Chapter 5
--Porque as honras, sem a procedencia dos serviços, não lisongeam o agraciado, nem grangeam a consideração publica. Eu, como v. s.ª sabe, sou pobre. Está aqui meu pae de quem me soccorro, falta-me posses para me ostentar, e contentamento para me prezar em mais do que valho. Digne-se v. s.ª ponderar a sua magestade a minha situação qual ella é. O meu prazer, se algum posso haver n'este mundo, é a obscuridade, a solidão, o chorar tudo quanto perdi, e mais que tudo uma filha, que era toda a minha vida, e brevemente me será a morte...
--Sei isso;--interrompeu Francisco Leitão--já tudo nos contou Roque da Cunha; e minha mulher disse logo que a sua filha hade vir para a nossa companhia; e, desde menina, hade pisar as alcatifas do paço.
--Beijo as mãos de v. s.ª e de sua illustrissima esposa--disse commovido e grato Domingos Leite, desafogando em esperanças a saudade que lhe apertava o coração.
--Havemos de gizar o melhor modo--prosegiu o ministro--de trazer sua filha a Madrid, quer a mãe queira, quer não queira. V. m.ce tem um amigo capaz de tudo que é difficil. Se Roque da Cunha tentar trazer-lhe sua filha, vae a Portugal, e só não voltará, se os carrascos do duque de Bragança tiverem grande faro e grande sêde de sangue. Entretanto, se me deixa dar-lhe um conselho de amigo, de ancião, e de homem, que ha cincoenta annos lida com o capricho dos reis, digo-lhe que acceite o habito de Christo, e não perca azo de ajoelhar a sua magestade, agradecendo-lh'o. Lembre-se, emfim, sr. Domingos Leite, que D. João de Bragança, podendo rasgar a sua devassa, como rasgou tantas outras de inimigos pessoaes que se lhe venderam, ordenou ao mordomo-mór que lhe impozesse o desterro, como quem diz: «escolher entre o exterminio e o patibulo!» Bom amigo! raça de Bragança pura! couce de quartão gallego em quem o affaga, e orelha cahida ao ver o látego na mão do potreiro... Conhecemos de ha muito quem são os Braganças: por uma linha coito damnado, pela outra o lavrador de Veiros que não se tosquiou, desde que o bastardo de Pedro I lhe pegou da filha para fabricar em ella uma vergontea ducal. Ora bem... estou cansado de taramelar, meu amigo e sr. Leite. Vou-me com Deus, e cá deixo á apreciação do seu espirito intelligente estas phrases que, bem espremidas, hão de estillar muito succo. Medite-as, e... seja esperto, porque o facto de ser infeliz não o força a ser inepto. Sem mais. Escuso dizer-lhe que o deixo na obrigação de me visitar. Minha mulher quer conhecel-o, e perguntar-lhe por certas fidalgas das suas relações. O nosso grande amigo D. Rodrigo da Cunha ha quatro annos que foi dar contas a Deus do logro que pregou ao povo, fazendo cumplice das suas tramoias o braço do Senhor Crucificado. Quem diria que um prelado de tantas lettras havia de socorrer-se de tamanhas trêtas! E aquillo feito por um politico, derrancado pelo mimo com que el-rei nosso senhor o tratou a elle e a toda a parentella! Emfim, adeus; que eu, se começo a bacharellar, não despego d'aqui. Eu lhe contarei quem são os faccionarios do duque de Bragança; e, se Deus quizer, cêdo o convencerei de que o fidalgo mais facil de vender Portugal a Castella é esse a que lá chamam rei. (_Nota 18.ª_)
Na ausencia de Francisco Leitão, o cavalleiro da ordem de Christo olhou para a cara espantada do pae, e disse tristemente:
--Por desgraça, este inimigo de Portugal disse verdades horriveis. Eu sei que ha torpezas reconditas nas secretarias dos ministros de D. João IV: e, se essas são sabidas em Madrid, o edificio de 1640 hade vir a terra, derribado pelos mesmos que o levantaram. Ainda assim Deus sabe que eu desejo morrer debaixo das suas ruinas. Prouvera ao ceo que eu não estivesse em Madrid no dia em que a nossa querida terra hade ser juncada de cadaveres do povo; do povo sómente; que os fidalgos esses hão de ter novas cedulas em aberto como no tempo...
