Part 2
No dia seguinte, ao ouvir um amigo fallar de Linda, declarou que ella declinava, que dera já o que tinha a dar, e que não tardaria em chegar a estado de só poder ser contratada para theatros d'operetta.
Por si, resolvera passar as noites na Comedia Franceza, porque, afinal, a musica, era uma arte secundaria.
Com effeito o visconde não appareceu na Opera durante duas semanas.
Amava Laura.
Como nunca amára, não comprehendia a razão do seu mal estar.
Amava-a; os proprios esforços que fazia para estrangular a voz do coração eram d'isso prova irrefutavel.
Amava-a, e sentia-se ingenuo, pateta, simples.
Pois não praticára a tolice de estremecer de raiva por um estranho lançar á diva um ramo de que ella gostara?
Amava-a... mas, em summa, tinha ainda força de vontade.
Saberia asphixiar o mal que apenas despontava!
Estava resolvido: não iria mais á Opera, não tornaria a ver a Linda, porque, custasse o que custasse, tinha de vencer aquella paixão estupida!
Quinze dias depois de proceder pela fórma que a si mesmo impozera, convenceu-se de que podia voltar á Opera sem perigo.
Tinha a convicção de que se vencera; nada o impedia de voltar a assistir ao seu divertimento predilecto.
De resto, desejava colher a prova evidente da cura.
Nem um só doente ha que, depois de estar por muito tempo preso no quarto, não se sinta impaciente d'affrontar o ar livre, d'experimentar as suas forças.
Foi n'essas disposição confiantes que o visconde assistiu ao espectaculo da Opera, depois do qual se deu o fatal sinistro que narrámos no capitulo anterior.
III
Laura Linda
Na lucta contra o amor nascente, que se travava no coração d'Antonino, o maior perigo, mas ao mesmo tempo o maior attractivo, era, mais do que o talento de Laura e até mais do que a peregrina belleza da cantora, o que o visconde sabia, porque todos o diziam, da vida e do passado da diva.
Tinha então vinte e seis annos e havia sete que cantava em theatros.
No apogeu da gloria, envolta n'uma atmosphera d'adorações e de sollicitações de toda a natureza, a Linda regeitara vinte propostas de casamento, e ninguem jamais lhe conhecera amante.
A historia simples da sua vida explicava esse caso pouco vulgar.
Laura era hespanhola.
Seu pae, o celebre violinista José Marcia, descendia d'uma familia illustre porque era o ultimo representante dos condes de Marcia.
Nunca usara o titulo, do qual raramente fallava e sempre com uma especie de despreso.
Para elle só existia a arte, e considerava um grande artista superior a um rei.
De resto, era á arte que tudo devia, porque a antiga casa dos Marcias, era, desde muito tempo, uma casa arruinada.
O pae de José Marcia colhera os ultimos restos da fortuna patrimonial, mas a grande paixão que tivera pela musica tudo lhe levára.
O conde de Marcia suppunha-se um verdadeiro genio para a composição. O pouco dinheiro que possuia gastava-o na publicação das suas obras.
Vendeu a ultima quinta para fazer representar com luzimento, na Opera de Madrid, uma partitura de que era auctor, e com a qual contava assegurar a sua reputação e refazer a sua fortuna.
A opera, porém, cahiu desastradamente na primeira noite em que subiu á scena.
Por felicidade seu filho José, a quem elle communicára o amor pela musica, tinha n'essa epocha vinte e cinco annos e gosava já de grande e merecida reputação de violinista.
Foi o filho que velou pela sustentação do pae.
O velho melomano apenas tinha uma idéa fixa: desforrar-se.
Compoz ainda duas ou tres operas; e a muito custo conseguiu o filho que elle as guardasse n'uma gaveta, para que a apresentação d'ellas ao publico não lhes levasse mais algum dinheiro.
Comtudo José Marcia fingia admirar as composições paternas, por fórma que o pobre velho morreu cheio d'illusões, legando-lhe confiadamente a realisação da sua gloria posthuma.
Não foi, porém, o pae, mas o filho quem conquistou a gloria dia a dia, a que poderia ter junto a riqueza, se não houvesse uma coisa que elle despresasse mais do que a nobreza: o dinheiro.
Ganhou quantias importantissimas, mas como de ordinario as suas despezas egualavam as receitas, quando não as ultrapassavam, é claro que jamais poderia juntar um pequeno capital.
E comtudo não esbanjava o dinheiro; apenas, como elle dizia rindo, não sabia tratar dos seus negocios.
Dava concertos em extremo lucrativos, mas deixava que o emprezario embolsasse a maior parte dos ganhos.
Era auctor d'um methodo celebre e gosava d'incontestada e incontestavel reputação como professor, mas os seus discipulos predilectos não era os que pagavam melhor, eram os que possuiam mais habilidade, e que d'ordinario não lhe pagavam.
Vem a proposito, contar uma historia de que riu toda a gente em Madrid.
Um banqueiro riquissimo incumbiu José Marcia de leccionar particularmente um filho, retribuindo-o principescamente.
Por infelicidade não só o rapaz não tinha tendencia para a musica, como tambem era um preguiçoso de primeira ordem, que só pegava no violino durante o tempo das lições.
Ao cabo d'um mez, José Marcia, impacientado, participou ao pae do seu discipulo que as suas occupações não lhe promettiam continuar com a leccionação. O banqueiro, ao receber este aviso, limitou-se a duplicar a remuneração das lições.
Marcia, tentado pelo lucro, continuou.
Mas a tentação durou apenas uma semana.
Finda ella, o distincto violinista escreveu o seguinte ao banqueiro:
«Termino de vez com as lições, porque seu filho é extraordinariamente estupido.»
Vivia ainda o pae quando Marcia casou com a que devia ser mãe de Laura.
Era filha d'um relojoeiro que vivia no mesmo predio.
Á falta de dote possuia rara belleza.
Elle estava longe de ser bello, e fortuna não a tinha tambem, mas, como o rouxinol na primavera, conquistou o amor da que devia ser sua mulher com o canto surprehendente do seu violino.
A joven passava horas a escutal-o, embevecida.
O artista pediu em casamento aquella sua sincera admiradora, que foi esposa dedicada, e a melhor e a mais terna das mães.
Laura foi creada pela mãe na adoração do pae, e pelo pae na adoração da arte.
Possuindo raros dotes vocaes, o pae fez d'ella uma artista completa.
Quiz tambem ensinar-lhe a tocar violino, mas ella tinha um outro instrumento melhor: a voz.
A mãe jamais consentiu que Laura entrasse para o theatro.
A sua prudencia inquieta, que o marido alcunhava de burguezismo, considerava o palco como um logar de perdição.
Parecia-lhe que a filha, a quem transmittira toda a sua bellesa, renunciaria, apparecendo no proscenio, a tudo o que havia de honesto e feliz na vida d'ella: o amor ao lar domestico, o amor d'esposa e o amor de mãe.
Mas antes de Laura completar desoito annos, falleceu a mãe extremosa, acontecimento que por muito tempo acabrunhou o violinista e a filha.
Alguns mezes depois da morte da mãe, Laura foi convidada a cantar n'um concerto de beneficencia.
Obteve um verdadeiro successo.
Mas os applausos de que foi alvo, não lhe causaram tanto enthusiasmo como ao pae.
José Marcia procurou e encontrou occasião de renovar o triumpho obtido por Laura.
A fina intuição de que era dotado deixava-lhe antever que a filha e discipula seria uma artista de primeira ordem.
Aos desanove annos, Laura debutou na Opera de Madrid.
A sua voz, porém, não attingira ainda o completo desenvolvimento.
O pae assim o comprehendeu, e durante dois annos não consentiu que a filha cantasse, senão raras vezes.
Findos esses dois annos Laura partiu para a Italia, acompanhada do seu natural emprezario.
Conservou-se tres annos no Scala, de Milão, onde, sob a direcção de Pozzoli, aperfeiçoou o methodo de canto, adquirindo, sobre o seu nome de theatro, a Linda, uma enorme reputação, que augmentava todos os dias.
Do Scala foi contractada para a Opera de Paris, porque Laura fallava e cantava, com a mesma pureza d'accentuação e a mesma nitidez d'articulação, o hespanhol, o italiano e o francez.
Havia já dois annos que ella estava em Paris, e o seu talento e a sua formosura tinham encantado por completo os frequentadores da Opera.
O pae, que a acompanhára á capital da França, morreu tres mezes depois de chegarem.
Felizmente deixava a filha no apogeu da gloria.
E só gloria, porque dinheiro não tinha Laura quando o pae falleceu, nem elle lh'o deixou.
