O retrato de Venus e estudos de historia litterária
Part 3
......... Fabularum cur sit inventum genus, Brevi docebo. Servitus obnoxia... etc.
PHOEDR. Lib. III, prolog.
«_Não: fabula gentil, volve a meus versos._»
......... Et, s’il est vrai, que la fable autrefois Sut á tes fiers accents mêler sa douce voix; Si sa main délicate orna ta tête altière; Si son ombre embellit les traits de ta lumière, Avec moi sur tes pas permets-lui de marcher. Pour orner tes attraits, et non pour les cacher.
VOLTAIRE: _Henr._ Chant I.
Cosia egro fanciul porgiamo aspersi Di soave licor gl’orli del vaso, etc.
TASSO: _Gerusalem_ Canto I, stanz. 3.
«_....... O Cyprio moço, o Teucro._»
Adonis, filho de Cyniras, rei do Chypre (_Cyprum_) Anchises, Troiano etc.
Achises conjugio Veneris dignate superbo.
VIRG. _A En._ Lib. 2.
«_Em quanto nas lidadas officinas.M_»
Retumbam nas _lidadas officinas_ Echos gostosos das nascentes almas, Que novos corpos a habitar caminham.
FILINT. ELYS. _Ode a Venus_ (Tom. 5).
«_C’o estremecido arrulho a dona imitam._»
Presentem ja no _estremecido arrulho_ Os propinquos prazeres.
FILINT. ELYS. ibid.
«_Porque mesquinhas leis nos vedam barbaras Tam suave pecar......_»
Si il peccar è si dolce, E’l non peccar si necessario; ò troppo Imperfetta natura, Che repugni ala legge! O troppo dura legge, Che la natura offendi! GUARINI: _past fld._
Se este crime é tam doce, Se tanto fugir delle é necessario; Imperfeita parece a natureza, Que fraca á lei repugna, Ou lei muito severa, Que a natureza offende. _Traducç. de_ THOM. JOAQ. GONZAGA.
«_E do amado na dor, sua dor recresce._»
Che l’esempio del dolore È un stimolo maggiore, Che richiama a sospirar.
METASTAZ: _Artass._ atto I.
«_Dos antigos errores esquecido._»
Errores é usado por Camões no sentido de--_longas, e desvairadas viagens_--; Ferreira porem, e outros classicos de igual nota o tomaram na mesma accepção, em que aqui se toma.
«_Com o amante fugir, morrer com elle?_»
Uma deusa não póde morrer: me diz ja algum critico, muito contente do quinau. Assim é, Sr. critico; mas no delirio das paixões quem se lembra da sua natureza?--Uma deusa com paixões!--Os deuses da mythologia, os numes dos Gregos, e Romanos não são o mesmo que o deus do philosopho (digno de tal nome) que, satisfeito de reconhecer a existencia d’um ente supremo, pára, onde se lhe acabam as forças, nem prosegue em investigações, onde se lhe apaga a luz da fraca razão; nem empresta á desconhecida causa das causas os habitos, as paixões, a fórma, e toda a natureza da fragil e apoucada humanidade. O orgulho de se occultar a si proprio a sua fraqueza, e de abaixar até á sua mesquinhez a idea de deus, por não poder subir até á altura d’ella, nasce da nossa vaidade, da nossa ignorancia e da nossa miseria. Por isso os theologos desbocadamente nos pintam, e nos querem fazer crer em um deus vingativo, irado, e capaz em fim de todos os crimes e vicios, que elles em sua alma alimentam e nos querem vender por virtudes.
«_..... Comsigo ao carro o sobe._»
Subir é um verbo neutro; mas é este um idiotismo bem notavel da nossa lingua, usar de taes verbos com força activa, como o fazem os nossos classicos a cada passo.
«_Que lhe spira dos labios, das pupillas._»
Aquelle não sei que, Que _spira_ não sei como, Que invisivel sahindo, a vista o vê. CAMÕES: _Ode 6_.
_Spirem_ suaves cheiros De que se encha este ar todo. FERR. _Castr._ act.
