O Regicida

Chapter 8

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--Eu fallarei baixinho, sr. marquez--replicou Domingos Leite, quasi em segredo--Perdoe-me V. Ex.ª estas explosões; são relampagos sem raio. Eu não faço mal a ninguem. Sou um proscripto... um proscripto da laia de João Lourenço da Cunha, que lá em Castella usava pontas de ouro. Ora eu, que sou pobre, heide usal-as... da sua natural materia...

E riu rispidamente, esfregando com phrenesi as mãos nos joelhos, com umas figurações de louco.

--Valha-me o ceo!--tornou o marquez de Gouvêa--Cuidei que o infortunio de muitos, em casos desta natureza, lhe daria o exemplo do que é a verdadeira dignidade de um marido...

--Qual é? o despejo?

--Não: é o desprezo.

--E por ventura que sinto eu senão o desprezo por ella? Mas a mim é que eu não posso desprezar-me tambem, sr. mordomo-mór! De uns homens, como o conde D. Gregorio Castello Branco, sei eu que não só não desprezam mas até acatam suas mulheres, se D. João IV houve por bem diffamar-lh'as. Não sei se esta tolerancia é cortezia apprendida na frequencia da côrte. Eu... bem sabe V. Ex.ª que sou da arraia miuda, e creio ainda que me seria mais airoso ter uma esposa honesta que ter-m'a no seu leito el-rei nosso senhor...--E ria-se!

--Meu amigo--redarguiu tanto ou quanto impacientado o mordomo-mór--desculpo-lhe o desabafo das ironias, e até lhe desculparia as mais aceradas injurias a quem quer que fosse; mas não é assim que o seu destino hade melhorar, sr. Leite. Respeitemos a fatalidade e remediemos o que poder ser.

--Diga V. Ex.ª, meu nobre amigo.

--Sua mulher, querendo ir para Castella unir-se a seu marido com sua filha...

--Ella!.. ella unir-se a mim?

--Ou subjeitar-se ao despreso, com tanto que podesse aliviar-lhe a desgraça levando-lhe a menina, sua mulher, repito, quiz vender os bens; mas a justiça impediu-lh'o. Consultou-me sobre solicitar d'elrei a licença; eu desapprovei-lhe semelhante recurso; ella menospresou o meu conselho, e fallou ao rei. Mal sei o que passou entre ambos. O que facil me foi saber de pessoa competente foi que el-rei, por intermeio de Antonio Cavide, é hoje o que o sr. Leite sabe. Agora que de fugida lhe disse o que me affligiu grandemente referir-lhe, vamos ao ponto, vamos satisfazer o motivo que o trouxe a Portugal. Quer sua filha?

--Sim, sr. marquez.

--E, obtida ella, retira-se sem estrondo, sem escandalo?

--Immediatamente.

--Pois então vá o sr. Domingos Leite para sua casa, e ámanhã dê-me ponto onde eu o encontre ás dez da noute. Não venha aqui. Onde se alojou?

--Na caza deshabitada de um amigo.

--Aonde?

--Na rua dos Vinagreiros. Seria difficil a V. Ex.ª achar de noute o numero da porta.

--Espere... Ás nove em ponto o meu coche hade estar nas teracenas. Vossemecê vai aforrado, entra, e lá me encontra. Então lhe darei noticia das minhas diligencias de ámanhã. Entretanto, se eu antes d'essa hora tiver precisão de lhe dar aviso, como hade ser?

--Em casa de Maria Isabel está um criado a quem V. Ex.ª pode mandar qualquer aviso, que elle irá communicar-m'o.

--Tranquillize-se, sr. Leite, seja homem; sem isso não pode lograr a satisfação de ser pae extremoso.

Domingos Leite curvou-se até beijar a mão do marquez, e sahiu.

XVI

Esperava-o Bernardo com o ouvido collado ao postigo.

Domingos Leite entrou no quarto do criado, sem sensivel mudança no rosto. Palavra, que denunciasse as revelações do marquez, não proferiu alguma. Bernardo perguntou-lhe a mêdo se descobrira a paragem da senhora. Respondeu que não: disse verdade.

