Part 13
Antonino, pela sua parte, só tinha um desejo: tornar a ver seu pae.
Mas o conde, a quem o filho não quizera occultar o que elle chamava o seu romance, não queria, por dignidade, ir a Paris emquanto durasse uma tal situação.
--Acautella-te, escrevia elle ao visconde, occultas tua mulher como se occulta uma amante. Acho perigoso esse teu procedimento. Não me parece razoavel tentar o perigo, misturar o que ha de mais serio e de mais sagrado no amor com o disfarce, com a mascara, com a aventura.
Seria isto um presentimento da fina intuição paterna?
Uma noite, pelas quatro horas da madrugada, Laura, envolvida n'um largo manto, foi, segundo o costume, acompanhar e alumiar seu marido até á escada que descia para a rua.
Demorou-se no patamar até que Antonino, sahindo, fechou a porta sobre si.
Ao entrar no quarto, a Linda soltou um grito.
Lauretto Mina estava sentado na cadeira de que pouco antes Antonino se levantara.
XXIV
Jacintha
Jacintha, como já dissemos, tinha por Laura uma dedicação sem limites.
Far-se-ia matar pela cantora, e, se a diva morresse, ella não lhe sobreviveria por muito tempo, com certeza.
O peor era que a creada não possuia apenas a fidelidade canina do irracional.
As admoestações, as severidadese as irritações de Laura faziam-a chorar deveras, porque possuia um bom coração.
Mas arrependia-se e não se emendava.
A Venus antiga divertia-se, ligando-se completamente áquella humilde presa.
Por infelicidade, a belleza picante de Jacintha, os seus grandes olhos pretos e brilhantes, a tez morena e fresca d'andaluza, a cintura delicada e o agradavel conjuncto de toda a sua pessoa, davam-lhe um grande numero de cumplices.
Lauretto Mina, como indicámos, pertencera a esse numero.
O formoso tenor não desdenhára colher aquella flôr modesta.
Colhera-a e passára.
Não era homem para perder muito tempo em negocios de semelhante natureza.
Apesar d'isso Jacintha ficára singularmente lisongeada por contar, na collecção dos seus admiradores, um _artista_, um verdadeiro artista, de que grande quantidade de damas da primeira sociedade tinham disputado a posse, segundo ella suppunha.
Em Saint-Malo, na numerosa creadagem das casas proximas, Jacintha, sempre picante e attrahente, fôra muito cortejada.
E não tinham sido apenas os creados a darem-se a esse passatempo.
Os proprios patrões deram-se ao incommodo de render homenagens á creada de Laura.
Afinal, na grande sociedade--está provado!--as cosinhas não recebem peor gente que os salões.
Lembrar-se-hão sem duvida que, na manhã em que Laura resolvera abandonar a casa de seu marido, encontrára vasio o quarto de Jacintha.
No dia seguinte, quando a creada se reuniu á cantora em Paris, Laura admoestou-a com toda a severidade, como costumava.
Sem se incommodar com a torrente de lagrimas que corria pelas faces de Jacintha, e com as quaes a creada tratava lavar a falta commettida, Laura demonstrou-lhe quanto era indigno um procedimento d'aquella ordem.
Disse-lhe que a devia abandonar completamente.
Mais uma vez, porém, lhe perdoaria, sob condição de Jacintha lhe dar a sua palavra de que não voltaria a praticar o menor desmando.
E affiançou-lhe que, no primeiro caso dado, a encontraria inflexivel.
Jacintha, desfeita em lagrimas, prestou todos os juramentos possiveis.
Tomou para testemunhas todas as virgens da côrte do ceu, promettendo seguir os seus exemplos.
Antes quereria perder a vida do que ser abandonada por Laura.
A admoestação aproveitar-lhe-ia.
Jámais o demonio se apossaria dos seus sentidos.
Laura fingiu acreditar nas promessas de Jacintha, que, sem serem solidas, eram com certeza sinceras.
Entretanto tomou algumas precauções.
Resolveu não admittir creados moços na sua modesta casa da rua Boudreau.
Escolheu um casal já idoso.
O marido tinha cincoenta annos e a mulher quarenta e cinco.
Durante tres mezes Jacintha foi um verdadeiro modelo de honestidade.
Nunca sahia só, e quando acompanhava Laura ao theatro jámais transpunha a porta do camarim.
Mas no momento da chegada do visconde a Paris, os seus remorsos começavam a cicatrisar.
A installação mysteriosa no rez-do-chão da rua da Arcada produziu-lhe terrivel effeito.
Laura, porém, percebeu sem perda de tempo que Jacintha começava novamente a andar mais ligeira.
Aquella acceleração de movimento no corpo correspondia a movimentos, accelerados tambem, no espirito.
Ao ver a felicidade que disfructava Laura, sentia extraordinaria melancholia.
--Como o sr. visconde ama a senhora! murmurava ella. Ah! a senhora é bem feliz!...
--Se continuares a portar-te bem, dizia-lhe Laura, acharás qualquer dia um bom marido.
--A senhora achou, respondia Jacintha, mas eu, para o achar, necessitarei procurar.
Uma busca d'este genero é sempre um perigo para uma natureza inflammavel. Se Laura, n'aquella occasião, tivesse reparado, comprehenderia o perigo, verificaria que a virtude começava a ser demasiado pesada para Jacintha.
Uma noite, ao atravessar um corredor do theatro, a creada deu de cara com Lauretto Mina.
O tenor pôz-lhe uma das mãos na fronte, levantou-lhe o queixo com a outra, e disse-lhe:
--Sabes que estás cada vez mais bonita? Declaro-te que nunca te amei tanto como agora.
Não se contentou com palavras.
Passou-lhe um braço em volta da cintura, levou-a para um canto pouco alumiado, inclinou-lhe o corpo para traz e deu-lhe um demorado beijo na bocca.
Jacintha voltou para o camarim muito perturbada.
O seu quarto na rua da Arcada era tão bonito!
Devia haver muitas senhoras que o invejassem!
Esta circumstancia foi mais uma tentação.
Pois só ella é que havia admirar aquella verdadeira belleza?
Era possivel que o tenor, mesmo em casa de duquezas, não tivesse visto um quarto tão encantador como aquelle.
Jacintha por coisa alguma trahiria Laura.
Em tempo, Lauretto Mina tinha tido a prova d'essa verdade.
Não se arriscou, por isso, a fazer-lhe perguntas directas sobre o visconde ou sobre a Linda.
Mas, depois d'uma scena de seducção admiravelmente bem desempenhada pelo tenor, uma noite, durante um entre-acto, Jacintha foi forçada a dar-lhe todas as indicações necessarias, para que elle podesse entrar n'aquelle delicioso quarto, que para ella era um verdadeiro ninho d'amor.
Pela uma hora da manhã, em quanto Antonino e Laura estivessem á mesa, ceiando, ella iria abrir-lhe a porta da rua, e, pelo longo corredor, para o qual abriam todas as portas interiores, introduzil-o-hia no quarto. Depois iria ter com elle, logo que os dois esposos se deitassem.
O tenor sahiria, entre as quatro e as cinco horas da manhã, quando o visconde tivesse partido.
Nada era mais simples, mais facil, mais seguro.
Foi assim que, na noite de que já fallámos, Lauretto Mina estava ás tres horas e meia da madrugada no quarto de Jacintha.
Áquella hora a creada dormia profundamente.
Lauretto levantou-se sem fazer ruido.
Sobre a meza da cabeceira estava acceso um candieiro.
O tenor tirou uma navalha da algibeira, abriu-a, e cortou os cordões d'um reposteiro.
Em seguida voltou ao leito, pegou na mão direita de Jacintha e approximou-a levemente da esquerda.
Ella descerrou vagamente as palpebras e perguntou:
--Já te levantaste?
--Não, não, respondeu o tenor. Ainda é cedo.
Reuniu bruscamente as duas mãos e, n'um segundo, ligou os pulsos de Jacintha com tres ou quatro voltas do cordão, que atou n'um nó rapido. Ella accordou sobresaltada e tentou gritar.
Mas o tenor applicou-lhe sobre a bocca uma mordaça que levava, prendendo-lh'a solidamente atraz do pescoço.
Jacintha deu com os pés na roupa da cama, tentando saltar do leito.
O tenor ligou-lhe os pés com o cordão, como lhe ligara as mãos.
Em seguida verificou se todos os nós estavam bem dados.
Assim presa, Jacintha apenas podia fazer alguns movimentos quasi imperceptiveis, que Lauretto impossibilitou ainda comprimindo-a com a roupa da cama.
Depois, o tenor vestiu-se lentamente.
Entreabriu a porta do quarto, e escutou.