«_Arde voltar ao suspirado asylo._»
... Jamdudum errumpere nubem _Ardebant_. VIRGIL. _AEneid._ L. I. v. 580.
«_Disenhos volve..........._»
Esta palavra mui portugueza e antiga (embora de origem estrangeira) não é gallicismo; exprime bem o--_dessein_--francez, e tem por si a auctoridade d’um escriptor bem notavel e bem antigo, qual é Damião de Goes. (v. Chron. de D. Man. part. I, cap. 4, e _passim_).
«_Que tam suave rege a natureza._»
......... Omnis natura animantium Te sequitur cupide. LUCRET. Lib. I. v. 15.
«_Mal disse; e o raio mais veloz não rue._»
Este verbo muito adoptado por Filinto Elysio, e pelo erudito traductor da lyrica de Horacio, Antonio Ribeiro dos Santos; e cujos compostos, e derivados ja tinhamos (_correr_, _decorrer_ etc.) tem todas as qualidades necessarias para a sua naturalisação.
«_Da rubra dextra do Tonante irado._»
........ _Et rubente_ Dextra sacras jaculatus arces Terruit urbem. HORAT. _Od_. 2, Lib. I.
«_Á voz da deusa fende os ares liquidos._»
......... Per liquidum aethera:
VIRG. _AEn._ Lib. I.
«_Quaes ao paiz do mysterioso Etrusco._»
Florença na Toscana, ou antiga Etruria, dita _mysteriosa_ em razão dos seus áugures.
«_Á formosa Bolonha..._»
De Bolonha conta Ganganeli (ou antes Carracioli) nas suas cartas, que um Portuguez, encantado de sua belleza, exclamara: «Não se devia mostrar senão ao domingo.»
«_E fitando no ceo audazes vistas._»
Coelum ipsum petimus stultitia
HORAT. Lib. II, Od.
«_Aos golpes crebros, incessantes, duros._»
O imperio Grego acabou em 1448 pela morte do ultimo Constantino, e entrada de Mahomet II em Constantinopola, a cujos muros se limitava, ha muito, o vasto imperio Grego e Romano. Os horrores desta tomada de Cp., a immensidade de familias que fugiram para a Italia, e principalmente para Veneza, Genova e Florença, o adiantamento, que este successo causou ás sciencias e artes do occidente; são cousas sabidas de todo o mundo. (Vid. Anquétil: Précis de l’hist. univers. tom. 4, pag. 249, etc. e Chateaubriand: Génie du Christ. part. 3, liv. I).
Notas ao canto segundo
«_Vão-lhe na frente os affamados chefes._»
Aquelles sam sós homens que se affamam.
FERREIR. _Cart._ 6, Liv. I.
«_No bello antigo modelando as graças._»
O verbo _modelar_ está geralmente adoptado mas que não seja antigo. Assim como de _molde_ se fez, e deduziu _moldar_; de _modelo_ se póde derivar _modelar_.
«_Vem tribu excelsa de Romãos pintores._»
Gregos, _Romãos_, e toda a outra gente.
FERREIR. _Cart. 3_, Liv. I.
«_E quanto inspira Apollo:......_»
O fito que neste poema levei, foi simplesmente celebrar os louvores da pintura, e de seus principaes mestres. Sou apaixonado amador desta sublime poesia; contento-me de admirar; mas nunca dei a menor lapizada. A leitura, a observação curiosa, e exacta do pouco, que tenho visto, me deram os limitados conhecimentos, que em tam comprida materia possuo. Ideias vastas, ainda mesmo na historia só da pintura, apenas poderão ser o fructo de longos estudos, que a minha pouca idade, e mais sérias, mas que ennojosas occupações prohibem. Declaro pois que, se êrro encontrarem os professores, mui grata e grande mercê me farão de me avisar; e conhecerão pela minha docilidade na emenda a pouca presumpção do auctor.
«_E aos d’arte amantes desejar com Pedro Junto ao prodigio...._»
Faciamus hic tria tabernacula.
