Part 10
O arcebispo de Rennes dissera a toda a gente que a admiravel voz que iam ouvir não a possuiam muitas cantoras de profissão, que o talento de Laura era inegualavel, despertando assim a geral curiosidade. Se, depois disto, fossem riscar do programma o nome de Laura era collocar pessimamente o conde que, como vice-presidente da commissão promotora do espectaculo, como que offenderia as numerosas pessoas que tinham ido a Saint-Malo para ouvir a viscondessa.
Ora Antonino de certo não quereria que o pae fizesse má figura.
Ante estas razões apresentadas pelo conde, era impossivel a insistencia.
Portanto Antonino disse:
--Pois bem, Laura cantará!
XIX
O escandalo
Antonino, ainda que excessivamente fatigado, teve, n'essa noite, um somno febril, cortado de sonhos sinistros.
Laura não poude conciliar o somno, tão profunda sensação lhe tinham causado as scenas d'aquelle dia.
De manhã teve nova emoção.
Ao ler o programma completo do concerto, encontrou inesperadamente, o nome de Remissy.
O que significava aquelle caso?
Porque não a tinham prevenido?
Estaria Remissy em Saint-Malo?
Na vespera não o vira e nada lhe constára!
Uma carta de Lauretto Mina respondeu a todas as perguntas que a viscondessa a si propria fez.
O tenor dizia o seguinte:
_Senhora viscondessa_
Não tive tempo de a prevenir hontem de que o nosso amigo Remissy tomava parte no concerto d'hoje. Não sei se ficará satisfeita ou contrariada com esta noticia. Se ha falta, confesso-me unicamente culpado d'ella. Fui eu quem, satisfeitissimo por encontral-a, participei o caso a Remissy, contratado em Vichy por uma quinzena, accrescentando se, elle tambem não queria vir commigo a Saint-Malo, tornar a vel-a commigo, e juntar, mais uma vez, n'este concerto de beneficencia, o nome d'elle, como o meu, ao nome da sr.ª viscondessa.
Remissy respondeu-me:
«Ver e ouvir mais uma vez a Linda, _poi morir_. Sim, sim, irei, mas não espere por mim para partir. Conhece a rapidez dos meus habitos ambulantes. Informei-me na estação do caminho de ferro, e soube que ha um comboio que chega a Saint-Malo ás sete e meia da noite. Ver-me-ha entrar na sala do concerto, de casaca e gravata branca, ás nove horas precisas da noite em que elle se efectua. Á cautella, peço-lhe que faça com que o meu nome feche o programma. A _Marselheza_ está interdiria pela censura imperial, e inquietaria os honrados legitimistas locaes. Executarei, pois, a _Marselheza_ hungara, o hymno de Rakoçki.»
Previno-a d'este caso, sr.ª viscondessa, mas peço-lhe que não se inquiete. Hontem, depois de ter tido a honra de a ver, não pude escrever ou telegraphar a Remissy, nem mesmo sabia para onde dirigir-lhe carta ou telegramma. Esperal-o-hei á chegada e instruil-o-hei de fórma que elle saiba que é compromettedora para a sr.ª viscondessa a mais ligeira indiscrição. Remissy é, como eu, excessivamente dedicado á sr.ª viscondessa, e por isso estou certo que elle annuirá ao meu pedido, e procederá de fórma que não a comprometta.
Tenho a honra de me assignar, sr.ª viscondessa,
Seu humilde criado.
«_Lauretto Mina._»
Esta carta fôra escripta pelo tenor calculadamente, para que podesse ser lida pelo visconde.
Laura mostrou-a effectivamente a Antonino.
A leitura da missiva augmentou a inquietação do visconde.
--Um risco mais! disse elle.
E depois de pensar, por instantes, accrescentou:
--Afinal a quantidade pouco importa.
Quem não estava inquieto nem triste era o conde de Bizeux.
Annunciou triumphantemente, ao almoço, que o espectaculo seria magnifico.
A casa fôra completamente passada.
Renderia mais de cincoenta mil francos.
Subtrahidas as despezas ficaria, com certeza, livre, mais do que a quantia necessaria para concluir o hospicio para os marinheiros.
O conde agradeceu effusivamente a Laura o ter consentido em cantar, fazendo-lhe assim a vontade.
Estephania, é claro, não partilhava do enthusiasmo do pae.
