O Romance d'uma cantora

Part 11

Chapter 113,797 wordsPublic domain

--Muito bem! Empregarás todas as diligencias para que me tolerem, não é verdade? Não, não, obrigada. Despreso esse obsequio, que se assemelha a dó. Deixo-te n'ella; fica, fica n'essa sociedade em que eu era uma estranha, em que eu não passava de pária!

Laura fallava com vehemencia, exaltada pela colera e pelo desgosto.

Antonino respondeu passados alguns instantes de silencio:

--Estás como eu, Laura, sob a impressão do incidente que ambos lamentamos. Como ha pouco te preveni, nada podemos dizer agora sobre esse assumpto, que não augmente o mal estar que sentimos. Vou deixar-te. Ámanhã estarás mais socegada. Até ámanhã...

Pegou-lhe na mão, que ella lhe abandonou, inerte e fria, e repetiu:

--Até ámanhã.

Laura respondeu a meia voz:

--Pois sim... deixa-me. Até ámanhã.

Antonino olhou-a, ancioso.

Depois deu tres passos para a porta, e parou, como sentindo desejo de voltar.

Por fim sahiu do quarto, fazendo um gesto de desanimado.

Logo que o visconde fechou a porta e ella sentiu apenas o ruido de passos, que se affastavam, Laura, que até então se reprimira, rompeu em soluços.

Chorou muito tempo.

As lagrimas faziam-lhe diminuir a angustia que sentia.

Passado algum tempo, um pouco socegada, ora passeiando pelo quarto, ora encostada a uma mesa, ella reflectiu na sua situação.

Tomado um partido, abriu uma porta que dava para o escada de serviço, e, pegando n'uma vela, subiu ao quarto de Jacintha.

O quarto estava vasio!

Jacintha nem mesmo abrira a roupa da cama.

Laura, ante este contratempo, ficou indecisa por momentos.

Depois, fazendo um gesto de resolução, desceu ao seu quarto novamente.

Davam quatro horas n'um relogio da casa.

Vestiu apressadamente uma _toilette_ de viagem.

Logo que terminou, sentou-se á mesa, e escreveu a seguinte carta, precipitadamente:

_Antonino_

Reclamo de ti a palavra dada.

Volto para o theatro.

Parto sem te ver.

Temi a tua resistencia e a minha fraqueza.

Evito assim, a ambos nós o desgosto da despedida.

A vida, no seio d'uma familia que me repelle e d'uma sociedade que me despresa, era para mim impossivel.

Aqui te deixo as ultimas palavras que o meu coração te envia:

Amo-te, Antonino, amo-te muito! Não posso continuar vivendo comtigo uma vida que me incommodaria, mas espero e peço-te que me dês a felicidade de viver commigo a minha vida passada.

Sou e serei sempre tua

_Laura._

XXI

A fuga

Laura perguntou a si mesma se fazia bem abandonando á sua sorte essa louca inconsciente, Jacintha.

Pensou:

--Devo deixar aqui toda a especie d'affeição?

Lembrou-se da dedicação cega que Jacintha tinha por ella, dedicação que a levaria a lançar-se ao mar, quando soubesse que Laura a tinha deixado.

Depois de reflectir, resolveu-se.

Escreveu em meia folha de papel algumas palavras a Jacintha, e foi ao quarto da creada collocar o papel sobre uma mesa.

Recommendava-lhe que de manhã tomasse, o mais occultamente que lhe fosse possivel, o comboio de Paris, que partia ás oito e meia.

Logo que chegasse á capital, procural-a-hia no Grande Hotel, designando-a por _madame_ Linda.

A Marieta, a outra creada, recommendava Laura que lhe enviasse, para o Grande Hotel tambem, os vestidos e de mais roupas do seu uso.

Ao escrever estas recommendações, Laura pensava:

--Por esta fórma saberá Antonino onde encontrar-me.

Isto feito, metteu n'uma pequena mala o dinheiro que possuia, joias, cartas, alguns objectos insignificantes,--pura recordação,--e outros essenciaes.

Depois olhou tristemente, correndo-lhe as lagrimas pelas faces, para aquelle quarto, onde, apesar de tudo, passara horas tão felizes.

Foi appoiar a fronte, que abrasava, ao vidro frio da janella.

Uma claridade, baça ainda, envolvia a cidade e estendia-se sobre as aguas da bahia.

As ondas tomavam reflexos cinzentos.