--Em que teu avô morreu na hoste do sr. D. Antonio--atalhou o pae--e eu, se Deus até lá me der vida, não hei de ver soldados hespanhoes no castello de Guimarães. Domingos!--proseguiu o artifice com vehemencia--não me ponhas essa venera ao peito; deixa-me primeiro fechar os olhos; e, depois, cá te avêm com a tua vida; que eu não veja isso, nem ouça lá dizer aos meus visinhos que tu és castelhano.
--Não ouvirá, meu pae...--refutou o filho.--Mas attenda á minha situação de foragido, em meio dos encarniçados inimigos dos bons portuguezes. Se eu campar de patriotismo em Madrid, de certo não terei amigo que me avise para fugir d'este reino para outro. Procederei de modo que não dê suspeitas a Portugal nem a Hespanha, até que um dia possa ir obscuramente morrer á casa onde nasci...
--Irás, meu filho--atalhou o cuteleiro, debulhado em lagrimas--Eu d'aqui vou direito a Lisboa, e irei lançar-me aos pés de el-rei...
--Não dê similhante passo--despersuadiu Domingos Leite.--Dois homens unicamente poderiam dominar o animo de D. João IV. Um, o mordomo-mór, rogou e foi seccamente desattendido; o outro é o alcofa do rei, Antonio Cavide, o secretario de estado, que me odeia, porque eu ousei censurar ao ouvido de quem me denunciou, que um ministro da sua polpa andasse negociando com as açafatas do paço os amores do seu rei. Desista do seu intento, que é humildade e abjecção inutil. O que eu lhe rogo é que vá ver minha filha....
--Não!--objectou o velho tregeitando um gesto de indignado.
--Porque, meu pae?
--Porque terei de ver a mãe! Não hei de ver essa mulher que te fez desgraçado! A creança não tem culpa; é verdade; mas, se eu lá for, parto a cabeça da mãe contra uma parede!
E, dizendo, estirava os ligamentos das mãos e arqueava os dedos, como se entre elles sentisse a cabeça da nora.
N'este comenos entrou Roque da Cunha, galhardeando capa e sombreiro novos, espada no telim, meias de seda, gibão de passamanes, calças golpeadas, e um tregeitar de corpo que denotava estar lá dentro uma alma espanejando-se em jubilos.
--Soube agora mesmo--exclamou com alvoroço o filho de D. Vicencia--que estava aqui teu pae. Venha de lá esse abraço!--proseguiu Roque, estreitando ao peito o cuteleiro, que se deixou abraçar impassivelmente.
--Este é o meu amigo Roque--interveiu Domingos apresentando-lh'o.
--Ah!--disse o velho, abaixando a cabeça, sem lhe desfitar os olhos onde se espelhava a desagradavel impressão que lhe incutira o aspeito do cumplice de seu filho.
--E amigo como poucos!--confirmou Roque--Amigo como nenhum! Amigo como eu só sei ser, quando os homens cá me chegam ao coração.
--Sim, senhor...--balbuciou Antonio Leite, forcejando por sopezar a antipathia que os gestos e maneiras do homem lhe oppunham aos transportes de gratidão, proprios da conjunctura.
--Teu pai está sorumbatico, ó Leite!--observou Roque, despeitado da recepção fria do velho.
--Está triste...--explicou o filho.
--Porque?!--volveu o jovial enteado de Francisco Leitão, fazendo posturas gymnasticas e reviravoltas.--Triste devia o nosso velhote estar, se em vez de vir a Madrid visitar um filho, cavalleiro da ordem de Christo, o houvesse de ir visitar a Lisboa, ao Limoeiro, d'onde alguns cavalleiros costumam sahir para dar cavallaria aos carrascos. Por que está v. m.ce triste? Diga lá! Cuida que em Hespanha não medra a melhor gente de Portugal? Tem medo que o seu filho soffra privações em uma nação, onde é recebido nos braços de um desembargador do paço, e coberto com o manto de cavalleiro que el-rei Filippe IV lhe manda, sabendo que Domingos Leite Pereira foi o discursador fogoso nos tumultos de Evora, e um dos mais estrondosos gritadores da acclamação do duque de Bragança?...
--Legitimo rei dos portuguezes--accrescentou o cuteleiro, baixando reverentemente a cabeça.
