O Regicida

Chapter 6

Chapter 63,863 wordsPublic domain

Emquanto o secretario de estado vai e volta, saibamos que allusão é aquella do burro lazarento, visto que Diogo de Paiva e Andrade no'l-a transmittiu nas suas _Memorias_, por vezes citadas n'este livro. Foi que uma vez entrara um jumento vadio no recinto da sineta, e começou a trincar a corda no intento provavel de a comer. Ora como a sineta repicava tão ligeira quanto a fome do tangedor esgarçava no cordel, D. João IV, que estava só, e extranhára o pressuroso dos toques, desceu pessoalmente á casa da roda, e perguntou quem era. Como ninguem lhe respondesse, mandou averiguar se a pessoa que tocára já teria subido á saleta de espera. O enviado voltou annunciando a sua magestade que encontrara um burro muito magro. El-rei ordenou logo que o levassem ás cavallariças reaes, com recommendação de o tratarem fartamente; e accrescentou; «Semelhante pretendente não póde ter outro requerimento.»

Não me consta que D. João IV, em toda a sua vida, dissesse ou fizesse coisa de tanto espirito. A não ser coevo de sua magestade aquelle burro faminto, morreriam ambos ignorados, sendo digna de escriptura a lembrança que os dois tiveram.

Voltou no entanto Antonio Cavide com ridentissimo semblante, e disse:

--Mal pensava eu, real senhor, quando ha pouco tentava pintar o esbelto rosto da mulher de Domingos Leite, que ella tão perto estava de desmentir na presença de vossa Magestade a pallida copia que eu fiz!...

--Foi ella que tocou?!--acudiu o rei entre alegre e maravilhado.

--Ella, meu senhor, acompanhada da filha. Pede audiencia; e, apezar de coberta de lagrimas, nunca houve orvalho que aljofarasse mais purpurinas rosas!..

--Estou a ver se me falla em verso, Cavide!--disse o rei escondendo a custo a commoção da curiosidade--Mande-as entrar na primeira sala.

O secretario de estado correu o reposteiro da sala de espera e disse a Maria Isabel:

--Sua magestade houve por bem admittir a vossa mercê á sua real presença; queira entrar n'esta sala, e esperar el-rei nosso senhor.

A esposa de Domingos Leite com difficuldade se sustinha nas pernas, chegado o momento de se avistar face a face do rei: tremia de respeito como tremeria de pavor. A menina aconchegava-se d'ella olhando-a com susto, e circumvagando a vista assombrada pelas tapeçarias e colgaduras de ouro e prata, de veludo e damasco entre as quaes lampejavam contadores marchetados de ouro e marfim, grandes cofres abaulados de tartaruga e prata, bofetes torneados com feitios de dragos e serpentes, jarroens japonezes encimados das peregrinas flores que recendiam nos jardins do paço da Ribeira, redomas de christal, relogios de Inglaterra com primorosos relevos de esmalte, as pompas de toda a terra conglobadas n'aquelle palacio, que já então pompeava primasias sobre as mais esplendidas côrtes da Europa, graças á baixella da duquesa de Mantua, que nunca lhe foi restituida.

Posto que o tapete abafasse as passadas d'el-rei, Maria Isabel ouviu-o nas palpitações do coração; e já estava em joelhos, quando um sumilher da cortina correu o reposteiro com um ringido de aço estridente que, digamol-o assim, aggravava mais o terror do lance.

D. João IV entrou; o reposteiro ajustou-se outra vez aos batentes da ampla porta; e, n'este conflicto, a filha do burguez João Bernardes Traga-malhas cuidou que desmaiava, encostando a face esquerda ao volante que cobria a cabeça da menina.

Orçava então o rei pelos quarenta e tres annos. Não obstante as bexigas, que lhe alteraram notavelmente a gentilesa do rosto, conservava vivacissima a graça dos olhos azues, mais risonhos que os labios, nos escassos momentos em que o contentamento lhes transluzia desafogado da violenta caracterisação de rei suspeitoso. Era de estatura mean, e largo de espaduas, robustecido em lides fragueiras, despresador de inclemencias de tempo, quando nas monterias da tapada de Villa-Viçosa dispendia selvaticamente os melhores annos da existencia. Dá a perceber o conde da Ericeira, D. Luiz de Menezes, no _Portugal Restaurado_, que D. João era tão desregrado na alimentação que anticipara a caduquez do corpo. O historiador aulico, se lhe dessem trella, e alforria no pensamento, assim como nos disse que no rei o trajar era pouco menos que rustico e sujo, communicar-nos-hia a intemperança do espadaúdo sugeito, cevando-se nas lubricidades que adelgaçam as mais maçorras e rijas compleições.