MATTH. _Evang._
«_Em cêrca aos muros da gentil Parthénope._»
Napoles, assim ditta antigamente de Parthénope, uma das sereias, que se enchêram de desesperação por não poder vencer Ulysses com o seu canto. Junto ao tumulo desta simideusa ou nympha se edificou uma cidade, que della tomou nome. Destruida ésta, se tornou em seu mesmo logar a edificar outra nova, dita Napoles (_Neapolis_--Νεαπὸλις--cidade nova) nome que inda hoje conserva.
«_Umas sobre outras as cidades jazem._»
Pelos fins do seculo passado se descubriram nas visinhanças do Vesuvio as antigas cidades de Herculano e Pompeia. A cidade de Portici está quasi situada sobre a antiga Pompeia, que, assim como o Herculano, fôra submergida em uma explosão do Vesuvio.
«_E a rôdo os d’atro fogo horridos rios._»
Nas grandes irrupções do Vesuvio corre do alto da montanha um, como rio, de fogo, que dá uma imagem das fingidas torrentes do sonhado Averno.--Virgilio, que de certo dos volcões de Napoles houve a idea do seu _Phlegetonte_, situou por aquelles logares os seus--_Plutonia regna_.--(Vid. Stael na _Corin_.)
«_Inda no mesto panno afflictos súam._»
....... Sudant in marmore mœsto.
SILI. _Ial._ Lib. I.
«_Saliente Caravaggio, que exprimiste._»
_Saliente_; porque as figuras de seus quadros tem um ar de relêvo, que engana. É necessaria metonymia, de que uso muitas vezes para caracterizar os pintores, segundo suas mais distinctas qualidades.
«_Ja de accurvados reis não brilha o fasto._»
O simples nome de Roma basta para fazer nascer uma infinidade de ideias grandes e de magestade. Todos os pensamentos sublimes, que a imaginação póde crear, todas as sérias reflexões, que póde suscitar a razão, todas as memorias augustas, que a virtude e a humanidade podem fazer nascer, occorrem e borbulham associadamente na alma do homem pensador com a simples ideia de Roma. O exfôrço dos Horacios, a castidade das Lucrecias, a integridade dos Brutos e Catões, o patriotismo dos Fabios e Scevolas, a magnanimidade e valor dos Scipiões, a eloquencia dos Ciceros, o saber dos Plinios, a liberalidade dos Augustos, a grandeza dos Trajannos, a humanidade dos Titos, tudo se recorda com a memoria illustre da cidade por excellencia.
Imagine-se um homem cheio de toda a magnificencia destas ideias, possuido de respeito e veneração, ao entrar em Roma.--Ruinas, sepulcros, templos derrocados, estradas solitarias, ruas desertas... são os miseraveis objectos, que lhe ferem os olhos, mui de longe preparados para admirar a senhora do universo. De espaço a espaço descobre (é verdade) um templo magnifico, um grande palacio; mas breve se desvanece este vislumbre de grandeza, e subito se esvai a nascente esperança de encontrar a Roma de Augusto. Estes palacios, estes templos, que se elevam do meio das choupanas (habitação da indigencia e da fome) carregados d’ornatos, de sobejo embellezados, serão acaso aquelles esmeros de architetura grande e magestosa, suberba e varonil dos edificios Latinos? Poderá algum d’elles similhar-se ao _Fóro_, ao _Palacio_, ao _Amphitheatro_? Descubrir-se-ha n’alguma d’estas modernas praças o menor vestigio dos _Rostros_? O Capitolio, o terrivel, o venerando Capitolio, onde se julgava dos destinos das nações, onde os reis curvavam os sceptros, e depunham os diademas; d’onde sahiam os irrevogaveis e tremendos decretos, que dispunham da sorte dos povos, e legislavam ao universo, que é feito d’elle?--O solicito viajante ainda o descobre; o seu _cicerone_ (guia) ainda lhe mostra o logar d’elle.--E será este?--Differente estrada conduz ao cimo do monte; o palacio do _senador_, alguns restos de quebradas estatuas, de desfigurados relevos são todas as riquezas, todos os tropheos, todos os despojos, que ornam o antigo alcaçar do mundo.