--Confesso, opinara ella, que não approvo essas exhibições n'uma senhora nobre e titular, isso só se admitte nas mulheres que fazem vida pelo theatro.
O conde, porém, no cumulo da satisfação, mofava da filha e dos _prejuizos gothicos_ que ella tinha.
Ao meio dia Laura ensaiou-se com a orchestra, rapidamente, como quem está segura do que executa.
Na vespera fizera substituir no programma a aria _O Rei dos Alamos_ por um outro trecho de Schubert, _Margarida_, que exigia mais sentimento, mas que necessitava de menos voz, e que por isso era mais conveniente que a dama d'alta sociedade o executasse.
Era indispensavel não desprezar a mais insignificante circumstancia para que, nem por um momento, os espectadores se esquecessem que quem cantava era a viscondessa de Bizeux.
Pelas oito horas da noite, nas socegadas ruas de Saint-Malo havia um desusado rodar de carruagens.
Apesar da noite ser de luar, o caes fôra illuminado a gaz até á porta do Casino, onde devia realisar-se o espectaculo, logo que anoitecera.
Um pouco antes das nove horas, Laura entrou no salão do Casino pelo braço do conde de Bizeux.
A entrada da viscondessa produziu sensação.
Estava adoravelmente formosa.
Um magnifico colar de saphyras e diamantes fazia-lhe sobresahir a rosada epiderme do collo.
Nos braços, d'uma belleza esculptural, trazia pulseiras semelhantes ao collar.
O louro veneziano dos seus sedosos cabellos sustentava uma borboleta, collocada ao alto, cujo corpo era formado por uma enorme saphira, e cujas azas, salpicadas de diamantes, scintillavam com extraordinario brilho.
Laços de finissima renda, fixos por colchetes de saphyra, alteavam-lhe os microscopicos sapatos de velludo azul.
O visconde de Bizeux seguia o pae e a esposa, dando o braço á irmã, que vestia uma _toilette_ simples, de seda preta, sem enfeites.
Logo que o conde de Bizeux se sentou, foram-lhe entregar um telegramma.
Participavam ao conde que o comboio descarrillára a dois kilometros da estação de La Fresnays.
Não havia desastres pessoaes a lamentar, mas o comboio, forçado a demorar-se por aquella circumstancia, não poderia a chegar a Saint-Malo antes da meia-noite.
Não podiam, pois, contar com Remissy.
A noticia alegrou Antonino e Laura.
O salão do Casino estava repleto, brilhante de _toilettes_ primorosas e caras, e animado pelas meias conversações dos espectadores satisfeitos.
Logo que o concerto começou, fez-se o mais completo silencio.
O espectaculo constava de duas partes.
A primeira abriu pelos córos populares bretões, cantados por homens e mulheres do povo.
Os espectadores, bretões na quasi totalidade, applaudiram com enthusiasmo.
A baroneza de Pontual e Lauretto Mina, obtiveram successo na _Ave Maria_ de Gounod, e n'um outro trecho que cantaram juntos.
Depois do terceiro numero do programma, executado pelo baritono, Laura cantou a aria _Fidelio_.
O desusado sentimento e a adoravel simplicidade com que ella interpretou o trecho musical, produziu em todos os espectadores um enthusiasmo indiscriptivel.
O concerto foi interrompido pelas palmas, bravos e repetidas chamadas á viscondessa.
A esposa dedicada executára a aria, imprimindo-lhe o cunho superior d'uma alma d'_elite_.
Por isso os espectadores se sentiram como que chocados por invisivel pilha.
Antonino, que comprehendera quanto amor significava a execução da aria, a custo retinha as lagrimas.
Nobillet terminou a primeira parte do concerto, tocando uma rapsodia sobre _motivos_ da Bretanha e da Vandêa, que foi coroada de palmas.
O penultimo numero da segunda parte, tão interessante como a primeira, era a marcha hungara executada pelo violinista Remissy.
Quando se chegou a essa altura do programma, o conde de Bizeux levantou-se para prevenir os espectadores de que se dera o descarrillamento, e que, por isso, Remissy não estava presente.
O conde começou dizendo:
--Um descarrillamento entre as estações de...
Mas foi interrompido pelo proprio Remissy em pessoa, que, de violino debaixo do braço, avançou lentamente, e disse:
--O comboio descarrillou, mas por felicidade não se voltou a carruagem em que segui desde a estação de La Fresnays, e portanto eis-me aqui, á hora marcada, ao seu dispor, minhas senhoras e meus senhores.