Não se pense, porem, que o rei de Portugal n'aquelle dia trajasse immundo ou denotasse na epiderme do rosto padecimentos de hydropesia. Vestia um _pourpoint_ (gibão) de panno preto, refegado no peito, sem guarnições até baixo do joelho, como loba clerical, e a pescoceira da camisa derrubada sobre a gola d'aquella vestimenta que muitas vezes usava, da vil droga chamada estamenha. (_Nota 20.ª_)

Os cabelos loiros, mas tosquiados quasi rentes, descampavam-lhe a fronte, relevada em proeminencias, que inculcariam talento, se a sciencia phrenologica de Spurzheim não fosse um lôgro nas cabeças da raça dos braganças, não collaboradas.

Calçava meia de sêda escura e sapato de veludo com um simples botão, sem os broches e orladura de ouro e perolas com que medianos fidalgos e até os pecuniosos da classe média se ajaesavam.

Como já vimos, Maria Isabel Traga-malhas esperava ajoelhada e perturbadissima a entrada d'el-rei.

Caminhando a passo vagaroso para ella, D. João IV parou a pequena distancia, e disse-lhe:

--Levantae-vos, senhora!

E como ella permanecesse em joelhos e anciada, o rei insistiu:

--Erguei-vos, que eu desejo ouvir-vos sem essa postura de adoração. Vamos! a pé!

Sua magestade poderia dizer alguma coisa mais regia, mais conceituosa, mais galan, ou, sequer, mais espirituosa, para arrolarmos com a outra do quadrupede da sinêta; mas não o arguamos de canhêstro ou pecco de phrases, dado que, a respeito da sua eloquencia, o referido conde da Ericeira nos diga que não costumando o rei a empregar as _palavras mais polidas, usava d'ellas com tal arte, galantaria e agudeza que parecia fazia estudo do que em outros podera ser defeito_.[4]

D'esta vez, cumpre desculpar-lhe a insufficiencia, dando-lhe foros de mero homem em presença da mulher que ultrapassava toda a bellesa imaginada.

Maria Isabel, apesar de ter meia face vellada no rebuço do capotilho--descortezia que ella ignorava por desconhecer ceremonias palacianas--deixava metade do rosto aos deleites da admiração, e a outra metade á curiosidade dos desejos, como diria na sua rhetorica farfalhuda Antonio Cavide.

Quando Maria se levantou, sem altear os olhos acima do estrado, acercou-se mais o rei, e poz a mão na face de Angela, dizendo:

--És muito galante, menina!

A mãe relançou a vista menos timida á face de D. João, e, como lhe encontrasse os olhos fixos, derivou logo os seus para a creança, absôrta na contemplação do rei.

--Sentae-vos, senhora--continuou, apontando-lhe uma cadeira, e olhando de esconso para o reposteiro, afim de certificar-se que ninguem lhe espreitava tão insolita cortezia ou tamanho abatimento da magestade.

--Se vossa magestade não quer ouvir-me de joelhos, peço que me deixe supplicar de pé a sua misericordia--balbuciou Maria.

--Sentae-vos e dizei. Tudo que o rei poder fazer-vos sem gravame da justiça e direito de seus vassallos, ser-vos-ha feito. Vindes pedir-me que absolva vosso marido de um crime publico? não sou eu quem hade sentencial-o ou absolvel-o.

--Não peço tanto a vossa magestade, meu Senhor...

--Que quereis então?

--Ir com minha filha para Madrid.

--Quereis ir para Domingos Leite?--perguntou o rei com estranhesa.

--Sim, real Senhor.

--É elle que vos chama?

--Saberá vossa magestade que eu, desde que elle partiu, nunca mais tive noticias suas.

--Apezar d'isso, quereis ir... Quem vos priva?

--Quiz vender parte dos meus bens, e a justiça não m'o permitte nem permittirá ainda que meu marido assigne os contractos.

--Porque é essa a lei dos criminosos--volveu gravemente o rei--Vindes pedir-me que submetta a lei á minha vontade particular? O que não posso fazer como homem, n'este caso, tambem o não posso fazer como principe. Eu não subordino a justiça: sou-lhe subordinado. Porém, como homem, poderei prestar-vos um serviço, se o quizerdes acceitar. Dar-vos-hei meios para irdes a Castella; e emquanto lá os carecerdes, remediar-vos-hei.

Maria, pela primeira vez, encarou a fito o monarcha. Brilhavam-lhe as lagrimas nos esplendidos olhos. El-rei parecia olhal-a com o resguardo timido de vassallo a contemplar, reconditamente amoroso, a sua rainha.

--Eu queria--murmurou ella--levar a meu marido o que herdei de meus paes; mas agradeço a vossa magestade a esmola que me offerece.

--Não é esmola; é emprestimo. Quando a sentença remover os estorvos que vos privam de vender os bens, então me pagareis. Entretanto, sabeis se vosso marido vos receberá graciosamente?

--Não sei, meu senhor...

--Ouvi dizer que elle, desde a morte de certa pessoa, vos não fallára mais. É verdade?

--Sim, meu senhor.

--E esse despreso não impede que o ameis? Fallae-me verdade inteira, porque a vossa sorte me está prendendo extraordinariamente a attenção. Amaes Domingos Leite?

Deteve-se alguns momentos a interrogada, e respondeu com embaraço:

--Casei com elle por paixão, e foi a paixão que me cegou...--e aqui reteve-se vexada e confusa.

--Sei o que vos custa a dizer:--acudiu o rei--passae adiante, Maria Isabel.

A suavidade com que D. João proferiu os dois nomes parecia arrasar uma alta barreira, erecta entre os desiguaes interlocutores. Aquelle tom de benevola confiança--o vêr ella seu nome na memoria d'el-rei--deu-lhe umas largas á alma, uns assomos de vaidade, um desafôgo analogo ao dos pulmões que se impregnam de correntes de ar novo em recinto abafadiço.

--Dizei,--proseguiu elle--O desamor com que Domingos Leite recusou perdoar-vos uma culpa, que devia ser attenuada pela innocencia com que a praticastes, foi causa a que a vossa paixão se desvanecesse... Errei o meu juiso?

--É verdade, real senhor!.. Eu sei que fui criminosa em acceitar o seu galanteio; mas não o seria... se não fosse tão innocente.

--Ainda assim, é compaixão ou amor que vos resolve a procural-o em Hespanha?

--É esta creança que chora por elle; e é a afflicção que eu sinto quando me lembro das afflicções com que meu marido se separou da filha...

--E de vós, não?!--redarguiu elle com perfida admiração.

--Parecia querer perdoar-me n'essa hora...

--Bem. Perguntae-lhe se vos perdôa. Se elle vos disser que sim, ide, e contae commigo. Lembro-vos, comtudo, que em Madrid Domingos Leite é recebido como homem brioso que matou um padre, amante de sua mulher: e que o sr. D. Filippe IV, attendendo aos merecimentos de tal façanha, o honrou com o habito de cavalleiro da ordem de Christo. Não sei se elle vos acceitará, depois que este boato, em grande parte aleivoso, se derramou em Portugal e Hespanha; e estou em crêr que Maria Isabel, tão mal considerada em Madrid, não quererá apparecer aos admiradores de seu marido.

--Esse boato é uma calumnia, senhor!--exclamou ella com os olhos sêccos e o rubor nas faces.

--Não m'o digaes a mim, que eu já vol-o disse. Li o processo com o maior empenho; quiz salvar vosso marido; já vêdes que se alguem duvida da vossa innocencia de esposa, não sou eu. Como quer que seja, em materia tão melindrosa, não sei nem devo aconselhar. Fazei o que bem vos apraza. Repito: escreva Maria Isabel a seu marido, e dê a carta ao meu secretario de estado Antonio Cavide, que elle a fará entregar directamente a Domingos Leite, e a resposta, se vier, ser-vos-ha entregue.

--Ah!--suspirou a formosa--se o meu nome anda tão infamado em Madrid, meu marido não me responde... Elle desprezava-me, quando toda a gente ignorava a minha desgraça; que fará agora que é maior deshonra para elle reconciliar-se commigo!..

--Quem sabe? O coração humano faz mudanças de que não sabemos dar causa nem rasão. Nada se perde em lhe sondardes o animo. Escrevei-lhe hoje, que amanhã Antonio Cavide, ou alguem com recado seu, irá procurar vossa carta.

E, voltando-se para a menina, perguntou:

--Como te chamas, linda?

--Angela--respondeu a creança.

--Criada de vossa magestade--accrescentou a mãe muito desvanecida da regia curiosidade.

--Pois que dizeis que é minha criada--volveu D. João IV--minha criada fica sendo desde hoje, e virá exercer o seu officio, quando a edade lh'o permittir. No emtanto, o seu nome será registrado no livro das açafatas da rainha, desde já.

--Ajoelha a sua magestade, e pede-lhe licença para lhe beijar a mão--disse Maria Isabel com transporte.

O rei colheu a menina nos braços, e disse:

--Eu é que lhe beijo estas duas rosas do rosto, que fazem lembrar os cherubins. Uma reflexão--proseguiu o rei de subito--não diga Maria Isabel a seu marido que eu nomeei sua filha criada do paço. Seria muito dolorosa para mim semelhante nova dada a um homem, que não póde ser galardoado emquanto não fôr absolvido. Tendes entendido?

--Esteja vossa magestade segurissimo de que eu não direi que fallei a vossa magestade.

--Ainda melhor, ainda melhor. Nem uma palavra que prenda commigo.

Maria levantou-se indecisa se lhe cumpria despedir-se ou ser despedida d'el-rei.

--Quereis sair? Esperae,--disse D. João--que eu vou mandar-vos o meu secretario de estado para vos acompanhar á liteira.

--Vim a pé, real senhor.

--Ah! sim? Não obstante, esperae.

Sahiu o rei, beijando outra vez Angela, e deteve-se breves minutos com o secretario, que sahiu a dar ordens a um pagem, que as foi transmittir a um moço da estribeira.

Voltou Cavide outra vez á presença do amo.

D. João IV, encaracolando o bigode louro, e palmeando na espaciosa fronte, clamava enthusiasta:

--Que mulher! que mulher! Bem me dizia o marquez... Não ha dama no paço que lhe ganhe!.. Oh! que soberba creatura! tem musica na voz a feiticeira! Nunca vi coisa assim, nem viva nem pintada!

Cavide ria-se e esfregava as mãos.

--Isto não é para rir, meu caro!..--obstou o rei--Querem vêr que eu estou apaixonado!..

N'este lance grave, que as expressões do rei e a cara do valido tornavam ridiculo, o pagem disse por detraz do reposteiro que o moço da estribeira enviára dizer que a liteira das açafatas estava no pateo do norte.

--Vá! ordenou o rei ao secretario.

Antonio Cavide entrou na sala, onde ficára Maria Isabel, e inclinando a cabeça, disse:

--Sigam-me vossas senhorias.[5]

E, descendo ao pateo onde estava a liteira com lacaios de libré da casa real, deu a mão a Maria Isabel para ajudal-a a subir.

--Eu vim a pé...--gaguejou a mulher de Domingos Leite, não percebendo o convite do fidalgo.

--Sei isso; mas sua magestade manda conduzir na competente liteira a sua açafatasinha e mais sua mãe, muito minha senhora.

E, ao mesmo tempo que dizia isto mui galãmente, tomou Angela nos braços, e sentou-a no almadraque inferior; depois, offereceu o hombro á mãe, fechou a portinhola, e disse ao lacaio da frente:

--A casa de suas senhorias é na Porta do Salvador.

A liteira partiu com as cortinas fechadas. O instincto do pejo imprimira aquelle impensado impulso ao braço da mulher do expatriado.

E D. João IV, que de uma janella que abria sobre o terreiro, presenciára o fecharem-se as cortinas da liteira, dizia depois a Cavide:

--Aquelle recato pagára-lh'o eu com milhões, se o meu coração não valesse mais que elles!...

O confidente ouviu isto com a maior circumspecção.

O castigo supremo dos validos é não poderem escancarar sinceras gargalhadas nas faces dos reis.

XIII

Vellou a noite inteira Maria Isabel.

Figuravam-se-lhe visões, ora terriveis, ora deslumbrantes.

Sentia o que quer que fosse de interior transfiguração de seu ser. Contemplava-se e via-se mudada virtualmente. A scena do paço, a sala explendorosa, o rei, a _senhoria_ do secretario, a açafata, a liteira armoreada, a libré, e sobretudo os conselhos do rei, aquellas phrases umas vezes meigas, outras vezes tristes, o seu nome tres vezes proferido pelos regios labios, tudo, que ainda sonhado lhe seria deleitoso, era, em realidade, sobejo estimulo a que a noite lhe corresse não dormida. Mas, por entre as fulgurações da imaginação febricitante, dava-lhe tremuras um pavor indefinivel, se a idéa de ter cahido na graça do rei lhe impunha o dever de se lhe dar cegamente, e sem resistencia de rasão, de religião ou de pudor, como as mulheres que se vendem. Contradiziam-lhe estes sustos do pejo as palavras de D. João IV, aconselhando-a a consultar a vontade do marido, quanto a ir para sua companhia. Depois, como a revirar-lhe esta pudica justificação dos reaes intentos, occorria-lhe a lembrança de ter ouvido dizer a Domingos Leite que D. João IV nos seus amores, quando duque, não se estremava dos moços do monte em bruteza; que nenhuma das suas affeiçoádas lhe conhecera coração. E d'ahi umas explosões luminosas de vaidade, a mulher em todo o seu elasterio de vangloria, tanto mais acrisolada quanto se vira repudiada do marido... Muitas expressões do soberano soavam-lhe ainda nos ouvidos, quando a luz da seguinte manhã lhe alvoreceu no quarto; e, entre todas, estas principalmente: ..._Não sei se elle_ (o marido) _vos acceitará, depois que este boato, em grande parte aleivoso, se derramou em Portugal e Hespanha; e estou em crêr que Maria Isabel, tão mal considerada em Madrid, não quererá apparecer aos admiradores de seu marido_.

--Decerto, não quero!...--dizia ella de si comsigo--Ainda que elle, por amor á filha, me deixe ir, hade querer que eu me esconda para que me não vejam; e talvez que me mande embora depois de lá ter a filha. Além d'isso, se eu lhe disser que o rei me dá o dinheiro para lá viver, elle reprova que eu o acceite, e pergunta-me como foi que eu procurei e obtive este favor...

Alvoroçada por tantissimas idéas incongruentes, sentou-se ao bofete para escrever tantas vezes quantas se levantou, depondo a penna, por não atinar com o expediente mais natural, ou, digamos antes, mais artificial da carta.

N'esta conjunctura, appareceu a menina a recordar-lhe as impressões da vespera, a fazer-lhe repetir as palavras que o rei lhe dissera, a pedir explicações dos dizeres que não percebêra. Depois vieram as criadas sobresaltadas, e Maria Isabel contou-lhes á sua anciosa curiosidade que a sua Angela era açafata, que o secretario de estado lhes déra senhoria, que el-rei tivera a menina sobre os joelhos, que a beijára muitas vezes; e de tudo pedia segredo ás môças, por certos motivos, os quaes motivos as criadas, em conciliabulo de cosinha, explicavam tão compridamente que não deixavam nada a desejar.

Assim foi correndo o dia, até que, ao cahir da noite, se annunciou a um lacaio de Maria Isabel uma pessoa que sua senhoria esperava.

O secretario particular do rei, annunciando-se incognito, a hora tão impropria, começava o acto mysterioso da sua interferencia; não obstante, a mãe da açafata, quando se lhe deu a noticia, disse com desenvoltura propria de fidalga, affeita a visitas de tal porte:

--Hade ser o secretario de estado Antonio de Cavide.

Momentos depois, o cortezão beijava os dedos da mulher de Domingos Leite, affagava a sr.ª Dona Angelasinha, a quem sua magestade enviava um beijo, e terminava por dizer que vinha receber a carta que havia de ir para Hespanha na manhã do dia seguinte, conforme as ordens dadas por el-rei ao correio-mór.

--Ámanhã!--disse Maria Isabel--Já ámanhã!... Mas eu ainda não escrevi...Como hade ser?

--Ainda tem v. s.ª muito tempo. Eu voltarei mais tarde, ou mandarei um escudeiro procurar a carta--remediou o secretario.

--Jesus!--murmurou ella, com ademanes de afflicta.

--Que tem a sr.ª D. Maria?--volveu Cavide.

--Não sei... não sei em que termos heide escrever a meu marido...

--Comprehendo o seu embaraço... que em verdade é justificadissimo. Devo dizer-lhe, senhora minha, que o que passou entre el-rei meu amo e v. s.ª, me não é de todo estranho. Tambem eu, pensando durante a noite no segredo que é mister haver, respeito á mercê que el-rei lhe faz, mal posso ligar a ida de v. s.ª para Hespanha sem que seu marido conheça a origem dos recursos, e até a real intervenção na remessa da carta. O sr. D. João IV, meu amo, d'esta vez não conciliou a generosidade de seu real animo, com a circumspecção que lhe é habitual. Quer-me parecer que v. s.ª deu todo pezo ás considerações que sua magestade lhe fez, e eu tambem tive a honra de ouvir-lh'as. Desde que o sr. Domingos Leite, fugindo para Castella, deu ansa á calumnia que denigre a reputação de sua mulher, parece, até certo ponto, que protestou diante do mundo não receber mais em sua companhia uma esposa, que lá e cá--malditas linguas!--passa por ter faltado á honra conjugal.

--Mentira!--interrompeu Maria Isabel assomada.

--Mentira atroz--assentiu Cavide--Sabe-o el-rei, sei-o eu, sabem-no os ministros em cuja alçada corre a devassa; mas os praguentos querem que as atoardas se propaguem bastante aleivosas para que lhes seja mais farto o sêvo da maledicencia. A nossa questão não é a calumnia; é sabermos como v. s.ª hade affrontal-a, como seu marido hade desfazêl-a, se lhe quizer perdoar; emfim, como a sr.ª D. Maria, minha senhora, hade illibar-se perante o mundo. Aqui é que bate o ponto. Por isso dizia eu agora que comprehendo os embaraços em que v. s.ª hade achar-se no modo de escrever a seu marido.

--Tem v. s.ª rasão.--confirmou Maria Isabel--Pensei n'isso tudo que me disse, e estive duas horas a começar cartas e a rasgal-as, porque tudo me parecia máo... não sei como heide sahir d'este aperto!...

--Peço venia para lhe dar um conselho...--disse Antonio Cavide, erguendo-se, aproximando-se d'ella mais á puridade, e abaixando o tom da voz.

--Faz-me v. s.ª um grande beneficio, se me aconselhar.

--Auctorise-me a sr.ª D. Maria a consultar el-rei, meu amo. Parece-me que nenhuma deliberação lhe cumpre tomar sem ouvir o parecer de sua magestade...

--Nem eu me atrevo a pensar coisa alguma em contrario das ordens d'el-rei.

--Mas--volveu o valido, depois de estar alguns minutos recolhido, passando por sobre os dentes a unha do pollegar como se corresse um teclado--Mas, se v. s.ª me promette segredo inviolavel com juramento...

--Prometto...--balbuciou Maria Isabel, tremula de alvoroço, entre receosa e anciada de curiosidade, com os brilhantes olhos postos nos beiços do secretario.

--Promette-me nunca, em tempo algum, em quaesquer circumstancias de sua vida, revelar propriamente a el-rei o que lhe vou dizer?

--Sim... prometto...--affirmou ella.

Antonio de Cavide pegou da mão de Angela, e apontando-lhe um cofre de madre-perola que estava sobre um contador no extremo da sala, disse-lhe:

--Vá a menina buscar aquella alfaia que desejo vel-a.

E, emquanto a menina foi, inclinou os labios ao ouvido de Maria Isabel, e segredou-lhe:

--El-rei quer-lhe como não quiz a ninguem n'este mundo. A vontade do meu real amo é que v. s.ª não vá para Hespanha; e eu, que conheço quanto el-rei soffreria, se a sr.ª D. Maria partisse, rogo-lhe encarecidamente que não vá.

A menina já estava ao pé do secretario com o cofre, quando Maria Isabel, proferidas as ultimas palavras, pegou de enfiar e tremer a ponto que Angela lhe disse assustada:

--Que tem, minha mãesinha, que está tão amarella?

E, ao mesmo tempo, o subtil alcayote, examinando os embrexados da caixa japoneza, resmuneava:

--Que formoso lavor! que linda coisa!.. É alfaia do tempo do sr. rei D. Manuel. Cá tem a esphera armilar! Bellissima joia!..

E, lançando de soslaio a vista a D. Maria, murmurou como se conversasse com as figuras chinezas embutidas no cofre:

--Não cuidei que lhe dava novidade; nem que a novidade, se o fosse, a inquietasse tanto! Seria triste se eu a magoava, pensando que lhe trazia o maior contentamento que pode dar-se á primeira fidalga da côrte portugueza.

Angela ouvia e não percebia as palavras, quando a mãe, abraçando-se n'ella com estremecido affôgo, resudava nas palpebras cerradas uma, ou talvez duas lagrimas que deviam ser--oh materialidade!--a cristalina seiva das fibras do pudor, as quaes viriam a depauperar-se em resultado d'aquelle perdimento de vida.