Confuso, humilhado, o viajante não se atreve ja a encarar nenhum edificio.--«Os habitantes ao menos (diz elle) talvez conservem alguma cousa ainda de Romanos. Tantas virtudes, tanta grandeza não podiam extinguir-se de todo.»--Um bando de miseraveis, uma plebe indigente, vil e sem costumes, são os successores do povo rei; uma côrte effeminada, e entregue aos deleites do ocio occupa o logar dos Brutos e Catões; declamadores sem gôsto, com affectadas e guindadas phrases (que ou não entendem ou não crem) fazem retenir aquelle mesmo ar, que ouviu os eloquentes e numerosos sons de Cicero e Marco Antonio; assucarados trovadores infectam com os seus--_concetti_--a degradada lyra de Virgilio e Horacio; os Scipiões, os Emilios, os grandes generaes, as invenciveis tropas da triumphante republica são substituidas por um bando de assoldados Suissos, cujas grandes proesas e valor, cujos guerreiros exforços são o fazer a guarda do papa. Em vez do augusto e venerando senado, um ajuntamento d’homens ambiciosos, insaciaveis d’ouro, regem despoticamente; não os direitos das nações, e deveres dos reis e povos pelas invariaveis leis da justiça, como os antigos _conscriptos_; mas o corpo invalido da igreja por elles arruinada e depravada, levando simplesmente o fito em pescar para a barca do humilde S. Pedro as riquezas das nações com o sagrado anzol das indulgencias, reliquias e breves.--«Roma! oh Roma! (exclamará o contristado viajante) tu ja não existes; a tua liberdade expirou em Catão, e tu com ella! A liberdade te conservava as virtudes, que, mais que tuas façanhas, te constituiram no imperio do orbe. Perdeste-a; e desde então caminhaste sempre com gigantescos passos ao abysmo de miseria e vileza, em que jazes sepultada para eterno exemplo do universo.
E com effeito, tal é a sorte de quasi todas as nações! Florecem, reinam em quanto a liberdade, ou a larva della subsiste; apenas se eleva a tyrannia, cai de rôjo com a liberdade o amor das virtudes; a servidão embrutece o homem; a sociedade se muda em um rebanho de escravos; e a miseria succede á opulencia. Assim cahiu Roma, assim Sparta, assim Hollanda, assim tantas outras. Que exemplos para os tyrannos, e que terrivel escarmento para os povos! Miseraveis despotas, embreve estendereis o sceptro de ferro sobre montões de ruinas. Os Vandalos, os Godos, os Arabes não se acabaram ainda; e vós os chamais com tanta ancia![15]
NOTAS DE RODAPÉ:
[15] É facil de vêr que esta nota foi escripta antes do dia 24 d’Agosto. Felizmente ja se podem tratar estes assumptos com menos atrabilis.
Notas ao canto terceiro
«_Enfrea as iras de Neptuno indomito._»
Imperio premit, et vinclis, et carcere frœnat.
VIRG. _AEn._ Lib. I, v. 54.
«_Ve d’Adria o golpho tempestuoso e fero._»
É o golpho de Veneza, antigamente chamado de Adria, ou Adriatico, d’uma cidade d’este nome.
«_Alli, fugindo aos clamorosos brados._»
No meio do seculo V, foram destruidas por Attila, rei dos Hunos, as cidades de Aquilea, Altino, Concordia, Opitergo e Padua, todas visinhas ao golpho, então chamado Adriatico. Os habitantes destas cidades, fugindo ao furor irresistivel, e cruel ferocidade dos barbaros, se foram refugiar nas pequenas e desertas ilhotas do mar Adriatico, e fundaram assim o começo de Veneza. (Vid. _Anquétil, Millot, e la Istoria de Vinegia per ***_)
«_Emporio foi depois do rico oriente._»
_Antes que ha India fosse descuberta pelos Portuguezes, ha mayor parte da especiaria, droga, e pedraria se vazava pelo mar roxo, donde ya ter á cidade Dalexandria, e dalli ha compravão hos Venezianos, que a espalhaavão pela Europa._
CASTANHEDA Lib. I, cap. 1.
