O retrato de Venus e estudos de historia litterária
Part 5
Francisco Rossi (il Salviati) n. 1510, m. 1563; é muito estimado pela grande intelligencia de luz; desenhou e coloriu bem; seus quadros se distinguem pelas singulares attitudes das figuras.--Florença e Bolonha.--
Jorge Vasari n. 1511, m. 1574; muito célebre pelas vidas dos pintores, que escreveu: seu desenho é bom, mas sem energia, e seu colorido fraco.--Roma.--
Jacoppino del Ponte n. 1511, m. 1570; as suas maneiras são as de Andrea del Sarto, seu mestre. Foi o melhor retratista da sua eschola.
SECULO XVII
Daniel Bacciarelli de Volterra n. 1579, m. 1625; desenhou bem, e o que lhe deu grande nomeada sobre tudo, foi a sua _descida da cruz_ na igreja _della Trinità del monte_ em Roma.
Ludovico Cigoli n. 1559, m. 1613, pintou d’uma maneira firme e vigorosa; mas coloriu principalmente com o pincel de Corregio.
Francisco Vanni n. 1563, m. 1615. Coloriu muito bem, e desenhou soffrivelmente.
João Manozzi (Giovani di S. Giovani) n. 1590, m. 1636; foi um dos melhores pintores de sua eschola; seus quadros, que mostram muita intelligencia de perspectiva e architectura, se acham em Roma, principalmente no palacio Pitti.
CAPITULO V
Da Eschola de Bolonha
A eschola de Bolonha, ou Lombarda juntou em si quanto póde produzir a perfeição da arte. Talvez (geralmente fallando) nenhuma das outras o conseguiu tanto. O _antigo_ foi o seu modelo; mas sem uma servil e exclusiva imitação; não tratou de formar systema ou, se o formou, foi extrahindo de todos o que achou melhor. As bellezas vivas e sensiveis da natureza, a verdade de expressão, a riqueza da ordem, a pureza dos contornos, a facilidade admiravel de pincel, e sobre tudo o colorido da mesma natureza, verdadeiro e encantador; tudo emfim, quanto offerece a pintura, bello e terno, tudo reuniram os com-alumnos de Corregio.
Auctores ha hi (como Pruneti) que dividem estas duas escholas de Bolonha e Lombardia; porém a geral opinião é a que sigo. Sobre o chefe, ou fundador desta eschola, diversos são tambem os conceitos, querendo uns que seja Francia, outros Mantegna; a questão é de pouca utilidade.
SECULO XVI
Francisco Francia n. 1450, m. 1518. Suas obras são d’um desenho muito assisado, e mui boa côr para o seu tempo. Raphael lhe enviou o seu quadro de _Santa Cecilia_ para que o corrigisse. Diz-se que a inveja e dor de ver tam perfeita obra em um mancebo de tão pouca idade, lhe causara a morte.
Andrea Mantegna n. 1451, m. 1517; seus quadros rarissimos conservam ainda muito brilho, e são de melhor desenho que os de Francia.
Francesco Primaticcio Bolognesse n. 1490, m. 1570: coloriu graciosamente, e desenhou no estylo de Julio Romano. Alguns, como Pruneti, o querem fazer chefe da eschola de França, onde quasi sempre viveu e pintou.
Antonio Allegri (Corregio) n. 1494, m. 1554. Tinha chegado á perfeição da arte, e ignorava o seu merecimento. O _antigo_, Raphael, Vinci, etc., tudo lhe era desconhecido; não sabia senão a natureza. Ouviu gabar muito um quadro de Raphael, observou-o, e conheceu o seu proprio merecimento; soube o que valia, e nem porisso foi mais vaidoso; antes continuou a dar por mui rasteiro preço seus inestimaveis quadros, cujo colorido e frescura de pincel ainda não pôde ser imitado.
