O Renegado a António Rodrigues Sampaio carta ao Velho Pamphletario sobre a perseguição da imprensa

Part 3

Chapter 32,360 wordsPublic domain

Acabaste d'ouvir a letra da sentença. Talvez que ó dictador, perseguidor da Imprensa, te cause pouco abalo esta sentença augusta! Talvez te cause riso e clames não ser justa a ira que sacode as cordas d'uma Lyra. Talvez velho frascario e lingua de Mentira chames ao verso fumo, a tudo vãs ficções! Não! A Lyra é de bronze! As novas gerações os homens d'ámanhã, os proximos vindouros hão de ver n'essa fronte, em vez dos verdes louros, pela noute da Historia esse R flammegante! Elles dirão então--Acaso foi o Dante que te marcou na testa esse signal soturno! Quem foi o vingador, o látego nocturno que na fronte te abriu a inicial horrenda?

E tu deves dizer:--Na minha ignobil senda não foi o Dante, não, que eu vi cheio de susto! Não foi tão grande heroe, mas foi um homem justo que não quiz em mim só vibrar o açoute amaro! Como outrora Molière, em seu eterno _Avaro_, que gravou com buril um lutulento vicio, elle quiz castigar em mim o vil flagicio d'esse cancro gentil, moderno, escandaloso, que faz d'um ente humano um cão servil, um gozo, salafrario venal, baixo arlequim de feira, rasgando a cada passo a tela da bandeira, e fugindo a alistar-se em legião contraria; quiz vergastar sem dó a moda latrinaria d'esse abuso gentil, galante, deleterio, --d'hontem ser contra o Rei--hoje ir ao ministerio, o costume chinfrim, o ignobil privilegio, --d'hontem ser petroleiro--hoje um capaxo régio!

Um homem nada é. É simples grão d'areia nos abysmos da Vida ou nas regiões da Idea. Mas o Principio é tudo! È força alimentar na Consciencia Humana, álerta, sem cessar, o castigo do Mal, essa noção sagrada, terrível como a Adão do seraphim a espada.

Ah! tu julgas acaso, ó dictador de gesso, que tu podes travar a roda do Progresso, encarcerando a Imprensa, á qual tu deves tudo? Ah! tu crês, n'um signal, tornar o Verbo mudo, e que todo o trabalho excepcional das Raças, todo o calor do Genio, as guerras, as desgraças, industrias, invenções, tudo isto que o Ceu cobre, tudo que Fausto sonha e Galileu descobre, todas as leis dos soes, Systemas e Theorias, --vão findar de repente, ás tuas portarias?