As palavras de Remissy foram recebidas com uma salva de palmas.
Duas ou tres pessoas que chegavam com o violinista, contaram o que se passára.
Em seguida ao descarrillamento, Remissy, com o violino a tiracollo e o sacco de viagem na mão, mettera-se a caminho para La Fresnays, tranquillamente.
Chegado que foi, alugou uma carruagem, e uma hora depois chegava a Saint-Malo, e entrava no salão do concerto, correcto, impeccavel, de casaca e gravata branca, como se não chegasse d'uma viagem de trezentas leguas.
Logo que o silencio se restabeleceu no salão, Remissy começou a tocar o hymno de Rakoçki.
Como sempre, foi extraordinario d'execução.
As primeiras notas foram ligeiras, simples, mas o _thema_ do hymno foi exposto com firmeza e arte.
Depois, foi-se animando pouco a pouco, levado por subito arrebatamento, como se se sentisse no campo da batalha, ao lado do general Kossuth.
Dir-se-ia que d'elle se apossava um enthusiasmo frenetico, tyrannico.
Em seguida o arco tocava ao de leve nas cordas do violino, e percebia-se o hymno como que tocado ao longe, mysteriosamente.
Era a isso que elle chamava _tocar nas estrellas_.
Mas, singular condão do genio, as notas, apesar de fracas e quasi indistinctas, tinham a mesma expressão e o mesmo encanto.
Parecia ouvir-se e ver-se, a centenas de leguas de distancia, cargas furiosas de cavallaria, e o embate titanico de dois corpos d'exercito.
Remissy, foi escutado com o mais profundo silencio.
Quando terminou, romperam delirantemente os applausos, e todos os espectadores gritaram:
--Bis!... bis!...
Remissy, depois de agradecer a ovação, disse:
--Desculpem-me, mas não repito nunca os trechos que executo. Tocarei qualquer outra coisa. D'esta vez será alegre a musica.
E começou a executar as celebres variações, que compozera sobre o _Carnaval de Veneza_.
Foi com endiabrado estro e rara exuberancia de malicia e de jovialidade, que Remissy resuscitou a eterna e pittoresca festa da praça de S. Marcos.
Sentia-se mover e reviver todos esses alegres e encantadores personagens dos companheiros da _Commedia dell'arte_.
Por vezes, atravez de toda a alegria, resaltando do trecho musical, passava uma nota melancholica e triste como uma saudade ou como um suspiro.
As palmas retiniram novamente.
Laura applaudiu com alegria o grande artista, que fôra amigo de seu pae.
Remissy, habituado a estes triumphos, sorria com bondade e agradecia modestamente.
O ultimo numero do programma, era a _Margarida_, de Schubert, cantado pela viscondessa de Bizeux.
Laura, ao caminhar para o logar onde devia fazer-se ouvir, encontrou Remissy, que se retirava.
O violinista, ao vel-a, disse-lhe com arrebatamento:
--Ah! encontro-a emfim! não a via...
A viscondessa não o deixou terminar.
Apertou-lhe expressivamente a mão, e continuou andando.
Remissy procurou na sala uma cadeira vazia, d'onde podesse ouvir a Linda.
A baroneza de Pontual, que percebeu, levantou-se e indicou-lhe com a mão a cadeira que Laura acabava de deixar.
O violinista approximou-se.
A baroneza disse-lhe então:
--Quererá o sr. Remissy fazer-me a honra de se sentar a meu lado?
Elle inclinou-se diante d'aquella mulher, e sentou-se sem ceremonia, não se dando mesmo ao trabalho de responder.
Lauretto Mina não estava longe.
Podia facilmente approximar-se de Remissy e avisal-o, como promettera, de que a Linda desejava guardar o incognito.
Não se moveu, porém.
--O acaso é contra a Linda? Tanto peor! pensou o tenor. Nada terão a censurar-me por faltar ao compromisso tomado.
A viscondessa de Bizeux, saudada pelos applausos dos espectadores, cumprimentou graciosamente antes de começar.
Remissy, como fallando comsigo mesmo, disse a meia voz, com grande espanto da baroneza:
--Que felicidade! Não a ouvia ha tanto tempo!