Os pharoes distantes picavam de pontos avermelhados a meia obscuridade, e desappareciam pouco a pouco na claridade livida, em que as ultimas estrellas se perdiam.

Os pombos voavam dos beiraes para as ruas.

No azul pardacento do ceu destacavam-se as velas dos barcos, que manchavam a côr d'ardosia do mar.

Laura saccudiu bruscamente a cabeça.

Parecia querer, com aquelle movimento, afugentar os pensamentos que a torturavam.

Retirou de sobre a mesa tudo o que n'ella havia, para que a sua carta para Antonino ficasse bem em evidencia.

Poz um chapeu de côr escura, um veu espesso, e embrulhou-se n'uma capa cinzenta.

A escada de serviço, que subia até ao quarto de Jacintha, descia para a rua, do lado da casa opposto ao mar.

A porta estava sempre fechada por um ferrolho interior.

Laura abriu a porta do seu quarto com toda a precaução, caminhando na ponta dos pés, para abafar o ruido dos passos, porque o quarto d'Antonino, separado do d'ella apenas por um corredor, tinha tambem uma porta para aquella escada.

No patamar parou por um minuto.

O coração batia-lhe apressadamente. Escutou.

Antonino não estava deitado.

Laura ouvia o ruido dos passos d'elle.

Passeiava vagarosamente.

A Linda esteve quasi a entrar no quarto do marido, lançando-se-lhe nos braços.

Resistiu á tentação.

Enviou-lhe apenas, com as pontas dos dedos, um beijo silencioso, e principiou a descer lentamente, sem fazer o menor ruido.

Um dos degraus gemeu sob o peso.

Teve medo.

Com um movimento ligeiro saltou os tres ultimos degraus, cahindo sobre o tapete que havia ao fim da escada.

Levantou-se, abriu cautellosamente o ferrolho, descerrou a porta e sahiu para a rua.

O ar frio da madrugada fez-lhe bem.

Dirigiu-se para o caes, atravessando as ruas estreitas e tortuosas da velha cidade.

Um relogio dava cinco horas n'uma torre proxima.

Os carpinteiros, os pintores e os calafates, caminhavam em grupos, dirigindo-se ao trabalho.

As mulheres das hortas proximas, sentadas sobre os burros carregados de legumes e hortaliças, chegavam do campo, em cavalgadas alegres, rindo alto, e dirigindo, umas ás outras, os velhos motejos gaulezes, para attrahirem a attenção dos homens que encontravam.

Laura percebeu que todas aquellas mulheres a olhavam curiosamente, e ouviu, ao passar, os seus commentarios licenciosos.

Quando chegou á _gare_ era dia.

O comboio expresso da manhã partia ás cinco e meia.

Tomou um compartimento completo, e foi sentar-se para a sala d'espera, pensativamente.

Estava como que alheiada do que se passava em volta d'ella, quando o silvo da locomotiva a chamou á realidade.

Faltavam apenas cinco minutos para a partida do comboio. Entrou apressadamente na _gare_.

De repente estremeceu.

A primeira pessoa que viu foi Lauretto Mina, fumando no seu charuto.

Ao vel-a, o tenor dirigiu-se a Laura e disse-lhe, um pouco admirado:

--Parte para Paris, Linda?

--Parto, respondeu ella, continuando a caminhar para a sua carruagem.

Mas logo em seguida perguntou:

--Remissy não parte agora?

--Não, respondeu o tenor caminhando ao lado da sua interlocutora. Está muito fatigado. Deve seguir no comboio do meio dia. Eu parto, porque necessito fallar esta noite com o director da Opera, sem falta. Quer que lhe falle de si, ou, como não podia dizer em Saint-Malo que a senhora era a Linda, ser-me-ha interdicto dizer em Paris que a Linda é a viscondessa de Bizeux?

--Proceda como entender...

Chegou ao compartimento que tomára.

Ao abrir a portinhola, o tenor disse-lhe:

--Mas diga-me, _cara mia_...

--Senhor, respondeu Laura com dignidade, já nos cumprimentámos. Como vê, estou só e o senhor é um homem sufficientemente bem educado para não me acompanhar por mais tempo.

E subiu lestamente para a carruagem.

Lauretto cumprimentou-a, mordendo os labios.

Deitou fóra o charuto e tomou logar n'outra carruagem, murmurando por entre dentes:

--Tu me pagarás, vibora!