Acaso crês que todo o labutar eterno do Homem sobre o sólo, a melhorar o inferno dos seus instinctos vis, das suas privações, em guerra aberta ao mar, aos ventos, aos vulcões, ao Infinito, ao Finito, á Besta, ás más paixões, á Terra amarga e dura, á Treva, ao Inconsciente, todo esse fermentar energico, vehemente, toda a rebellião extraordinaria, séria, do Diabo com Deus, da Alma com a Materia, toda a guerra feroz, eterna contra o Abuso, o scismar do que achou, primeiro, o Parafuso, o cerebro do que achou o Esquadrio e o Camartello, o que inventou a Lyra e cinzelou o Bello, o que ergueu sobre a praça o primitivo Arco, o que accende a Caldeira e o que arrojou o Barco aos abysmos do mar com a primeira Vella, o que arredonda a Ogiva e rasga uma Janella, o que inventa o Vapor, esbofeteia a onda, o que descobre a Roda; o que inventou a Sonda, o que quiz ver os soes e inventa o Telescopio, o que quiz ver o insecto e achou o Microscopio, o que contorna o acantho em torno ao Capitel, o que constroe a Estatua, a Valvula, o Cinzel, a Columna, o Timão, o Escopro, mais a Serra, o que forja as crueis armas brancas da guerra, Newton que descobriu o gravitar dos astros, Phidias, ao qual ninguem nunca seguiu os rastros, Humboldt, o que correu todo o Cosmos inteiro, Rouget de Lisle o auctor do eterno hymno guerreiro, Le Verrier que ao Ceu deu mais outro planeta, Orpheu que fez a Lyra e Kempis velho asceta que em sua cella agita a mystica alma humana; o que descobre o Fogo, o auctor do Ramayana, n'aquella India mãe de gerações guerreiras onde erram os fakirs á sombra das palmeiras, n'esse Oriente pae dos deuses indistinctos onde Jesus scismou perto dos therebinthos; tu crês que esse animal das primitivas éras que o Lume descobriu para assustar as féras, o que fez a primeira e tepida Cabana, o auctor da velha Mó, do engenho, da Roldana, da primeira Charrua e do primeiro Arado, Juvenal que varou Roma de lado a lado com suas corrupções, crimes, e vãos delirios como a vã liturgia extranha dos Assyrios; Platão que ergueu á Alma um templo todo d'ouro maior que Nero tinha e que era o seu thesouro; Durer esse pintor extranho, mysterioso, que achou no Pantheismo o mais infindo goso, e na tela onde pinta as folhas e as verduras, entre os ramos desenha extranhas creaturas, como monges fataes minados pela _acédia_ que dão todo o terror da alma da Edade Media; Cervantes, o cruel, que faz errar a trote toda a alma do Sul que encerra em D. Quichote, emquanto o Fausto sonha em virgens de balladas, e o abbade Rabelais se ri ás gargalhadas; Euclides que decreta as leis da Geometria, a Chaldea que ao Ceu arranca a Astronomia e em torres collossaes, á luz das noutes bellas, traça o grande roteiro eterno das estrellas; Goethe que se fundiu na alma da Naturesa, que cantou o Diabo e a lenda da Bellesa, a insomnia da Sciencia, a lampada do Estudo; Goya que fez do mundo um soluçante Entrudo de mendigos, truões, abbades, estudantes; Rembrandt esse senhor das trevas flammejantes, Juvenal que escarrou na Venus Meretriz, Boudha sereno mestre, indú, grave, feliz, prégando um culto novo entre o feroz gentio; o que inventa o Compasso, o Leme do navio, o que accendeu a Forja, inventa a Picareta, o que primeiro aguça a ponta da Lanceta, Vico, o que abre á Sciencia enormes horisontes Cook que encontra ceus, reinos, terras e montes, Dante, o rei do Terror do Inferno nas vertigens, Lamark que descobre as animaes origens, Aretino que açouta os reis como lacaios, Fulton que acha o vapor, Franklin o pára-raios, Camões que salva um livro e a sua eterna gloria, Thierry o que cegou a trabalhar na Historia, Espronceda que canta o hymno da _Miseria_, Bukner o santo atheu da Força e da Materia, Moysés que fórma um povo, Isocrates, Isaias, Strauss o que anniquilla a lenda do Messias, Menuisier que sonda o mundo pequenino, Miguel Angelo ancião, o Raphael d'Urbino, Tacito e o seu rancor contra o romano solio, Van-Eych o que descobre e acha a pintura a oleo, Kant que abre á Rasão uma moderna estrada, Koerner que faz o hymno e o cantico da Espada, Darwin o que descobre ao mundo absorto e opaco ser Deus uma theoria e o Homem um macaco; Krishna o que prégou nas regiões da Idéa o mesmo que Jesus nos montes da Judéa; Zoroastro que elevou as almas para o Sol, Shelley que é um atheu, Petrarcha um rouxinol, Ary Sheffer que pinta a lenda dolorida do riso do Diabo e a dôr de Margarida; Hegel que assenta a Idea em throno de brilhantes, Fitche que os homens torna aos deuses semelhantes, Milton que vê no Ceu, Dante que vê no escuro, Haekel que vê no mar, S. João sobre o Futuro, Pascal que estuda a Causa e Cuvier o Effeito, Voltaire o que assassina em cheio o Preconceito, Proudhon o que acutila a gorda Ordem nédia, Werner que deu mais sangue ao peito da Tragedia, d'Alembert que povôa os mundos estrellados, Lao-Tseu que canta os canticos sagrados, Berlioz que inventou a musica do Abysmo, o que achou o Alphabeto e a chave do Algarismo, o que fez a Atafona, o que inventou o Malho, toda essa lenda eterna e escura do Trabalho, todo esse bom clarão que a santa Lyra entorna, todo o fogo da Forja, os urros da Bigorna, os silvos da Caldeira, a Roda do Progresso crês que isto--ao gesto teu--ameaça retrocesso, e tudo volta atraz, cheio d'horror e medo do dedo indicador do general Macedo, ou então dos dragões dos regios pergaminhos: --Hintze, _o que não ri_, e o Arrobas tres pontinhos...? Desillude-te, ó Velho! O mundo não recúa. A Historia ha de varrer teu nome para a rua, como uma velha o lixo immundo na calçada. Tu é que morrerás, tu, ó bexiga inchada de colera, de fel, d'orgulho, de vaidade, que eu despejei na rua, á luz da Sociedade, como quem lança o lixo ao pateo d'um saguão. Desengana-te ó Velho. Os reis em breve irão curvados e servis, quaes rotos saltimbancos, mostrar de feira em feira os seus cabellos brancos, agitando a maroma em vez do regio sceptro. E tu ó Velho irás tambem com teu Espectro n'esse caminho inglorio e tragico tambem, que se chama o Abandono, o caustico Desdem, de tudo isto que forma a Opinião Geral. Mas o mundo, esse não! No gyro universal que traça em torno ao Sol com as demais espheras, verá encanecer as legiões das Eras, antes que role e volva ás regiões do Abysmo. Procura sempre a Luz. Eterno magnetismo o attrahe sem cessar áquella claridade, como procura a Alma a luz só da Verdade, e na ordem moral, como umas verdes palmas, estendem sempre as mãos as supplicantes Almas pedindo em côro ao ceu--mais luz, inda mais luz!... Agora, ó Velho, emfim qne te cravei na cruz da Ira e do Sarcasmo e te preguei os braços no lenho do Despreso em meio dos devassos, tu pódes continuar a tua erronea senda! Segue o exemplo dos reis--manda-nos pôr á venda. Torna mais dura e amarga a lenda da Miseria. Faze contractos vis para formar a Iberia debaixo de dous reis, n'um succulento almoço. Arroja o teu pudor, se acaso resta, a um poço. Lança o resto da honra ao nada da voragem. Erige a Força em Lei, e a Ordem em carnagem. Manda erguer uma forca e um poste a cada esquina. Faze armar para o Povo o aço da Guilhotina. Manda fallar, rugir, as bocas dos canhões. Atulha, a abarrotar, os ventres das prisões. Dá que comer á Valla e á boca da Enxovia. Senta a fome no Lar, o luto na Alegria. Torna inda mais crueis os ais que nos consommem.