Laura pronunciou as primeiras phrases da aria com admiravel pureza e nitida pronuncia, tão desprezadas actualmente, que é raro perceber-se uma só das palavras ditas pelas cantoras.
--Ah! Tem a voz mais volumosa! murmurou Remissy em extasi. Nunca qualquer outra voz me emocionou como a da Linda!
Laura chegou ao crescendo de melodia, para o qual reservava toda a potencia da sua maravilhosa voz, enchendo, por assim dizer, o salão com a mais bella e profunda sonoridade.
Tres salvas de palmas, successivas, acclamaram a cantora.
Os bravos resoavam.
Remissy, enthusiasmado com o successo de Laura, gritava como possesso!
--Bravo, diva!... bravo, Linda!...
Felizmente, a voz do violinista perdeu-se entre o ruido do salão.
Mas a baroneza ouvira perfeitamente o que dissera Remissy.
Augmentava a sua surpreza.
--Que quererá elle dizer? perguntou ella a si propria. Porque comparará a voz da celebre Linda á voz da viscondessa?
Laura proseguia.
Os impulsos da paixão, e os gritos de dôr do final da aria, exprimiu-os e pronunciou-os ella de uma fórma surprehendente.
A sua voz foi simultaneamente tão penetrante e suave, o som tão sentido, a emoção que experimentava manifestava-se-lhe no rosto formoso com tão adoravel expressão, que o auditorio estava como que galvanisado.
Os homens tinham-se levantado das cadeiras como impellidos por mola occulta.
As damas choravam.
Logo que Laura terminou, houve uma verdadeira explosão d'applausos, de bravos, de gritos d'admiração unanime.
Remissy estava fóra de si.
Levantava-se, sentava-se, gritava, chorava.
A baroneza a custo lhe percebia algumas palavras.
--Que artista!... dizia elle. Não tem egual!... É extraordinarissima!...
Quando o ruido dos applausos diminuiu um pouco, Remissy estava como doido.
Dir-se-ia que elle proprio não fôra alvo, pouco antes, de manifestação quasi semelhante.
É que os applausos dispensados ao seu idolo produziam n'elle centuplicado effeito.
Com o rosto innundado de lagrimas, dirigiu-se ao estrado sobre o qual Laura cantára.
A viscondessa retirava-se, agradecendo com venias a ovação que lhe era feita.
Remissy approximou-se d'ella, tomou-lhe as mãos e disse bem alto:
--Ah! minha cara diva, tu és sublime!... Não posso conter-me, minha querida Linda!... Se não te beijar, rebento!
E envolvendo-a nos braços, beijou-a com sofreguidão nas duas faces.
Laura, deixando-se beijar, sorriu com tristeza, e disse baixo ao violinista:
--Não póde calcular o mal que acaba de me fazer, meu caro Remissy!
--Hein! o quê!... Fiz-te mal, eu?... murmurou o violinista estupefacto.
E lançou em volta um olhar admirado.
Era curiosa a mudança operada no auditorio.
Os bravos interrompidos foram substituidos por murmurios hostis.
Evidentemente, os dois grandes artistas, que pouco antes tinham com o seu superior talento emocionado todos os espectadores, incommodavam-os agora.
Aquella scena final, completamente imprevista, chocava o nobre auditorio.
E com gestos largos, todos, mais ou menos, pronunciavam phrases indignadas.
--O que quer isto dizer? O que significa esta extraordinaria familiaridade entre o violinista e a viscondessa?... Elle tratou-a por tu!.. Beijou-a em publico!... _Shocking!..._ É escandaloso!... É ridiculo!...
Por entre o ruido ouviu-se repentinamente a voz da baroneza de Pontual, que gritava, com irreprimivel satisfação:
--A Linda! É a Linda! Tudo se explica! A viscondessa de Bizeux é a Linda!
Ao ouvir aquellas palavras o arcebispo de Rennes sahiu precipitadamente do salão, pelo braço do vigario geral, murmurando a meia voz:
--_Vade retro, Satanaz!_
Estephania, inclinando-se para o conde, disse-lhe ironicamente:
--O que pensa agora dos meus prejuizos gothicos, meu pae?
Entretanto alguns jornalistas e poucos espectadores applaudiam ainda Laura.