Quando o comboio estava proximo da estação de Dol, o tenor escreveu algumas palavras a lapis n'uma folha da carteira, rasgou essa folha, e, logo que o comboio parou na estação, apeiou-se, chamou um empregado a quem entregou o papel e uma moeda de cinco francos, dizendo apenas:

--Para o telegrapho.

O telegramma era concebido da seguinte fórma:

_Visconde de Bizeux.--Saint-Malo._

Vi no expresso de Paris a Linda e Lauretto Mina.

_Um amigo._

Antonino, estendido sobre o divan do quarto, dormia um somno pesado, respirando a custo.

Um pouco antes das nove horas, o criado entrou, apesar do visconde não ter chamado.

Antonino acordou ao ruido feito pela porta ao abrir-se. O criado disse:

--Perdão; o sr. visconde não chamou, mas como este telegramma chegou ha mais de uma hora, pareceu-me conveniente trazer-lh'o.

O marido de Laura esfregou os olhos injectados de sangue, e abriu o telegramma.

Leu e soltou um grito estridente.

Depois, cambaleando como um ebrio, abriu a porta que dava para o corredor de communicação que percorreu, entrando no quarto de sua mulher.

O leito estava intacto.

Sobre a mesa viu a carta que Laura deixára.

Pegou-lhe, quiz abril-a, mas o papel cahiu-lhe das mãos tremulas.

Agitou os braços no espaço, e cahiu como uma massa inerte, fulminado por uma congestão cerebral.

XXII

Uma representação dos «Huguenottes»

O cartaz da Opera annunciava para aquella noite os _Huguenottes_, cantando a Linda a parte de Valentina.

Lauretto Mina desempenhava o papel de Raul, em substituição do primeiro tenor, que adoecera.

Pelas seis horas e meia da tarde, Antonino de Bizeux, um pouco pallido e magro, apoiando-se á bengala, entrava n'uma das agencias theatraes então recentemente abertas nos _boulevards_, e comprava um _fauteuil_ d'orchestra, que pagou por trinta francos, ou fosse o dobro do preço da casa.

Tinham-se passado tres mezes menos alguns dias, desde que Laura abandonara a casa do caes de Saint-Malo, e durante todo esse tempo, a Linda só tivera noticias indirectas e incertas de seu marido.

Cinco dias depois de chegar a Paris recebera,--_enviados por Marieta Dauvin_,--seis grandes volumes contendo, não só os vestidos e demais roupa do seu uso, como tambem os moveis que guarneciam o seu quarto, e que provinham, quasi todos, da sua antiga casa da rua de Bolonha.

Nem uma carta, nem uma só palavra, acompanhava a remessa. Laura sentiu profunda anciedade.

O que significava aquelle silencio?

N'um primeiro movimento de inergia resolvera quebrar a cadeia que a prendia e que achava pesada, e fizera-o immediatamente, sem hesitar, sem reflectir.

Agora estava livre.

Todavia, essa liberdade, inquietava-a e consternava-a.

Em Saint-Malo tinha saudades da sua querida arte, em Paris recordava-se, saudosa, do seu amor.

O director da Opera, prevenido por Lauretto da volta da Linda, pedira-lhe uma entrevista.

Laura respondeu-lhe que esperasse por alguns dias.

Addiava, por instincto, a sua conversação com o emprezario, que de certo a queria contractar.

Lia todas as manhãs o _Correio de Saint-Malo_, que mandava comprar á agencia Havas.

Se qualquer facto se passasse em casa do conde de Bizeux,--uma partida, um accidente imprevisto--encontraria a noticia n'aquella folha local.

Mas nada se passava, com certeza, porque o nome de Bizeux, que ella procurava todos os dias com o olhar, avidamente, nem uma só vez foi mencionado pelo jornal.

A quem devia dirigir-se? A quem escrever?

Na Bretanha vivera sempre retirada, pensando apenas em Antonino.

Essa circumstancia fez com que não se relacionasse intimamente com pessoa alguma.

Ao cabo de dez dias não poude conter-se, e escreveu ao proprio Antonino.

Entre outras coisas dizia-lhe o seguinte:

«Porque guardas silencio? Não recebeste a carta que te deixei? Não comprehendeste, por ventura, o grito d'amor com que a terminei? Responde, peço-te! Responde, ainda que seja colerica ou desdenhosamente.»

Depois supplicava ao marido que só escrevesse uma palavra, uma só, que podesse allivial-a da terrivel angustia em que vivia.