--Isso agora--replicou Roque da Cunha--é questão que nem v. m.ce nem eu decidiremos, em quanto não tivermos gráo de doutores de Salamanca. Deixemos esse officio a quem toca. V. m.ce faça partazanas na sua officina; e eu, em quanto não tiver officio, preferirei não fazer nada a fazer legitimos reis, que é coisa que não sei fabricar. Sr. Leite, sabe que mais?... Seu filho nada deve ao duque de Bragança. Se teve bom officio, maiores serviços prestou seu filho ao duque, e maiores premios devia D. João á sabedoria de Domingos Leite. A final, pagou-lhe como era de esperar de um aventureiro que subiu de duque a rei, e desceu de rei a villão, desprezando o amor provado dos amigos e galardoando o odio solapado dos inimigos, para firmar sobre consciencias vendidas a segurança do throno, de cuja legitimidade e firmeza tanto crê elle como eu. Chegada a occasião de provar que estimava Domingos Leite, não só pelo que lhe devia, mas tambem pela honra do seu delicto, que fez o seu rei? Ordena-lhe que se desterre voluntariamente, que se despoje do seu officio, que perca a patria e o pão, sob pena de ser preso, julgado, sentenciado e talvez inforcado, porque as testemunhas da devassa o culpam, de cumplicidade na morte de um clerigo torpe. E sabe v. m.ce a rasão que tem o duque para querer fingir-se justiceiro na morte do clerigo? é porque elle preza os traidores, e premeia-os á conta de os ter sempre á volta de si. Ora, como o padre Silveira lhe delatou os fidalgos em 1641, quer agora o tal chamado rei honrar-lhe a memoria, exterminando este honrado moço, a fim de que elle não possa defender-se; porque, se Domingos Leite entrasse em julgamento, havia de sahir absolvido na consciencia do povo, embora o levassem do tribunal para o oratorio.
Com quanto Antonio Leite não objectasse ao longo arrasoado de Roque da Cunha, o silencio do velho não desapprovava nem assentia; todavia, os modos grutescos do amigo de seu filho cada vez lhe azedavam mais a invencivel repugnancia.
Quando, emfim, o alegre e palavroso neto da Barbara da rua dos Cabides se despediu para ir visitar homisiados portuguezes chegados recentemente a Madrid, Antonio Leite disse ao filho:
--Tenho má fé com este homem, Domingos!...
--Porque, meu pai?!.. Não vê que elle me deu provas de amisade tamanhas, que por amor de mim perdeu a patria e o officio que tinha?
--_Provas de amisade..._--murmurou o artifice--Maiores te daria eu, se, antes de resolveres matar o padre, me contasses a tua vida. Bom amigo seria o que te aconselhasse a não o matar...
--Então?... que me aconselharia meu pai?!
--Já t'o dei a perceber logo que me contaste as tuas desgraças. Eu, se fosse tu, fazia de conta que não tinha mulher. Tirar a vida a um homem sem rasões muito fortes, não se conforma com a minha rasão. Se elle fosse teu falso amigo, ou te desinquietasse a companheira, vá; mas, se nem ella era tua mulher nem elle sabia que tu a pretendias, mal aconselhado andaste; e, se foi este amigo que te aconselhou, máo amigo foi. Dizes tu que não puzeste a mão no padre: que foi Roque da Cunha quem o matou. Peor, peor! Quem mata um homem, que o não offendeu de longe nem de perto só por ser agradavel a um amigo, e anda depois, á laia d'este, contente e prazenteiro, olha que não é a primeira vez que mata, nem lhe custou muito essa prova que deu. Tens um máu amigo, Domingos... Acautella-te d'elle.
--Não seja injusto...--voltou o filho com menos calor do que era de esperar em defeza de um amigo calumniado--Conheço ha onze annos Roque da Cunha, e achei-o sempre leal e serviçal até pôr o seu braço desinteresseiro em desaggravo da minha honra. Não foi elle que se me offereceu para matar o padre; fui eu quem antecipadamente o obrigára por juramento a correr commigo todos os perigos...
--E dize-me cá--interrompeu Antonio Leite--este homem era bem procedido quando te amistaste com elle? Vivia com honra?