O violinista, comprehendendo, vendo tudo, como ao brilho d'um relampago, indignou-se por sua vez, e gritou, para ser ouvido por todos:
--Mas o que significa este espanto? Os nobres, n'esta cidade, serão por acaso burguezes?... Trato-a por tu, é verdade... Mas o que admira, se a Linda é o meu idolo!... Beijo-a?... D'accordo, mas é a _Margarida_ que beijo, selvagens!... Por ventura ignorarão os srs. barões, condes e marquezes presentes que a verdadeira divisa da nobreza é _Honny soit qui mal y pense_?
Antonino approximára-se de sua mulher.
Deitou-lhe sobre os hombros a capa de baile, e dando-lhe o braço disse-lhe:
--Anda, Laura, vem.
Atravessou altivamente o salão, com a mulher pelo braço.
Empallidecera um pouco, mas conservava levantada a cabeça, e frio e sereno o olhar.
Os espectadores abriram alas.
Á medida que avançavam, deixavam de se ouvir as phrases hostis.
Quasi á sahida do salão os applausos resoaram de novo, tão entusiasticos como no fim da aria.
Remissy foi ter com Lauretto Mina, a quem disse:
--Não me preveniu!... Dando a saber que a viscondessa era a nossa querida Linda, pratiquei uma grande tolice!
Mas depois d'um momento de silencio ajuntou:
--Comtudo parece-me que depois reparei a asneira feita.
O tenor respondeu apenas, sarcasticamente:
--Parece-lhe?
XX
Discordia conjugal
Laura e Antonino subiram para a carruagem, que os devia conduzir a casa.
Iam tristes.
Olhavam-se silenciosamente, encostados aos cantos do trem.
O visconde pensava com amargura no escandalo que acabava de dar-se, que tão fóra de proposito rebentára.
Acceitára antecipadamente, com todo o desassombro, o effeito que devia seguir-se, cedo ou tarde, á revelação do nome e do passado da esposa, mas jámais calculara que essa revelação se faria em circumstancias tão estrondosas e desagradaveis.
Apesar do espirito independente que possuia, Antonino conservava comtudo certos prejuizos de raça, de educação, impossiveis de fazer desapparecer por completo.
Ao atravessar na carruagem os caes desertos calculava com tristeza o que se passaria no dia seguinte.
Parecia-lhe estar vendo já o aspecto severo de sua irmã, e até de seu pae, a frieza dos seus amigos, e a circumstancia, mais dolorosa ainda, de sua esposa não continuar a ser recebida pela primeira sociedade de Saint-Malo.
Laura, pelo seu lado, magoada pelo silencio do marido, dizia comsigo que nada tinha de que censurar-se.
Não só não pedira para cantar no concerto, mas até se recusara a tomar parte n'elle, apontando as inconvenientes que d'ahi podiam advir.
Consentira em cantar em publico unicamente para annuir ás reiteradas instancias do marido e do sogro.
Fôra culpa sua que aquelle doido Remissy, com o seu exaltado enthusiasmo, transformasse em escandalo o que não devia passar de triumpho?
Chegaram a casa sem trocar uma só palavra.
Operava-se, de subito, uma verdadeira separação entre aquelles dois seres, que, entretanto, por inexplicavel aberração, continuavam amando-se.
As desigualdades d'educação, e as educações diversas, produzem muitas vezes affeições que a todas as contrariedades e desgostos resistem.
Antonino acompanhou a mulher até ao quarto, e em seguida caminhou para a porta, retirando-se.
--Deixas-me assim? perguntou Laura com voz triste.
Elle indicou-lhe, com um gesto, a creada, que entrava para despir Laura, e respondeu:
--Voltarei d'aqui a pouco.
A viscondessa impoz silencio ás curiosas perguntas que Jacintha lhe fazia sobre o concerto, e disse á creada que se retirasse logo que lhe despiu o vestido que levara para o concerto, substituindo-o por um outro, de trazer por casa.
Depois foi, apesar da humidade da noite, encostrar-se ao parapeito da janella aberta.
Ao longe, o mar, tão tempestuoso na vespera, estava sereno como um lago.
Ouvia-se o regular sussurro da vagas, e o ruido monotono das ondas desfazendo-se na areia da praia.
Nas aguas cahiam com lentidão os remos d'alguns escaleres da alfandega.
No ceu azul, semeado d'estrellas, uma comprida nuvem clara, como longa facha branca, listava o espaço, por baixo da lua impassivel.
Um sino badalou triste, lugubremente.
Aquelle som fez-lhe mal.
Parecia-lhe que dobravam a finados, pela morte de alguem que lhe era caro.
Seria esse morto o seu amor?
Abriu-se a porta do quarto.
Laura voltou-se.
Era Antonino que entrava.
Ao chegar junto da esposa, disse-lhe com voz grave e firme.
--Vim, porque prometti voltar. Mas o que venho fazer aqui? O que poderemos nós dizer sobre a deploravel scena que ha pouco se passou?
--Parece-me, respondeu Laura, que devias consolar-me pelo desgosto que soffri. Como conscienciosamente sabes, eu não tive a menor culpa do que succedeu.
Antonino replicou com amargura:
--E eu muito menos, concorda. Tens, minha querida, amigos bem perigosos e bem ridiculos!
--Não é d'hoje que os conheces. Apresentei-te Remissy nos primeiros dias das nossas relações. Foi a fatalidade que dispoz as coisas. De resto, se era improvavel, não era impossivel que o facto se desse. Ter-se-hia evitado se, como eu desejava, não me obrigassem a cantar no concerto. Pois se eu não tivesse como que uma especie de pressentimento de que se passaria o quer que fosse de desagradavel, insistiria por ventura para não ser incluida no programma? Foi teu pae, e tu proprio, que não annuiram aos meus pedidos. Cedi, porque não podia deixar de o fazer. O enthusiasmo de Remissy desmascarou-me. Se eu tivesse cantado mal não teriamos agora que lamentar-nos. Censurar-me-has, por ventura, por ter cantado bem, fazendo com que me applaudissem? Não devo ser accusada d'esse crime, se o foi, porque não sou responsavel por elle. Lavo d'ahi as minhas mãos.
--A verdade é que não és tu quem mais soffre com tudo isto, respondeu Antonino meio irritado. Que te importa que se saiba que és a Linda? É um nome que tornaste celebre, e que estimas,--sem duvida muito mais,--do que aquelle que actualmente usas. Mas para mim e para a minha familia, esse nome, cahindo bruscamente, sem preparações, sobre o publico, vae servir de maná á malignidade de toda a gente, que nos escarnecerá e diffamará. Seremos repellidos da sociedade que até aqui frequentavamos, passaremos por pessoas que desprezaram a opinião publica, enganando os amigos e os parentes.
--N'uma palavra: deshonrei a tua familia, não é verdade? interrompeu Laura.
--Não digo tanto, mas...
--Na realidade admiro-te! disse a viscondessa irritando-se tambem. Para que quizeste introduzir-me n'essa sociedade que não era a minha, n'essa sociedade em que entrei como que de surpreza, e que, segundo todas as probabilidades, me fechará ámanhã as suas portas? E eu por que accedi aos teus desejos? Sabes porque? Porque te amava! Censurar-me-has tambem por isso? Tens pouca memoria, Antonino; Quem te ouvisse, pensaria que, casando commigo, tu me levantaste da lama, em que eu vivia. Sabes bem que não é assim, sabes bem que eu, casando comtigo, pratiquei um acto d'abnegação, immolando-te e ao amor que por ti sentia, o que até então fôra a minha alegria e a minha vida, a arte, o renome, a gloria! E esse sacrificio do primeiro dia, dura ainda, perpetua-se, persisto n'elle e renovo-o incessantemente. E jámais te dei a perceber quanto elle por vezes me tem sido pesado e cruel, sobretudo depois do nosso regresso a França, depois que vivo n'esta atmosphera de provincia em que respiro a custo, e que sinto diminuir em mim os dotes artisticos que possuia. Pois em vez de tentares fazer-me esquecer esse passado que me é querido, vens, pelas tuas palavras, como que transformal-o n'um crime! É muito! Revolto-me contra o teu procedimento! E visto que me forças, recordar-te-hei que me prometteste solemnemente deixar-me voltar para o theatro, logo que assim o desejasse, voltar para esse passado que te envergonha, mas que é a minha maior gloria!
--Prometti-te tambem, Laura, que o meu amor te recompensaria do sacrificio feito. Deixei de amar-te por ventura? Não te amo agora como te amava d'antes?
--Não, não me amas! Se me amasses como d'antes, não te porias ao lado da sociedade contra mim, collocar-te-ias a meu lado contra a sociedade!
--A sociedade! repetiu Antonino inquieto. Reconciliar-nos-hemos com ella..