Dois dias depois recebeu uma carta com o carimbo do correio de Saint-Malo.

Rasgou o sobrescripto e procurou a assignatura.

A carta era do conde de Bizeux.

Escrevia o pae d'Antonino:

Minha senhora:

Não é o filho que lhe responde, é o pae, é o chefe da familia que a senhora abandonou tão bruscamente, tão cruelmente, e na qual deixou a desolação e o lucto.

Esse chefe de familia não lhe dirigirá, comtudo, a mais leve censura, nem em seu nome, nem em nome do filho.

Desejou ser livre _para voltar para o theatro_. Satisfez o seu desejo, está livre.

Nós desejamos, apenas, ter a liberdade de soffrer em silencio, sem que nos importune quem quer que seja.

Só lhe pedimos uma coisa: é que nos deixe esquecer, e esqueça o passado.

_Augusto, conde de Bizeux._

Laura offendeu-se pela frieza e rispidez que d'aquella carta transparecia.

Nem Antonino se dera ao incommodo de lhe responder!

Era o pae que intimava á fugitiva aquella especie de sentença, com ares de juiz justiceiro!

O que houvera no seu procedimento de tão reprehensivel e criminoso que justificasse uma tal attitude?

Se ella na realidade fosse uma mulher culpada, se tivesse trahido e deshonrado seu marido, d'accordo que a tratassem por aquella fórma!

Teria provocado a colera de toda a familia d'Antonino, e até o despreso geral, se assim fosse.

Mas a verdade era que o seu procedimento, uma vez que estava dentro das leis estabelecidas, não podia ser julgado com tanta severidade por seu sogro ou por seu marido.

A injustiça, elevada ao excesso d'injuria, revoltou o espirito nobre e altivo de Laura.

A sua consciencia e o seu coração diziam-lhe que não merecia ser tratada de semelhante modo.

Resolveu, pois, por muito que a penalisasse uma tal abstenção, guardar o mais completo silencio, para que a sua dignidade não soffresse a menor quebra.

Foi então, e só então, que marcou o dia para a entrevista que o director da Opera solicitára.

O emprezario queria escriptural-a.

Laura recusou em absoluto um contracto de longa duração, apezar das magnificas condições que lhe offereciam.

Não desejava prender-se por muito tempo, e por isso só acceitou o contracto por um limitado numero de representações.

O director da Opera, apesar d'uma escriptura n'aquellas condições ir alterar o seu plano d'exploração theatral, curvou-se á imposição de Laura, e acceitou.

A Linda arrendou então, na rua Boudreau, a dois passos da Opera, um rez do chão modesto, que mobilou com simplicidade e bom gosto, aproveitando os moveis que lhe tinham enviado de Saint-Malo.

Além de Jacintha, tomou, para a servirem, um creado, homem de cincoenta annos, casado; a mulher do creado, velha tambem, passou a desempenhar as funcções de cosinheira.

Tres dias depois de receber a carta do conde estava installada na sua nova casa, satisfeita, na sua dôr e no seu isolamento, de sentir-se, pelo menos, senhora absoluta das suas acções.

Ostensivamente parecia alegre, mas intimamente o desgosto minava-a.

Não lhe teria produzido tão doloroso effeito a carta do conde, se soubesse em que circumstancias o velho fidalgo a escrevera.

Oito dias depois da congestão o ter prostrado, ainda Antonino não percebia o estado em que se achava.

A doença aggravara-se dia a dia.

Nem um só dos muitos medicos chamados deixou d'opinar que elle estava condemnado.

A robustez da sua constituição fazia augmentar a violencia da doença

D'hora para hora, de minuto para minuto, o pobre pae suppunha que ia perder o filho unico, a quem tanto amava.

Foi n'este paroxismo de magua paterna que chegou a carta dirigida por Laura a Antonino.

O conde, para estar ao facto do que succedera, tinha aberto a carta que a nora deixára em casa, á partida.

Abriu, portanto, a que chegou de Paris, pela mesma razão.

D'aquellas duas cartas transpirava um affecto immenso.

Mas quem garantia ao fidalgo que Laura não mentia?

Lera tambem o telegramma de Lauretto Mina, que fôra como que um punhal a enterrar-se no coração d'Antonino.

Seu filho acreditára no que dizia o telegramma.

Que razão tinha o conde para não acreditar tambem?

Mas, culpada ou não, Laura era a causadora unica da morte do seu filho. O conde não era juiz, era pae.