Conversaram ácerca de Angela. O pai perguntava coisas tão insignificantes que parecia futilissimo, se não fosse desgraçado em extremo. O criado insistiu outra vez em lhe recontar o caso de ser a menina açafata. Transtornaram-se as feições do amo. Ouviu-lhe o escudeiro um ringir de dentes asperrimo, e um como rugido estrangulado nos gorgomillos. Ás duas horas da noute, Domingos Leite pediu ao criado alguns sobejos da sua ceia. Sentia-se esvaecer de fraqueza. Comeu e disse:

--Aqui tens meio cruzado pela ceia e pelo repouso de duas horas.

--Ó meu amo!--exclamou Bernardo--vossa mercê falla serio ao seu velho criado?!

--A ceia deu-te a soldada de tua ama e a casa em que me abrigas d'ella é. Tu vendes-me parte do que é teu.

--Não o intendo, senhor.

--Deixa-me encostar a cabeça, que ha quatro noutes que não durmo e hei medo de insandecer. Antes de romper a manhã, acorda-me.

Pouco depois, Domingos Leite, sopitado em lethargia de febre, sonhava alto, pronunciando vozes que gelavam de pavor o criado. Eram apostrophes em que o nome suavissimo da filha se envolvia com expressões indecentes e epithetos que entram sem rebuço nos alcouces. De mistura, estallavam ameaças de sangue, e a palavra _rei_ soava bem distincta por entre as objurgatorias que a precipitação tornava inintelligiveis.

O escudeiro, mais supersticioso em sonhos que esperto em tirar inferencias da vida real, compoz com as phrases soltas que ouviu a desgraçada situação de seu amo. Chorou então copiosamente ajoelhado á beira do catre.

Á hora em que devia chamal-o, o amo adormecera serenamente e a febre remittira. Bernardo pediu conselho ao seu retábulo do Senhor dos Passos, sobre deixal-o descançar ou espertal-o d'aquelle tão curto dormir. Figurou-se-lhe que a vontade divina lhe inspirava que deixasse o infeliz restaurar forças para succumbir depois de muitas e acerbas batalhas.

Era já nado o sol havia muito, quando Domingos Leite espertou. Bernardo, entre receios e lagrimas, disse-lhe que o não chamara, porque á hora aprazada adormecera seu amo, depois de arder em febre agitadamente.

--Mas porque choras tu?--perguntou Domingos Leite.

--Porque choro, senhor!... Ai! quem o viu, quem o viu, meu querido senhor!

E abraçou-se n'elle, abafando-lhe os gritos no seio.

O infeliz deixava-se abraçar, e murmurava:

--É verdade, Bernardo!... quem me viu!... O que era eu ha sete annos! Tão festejado, tão alegre, tão rico, tão esperançado... E agora!... sabes tu lá quanto eu sou digno de compaixão!...

Não tinha o ceo beneficio maior a dar-lhe que o d'aquella torrente de lagrimas...

--Como heide eu sahir d'aqui a tal hora?--disse elle ao criado.

--Se não tivesse grande precisão de sahir, que mal estaria aqui vossa mercê?--e proseguiu com risonho modo--Se ficar, paga-me o alimento e a dormida...

--Ficarei--conveio Domingos Leite--Olha, Bernardo se eu podesse ver a cama de minha filha... o berço, aquelle berço em que ella ás vezes dormia no meu quarto...

--Lá está ainda debaixo do leito de vossa mercê. Nunca mais entrou alguem na sua alcôva. A menina muitas vezes pediu á mãe que a deixasse lá entrar; mas a senhora--isto vi eu!--indo uma vez a entrar, para fazer a vontade á filhinha, assim que deu com os olhos nas coisas como vossa mercê as deixou, rompeu em tal choro que sahiu d'ali quasi nos meus braços.

Domingos Leite interrompeu-o asperamente.

--Cala-te, homem... O nome d'essa mulher nunca mais o pronuncies na minha presença, se me estimas!

Pareceram rapidas as horas d'aquelle dia a Domingos Leite.

Encerrou-se no seu quarto, lendo e rasgando papeis tirados dos seus contadores, memorias da sua mocidade, extractos das suas leituras, escriptos politicos com que seu talento ganhara a estima do marquez de Gouvêa, bilhetes de João Pinto Ribeiro e do desembargador João Sanches de Baena, de incumbencia ou de agradecimento de serviços prestados arriscadamente ao duque de Bragança.

