O Renegado a António Rodrigues Sampaio carta ao Velho Pamphletario sobre a perseguição da imprensa
Part 1
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Rita Farinha (Mar. 2009)
O RENEGADO
GOMES LEAL
O
RENEGADO
A ANTONIO RODRIGUES SAMPAIO
CARTA AO VELHO PAMPHLETARIO
SOBRE A PERSEGUIÇÃO DA IMPRENSA
LISBOA
TYPOGRAPHIA--Largo dos Inglezinhos, 27
1881
A
MANUEL DE ARRIAGA
Eu bispo d'outra diocese... Guilherme Braga
«Antonio Rodrigues Sampaio, do meu conselho, par do reino, presidente do conselho de ministros, ministro e secretario d'estado dos negocios do reino. Amigo, eu El-rei vos envio muito saudar como áquelle que amo.
Tendo na mais elevada estima os reconhecidos merecimentos que concorrem na vossa pessoa, e que haveis manifestado no honroso e illustrado desempenho dos mais altos cargos do estado, e em differentes e importantes commissões de interesse publico; e querendo por estes respeitos e pelo subido apreço em que tenho os vossos distinctos e revelantes serviços prestados á dynastia, ás instituições, á causa publica e á liberdade, conferir-vos um testemunho authentico da minha real consideração: hei por bem nomear vos commendador da antiga e muito nobre ordem da Torre e Espada, do valor, lealdade e merito, e elevar-vos conjunctamente á dignidade de gran-cruz da mesma ordem.
O que me pareceu participar-vos para vossa intelligencia e satisfação, e para que possaes desde já usar das respectivas insignias, vos mando esta carta.
Escripta no paço de Cascaes em 28 de setembro de 1881.--El Rei.--_Antonio José de Barros e Sá_.
Para Antonio Rodrigues Sampaio, do meu conselho, par do reino, presidente do conselho de ministros, ministro e secretario d'estado dos negocios do reino».
* * * * *
Já que El-Rei, teu Senhor--contra a sua Mãe cara, assim te premiou a ensanguentada offensa, eu, um Juiz tambem--Juiz d'uma outra vara, contra ti, velho Reu, lavrei esta sentença:
I
Eis-me em frente de ti, velho urso na caverna-- Eis-me em frente de ti erguendo uma lanterna, lanterna que accendi na grande escuridão sobre a plebe açoutada, erguendo a minha mão, lanterna que accendi n'esta éra ensanguenta, lanterna que accendi, como em sinistra estrada por causa dos ladrões perdido viajante. Eis-me em frente de ti, eis-me de ti deante cheio d'odio, rancor, com asco, sem respeito, perguntando-te, ó Velho--Onde está o Direito? O que fizeste ao Povo, á Consciencia, ao Brio? Onde está o Pudor, rude ancião sombrio? Quem és? Quem és? Quem és?... velho cheio de fel. Onde está ó Cain o teu irmão Abel?
Quem és? Quem és?... Ó gloria, ó nome hoje avitado? Tu foste a Alma do Povo--hoje és um renegado. Eu sou a voz do humilde e d'esses maltrapilhos, d'esses rotos e nus a quem mandaes os filhos ás palhas da enxovia em vez da luz da escóla. Eu sou a voz de baixo, eu sou o mar que rolla toda uma orchestra d'ais, um mundo de lamentos maior que a voz de Deus, e a voz dos grandes ventos, Sou a voz que maldiz, o pranto que suspira. Trago na minha mão a lampada da Ira.
Eu sou esse rebelde herege, extraordinario que chamo ao biltre um biltre, e a ti um latrinario, que préguei n'este tempo ás turbas assombradas a União e o Direito, e fui pelas estradas como S. Paulo foi na noute de Damasco, armado do Rancor, cheio do grande asco contra os Escribas vãos, os sordidos judeus, sem ver fender-se a terra, ou ver-se abrir os ceus. Nós hoje--os infieis--não cremos nos milagres. Não me importa que tu, ó Velho, me consagres o epitheto brutal de herege ou de maldito. Eu sou o Pranto e o Odio! Eu sou o Ai e o Grito!
Eu sou a voz da turba extranha e inominada que uma vez é soluço, outras a gargalhada que chamam _povileu_, a plebe envilecida, n'uma éra de sangue, uma éra fratricida riscada por um sol velho e sanguinolento. Eu sou o que Marat chamou o Soffrimento. Sou o que Ezechiel chamou Rebellião. Eu sou a voz do Pó, eu sou a voz do Chão. O que alguns chamam Zero, os outros chamam Charco. Ando a erguer uma Ponte, e a abrir um grande Arco.
Em nome pois do Povo, o velho e antigo cedro, sangrento como a cruz, e a quem como S. Pedro tens renegado sempre, ó sordido traidor, em nome da sua ira, e em nome do suor que elle verte a chorar, na Terra, o chão antigo, que faz córar a rosa e rebentar o trigo, em nome dos seus mil cuspidos sacrificios do seu Calyx, da Cruz, da Esponja, dos supplicios, das suas mães sem pão, seus filhos no abandono como um farrapo velho e como um cão sem dono, em nome da Miseria, em nome da Innocencia de tudo que ha de humano e grita na Consciencia, em nome do Direito, em nome d'esta Penna, escuta a minha voz, a voz que te condemna Tu foste n'outro tempo um homem justo, um crente, forte, obscuro, plebeu, filho da santa gente da plebe que trabalha, e com as mãos possantes sabe arrancar da terra as eiras e os diamantes, d'essa raça animal dos grandes infelizes que são na sociedade assim como as raizes que em quanto estão no chão, na solidão, no escuro, dando a seiva e o vigor ao tronco bem seguro, vivendo humildes sempre, obscuras, silenciosas --estão as folhas no ar, altivas, gloriosas, olhando para o azul sereno das espheras, todas cheias de flor nas verdes primaveras, sendo a gloria da leiva, a sombra dos caminhos, tendo as bençãos do Sol e os canticos dos ninhos.
Sim, tu foste um plebeu--da raça antiga e rude, que trabalha no escuro assim como a Virtude. Sim, tu foste um plebeu--raça obscura e sem luz, d'onde eu tambem saí, e d'onde vem Jesus.
Mas tu velho sem fé, mordeste-a como um cão. Atraiçoas-te-a, sim, e riste como Cham se riu do velho Pae dormindo n'um caminho! Sê maldito como elle, e seja o teu espinho o teu espinho eterno, o teu atroz tormento, ouvir-lhe sempre os ais e as maldições no vento!... Tu tinhas a teu lado outr'ora os homens fortes das Alas do Dever, todas as sãas cohortes dos grandes corações, ferreos, e verdadeiros, que trabalham na sombra assim como os mineiros, a lampada na mão augusta da Verdade, para arrancar do lodo o ouro da Liberdade. Tu tinhas a teu lado os corações valentes dos heroicos plebeus, todos fortes e crentes todos filhos, como eu, da Plebe, nossa mãe!... Mas tu, Velho sem fé, mas tu plebeu tambem, que ambicionavas já as pompas gloriosas, sentiste o asco e o horror d'aquellas mãos callosas que trabalham por nós noutes, dias inteiros, na officina, no val, nas minas, nos outeiros, e quizeste antes ser hoje o leproso Reu, de que ser como eu sou--simples, leal plebeu.
Vergonha sobre ti que tanto te abaixaste!... Vergonha sobre ti, Velho, que profanaste a fronte d'ancião, a auréola sagrada que seria por nós mais do que idolatrada, teus louros de escriptor, teu gladio justiceiro, terrivel como Deus, teus louros d'homem puro para os lançar, ó Velho, ao charco d'um monturo! Vergonha sobre ti e os teus cabellos brancos! Vergonha sobre ti que como os saltimbancos foste lançar teu nome ao vento d'uma feira! Vergonha sobre ti, que como uma rameira que vende os seios nus em sordida estalagem ao cobre do quartel e ao rir da marinhagem, em quanto a mãe talvez jaz sobre um catre morta, e o archanjo do Pudor geme e soluça á porta, foste vender a honra ao ouro d'um senhor. Vergonha em teus laureis, e sobre ti traidor que quizeste antes ser rico, ministro, e nobre, do que ser um _ninguem_--puro, plebeu, e pobre.
Vergonha sobre os vis apostatas da Idea que negam como Pedro o fez depois da ceia na noute de Sião, o Ceu e Deus trez vezes! Vergonha a quem entrega o Povo como as rezes, que levam a matar, balando, ao matadouro! Vergonha a quem trocar seu nome pelo ouro, sua aureola santa e seu brasão de gloria por um titulo em vida--e um pontapé da Historia!
Vergonha sob vós apostatas rafeiros que vendeis vosso deus pelos trinta dinheiros por que Judas vendeu esse de Nazareth! Vergonha sobre vós, apostatas sem fé messias sem pudor que andaes pelos caminhos prégando aos corações, embebedando em vinhos de gloria e de ideal, e que depois ao Povo esse sublime Ancião de peito sempre novo, o rafeiro infeliz de todos os Tiberios, açoutado de Deus, dos reis e dos imperios, mas que sempre enxotado--á chuva, ao vento, em pranto, leva sempre o seu deus nas dobras do seu manto, esse banido Ancião de todas as nações a quem vós atiraes á lucta e ás sedições, mas que um dia deixaes na beira d'um caminho, como um cego sem guia, esqualido, sosinho, n'um nocturno temporal, a errar de porta em porta, voltando embalde aos ceus sua pupilla morta.
Vergonha sobre vós, ó vendilhões do templo! Vergonha sobre ti, que eu marco, para exemplo de todos esses vis messias das viellas, mais vis do que ladrões, mais vis do que as cadellas, que vão vender aos reis as suas convicções!... Quiz pregal-os na cruz, roxeal-os com vergões do meu chicote em fogo, irado, justiceiro para que ao vel-os nús, expostos no madeiro da abjecção, do desdem, da vaia, da chacota ao escarneo, ao bofetão, á ponta vil da bota saiba o Povo afinal que é preciso escarrar no sacerdote infiel que vende o seu Altar.
II
Tu não sabes que gloria é ser pamphletario! É ser o vento rijo, o vento extraordinario que agita as multidões como um canavial, contra um farrapo regio, a purpura real contra os Ritos, os Reis, Symbolos e Tradições. É ser o que protesta, o que ergue os corações n'um arranque de heroe, á torre do Direito, é dar qual pellicano, o sangue do seu peito á Plebe sua mãe, como elle o dá aos filhos. É ser o que não és. É não trocar os brilhos d'uma libré real, d'um servo, d'um lacaio, pelo seu Verbo um gladio, e pela Penna um raio. É ser o que protesta--o que ergue uma lanterna na grande escuridão, na escuridão moderna, contra um rei, um Czar, altivo, omnipotente a favor do _ninguem_, da Plebe, do innocente.
É ser elle sósinho o Verbo, o gladio, a penna, a espada que degolla e o grito que condemna. É ser elle sósinho, altivo rebellado, o grito do mineiro e o espectro do enforcado que vem correr d'um leito o cortinado régio. É ter esse condão, o enorme privilegio d'erguendo as mãos ao céu, como sagradas palmas, fazer gritar a espada e levantar as almas! É ver-se ás vezes só, pobre de terra em terra, na floresta, no val, nas rochas ou na serra, á neve, á chuva, aos soes, nas névoas estrangeiras, nas selvas tropicaes, nas minas, nas geleiras pela neve polar, no exilio, nas ruinas, --mas seja na prisão, nos gelos, ou nas minas, mal soar o seu nome--alevantar-se um peito e gritar:--Elle é que é a Espada do Direito!
Ser pamphletario é--ser um pharol na noute ser a pedra angular, Patibulo e Açoute. É ter todo um vulcão em lava no seu craneo, toda a Plebe agitar, do seu subterraneo, como agitou Marat,--ou aguçar a espada contra os reis, como fez Rousseau na agua furtada. É estar sempre sósinho, altivo, no seu posto, quando muitos teem medo, e os mais voltam o rosto ser chamado um hereje--e as pallidas mulheres quando veem surgir esses extranhos seres apertarem ao peito as timidas creanças. É andar pobre, exhausto, humilde como as granças errante, só, banido, exhausto pela terra, --mas quer seja na paz, ou quer seja na guerra, quer nos paços reaes, nas praças da Cidade a sua voz gritar--Alas á Honestidade!
E ser emfim tremendo, austero, altivo, e bom, frio como é a Lei, frio como Proudhon, chicotear sem dó os lombos dos Heroes, vender como Marat, na fome, os seus lençoes, mas nunca se vender, mas nunca transigir! É saber odiar, decapitar, punir e não se rebaixar nunca como um capaxo! É ser a voz de ferro, é ser a voz de baixo, que aterra a noute vil d'um seculo maldito. É ser a voz da Plebe, é ser o grande grito n'uma éra de luto, infame, ensanguentada em que a Musa do Amor quebra a Lyra dourada e morre como outr'ora amando o Raphael. E ter odio, é ter ira, é ter despreso e fel contra uma horda vil de infames sacripantas. É levantar ao ceu livres espadas santas todos os campeões das Alas do Rancor. É gritar, é gritar--«Eu sou o _Odio_--_Amor_, «O Odio que tem sêde, a voz do que tem fome, «a voz d'aquelle infeliz, a quem não dão um nome «que morre n'uma estrada, ou morre n'uma lucta «sem bençãos e orações--como uma prostituta. «Sou a voz do _ninguem_, a voz do cannavial «que soluça, e não quebra ao rijo temporal, «sou a voz do que chora, a voz do que suspira, «o que ergue, alta, na mão a lampada da Ira, «o que chamou a si os _tristes_, exilados «sob as tendas de Cham, todos os desgraçados «que vagueiam na terra exhaustos e banidos, «o que chamou a si todos os opprimidos «todos que tinham sêde assim como Ismael «e tragavam na treva a sua cinsa e fel! «Eu não sou como vós uma bexiga cheia «de colera, de fel, de inveja que guerreia, «e vem lançar á rua a sua roupa suja! «Eu não sou como vós um _corvo_, uma coruja «que me nutra a cevar nos que se vão ao nada! «Eu chamei junto a mim toda a alma amargurada, «tudo que é fraco, chão, vergado de trabalho, «tudo que empunha a enxada ou que maneja o malho, «tudo que andam vendendo ha muito com as rezes, «que vivem na abjecção e são chamados _fezes_ «que chamam _povileu_, que chamam a _gentalha_, «e gritei-lhes--Ávante! É hora da batalha!
Ora este hereje pois, ora este pamphletario, que assim sabe escarrar no biltre e no sicario, este homem do Dever, este homem do Direito, que em vez d'uma grã cruz, traz seu Odio no peito, que em quanto toda a escoria, em toda a redondeza dobra e curva o joelho aos thronos e á Realeza, que em quanto tudo quer ser despota e opulento elle escolheu ser pobre, o exilio, o isolamento, que em quanto tudo pensa em Luxo ou nos ruidos, quiz ser a voz de ferro, a voz dos opprimidos, que em quanto tudo adula e lisonjeia o Forte, elle defende o fraco, e expõe o peito á Sorte, quando uns curvam-se ao Tudo, elle defende o Nada, faz do Direito açoute, e faz da penna espada, e diz a um rei, um Czar, um déspota potente --Senhor, vós sois o cedro olympico, inclemente o vendaval da Terra, a sombra dos Tiberios, o furacão da Plebe, o açoute dos imperios, terror dos generaes, dos reis, dos condestaveis. --Eu sou como Jesus chefe dos miseraveis!... Depois erguendo ao ceu a sua Penna eterna: --Vós tendes o _knut_--eu tenho esta lanterna.
Este homem inda que pobre, inda que perseguido, roto, obscuro, plebeu, humilde, mal vestido, inda que triste e só no seu isolamento, ao pé do grande Czar, n'este cruel momento, inda que pobre e vil, inda que maltrapilho é tanto como um Deus, e mais do que um seu Filho.
Assim foste tambem, ó Velho solitario! Assim foste tambem grande pamphletario que soubeste elevar a eterna Alma do Povo! Assim foste tambem quando eras puro e novo e sabias levar á guerra os corações, quando eras um açoute e o deus das multidões que vinham em tropel beijar os teus joelhos! Mas hoje tu o que és--escoria d'entre os velhos refugo de traidor, ó renegado hostil! Mas hoje tu o que és, ó lixo impuro e vil! alma atirada ao estrume, alma aviltada e fraca!...
És o que se vendeu!--Tu és uma cloaca.
III
Ó seculo de ferro! ó geração escrava! que ouves Satan ladrar na noute do Evangelho, no teu sollo do Mal, sobre teu sollo em lava, cae a agua do ceu como n'um poço velho! Sim a agua do ceu que faz viver a flôr mal que no poço cae transforma-se na lama! Ó seculo de ferro, ó seculo de horror, que fazes tu da Voz, que em teu deserto clama? Que fazes tu da Voz que ouço passar nos ventos, prégando a Negação, n'um funebre arrepio, que ouço clamar na noute em uivos e em lamentos como um ladrar feroz de ruivo cão sombrio? Que fazes tu da Voz dos teus prophetas santos que dão prantos de sangue ás tuas vexações, e do carro de fogo arrojam os seus mantos que arrastam á Revolta o mar das multidões? Que fazes tu? Tu ris! Tu vaes como a rameira vender teu deus, teu ceu, tua honra ao lupanar. A Justiça tornou-se em velha alcoviteira. A Egreja ri na orgia, e Christo deixa o Altar! O Desespero crú esparge o seu veneno na taça d'ouro e onyx das jovens illusões. O Odio faz ouvir o seu terrivel threno. O Mal com a tenaz aperta os corações! A virginal Poesia, a virgem d'alvas vestes ergue aos ceus suas mãos, brancas como o alabastro. Traz a Lyra na mão vestida de cyprestes. Seu santo coração flameja como um astro! Só ella faz ouvir n'um seculo corrupto sua Lyra de bronze ao temporal da Sorte! Só ella faz ouvir seu alaúde em luto que dá notas crueis de Maldição e Morte. É só ella que empunha o seu chicote em fogo como o açoute de ferro indomito de Deus, para açoutar os reis, o falso demagogo, os biltres charlatães dos reis e dos plebeus. É só ella que faz na noute secular, na sua Lyra ouvir--não canticos d'amor-- mas as notas fataes que entornam o luar da Ira, do Desdem, do Odio e do Rancor. Achegae-vos a mim, tristes, terriveis Lyras, que já tendes chorado e que sabeis rugir. Quero em cordas de bronze os canticos das iras! É preciso açoutar, decapitar, punir!... Deixae agora o Amor e as brizas da bonança! Minae-me o Despotismo esse colosso rhodio! Pela noute vibrae as notas da Vingança. Sobre a Lyra cantae os canticos do Odio.
Ó poetas do Amor deixae vossos idyllios, os atalhos do bosque e a lua da floresta! Deixae a musa fresca e simples dos Virgilios, n'uma éra de sangue inhospita e funesta! Deixae de nos cantar o Tedio e o Desengano, as nuvens da montanha e os sinceiraes do val! porque o mundo talvez espera o seu Tyranno. A Terra vae parir algum Christo do mal. Deixae de nos cantar as nuvens da bonança, e a flor dos laranjaes que o vento faz bulir, por que em breve já vem a hora da matança em que a Espada tem voz, e as torres vão cair. Eu tambem vos cantei, ó cantos langorosos, ó nuvens da manhã, ó flor da romanzeira, ó torrentes do val, ó beijos amorosos da Mulher que se amou n'uma visão primeira! Tambem já te cantei, estrella do pastor, ó danças sobre a eira, ó lua das marés. Mas hoje a minha voz é rouca como a Dôr, terrivel como a Espada e o tribunal dos Dez. Abandonei-te ó Amor! Meu rir fez-se tregeito. Meu pranto fez-se fel, a voz tornou-se berro. Foragido dos reis, armado do Direito faço vibrar na Lyra os canticos de ferro.
IV
Pobre mulher sem pão, quando de porta em porta tendo batido em vão foste á do lupanar, e ali deixaste a honra e a virgindade morta, como noiva infeliz que levam a enterrar! quando foste bater, chagado coração ás portas soluçando, e que ninguem te abriu, e o leito do bordel quaes taboas d'um caixão te sepultou em vida, e teu calor cingiu! quando tendo sonhado um sonho aureo e esplendente, illusões d'uma infanta e os sonhos d'um donzel, viste tudo findar na enxerga repellente do teu leito de infamia--o catre do bordel! Quando tendo elevado ao ceu teus magros braços, como outr'ora Jesus o fez nas Oliveiras, só achaste o silencio e o echo dos teus passos, o riso da cazerna e a noute das rameiras! quando ó loura mulher no berço excommungada por um Destino ferreo, inhospito, infeliz, por tua propria Mãe talvez abandonada, pobre flor que hão lançado ao pantano a raiz! Quando foste forçada ás bachanaes rasteiras, e a despir e a manchar as brancas vestes tuas, e a deixar teu amor na lama das regueiras, como os sedentos cães que vão beber nas ruas! Quando ó filha do Povo, ó pobre filha impura, que uma mãe não beijou, que um Pae não protegeu, achaste a Fome vil, velha de boca escura, n'uma rua infernal, por um chuvoso ceu! quando ó dahlia da Dôr, planta dos atoleiros, pobre filha do Povo, exhausta, quasi exangue, tu vaes servir de gaudio á noute dos banqueiros, sentindo dentro em ti as lagrimas de sangue! quando ó selvagem flor, ó poça do abandono, sem lagrimas de Mãe, sem osculos de irmão, a Fome te obrigou qual magro cão sem dono a buscar na valleta o teu immundo pão! Dize sabias já, rainha da enxurrada, ave que não tens ninho e que empurrou a Fome que ha entes como tu--raça vil, condemnada, que vendem seu pudor, que vendem o seu nome? Dize sabias já, loura infeliz sem pão que um seductor manchou, ou que uma Mãe vendeu, que ha quem venda a sua honra, a gloria, o seu brasão, sem terem como tu os chascos e o labeu? Dize sabias já que em quanto vaes na praça entre um circulo vil de chascos quaes facadas, elles vão affrontando a multidão que passa, em gloriosos trens de portas brasonadas? Dize sabias já, ó branca meretriz, que aos homens como cães cedes teu corpo nú, que ha torpes malandrins, gloria do seu paiz, mais vis do que os ladrões, mais rameiras que tu? Tu não sabes talvez, ó lama apedrejada, por toda a rua hostil, por toda a rua séria, a distancia que vae dos _outros_ ao teu nada. Ó tres vezes cruel! tres vezes vil Miseria! Porém eu um rebelde ás Praxes como espadas, entre a mulher sem pão e os pifios cannibaes, ó prostitutas vis! cadellas açoutadas! Ó rameiras da rua!--eu vos respeito mais.
V
Velho, escuta, esta voz.--Eu não sei perdoar: frio como um Destino eu heide-te açoutar até te ver em sangue os lombos aviltados! No estrume arrastarei teus louros profanados, que jazerão no esterco infame das viellas, onde vagam á lua os ébrios e as cadellas. Marcarei para exemplo, ao mundo o renegado que depois de haver rido, haver calumniado uma Esposa, uma Mãe, um Lar, uma rainha, --no que ella de mais puro e mais sagrado tinha!-- n'isso que doe cruel, que mais o peito enluta, depois de lhe chamar a _grande prostituta_ nada achou mais abjecto, e nada achou mais baixo que ser do filho-rei o humillimo capaxo, nada achou mais servil, para apagar a offensa, do que vender a penna e perseguir a Imprensa! Lodo do Homem vil, ó barro da Paixão, ó abysmo d'uma alma, ó rei da Creação, foi Satan que te pôz o diadema escuro! Pode-se assim sem dó zombar do seu Futuro, macular para sempre a virginal gloria, cuspir, manchar, polluir as paginas da Historia, e envergonhar a campa humilde dos plebeus que foram os seus paes--e a pobre mãe nos ceus, matar os louros seus--aviltação eterna! como um ebrio que morre em chão d'uma taberna? És tu que fazes isto, ó Alma, ó Alma etherea? Acaso és tão medonha ó funebre Miseria, acaso és tão infame, ó magra Messalina, que obrigas uma alma, essa porção divina, essa faisca eterna, eterna claridade, a assassinar sem dó a branca virgindade do seu passado santo e virgem coração, e arremessal-o ao mar no fundo d'um caixão?
Acaso ó ouro és tu--tu que nos fazes nobre? É tão terrível ser--puro, plebeu, e pobre,-- é tão torpe, é tão vil, ser simples mas honrado, que quer o ouro infernal, que quer o ferreo fado, que em certo dia vil--dia vil entre os dias,-- se atire uma risada ás santas utopias ás crenças virginaes da loura Mocidade á aureola ideal d'aquella santa edade, e vendam-se os laureis e o Verbo que era o raio, pela libré d'um servo e a farda de um lacaio? Não! Não tem remissão este teu crime, ó Velho! Já que tu foste exemplo, e outrora foste espelho, o teu crime é mais vil, funesto, escandaloso! Se tu ficas impune, um dia ou outro, um gozo, faminto como tu, irá lamber o manto do Symbolo Real, todo orvalhado em pranto, e de rastos, no chão, beijar o pó do throno. Por isso vou marcar-te infame cão sem dono, e fundir-te com chumbo ao corpo essa colleira. Vaes ouvir a Justiça--a augusta, a verdadeira, a terrivel, a eterna, a antiga, a sempre forte, a que ouve e que vê n'Alma, a que condemna á morte, com seu dedo de luz no livro do Futuro, a que arroja á gehenna eterna do monturo, e que com ferro em braza escreve os tristes fins dos juizes Caiphás, dos pifios Severins, e d'outros a quem heide em breve tomar contas! Vaes ouvir a que pune as lividas affrontas, a que gela no labio as phrases começadas, que ha de julgar Thiers de cãs ensanguentadas, pelas suas crueis, fataes carnificinas, a que condemna os reis e as tropas assassinas, a que forma e dirige a Alma Universal. Entra ó sinistro reu! Abriu-se o tribunal.
*A Plebe* (levantando os braços, clamando)