Francesco Massuoli (o Parmezão, ou Parmegianino) n. 1504, m. 1540. Maneiras graciosas, colorido fresco e natural, muita facilidade e correcção no desenho o constituiram um dos primeiros pintores da sua rica e fecunda eschola. Os quadros deste mestre são raros e carissimos.
Lucas Cangiagio, ou Cambiagi n. 1527, m. 1583 ou 85. Pintou com muita facilidade, e o que é de admirar, com ambas as mãos ao mesmo tempo. Teve muita verdade e viveza, e tal expressão nas figuras, que parece que fallam:
_Manca il parlar: di vivo altro non chiedi; Ne manca questo ancor, se agli occhi credi._
(TASSO Gerus.)
Os Caraches, Carachas, ou Caraccis, (segundo a nacional e verdadeira orthographia) mais celebres e conhecidos são tres. Luiz Caracci n. 1555, m. 1618; estudou muito os grandes mestres e adquiriu uma maneira nobre e verdadeira, expressão e belleza de colorido. Instituiu uma academia ajudado de Agustinho e Annibal Caracci, seus primos, na qual se formaram Albano, Gruido, Guercino e outros illustres artistas.--Agustinho Caracci desenhou perfeitamente e coloriu bem: dos tres é o menos celebre; n. 1558, m. 1603.--Annibal Caracci n. 1560, m. 1609; foi superior a seu irmão e primo; teve um estylo nobre e sublime, desenho preciso e fero, e colorido muitas vezes admiravel. A galeria _Farnesi_ é de todas as suas obras a mais famosa.
Bernardo Castelli n. 1559, m. 1629; grande amigo de Tasso, a quem retratou, bem como a quasi todos os bons poetas do seu tempo. Foi insigne neste genero: desenhou bem e coloriu melhor.
Guido Renni (o Guido) n. 1575, m. 1624. Costumam distinguir-se tres maneiras differentes neste pintor famoso: a 1.ª forte e assombrada; a 2.ª natural e bella; a 3.ª terna e doce, porem mais fraca. Pintava com a maior facilidade.
SECULO XVII
Francesco Albani (o Albano) n. 1578, m. 1660; deu-se absolutamente aos assumptos galantes e graciosos: seu genio doce e terno o determinou na escolha. O nosso Vieira Portuense o estudou muito e imitou bem.
Domenico Zampierri (Domenichino) n. 1581, m. 1641; observou sempre uma ordem magnifica nos seus quadros, muita nobreza, correcto desenho e verdade de expressão.
Francesco Barbieri da Cento (o Guerchino) n. 1590, m. 1666. Trabalhou com uma facilidade incrivel; e os seus quadros se encontram por toda a parte: teve um desenho fero e expressão nobre; mas o colorido não é igual. Sua 1.ª maneira é escura e fraca; a 2.ª é mais dura e fortemente assombrada; a 3.ª é bella e encantadora, e participa do gôsto de Ticiano e Corregio. Nos fins de sua vida, porem, obrigado da miseria, trabalhou mal e sem gôsto.
Luciano Borzoni n. 1590, m. 1645. Verdade e intelligencia de expressão, e delicioso colorido o fizeram um excellente pintor. Teve dois filhos, que o imitaram, e se distinguiram; sobre tudo Francisco Borzoni nas paizagens e marinhas.
João Francisco Frimaldi n. 1606, m. 1688. Coloriu suavemente e com harmonia; suas paizagens são excellentes.
Benvenuto da Ferrara (o Garofalo) n. 1615, m. 1695; foi muito bom colorista e desenhou bem. As suas cópias de Raphael são muito estimadas.
Beneditto Castiglioni. Sua pureza de desenho frescura de colorido, delicadeza de toque e grande intelligencia de _claro-escuro_ fizeram os seus admiraveis quadros preciosissimos e caros. Nasceu 1616 m. 1670.