A espaços, o escudeiro encontrava-o com a face debruçada sobre os braços, amparando-se no bofete. Quedava-se o velho soffreando a respiração para o ouvir dormír; e ás vezes confundia os soluços com o alto respirar d'um somno irrequieto. Outras vezes achava-o curvado sobre o espaldar do berço, com os olhos marejados a embevecerem-se na almofada, em quanto o leitosinho se balouçava movido pela mão.

Neste lance temia o velho que seu amo enlouquecesse, parecendo-lhe muito mulherengo aquelle acto de estar um homem acalentando um berço vasio.

Ahi pelo meio da tarde, o guarda-portão do marquez de Gouvêa procurou o escudeiro de Domingos Leite, e, com muito resguardo, o encarregou de levar um papel lacrado a seu amo.

Bernardo fôra prevenido desta mensagem. Acceitou carta, sem dizer ao portador que seu amo estava ali.

O contheudo era a prorogação do encontro para a noite do seguinte dia, visto que nada podia resolver sem mais algumas horas de actividade.

O mordomo-mór não tinha descançado. Vamos no encalço d'este leal amigo de Domingos Leite Pereira.

A hora desacostumada na manhã d'aquelle dia fôra em seu coche acordar o secretario d'estado Antonio de Cavide. Relatou-lhe, tão ingenuo quanto imprudente, a vinda clandestina do marido de Maria Isabel, de proposito para levar a filha comsigo a Madrid, e continuou:

--Tem V. S.ª[8] occasião de fazer grande serviço a el-rei, á sua amante, á filha de Domingos Leite, a este desgraçado homem e a mim. Tantos favores a tantas pessoas em pouco esforço estão. Consiga V. S.ª que Maria Isabel me entregue a menina que eu lhe prometto sahir Domingos Leite de Portugal na mesma hora em que eu lh'a restituir. Por este modo, evitamos que o marido exasperado publique o destino da mulher; evitamos dissabores a el-rei; evitamos grandes pesares e talvez remorsos a essa mulher, finalmente resgatamos a menina de uma situação pouco exemplar.

--Diz V. Ex.ª optimamente--obtemperou Antonio Cavide--Vou vestir-me, e saio em direitura para Alcantara a procurar Maria Isabel. Não sei se poderei vel-a, porque el-rei está hoje a caçar na tapada do palacio, e a sua _Diana_ deu agora em querer segurar a tréla dos falcões--ajuntou o velhaco sorrindo--No entanto, aguardarei __ o ensejo de me ver a só com ella. V. Ex.ª conhece o genio de el-rei. Se eu lhe digo que o temerario Domingos Leite, affrontando a justiça, ousou metter-se em Lisboa, temos na rua os corregedores todos com a sua matilha de esbirros na piugada do pobre homem, que será aperreado depois do que nós sabemos...

Aqui arregaçou o secretario outro riso infame e prosseguiu:

--O melhor será que ella diga a el-rei que de seu moto proprio envia a pequena ao pai. El-rei não lh'o impede, porque a presença da creança o estorva; e as coisas feitas assim ficam excellentemente feitas.

--Muito bem--concordou contentissimo o mordomo-mór--A que horas calcula V. S.ª poder responder-me?

--Ás duas da tarde devo estar de volta de Alcantara. O Domingos Leite está hospede de V. Ex.ª?

--Não, sr--respondeu ingenuamente o marquez--disse-me que se recolhera á rua dos Vinagreiros, e eu fiquei de me encontrar com elle á noite, ou avisal-o hoje de qualquer nova.

--Pois eu vou satisfazer a V. Ex.ª; entretanto, esse infeliz que tenha cuidado sobre si, porque de Madrid tem vindo confidencias a el-rei muito aggravantes para Domingos Leite e para o tal Roque da Cunha, que assassinou o padre Silveira. Eu ouvi dizer a Gaspar de Faria Severim que, precisando de um fino espião em Madrid, o patife mais ajustado ao intento era o tal Roque da Cunha; e sua magestade, que conhece os mais egregios malandrins de Portugal e conquistas, approva o alvitre. Domingos Leite que se precate... Isto revéllo eu muito á puridade a V. Ex.ª por saber quanto esse desafortunado homem lhe é agradavel, e os bons serviços que elle fez na restauração, escrevendo e fallando nas juntas do padre Nicolau da Maya.