Mas treme do Futuro!--Ouviste a voz d'um homem.

FIM

NOTA

Á hora de se imprimir a ultima folha d'esta publicação o velho presidente do ministerio, o homem de quem aqui nos occupámos, renegado das suas convicções d'outrora, o perseguidor da imprensa, pela qual se elevou, de que é decano e presidente honorario pediu a sua demissão, não tendo o pejo de recuar perante o parlamento, ao qual teria que dar contas. Mas nem por isso a sua responsabilidade fica menos grave, nem menos attenuada. A sua sentença já lhe foi lavrada pela Opinião Publica, e na Historia, aonde o seu nome fica lutuosamente escripto. O homem que escreveu que antes queria _imprensa anarchica que imprensa perseguida_, e é depois de Costa Cabral, (tão incisivamente attacado por elle,) o unico que se atreveu a reviver as perseguições e as vindictas, fica vergonhosamente vinculado,--e tanto mais vergonhosamente que foi e é um jornalista!...

Comtudo por elle fugir perante o Parlamento, nem por isso se deve eximir ao castigo. É preciso que a responsabilidade ministerial não seja uma vã palavra. Se não existe a responsabilidade regia, se não existe de facto a responsabilidade ministerial, é força que estes senhores o confessem francamente:--a Constituição é uma farça! Se ainda persistem em proclamar que o não é, façam que sejam julgados os seus ministros demittidos! Nós pedimos que elles se sentem nos bancos dos reus. O povo que o peça tambem comnosco, os nossos tribunos que o peçam nos comicios, toda a imprensa da opposição que brade para que os julgamentos dos tribunaes não sejam apenas para os adversarios ou para os miseraveis e gatunos: mas que sejam tambem para os grandes salafrarios constitucionaes.

O auctor d'estas linhas pede tambem o seu julgamento. Ha já tempo que teem capciosamente sobre elle um processo em aberto, como a espada de Damocles, que o priva dos seus direitos civis e politicos, e o impede de ser eleito pelo povo para alguma missão de confiança popular. É um excellente e perfido meio constitucional para affastar um adversario!--mas muito conhecido nos arsenaes politicos. É uma espada velha e enferrujada do tempo de Carlos Magno, mas que ainda dá bons botes!

No entanto o julgamento, dos ministros demittidos não se fará:--pelo menos no tempo da Monarchia. Ao inverso do ministerio Saint Hilaire, que não fugiu á responsabilidade em face do Parlamento francez, o governo portuguez demittido não se peja de fugir a ella. São de tal forma as engrenagens do systema constitucional que as maiores arbitrariedades se commettem e se perpetram, ficando na impunidade, na sombra do esquecimento, ou na velha alcofa d'essa trapeira que se chama _Politica_. Fallamos da politica monarchica. Mas é força que as cousas não continuem no mesmo pé! É preciso que á mingua da Lei juridica, se erga a Lei da Consciencia Humana! Que a cada attentado corresponda um castigo, que a cada perversidade corresponda um ferro em braza, que a cada abominação corresponda uma guilhotina moral! A espada d'essa lei moral devem vibral-a a Opinião Publica a Historia, o jornalismo, os poetas, os homens justos, os homens de consciencia lavada. Que todos elles repillam de si estes forasteiros, esses safardanas pulhas que especulam ha 50 annos com a Constituição, como especullaram com as bullas, no tempo de Leão X, e com agua de Lourdes no tempo de Pio IX. Que elles fiquem certos que os seus crimes não esquecem! Que elles fiquem scientes que as suas arbitrariedades não ficarão na sombra! Ha quem vela, e quem registra. É a Historia. Ha quem se indigna e quem decapita. É a Poesia.

É para isso que se escreveu este pamphleto.

Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:

+----------+---------------------+----------------------+ | | Original | Correcção | +----------+---------------------+----------------------+ |#pág. 7| ensanguenta | ensaguentada* | |#pág. 10| ás raizes | as raizes* | |#pág. 15| phamphletario | pamphletario | |#pág. 16| a chuva | á chuva | |#pág. 23| lua das florestas | lua da floresta* | |#pág. 27| cadellas acoutadas | cadellas açoutadas* | |#pág. 48| pelo luz | pela luz | |#pág. 48| s bre | sobre | |#pág. 49| gemer das flautas | gemer da flauta* | |#pág. 60| aonda | a onda | |#pág. 61| emq anto | emquanto | |#pág. 67| sa escreveu | se escreveu | +----------+---------------------+----------------------+

* correcções feitas com base na errata do próprio livro.

Os nomes próprios foram mantidos tal como foram impressos.