«_E do alado Leão tremeu gran tempo._»
Um leão com azas era o timbre, ou armas da republica, ou senhoria de Veneza.
«_E segue a esteira das cortadas ondas._»
_Esteira_, ou _esteiro_, que assim, e indifferentemente escrevem e usam os nossos classicos, é aquelle sulco, que os navios vão fazendo e deixando depoz si nas aguas, e que bom espaço se conserva depois. Maior é talvez o numero das pessoas que sabem a simplicissima razão physica deste natural phenomeno, do que o das que o nome portuguez lhe conhecem.
«_Foi a patria d’heroes, foi mãe de sabios._»
.......... All’ Adria in seno Un popolo d’eroi s’aduna......
MATEST. _Ezio_: atto I.
«_Adriades gentis, oh! vinde as frentes._»
Assim como de _Tagus_ Latino fez Camões _Tagides_; e outros do Douro--_Durius_--_Duriades_ etc.; quem me impede a mim, que de _Adria_, faça _Adriades_?
«_Qual Verona folgou com seu Catullo._»
.......... Gaudet Verona Catullo, Pelignae dicar gloria gentis ego.
OVID. _Trist._
«......... _Mil graças, mil encantos Sem mysterio, sem véo te deu, lhe dera._»
Assim como Catullo, Paulo Veronese é notado de pouco honesto. Todos sabem a lascivia e voluptuosidade dos versos do primeiro: os quadros do segundo tem uma poesia d’este genero bem mais expressiva.
«_Em que lhe peze á inveja, e seus furores._»
Eu, que apezar da inveja, e seus furores Aos astros levo o nome Lusitano.
ELPIN. _Nonaer._ Od. a Vasc. da Gam.
_Em que lhe peze_, e _em que lhe pez_ são phrases dos melhores classicos: mil exemplos, por um, pudera appresentar; mas citarei o que tenho aqui mais á mão, que é o P. Vieira (_Vozes saudosas: voz histor._)
«_Scena outr’ora infeliz da gloria Franca._»
As provincias Flamengas foram um dos principaes theatros das ambiciosas guerras de Luiz XIV com a Hollanda. (Vid. VOLTAIRE _Siécl. de Louis XIV_).
«_Lhe bafejastes divinal espirito._»
Quasi divino quodam spiritu inflari.
CICER. _pro Arch._ §. 8.
«_E o veneno lethal lhe infunde n’alma._»
Sic effata, facem juveni conjecit, et atro Lumine fumantis fixit sub pectore tædas.
VIRG. _AEn._ Liv. VIII, v. 56, e seg.
«_Quam bello é na expressão Vaén correcto._»
Porventura não serão os verdadeiros accentos da pronúncia nacional, os que ponho aqui neste e nos outros nomes dos pintores flamengos: puz-lhe os necessarios para o rythmo, que é a minha obrigação; dos outros não sei, pois que ignoro a tal lingua; no que, segundo creio, não perderei nada.
«_Difficeis nomes d’estremados mestres._»
E bem difficeis, com effeito, para accomodar ao verso com os seus--_kk_--_rr_--etc.: não são daquelles, de que Horacio diz:
Verba loquor socianda chordis.
HORAT. Lib. II, Od.
«_Do mestre a obra maior, Wandik insigne._»
Voltaire diz algures, fallando de Tasso, que, se é verdade o que vulgarmente se diz, que os Lusiadas, e seu auctor formaram a Gerusalem do primeiro, fôra esta a melhor obra de Camões. Não estou _absolutamente_ por este _espirituoso_ dito de Voltaire; mas com justiça o appliquei a Rubens, e Wandick.
«_E em vez d’um Fabio tardador_......»