Escrevera sem medir o alcance das palavras, respondera o que a sua indignação lhe inspirára.

Laura matava-lhe o filho; não podia deixar de detestar, d'amaldiçoar essa mulher.

A crise, que para todos era agonia, prolongou-se ainda por mais duas semanas.

Durante todo esse tempo Antonino não reconheceu pessoa alguma.

O delirio não o abandonára um só instante.

Mas a prolongação da doença passou a significar esperança.

Ao vigessimo quinto dia os medicos disseram:

--É possivel salvar-se.

Quinze dias depois accrescentaram, emfim:

--Está salvo!

Effectivamente Antonino pareceu ter, n'esse dia, alguma consciencia de si mesmo. Apertou ao de leve a mão da irmã, que estava sentada junto ao leito.

Depois, olhando em torno ao quarto, murmurou com voz enfraquecida:

--Laura?...

Felizmente o pensamento era ainda vago e fraco.

Em seguida áquelle esforço, Antonino recahiu de novo n'uma somnolencia pesada, que era a sua salvação.

A natureza, essa maravilhosa enfermeira, só lhe fez recuperar completamente a razão, quando o doente estava em estado de já poder supportar a verdade.

Recordou-se de tudo.

Laura, a sua Laura, que nos accessos febris nem um momento deixava de chamar, não estava alli, abandonára-o.

Porque?

Quando?

Ah! sim, recordava-se... fôra uma manhã...

Mas ella fugira só?

Accudiu-lhe á memoria o fatal telegramma...

Mas ao mesmo tempo lembrou-se d'uma carta,--d'uma carta d'ella!--que não tivera tempo d'abrir.

Interrogou seu pae.

O conde entregou-lhe então as duas cartas de Laura, cuja leitura só podia fazer bem ao doente.

E com efeito assim foi.

Antonino poude chorar.

O correr das lagrimas diminuiu a profundeza do desgosto.

--Ah! meu pae! disse elle, Laura continua amando-me. Chama-me, espera-me! Nunca deixára d'amar-me! E ha já dois mezes que ella me espera? Mas como poude Laura estar tanto tempo longe de mim, sabendo-me perigosamente enfermo? Ou ella ignora que eu estou doente? Não lhe deram noticias minhas?

O conde teve de confessar-lhe que, n'um instante de desvairamento em que lhe parecia inevitavel a morte do filho, escrevera a Laura aquella carta implacavel que lhe interdizia qualquer pergunta, e lhe assegurava que jámais teria noticias de seu marido.

De resto, o conde declarou que n'aquella resposta influira tambem o ter acreditado no que dizia o telegramma desconfiando, por isso, que Laura mentia nas duas cartas. Ao ouvir a explicação do conde, Antonino respondeu:

--Não, não!... Foi o telegramma que mentiu! Laura diz a verdade, porque declara continuar amando-me! Ah! meu pae!... não a conhece! Ella possue o mais sincero e leal coração que é possivel imaginar-se! Tenho a certeza que Laura não sente despreso por esse Lauretto Mina, sente tambem horror!

O conde de Bizeux, apesar de não estar convencido, não quiz contrariar o filho, temendo que de tal contrariedade resultasse aggravamento da doença.

Antonino desejou escrever immediatamente a Laura, perdoando-lhe, chamando-a para junto d'elle sem detença.

O medico, porém, impedia-o de realisar a intenção, declarando-lhe que ainda não tinha forças sufficientes para escrever, e que, fazendo-o, arriscava-se a peorar.

Como não o deixassem satisfazer aquelle desejo, o visconde, reflectindo, resolveu não escrever a Laura dias depois, quando o medico entendesse que o podia fazer.

Logo que estivesse restabelecido partiria para Paris, correria em procura de Laura, fazendo-lhe assim mais surpreza.

Por essa occasião os jornaes da capital noticiaram as representações de Linda na Opera.

Ao ter conhecimento d'esse facto, Antonino disse ao conde:

--Não a incommodemos. Deixemol-a satisfazer o seu desejo, realisar o seu sonho doirado. Voltará depois mais socegada.

O conde, depois de ter perdido completamente as esperanças de que os medicos salvassem Antonino, ao ter a certeza de que o filho não morreria, estava louco de satisfação.

Cria em tudo que o visconde acreditava, e, como elle, tinha confiança no futuro.

De resto, em consciencia, elle censurava-se pela fórma porque procedera com Laura, respondendo desabridamente á carta que ella dirigira a Antonino.

Fôra injusto, fôra cruel até, e desejava por isso tornar a vel-a para nobremente lhe pedir perdão.

Comtudo, occasiões houve em que se inquietou.

Nas noticias dadas pelos jornaes sobre os espectaculos em que Laura tomava parte, viu, por vezes, o nome de Lauretto Mina ao lado do nome da Linda.

Entretanto cohibiu-se d'apontar o facto a Antonino.

Foi o proprio visconde que um dia lhe fallou nisso.

Com essa intuição que é como a segunda vista do amor, tinha a convicção absoluta que esse homem, esse Lauretto insolente, nada era, nada podia ser para Laura.

Não lhe restava a maior duvida.

Elle, tão concentrado e tão ciumento, como todos os que amam verdadeiramente, sentia que era amado por Laura, que ella não podia amar outro homem.

Lembrou-se dos ultimos dias que tinham passado juntos, das ultimas caricias trocadas, d'algumas injustiças que Laura lhe censurára, e percebia, interrogando o seu coração, que ella seria sempre d'elle, só d'elle.

E tinha razão, porque não só a Linda não amava o tenor, como até o despresava.

Não se limitava a detestal-o, fazia-lh'o sentir.

Laura suspeitava vagamente que Lauretto Mina influira de qualquer fórma no que ella chamava ter sido abandonada por Antonino.

Na noite do concerto o tenor não estava longe de Remissy, podia ter avisado o violinista de que a Linda não desejava ser reconhecida, e Laura lembrava-se tambem do sorriso mau, vingativo, que entre-abria os labios de Lauretto, quando, no dia da fuga, a cumprimentara em silencio, pouco antes do comboio se pôr em marcha.

De tudo isto concluia a cantora que o tenor praticara qualquer indignidade, o que, de resto, lhe estava nos habitos.

Todavia a fatuidade de Lauretto não lhe fazia perder as esperanças, e quando viu Laura no theatro, pela primeira vez, tentou ainda, empregando meios quasi respeitosos e reservados, fazer-lhe a côrte.

Não amava a Linda, apenas a desejava com violencia, como nunca desejara qualquer outra mulher, segundo affiançava. D'uma vez exprimiu-lhe o seu amor n'um tom serio que não lhe era habitual.

--Vejo-a, disse-lhe elle, isolada e como abandonada, Laura. Aquelle a quem em Saint-Malo chamava seu marido parece despresal-a. Se necessitar d'um amigo, deveras devotado, que com alegria se fará matar pela minha amiga, bastar-lhe-ha fazer um gesto a este seu collega e respeitoso admirador.

A prudencia ordenava que Laura recusasse o offerecimento do tenor com uma certa brandura, sem o irritar, sem o ferir.

Mas a repugnancia que sentia por Lauretto foi mais forte do que a prudencia com que estava resolvida a responder.

Portanto deixou transparecer nas suas palavras todo o despreso que sentia por elle.

Desde esse dia Lauretto juntou ao seu amor um odio sem limites, e tornou-se inimigo de Laura.

--Ah! ella despresa-me? dizia elle comsigo. Pois bem, juro que será minha!

Companheiros antigos, que com Lauretto tinham passado do theatro Italiano para a Opera, recordaram-lhe, rindo, o que em tempo dissera:

--Não serei o primeiro, mas juro que serei o segundo!

Motejavam d'elle, diziam-lhe que não poderia cumprir o juramento feito, porque, decididamente, a fórma pela qual a diva o tratava, os seus cumprimentos frios, despresadores, não lhe deviam deixar esperança de ser bem succedido.

--Veremos, veremos! respondia Lauretto aos companheiros mordendo os labios com raiva contrahida. Quem espera, sempre alcança. O visconde está ausente, portanto não tenho que temer o rival. Aposto o que quizerem em como poderão verificar qualquer dia... ou qualquer noite, a predicção do nosso antigo emprezario, Pozzoli, que dizia:--A Linda será d'elle!

O odiento adorador da Linda estava n'estas disposições ameaçadoras na occasião em que Antonino chegou a Paris.

O conde de Bizeux manifestara desejos d'acompanhar o filho á capital, em primeiro logar para não se separar d'elle, e depois para velar por Antonino, porque o visconde estava ainda convalescente da terrivel doença que o ia matando.

Mas Antonino tinha a sua idéa.