Part 14
--Pois quê! Este homem fez-te passar, Laura, por angustias mortaes, fez soffrer a essa rapariga a mais horrivel tortura moral e physica, e ha de sahir d'aqui socegadamente para acabar na cama a noite que tão mal começou? Ah! eu considerar-me-ia tão cobarde como elle, se lhe concedesse a impunidade que pedem. Dizes, Laura: que parta, e que não ouçamos mais fallar d'elle? Mas não ouves as ameaças que o biltre acaba de pronunciar? Elle irá ámanhã dizer por toda a parte que passou a noite aqui, que eu cheguei muito tarde! Sinto ferver-me o sangue, pensando em tal. Se não estivesses presente, tosal-o-hia por fórma que jámais se esqueceria d'esta noite!
E ao mesmo tempo que fallava, sacudia violentamente Lauretto, que tremia.
--Não estarei eu em frente d'um homem bem educado?... atreveu-se elle a dizer.
--Está em frente d'um justiceiro!
--Como?... O que vae fazer?...
--O que o senhor proprio projectava.
Antonino largou o hombro de tenor, e agarrou-o pelo casaco.
--Vamos... venha!...
--Não quero!... deixe-me!... murmurou Lauretto debatendo-se em vão. Protesto contra as suas indignas violencias!
O visconde apenas respondeu sorrindo desdenhosamente.
--Não lhe faças mal! aconselhou Laura em voz baixa.
Mas Antonino nada escutava.
Estava possuido da mais profunda colera, colera fria, que é a mais terrivel.
Repetiu
--Vamos!... venha!...
E accrescentou, dirigindo-se á creada:
--Jacintha, alumia-nos. Sahimos pela porta do vestibulo.
Arrastou pelo corredor fóra o tenor, que empregava inoffensiva resistencia, e chegou assim á porta que dava para o vestibulo do predio.
Jacintha seguia-o, tendo um candieiro na mão tremula.
Laura, anciosa, caminhava alguns passos mais atraz.
Desceram ao vestibulo.
Em frente do cubiculo do porteiro, o visconde gritou com voz forte:
--Sr. Durandeau! peço-lhe que se levante e abra-nos a porta.
Segurava Lauretto apenas com uma das mãos.
O tenor, de labios trementes, pronunciava ameaças e palavras indistinctas.
O porteiro appareceu pouco depois á porta do cubiculo, em mangas de camisa e de chinellas.
--O que suceedeu? perguntou elle vendo Lauretto. É um ladrão?
--Peor do que isso, respondeu Antonino. Este biltre introduziu-se em minha casa com intenção de violentar a creada de quarto!
--Oh! que patife! disse o porteiro!
Depois, reparando para o rosto apavorado de Lauretto, submettido ao pulso nervoso d'Antonino, ajuntou:
--Que cara de velhaco! Sabe quem elle é, sr. visconde?
--Sei. Chama-se Lauretto Mina, e é cantor da Opera.
O porteiro abriu a porta.
Antonino, pegando no tenor pelas espaduas, arremeçou-o para a rua.
Em seguida lançou para o passeio o chapéu e o sobretudo do tenor, objectos que Jacintha trouxera na mão, cuidadosamente.
A porta foi fechada quasi immediatamente depois.
Lauretto, pallido pela colera, rangendo os dentes, voltou-se, e estendendo o punho cerrado para a porta, murmurou enraivecido:
--Chegar-me-ha a vez!
E distanciou-se com passo rapido.
XXVI
O desafio
Ao entrar no quarto de sua mulher, Antonino encontrou Jacintha ajoelhada aos pés de Laura, dizendo-lhe arrependida:
--Oh! minha senhora, perdôe-me!
Levantou a creada e contou o que ella fizera, a sua presença d'espirito, a sua coragem.
--Sahiu, metteu-se n'uma carruagem que encontrou no _boulevard_ Malesherbes, e foi chamar-me a casa. Felizmente eu não me deitára ainda, e vim immediatamente. Foi ella que causou todo o mal, mas devemos confessar que foi ella tambem que tudo remediou.
Laura socegou Jacintha, consolou-a.
Pelas suas proprias mãos envolveu em algodão em rama os pulsos queimados da creada de quarto, emquanto não podesse ser feito outro tratamento, acompanhou-a ao quarto, deitou-a, e só a deixou quando a viu adormecida.
Voltou para junto d'Antonino.
Até então podéra conter-se, mas a reacção veiu, por fim.