Assim traduziu Filinto Elys. o _Fabius cuntactor_ dos Latinos. (Vid. FILINT. _Ode á Liberdade_).
«......... _Ja no Sena ovante_.»
Sobre a margem feliz do rio _ovante_, Donde arrancando omnipotencia aos fados Impoz tropel d’heroes silencio ao globo.
BOCAG. _Od. a Filint._
«_Que do Meschacebeu vingando as margens._»
Este é o verdadeiro nome do célebre rio da Luisiana, na America Septentrional, chamado vulgarmente _Mississipi._ (Vid. CHATEAUBRIAND: _Génie du Christ._ Part. III, Liv. 5).
«_C’o Euripides Francez disputa ainda._»
Racine bem se póde assim chamar, não somente por suas absolutas e eminentes qualidades; mas pela relativa, e mui particular da similhança dos ingenhos, e feliz imitação de Racine. (Vid. LAHARPE: _Cours de Littér._; LEMERCIER: _ibid._; e o P. BRUMOY no _Theatr. dos Gregos_).
«_Ao ver nas murchas, esmyrradas faces._»
J’ai langui, j’ai séché dans les feux, dans les larmes.
RACIN. _Phoedr._ Act. II.
Desfalleci, murchei no ardor, no pranto.
_Trad. ms. do Sr. H. E._
«_D’um criminoso amor violencia e fogo._»
Quand je suis toute en feu, vous n’êtes que de glace.
PHOEDR. Act. II.
«_Os manes folgam de Rollin, Voltaire._»
Le-Gros é pintor historico; e Rollin e Voltaire foram historiógraphos francezes.
Notas ao canto quarto
«_Onde a voz de Bocage, a voz de Gomes._»
Outros quaesquer poetas, e de mais nomeada porventura, pudéra eu citar; mas quiz, quanto em mim era, e o permittia o assumpto e a obra, prestar homenagem a dous ingenhos, que honraram a patria e a lingua; e dos quaes o primeiro depois d’uma fama gigantesca, e maior que seu merecimento, passou a ser enxovalhado por quanto Mevio e Bavio sabe dizer--_Traduziu, traduziu, traduziu tudo_--como se um traductor como Bocage não fosse um poeta de muito merecimento, e de muito maior, que tantos originalistas de nome (de nome sim; que realmente deus sabe o que é); como se Pope, Dryden, Annibal Caro, João Franco Barreto, e tantos outros illustres traductores não figurassem mais na republica litteraria que tantos _epicos modernos_... Eu não sou dos apaixonados do privilegio exclusivo, que ha certo tempo obtiveram entre nós as traducções. Uma nação que assim obra por espirito de priguiça, ou menos-preço de si propria, em vez de enriquecer sua litteratura, empobrece-a e perde-a. De J. B. Gomes e da sua Castro tanto mal como bem se tem dito. Não a dou por uma tragedia perfeitamente regular, não a comparo ás grandes peças de Racine e Alfieri; mas sei que tem muitas bellezas, e que n’um theatro tam pobre, como o nosso, é digna de muita e muita estimação. Para criticar a Castro de Gomes é preciso enchugar muitas vezes as lagrimas, que ella excita continuamente.
«_Calcando a juba dos Leões gryphanhos, Parando ás Aguias etc._»
Revoluções de 1640 e 1808.
«........_Ah! se aura amiga Continúa a soprar_......»
Em Roma, assim como na Grecia, se formariam Zeuxis e Apelles, se os Romanos dessem a Fabio as honras, que seus talentos mereciam. Diz Cicero algures nas Questões Tusculanas.
«_Inviolavel lei um teu desejo._»
Nação nenhuma (diz Florian no _avant propos de Sancho_) possue a arte d’amar, como a portugueza.
«_Os feitos dignos de perenne historia._»
........as cousas........... Que merecerem ter eterna historia.
CAMÕES. _Lus._ Cant. 7.
«_Sensiveis corações, vinde espelhar-vos_» etc.
Vidi sæpius inscriptionis imaginem, et sine lacrymis transire non potui.