Voltou para junto do leito, e vendo que Jacintha não se movia, destapou-a, inquieto, e tirou-lhe a mordaça.
A infeliz estava desmaiada.
O ar livre que respirou, reanimou-a um pouco.
Antes que a creada recuperasse completamente os sentidos, Lauretto tornou-lhe a pôr a mordaça, mas apertando-lh'a menos, e deixando-lhe as narinas a descoberto.
Depois voltou novamente para junto da porta.
Sentiu o visconde sahir, sendo acompanhado por Laura até á escada.
Ouviu as palavras de despedida que ambos trocaram.
Então transpôz o corredor, abriu a porta do quarto de Laura, e entrou.
Jacintha, que recuperara os sentidos, viu e comprehendeu tudo.
O miseravel armara ardilosamente aquelle laço á sua fraqueza, e ella cahira estupidamente, como uma ingenua.
Não era por ella, mas por Laura, que elle ali fôra.
A Linda, é claro, não tornara a sua creada de quarto confidente das impertinencias de Lauretto.
Jacintha, porém, recordava-se agora de certas circumstancias e d'algumas palavras pronunciadas pelo tenor.
Não podia duvidar.
Era Laura quem elle desejava.
A Linda estava n'esse momento á discrição do insolente.
E fôra ella, Jacintha, ella, que teria dado a vida pela cantora, que a entregara áquelle miseravel!
Ao ter este pensamento a infeliz sentiu-se gelada de pavor.
Deixaria ella commetter um tão infame crime?
Apenas podia soltar alguns gemidos inarticulados.
As mãos e os pés ligados paralysavam-lhe todos os movimentos. Como arrancar a mordaça?
Como cortar os cordões que a atavam?
O tempo passava, e ella não achava que responder áquellas perguntas.
As lagrimas corriam-lhe pelas faces.
Olhou para o candieiro acceso.
Lauretto achara desnecessario apagal-o. Para que?
Subitamente accudiu-lhe ao espirito uma idéa.
Nem um instante hesitou.
Encolheu-se, torceu-se, rebolou-se, e, lentamente, firmando-se nos cotovellos e nos joelhos, conseguiu elevar-se pouco a pouco, acima do travesseiro.
Esta operação difficultosa durou dez minutos.
Quando chegou com as mãos ligadas até ao angulo do leito, agarrou-se a elle, e, com um esforço acabou de se elevar.
Então, com um movimento decidido, chegou á luz do candieiro os cordões que lhe prendiam os pulsos, que foram tambem attingidos pela chamma.
A dôr era insupportavel.
Por vezes, sentindo-se prestes a soltar um grito, retirava os pulsos da luz.
Mas em seguida, considerando aquelle facto como uma indesculpavel cobardia, chegava novamente á chamma a carne já queimada.
Uma das voltas do cordão quebrou por fim.
Mas não era a que formava o nó.
Foi indispensavel continuar a tortura, com todas as precauções e cuidados.
E sentia-se feliz por poder dizer de si para comsigo:
--Soffre, leviana, soffre o castigo da tua falta!
O cordão cedeu emfim.
Então, com um movimento rapido, desembaraçou-se dos bocados que ainda a prendiam, e, sem reparar para o misero estado em que tinha os pulsos--porque o tempo urgia--sentou-se na cama, e desligou os pés, ainda que com bastante custo.
Levantou-se, procurou uma tesoura, e cortou os cordões da mordaça.
Estava livre!
Vestiu-se sem perda d'um segundo.
As mãos, tremulas ainda pelo supplicio supportado, difficilmente cumpriam a sua missão.
Sentia-se banhada em suor frio.
Não prestou attenção á fórma pela qual se vestia.
Pensava.
O que deveria fazer? Acordar o porteiro? Esse meio poderia ser bom meia hora antes. N'aquelle momento, como era possivel que o crime estivesse consumado, era necessario não fazer escandalo. N'aquelle negocio não devia intervir qualquer pessoa estranha.
Logo que se apromptou, metteu na algibeira o dinheiro que pozera sobre a meza, e seguiu pelo corredor, abafando o ruido dos passos.
Parou em frente da porta do quarto de Laura e escutou.
Não duviu o menor rumor.
Aquelle silencio seria de bom ou de mau presagio?
Não se atrevia a decidir.
Continuou pelo corredor, desceu a escada, abriu cautellosamente a porta e achou-se na rua, deserta áquella hora.
XXV
O infame
Se não fosse fatuo e mau como era, Lauretto Mina, ao entrar no quarto de Laura, teria apagado a lampada que o alumiava.
Depois, quando a cantora voltasse, soprando a chamma do candieiro que ella trazia, tel-a-hia tomado por surpreza na sombra, e a Linda podia então considerar-se perdida.
Mas elle quiz saborear o seu triumpho, divertir-se com o temor e mesmo com a colera da cantora.
Portanto mostrou-se, apresentou-se.
--Boa noite, minha querida Linda, disse elle levantando-se logo que Laura entrou. Não te admires nem te assustes por me veres em tua casa a hora tão adiantada da noite. As minhas intenções são tudo o que ha de mais amigaveis, e estou certo que havemos de nos entender.
Laura olhava-o petreficada, sentindo como que fugir-lhe a razão.
O tenor proseguiu:
--Se entrei aqui, empregando meios menos usados e algum tanto violentos, a culpa foi tua. Estou, como muitos outros, loucamente apaixonado por ti. Mas isso não é uma razão para me escarneceres, para me tornares ridiculo para com os nossos collegas, e para mofares de mim com o visconde, teu amante. Tens procedido commigo imprudentemente. Resolvi desforrar-me. Para o conseguir conquistei um coração mais sensivel que o teu, o da Jacintha. Ella introduziu-me na praça--e eis-me aqui!
--Foi bem combinado o assalto, respondeu Laura fazendo um gesto de resignação.
Voltára-lhe a presença d'espirito.
Como se conservasse no limiar da porta, passou resolutamente em frente do tenor e entrou no quarto.
--Estimo que acceites a situação com essa desenvoltura! disse Lauretto sorrindo victoriosamente.
Como ella não respondesse, o tenor continuou:
--Para que me havias de receber com ares tragicos? Tens razão. Jámais se devem desprezar estas palavras: amo-te!
Laura encostára-se a uma secretária Riesener.
O tenor estava na frente d'ella. Elle proseguiu:
--Pois não é verdade que é absurdo fazer barulho por causa d'um beijo?
Caminhou para ella ao acabar de pronunciar aquellas palavras.
Laura abriu rapidamente com a mão esquerda a gaveta da secretaria, pegando, com a direita, n'um objecto que estava dentro.
E repentinamente, como Lauretto se approximasse mais, visou-o com um revolver que acabava de engatilhar.
--Se dá um só passo mais, mato-o! gritou ella.
Lauretto empallideceu horrivelmente.
Mas replicou, tentando sorrir-se:
--Suppunha-te mais sensata. A menos que não estejas brincando...
--Prohibo-o de me tratar por tu, disse Laura ameaçando-o novamente com o revolver.
--Perdão, sr.ª viscondessa, respondeu o miseravel inclinando-se com afectação, para dissimular o estremecimento que lhe percorreu todo o corpo. Não considero de bom gosto ameaçar com um revolver um homem desarmado, entretanto...
E ia dar mais um passo.
Laura, porém, fel-o parar, dizendo com energia:
--Não se mecha, ou disparo! E previno-o de que não repetirei o aviso. Acautelle-se! Tenho na mão uma arma admiravel, de precisão extraordinaria. Comprei-a no Mexico, quando nos internamos na região dos _pampas_. Ao dar um passo terá quatro balas no corpo.
Ella fallava n'um tom firme e resoluto, tanto mais para admirar, quanto era certo que omittia um pormenor importante.
O revolver estava descarregado.
Suppozera, e com razão, que um homem capaz de proceder como Lauretto Mina, não podia deixar de ser cobarde.
Ao ouvir Laura, o tenor teve uma idéa, que mais o assustou.
Lembrou-se que o tiro podia partir, mesmo sem que a cantora puxasse pelo gatilho.
Entretanto, fazendo-se forte, disse:
--Acautelle-se tambem, porque ao primeiro tiro precipitar-me-hei, e então...
--Socegue, interrompeu a Linda. Sei servir-me bem d'este revolver. Tinha o direito, se quisesse, mesmo sem que o senhor chegasse a vias de facto, de o matar como se mata um cão hydrophobo. Mas a vista do sangue horrorisa-me. Conserve-se quieto, e nada terá a temer.
Um pouco mais socegado, o tenor disse, ao cabo d'alguns minutos de silencio, com riso forçado:
--Nada d'isto tem senso commum! Ficaremos aqui toda a noite, a olhar um para o outro, como dois cães de faiança?
Laura não respondeu.
Conservava-se immovel como uma estatua.
--Permitte-me, ao menos, que me sente? perguntou elle.
Ella replicou:
--Pode sentar-se. Tem ahi proximo uma cadeira. Mas previno-o de que, uma vez sentado, o prohibirei de se levantar.
--Percebo, ficaria com uma vantagem a mais. Pois conservar-me-hei de pé.
--Faria melhor sahindo d'esta casa. Deve seguir o conselho, que é bom.
--Devéras?... disse Lauretto indiciso.
Perguntou a si proprio se, realmente, o mais prudente não seria bater em retirada.
Aquelle revolver imprevisto mudára a situação.
O negocio falhára, decididamente.
Mas deveria fugir cobardemente d'uma mulher?
No dia seguinte ella contaria a aventura ao amante, e talvez aos collegas, que com razão o escarneceriam. Fugir, era, pois, impossivel.
Era indispensavel sustentar a situação até ao fim, custasse o que custasse.
Depois d'alguns minutos de reflexão, Lauretto disse com voz um pouco mais firme:
--Não partirei. Tenho ainda pelo meu lado uma probabilidade.
--Qual?
--Ha vinte minutos que nos olhamos fixamente; eu, que não tenho uma arma na mão, sinto-me já fatigado. Pesa-me a cabeça e cerram-se-me as palpebras. O relogio marca quatro horas e trinta e cinco minutos. Só amanhecerá d'aqui a hora e meia. Quando nos tivermos hypnotisado mutuamente, veremos se o seu olhar não se turbará, se os seus joelhos não se dobrarão, se o braço não se baixará por si proprio. Veremos se a gallinha não acabará fatalmente por ser magnetisada, immobilisada... e tomada pela raposa!
--Veremos! respondeu Laura apertando com mais força a coronha do revolver.
Desde esse momento guardaram ambos o mais absoluto silencio.
No quarto ouvia-se apenas o tic-tac monotono da pendula.
O relogio deu os tres quartos para as cinco horas.
Os minutos passavam com uma lentidão mortal.
Laura sentia, com temor crescente, que o miseravel dissera a verdade.
A tensão enorme em que desejava conservar o espirito fazia-lhe diminuir as forças do corpo.
Via como que sombras passarem-lhe pela frente; sentia nos ouvidos um ruido extranho, as pernas dobravam-se-lhe, e a custo conservava o braço meio estendido, empunhando o revolver.
O que mais a angustiava era a arma estar descarregada.
Se assim não fôra, mesmo dada a hypothese do desfallecimento, poderia defender-se contra uma aggressão subita, ferindo ou pelo menos assustando o seu inimigo.
Emfim, haveria lucta, em que o maior numero de probabilidades estaria do seu lado.
Mas se, aproveitando um momento de torpor, Lauretto se precipitasse sobre ella, e a agarrasse, a Linda nada mais tinha na mão do que um bocado d'aço e de madeira, não poderia defender-se.
E como que ouvia o grito de triumpho soltado por Lauretto, e o rir infame d'aquelle miseravel.
O relogio deu cinco horas.
Laura sentiu necessidade de interromper aquelle silencio pesado e d'ouvir uma voz humana, ainda que não fosse senão a propria.
Disse portanto em voz alta:
--Cinco horas!
Lauretto replicou, e ella escutou-o quasi satisfeita:
--Faço-lhe os meus cumprimentos. Possue energia rara em mulher. É triste que não empregue essa energia ao serviço de melhor causa. Admittindo mesmo,--o que é duvidoso,--que consiga sustentar até ao fim esse magnanimo esforço para preservar a sua honra, nem por isso ficará menos deshonrada. Quer saber como?
Laura não respondeu.
O tenor proseguiu:
--O meu amor é muito sincero e ardente. Se não fosse para a possuir não poria em pratica esta tentativa arrojada, ou criminosa, segundo o modo de ver de cada um de nós. Mas o meu amor proprio está agora comprometido n'esta empreza tambem. A sr.ª, ha muito tempo, tem-me despresado, motejado, ridicularisado; eu, declarei, jurei publicamente, que mereceria todo o seu desprezo se não conseguisse tel-a um dia nos meus braços. Por emquanto ainda não perdi a esperança, e espero, até, conseguir em breve o fim desejado. Em todo o caso, mesmo na peor das hypotheses, deve concordar que as apparencias são por mim. Por agora pouco importa que eu seja ou não seu amante. O essencial é que, para os espectadores, o pareça. Ora parecel-o-hei, evidentemente...
Laura sorriu com desdem.
Elle continuou:
--Deixe-me acabar e ria depois. Medite,--porque ainda é tempo,--e verá que o que mais lhe convém é baixar o revolver e entregar-se á minha generosidade. Procederei como um perfeito cavalheiro, desde já o declaro. Mas reservar-me-hei o direito de fallar, e previno-a de que fallarei. Será essa a minha compensação e a minha desforra.
O tenor fez uma pausa.
A Linda deu aos hombros despresadoramente.
--Imagina que não me acreditarão? Ouça: limitar-me-hei a affirmar que a tive esta noite nos meus braços. Estamos sós: quem poderá contradizer-me? É de suppor que o visconde de Bizeux me peça explicações; espero mesmo que isso succeda. Recusar-me-hei a dar-lh'as. Elle esbofetear-me-ha e eu matal-o-hei, porque desgraçadamente succede-me esse precalço sempre que me bato. Não será em virtude d'esse duello em perspectiva e da morte do visconde que as minhas palavras deixarão de ser acreditadas, ao contrario. Mas haverá mais do que as minhas palavras, haverá provas e testemunhas. A prova eil-a: ao entrar vi sobre aquella mesa o seu retrato em miniatura, ao lado do retrato do visconde. Dei-me pressa em guardal-o--para possuir uma recordação sua. Eis o testemunho: pela manhã sahirei, não pela porta que deita para a rua, mas pela que abre para o vestibulo. O porteiro, ao ver-me, perguntar-me-ha sem duvida quem eu sou e d'onde venho a hora tão matinal, e eu responder-lhe-hei que me chamo Lauretto Mina, que sou tenor da Opera, e que saio de casa da sr.ª Laura Linda, amante do sr. visconde de Bizeux...
--É engenhoso, mas um pouco cobarde! disse uma voz por detraz de Lauretto.
A cantora soltou um grito d'alegria.
--Antonino! disse ella.
O tenor voltou-se admirado, e viu na sua frente Antonino de Bizeux, de braços cruzados sobre o peito, dominando-o, com a alta estatura do seu corpo herculeo.
Na sombra do corredor, Lauretto viu Jacintha, pela porta entreaberta. Lançou em volta um olhar assustado, como que procurando por onde fugir.
Antonino bateu-lhe pesadamente com a mão no hombro.
Laura, deitando fóra o revolver inutil, correu para o marido.
O visconde disse, dirigindo-se ao tenor:
--É triste que eu venha desmanchar as suas combinações infames. Graças á coragem e á dedicação d'aquella pobre rapariga que me foi chamar, eil-o preso no proprio laço que armou. Ao que parece é forte em violentar e insultar mulheres, mas defronte d'um homem não faz tão boa figura.
Lauretto respirava a custo sob o peso da mão de Antonino.
Apenas teve força para balbuciar:
--Senhor... estarei ás suas ordens... quando quizer...
--Na realidade? Consente em dar-me razão? Pois não sabe, miseravel, que quando se apanha um patife da sua especie em flagrante delicto d'attentado nocturno e de roubo... (com a mão que tinha livre procurou na algibeira de Lauretto e tirou d'ella a miniatura de Laura, que lançou sobre a mesa) só ha a escolher entre entregar o mariola á policia ou de lhe pegar pelas orelhas e lançal-o pela porta fóra a ponta-pés? Não sabe? Pois fique sabendo que n'um caso d'esta ordem o infame nunca offende. Teria graça considerar-me eu offendido e bater-me com o gatuno que me roubasse a bolsa!
--Ouça-me, senhor, replicou Lauretto tremendo-lhe a voz de medo, de vergonha e de colera. Ouça-me: n'este momento estou á sua discrição, é verdade, mas aconselho-o a que não abuse da sua vantagem.
Deixe-me sahir d'aqui sem ruido nem escandalo. Asseguro-lhe que isso será mais conveniente não só para mim, como tambem para o senhor e para esta senhora.
--Concede-lhe o que elle pede, meu amigo, disse Laura intervindo. Que parta, com a raiva de ver abortado o seu crime, e que não ouçamos mais fallar d'elle.
--Sim, sr. visconde, deixe-o partir! repetiu Jacintha do corredor, com voz timida.