Cahiu sobre um _fauteuil_ e chorou, murmurando:
--Ah! que noite! que scena!...
--Socega, minha querida Laura, disse-lhe Antonino pegando-lhe nas mãos. Passaste uma hora terrivel, que felizmente não se repetirá. Acabou-se!
--Acabou-se! repetiu Laura abanando a cabeça. Se tudo estivesse terminado não me sentiria eu inquieta. Comprehendo que pelo espantoso perigo que corri tu não podesses suffocar a tua indignação. Insultaste terrivelmente esse miseravel. Conheço-o. Lauretto não possue apenas uma alma vil, possue tambem uma alma má. Vingar-se-ha com certeza.
--Pois suppões?... Estás enganada. Eu puni-o justamente para não ter que o provocar. Verás que, elle tambem, não se atreverá a ser o provocador.
--E se fôr?
--Dão-se explicações d'um insulto e não d'um castigo. Recusarei bater-me com esse homem.
--Promettes, Antonino? juras? Necessito ter a certeza... A duvida incommoda-me sobremaneira; Tinha razão teu pae na ultima carta que te escreveu, e me mostraste. O muito que me amas fez com que quizesses agradar á minha phantasia d'artista, collocando-me n'um meio romanesco e poetico, que tinha muitos encantos, mas que não era isempto de perigos. Seriamos felizes se não houvesse invejosos e maus. Estou convencida que foi a nossa situação equivoca que causou todo o mal.
Calou-se por instantes, como que absorvida por occulto pensamento.
Depois proseguiu:
--Lauretto ter-me-ia respeitado se estivesse certo de que eu era tua mulher. Porque será que, amando-nos tanto, não podemos pôr d'accordo as nossas existencias, como puzemos os nossos corações?
Novas lagrimas rolaram-lhe pelas faces.
Antonino seccou-as com beijos, esforçando-se por tranquillisar a esposa com phrases ternas.
--Escuta, disse ella, tenho o presentimento que atravessamos uma hora terrivel, e quero fallar-te com toda a gravidade. Tenho a annunciar-te uma resolução seria que tomei, e uma noticia agradavel a dar-te. A resolução é que, decididamente, renuncio ao theatro. A noticia...--fallemos baixo!--desejava esperar alguns dias para te fallar nisso... Mas não... não posso esperar... tenho a certeza!... A noticia é que, o meu constante sonho de mezes e annos, vae realisar-se emfim! Antonino, no meu ser havia duas partes distinctas: tinha, por meu pae, o sentimento artistico, e por minha mãe o sentimento maternal. Até hoje pareci-me com meu pae, d'hoje para o futuro parecer-me-hei com minha mãe!
Antonino ajoelhou aos pés de sua mulher, envolvendo-a nos braços, louco d'alegria.
--Um filho!... O nosso filho!... murmurou elle.
E cobriu-lhe de beijos as mãos.
Ella retribuiu-lhe as caricias, e continuou:
--És feliz, não é verdade? Pois bem: procede de fórma a dissipar a nuvem sombria que, n'este momento, escurece a minha felicidade. Tens agora novos deveres. A tua vida não te pertence unicamente, é tambem minha, é nossa. Peço ao pae um juramento sagrado: peço-te, sob tua palavra d'honra, que em caso algum, nem mesmo provocado por Lauretto Mina, exporás a tua vida contra a d'esse miseravel.
Antonino hesitou.
--Sob minha palavra d'honra?... Nem mesmo provocado?... repetiu elle.
--Ah! hesitas!... disse Laura.
Elle percebeu a profunda anciedade de Laura.
Reflectiu n'um instante que uma mulher póde acreditar n'um compromisso tomado por aquella fórma, mas que em taes circunstancias esse compromisso não obriga um homem.
Portanto replicou:
--Não hesito. Dou-te a palavra que me pedes.
--Ah! obrigada!...
Tomou-lhe a cabeça entre as mãos e beijou-o na fronte.
Seguidamente começaram, cheios de confiança e de fé, a traçar o plano da sua nova vida.
Laura desejava deixar Paris immediatamente, mas concordou que a partida, assim precipitada, semelhava a fuga.
Demorarar-se-iam ainda quatro ou cinco dias, para regular os seus negocios.
Como estava escripturada por espectaculo, a Linda não tihha de pagar multa na Opera.
Partiriam, depois, para Italia, onde o conde de Bizeux se lhes juntaria.