S. GREGOR. II. _Concil. Nicen._ act. 40.
«_Prazeres do christão, doçuras d’Alma._»
Le nouveau testament change le génie de la peinture. Sans lui rien ôter de sa sublimité, il lui a donné plus de tendresse.
CHATEAUBRIAND. _Gen. du Chr._ part. III, Liv. I, cap. 4.
«_Portento d’expressão, viva faisca Do lume eterno..._»
Les peintres... famille sublime que le souffle de l’esprit ravit au dessus de l’homme.
CHATEAUBRIAND, ibid.
«_Fastoso monumento d’alta Iberia._»
Resta ainda resolver o grande problema: _Se a descuberta da America foi util ou prejudicial á Europa_; o qual, emquanto a mim, depende d’outro mais generico: _Se as conquistas, principalmente longinquas, podem ser uteis a uma nação_. Não me atrevo a resolver nem um nem outro. As theorias falham quasi sempre em politica, bem como em moral. So noto imparcialmente, que a Hespanha foi poderosissima nação antes do XVI seculo; que Portugal, se nos tempos de D. Manoel e João III floreceu, e deu brado na Europa e no mundo; depois não fez mais que luctar contra innumeraveis desgraças: que não tivemos mais um João II; e que as conquistas d’Asia e Egypto deram por terra com o imperio Romano.--Provêm isto das descubertas em si?--Provêm do uso que d’ellas se fez?--Continúa a minha ignorancia.--Os monarchas hespanhoes fundiram no Escurial, e n’outras cousas d’esta ordem, as immensas riquezas das Indias occidentaes, ganhas á custa de tantos crimes, barbaridades, irreligião, fanatismo e sacrilegios de Cortêz e de mil outros. Diminuiu no continente hespanhol a população; não se fez o menor caso da agricultura; o commercio não foi senão passivo; e, depois d’um breve esplendor, a suberba Hespanha cahiu na miseria d’uma nação pobre e falta de tudo, a pezar de toda a sua prata.--E que diremos de nós?--O mesmo, com alguma differença para peior. Todo o homem, que pensa, sabe o que eu poderia dizer neste artigo; como para estes só escrevo, elles me entendem; e eu, com o meu silencio, me poupo ás criticas da ignorancia e da sordida adulação. (_É bem facil de ver que ésta nota foi igualmente escripta antes do dia 24 d’Agosto_).
«_Terra fertil d’heroes, solo fecundo, Salve!........_»
Salve magna parens frugum... tellus, Magna virum.
VIRG. _Georg._
«_O mimoso sendal, ja pouco avaro._»
O véo dos roxos lirios pouco _avaro_.
CAMÕES _Lus._ Cant. 9.
Diripui tunicam, nec multum rara nocebat.
OVID. _Eleg._ Lib. I, Eleg. 5.
«_Que divinos encantos não descobrem_» etc.
E tuto ciò, che piú la vista alletti.
TASSO _Gerusal._ Canto XV, st. 59.
«_Sonhada, pythagorica harmonia._»
A harmonia das spheras é um dos sonhos de Pythagoras. Póde-se ver a satyra galantissima destas e outras philosophicas extravagancias no celebre poema allemão--_Musarion_--de Wielland: Canto II.
«_Arrulharam d’amor meigas pombinhas._»
Presentem ja no estremecido _arrulho_ Os propinquos prazeres.
FILINT. _Elys._ Ode a Venus. (Tom. 5).
«_Roseos descurvam, se aredondam braços._»
Ν’μος δ’ ὴῥιγυἑια φάυη ροδ οδ άϰλυλος ὴὠτ.
HOMER, _Odyssea_ B. (Lib. II.)
«_Ondeiam n’alva frente as tranças d’evano._»
Os cabellos e olhos pretos eram os mais estimados dos Romanos--_Nigra oculis, nigraque capillis_: Horat.--Se é mau gôsto, confesso que o tenho. Quem amar mais os louros, não tem senão dizer:
«Ondeiam n’alva frente as tranças d’ouro.»