu pobre talento é como duplicado pelo teu. Pozzoli disse-me que a escriptura já estava assignada. É verdade? Duvido sempre das affirmações d'aquelle demonio.

--É verdade, respondeu Laura em francez.

O tenor, é claro, fingiu não comprehender a indirecta advertencia, e continuou na sua lingua:

--Ah! Pozzoli d'esta vez não mentiu?!.... Bravo! bravissimo! Se elle necessitar de metade dos meus ordenados para augmentar os teus, da melhor vontade os cedo. Vamos ámanhã dar aos parisienses o ante-gosto do nosso successo futuro. Estou satisfeitissimo por teres annuido a ir á _soirée_ do nosso emprezario. Verdade seja que não podias proceder d'outra fórma.

--Effectivamente era difficil recusar.

--Era até impossivel. Entretanto dizia commigo: a _casta diva_ não acceita. Em S. Germano, em pleno campo, o Pozzoli, que nós conhecemos, evaporava-se um pouco; mas em casa d'elle não pode deixar de ser o que na realidade é. Ah! Ah! em Paris augmentou até os conhecidos desregramentos, aquelle maroto! De resto, eu, como sou homem, pouco me importo com isso. Mas digo mal: é justamente por ser homem que mais sinto as loucuras de Pozzoli. Como está todos os dias a mudar de sultanas,--aquelle sultão!--o pobre tenor é forçado a ser, successivamente, agradavel a cada uma das favoritas. Não me falta que fazer. A que reina agora é a Elvira gorda. Conheces?

--Não, respondeu Laura com firmeza.

--Agora me recordo que ella não foi a S. Germano. Não gosta d'apparecer de dia. Mas socega, que elle ámanhã não deixa de apresentar-t'a. Tem uma prenda bôa, a Elvira; não é cantora, e por isso não me incommoda com pedidos para que cante com ella. É bailarina; dirige o corpo de baile do theatro Italiano, composto de doze sylphides que ámanhã dansarão na _soirée_ um bailado a caracter. Não te assustes, _casta diva_, porque em publico apparecerão pouco apimentadas. Haverá outros divertimentos; jogar-se-ha tambem. Tu continuas sendo jogadora, não é verdade? Na questão do jogo estou convencido, caso extraordinario, que calumniam Pozzoli. Dir-me-has que eu jogo sempre a favor d'elle, mas isso explica-se: Pozzoli tem sorte como poucos. E sabes porque? Fiz esta descoberta, apesar de não lhe faltarem sultanas, como te disse: Pozzoli é infeliz nos amores. Ámanhã não foges á tentação: depois de cantarmos decerto jogarás algumas _mãos_ de _baccara_.

--Não sei, respondeu Laura impaciente.

Lauretto continuou, mas d'esta vez em francez:

--E o sr. visconde gosta de jogar? Se assim não fôr divertir-se-ha por outra fórma, porque as distracções não faltarão. Em casa de Pozzoli ha uma sala d'armas. Fui eu que a installei, aconselhando-o a que jogasse um pouco o sabre, todos os dias, para não engordar demasiadamente. Não é por ser meu discipulo, mas Pozzoli é já adversario para se temer um pouco. Um dos numeros do programma da festa é um assalto. Sou apaixonadissimo pela esgrima. Tenho um grande horror pelos duellos, porque já matei dois adversarios, mas sinto-me satisfeitissimo quando n'uma sala d'armas empunho um sabre ou um florete. Tambem não admira: foi esse por muito tempo o meu ganha pão; e não me envergonho de o confessar, pelo contrario, orgulho-me. Hoje, para mim, a esgrima é apenas um simples passatempo, em que tanto se distrahem os artistas como os fidalgos, não é verdade, sr. visconde?

Antonino era d'esta vez directamente interpellado por Lauretto Mina.

Brilharam-lhe os olhos, e abriu a bocca para responder. Laura estremeceu.

Socegou, porém, porque no mesmo instante Jacintha abriu a porta da sala, e annunciou:

--O sr. dr. Despujolles.

O medico cumprimentou Laura e o visconde.

Lauretto Mina poucas relações tinha com o dr., e não se arriscou a ser muito familiar com elle.

Disse apenas:

--Tenho a honra de cumprimentar o nosso excellente dr. Despujolles. Infelizmente sou obrigado a partir no proprio momento em que elle chega. Declaro, porém, que não é com medo de que me faça febre, como se diz no _Barbeiro_. Pozzoli espera-me ás tres horas, por causa dos ultimos preparativos para a _soirée_. Até ámanhã, minha cara Linda, Sr. visconde... um seu humilde creado...

Rodou sobre os tacões, fez com a mão um gesto amigavel ao dr., e sahiu.

--Aborrecida creatura! disse Despujolles. Nunca pude supportal-o!

Laura e Antonino não responderam.

Elle olhou-os admirado.

--Mas o que teem? Parece que viram a cabeça de Medusa!

--Meu caro dr., disse Laura, foi essa aborrecida creatura, como lhe chamou, que, na presença do sr. visconde de Bizeux, em minha casa, se atreveu a tratar-me como apenas nos tratamos no theatro. O sr. de Bizeux desconhece, sem duvida, os usos e costumes, originalmente singulares, do nosso mundo theatral. Os artistas tratam-se por tu entre si desde o primeiro dia que se conhecem. O que não procede d'essa fórma é immediatamente considerado mau companheiro. Isto não impede que os homens bem educados,--e no theatro tambem os ha, e muitos,--quando encontram na sociedade uma mulher que é sua collega, se cohibam de lhe fallar como se falla a uma senhora, sobretudo diante d'estranhos. Mas ninguem ignora que Lauretto Mina não é um homem bem educado. Entretanto o sr. visconde, que desconhecia o costume, estranhou a linguagem um pouco licenciosa do insolente que acaba de sahir d'aqui. Emquanto fallou, Laura nem por um instante desfitou Antonino, cujas feições indicavam um profundo desgosto.

Despujolles percebeu que chegára n'um momento de crise aguda, e tratou de intervir como calmante, dizendo:

--O nosso amigo, quasi recemchegado a Paris e desconhecedor, por completo, dos habitos do nosso mundo de bastidores, não pode adivinhar o que eu sei, que vivo ha vinte annos entre artistas. Não admira, pois, que se surprehendesse e desgostasse pelo intimo tratamento de _tu_, que, comtudo, garanto-o, é universal entre os artistas.

--Esse tratamento admirou-me ao principio, confesso, respondeu Antonino com voz lenta; mas o que mais me surprehendeu não foi a fórma da linguagem foi a propria linguagem.

--Oh! isso é uma especialidade de Lauretto Mina! replicou Laura com vivacidade. E entretanto fiquei tão surprehendida como o meu amigo.

--Então porque não lhe fez comprehender isso mesmo? Eu esperava um olhar, um movimento, um simples signal que chamasse esse insolente á ordem.

Uma mulher nunca pode dizer a um homem que sentiu medo por elle. Portanto Laura limitou-se a responder:

--Não quiz dar importancia ás inconveniencias d'esse homem, para que elle julgasse que nem reparava n'ellas.

--O Lauretto Mina é com effeito bastante conhecido e tem bem inferior cotação para que se dê importancia ao que diz.

Laura continuava olhando para Antonino, que se calou.

--Peço perdão, meu caro dr., disse a cantora, mas o caso d'esta vez tinha uma importancia enorme...

E, voltando-se para o visconde, accrescentou: O que acaba de se passar, confirma, sr. de Bizeux, o que eu estava para lhe dizer: agradeço-lhe muito o generoso pensamento que teve, mas não posso acceitar o que me propoz. Como vê, a sua intenção é completamente irrealisavel.

Despujolles, comprehendendo que estava alli de mais, levantou-se, dizendo a Laura:

--Deixo-a. Subi apenas para lhe dizer: até ámanhã, na _soirée_ de Pozzoli.

Antonino estava n'um d'esses momentos em que se necessita estar só, ou antes, soffrer sem testemunhas.

Fez parar Despujolles com um gesto.

--Sou eu que me retiro, meu caro doutor. Demorei-me aqui mais do que desejava. Tenho de resolver em casa um negocio urgente.

Apertou a mão a Laura, que apenas lhe disse:

--Espero que cumpra a palavra dada. Irá á _soirée_, a que eu não posso deixar d'assistir, não é verdade? Arrependeu-se de lhe ter recordado a promessa feita, porque Antonino, depois d'um instante de hesitação, e como occorrendo-lhe uma idéa subita, respondeu precipitadamente:

--Sim, irei á _soirée_ de Pozzoli. É indispensavel que eu me embrenhe por completo nos habitos dos artistas!

Despediu-se de Despujolles e saiu, sentindo inexplicavel oppressão no coração.

XI

Ouro, lama e sangue

A casa de Pozzoli era concorridissima no tempo do ultimo imperio.

N'essa epoca, em que apenas se pensava em gozar e em que não se escrupulisavam os meios a empregar para attingir qualquer prazer, as salas do director do Theatro Italiano passavam, com justiça, por ser d'aquellas em que melhor se perdia uma noite.

Os homens que frequentavam a casa de Pozzoli pertenciam á melhor sociedade parisiense.

As mulheres faziam parte de todas as multiplices camadas sociaes.

Encontravam-se alli artistas de primeira ordem, como a Linda, e outras que por artistas queriam passar, mas que, d'ordinario, não tinham direito a esse qualificativo, e que só se tornavam notadas pela belleza ou pelo espirito, mais ou menos original, mais ou menos livre.

O palacio em que Pozzoli habitava, era vasto e perfeitamente bem dividido para recepções e festas de qualquer natureza.

Pozzoli decorára e mobilára a casa com sumptuosidade, a que faltava um certo gosto, mas visando a determinado effeito, que muitas vezes attingia.

A arte de tapeceria moderna resplandecia em todas as salas.

Entrava-se no rez do chão, subindo seis degráus, que terminavam em largo patamar, protegido por elegante cobertura.

O vestibulo era coberto de bocados de marmore, alternadamente branco e vermelho, em losango.

A escadaria, coberta de valioso tapete de Smyrna, era de marmore branco, e de marmore vermelho o corrimão.

Uma palmeira do Senegal envolvia o tronco na quasi perfeita espiral das folhas largas e flexiveis.

As paredes, terminando em velhos Aubussons, eram enfeitadas por placas de prata, de muitos braços, sustentando globos baços, que espalhavam uma claridade discreta.

O grande salão Luiz XVI, branco e ouro, era illuminado por um lustre enorme, e ornado de oito espelhos.

N'esse salão entrava-se por uma porta que se abria á direita do vestibulo.

No fogão de marmore de Carrara, entre dois Renommées ladeando um espelho elliptico, e encimado por um frontão em arco, elevava-se, n'um pedestal simples, o busto de Rossini.

Ao fundo, o piano d'Erard, um magnifico piano de cauda, ornado d'assumptos extrahidos a Watteau, a Lancret e Fragonard.

A sala de jantar ficava em frente do salão, á esquerda do vestibulo.

A sala de jogo, a sala de fumar, a bibliotheca, e a sala d'armas, eram no primeiro andar.

A primeira impressão que se experimentava ao entrar n'aquelles salões de velludo, seda e oiro, era a de falta d'ar.

Parecia que não se poderia respirar á vontade.

Sentia-se que se estava num meio artificial, falso.

Ao reparar-se para as ondas de luz que cahiam dos lustres e dos candieiros, perguntava-se se a luz do dia, a verdadeira luz, poderia penetrar alli.

As tapecerias e os estofos espessos dos reposteiros e dos cortinados, estavam como que impregnados d'um perfume capitoso, que tornava pesada a cabeça, embaciados os olhos, oppresso o peito.

Ás onze horas os salões começaram a encher-se.

Áquella hora ainda não tinham chegado nem Laura nem o visconde.

Pozzoli, encontrando-se com Lauretto Mina, que tambem fazia um pouco de dono de casa, perguntou-lhe em voz baixa:

--Tens a certeza de que a tua _casta diva_ não deixa de vir? Não achas possivel que o nosso bretão a prohiba de comparecer?

--Acho...

--Começo a antypathisar com o tal visconde de Bizeux! Em S. Germano a custo me cumprimentou, e ao receber o convite para a _soirée_ d'esta noite, apenas me mandou o seu cartão, com estas palavras seccas, escriptas a seguir ao nome: _acceita o convite do sr. Pozzoli_. Desagrada-me deveras o pretencioso fidalgo!

--E eu gosto immenso d'elle, respondeu o tenor, rindo.

--Sim!... Porque?

--Porque cada vez amo mais a Linda, e estou convencido de que será o visconde quem me franqueará o caminho que conduz ao coração de Laura. Cedo-lhe o logar da melhor vontade. Em geral não se gosta do successor, mas não ha razão para odiar o predecessor. Ah! Eil-o que chega!

--Com a Linda?

--Não... Vem com o conde de Vireuil.

--Diabos me levem se eu fingir que o vejo durante toda a noite!

--Estás doido! Olha que elle é rico, e provavelmente gosta de jogar.

--Necessito tanto do dinheiro do visconde, como d'elle proprio!

--Mas parece-me mais conveniente detestal-o e ir-lhe embolsando o dinheiro...

--Que vá para o diabo! Recebe-o tu, se quizeres. Decididamente, não estou disposto a incommodar-me com semelhante animal!

--Eu? replicou o tenor. Não caio n'essa! Hoje não quero brincadeiras com elle. Tratarei até de o evitar, com a maxima prudencia e habilidade.

Alguns minutos depois chegava Laura Linda.

Vinha acompanhada pelo dr. Despujolles, que lhe dava o braço.

Trazia um magnifico vestido de velludo preto, muito decotado, que fazia resaltar admiravelmente a brancura _mate_ da sua cutis d'andaluza.

Nos sedosos e abundantes cabellos pretos ostentava um diadema de margaritas em brilhantes.

Das orelhas pendiam-lhe duas margaritas eguaes ás do diadema.

Aos cantos dos laços dos sapatos de setim mais duas margaritas semelhantes, como que chamavam a attenção para a extraordinaria pequenez dos pés.

Esta _toilette_ um pouco triste realçava, comtudo, a incomparavel belleza da cantora.

Sob os feixes de luz que sahiam dos lustres, os esplendores setinosos da cabelleira preta, o vibrante brilho dos olhos aveludados, a faisca viva do sorriso, coruscavam clarões femininos, scintillamentos de parisiense, para quem o verdadeiro sol é a luz das _soirées_.

Pozzoli, radioso, precipitou-se para Laura, logo que a viu entrar.

--Ah! Até que emfim chegou a nossa querida diva! Estavamos anciosos pela sua chegada...

--Porque?

--Porque o concerto não podia começar sem que estivesse presente...

Offereceu-lhe o braço para a conduzir ao salão, onde todos os convidados, amigos ou admiradores, a foram cumprimentar.

Laura sorriu a Antonino quando o visconde lhe fallou.

Só elle percebeu, ou antes, sentiu, que n'aquelle sorriso havia uma nuvem de tristeza.

O concerto começou pouco depois.

Quando chegou a vez a Laura, pediu para cantar primeiro o dueto da _Lucia_, que estava indicado no programma como devendo ser o segundo trecho.

Lauretto Mina cantou a toda a voz, á qual deu tudo o que suppunha ou podia ter de sentimento.

Laura cantou com a segurança e a pericia costumadas, mas os que por mais vezes a tinham ouvido executar o dueto declararam que ella, d'esta vez, não lhe dera todo o brilho que os seus vastos recursos vocaes permittiam.

Ainda assim o successo não foi menor.

Remissy, já de volta de Londres, executou as suas celebres variações sobre o _Carnaval de Veneza_, a que deu o mais extraordinario e admiravel relevo e a mais poetica e sonhadora phantasia.

Depois d'uma aria de baritono, Laura sentou-se ao piano e cantou um trecho da _Mancenilheira_.

N'essa aria é que os seus admiradores reconheceram a Linda!

Cantou com todo o sentimento, com toda a alma!

Não olhou uma unica vez para Antonino, mas era por elle que Laura se esforçava por cantar com surprehendente habilidade.

O effeito foi extraordinario.

O auditorio, transportado, rompeu em applausos enthusiasticos.

Antonino, reprimindo violentamente os soluços prestes a rebentar, abysmava-se n'um extasi de dôr e de paixão. Chegou a hora da ceia.

Passaram á sala de jantar, vasta mas um pouco fria, mercê das paredes e columnas de marmore.

Os aparadores estavam carregados d'eguarias, e servidas as mezas.

Pozzoli conduziu Laura para uma meza, sentando-se junto da cantora.

Por entre a barafunda dos convidados que procuravam logar, o conde de Vereuil, que seguia Antonino, fel-o parar inesperadamente, dizendo-lhe depois:

--Meu caro, esta dama pede-me que o apresente.

E accrescentou:

--O sr. visconde de Bizeux.--_Madame_ Elvira.

A Elvira gorda,--porque era a dona da casa em pessoa que fôra apresentada a Antonino--desfez-se em cumprimentos e phrases amaveis.

Ouvia fallar tanto do sr. de Bizeux, que desejava ardentemente conhecer tão distincto gentilhomem!

Antonino, cortez e galante sempre com qualquer mulher, respondeu ás expressões admirativas da Elvira gorda com as banalidades do estylo.

Ella tomou o braço do visconde, sem ceremonia, e conduziu-o para uma das mezas, bastante distanciada d'aquella a que estava Laura.

A Elvira gorda fôra em tempo bastante formosa, e á luz do gaz parecia-o ainda.

Era branca e loira.

Tinhas as feições regulares, mas sem expressão.

O que ainda a fazia passar por uma bella mulher era o corpo, admiravelmente bem feito, esbelto como poucos, d'espaduas e braços soberbos.

Fallava com vivacidade e um certo espirito a Antonino, que lhe respondia com phrases curtas, d'uma concisão impossivel d'exceder.

Discorrendo sobre Laura, a amante de Pozzoli absteve-se prudentemente de lhe apontar o mais insignificante defeito.

--Formosissima mulher! disse ella, mas sobretudo admiravel artista. Nasceu para cantar, mas se a voz lhe faltasse nem por isso deixaria de brilhar, porque á rara distincção de maneiras junta os mais invejaveis predicados de coração.

E continuou a elogiar a cantora, não perdendo occasião para, disfarçadamente, dirigir tambem elogios ao visconde.

Terminada a ceia, a Elvira gorda tomou o braço d'Antonino, para lhe fazer as honras da casa.

Mostrou-lhe a estufa, a galeria dos quadros, onde, entre algumas telas de mestres, abundavam as copias mediocres, que Pozzoli fazia passar por originaes authenticos.

Fez parar o visconde deante d'uma estatua de Diana, para a qual _pousara_, tendo apenas á cinta, como se via no marmore, uma simples pelle de panthera.

E tentou córar aos cumprimentos forçados d'Antonino, que declarou admiraveis as formas.

--Quer vir á sala do jogo? Gosta do _bacura_? perguntou ella.

--Fará bem em ir, meu caro, disse repentinamente o dr. Despujolles surgindo ao lado d'elles. A nossa amiga Laura Linda, pela fórma como está jogando, arrisca-se a ficar arruinada esta noite.

Desde que chegou, Laura seguira sempre o visconde com o olhar, sentindo inexplicavel inquietação.

Tambem não perdia de vista Lauretto Mina.

Mas, percebendo que Antonino diligenciou por vezes approximar-se do tenor, socegou por lhe parecer que Lauretto evitava encontrar-se com o visconde.

O socego foi substituido por um sentimento irritante quando deu pelas attenções que a Elvira gorda prodigalisava ao visconde.

Esse sentimento, desconhecido para ella, fazia-a soffrer immenso.

Era o ciume.

O que quereria aquella mulher a Antonino?

Julgou que o mal estar que sentia era resultante da natural apprehensão que lhe causava o pensamento de que o visconde podia correr perigo.

Pois porque razão soffreria ella pelas attenções que a amante de Pozzoli dispensava ao sr. de Bizeux?

Vi-os sahir da sala de jantar, despeitada.

Não tinha razão para se zangar por um facto tão insignificante, que de mais a mais se passava com um homem a quem declarára não poder amar.

Não devia considerar o visconde completamente livre, para escutar as phrases ternas d'aquella mulher?

E a cantora percebeu que era extraordinaria a sua preoccupação.

Pozzoli, ao levantar-se da mesa, perguntou-lhe se queria jogar.

Laura respondeu machinalmente que sim, mas não comprehendera o que lhe dissera o emprezario.

Chegaram á sala do jogo, conhecida pelos _habitués_ sob a designação da sala verde, porque as paredes, o tecto e o proprio soalho eram forrados de veludo d'aquella côr.

Duas grandes mezas d'ebano, rodeadas por cadeiras, eram os unicos moveis que guarneciam a sala, alumiada por quatro candelabros de sete lumes cada um, collocados nos angulos da casa.

Laura sentou-se, pensativa.

Ao principio não quiz jogar.

Depois, importunada e espicaçada por sentimentos diversos, passou a tomar pelo jogo o mais vivo interesse.

Chegou-lhe a vez de fazer _banca_.

Pegou no baralho nervosamente, e jogou sem reflexão nem presença d'espirito.

Perdeu todos os _baccaras_.

A sorte, sempre contraria a Laura, fez-lhes perder mil _luizes_ n'um instante.

Quando Pozzoli fez banca, disse graciosamente para a cantora:

--Vae recuperar todo o dinheiro perdido, verá!

A previsão não se realisou.

Laura, esperando rehaver o perdido, jogou quantias importantes.

O azar continuou.

Foi então que Despujolles, notando a infelicidade da cantora, e a sorte singular de Pozzoli, sahiu da sala em busca d'Antonino, a quem lhe pareceu conveniente avisar. Entraram juntos no salão do jogo.

A gorda Elvira segui-os de longe.

Laura viu o visconde assim que elle entrou.

--Ha vinte mil francos de _baccara_, dizia Pozzoli.

--Jogo-os! disse Laura lançando para Antonino como que um olhar de desafio.

Pozzoli deu as cartas e ganhou.

--Ha quarenta mil francos... disse elle.

Laura ia abrir a bocca.

Antonino, porém, que se approximara, curvou-se, para ella, e disse-lhe em voz baixa e supplicante:

--Peço-lhe que não jogue mais!

Pozzoli percebeu o que o visconde dissera, e observou, sorrindo:

--Meu caro visconde, deixe-me dar a desforra á nossa amiga.

--Seja caridoso, replicou o visconde friamente. Deixe a desforra para outra vez!

Pozzoli empallideceu.

Laura, sem pronunciar uma só palavra, apontou cento e cincoenta francos.

O emprezario ganhou ainda.

--Já vê que tinha razão, disse Antonino a Laura, sorrindo por sua vez.

--A verdade é, replicou Pozzoli em laia d'explicação, que tenho uma sorte verdadeiramente compremettedora para dono da casa. Passo as cartas.

E levantou-se da mesa.