Em regra, passariam o inverno nos paizes do sul, Italia, Hespanha, Grecia, Egypto, Algeria, e os estios em Saint-Pol-de-Léon.
Conversaram até ás sete horas da manhã.
A essa hora Antonino deixou Laura, para que ella dormisse um pouco.
Ficou resolvido que elle não voltaria mais áquella casa. O visconde procuraria Laura, de tarde, na rua Boudreau.
Até ao dia da partida, jantariam e dormiriam ali, devendo Antonino voltar á casa do _boulevard_ Haussmann apenas para tratar de pormenores materiaes.
Laura adormeceu em breve, esperançosa e feliz.
Antonino, chegado que foi aos seus aposentos de rapaz, estirou-se sobre um canapé.
Não podia conciliar o nome.
Previa, preoccupado, o que se ia passar.
Desejava lavar, com uma execução summaria, a offensa recebida, principalmente para que o nome de sua mulher não fosse envolvido na questão.
Entretanto, percebia que se descobrira ante Lauretto Mina, e que entre elles o insulto e o conflicto não podia deixar de terminar por duello.
Ás onze horas o creado foi levar-lhe os cartões de Nobillet, o pianista, e de Gressier, o baritono.
Não poude deixar d'estremecer, dando ordem para que fosse introduzidas as visitas.
Laura tinha razão: a vida para elle duplicára de valor, desde a vespera.
Lauretto Mina escolhera aquellas testemunhas, porque tanto Nobillet como Gressier, tinham assistido á scena de Remissy no concerto de Saint-Malo, e conheciam um pouco os incidentes e o visconde.
Foi Nobillet quem fallou.
--Vimos da parte, do sr. Lauretto Mina, sr. visconde, disse elle. O nosso collega assegura que vossa ex.ª o insultou esta noite, gravemente. O nosso primeiro dever era procurar o sr. visconde para vereficarmos se as suas explicações condizem com as do nosso constituinte. Disse-nos o sr. Lauretto Mina que em tempo tivera relações com uma rapariga ao serviço da sr.ª viscondessa de Bizeux; parece que essas relações foram agora reatadas, e que elle passou a noite anterior no quarto d'essa rapariga. Por acaso vossa ex.ª encontrou-o, e sem razão, sem provocação da parte d'elle, agarrou-o pelo casaco como se fôra um gatuno vil, arrastou-o para o vestibulo, indicando o nome d'elle, por entre injurias, ao porteiro do predio, e arremessando-o depois para a rua, com violencia. São verdadeiras estas declarações, sr. visconde?
--Completamente...
--Vossa ex.ª pode naturalmente interpretal-as e explical-as, e nós estamos ás suas ordens para acceitar os esclarecimentos com que quizer honrar-nos.
--Nada tenho que explicar, replicou Antonino. Encontrei o sr. Lauretto Mina sahindo do quarto da creada da minha mulher, na casa que ella habita. Irritei-me e pul-o fóra.
--Vossa ex.ª disse em voz alta que elle tinha violentado a rapariga. O sr. Lauretto Mina affiança que não houve a menor violencia.
--Ignorava e ignoro esse facto.
Nobillet proseguiu:
--Ser encontrado no quarto d'uma mulher, ainda que ella seja creada, não é deshonra para um homem. Para que vossa ex.ª se irritasse até á indignação e á violencia, por um facto que realmente não tem gravidade, de certo houve razões estranhas a esse mesmo facto. Somos homens honrados fallando com um homem honrado, sr. visconde; esperamos, pois, que nos julgue capazes d'apreciar e comprehender essas razões.
Nobillet e Gressier adivinhavam que havia um mysterio em todo aquelle negocio.
Nem um nem outro tinha grande consideração pelo caracter de Lauretto Mina, de quem conheciam os terriveis antecedentes de duellista.
Comtudo não tinham podido recusar-se a servir-lhe de intermediarios na conclusão do conflicto.
Entretanto esperavam que o visconde lhes fornecesse uma razão ou ao menos um pretexto para declinar a sua penosa missão.
Desejavam pois que Antonino pronunciasse uma só palavra n'esse sentido.
O visconde, porém, limitou-se a responder:
--Agradeço-lhes os termos delicados com que expozeram a questão. Sinto a mais alta consideração por vossas ex.as, mas não só posso dar do meu procedimento outras razões além das que já conhecem, porque não existem.
As duas testemunhas olharam-se consternadas.
