Part 12
Instou com o pae para que o deixasse partir só.
Para conseguir a annuencia paterna teve de fazer duas concessões: addiar a partida para oito dias mais tarde, de modo que a convalescença avançasse mais uma semana, e parar em Mans, dividindo a viagem em duas partes, para evitar o cansaço que lhe adviria de uma viagem tão longa.
Pelas noticias dos jornaes elaborara o seu programma d'artista e de amante.
Logo que chegou a Paris, acompanhado por um só creado, installou-se na sua antiga casa de solteiro, no _boulevard_ Haussmann.
Conservou-se deitado sobre um canapé até quasi ás seis horas da tarde, descançando, sonhando.
Pouco depois sahiu, e comprou, como já dissemos, um _fauteuil_ d'orchestra n'uma agencia theatral dos _boulevards_.
Em seguida foi jantar ao _Café Inglez_, e ás sete horas e meia entrava na Opera.
Tivera a phantasia, que se transformára em ideia fixa, de tornar a ver sua mulher,--de tornar a ver a Linda,--cantando a parte de Valentina dos _Huguenottes_, que era justamente o papel que ella representára a ultima vez que a ouvira no theatro, na noite em que lhe salvara a vida.
Tornaria a vel-a, do seu _fauteuil_ d'orchestra, apenas como um simples espectador, e sem que ella desconfiasse da presença d'elle.
Esperava sentir dupla alegria.
Tornaria a ver, simultaneamente, a sua artista predilecta e a sua adorada mulher.
Sentiria as emoções do amador, e os estremecimentos do amante.
A verdade era que, depois da meia anniquilação, da meia morte de que sahia, não se lembrava de experimentar uma tal intensidade de vida nem tanta exhuberancia d'amor.
A sua vida e o seu amor tinham passado, na realidade, por uma terrivel crise.
Mas a convalescença chegara.
Havia em todo o seu ser, e em todo o seu coração uma especie de renascimento.
A força physica e o espirito augmentavam ao mesmo tempo.
Amava Laura com esperança e embriaguez, mais, muito mais, do que d'antes a amara.
Chegando, como um provinciano, meia hora antes de começar o espectaculo, admirou a escadaria, o _foyer_, as pinturas de Paulo Baudry, o salão!
Extasiou-se ante as _toilettes_ claras das senhoras, que sobresahiam do vermelho do forro dos camarotes.
Maravilhou-se das columnas de marmore polychromo, do bronze dos candelabros, do ouro dos lustres, do enorme panno de bocca purpurino, que dentro em pouco se elevaria para lhe deixar ver Laura.
Um ruido confuso de conversação espalhou-se pela sala.
Os violinos e os baixos afinavam-se indistinctamente.
Antonino adorava aquelle sussurro, como adorava o do mar. O director da orchestra levantou a batuta.
A opera começou.
Antonino, porém, conhecia a partitura de cór, escutava como em sonho, apenas vagamente via passar Lauretto Mina.
Todo o seu ser esperava por Laura.
Quando, emfim, a Linda entrou, quando passou, velada, ao fundo da scena, sentiu a louca tentação de se precipitar para o palco, e esteve prestes a soltar um grito.
Quasi immediatamente depois, porém, voltando a si, olhou em volta para ver se tinha chamado a attenção dos demais espectadores.
Mas não; mercê do instinctivo habito adquirido, conservára-se correcto.
A representação seguia como um encanto para o visconde.
No segundo acto a Linda foi admiravel no dueto com Marcel.
Disse a phrase
_A offensa mortal do ingrato..._
com um sentimento tão penetrante e tão meigo, que os olhos d'Antonino marejaram-se de lagrimas.
A sua emoção, porém, foi elevada ao cumulo no recitativo de Valentina, que abre o terceiro acto, e começa
_Estou só com a minha dor!_
Quando Laura soltou o grito doloroso:
_Meu Deus! afugentae esta lembrança fatal..._
a vibração da sua voz maravilhosa foi tão pungente e tão vivida, que não podia deixar de ser palpavel para Antonino que era Laura quem se lamentava e não Valentina.
O visconde sentiu, por isso, percorrer-lhe as veias uma especie de terror gelado.
Pensou que Laura o vira na sala, que era exclusivamente para elle que cantava, unicamente a elle que se dirigia.
Segundo as suas impressões, até então tudo se passara, por assim dizer, entre ella e elle.