--Não tenho que ver com o que elle era...--respondeu Domingos Leite froixamente, lembrando-lhe o assassinio do pai de Miguel de Vasconcellos, a denuncia de Mathias de Albuquerque, os insultos que este general recebera á entrada da Torre de Outão, e outras malfeitorias que não sobreviveram á memoria dos contemporaneos.
--Não tens que ver com o que elle era?--repetiu tristemente o velho--Pois, filho, muito te convem estar de sobreaviso para o que elle hade ser.
Estas palavras, proferidas torvamente, impressionaram o espirito já preparado a recebel-as sem constrangimento da rasão, bem que ao animo reconhecido de Domingos Leite doêsse o consentir em tão austeras demasias. É uma sancta verdade não haver alliança de estima honesta entre dous homens pactuados por um feito criminoso. O affecto de Domingos Leite Pereira a Roque da Cunha era tão simulado ou sobreposse, quanto os remordimentos de um e o despejo do outro se distanceavam entre si. O coração--que desbordava de lagrimas, scismando na filha estremecida, e, ás vezes, vibrava de angustia, pensando que a esposa poderia vingar-se dando a outro a belleza desprezada--não entraria aos lodaçaes, onde as grandes angustias se atordoam e atrophiam, imparceirado com Roque da Cunha.
Domingos Leite era muitissimo desgraçado, quando seu pai o deixou, indo a Guimarães vender o prediozinho que representava trinta annos de economias.
XI
Chamava a cada hora pelo pai a inconsolavel Angela.
A mãe acariciava com beijos o rosto da filha; e, soluçando, dizia-lhe que o pai não tardaria.
A menina adoeceu de molestia que a mãe attribuiu a saudade. Maria Isabel desvellou as noites de joelhos á beira do leito; e, invocando o testemunho ou a piedade da Virgem do ceo, protestava suicidar-se, assim que sua filha morresse.
Quando Angela se amodorrava em lethargia febril, Maria Isabel escrevia ao marido a historia por minutos da doença da filha. Cada pagina terminava por nova supplica de as levar para si, a não ser que a creança expirasse, que então nada lhe pediria a não ser o perdão.
A desventurada amava o marido n'aquellas horas escurissimas. As derradeiras palavras d'elle, ao despedir-se, compungiram-na profundamente, por que gemiam na alma onde o desalento amolentára os espinhos do odio. O natural despeito de se ver desprezada, por espaço de anno e meio, pôde menos que a consciencia de haver matado o porvir d'aquelle homem, tão prosperado e ditoso n'outro tempo! Alanciavam-na remorsos de o ter enganado, e pensou que a Providencia a punia, pondo-lhe o marido no desterro e a filha na sepultura.
Angela resurgia salva da perigosa enfermidade, quando Maria Isabel, fechando a longa relação com a fausta nova da convalescença, sobrescriptou a carta para Madrid.
N'aquelle tempo, cartas enviadas a Hespanha eram revistadas e rasgadas quando não davam margem a suspeitas. Todo o portuguez que demorasse então em Castella peccava por traidor á patria ou criminoso foragido á justiça. Domingos Leite Pereira fôra arrolado na classe dos ultimos.
Tanto que o seu confessor lhe disse que o marido não recebia as cartas, Maria Isabel, soffreando o pejo, recorreu pessoalmente ao marquez de Gouvêa, levando comsigo a menina. O velho mordômo-mór recebeu-a com benevolencia. As lagrimas em rosto formoso ensinam a delicadeza e afinam almas compadecidas. Entretanto, o marquez não se prestou a transmittir as cartas, receando molestar a irritabilidade de el-rei.
--Mas que mal fez meu marido a el-rei?--perguntou Maria Isabel.
--Não fez mal directamente a el-rei; uzurpou-lhe simplesmente o direito de castigar. Quem mata um homem sem poder allegar que o fez em justa defensão de sua vida, dá a entender que o faz desconfiado da lei.
--Então o sr. D. João IV persegue meu marido?
--Não, senhora; permitte que a justiça cumpra o seu dever.
--E, se eu fosse com a minha filha lançar-me aos pés da rainha?
Sorriu-se o marquez em ar de reprovação do alvitre, lembrando-se que D. Luiza de Gusmão impedira que el-rei se deixasse apiedar das deplorações da duquesa de Caminha, quando já se estavam carpintejando as peças do cadafalso. Alem d'isso o mordomo-mór sabia que o nome da mulher de Domingos Leite chegára ao aposento da rainha com o labeo de prostituida a um padre. Não revelou o que lhe passava na mente, e fez apenas um gesto negativo.