Cario Cignani n. 1629, m. 1673. Teve muito boa composição e desenho; mas pouca expressão por causa do _muito-acabado_ dos seus quadros.--Bolonha.--
SECULO XVIII
Thiarini, chamado o _expressivo_, morto pelos annos de 1750: teve muita expressão e um colorido vigoroso: exprimiu bem as paixões.
Izabel Cirani, do mesmo tempo. Estudou com proveito os grandes mestres: adquiriu um gracioso colorido; e, com quanto preferia os assumptos terriveis, executou muito melhor os doces e ternos.
Marcantonio Franceschini (o Francesquino) morto em 1729. Seu colorido é muito engraçado, seu desenho preciso, e sua maneira tem uma bella simplicidade. Os quadros de Francesquino tem muita estimação e valor.--Bolonha.--
Marcos Benefiale n. 1684, m. 1764; foi um dos bons mestres de sua eschola por seu correctissimo desenho, grande energia e expressão, e fecundidade de pincel.--Roma.--
CAPITULO VI
Da Eschola Veneziana
A eschola Veneziana, que reconhece por fundadores os Bellinis, Giorgione e Ticiano, produziu excellentes pintores, que imitaram a natureza com uma fidelidade, que seduz os olhos. Seu colorido é sabio e encantador, seu _claro-escuro_ de muita intelligencia, a imaginação bella, a ordem rica, e os mais galantes e spirituosos toques; em fim, sua maneira é originalmente encantadora, sobre tudo nas formosas e sabias composições de Ticiano e Paulo Veronese. Os grandes mestres desta eschola desprezaram todavia alguma cousa o desenho; tam essencial á boa pintura. Ticiano, e Giorgione elevaram o modo Veneziano a um ponto, que será difficil iguala-los. Nota-se em geral a esta eschola pouco conhecimento do _antigo_, e attitudes.
SECULO XV
Gentil e João Bellini mortos, o primeiro em 1501, o segundo em 1512, e mui velhos. Seus quadros rarissimos mostram ainda um desenho verdadeiro, mas sem ordem: seu maior merecimento é terem sido mestres de Giorgione e Ticiano.
Giorgione de Castel-franco n. 1477, m. 1511. Sciencia de claro-escuro, ordem, colorido e desenho o elevaram em brevissimo tempo (pois viveu só 34 annos) á perfeição.
SECULO XVI
Ticiano Vecelli da Cadore n. 1477, m. 1576. Suas obras espalhadas por toda a Europa fizeram conhecer este mestre, que discorreu uma longa e feliz carreira, vivendo 99 annos; um quasi inteiro e glorioso seculo empregado na mais nobre das artes. Ignorou o _antigo_, e falhou no desenho; mas o colorido de Ticiano, e sua expressão, assim como não tiveram modelo, não terão imitadores.
Gio Antonio Regillo (il Podernone) n. 1484, m. 1540. A belleza de seu colorido, facilidade de desenho e apurado gôsto de invenção o fizeram temer muito de Ticiano. Nada mais é necessario para seu elogio.
Sebastião Piombo n. 1485, m. 1547. O quadro da _resurreição_ de Lasaro, feito para oppor ao da _transfiguração_ de Raphael lhe adquiriu muita fama; e Miguel Angelo, cujo é o desenho do dito quadro, quiz por via d’elle disputar a Raphael o primeiro logar; mas a expressão, e colorido de Piombo não poderam triumphar do incontrastavel merecimento de seu illustre rival.
Giacomo Ponte Bassano n. 1510, m. 1592. Amou os assumptos communs, em que foi grande: seu stylo é verdadeiro, e as suas côres excellentes.
André Sciavone n. 1522, m. 1582: desenhou incorrectamente; porem coloriu tam bem, teve um modo tam facil e engraçado, tam bom gôsto nas roupagens, e tam bellas attitudes, que se lhe não pode negar o titulo de grande pintor.
Giacomo Robusti (il Tintoreto) n. 1524, m. 1594. Uma imaginação vivissima, uma rapidez incomprehensivel e um finissimo gôsto o elevaram á primeira ordem dos mestres. É prodigioso o numero de suas obras.
Paolo Calliari Veronese (Paulo Veronese) n. 1532, m. 1588. Seus quadros farão sempre as delicias dos amadores da arte pela riqueza d’ordem, belleza de caracteres, bom gôsto de roupagens, frescura de colorido e nobre elegancia de figuras.
Giacomo Palma (Palma il Vechio) n. 1540, m. 1588; imitou a natureza sempre bella, e com um _bem-acabado_ sem affectação.
SECULO XVII
Tiago Palma (Giacomo Palma il Giovane) n. 1544, m. 1628. Foi discipulo de Tintoreto, que imitou optimamente.
Carlos Veneziano n. 1585, m. 1625. Seu colorido imita bem Corregio, e suas physionomias engraçadas as de Guido.
Alessandro Veronese dito o _Turchi_, ou _Orberto_ n. 1600, m. 1670; desenhou bem, e coloriu como um Veneziano.
SECULO XVIII
Giam Battista Piazzeta morto no fim do XVIII seculo. Seu colorido é mau, mas o desenho imita muitas vezes, e com verdade, a nobre altivez de Miguel Angelo.
Rosa Alba Carriera n..., m. 1761. Seus retratos e pasteis são conhecidos em toda a Europa; seu principal merecimento é o novo gôsto, e maneira singular, com que trabalhou em miniatura.
CAPITULO VII
Da Eschola Flamenga
A eschola Flamenga é a de Rubens e Wandick; tanto basta para o seu elogio.--Van-Eick, tam conhecido pelo invento da pintura a oleo, foi o seu chefe. Quem amar a nobreza do pincel Romano, a bella arrogancia do Florentino, as graças do _antigo_, as gentilezas Gregas; não será decerto muito apaixonado das producções Flamengas. Os gelos do paiz, o temperamento frio dos habitantes são as causas necessarias e naturaes do pouco fogo que se lhes nota. Mas, em trôco desta falta, que bellezas lhes não achará o amador imparcial e singelo! Ninguem, senão os pintores Flamengos, appresenta em seus quadros um _bem-acabado_, um _completo_, que parece superior á paciencia humana; uma fidelidade original na imitação da natureza, que encanta e admira. O seu defeito todavia é o menos-preço d’aquella generica e fundamental regra das boas-artes: _Imitar a bella natureza_; isto he, _saber extremar n’ella o bello do mediocre_. Nisto falharam de certo, exprimindo-a muitas vezes com a cega punctualidade, e o _verbo ad verbum_ d’um _fidus interpres_; mas este mesmo defeito (permitta-se-me julga-lo assim, com quanto vou contra o commum parecer) dá muitas vezes ás pinturas Flamengas encantos simplices, e singelos, que em nenhumas outras se encontram.
Nesta numerosa eschola se classificam todos os pintores das nações do norte; e se os caracteres, mais que as patrias, devem ser neste ponto os verdadeiros dados, não duvidarei tambem ennumerar n’ella os poucos bons inglezes. Nunca pude gostar da pintura Britannica: um contra-natural, um monotono, um forçado no colorido, um sempiterno gêlo na expressão, que sempre lhe notei, me fizeram olha-la com desprezo, e a não ser o moderno West, (de quem adiante fallarei) de certo os inglezes avultariam bem pouco neste ramo das boas-artes.
SECULO XV
João Van-Eick n. 1370, m. 1441; fundou a sua eschola, e inventou a pintura a oleo. Nada mais se sabe.
Alberto Durero n. 1471, m. 1528. Seu desenho é correcto, sua imaginação viva, sua maneira firme; mas falhou muito nos costumes.
SECULO XVI
João Holbein n. 1498, m. 1554. Sua imaginação é sublime, o colorido vigoroso, e suas figuras tem um ar de relêvo, que engana. Em geral o pintar deste mestre parece mais Lombardo, que Flamengo.
Otam Vaen ou Vaenio n. 1556, m. 1634; formou-se no gôsto Romano, que lhe deu muita correcção de desenho, e belleza de expressão; qualidades, a que ajunctou grande intelligencia de claro-escuro.
Bloemart n. 1567, m. 1647. Um toque expedito e livre, bellas roupagens, muita sciencia de claro-escuro são os caracteres d’este pintor.
Pedro Paulo Rubens n. 1567, m. 1640. Nada será bastante para fazer descer este grande homem do grau illustre de primeiro pintor historico. Não quero, nem devo occupar-me de seus defeitos; releva-me só dizer: que o seu colorido é verdadeiro e brilhante, sua imaginação fertil, seu claro-escuro sabio, todo elle é encantador.--A galleria do Luxembourg é a sua melhor obra: mas um quadro allegorico da guerra (no palacio ducal de Florença) no meu parecer, e no de muitos, não é inferior. Fogo brilhante, nobreza poetica, côr excellente;[22] caracteres interessantes, composição precisa, intelligente distribuição de luz; tudo se juntou neste quadro; e n’um grau de formusura, a que só a allegoria póde remontar. A simples ideia deste painel vale bem uma Iliada, e todos os Klopstocks juntos talvez a não produzissem: «É a _transfiguração_ de Rubens» dizia um philologo meu conhecido, alludindo ao célebre quadro de Raphael. «A vida dos homens sabios é o cathalogo de suas obras» diz um grande litterato[23]. Esta sentença desculpa a minha diffusão.
SECULO XVII
Antonio Wandick n. 1599, m. 1641. Foi discipulo de Rubens, e a maior honra do mestre; verdadeiro e simples na imitação da natureza. O seu genero foi o retrato, em que ninguem o excedeu.
Rembran-Van-Ryn n. 1606, m. 1674; foi grande no _claro-escuro_, na harmonia das côres: na imitação do relêvo. Seus quadros são conhecidos pelo fundo negro.
Vander-Kabel n. 1631, m. 1695; distinguiu-se absolutamente da sua eschola pela imitação dos Caraccis e Salvator Rosa.
Eglone-Vandernér, ou Vandernêér n. 1643, m. 1697. Um colorido vivo, um pincel mimoso lhe fizeram naturalmente procurar os assumptos amorosos, em que foi excellente.
Wanderwerff n. 1659, m. 1722. Seus toques são firmissimos, e seu desenho correcto.
SECULO XVIII
Antonio Raphael Mengs n. 1728, m. 1779. Tem uma verdade de colorido, e uma facilidade de pincel, que distingue as suas obras de quaesquer outras.
Gerardow n..., bem conhecido pelo seu _Hydropico_ que existia no palacio real em Turin, e que Mr. Cochin na sua viagem de Italia não duvída chamar o melhor quadro Flamengo, e assegura ter sido um dos mais estimados do principe Eugenio.[24]
NOTAS DE RODAPÉ:
[22] A muito me affoito, conceituando da belleza de côr d’um quadro, que nunca vi, senão em estampa, e má estampa; mas fio-me na auctoridade de eruditos viajantes. Haverá dous annos que me communicou esta estampa em Lisboa o sabio philologo J. B. S. Dos apontamentos, que então fiz, extrahi esta e outras discripções, que por ahi vão.
[23] Voltaire: _Siècle de Louis XIV_.
[24] Muito há que li estas viagens, assim como as memorias de Mr. l’Abbé Richard; de maneira que agora não poderei asseverar em qual dos dous encontrei Gerardow, e o seu hidropico. Á leitura d’ambos remeto os curiosos.
CAPITULO VIII
Da Eschola Franceza
A eschola Franceza, filha da Romana (segundo Pruneti) honra muito a sua progenitora. Desde o seculo XVII as Italianas (seu modelo) declinavam muito; ja se não viam Rafaelos, Corregios, nem Ticianos: parece que a natureza, esgotada por tam grandes talentos, queria descançar. E nesta mesma epocha (principios do seculo XVIII, e fins do XVII) brilhavam em França Le Brun, Lesueur, Subleiras etc. Veio o seculo XIX tam memorando pelas extraordinarias mudanças, que viu a Europa; e em quanto a revolução Franceza, e suas consequencias aniquilavam em toda a parte[25] as boas-artes; a França apresentava ao mundo o mais brilhante espectaculo. Por entre o ruido das armas e o estrepito dos combates, as margens do Sena,
_D’onde, arrancando omnipotencia aos fados, Impoz tropel d’heroes silencio ao globo_
(BOCAGE)
se ornavam com todo o esplendor das sciencias e artes. A mesma Theologia tam sêca, e enfadonha nas mãos de Santo Thomaz, tam immoral nas de Mollina, e Sanches, muda de fórma, toma nova essencia, e na milagrosa penna de Chateaubriand surge com uma belleza e magestade, que jamais puderam dar-lhe o douto Agustinho, o eloquente Origenes. Com bem justiça, em quanto a mim, se podem a si proprios applicar os Francezes, a respeito das outras nações, aquella sentença de Seneca: _Multum egerunt qui ante nos fuerunt, sed non peragerunt_.[26] Nesta epocha brilhante e memoranda nos fastos da humanidade, das sciencias e das artes, a pintura renova em París os seculos de Augusto, de Leão X e de Luiz XIV. Os generaes victoriosos traziam de toda a parte os monumentos mais preciosos das boas-artes. O Vaticano, o Belveder, o Capitolio, Roma, toda a Italia foi exhaurida, e suas riquezas de sculptura e pintura transportadas á nova capital do mundo. Então appareceram em França David, Girodet, e muitos outros, que vão parelhas com os mais famosos Italianos, se em parte os não excederam. Lavater no seu ingenhoso livro das physionomias não se attreveu a caracterisar os Francezes. Seus genios e maneiras tam incertos e incapazes de classificação, como sua variada phisionomia, impedem affixar-lhes com exactidão a caracteristica; e philologos por isso houve, que não quizeram considerar na Franceza uma eschola; porem esta assersão é sem critica, e pouco seguida. Pruneti no seu _Ensaio Pictorico_ accusa a eschola Franceza de mau colorido, e ignorancia do _antigo_. Eu, sem me attrever a contrastar este parecer, julgo que tal imputação não pode ter lugar na moderna eschola franceza; mas somente se deve referir á antiga. Pruneti todavia não conheceu a eschola de David; mas devia conhece-la seu traductor Taborda; devêra estuda-la para emendar o seu original, e exceder assim a mediocridade d’um traductor servil, accrescentando-lhe novas ideias. O grande genero francez é geralmente o historico. O chefe desta eschola, querem uns que seja Roux, ou Rosso, outros que Leonardo da Vinci: Pruneti assevera que fôra Primaticio Bolognese e o faz alumno da eschola Romana. Eu o classifiquei na Lombarda; mas confesso que me enganei; porque o seu pintar, verdadeira norma, é mais Romano, que Lombardo.
SECULO XVI
Vovet n. 1590, m. 1649. Teve um desenho altivo, e um pincel vigoroso; mas imitou depois todas as boas e más qualidades de Mig. Ang. de Caravaggio.
Nicolau Poussin: Pruneti o faz nascido em 1594; mas Voltaire (_Siècle de Louis XIV_) assevera esta data em 1599. A boa critica decide por este, como nacional, e tam instruido nos successos d’um tempo, cuja historia nos deu. O mesmo Voltaire diz que Poussin era chamado o pintor das pessoas de spirito, e acresenta que tambem das de gôsto se podia dizer. Soube bem o _antigo_ e o desenho; mas o gôsto Romano lhe deu um colorido sombrio. Sua philosophia (diz o grande escriptor) o fez superior ás intrigas de Le Brun, e morreu pobre mas contente em 1665.
Pedro Valentin de Colonier n. 1600, m. 1632; imitou Poussin; teve um colorido harmonioso, boa ordem nas figuras, mas pouca correcção no desenho.
Jacques Blanchard foi imitador feliz das bellezas de Ticiano. Nasc. 1600, m. 1638.
Lesueur n. 1617, m. 1655. Seu ingenho é sublime e elevado, seu gôsto de roupagens magnifico. É um dos primeiros pintores da antiga eschola Franceza.
Pedro Mignard n. 1610, m. 1638. O estudo, e imitação de Raphael e Ticiano o fizeram algum tempo rival de Le Brun; mas a posteridade imparcial o extremou bem.
Carlos Le Brun n. 1619, m. 1690. Sua composição, dignidade de exprimir, e fidelidade de costumes se conhece principalmente pelas batalhas de Alexandre, que Voltaire julga superiores ás de Paulo Veronese; mas apezar do meu respeito a um tal historiador, e philologo, creio que nisto se engana, bem como no elogio do seu colorido, que todos taxam de menos correcto.
SECULO XVIII
José Vivien n. 1651, m. 1735. Retratou bem a pastel, teve muita belleza e fecundidade de ideias, e executou bem.
Pedro Subleiras n. 1699, m. 1749. Fertilidade de ingenho, grandeza de estylo, viveza de colorido, magnifica prespectiva, boas roupagens são os seus caracteres, e os d’um grande pintor.
João Baptista Santerre n..., m.... Seu merecimento principal é um colorido verdadeiro e terno. O quadro de _Santa Thereza_ na capella de Versailles é um dos esmeros d’arte mais preciosos e bellos; com quanto um pouco voluptuoso de mais, de que ao assumpto e logar cumpria.
SECULO XIX
David[27] é não só o primeiro pintor da moderna eschola Franceza, mas por ventura o primeiro do mundo, depois de Raphael. Que vastidão e sublimidade de ideias! Que força e verdade no colorido! Finalmente as suas composições reunem todas as boas qualidades, que apenas se acham dispersas pelos quadros mais famosos das antigas escholas, e que só a elle foi dado juntar. Fallem os prodigiosos quadros de Belisario, do juramento dos Horacios, da morte de Sócrates, e sobre tudo o incomparável quadro das Sabinas, o _non plus ultra_ da concepção e execução, e a eterna inveja de todos os pintores existentes e futuros.
Girodet igualmente se tem distinguido muito pela elegancia de suas composições, e suavidade de seu colorido, que nos seus quadros, quer de perto, quer de longe, presenta quasi o mesmo effeito. Não tem as graças virís de David; mas um acabado, uma doçura, uma maneira de exprimir, que o caracterisam, e tornam por extremo encantadoras suas bellas producções. Vejam-se os quadros do _enterro d’Atala_, e da Virgem.
Gérard por seus excellentes retratos, chamado o Wandick de França, é tambem pintor historico e famoso pelo bom arranjo e ordem de seus grupos, pannejado, ou trapejado de suas figuras, e bella correcção de desenho. Seus grandes quadros são o Belisario, a Batalha d’Austerlitz, e ultimamente a entrada de Henrique IV em Paris, que lhe grangeou o logar de primeiro pintor da Camera de Luiz XVIII; não porque Girodet seja superior a David, nem mesmo igual, mas porque soube lisongear a tempo.
Régnault é muito conhecido pela correcção do desenho; porém o seu colorido, em demasia brilhante, é mais contrafeito, que natural: todavia deu muitos e bons discipulos, e entre elles o mais famoso é:
Guérin tão celebre pelos seus quadros de Phedra, e Hyppolito, de M. Sexto, e da narração de Eneas a Dido. Seus caracteres são fogo pictoresco e muita sciencia de _claro-escuro_.
Le Gros bem conhecido pintor de historia segue a David. É mui celebre o seu quadro de Francisco I, e Carlos V em S. Diniz.