Depois Gressier disse:
--Observar-lhe-hei, sr. visconde, que se o sr. Lauretto Mina o não offendeu tambem, é elle que deve considerar-se offendido, tendo, portanto, o direito de exigir ou desculpas ou uma reparação pelas armas.
--Não estou disposto a pedir desculpas, disse Antonino com voz firme. De resto supponho que não seriam acceites.
--É claro que, reconhecendo-lhe a qualidade d'offendido, deixa-lhe a escolha das armas... disse Gressier.
--E sei antecipadamente que elle escolherá o sabre, respondeu Antonino, sorrindo.
E levantando-se, accrescentou:
--Mais uma vez lhes agradeço, meus senhores, a sua delicada intervenção, e a fórma correctissima do seu procedimento. Terei a honra de os pôr em relações com dois dos meus amigos, os srs. conde de Bauriac e barão de Chazeuil. Procural-o-hão esta tarde em sua casa, sr. Nobillet.
Os tres cumprimentaram-se com silencio.
O visconde acompanhou-os até á escada.
Cumprimentaram-se novamente, e as duas testemunhas desceram, mais inquietas que o proprio visconde.
XXVII
Preliminares
Antonino, voltando para o interior da casa, disse apenas de si para comsigo:
--Era fatal este resultado!
E principiou immediatamente, com a mais perfeita tranquillidade, a tomar as suas disposições.
Em primeiro logar expediu um telegramma a seu pae, dizendo-lhe que tinha, no dia seguinte, um duello grave, e pedindo-lhe para tomar o expresso da noite, que o devia trazer á capital pelas oito da manhã.
A essa mesma hora deixaria sua mulher na casa da rua Boudreau, e encontrar-se-ia com o conde, nos seus aposentos do _boulevard_ Hausmann ás nove horas.
Desejava que, em caso de fatalidade, o conde estivesse junto de Laura.
Em seguida foi para casa do conde de Bauriac, d'onde mandou chamar o barão de Chazeuil, que morava proximo, na rua dos Campos Elyseus.
Os tres conferenciaram em seguida sobre o duello em perspectiva.
O conde de Bauriac, entendedor na materia, disse, movendo a cabeça com ar preoccupado:
--Um duello com Lauretto Mina tem um caracter extremamente excepcional. Esse homem, em dois duellos que teve, matou um dos adversarios, e feriu gravemente o outro, que só escapou por milagre. Jámais foi possivel explicar e justificar os botes que lhe valeram esta dupla e sangrenta victoria. Em virtude da rapidez do ataque, ninguem viu como os botes tinham sido vibrados. Conheço a sua força ao sabre, meu caro visconde, e vel-o-ia, sem inquietação, bater-se com os melhores esgrimistas. Mas considerando a fórma... italiana de Lauretto, todas as cautellas são poucas. A nossa responsabilidade, como testemunhas d'este duello é duplamente seria. Não se trata de regular o negocio, ou de apresentar desculpas; mas, emfim, deve haver, e ha com certeza, no conflicto apparente, razões occultas, que eu não lhe perguntarei. Nós sabemos, Chazeuil e eu, que o meu amigo é corajoso como poucos. Encarregue-nos de dizer ás testemunhas de Lauretto Mina que se recusa a dar-lhe explicações, e nós acceitaremos a missão satisfeitissimos, não é verdade, barão?
Chazeuil respondeu com um gesto affirmativo.
--Agradeço-lhes a confiança que em mim depositam, replicou Antonino, mas não posso nem devo acceitar o seu offerecimento. Insultei esse homem, sabendo bem quem elle era, e conhecendo o risco que corria. Se eu recusasse a bater-me hoje, elle ámanhã offender-me-hia por fórma que fosse então inevitavel o duello. Minha mulher não desconfia agora que eu fui desafiado, e podia ser informada do novo conflicto que se daria de futuro. Peço-lhes, pois, que me deixem terminar este negocio sem perda de tempo.
--Estamos á sua disposição, disse o conde de Bauriac. Tem algumas instrucções a dar-nos?
--Não. Desejo apenas que o duello se realise, sem falta, ámanhã ás onze horas. Meu pae só chega ás oito, e eu tenho que fallar-lhe.
Ficou combinado que os dois iriam buscar Antonino, á casa do _boulevard_ Hausmann, pelas dez horas da manhã.
Pouco depois d'Antonino sahir, entraram as testemunhas de Lauretto Mina.
Estavam ainda mais perplexos do que de manhã.
Gressier, sobretudo, não podia occultar a inquietação de que estava possuido.
Quando o conde de Bauriac lhe disse que era inevitavel o duello, o baritono fez um gesto de profundo desgosto.
É que Lauretto rira diabolicamente quando elles lhe tinham dito que o visconde acceitava o desafio.
Gressier lembrou-lhe o que o tenor d'uma vez dissera no _foyer_ dos artistas:
--N'um duello eu não arranho nem firo, mato. E ajuntou:
--Aquella sua phrase de certo foi simples modo de fallar, meu caro. Sem duvida não teremos que temer ámanhã um resultado tão tragico.
--Está enganado! replicou Lauretto, com sorriso feroz. Hei de matar o visconde! Hei de matal-o!
Gressier estremecera violentamente, por tal fórma Lauretto pronunciára as ultimas palavras.
Quando entrou em casa do conde de Bauriac, o baritono estava ainda sob o peso d'aquella desagradavel impressão.
O barão de Chazeuil reparou para o gesto de Gresnier, e disse:
--Não me parece que seja caso para temores. O sr. Lauretto Mina é um adversario para respeitar... como esgrimista, bem entendido, mas o sr. visconde de Bizeux saberá defender-se, com certeza.
Os infelizes artistas temiam as responsabilidades que pesam sobre as testemunhas de duellos que occasionam a morte, e desejavam encontrar um meio que os levasse a não continuar com as negociações.
Quando se tratou de resolver que sabres serviriam o conde de Bauriac disse, segundo o costume, que a sorte decediria.
Nós acceitamos sem o mais leve inconveniente os sabres do sr. visconde de Bizeux, disse Nobillet.
--O sr. Lauretto Mina não ratificaria a sua concessão, observou o conde.
--N'esse caso retirar-nos-iamos, replicou Gressier apressadamente.
O conde viu-se obrigado a conter aquelle ardor... d'abstenção, affirmando que não poderiam ser censurados por tomar a sorte como arbitro.
Foi resolvido que o duello se efectuaria no bosque de Bolonha.
O barão de Chazeuil indicou uma clareira, sobre o mappa.
Encontrar-se-iam n'aquelle sitio pelas onze horas do dia seguinte.
Gressier e Nobillet retiraram-se, porque nada mais tinha que ser combinado.
Durante esse tempo Antonino fôra a casa do dr. Despujolles, que deu um salto ao saber que o visconde se batia com Lauretto.
Depois, readquirindo a presença d'espirito, disse:
--Lá estarei com os meus instrumentos, mas, não sei porque, estou convencido que elles não servirão ao meu amigo. Já o vi de sabre em punho; ia affiançar em como dará uma lição ao ajudante do professor d'esgrima. O que é necessario é que não se distraia.
Antonino quiz que o doutor o acompanhasse a jantar em casa de Linda.
Despujolles, porém, pretextando affazeres, mas na realidade por temer não estar sempre de bom humor, desculpou-se de não acceitar o convite.
O visconde, que não desejava estar só com sua mulher, ao sahir de casa de Despujolles procurou e convidou dois amigos para jantar.
Chegando a casa, disse a Laura:
--Encontrei Heitor e Linage; jantarão comnosco.
--Desejava antes jantar só comtigo.
E depois, olhando fixamente para o marido, perguntou:
--Nada de novo sobre Lauretto Mina?
--Nada. O biltre nem bulio, respondeu Antonino.
O jantar correu alegremente.
A fatalidade, porém, quiz que, pelas dez horas da noite, quando o visconde acompanhava os dois amigos até á porta, Jacintha lhe entregasse um telegramma.
Antonino voltou para junto da esposa.
Ella viu o carimbo de Saint-Malo, e estremeceu.
--É um telegramma de teu pae? perguntou.
--Ah! sim, é verdade. Escrevi-lhe sobre a nossa proxima mudança de vida. Elle ficou satisfeitissimo e participa-me que vem ver-nos. Chega ámanhã, talvez...
--Deixa ver... disse Laura estendendo a mão para o telegramma.
--Curiosa!... respondeu elle, rindo.
Fez uma bola com o papel, e lançou-o ao fogão.
Laura pensou immediatamente:
--Bate-se ámanhã com Lauretto Mina.
Mas ao mesmo tempo reflectiu que coisa alguma impediria, que os seus pedidos e as suas lagrimas podiam dessocegar Antonino, e resolveu calar-se.
--Em que pensas? perguntou-lhe elle.
--Penso que teu pae será um magnifico avô.
E não fallaram mais senão no pae e no filho.
No dia seguinte o visconde levantou-se cedo.
Ás oito horas estava prompto para sahir.
Laura deu-lhe um beijo tranquillo, e limitou-se a recommendar-lhe:
--Volta depressa, pensa em mim e n'elle!...
O visconde calculou:
--Não desconfia de nada!
E Laura dizia para comsigo:
--Não suppõe que eu adivinhei tudo!
XXVIII
O duello
A entrevista entre o pae e o filho foi grave e terna.
Antonino não dissimulou o perigo que corria, batendo-se com um adversario tão habil como pouco escrupuloso.
O conde disse-lhe com toda a energia viril:
--Como conheces o perigo e conservas, apesar da imminencia d'elle, toda a tua presença de espirito, tens por ti o maior numero de probabilidades.
Antonino não necessitava recommendar Laura a seu pae.
Participou-lhe apenas a feliz nova da gravidez da sua mulher.
O conde abraçou o filho, dizendo:
--Mais uma probabilidade a teu favor.
O visconde entregou-lhe uma carta volumosa, especie de testamento de coração, que dirigia a sua mulher.
O primeiro a chegar, um pouco antes das dez horas, foi Despujolles.
O dr. não podia occultar a sua inquietação.
Pouco depois chegaram as duas testemunhas e o seu aspecto socegado reanimou um pouco Despujolles.
Antonino subiu para uma carruagem com seu pae.
As testemunhas e o medico subiram para outra.
O conde desejava assistir ao duello, ainda que conservando-se completamente estranho a elle.
O dia estava ennevoado, e, para a estação, um pouco frio.
Ligeira neblina envolvia as arvores. No espaço passava como que uma nuvem de melancholia.
As duas carruagens chegaram á clareira destinada ao duello um pouco antes das onze horas.
As testemunhas e o adversario d'Antonino não tinham chegado ainda. O conde não se apeiou.
Apertou com força a mão do filho, quando Antonino desceu, e não pronunciou uma só palavra.
Pouco depois, porém, quando o conde de Bauriac foi buscar os sabres, o velho, que tremia, não conseguiu entregar as armas á testemunha de seu filho, tanta era a sua commoção.
A carruagem conduzindo Lauretto Mina, as testemunhas e o medico do theatro não se fez esperar.
As quatro testemunhas approximaram-se com os chapeus nas mãos.
Os dois adversarios olharam-se sem se cumprimentar.
No rosto de Lauretto percebia-se uma alegria arrogante.
O d'Antonino conservava-se impassivel e digno.
Nobillet e Gressier, noviços e quasi incorrectos em assumptos d'aquella natureza, deixaram que Bauriac e Chazeuil fizessem o que entendessem.
A escolha das armas foi tirada á sorte, conforme tinham convencionado.
A sorte designou os sabres de Lauretto Mina.
Depois de procederem á medição das laminas, o conde de Bauriac disse para os dois adversarios:
--Podem conservar as luvas de passeio, se quizerem.
Mas tanto Antonino como Lauretto tinham já descalçado as luvas.
Despiram os sobretudos e os casacos.
As quatro testemunhas tomaram os respectivos logares.
--Vamos, meus senhores, disse Bauriac.
Os dois adversarios cumprimentaram-se com os sabres, e cahiram em guarda.
Nos primeiros minutos como que se tactearam indecisos.
Depois deram a conhecer o jogo.
Antonino, solido e como que de bronze, conservava-se evidentemente n'uma calculada defensiva.
Prudente e desconfiado, seguia e vigiava o jogo de Lauretto, contentando-se com _parar_, rapido, mas tranquillo e frio, os botes do adversario.
O brilho do seu olhar implacavel causava perturbações ao tenor.
Lauretto, ao contrario do visconde, esgremia com extraordinaria presteza.
Parecia desconcertar-se, e até por vezes se descobria.
Simulava ataques imprudentes, mas coisa alguma fazia com que o visconde mudasse de tactica.
O tenor, pouco depois, estava visivelmente cançado.
Gotas de suor perlavam-lhe a fronte larga, onde os cabellos, d'um loiro pallido, ondeavam.
O assalto durava já por vinte minutos, quando Bauriac disse:
--Podem descançar, meus senhores.
Lauretto vestiu o sobretudo.
O visconde conservou-se em mangas de camisa, com os braços cruzados sobre o peito.
Ao cabo de sete ou oito minutos, o barão de Chazeuil, olhando para Lauretto, disse-lhe:
--Quando quizer.