Retirou-se o marquez muito agradecido e esperançado no bom exito da sua discreta ideia.

Antonio Cavide foi sem detença a Alcantara, apeou á porta do palacio real, e soube que elrei estava almoçando. Perguntou se sua magestade era sosinho; e, como lhe respondessem affirmativamente, deixou o côche, e foi a pé em demanda de um palacete contiguo ao mosteiro das religiosas do Calvario.

Residia ahi Maria Isabel Traga-malhas com sua filha, criadas e pagens. A visinhança não a presumia theuda do monarcha. O fausto do viver justificava-o naturalmente a fama dos seus teres. Dizia-se que a desgraça do ex-escrivão do civel, seu marido, fôra causa d'aquella retirada para longe do concurso da gente, e que o avisinhar-se de mosteiro tão rigoroso era já indicio de profunda piedade a que se acolhiam enormes desgostos. Isto resava a opinião publica que resa sempre bem.

D. João IV recebia Maria Isabel, a horas mortas, por uma porta do extremo da tapada. Ás vezes, passavam-se dias inteiros sem que sua magestade alvorotasse os gamos e veados da floresta; outras vezes, o real caçador, com a escopeta atravessada sobre as pernas, e a fronte pendida ao seio da sua _Diana_, como dizia o secretario, ouvia os gorgeios dos rouxinoes emboscados nos olmedos e espinheiros. A opinião publica não dizia isto: era Antonio Cavide, e mais algum fidalgo da intima confiança do rei, que o segredavam entre si.

Annunciou-se o ministro a Maria Isabel. Sahiu a recebêl-o a açafatasinha, e d'ahi a pouco a mãe com semblante de quem se espantava e assustava da visita.

Expoz Cavide a sua mensagem, segundo o plano convencionado com o marquez. Interrompera-o ella com exclamações, com esterismos, já corando, já empalidecendo; quando, porém, o expositor chegou ao ponto essencial, aconselhando a entrega da menina, Maria Isabel replicou inflexivelmente que não dava sua filha, e que ninguem lh'a arrancaria dos braços.

Desanimou o agenciador, receando desvaliar-se aos olhos de el-rei nos olhos da sua amante. Pediu perdão de a ter aconselhado, beijou-lhe mesureiramente a mão, e ergueu-se para sahir.

Perguntou-lhe, ao retirar-se, Maria Isabel se seu marido se alojára na casa do Salvador. Respondeu Cavide que lhe constava estar Domingos Leite na rua dos Vinagreiros.

Antes de duas horas da tarde, o marquez sabia que as diligencias do secretario se malograram. Tergiversou entre desenganar e esperançar Domingos Leite. Venceu-se alfim do mais generoso pensamento, resolvendo ir pessoalmente fallar com Maria Isabel, calculando reduzil-a com o vaticinio das funestas consequencias da sua recusação.

Quando ás quatro horas da tarde a procurou, a dama era fóra de casa, posto que a sua aia dissesse estar de cama com subito incommodo. Maria Isabel, sem prevenir o seu real amante, nem usar grandes resalvas de honestidade, entrou no atrio do palacio com Angela pela mão, e foi conduzida reverentemente ás salas.

D. João IV, mais contente que sobresaltado da inesperada visita, foi receber a gentil comborça ainda mal enchuta das lagrimas. Referiu ella com entrecortadas vozes, sem pejo da filha, e quasi deitada nos braços do rei, o que passára com Antonio Cavide, e concluiu mostrando-se receosa e até certissima de que Domingos Leite, não lhe tirando a filha, seria capaz de matal-a. Era sincera no seu terror.

Tranquillisou-a o rei; e, sem medear tempo, mandou chamar Antonio Cavide. Apartou-se com elle, e deu-lhe ordens rapidas. Ao cahir da noute, o secretario d'estado entrava em Lisboa, a tempo que o marquez, por palpite de maior desgraça, sabendo que o valido fôra chamado a Alcantara, o estava esperando no seu palacio.

Cavide, vendo o mordomo-mor na sua sala de espera, acercou-se d'elle, e disse-lhe ao ouvido:

--Não ha tempo a perder. V. Ex.ª saiba corresponder a esta confidencia... Domingos Leite que se esconda, que fuja, porque vai ser preso. Adeus. Vou procurar o conde de Odemira; vou cumprir ordens d'el-rei. O amor é o diabo, sr. marquez, o amor é o diabo! Estas Dalilas tosquiam o nosso Sansão, e queira Deus que o templo se não alúa sobre elle e sobre nós...

--Biltre!--disse de si comsigo o marquez.

Era noute cerrada.

O mordomo-mór só confiou de si o melindroso aviso. Disfarçou-se com a maior precaução, e foi á porta do Salvador.

Domingos Leite esperava ainda alguma nova, quando o escudeiro abriu a porta ao desconhecido, que se intitulou enviado da pessoa que já ali tinha mandado recado a seu amo.

Esquivava-se a dar-lhe entrada, quando Leite Pereira reconheceu a vóz do marquez. Subiram para o primeiro sobrado. A terrivel noticia revelava-se no aspecto do consternado fidalgo. Domingos comprehendeu-o.

--Nada feito, sr. marquez?

--Nada feito. Serei breve porque o tempo urge. Cavide fallou a Maria Isabel na entrega da filha. Foi repellido. Quiz eu experimentar a condição d'essa mulher. Procurei-a; mas não estava em caza. Devia estar com el-rei. Perto da noute soube que o conde de Odemira ia ser encarregado da sua prizão.

--Ainda bem!--exclamou Domingos Leite--Quero ser prezo!

--Não diga absurdos, que me faz arrepender de lhe votar tamanha amisade! Quer ser preso! para que?

--Direi entre ferros quem é o rei de Portugal!

--Não dirá nada entre ferros, porque ha mordaças. De sobra sabia Francisco de Lucena quem era D. João IV, e nada disse, morrendo innocentissimo, e D. João IV de sobra sabia que Lucena morria innocente... e deixou-o morrer. (_Nota 22.ª_) Não me conteste nem resista, que perde o unico amigo que tem no reino. Fuja sem demora. Vá para Madrid, se não prefere antes ir para França. Eu, á força de idear traças de lhe restituir sua filha, heide conseguil-o cedo ou tarde. Espero commover o rei, pintando-lhe a dor do infeliz marido e pae...

--De modo nenhum!--obstou Domingos Leite com azedume--Peço-lhe que me não avilte, sr. marquez! Deixe-me morrer com dignidade! Não quero a misericordia do tyranno, do adultero, do devasso, que eu por entre punhaes de castelhanos e de portuguezes acclamei em Evora. Não quero d'esse homem senão um saldo de contas que se hão de liquidar...

--_Sio!_--atalhou o marquez, tapando-lhe a bôcca, e sopesando os cabellos que se lhe irriçavam de terror na fronte gelada.--Cale-se, mentecapto!... cale-se! que, senão, eu maldigo a hora em que vim aqui!..

--Perdão, meu nobre amigo!--volveu Domingos Leite--Se v. ex.ª se arrepende de vir aqui, repêso me sinto eu tambem de o haver procurado. Entretanto, como v. ex.ª se me figura traspassado de um certo horror de cumplicidade nos meus propositos de vingança, o meu dever é preserval-o de susto, retirando-me ámanhã para Castella.

--Ámanhã não, hoje, é urgentissimo que seja hoje; porque, ao raiar da manhã, esta casa póde ser rodeada de quadrilheiros.

--Em tal caso vou retirar-me para outra casa que tenho, e sahirei d'ella ao romper do dia.

--Vae para a rua dos Vinagreiros?

--Não, senhor marquez... E, quando fosse, quem denunciou o meu esconderijo da rua dos Vinagreiros?!

--Fui eu por imperdoavel imprudencia a Antonio de Cavide. Cuidei que o tinha compadecido, e hoje receio que elle dirija para lá e para aqui ao mesmo tempo os aguasis.

--Vá v. ex.ª descançado que não heide ser encontrado aqui nem lá.

--Meu amigo do coração!--clamou o mordomo-mór abraçando-o--Adeus! adeus! fie de mim o seu futuro, o seu perdão, e a entrega da sua querida filha!