--Mas el-rei não me trataria com desabrimento?--proseguiu ella.
--Não, com certeza. El-rei tractou mui urbanamente a sr.ª duqueza de Caminha, quando lhe foi pedir o perdão do marido.
--Mas não perdoou...
--É verdade; porém, são muito diversos os pedidos e as causas. Que lhe quer vossa mercê pedir?
--Que deixe vir meu marido para Portugal.
--E não seria melhor buscar meios de elle ser julgado e absolvido?--replicou o fidalgo.
--Não conheço ninguem... e tenho vergonha de fallar aos juizes!...
--Acho justa essa repugnancia...--assentiu o marquez--todavia, se quer fallar a el-rei, maior lhe deve ser o pejo.
Maria, apóz breve pauza, em que ponderou a replica judiciosa do mordomo-mór, insistiu ainda chorando:
--Se V. Ex.ª se compadecesse de nós...
--Em que posso mostrar-lhe que me compadeço das suas magoas?..
--Se V. Ex.ª tivesse modo de fazer chegar a minha filha á presença d'el-rei nosso senhor com um requerimento meu...
--Heide pedir licença a sua magestade, e espero alcançal-a. Dar-lhe-hei a resposta. Porém, suppondo que el-rei lhe nega audiencia ou lhe indifere o requerimento, dou-lhe um conselho. Vá para Madrid com sua filha. Seu marido de certo a não repulsará, se a senhora abrir o caminho ao perdão por intermedio da filha que elle adora. Se acontecer achal-o colerico, haja-se com discreta paciencia, dispensando-se de viver em commum com elle. Vossa mercê é bastante rica. Tanto lhe faz viver em Lisboa como em Madrid. Quadra-lhe o conselho?
--Sim, sr. marquez--assentiu Maria Isabel muito reanimada--E V. Ex.ª protege a minha ida?
--Heide conseguir que não lhe impeçam a passagem nas fronteiras, e dar-lhe-hei uma carta que esta menina hade entregar ao pai.
--E como heide encontral-o em Madrid?
--Antes de vinte e quatro horas saberei de Gaspar de Faria onde seu marido se alojou. Se chegar a ir, e reconciliar-se, recommendo-lhe com muita instancia que môva Domingos Leite a sahir de Hespanha. El-rei tem bons amigos em Madrid que lhe relatam pensamentos, palavras e obras dos portuguezes que lá vivem. Já cá é notorio que Domingos Leite, dominado pelo seu funesto amigo Roque da Cunha, concorre ás cazas mais suspeitas dos maquinadores da nossa escravidão. Sobre queda couce, diz o ditado. Não é assim que elle hade ter por si el-rei e os juizes. Por estas e outras rasões lhe aconselho, como bom amigo que ainda sou de seu marido, que em vez de ir a el-rei, passe a Hespanha; e depois, se Domingos Leite a quizer attender e á carta que eu lhe hei de dar, vão para França ou para Roma.
Nesta conjuntura entrou o secretario Antonio de Cavide, que fitou com ares de assombrado o bello rosto e garbosa compostura da dama desconhecida.
Maria Isabel, erguendo-se, disse á filha que beijasse a mão do sr. marquez, e sahiu.
--Quem é esta gentil fada?!--perguntou Antonio de Cavide--Eu nunca vi mais guapa mulher!
--É a esposa de Domingos Leite Pereira.
--Oh!... é esta!?. Olha o maganão do padre Luiz com que cilicios se penitenciava! Bem me dizia el-rei que a mais bonita mulher de Lisboa, segundo ouvira ao juizo competente do sr. marquez, era a Traga-malhas... Que diria sua magestade, se a visse?
--Que diria, e que pensaria!..--accrescentou o mordomo-mór, sorrindo com a malicia commum dos dois fidalgos.
--Eu sei cá!..--tornou o secretario de estado franzindo o sobr'ôlho--Talvez desculpasse o clerigo, e perdoasse aos ciumes ferozes do marido...
--Esta é joia mais de preço que a condessa de Villa Nova!..
--Upa, upa!
--E vai muito alem da açafata?