José Marcia legara á filha o perfeito abandono pelas coisas praticas que durante a vida sempre tivera.
Por mais vantajosos que fossem os contractos que assignava, Laura apenas conseguia não ter dividas.
E não era ella quem gastava as suas receitas, mas consentia que os creados gastassem como lhes aprouvesse.
--Sei contar o meu tempo, dizia a Linda rindo, mas nunca saberei contar o meu dinheiro!
Comtudo, se no seu orçamento não havia ordem, a sua vida era ordenadissima.
A recordação da mãe adorada estava sempre presente a Laura, e guardava-a, como se fosse a propria mãe em pessoa.
Resolvera seguir á justa uma vida irreprehensivel, e cumpriu o compromisso tomado.
De resto, Laura possuia a verdadeira honestidade, a que é indulgente mesmo com as fraquezas que repudia.
Era jovial com os seus companheiros de theatro, mas sabia fazer-se respeitar.
Fôra cortejada por muitos homens; soubera, porém, com rara habilidade, repellir suavemente tanto os que lhe fallavam de casamento, como os que só lhe fallavam d'amor.
Jamais dissera que não se casaria, mas a primeira condição que estava resolvida a impor ao noivo, se um dia o tivesse, era conservar-se no theatro, o que fazia diminuir as probabilidades d'encontrar marido rico.
Pozzoli, o director do Scala de Milão, que na epoca em que se passa esta historia dirigia a Opera Italiana em Paris, pedira a mão de Laura ao pae da cantora.
Mas, além de ter uma reputação equivoca, Pozzoli contava evidentemente, casando com a Linda, possuir sem concorrencia e sem despendio, uma _primadona_ de primeira ordem.
Dizia-se até que seguia esse systema de ha muito, amancebando-se com varias das suas contractadas.
Casando com Laura, Pozzoli faria diminuir as difficuldades com que luctava como emprezario.
Em Milão, um compositor de talento apaixonou-se doidamente pela diva, e, ainda que fosse pobre, não era de certo o interesse que o movia a dar-lhe o seu nome e a sua vida.
Laura, porém, não sentia a mais insignificante parcella d'amor pelo que tanto a adorava, e como elle comprehendesse essa triste verdade, sahiu de Milão para Florença.
O numero dos que apenas procuravam o amor de Laura era superior aos que desejavam casar com ella.
Mas perdiam o tempo e o trabalho.
Um d'elles, o tenor ligeiro Lauretto Mina, era um bello homem, muito infactuado, mas a quem poucas mulheres resistiam.
Fôra ajudante d'um professor d'esgrima.
Estava escripturado por Pozzoli na Opera Italiana.
Possuia voz extensa e bem timbrada, mas não sabia servir-se d'ella, e era sufficientemente preguiçoso para poder modificar-se, estudando.
Entretanto considerava-se o primeiro tenor do mundo, e dizia-o imperturbavelmente.
Desde a primeira vez que viu a Linda, declarou-se apaixonado por ella.
Mas Linda, com a natural finura de mulher, percebeu dentro em pouco que especie d'homem era Lauretto e passou a tratal-o, contrariamente á forma pela qual procedia com todos os outros collegas, com uma frieza que bem se podia alcunhar de desdem.
Este procedimento de Linda fez com que Lauretto, vaidoso em extremo, se possuisse d'occulta irritação, que mesclava d'odio o amor, ou antes o desejo, que sentia pela cantora.
Entretanto teve a força de vontade sufficiente para não manifestar o seu descontentamento, declarando até aos amigos, com ironico despreso, que se inclinava ante a virtude de Laura, a quem elle chamava _Casta diva_.
--Sou tão preguiçoso! dizia o tenor no _foyer_ dos artistas. Não tenho paciencia para sustentar um prolongado cerco a uma mulher tão bem defendida. Cedo o logar a qualquer outro assaltante de mais solida perseverança. Renuncio a ser o primeiro, mas juro por Venus e pelo Amor, que serei o segundo.
Um outro apaixonado, mais amoldavel, foi Remissy, violinista hungaro, um original, segundo uns, e um doido segundo outros, mas um grande, um verdadeiro artista.
Remissy foi a Milão para ouvir José Marcia, de quem elle admirava o talento, apesar de deferir muito do que possuia o violinista hungaro.