Todavia no quarto acto teve que passar por um outro genero de prova.
Depois da benção dos punhaes, Raul fica só com Valentina.
Raul, por substituição n'aquella noite, era Lauretto Mina.
O dueto sublime começou.
Aquelle trecho de musica produz o que não poderia produzir qualquer outra arte, nem a pintura ou a poesia.
Explica, delinia, faz sentir o amor completo, o amor da alma e o amor dos sentidos.
Ha n'aquelle dueto assombroso, com todas as dilacerações da paixão, com todos os horrores do passado susto, todas as delicias e todos os extasis da voluptuosidade!
E Raul era Lauretto! e Valentina era Laura!
Antonino ouvira muitas vezes a parte de Valentina cantada por Laura.
D'antes, a Linda cantava aquelle dueto com o superior talento e _virtuosidade_ que possuia, com vigor e expressão.
Jámais, porém, a ouvira cantar com aquella paixão e embriaguez.
N'outro tempo ella comprehendia, adivinhava.
Agora sentia, recordava-se.
No espirito d'Antonino passou como que uma hallucinação extranha.
Quando viu Laura--porque, para elle, aquella mulher deixára de ser Valentina--lançar-se, supplicante, aos pés de Lauretto--que já não considerava como Raul--acerbo ciume se apossou d'elle.
Pouco a pouco, o admiravel jogo physionomico da Linda acabou por dar á ficção uma realidade terrivel.
O salão, o publico, desappareceram.
Parecia-lhe que assistia, immovel e mudo, a uma verdadeira scena d'amor entre sua mulher e aquelle homem detestado.
E no cerebro fervia-lhe, confusamente, este pensamento:
--Por grande tragica que seja, poderia Laura, se Lauretto lhe fosse indifferente, envolvel-o em arrebatados abraços, dirigir-lhe tão ardentes supplicas? Poderia, se não o amasse, attrahil-o e retel-o contra o coração com tal accesso de ternura e de dôr?
Quando Laura dirigiu ao tenor o desesperado appello;
_Fica, Raul, eu amo-te!_
o visconde mordeu a mão para não gritar:
--Miseravel!
Raul parte e Valentina cae desmaiada.
Antonino, no seu _fauteil_, parecia ter desmaiado tambem.
Voltou a si aos primeiros compassos do terceto entre Valentina, Raul e Marcial.
A presença d'um terceiro personagem bastou, caso extraordinario, para o despertar d'aquelle terrivel pesadello, chamando-o á verdade da situação theatral.
Os olhos viram claro.
Laura passou novamente a ser Valentina para elle.
Desempenhava superiormente o papel d'um drama, nada mais.
Se ella representava com tanto ardor e enthusiasmo, se cantava o inegualavel dueto d'amor com tanta paixão pessoal, deixando n'elle, por assim dizer, a sua alma, não era um tenor qualquer que ella escongurava, que ella adorava com aquelle abandono e aquellas lagrimas, mas o homem que amava, o homem que não via, mas que estava sempre presente á sua imaginação, o homem que primeiro lhe revelára as alegrias celestes que podem gosar duas almas irmãs.
E Antonino sentia agora vontade de rir da horrivel visão que tivera, como se ri quando a luz do dia nos mostra os objectos sob as suas verdadeiras formas, deturpadas pela illusão das trevas. Estava já completamente senhor de si quando o panno caiu, no fim do espectaculo, para de novo se levantar ás duas chamadas que o publico enthusiasmado fez a Laura.
O visconde sentia-se satisfeito pela resolução que tomara, antes de partir para Paris.
Sahiu, deu a volta ao edificio do theatro e entrou pela porta do palco, perguntando ao porteiro onde era o camarim de _madame_ Laura Linda.
Entrou.
Ao atravessar um corredor, viu Lauretto Mina que sahia do _foyer_.
O tenor, ainda vestido de Raul, ia de certo para o seu camarim. Ao ver Antonino, recuou admirado.
--O sr. de Bizeux! disse elle estupefacto.
Mas quasi immediatamente voltou-lhe a presença d'espirito, e accrescentou no tom de cortezia que exasperava Antonino:
--O sr. visconde procura sem duvida _madame_ Laura Linda?... É a segunda porta, n'esse corredor da direita. Creio que _madame_ Linda está só esta noite.
Antonino inclinou ligeiramente a cabeça, e passou sem responder.
Logo que o viu desapparecer no corredor que lhe indicára, Lauretto murmurou colerico:
--Delicadissimo, este neto de fidalgos! Bem, bem! Isto é para juntar ao total!
Antonino parou em frente da segunda porta do corredor, e bateu.
Jacintha foi abrir.
Ao ver o visconde soltou um grito.
Deixou-o entrar para a especie de sala d'espera que antecedia o camarim, para o qual correu, gritando:
--Minha senhora... minha senhora... é o sr. visconde!
Laura, de penteador de cachemira branca, entrançava o cabello diante d'um espelho.
--O que dizes tu?... perguntou ella a Jacintha, voltando-se.
No limiar da porta viu Antonino, pallido, magro, d'olhos fundos, phantasma de si proprio.
Conservaram-se por algum tempo contemplando-se, sem fazerem um só gesto nem pronunciarem uma só palavra. Antonino disse por fim:
--Laura!
Depois caminhou para ella lentamente.
A Linda, indecisa, olhava-o estupefacta.
Ao chegar junto d'ella, disse-lhe em voz baixa e extraordinariamente terna.
--Minha Laura... amo-te!
Ella juntou as mãos, extasiada, e replicou:
--Meu Antonino!... És tu?... Ah! tambem eu te amo!
Lançou-lhe os braços em volta do pescoço, alegremente.
Foi longo o abraço.
Por fim Laura desprendeu-se d'Antonino, e perguntou-lhe:
--Mas porque estás n'este estado?
O visconde respondeu, sorrindo:
--Vou contar-te tudo em duas palavras. Estive, durante mez e meio, entre a vida e a morte, mas mais proximo da morte que da vida. Ia-me matando uma terrivel febre cerebral. Todos me suppozeram perdido. Meu pae, afflictissimo, e de mais a mais illudido por uma abominavel denuncia anonyma, escreveu-te uma carta, que sem duvida te magoou muito. Elle está arrependido do que fez, e pede-te perdão. Eu, logo que estive em estado de partir, vim procurar te. Eis-me aqui.
Quiz tomal-a nos braços.
Ella impediu-o de realisar a intenção.
Fez-o sentar n'um canapé e ajoelhou no tapete, contemplando-o com paixão.
--Estiveste quasi a morrer, meu querido Antonino, e eu estava longe de ti! Porque não me chamaste?
--Estive muito tempo sem consciencia...
--Mas depois?
--Depois ias tu entrar para o theatro. Tinhas reclamado a minha palavra, não quiz privar-te da liberdade promettida Não desejei ser um impedimento, um obstaculo á vontade que tinhas de voltar para o theatro, que é como o teu paiz natal. Álem disso, considerei-me obrigado a expiar algumas culpas, Eras tu que tinhas rasão, Laura, n'aquella funesta noite em que partiste. Que me importava a opinião d'estranhos? Não devia inquietar-me com os prejuizos da sociedade. Existe, porventura, a sociedade para o amor? A sociedade, para nós, somos nós proprios. Ama-me como eu te amo, e nada mais te pedirei. Que me importa que ames tambem Mozart, Beethoven e Meyerbeer? Não os amo eu tambem, principalmente por tua causa?
--Ah! como és bondoso! disse Laura. Sim, amas-me, sinto-o! A proposito: assististe ao espectaculo de hoje?
--Assisti.
--Não te vi, mas adivinhei-te!... Sentiste no meu canto que pensava em ti, não é verdade? Nem por um momento me esqueces quando desempenho o papel de Valentina, cheio de _phrases_ que parecem ter sido escriptas para a situação d'espirito em que me encontro. Aquella musica faz-me mal, especialmente depois que estou só, e comtudo sinto-me feliz quando a canto! E o dueto do quarto acto? Não é verdade que o canto agora melhor do que d'antes?
--Sim, sim, cem vezes melhor!
Laura ajuntou, collocando as mãos sobre os hombros, do marido:
--Foste tu que me ensinaste a cantar aquelle dueto!
Antonino sentiu o coração innundado d'alegria.
A segunda impressão que tivera durante o espectaculo, não o havia enganado.
Era o seu amor, que Laura cantara tão apaixonadamente.
Ella proseguiu:
--A partir d'hoje vou amar sem reserva esse afortunado papel que duas vezes me trouxe a felicidade. Eis-te aqui, meu Antonino, és novamente meu. Estão reunidas as duas partes da minha alma. Eu tinha, por vezes, junto de ti, a nostalgia do theatro; mas, no theatro, tive sempre a nostalgia do teu amor!
Em seguida contaram-se mutuamente tudo o que os interessava.
Laura estava completamente entregue á sua querida arte.
A casa da rua Boudreau era pequena demais para receber os seus amigos d'outr'ora.
Apenas algumas vezes alli ia o dr. Despujolles, que a tratara d'uma bronchite.
Remissy, terminado o contracto que o retinha em Vichy, partira para a Italia, e devia passar o resto do inverno na Hungria.
Por sua parte, Antonino contava não receber ninguem nos seus aposentos do _boulevard_ Haussmann.
Era possivel que o pae viesse vel-o, mas só muito mais tarde.
--Bem, disse Laura satisfeita, sorridente, qual é a vontade do meu senhor e amo? Irei eu para sua casa, ou irá elle para a minha?
--Escuta, replicou Antonino, vou contar-te um sonho que tive durante os longos dias de convalescença. É provavel que aches n'elle o quer que seja de romanesco. Se te desagradar, dil-o com franqueza! Quebraste bruscamente a nossa vida em commum, que talvez fosse um pouco monotona para a tua alma d'artista. Se quizeres, viveremos agora d'outra forma. Recuperaste a tua liberdade; como tenho plena confiança em ti, deixo-t'a. Não serei mais teu marido, passarei a ser teu amante. Queres?
--Quero, sim, quero, porque é a verdade!
--Então nem eu irei para tua casa, nem tu te installarás na minha. Concede-me oito dias d'espera. Durante esse tempo encontrarei e prepararei em qualquer canto de Paris, um ninho, occulto, secreto, apenas por nós conhecido, onde ninguem poderá surprehender-nos ou incommodar-nos. Dar-nos-hemos entrevistas n'esse ninho, furtivamente, clandestinamente, de noite, como quem teme a policia. De dia seremos correctissimos. Eu irei visitar-te de tarde, e tu convidar-me-has algumas vezes para jantar com Despujolles.
--Oh! mas isso é encantador! disse Laura.
--Agrada-te a minha idéa?
--Immenso!
--Bem! Havemos de ser muito felizes, verás. Está combinado. Chama Jacintha. Vou deixar-te, para só te tornar a ver d'aqui a oito dias. Necessito de todos os minutos d'esta semana para tratar da nossa felicidade. O que me fará diminuir o pesar d'esta separação, será lembrar-me que me occupo da minha querida Laura.
--E eu, durante esse tempo, só em ti pensarei!
Antonino levantou-se.
Laura, pegando-lhe nas mãos, disse:
--Troquemos, ao menos, o beijo dos esponsaes.
Beijaram-se longamente, ardentemente.
Depois, trocando um ultimo adeus, separaram-se.
XXIII
O amante legitimo
Em Paris, como em todas as grandes cidades, o dinheiro faz milagres.
No dia seguinte pela manhã, Antonino percorreu o bairro da Magdalena em busca d'uma casa onde fizesse o _ninho_ promettido.
Encontrou o que desejava na rua da Arcada, a meio caminho da casa de Laura e d'aquella em que elle vivia.
Era o rez-do-chão d'um predio de dois andares.
Ficava alguns degraus acima do nivel da rua, e tinha, além da entrada principal, á esquerda do vestibulo, para o qual se entrava por largo portão, uma entrada particular que abria para a rua.
A casa era composta d'um salão, d'uma sala de jantar, d'um quarto grande e claro, cosinha e um outro quarto de menores dimensões.
Arrendado o rez-do-chão, Antonino chamou um estofador dos mais conceituados de Paris, e depois de conferenciar com elle durante duas horas, ficou assente que moveis e estofos guarneceriam a casa.
O estofador prometteu ter tudo concluido na tarde do setimo dia, tendo, para isso, que trabalhar no domingo d'aquella semana. E cumpriu.
Era deliciosa a ornamentação, apesar de simples.
Na sala de jantar, forrada de coiro de Cordova, elevava-se, em dois corpos, um aparador da Renascença, guarnecido de baixela de prata antiga e de faianças de Ruen, Nevers e Marselha.
O fogão, de marmore de Nuremberg, era notavel pelo relevo das suas figuras biblicas.
A mesa fôra coberta com um tapete de velludo de Gênes.
O movel principal do salão era um piano Erard, construido no esqueleto d'um cravo do seculo XVIII, todo coberto de pinturas no genero das de Boucher, representando a dansa d'amores e de nymphas, n'uma paisagem celeste.
Ao fundo, as tres graças voavam para o Olympo.
A cór viva da tapeçaria que forrava o salão fazia sobresahir os quadros que Antonino mandára vir da casa de Saint-Malo, duas paysagens de Lancret, uma Venus de Fragonard, e um duplicado do Gilles, de Watteau, assignado pelo mestre.
Um lago, de Julio Dupré, defrontava com um outro, visto á hora crepuscular, de Corot.
O quarto de cama era a maior casa do rez-do-chão.
Dividiram-a, por tanto, fazendo-lhe aos lados, com divisorias, uns gabinetesinhos de _toilette_.
O leito, do seculo XVIII, cinzento e dourado, de linhas simples, tinha por unico ornamento, na cabeceira, dois amores sustentando um medalhão, em que se viam dois LL entrelaçados e encimados por uma corôa.
Dizia-se que aquelle leito pertencera a Luiz XV; mas os dois LL, para Antonino, queriam dizer Laura Linda.
Nas paredes, côr de perola e cereja, avultavam seis pannos chinezes, bordados, representando paysagens com figuras finamente desenhadas e admiravelmente coloridas.
Viam-se por todos os lados tapetes, da Persia do mais raro bom gosto.
Nem um só objecto que compunha a mobilia do rez do chão era de mediano valor.
Mas, mais do que riqueza, impunha-se a elegancia e o fino gosto de quem presidira á decoração das casas.
O estofador encarregára-se d'enviar da praça da Magdalena tudo o que respeitasse a cosinha.
D'esta fórma apenas d'um creado necessitariam.
Jacintha estava naturalmente indicada para esse serviço.
Laura e Antonino podiam contar com a dedicação e a discrição da creada.
Ella bastaria para servir á meza e para vestir a cantora.
O visconde mandou mobilar para Jacintha o outro quarto da casa.
Como a ornamentação não destoasse da restante, Jacintha, satisfeitissima, declarou que nunca tivera quarto mais bello.
Com um simples toque de campainha, ella estaria em tres segundos junto de Laura, quando os seus serviços fossem necessarios.
A nova casa foi inaugurada á hora prefixa, precisamente oito dias depois da representação dos _Huguenottes_.
N'essa noite a Linda cantava o _Roberto o Diabo_.
Antonino levou-a, com Jacintha, logo que o espectaculo terminou, encantado,--tanto como ella, de resto,--da sua nova felicidade conjugal.
Combinaram, como regra geral, mas sem prejuiso de quaesquer outras noites, que elles partiriam para o _ninho_ em seguida a cada representação, quando Laura estivesse ainda vibrante da emoção que lhe causassem os applausos, e duplamente palpitante da vida do papel que desempenhára e da vida propria.
Antonino assignára um _fauteuil_ d'orchestra junto á scena.
Como d'antes, applaudia pouco a Linda, não juntava as suas ás acclamações que a chamavam nos finaes d'acto.
Mas como d'antes, mais do que d'antes talvez, saboreava em silencio o extasi em que o mergulhava a voz da mulher adorada.
Ella, pelo seu lado, não lhe sorria, não o olhava.
Mas sabia que o visconde estava proximo, conhecia a cadeira em que elle se sentava, e como era para Antonino que cantava, jámais cantara melhor.
O visconde nunca mais sentiu ciumes de Lauretto Mina, ou de quem quer que fosse.
Ambos se consideravam felicissimos por aquella encantadora vida, alegre como a phantasia, doce como o habito.
O creado d'Antonino, de cada vez que o visconde não dormia em casa, dizia que elle ficava em casa de Linda.
Os creados da cantora sempre que ella só de manhã voltava para casa, pensavam que Laura tivesse passado a noite em casa do visconde.
Geralmente Antonino voltava para o _boulevard_ Haussmann ao amanhecer.
Laura, porém, só deixava o ninho a hora adiantada da manhã.
Sahiam e entravam sempre pela porta que abria para a rua.
O porteiro, que tinha o seu cubiculo no vestibulo do predio, nunca vira a Linda.
De dia os dois esposos viam-se officialmente.
Passeavam de dia no Bosque, de carruagem, e á noite partiam juntos para o theatro.
Antonino, uns dias por outros, mandava presentes a Laura: flores ou joias.
De tarde visitava-a, invariavelmente á mesma hora, e jantava com a esposa muitas vezes.
Sempre, porém, que Laura não estava só, elle retirava-se conjuntamente com as outras visitas, d'ordinario o dr. Despujolles, ou raros outros amigos.
Laura recebia menos admiradores na casa da rua Boudreau, do que d'antes na rua de Bolonha.
Reatára apenas relações com tres ou quatro admiradores mais intimos, e que o eram tambem do visconde.
Todos elles tinham estado, n'outro tempo, mais ou menos apaixonados pela Linda.
Mas como eram homens bem educados, e de mais a mais amigos d'Antonino, que consideravam o amante official de Laura, não faziam a côrte á diva.
Apenas não tinham perdido completamente a coragem.
Pensavam que mais cedo ou mais tarde conseguiriam os seus fins, e esperavam com paciencia digna de melhor sorte.
Lauretto Mina, mais indelicado que elles, não guardava a mesma reserva nem possuia identica paciencia.
No mundo dos bastidores sabe-se tudo o que respeita a qualquer artista.
O tenor sabia portanto, a situação em que se encontravam Laura e o visconde, e agourava bem d'essa situação.
Um dia disse á Linda, no _foyer_ dos artistas, motejando:
E então, minha querida, tinha ou não razão quando lhe dizia na ilha de Cézambre,--lembra-se?--que o seu casamento não me parecia dos mais serios? Os habitantes de Saint-Malo, que não primam pela finura, parece que viram o demonio quando tiveram conhecimento de semelhante união. De resto, acho que procedeu sensatamente definindo a sua situação. Vale mais ter um amante certo, de que um marido duvidoso.
--Sinto-me satisfeitissima por merecer a sua approvação! respondeu Laura no mesmo tom.
--Por esta fórma, proseguiu Lauretto, todos terão esperanças. Os que estão apaixonados pela sua pessoa,--e eu creio que pelo menos conhece um,--veem agora augmentar infinitamente o numero das probabilidades favoraveis.
--Suppõe isso? Pois eu supponho que o numero de probabilidades não augmenta nem diminue pelo facto do sr. de Bizeux ser meu marido ou meu amante. O que influirá n'esse numero é que eu ame ou não o sr. de Bizeux.
--Perdão! o caso é diverso! insistiu o tenor.
E accrescentou, dirigindo-se ao baritono, que n'esse momento entrava no _foyer_:
--Não é verdade, Gressier, que amando eu Laura Linda, tenho mais probabilidades de conseguir os meus fins defrontando-me com um amante de que tendo na frente o marido?
--Está enganado, sr. Lauretto Mina, apressou-se Laura a responder sem dar tempo a que o baritono fallasse. Não é porque eu ame um outro homem que não o amaria ao sr. Posso não amar ninguem, que nem por isso lhe pertencera o meu amor.
E voltando as costas ao tenor, sahiu.
--Ah! ah! decididamente não avanças um passo, meu caro! disse Gressier, rindo.
--Engano! respondeu seccamente Lauretto, que empallidecera extraordinariamente. Estou quasi a attingir o meu fim, e em breve te darei provas irrefutaveis do que avanço.
Laura, passado o primeiro momento, arrependeu-se de provocar a irritação do tenor, respondendo-lhe por fórma a feril-o no seu amor proprio.
Agora mais do que nunca ella temia um possivel conflicto entre Antonino e Lauretto.
Lembrava-se incessantemente das palavras, prefurantes como laminas, que o tenor pronunciára uma noite, sentado tranquillamente junto ao fogão do _foyer_.
Fallava-se d'um duello realisado n'aquelle dia, que tinha chamado a attenção de toda a gente.
--Ora adeus! dissera Lauretto. As galerias facilmente se commovem pelos duellos d'agora, que quasi sempre terminam por simples arranhaduras! Por mim, estou resolvido a nunca provocar ninguem, e, mesmo quando provocado, a só me bater se o insulto recebido fôr d'ordem a não acceitar desculpas, porque eu, infelizmente, não arranho nem firo, mato.
Era por essa razão que Laura deligenciava não sentir-se offendida pelas impertinencias que o tenor lhe dirigia por vezes.
Fingia não as comprehender, e até não as ouvir.
Ella era tão feliz!...
E aquella felicidade que gosava, prolongou-se por tres mezes, sem uma só nuvem que a escurecel-a.