--Da Justa Negrão? Upa, upa! sr. marquez!
--Vem a ponto uma pergunta: a D. Justa está contente no mosteiro de Chellas?--perguntou o marquez.
--Está resignada desde que eu lhe mostro a filha de mez a mez.
--E el-rei continua a ver a menina?
--Levo-lh'a ao palacio de Alcantara todas as terças feiras. El-rei é doido pela pequena, e chama-lhe a sua querida infanta: mas a creança, que fez agora trez annos, tem uns ares tristes que fazem scismar.
--Adivinhará as lagrimas da mãe?--aventou o marquez--Ou seria concebida em estação amargurada...
--Lá como ella foi concebida não sei; são segredos de alcôva; mas a historia das damas dos reis não me fez conhecer uma só que se carpisse de ser mãe...
O mordomo-mór derivou a palestra em outro rumo, receando molestar o pundunor do ministro lançarote de el-rei.
Era Antonio de Cavide tanto das entranhas de D. João IV que, se o leitor leu em a _Nota 6.ª_ o testamento do rei, trasladado dos apontamentos originaes, veria as referencias com que o seu real amigo o recommenda á consideração da rainha. Arguiam-no os aulicos de ser o medianeiro dos amores illicitos do monarcha. Da açafata D. Justa Negrão segredava-se na côrte que fôra elle o corruptor á custa de infames alliciações, necessarias a vencer a indifferença e até a reluctancia da criada do paço. Fôra ainda Antonio Cavide o agente da profissão de D. Justa no convento de Chellas, e em caza d'este secretario se estava creando a filha d'esses amores, em que a victima violentada ganhára vestir a mortalha monastica, volvidos dois annos, mais que longos, para o regio fastio de sua magestade (_Nota 19.ª_)
Este secretario de estado, raramente referido nos historiadores do reinado de seu real amo, exercia attribuições, segundo parece, nas coisas secretissimas do rei, não lhe sobrando vagar para as do estado. Ainda assim, do testamento do monarcha deprehende-se que nenhum homem gosou como elle a confiança do rei até á hora final. Rodados vinte e seis annos, achamos Antonio Cavide condemnado á morte, na regencia de D. Pedro, como conjurado na tentativa de rebellião a favor de Affonso VI, prezo na Ilha Terceira. E dado que dois modernos historiadores[3] nos dêem Antonio de Cavide executado em Lisboa em 1673 é bem de ver que não colheram idoneas informações de escriptores coevos. Carlos II de Inglaterra, enviando, a rogos de sua esposa D. Catharina de Bragança, um navio a Lisboa com embaixador expresso, a pedir o perdão do velho secretario de D. João IV, logrou salval-o do patibulo; mas, decorrido breve termo, Cavide morreu com suspeitas de empeçonhado por insinuação do regente.
XII
Maria Isabel, querendo passar a Castella, offereceu os seus predios da Tanoaria a varios compradores que lh'os haviam desejado; mas a alienação dos bens seria nulla sem consenso do marido, e nulla tambem em quanto elle não houvesse respondido á justiça, que o esbulhára dos seus direitos.
Recorreu a dama ao mordomo-mór, que não antevira o embaraço, nem podia removêl-o. A consternada senhora sahiu do gabinete do marquez, desattendendo os prudentes conselhos que tendiam a esperar alguns dias o resultado da intervenção de um ministro mais influente no real animo. O mordomo-mór lembrara-se de Antonio Cavide. Maria Isabel lembrara-se de D. João IV.
Seguiu d'alli, com a filha, para o paço da Ribeira, e entrou no Arco de Ouro. Debaixo da arcada estava a Porta da Campainha. Chamava-se assim porque debaixo d'aquelle arco havia entrada franca de serventia para uma casa onde estava uma roda, como a das portarias monasticas, e sobre a roda uma sineta que tangiam as pessoas que procurassem el-rei. E, logo que a campainha tocasse, D. João IV enviava alguem a reconhecer a pessoa, ou descia propriamente, se esperava ser procurado por aquelle meio menos ordinario.
Estava o rei com Antonio de Cavide na sua pomposa bibliotheca de musica, situada na porção do palacio chamada o _Quarto do Forte_, quando ouviu tanger a sineta.
--Vá ver quem é--disse o rei sorrindo--Olhe que não vá ser algum burro lazarento...