Viu Laura, e, como era facilmente impressionavel, inflammou-se d'enthusiasmo pelo talento e pela belleza da cantora, simultaneamente.
A Linda, porém, tratou-o com meiguice e alegria, a que não era estranho um certo desdem, e todo o fogo de Remissy extinguiu-se subitamente.
--Tem cem vezes razão! dizia-lhe elle. Não pode tomar a serio um maluco como eu. Além d'isso, eu não estou perfeitamente certo de que não me enganasse, e não adore apenas a sua voz, o que é muito possivel. Andaria duzentas leguas para a ouvir! A sua voz transporta-me ao setimo ceu! Convencionemos o seguinte: não serei seu amigo, serei seu idolatra. E desde já te peço licença para te tratar por tu, como á divindade!
De todos os seus apaixonados que eram bons e sinceros, Laura fazia amigos.
Na primeira plana d'esses convertidos estava, em Paris, o dr. Despujolles, o medico considerado como a verdadeira providencia dos theatros, sobre tudo dos theatros de canto.
Quem estivesse rouco pela manhã podia cantar á noite como um rouxinol, mercê das magias homoeopathicas do dr. Despujolles.
Foi um pouco mais recalcitrante que Remissy, á cura, homoeopathica tambem, do amor pela amisade, mas como além d'intelligente era honesto, acabou não só por se resignar, como tambem por estimar o papel que Laura lhe confiava.
Todas estas informações sobre a Linda foram colhidas por Antonino de Bizeux dia a dia, d'este e d'aquelle, affectando indifferença, mas sentindo na realidade um interesse e emoção de que elle não se apercebia, e temendo e desejando ao mesmo tempo que lhe apontassem qualquer nodoa no passado da diva, porque n'esse caso Laura passaria a ser menos perigosa para elle.
IV
O dia seguinte
Era quasi meio dia.
Laura acabára de se levantar, e recostara-se languida e como magoada ainda, sobre o canapé do seu salão, remexendo, distrahidamente, n'um montão de cartas e de folhas rasgadas de carteiras, que cobriam o marmore d'um velador.
Por entre os nomes do que vulgarmente se chama _todo Paris_, procurava um que não encontrava, e lia com indefferencia as palavras escriptas a lapis sobre os papeis que folheava.
Entretanto um bilhete houve que lhe prendeu a attenção por mais tempo.
Era de Pozzoli.
Dizia o antigo emprezario de Laura:
«Morreu a Opera, viva o theatro dos Italianos! Pozzoli irá ámanhã a casa da distinctissima diva, levando um contracto em branco á sua ex e futura escripturada».
Ao ver o cartão de Lauretto Mina, a Linda franziu as sobrancelhas.
O tenor escrevera:
«Enforca-te Lauretto! Laura esteve prestes a ser queimada viva, e tu não estavas junto d'ella para a salvar».
Em compensação, sorriu-se ao ler um outro bilhete.
«Compuz hoje de manhã um cantico d'acção de graças, uma _alleluia_ triumphante, que irei executar-te no meu violino, logo que possas receber o teu mais humilde admirador.
_Remissy_».
A diva resolveu responder sem perda de tempo ao violinista, convidando-o a almoçar no dia seguinte.
Chamou para isso Jacintha, a sua creada de quarto, pedindo-lhe o necessario para escrever.
Jacintha, collaça de Laura, tinha poucos mezes mais que a cantora.
Era uma formosa rapariga, d'um trigueiro assetinado e quente, olhos e cabellos pretos, labios vermelhos e sensuaes.
Nunca abandonára a cantora, a quem estimava muito, mas a quem servia mal.
--Mais cartas, minha senhora, disse ella ao entrar, quasi todas entregues pelos proprios, que não subiram porque o porteiro não consentiu.
--Que deixe subir o dr. Despujolles quando elle chegar.
--Sim, minha senhora. E o sujeito que lhe salvou a vida?
--O sr. Antonino de Bizeux? Tambem! Há bocado disse-te o mesmo.
--Já se vê... Se não fosse elle estaria a senhora morta a estas horas. E eu tambem, porque se a senhora morresse, não lhe sobreviveria.
--É um homem deveras corajoso! disse Laura, pensativa.
--E bonito!
--Jacintha!...
--Perdão, minha senhora!... jurei-lhe que nunca mais chamaria bonito a qualquer homem, ainda que elle fosse como S. Miguel Archanjo, e faltei ao meu juramento!... Mas não está mais na minha mão!
--Cala-te! interrompeu Laura, que não poude deixar de sorrir, e manda entregar immediatamente esta carta ao sr. Remissy, rua Favart.
Alguns minutos depois, Jacintha annunciava o dr. Despujolles.
--Eil-a! disse o medico ao entrar. Eil-a, a esta salamandra que atravessou impunemente as chammas!
--Infeliz da salamandra, respondeu Laura, que ficaria frita como uma carpa se não tivesse quem a ajudasse.
--Vejamos o pulso. Sabe que vim cá ás oito horas da manhã?
--Sei.
--Como me disseram que dormia, cedi o logar ao melhor dos medicos, o somno.
--Só consegui adormecer ás seis horas da madrugada.
--Pudera! Depois d'um tal abalo não admira. Hum! Está com febre, como era de prever. Vou receitar-lhe um calmante.
E chamou.
Appareceu Jacintha.
--Manda sem demora esta receita a uma pharmacia.
--Sim, sr. doutor.
--E então? Há mais juizo agora?
Jacintha tornou-se purpurina.
--De certo, sr. doutor.
--Hein? Isso é verdade? Toma cuidado! Á primeira escorregadella, tens d'haver-te commigo!
Jacintha pegou na receita, e sahiu apressadamente.
--É necessario, disse o doutor a Laura, que a minha amiga possua uma solida reputação, para ter junto de si uma rapariga d'este quilate!
--Coitada! É tão bondosa e dedicada! Quer que a abandone?
--De certo que não! Estudo em Jacintha a força do instincto. É um precioso _sujet_ physiologico para observar--desculpe-me o termo--o animal na mulher.
--Oh! doutor!
--Posso-lhe fallar assim, porque a minha amiga é toda espirito. Em si o animal não existe.
--Trata de desculpar-se com um cumprimento! Pois dir-lhe-hei que, em momento de perigo, o instincto é superior ao que o doutor chama espirito. A noite passada, quando na Opera se ouviu o primeiro grito de fogo, acabava eu de me vestir. Jacintha--o instincto--que estava no meu camarim, fugiu immediatamente, e eu--o espirito--que temo o fogo mais do que qualquer outra coisa no mundo, comecei a tremer, dobraram-se-me os joelhos, fiquei impossibilitada de fazer o menor movimento. Jacintha, que ainda não tinha sahido, sacudia-me, queria arrastar-me. Tentei caminhar, e cahi desfallecida. Então ella sahiu, dizendo-me que ia buscar quem me soccoresse.
--Ah! a Jacintha fugiu? E pretende que ella é dedicada! Bonita dedicação, não haja duvida!
--Ouça o resto. Logo que chegou á rua e se viu livre de perigo, Jacintha lembrou-se de mim immediatamente. Entrou de novo no theatro, soluçando, querendo procurar-me atravez as chammas. E gritava: «Fui eu que a matei! quero morrer com ella!» Foram necessarios tres homens para a segurar, levando-a á força para um posto policial. Chegada lá, Jacintha cahiu n'um mutismo feroz. Como não podia salvar-me do fogo, tinha resolvido lançar-se ao Sena.
--Mas, afinal, como e por quem foi salva? Corre já sobre o caso, uma verdadeira lenda.
--E parece lenda, com effeito.
Seguidamente contou ao doutor as peripecias do seu salvamento até ao momento da morte tragica do bombeiro, em que ella de novo tinha perdido os sentidos.
--Quando voltei a mim, continuou Laura, estava n'uma pharmacia da rua de Peletier. Jacintha, que me tinha encontrado, soltava gritos d'alegria por me ver abrir os olhos. O meu salvador estava ali tambem, com o fato, as barbas e os cabellos queimados, pallido, mas satisfeito por ver que eu voltava á vida. Reconheci-o como um dos _habitués_ dos _fauteuils_ d'orchestra. Exprimi-lhe o meu reconhecimento, e pedi-lhe que me dissesse como se chamava. Sabe o doutor o que elle me respondeu? Isto: «Sou alguem que passava, e que a salvou, salvando-se.» Foi a custo que obtive, ao subir para a carruagem que me conduziu a casa, que elle me desse o seu cartão.
--E conserva o cartão de tão modesto homem?
--Eil-o aqui... O doutor leu:
--ANTONINO DE BIZEUX.
--Conhece-o?
--De vista, apenas. Tenho-o encontrado em varios salões. É considerado como um original, meio selvagem. Lembro-me de o ver muitas vezes na Opera, e, se bem me recordo, dizia-se que elle estava apaixonado pela minha querida Laura.
--Engano! Quando muito estaria apaixonado pela minha voz. Se arriscou a vida, para salvar a minha, estou certa que foi unicamente por suppôr que não ha outra cantora que lhe faça sentir as mesmas emoções de _dilettante_.
--Parece-me isso inverosimil, observou o medico. Verá que, como recompensa, elle não se contentará com a promessa d'uma nova escriptura na Opera. Já a veiu ver, sem duvida?
--Pedi-lhe que viesse, e assegurou-me que viria saber como eu estava. Julguei que tivesse vindo de manhã, emquanto dormi, mas não encontrei o cartão d'elle entre os outros.
--Se suppõe que será recebido, como merece, só se apresentará depois do meio dia. Entretanto lembre-se que não lhe receito só o que mandei buscar á pharmacia: é necessario que guarde um repouso absoluto. Prohibo-a de receber quem quer que seja.
--Tem de abrir uma excepção para o meu salvador, replicou Laura com vivacidade. A ingratidão não é droga que o doutor receite a ninguem, com certeza.
--Bem! Farei a excepção pedida! disse Despujolles sorrindo. Registo, comtudo, que a minha amiga desobedece ás prescripções do seu medico, o que é grave.
E retomando o tom serio do clinico, accrescentou:
--Asseguro-lhe que necessita do mais absoluto repouso durante muitos dias. N'este momento é a febre que lhe conserva as forças, mas em breve cahirá n'uma grande prostração nervosa, e sentirá a necessidade d'uma completa tranquillidade d'espirito.
--Comtudo... disse Laura.
--Não ha comtudos...
--Não lhe fallarei de Pozzoli, que me propõe escriptura...
--Eu me encarrego de mandar Pozzoli para o inferno! D'aqui a oito dias tratará d'esse negocio.
--Ou quinze; isso é o menos. O peor é que escrevi a Remissy, convidando-o para almoçar ámanhã. Elle quer que eu ouça uma _alleluia_ que compôz em minha honra...
--Então convide-me tambem, disse o doutor n'outro tom. Como estarei presente, não consentirei que falle. Remissy e eu a entreteremos.
--E o meu salvador? perguntou Laura. Se vier hoje não posso convidal-o para o almoço?
--Mau! Isso já é outro genero de distracção. Como serei do rancho, tratarei de vigiar, porque, na verdade, começo a ter ciumes do visconde.
--Que idéa!
--Pois sim! A verdade é que elle está apaixonado e é bretão. E um apaixonado que salva a vida da sua bella...
--O senhor sabe que eu sou sincera... interrompeu Laura.
--Sei. É a mulher mais franca que eu conheço. Direi até: a unica, em que pese á minha numerosa clientela feminina.
--Consola tanto nada ter que dissimular ou occultar! Pois bem; affianço-lhe, doutor, que, pensando no sr. de Bizeux, não sinto a menor commoção indicativa d'amor; nem sombra d'ella! Que elle esteja ou não apaixonado por mim, confesso-lhe e declaro-lhe que nunca desejei tanto fazer de qualquer homem um amigo.
V
Perplexidades
A Linda não recebeu n'esse dia a visita ou o cartão d'Antonino.
Outro tanto succedeu no dia seguinte até á hora do almoço, ao qual Remissy e Despujolles fizeram as devidas honras, sem conseguirem, apesar dos esforços empregados para esse fim, distrahir a cantora d'uma especie de preoccupação que se apossára d'ella.
Nada de novas do meu salvador! disse Linda a Despujolles quando o doutor se despediu. Tenho perguntado a mim mesma se não serei eu quem deva mandar saber noticias d'elle. Quem nos assegura que o visconde não está mal?
--Vamos, serei generoso mais uma vez! replicou o medico. Irei saber do seu heroe. Está satisfeita? Onde mora elle? Não tem indicação de morada, no bilhete de visita? Parece-me que é no _boulevard_ Hausmann, mas ignoro o numero. Sabel-o-hei por um dos meus clientes, que é primo do visconde, e dentro em pouco lhe mandarei dizer como elle está.
Ás tres horas da tarde Laura recebeu o seguinte bilhete: