O Regicida

Chapter 7

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--Aqui tem, minha açafatasinha--ajuntou o secretario de estado, entregando o cofre a Angela--Esta caixa cheia de perolas e diamantes não valeria tanto como as duas lagrimas que sua mãesinha tem nos olhos. E eu bem sei o coração em que ellas vão cahir e doer...

Maria Isabel permanecia com a face apoiada na mão, o cotovello no braço da cadeira, os olhos velados pelas sedeudas pestanas, e com uma lagrima que, derivando, se quedára tremula no canto dos labios.

Antonio Cavide ergueu-se e caminhou para onde tinha o chapéo emplumado. Pegou d'elle, e sacudindo-o, á maneira de leque, entre as mãos, veiu ao pé de Maria Isabel, que se havia levantado.

--Recebo as determinações da sr.ª D. Maria Isabel, minha senhora. Mandarei ou virei em demanda da carta, quando se dignar ordenar-m'o.

--A carta?...--perguntou ella--Pois não me aconselhou que não escrevesse?

--Não ousei tanto, minha senhora; aconselhei-a tão sómente a que me permittisse consultar el-rei meu amo; porém, depois do segredo que confiei á sua honra, quanto aos sentimentos de sua magestade, e depois de assistir á magua que taes sentimentos lhe occasionaram, receio que v. s.ª não queira que o seu destino dependa da vontade d'el-rei...

--El-rei decerto não quer a minha desgraça...--balbuciou ella.

--Quizera elle, senhora, dar-lhe n'este mundo venturas que os anjos do céo lhe invejassem...

Maria Isabel declinou os olhos ao rosto da filha, que parecia querer com a fixidez do olhar supprir a mingua do entendimento.

E, n'este lance, as lagrimas abrolharam a torrentes, porque, ao lado da cabeça de Angela, figurou-se-lhe vêr o rosto do marido, perdido por ella, e, áquella hora, talvez, traspassado de saudades de sua filha.

Ai! aquella mãe e esposa presentiu que havia de escorregar á voragem das deshonradas, embora resvalasse por ladeira de ouro, e lhe pozessem á flor do seu pégo de lama uma corôa de rei!

XIV

Na correntesa dos referidos casos passados em Lisboa, Domingos Leite Pereira, desmentindo os informadores de D. João IV, vivia pouco menos de obscuro, nos arrabaldes de Madrid, gastando restrictamente o que seu pae lhe enviava com grande resguardo e difficuldade.

Ideára elle que sua mulher, quer por compaixão, quer a rogos de Angela, lhe escrevesse, dizendo-lhe, ao menos, que a filha chorava. Esta dôr filial quizera elle que lhe fosse desafogo ás suas.

Mentira o rei quando affirmára que Domingos Leite se pavoneava de desmacular sua honra de marido, matando directa ou indirectamente o padre. Nunca elle articulou o nome da mulher, nem consentira de boa feição que lhe alludissem aos motivos da fuga. A Roque da Cunha rogava que não deslustrasse o nome de sua innocente filha, divulgando as affrontosas desventuras da mãe.

Mostrava-se muito commiserada da tristesa e soledade de Domingos Leite, D. Vicencia Corrêa. Convidava-o miudas vezes a passar com ella, e acintemente reunia em sua casa os filhos da marqueza de Montalvão, o conde de Figueiró, Diogo Soares, o senhor de Regalados, e outros dos muitissimos portuguezes que juraram fidelidade a Filippe IV. A fidalguia rodeava-o de attenções, sem o desengolpharem da sua tristesa, nem, sequer, o moverem à cortez condescendencia de negar a legitimidade de D. João IV. Roque reprovava-lhe a ingratidão, a falta de tino politico, e o perigo em que elle se expunha de não ter amigos em Portugal nem em Castella. Respondia então o desterrado que os recursos de seu pae tanto lhe davam um pão negro em Madrid como em qualquer outra parte do mundo; e que tanto lhe fazia estar ali como em outro ponto da terra, pois, fóra de Portugal, toda a terra lhe era exilio.

E accrescentava:

--Olha, Roque... Fui menos infeliz do que esperava, porque te vejo contente em Madrid.

--Contentissimo--confirmou o enteado do desembargador--Tenho cem escudos da junta dos portuguezes, cincoenta de meu padrasto, o nobilissimo Guedelha; serei brevemente nomeado criado do paço; e, quando Portugal voltar ao que era em 31 de novembro de 1640, uma das boas commendas do teu marquez de Gouvêa, ou d'outro quejando rebelde, será minha!

--Bem fallado!--disse, sorrindo, Domingos Leite--Eu, no teu logar, ia requerendo uma boa commenda em Hespanha, na incertesa do reviramento que desejas em Portugal. Bem sabes quantas investidas tentam ha sete annos os hespanhoes contra a nossa milagrosa independencia. Pergunta-o aos melhores cabos de guerra: ao duque de Feria, ao marquez de Castroforte, ao conde de Monterey, ao marquez de Mollingen, ao marquez de Torrecusa...

--_Et c½tera_...--atalhou Roque da Cunha--Espera-lhe pela volta. O duque está sem dinheiro e sem gente. Se não fosse o judeu Jeronymo Dias, não haveria fôlego dinheiroso que lhe desse vinte cruzados pelas lettras de cambio.

Esta replica era tristemente verdadeira. Quando D. João IV necessitou comprar em Amsterdão petrechos de guerra, ninguem lhe quiz honrar a firma; por maneira que as lettras foram apregoadas na praça, para serem protestadas. N'esta conjunctura, o hebreu expulso, Jeronymo Dias da Costa, resgatou do opprobrio o nome do rei e talvez a honra da patria, pagando as lettras e abrindo os seus thesouros á causa da independencia da nação, que lhe queimava os parentes. E tão grandemente qualificou D. João IV este serviço, que despachou Jeronymo Dias com a patente de seu ajudante, honra que o successor na corôa confirmou em Alexandre e Alvaro Nunes da Costa, filhos do hebreu; mas, no seguinte reinado, D. João V não consentiu que o emprego se desse ao neto por ser judeu, _como se seu pae e avós fossem christãos_, diz com ironica elegancia D. Luiz da Cunha.[6]

Domingos Leite não redarguia triumphantemente aos argumentos de Roque, senão recorrendo-se dos factos mais eloquentes que as hypotheses.

Todavia, o animo abatido e desvigorisado para contendas politicas esquivava-se a disputações.

Em horas de desalento, a só no seu retiro, escrevia cartas ao marquez de Gouvêa, todas alheias da guerra travada entre as duas nações no mais alto ponto de encarniçamento. Eram lastimas de pae, por onde se transluzia a esperança de apiedar com ellas D. João IV. Taes cartas ou não chegaram ao conhecimento do mordomo-mór, ou o estadista meticuloso as inutilisou, por entender quanto seria malogrado o intento com el-rei. O marquez espiava os passos surdos de Antonio Cavide, e usava traças de lhe explorar o recesso da alma, durante o postre de um jantar bem lardeado de taças. Se o fidalgo farejára um segredo, cuja revelação iria angustiar o desterrado, nobre e caritativo era o silencio; e boa prova de amisade seria têl-o afastado do reino por modo que ignorasse sua deshonra, e o derradeiro golpe lhe não fosse vibrado por mão de um amigo.

Em frustradas esperanças de perdão ou sequer de resposta, ás suas cartas, passaram tres acerbos mezes na vida erma e desconfortada do pae de Angela.

Em começo do mez de abril de 1647, appareceu em Madrid um portuguez, foragido ao santo officio; e, sabendo acaso que Domingos Leite Pereira estava ali homisiado e pobre, bem que de leve se conhecessem, procurou-o para lhe offerecer quinhão da sua abundancia.

Francisco Mendes Nobre, que assim se chamava o christão-novo,--e então orçava por vinte e cinco annos--conhecia de vista Maria Isabel; e, como residisse perto do Salvador, muitas vezes vira a menina com sua mãe.

Consolação immensa para o saudoso pae ir ali um enviado da Providencia fallar-lhe de sua filha, da sua bellesa, dos anneis dos seus cabellos, da côr dos seus mantos, da graça do seu andar, e até da pallidez das facesinhas, onde parece que as lagrimas haviam arado o frescor da puericia!

Domingos Leite chorou nos braços d'este quasi desconhecido que de sobresalto lhe senhoreára o coração.

E Francisco Mendes, captivo da expansão de Domingos Leite, animou-o a ir secretamente a Portugal buscar a filha, facilitando-lhe recursos abundantes para a empresa, e dinheiro em Madrid para subsistencia de ambos, a não querer Domingos Leite acompanhal-o para Hollanda. Alem d'isso, deu-lhe duas chaves de dois predios em Lisboa, dizendo-lhe:

--Tem vm.ce esta chave que é da minha casa na rua dos Vinagreiros, e est'outra da casa em que eu morava na rua das Olarias.[7] Sirva-se da casa que melhor lhe quadre, ou de ambas, para as suas sortidas nocturnas. Se vir que os quadrilheiros o suspeitam em uma, vá esconder-se na outra: isto é no caso de que o santo-officio as não haja sequestrado; mas presumo que não, por que eu, apenas soube que um meu parente remoto foi preso, escapuli-me com o melhor e mais portatil dos meus haveres, comprando muito cara a passagem nas fronteiras ao conde de S. Lourenço, que é um honrado christão velho, desde que o hebreu Lafeta conquistou foros de christão mais velho que o proprio Christo. (_Nota 21.ª_)

O israelita, cuidando que preparava dias alegres e resignados ao seu amigo, despenhava-o da esperança na ultima paragem da perdição.

Participou Domingos Leite a Roque da Cunha o seu designio.

--O diabo arma-as!--contraveio Roque--Não vás, doido! Tu não sabes onde te vaes metter... Olha que em Lisboa já se sabe que és cavalleiro de Christo em Hespanha, e que os ministros de Filippe IV são teus amigos.

--Mal os conheço...

--Porque foges d'elles, ingrato! e foges d'elles porque a tua perdição te chama a Portugal.

--O que Deus quizer. Não me despersuades. Vou buscar minha filha. Se me prenderem, se me matarem, é-me indifferente acabar de um golpe ou agonisar n'esta arrastada tortura da saudade. Um favor te peço.

--Que vá comtigo? Nego-me. Matei um homem, por que a tua honra m'o exigiu; deixar-me agora matar, porque és um fraco, um piegas, que não póde viver sem a filha, isso é que não assigno.

--Espera, homem, que eu ainda te não disse o que pretendia--replicou bem humorado Domingos Leite.

--Dize lá, então.

--Quero que obtenhas uma ordem para que o marquez de Molinguen, governador das armas em Badajoz, me dê passo franco para Portugal.

--Isso te arranjo eu. E dinheiro, queres?

--Não. Achei aqui um portuguez que me soccorreu, um christão-novo.

--E despresas os soccorros dos christãos-velhos! Ora queira Deus que o tal judeu te não leve ao calvario como fizeram ao seu rei. Como se chama elle?

--Desculpa-me: pediu-me segredo da sua passagem por Castella.

--E tu, Domingos Leite Pereira, tens segredos para Roque da Cunha?

--E para meu pae que me pedisse o nome de um homem que confia tanto nos dominicos de Lisboa como nos de Madrid. Os segredos da minha deshonra, revelei-t'os; os da consciencia alheia não devo, nem posso.

--Nem eu quero sabel-os. Foi mera curiosidade que me levou a perguntar-te o nome do teu banqueiro hebreu. Leva-te grande onzena?

--Não. O juro das esmolas recebe-se no ceu.

--A pagal-os lá, todas as burras judaicas da Hollanda vazaria eu a juro de 200 por cento ao mez!--volveu cascalhando Roque, e accrescentou:--Quando partes?

--Logo que me obtenhas a ordem para o general.

--Vou tratar d'isso. Entretanto, pensa, Domingos Leite! Que plano levas?

--Por emquanto, nenhum.

--Raptas a pequena, e foges?

--Não: se poder convencerei Maria Isabel a deixar-m'a.

--Se o conseguires, serás feliz; mas duvido que a mãe te dê a pequena. Se tua mulher quizer acompanhar-te, vem?

--Não.

--Bom será isso; que, se a trazes, depois que a devassa esclareceu a morte do padre, tão infamada está ella em Portugal como em Hespanha.

--Sei o que devo á minha dignidade, Roque. O rubor das minhas faces não hade aquecer a dos meus amigos.

--É o que todos desejamos. Vou em teu serviço. O mais tardar ámanhã, terás a ordem do ministro valido D. Luiz de Haro.

XV

Na noite de 10 de abril de 1647, por volta das onze horas, chegou Domingos Leite aos arrabaldes de Lisboa, os quaes, do lado da Senhora da Graça, eram povoados de quintas, cujas casas, debruçadas pelos outeiros da serra de Almofala, o luar froixo d'aquella noite amarellecia tristemente.

Ahi descavalgou Domingos Leite, despediu o arrieiro que o conduzira desde Moira, e esperou o repontar da manhã, hora em que as trinta e oito portas de Lisboa se franqueavam.

Com a gualteira do ferragoulo encapuzada, entrou de involta nas récovas das vitualhas, e desceu, estugando o passo, pela ingreme calçada da senhora da Graça, metteu por beccos ainda desertos, e parou na rua dos Vinagreiros. Abriu a porta, depois de examinar a numeração da casa, e fechou-se por dentro, com a certeza de que ninguem o vira. Subiu tateando no escuro das escadas até ao quinto andar, que sobranceava os telhados visinhos; abriu as janellas, respirou com offegante prazer o ar do Tejo, que, áquella hora matinal, emquanto as adufas não resfolegavam a peste interior das casas, era saudavelmente respiravel. Entre as setenta e duas torres de Igrejas procurou a de S. Thomé, porque d'ali perto estava a Portaria do Salvador, e nesse sitio lampejava aos primeiros raios do sol um zimborio que era o da caza onde áquella hora devia estar dormindo a sua Angela. A manhã era d'abril, o ceo azul, o Tejo formoso; n'aquelle ar da patria resoavam-lhe os cantares que só percebem almas volvidas do desterro. Estes jubilos eram-lhe revesados de tristezas amarissimas, ao lembrar-se que a tão donairosa e poetica Lisboa lhe seria apenas uma paragem de horas com perigo da sua liberdade; porém, o anhelante desejo de ver a filha, o evadir-se com ella, e a solidão do proscripto dulcificada pela convivencia da creança, davam-lhe alento e alternativas de exultação.

Previra Domingos Leite que na casa de Francisco Mendes Nobre, com toda a certeza, não moravam fadas lareiras que lhe cosinhassem o jantar. Esta racional hypothese, não vulgar nos personagens das novellas, preveniu-o fora de portas, indusindo-o a comprar dois pães saloios, com que substituiu frugal e alegremente os dois repastos do dia. E, como as suas horas eram muitas e vagarosas, examinou os repartimentos da casa do seu recente amigo e bemfeitor, maravilhando-se da belleza dos adornos, do aroma feminil que recendia das alfaias, e disposição graciosa dos objectos, posto que se estivesse em tudo revelando um abandono subito e desordenado. Deprehendêra Domingos Leite que d'aquelle recinto fugira ao mesmo tempo a timida amante do christão novo, e essa devia ser a formosa mulher que elle, um momento, vira em Madrid, quando se despedira de Francisco Mendes.

Assim que escureceu, e antes que o luar apontasse, Domingos Leite sahiu. As noites da Lisboa d'aquelle tempo eram apenas alumiadas pelas lampadas dos oratorios vazados entre as adufas. Os quadrilheiros rondavam em magotes, receosos dos turbulentos fidalgos cujas delicias eram investir com elles e soval-os, se os pilhavam repartidos. Facil, por tanto, foi a Domingos Leite entrever de longe os vultos suspeitos, e furtar-se a seguro, por bêccos conhecidos, até se avisinhar da Portaria do Salvador.

Quando alli chegou, todas as janellas e portas de sua caza estavam fechadas. Nos trez andares, e ao travez das trinta janellas, não translusia claridade de luz; mas, por entre os resquicios de um frestão, ao rez da rua, no quarto dos criados, viu Domingos Leite que havia luz, e a espaços ouviu o ruido de passos.

Temendo que os criados já fossem outros, hesitou em dar signal; mas, porque a noite se adiantasse, e o medo de ser conhecido pelos transeuntes o obrigasse a fugir por vêzes da visinhagem da casa, resolveu bater no postigo e proferir o nome do escudeiro, que o servia desde que elle entrára no paço da duqueza de Mantua, na qualidade de môço da capella.

--Bernardo!--murmurou Domingos Leite tocando subtilmente no postigo.

--Quem está ahi?--acudiu alvorotado o velho escudeiro, afigurando-se-lhe a vóz do amo.

--Eu: não me conheces? Abre depressa: mas não faças rumor--disse elle collando os labios ao frestão.

O criado abriu o postigo, reconheceu o amo e exclamou:

--Nossa Senhora da Graça! é vossa mercê, sr. Domingos Leite?!

--Sou... abre-me a porta; mas que não se ouça lá em cima.

--Aqui estou eu sosinho e mais ninguem--murmurou Bernardo.

--O que? e minha filha? e... tua ama?--exclamou Domingos Leite conturbado.

--Eu vou abrir, eu vou abrir.

Recolhido ao quarto do escudeiro, que o abraçava pelos joelhos, perguntou:

--Onde está minha mulher?

--Hade haver quinze dias que sahiu de caza.

--Para onde?

--Não sei dizer a vossa mercê.

--Como não sabes?! iria para Hespanha?

--Não, senhor. Está em Lisboa; mas não sei onde está. Tudo que havia em casa, ficou como estava. A senhora levou tão somente dois bahús com vestidos seus e da menina. Despediu os criados que eramos tres; e fiquei eu só para ter conta na casa; levou uma criada, e a preta que creou a menina, e despediu as outras. Deixou-me dinheiro para um mez, e disse-me que, no mez que vem, cá mandaria entregar-me egual mezada á que me deixou. Eu desconfiei que a minha ama e menina teriam ido recolher-se em algum convento; mas quero cuidar que, se fosse isso, a senhora m'o diria para que eu podesse saber d'ella e da minha ama pequena, que tantas vezes chorou aqui n'este quarto por vossa mercê...

--Viste-a sahir de casa?--atalhou Domingos Leite.

--Não, meu senhor. Sahiram tão de madrugada que eu apenas dei tento da sahida ouvindo o tropel dos machos da liteira.

--Da liteira da casa?

--Não, senhor. Logo que vossa mercê sahiu de Lisboa, d'ali a dias, minha ama mandou-me vender os machos, o cavallo, a liteira, a cadeirinha, e tudo mais.

--Quem vinha a esta casa depois que eu me retirei?--perguntou mais tranquillo Domingos Leite, abraçando, contra a opinião do criado, a hypothese do convento.

--Apenas aqui entrou trez vezes...

--Quem?

--O sr. Antonio de Cavide...

--Oh!--exclamou o marido de Maria Isabel, arregaçando as palpebras, como se os olhos tumidos de terror ou ira não coubessem nas orbitas--Que dizes tu? Antonio Cavide? o secretario d'el-rei? conhecel-o bem?

--Se conheço, senhor!... e mais eu nunca o vi aqui entrar senão ao fim da tarde, entre lusco-fusco...

--Dize-me o que sabes...--clamou desabridamente Domingos Leite, batendo no hombro ao amedrontado escudeiro.

--Não sei mais nada, meu amo... Ah!.. outra coisa... depois que o Cavide aqui veio, as criadas disseram-me que a menina era açafata do paço...

--O que? açafata!?.

--Sim, meu senhor, e por signal todos começamos a tratar a menina por _senhoria_ e _dom_, porque a mãe assim o ordenara ás criadas...

--Que mais, Bernardo, que mais?--soluçava em violento arquejar Domingos Leite, com os pulsos fincados nas fontes e os olhos espavoridos na cara atribulada do criado.

--Nada mais sei.

Quedou-se alguns minutos em silencioso anceio; e de subito disse ao criado:

--Que ninguem saiba que estou em Lisboa...

--Ó meu amo!--volveu Bernardo--permitta Deus que a morte me colha, se alguem o souber de mim...

--Fecha as portas, que eu vou sahir; mas não durmas, que eu talvez tenha de voltar aqui esta noute. Vai ao meu quarto, e...

--Não tenho as chaves do quarto de vossa mercê.

--Arromba a porta e traze de lá os meus pistoletes para aqui; se eu voltar esta noite, dar-m'os-hás pelo postigo, logo que eu te der signal, e te chamar.

--Onde vai o meu amo!... pelas chagas de Christo, pense no que vai fazer...--rogou o velho de mãos erguidas.

Domingos Leite encarou-o de ruim aspecto, e interrogou:

--Que cuidas tu que eu vou fazer?! Então sabes onde está essa mulher? Dize, Bernardo! Ordeno-te que m'o digas!..

--O Senhor dos Paços da Graça me tolha esta lingua se eu sei onde está minha ama.

Domingos Leite sahiu em direitura ao _Bairro da Marinha_, que assim chamavam á parte da cidade convisinha do Tejo. Ahi, contiguo ao convento dos _hybernios_ ou dominicanos irlandezes, era o palacio do marquez de Gouvêa, somente habitado durante o inverno.

Soavam onze horas no relogio do paço da Ribeira, quando Domingos Leite aldravava no portão do mordomo-mór, com o desassombro do seu tempo de secretario. Fallou o porteiro pelo postigo, e disse que o sr. marquez estava na cama. Instou Domingos Leite por lhe fallar, dando-se a conhecer ao pavido porteiro, que levou a noticia ao fidalgo.

Ergueu-se o marquez sobresaltado, e foi receber Domingos Leite, ordenando ao porteiro que escondesse dos mais criados a vinda d'aquelle infeliz a Lisboa.

--Vossemecê aqui?!--exclamou o mordomo-mór.

--É verdade--respondeu Domingos Leite com semblante em apparencia socegado--venho perguntar a V. Ex.ª se me sabe dizer onde está Maria Isabel.

O marquez olhou-o compassivamente, deteve-se silencioso, apoiou a fronte entre os dedos entrelaçados, deu um gemido de sincera magua, e murmurou:

--Fuja, desgraçado; saia de Lisboa... A que veio aqui?

--Buscar minha filha. Não disse eu tantas vezes em minhas cartas a V. Ex.ª que morria de saudades d'ella? Venho buscal-a; mas, não a achando nem a mãe na casa onde ficáram, pergunto a V. Ex.ª onde estão.

Apoz longo silencio do interrogado e rapida mutação no aspecto de Domingos Leite, o marquez, dados alguns passeios na sala, perguntou:

--Contenta-se com levar sua filha, sr. Leite?

--É minha filha unicamente que eu quero levar.

--Vou esforçar-me pelo conseguimento d'esse desejo.

--Beijo as mãos de V. Ex.ª; mas devo ignorar onde ella está?

--Poderia sabêl-o, se tivesse pela mãe todo o desprezo que ella merece.

--Prostituiu-se? Bem vê V. Ex.ª que eu lhe faço esta pergunta com a maior serenidade. Não vê?

--Desconfio que não.

--Creia, sr. marquez; se eu tirar a minha filha do abysmo em que está Maria Isabel, visto-me de gala... Mas como foi este rapido despenho da malfadada, por quem eu me perdi?

--Jure-me que hade ser homem de bem!

--Juro a V. Ex.ª que heide ser homem de bem até o provar no patibulo, onde os malfeitores ouvem o pregão da sua infamia.

--Que está ahi a imaginar patibulos! Os homens de bem não vão aos patibulos.

--Isto foi um modo figurado de fallar. Deus hade permittir que eu não expie na forca as devassidões da barregan de... De quem? ainda V. Ex.ª me não disse de quem...

--De D. João IV--respondeu serenamente o fidalgo.

--Veja, sr. marquez, que esse augusto nome não me colheu de assalto. Eu tinha-o suspeitado, logo que um meu criado me disse que Antonio de Cavide frequentava a casa da mulher perdida.

Nos beiços de Domingos Leite crispava o que quer que fosse analogo a um sorriso, como se as dôres lancinantes da nevralgia facial lhe vibrassem os musculos labiaes. O marquez contemplava-o. E elle, sem poder exprimir-se, exercitava com as mãos e cabeça uns gestos significativos de torvação.

--Sr. Leite...--disse o mordomo-mór, tocando-lhe affavelmente na mão esquerda com que elle comprimia o coração.

--Sr. marquez...--respondeu muito abatido Domingos Leite.

--Força e alma!

--Sinto que tenho ambas as cousas... e demais! Antes Deus me fizesse mais fraco.

Passados momentos, proseguiu:

--Parece incrivel, mas é atrozmente verdade, que eu peço e desejo que V. Ex.ª me conte como ella se perdeu... Não foi por necessidade, que eu tudo que ella tinha lhe deixei. Não foi por paixão, por que o rei não tem as graças fulminantes que prostrem n'um estrado ou n'um leito real a mulher de alguma honestidade. Então que foi? um longo trabalho de seducção? uma cadeia de perfidias que deram de si a posse pela violencia imprevista? Não pode ser. Ha trez mezes que eu sahi do reino, e ha quinze dias que a rameira se mudou para o real bordel... Como foi isto então, sr. marquez? Faça de conta que refere a historia a um estranho, que afinal se hade rir do marido, e achar que o rei não tinha obrigação de ser mais honrado que o padre Luiz da Silveira...

Domingos Leite, n'este ponto do seu lento e sinistro discorrer, desfechou uma risada estridula que fez frio na espinha dorsal do fidalgo; e logo abruptamente continuou com a maxima gravidade:

--Mas quem diz aos reis que elles são mais invulneraveis que os padres?

--Falle baixo!--acudiu o marquez chegando-lhe a mão tremente até aos beiços--Sr. Leite, olhe que ha muita gente n'esta casa... Peço-lhe que me não exponha, e peço-lhe que se não precipite irremediavelmente...