XVII

Aos primeiros assomos do dia seguinte, a casa de Domingos Leite e a de Francisco Mendes Nobre, eram invadidas pela justiça dos corregedores de dois bairros. A da rua dos Vinagreiros foi arrombada, e a outra exposta á busca pelo escudeiro. Bernardo, como gaguejasse nas respostas, foi preso, conduzido, e posto a tractos. O velho, apenas as puas da roda compressas a torno lhe deslocaram os ossos dos braços, confessou que Domingos Leite, ás duas horas da noite passada, se havia refugiado em uma casa da rua das Olarias, pertencente a Francisco Mendes Nobre. A horda dos quadrilheiros derrubou a porta, bateu todos os cantos, e não encontrou vestigios de ali ter estado alguem recentemente; mas um visinho tresnoitado depoz que, por volta das tres e meia da manhã, havia dado tento de estropear de cavallo, depois que a porta da rua se fechára. Pero Fernandes Monteiro, corregedor do crime da côrte, alvitrou que Domingos Leite devia ter partido para Guimarães, sua terra natal.

Incontinenti se despediram postilhões para o Minho.

Fr. Francisco Brandão é o unico, e mais coevo e esclarecido narrador que nos relata estes passos: ..._Tres vezes veio o réo sobredicto_ (Domingos Leite) _a este reino, ainda que da primeira não consta que fosse com o mesmo intento. Teve-se noticia da sua entrada n'aquella occasião primeira, e foi tal a desgraça sua que com apertadas dilligencias em Lisboa e Guimaraens se não pôde descobrir nem aprisionar; que a ser assi é veresimil que desculpára as persumpçoens do passado e não incorrêra etc._[9]

Emquanto estas diligencias frustradas se cumpriam, D. João IV prevenia Antonio Cavide que era forçoso, logo que Domingos Leite estivesse em ferros, transferir Maria Isabel e a filha, com o maximo segredo, para mosteiro muito afastado. Receava o astuto monarcha as declarações escandalosas do preso, as quaes, desmentidas pela clausura da mulher, lhe redobrariam a penalidade, aggravando o crime de homicidio o aleive assacado á pessoa sacratissima do rei e á innocencia da esposa.

Baldaram-se as prevenções. Duas semanas passadas, a espionagem de Antonio Cavide em Madrid assegurou-o que Domingos Leite ali estava, dado que vivesse mais retirado que da primeira fuga. Maria Isabel recobrou-se dos seus pavores. Cavide folgou do bom successo do negocio sem effusões sanguinarias, o marquez estudava traças de apiedar o rei, e o rei, com grande magua da ciosa Luisa de Gusmão, raras horas passava fóra da tapada de Alcantara.

No entanto, o proscripto, reconcentrado com a sua vergonha, cujo pungir sobre-excedia as angustias da saudade, laborava no cerebro uma idéa de vingança, pela qual elle daria de bom grado a vida, que lhe era cruz atrocissima.

Confidenciou o seu pensamento de matar D. João IV, ao hebreu Francisco Mendes. Este discreto moço oppugnou-lhe o desvairado intento com argumentos e supplicas, instando-o a que o seguisse para Hollanda, e lá pediriam ao tempo o balsamo da chaga, e a vingança do remorso nas consciencias do rei e da collareja real.

Rebelde á rasão e aos rogos, Domingos Leite viu partir o amigo para Amsterdão, quando o medo da inquisição de Hespanha o forçou. Era immensa a tristeza do christão-novo, culpando-se de haver sido elle o propulsor da ida de Leite Pereira a Lisboa, e dos horrendos effeitos que se lhe seguissem.

Roque da Cunha não podia ser estranho á desventura do seu amigo, já por que Domingos lh'a referira, já porque os faccionarios de Filippe IV em Portugal a transmittiram para lá com o intento de aviltar o monarcha, violador adultero da honra dos seus mais serviçaes acclamadores.

Roque era o portador das lastimas de sua mãe e dos fidalgos ao desgraçado, que mais se enfurecia quando o deploravam. A primeira vez que o assassino de Pedro Barbosa e padre Luiz da Silveira o ouviu rugir ameaças de morte a D. João IV, atirou o sombreiro ao tecto, e bradou: