Chapter 4
--É ámanhã que deve sahir; porque depois de ámanhã fecha-se a devassa, infalivelmente.
O mordomo-mór beijou a mão do rei, e sentiu no animo recondita aversão ao soberano aprumo de D. João de Bragança. Latejou-lhe talvez nas arterias o sangue castelhano de seu pai, conde de Portalegre, tronco d'aquella alta vergontea que cahiu com a corôa ducal de Aveiro sob a lamina do algoz em 1759.
Sahiu triste o ministro a encontrar-se com o secretario, em seu gabinete. Referiu-lhe o que se passára com el-rei, deplorando a fatalidade que o privava temporariamente de tão bom como infeliz amigo.
Domingos Leite ouviu a nova, com exterior de mediano sobresalto.
--Agradeço a sua magestade--disse elle--a permissão de levar commigo o homem que associei ao meu funesto desaggravo. V. Ex.ª sabe que eu me furto ás penas da justiça mais para salvar Roque da Cunha. Nada monta para mim a vida, se sou obrigado a desterrar-me, e deixar a minha filha--unico amor que me ficou ao de cima d'este abysmo em que me vejo precipitado com tantas quimeras brilhantes que me enganaram. Todo me sinto perdido, e morto, peor que morto, se heide no exilio agonisar de saudades d'aquella creancinha...
--Eu olharei por ella--consolou o marquez--Se não vier tão depressa quanto eu desejo, sr. Leite, creia que heide conseguir mandar-lhe sua filha, logo que ella esteja creada.
--Não mande, sr. marquez...--acudiu Domingos Leite.
--Que não mande?! Porque não?..
--Porque eu não sei se terei lá fora de Portugal um pão que repartir com minha filha...
--Pois vm.ce não é rico?
--Eu tinha bom officio, e os grandes salarios que v. ex.ª me dava. N'este momento deixei de ser o escrivão do civel da côrte e o secretario do mordomo-mór. Sou um assassino sem patria. Verdade é que meu pae, o cuteleiro de Guimarães, apesar de eu lhe pedir que sahisse da forja e descansasse, com os seus haveres e os meus, o restante da velhice, ainda trabalha: mas eu não sei se elle enviará a um filho apregoado assassino o que adquiriu com o trabalho honrado que eu desprezei, apezar das suas supplicas...
--Mas...--atalhou o marquez--O sr. Leite, desde que casou, tem parte no grande patrimonio de...
--De Maria Isabel?--acudiu com vehemente repugnancia o secretario--D'essa mulher não tenho senão a parte que me cabe do seu desdouro. E quando eu pensava que a minha honra havia de sahir depurada d'este fogo que me devora desde a noite em que vi o cadaver do padre, afinal de contas, sou o mesmo desgraçado que era, e ajunto á desgraça de perder uma mulher que adorava, tres grandes infortunios: não terei de hora ávante patria, nem filha, nem meios de que viver com honrada independencia. Dos bens de Maria Isabel não levarei um ceitil, sr. marquez. Aqui mesmo, se v. ex.ª me permitte, escreverei a meu pae, a fim de o preparar para o golpe. Não posso mentir-lhe. Eu não matei; mas mataria com certeza, se estivesse no posto de Roque da Cunha. É forçoso que eu diga a meu pae que tenho um grande crime; mas que em minha consciencia não perdi o direito de lhe supplicar a esmola que os encarcerados imploram pelas grades das masmorras aos que vão passando.
O marquez enxugava as lagrimas, emquanto Domingos Leite Pereira escrevia, parando a cada palavra a penna, á espera que as palpebras embebessem o jorro das lagrimas. Ao dobrar a carta, murmurava o extremoso pai:
--Não vou despedir-me de minha querida filhinha... Isso é que eu não posso, meu Deus!.. Sei que não posso... Quando eu tiver partido, mande-a v. ex.ª buscar e falle-lhe de mim... Pede-lh'o esta alma que se me parte de angústia, sr. marquez! Eu queria que ella me não esquecesse; e, a não ser v. ex.ª, quem lhe fallará de seu pai!..
--Vá com a certesa de que heide mandar buscar a sua filha muitas vezes, e não desanime de voltar a Portugal, sr. Leite. Eu quero ainda vêl-o hoje á noite. Vá dar os passos que tem a dar, e volte a despedir-se do seu velho e inutil amigo.
Debalde o esperou.
IX
Elle disse que não teria animo de se despedir da filha. Animo de partir sem vêl-a é que elle não teve.
Sahindo do palacio do marquez seguiu o trilho de sua casa. A cada rua e travessa, por onde podia desviar-se, parava, guinando os olhos tôrvos e cheios de lagrimas, entre os dous caminhos. Em uma d'essas paragens de dolorosa perplexidade avistou Roque da Cunha, que marchava de cara alta, mão na ilharga, consciencia tranquilla no aspecto ridente.
Esperou-o Domingos Leite, e disse-lhe offegante:
--Ámanhã sahiremos de Lisboa e passaremos a raia. Prepara-te.
--Então que ha?
--Uma ordem de prisão é o que vae haver contra nós. Fecha-se ámanhã a devassa.
--E para onde vamos? já resolveste?
--Para Hespanha.
--Está claro. O meu dinheiro são oitenta cruzados; mas tu vaes assombrar Madrid com o cofre do Traga-malhas, que Deus tem na gloria dos tanoeiros.
--Eu tenho de meu ainda menos do que tu--respondeu Domingos Leite com severidade--Escrevi a meu pae pedindo-lhe alimentos; se elle m'os não der, veremos em que trabalho a Providencia m'os depára.
--A Providencia, amigo Leite,--replicou o folião--não tem n'este mundo secretario das mercês conhecido, a não ser o padre santo. Este anda ás avessas com portuguezes, e não me parece que deva ser assaz amigo de quem lhe bate seriamente nos padres. Leva dinheiro, homem; que um portuguez pobre em Madrid vale menos que um judeu rico em Lisboa. Mas não esmoreças se fizeste voto de ir por Castella dentro com esclavina e bordão de peregrino. Lá está em Madrid minha mãe. Se ella me reconhecer e não tiver pejo de me haver gerado, não nos hade faltar boa meza em casa de meu padrasto o desembargador do Paço Francisco Leitão...
--Não percamos tempo--interrompeu Domingos Leite, aborrecido do tom jovial do interlocutor--Á noite, serei em tua casa, e de manhã partiremos.
--Olha lá, Domingos Leite,--volveu Roque, cingindo-lhe o braço pelas espaduas--conselho de amigo que anda cá n'este vale de lama ha quarenta e oito annos...
--Que é?
--Não deixes a mãe de tua filha á matroca, com lastro de vinte mil cruzados na falua, e vinte e dois annos de edade, e com mais tentações no rosto que todas as moiras juntas em noite de S. João. Convento com ella, ouviste?
Domingos Leite encarou torvamente Roque, e respondeu-lhe, passados dois segundos:
--Que me importa isso a mim? Sabes que, ha um anno, vivo ao lado da mãe de minha filha, como se entre nós se mettesse a pedra que separa duas sepulturas. Nunca pensei em lhe dar maior castigo que o do meu despreso. O enclausural-a dentro dos ferros do mosteiro não a lavava da mancha indelevel de donzella que foi as delicias d'um padre. Eu sentia por ella alguma coisa mais implacavel que o odio: era o nôjo. Que me faz a mim já agora que essa mulher cave com as proprias mãos mais um palmo no seu abysmo de lôdo?
--Palavrorio!--replicou o quadrilheiro--Se tua mulher te não fosse leal, enforcaval-a como o alcaide de Belmonte fez á mulher por causa de outro clerigo da casta do padre Luiz da Silveira. (_Nota 11.ª_) Contava-me o caso minha avó, que era do tempo em que se enforcavam as fidalgas adulteras.
--Acabemos esta semsaboria...--cortou Domingos Leite com trejeitos desabridos--Cuida de ti, e não entrevenhas nas coisas alheias da tua alçada...
--Intervim de mais...--murmurou Roque estomagado do repellão--Cá vou tratar de mim, amigo Leite... Sempre será bom que me não ponham a prumo no logar onde eu puz o padre de bruços, por intervir de mais nas coisas alheias da minha alçada. Até á noite.
Ao separarem-se assim irritados, Leite Pereira, pezaroso da sua impertinencia, ainda se voltou para chamar o amigo e dar-lhe satisfação das palavras rudes; mas Roque da Cunha estugára o passo, como quem ia mais preoccupado da devassa que da offensa.
Este incidente carregou mais a treva d'aquella alma. Zoavam-lhe estridores metalicos na cabeça, e confragia-se-lhe a fronte crivada de dores como se esgarçassem por ella os espinhos mordentes de uma corôa. A revezes, parava, porque o respirar lhe dava afflições, ou o pavimento se lhe figurava um despenhadeiro. Quando chegou a sua casa, á Porta do Salvador, sentou-se no escabello do pateo, e arquejou largo espaço, olhando para a escada, ainda indeciso se subiria a despedir-se da filha, se encarregaria um criado de lhe levar a sua bagagem a casa de Roque da Cunha.
N'este comenos, entrava Maria Isabel, vinda de fóra, com a creancinha pela mão.
Estremeceu dando de rosto com o marido. Leite Pereira, ao vêl-a, ainda se esforçou por evital-a; mas a filha corrêra contra elle, com os braços abertos, balbuciando palavras cariciosas. O pae sentou-a sobre os joelhos, e rompeu em alto choro, que a menina acompanhava em gritos, affagando-lhe as faces e beijando-lh'as com ternissima anciedade.
N'isto, levantou-se de golpe, aconchegou do seio a filha, e subiu acceleradamente as escaleiras.
Seguiu-o Maria Isabel, sinceramente consternada, dizendo-lhe palavras maviosas; e, quando elle entrava no seu quarto e fazia menção de se fechar por dentro, a mulher, arrostando o perigo de soffrer o embate da meia-porta, rompeu de poz o marido, e, pondo-se de joelhos, exclamou:
--Se podes ser mais feliz com a minha morte, peço-te que me acabes de uma vez!.. Eu já não posso com o teu despreso; tenho procurado viver por amor desta creança; hoje creio que ella já não precisa de mim, visto que tu a amas, e a Virgem do céo attendeu os meus rogos. Desde que me abandonaste, não cessei de pedir a Deus que te voltasse o coração para a nossa filha, embora eu fosse a odiada. Agora que o meu querido anjo tem o teu amparo, peço a Deus que me tire d'este supplicio; peço-te a ti que me dês uma morte bem rapida, de modo que eu não possa vêr na minha agonia de morte esta menina a chorar!...
Domingos Leite, que havia sentado a filha sobre o leito, ouviu a exclamação de Maria Isabel, fitando-a com terrivel immobilidade de olhos. E, quando ella acabou a supplica, e parecia de mãos postas esperar a morte, o marido, avançando para ella os dois passos interpostos, disse-lhe com serena voz:
--Levante-se e escute-me!
Ella ergueu-se encarando-o espantada, e abeirou-se do leito em que a menina, de pé e tremente, relançava olhares espavoridos entre o pae e a mãe.
--Sou obrigado a desterrar-me, senhora!--disse elle pausadamente--Á mulher, que fez da sua mocidade o opprobrio do marido, e que fez do marido um assassino, é preciso que eu n'esta hora lhe diga que ámanhã a justiça me pedirá contas da vida d'um homem que devia morrer, visto que elle matára a honra da mulher de Domingos Leite. Vou homisiar-me, e não mais voltarei a Portugal, porque vae commigo a ignominia que lá fóra me hade espedaçar...
--Ó Domingos...--exclamou Maria Isabel--Ó filho do meu coração, leva-nos comtigo!..
--Não me atormente com interrupções frivolas!--obstou elle mal assombrado--Deve saber, senhora, que eu vou sahir de sua casa extremamente desvalido, pobrissimo, com umas migalhas que hontem recebi dos meus ordenados. Hade encontrar de portas a dentro tudo que seus paes lhe deixaram, e o mais que eu lhe pude accrescentar com os meus recursos. Se alguem na sua presença me alcunhar de homicida, não me defenda; mas, se lhe disserem que eu no desterro mitigo as saudades da patria com os haveres da mulher que a fatalidade me deu, negue, negue, senhora, porque eu fui cinco annos seu marido, e não toquei em um cruzado do seu patrimonio. Prouvera a Deus que esta creança tivesse a necessaria intelligencia para me ser testemunha da minha pobre honra, por essa parte illesa! Oxalá que depois da minha morte esta menina podesse dizer que seu pae foi um desgraçado sem nodoa na sua probidade!..
Fez uma dilatada pausa, porque os soluços lhe cortavam as palavras, emquanto Maria Isabel, tomando a filha nos braços, lhe ajoelhava outra vez.
--Não serve de nada essa humildade, senhora!--volveu elle com desalento e desesperação--Levante-se; peço-lhe que se levante, se alguma pena tem de mim. Eu necessito pedir-lhe que seja boa mãe... que ame esta creança, que reduza a sua existencia em lhe preparar o futuro. Lembre-se que eu lá do desterro lhe estou sempre pedindo que se sacrifique á minha filha. Expie a sua culpa, formando-lhe o coração com as virtudes que até as mães pessimas conhecem quando chegam a ter pezar do seu vilipendio. Faça tudo que entender preciso para que sua filha não leve com um pouco de ouro um grande cabedal de infamia a seu marido. Vigie-lhe os passos da mocidade afim de que o marido, que lhe escolher, não tenha de apartar-se d'ella com o ferrete de assassino na fronte. Não tenho mais que lhe pedir. Agora, rogo-lhe que me deixe.
--Não, não te deixamos...--tornou a esposa--Ó Angela, ó minha querida filha, pede com as mãos erguidas a teu pae que nos deixe acompanhal-o!
A creança ajoelhou, supplicando:
--Deixe, deixe, meu pae!..
Domingos Leite poz na mulher um olhar enfurecido, fez arremêço de indignação, e bradou:
--Quem lhe disse, mulher, que eu lhe perdoei?! Se estava morta para mim, como heide eu dar-lhe vida de esposa, fazel-a minha companheira do desterro, quando a justiça me persegue porque eu lhe matei o amante?
E, ao proferir a palavra indecorosa, olhou vertiginosamente para a filha, travou d'ella com impeto phrenetico, ergueu-a á altura dos labios, e murmurou:
--Eu morreria de vergonha, se me tivesses comprehendido!..
E, voltando-se para Maria Isabel, que tiritava apoiada no espaldar de uma cadeira, bradou-lhe:
--Deixa-me levar minha filha? deixa-m'a levar só a ella?..
--Meu Deus!--exclamou a mãe.
--Diga, diga!--instou elle com crescente vehemencia--Fica-lhe tudo, riquesa, mocidade, liberdade, tudo; mas deixe-me levar Angela... Não deixa?
--Não posso, não posso!.. Mate-me, mate-me, e depois leve-a!..
--Que a mate!.. Olhe que eu não tenho sangue nas minhas mãos, mulher!.. Veja-as, que estão limpas... eu levo sobre a consciencia o peso de uma enorme vergonha; não levo o peso de um cadaver, percebeu-me?... Pois cuida que as entranhas que tanto amam uma filha podem ser as d'um carniceiro? Poderia matal-a o homem que viveu anno e meio n'esta mesma casa, sem vêr a mulher que o mundo chamava minha esposa, e que viveu aqui, e d'aqui sahia todas as manhãs com apparencias de feliz, para que o mundo duvidasse de que a senhora tinha sido a recatada amante de...
Soffreou de novo a palavra infamante; e, cravando os olhos nos de Angela, parecia indeciso sobre a intelligencia da creança.
--Ó infindo tormento!--clamou Domingos Leite apertando a cabeça, e debruçando-se prostrado sobre o leito.
N'este lance, Maria aproximou-se do marido, poz-lhe a mão no hombro, e murmurou:
--Olha, Domingos, escuta... Leva a nossa filha.
--O quê?! bradou elle, erguendo-se.
--Leva a creança. Queres ir com teu pae, Angela?
A menina deteve-se a responder, olhando para ambos alternadamente.
--Queres ir commigo, filha?--perguntou o pae.
--E a mãe tambem vae?--disse a menina assustada e irresoluta.
--Eu vou-me embora, e nunca mais volto--tornou o pae--Não me tornas a vêr. Queres ir com o teu pae?
--E não torno a vêr a mãe?
--Hasde vêr, menina--acudiu Maria Isabel engulindo as lagrimas--Tu depois has de pedir ao pae que me deixe ir vêr-te, sim?.. pedes, filhinha?
Angela, sem perceber a profundesa do trance que ali se passava, abraçou-se na mãe, chorando. Domingos Leite cruzou os braços contemplando mãe e filha que se estreitavam num abraço convulso como o estorcer de suprema angustia. Volvidos alguns segundos, disse com o desanimo d'alma emfim sossobrada:
--Irei só. Tu ficas, Angela. Deus não quer que o anjo de innocencia vá nos braços d'um pae homicida mendigar o pão de estranhos. Não deves ter quinhão do meu castigo, pobre menina!... Agora, peço de novo á sua compaixão... Maria Isabel... que leve sua filha, e me deixe só...
A esposa sahiu com vacilantes passos, levando a menina á força. Domingos Leite volveu de novo a beijal-a, e impelliu-a brandamente para fóra do quarto. Depois, correndo a lingua da chave, voltou-se para um Senhor Crucificado, e disse mentalmente:
--Forças, meu Deus! Guardae-me os maiores tormentos para o desterro, e dae-me alento n'este lance!
X
Quando se divulgou em Lisboa que o escrivão do civel, secretario do mordomo-mór, desapparecera com Roque da Cunha, duas opiniões se formaram ácêrca do successo estrondoso.
Quanto a Domingos Leite, dizia-se que, tendo o santo officio, no começo d'aquelle anno de 1647, aferrolhado nos seus carceres alguns sujeitos amigos do escrivão, este, receando sorte egual, se evadira. A criminalidade dos réos presos era suspeita do _peccado infame_ (veja _Larraga_, passim); porém, o delito que o vulgo attribuia ao marido da Traga-malhas era de menos impudica especie: dizia-se que o fugitivo andava gafado de herezia, e dava noticia de livros lutheranos procedentes de Hollanda. Os propagadores do boato, querendo explicar a fuga simultanea de Roque da Cunha, asseveraram que elle se passara a Madrid, onde vivia sua mãe, D. Vicencia Corrêa, loureira famosa de Lisboa, antes de ser casada com Francisco Leitão, o Guedêlha, que tinha sido do conselho de Portugal em Madrid, de boas avenças com o usurpador, e, como renegado incontricto, lá se ficara contraminando a restauração do reino. (_Nota 12.ª_)
Poucos dias passados, avultou mais acirrante explicação da fuga, que necessariamente ressumou do tribunal ou das testemunhas da devassa.
Affirmava-se que Domingos Leite matara o padre Luiz da Silveira, coadjuvado pelo facinoroso meirinho Roque. A causa da morte fundavam-a na jactancia do padre em ter corrompido quando muito moça a sua discipula, que depois casou com Domingos Leite Pereira. Accrescentavam os mais imaginosos que o padre lhe escrevera depois de casada, e ella dera a carta ao marido. Sahia então um dos mais enfronhados em segredos de palacio, e explicava que el-rei, por não affrontar a memoria do clerigo, julgando racionavel a indignação do marido, avisara ao marquez de Gouvêa para que este obrigasse Domingos Leite a expatriar-se. A voz commum, afinal, era que o escrivão do civel da côrte ia caminho de Roma a negociar sua absolvição, e que Roque da Cunha estava em Madrid, vendendo barata a Filippe IV, por intermedio de D. Vicencia, a damnada alma.
Pelo que respeita ao matador de Pedro Barbosa e padre Luiz da Silveira, a opinião publica ferira certeiramente o alvo. A esposa do desembargador do paço, bem segura da indulgencia do marido, quando Roque lhe escreveu, noticiando a sua chegada a Madrid, não renegou o fructo de suas entranhas, ou por escrupulos de velha temente ao diabo com quem andara muito mana quando rapariga, ou por medo á lingua do filho, que desde os dezoito annos se emancipara envergonhando-a com suas turbulencias e gandaices.
A filha da celebrada Barbara, em cujo bordel, na rua dos Cabides, os abastardados fidalgos de D. Sebastião, velavam as armas com que se infamaram em Alcacer-Quibir, orçava então cêrca dos oitenta annos; e, não obstante edade tão avêssa de aspirações, era ardentissima faccionaria de Castella, e gosava-se de ser o cabresto de seu marido, o doutor Guedêlha, em cuja casa reunia os fidalgos portuguezes que ficaram em Hespanha, depois da acclamação do duque de Bragança, ou lá se foragiram, depois do supplicio dos conjurados de 1641.
Roque, historiando á mãe, na presença de Diogo Soares e do Conde de Figueiró, o motivo da sua fuga em companhia de Domingos Leite Pereira, não allegou fraudulentamente designios politicos: acingiu-se á verdade, calculando que seria bastante recommendação para ambos o terem apunhalado Luiz da Silveira, muito conhecido do ex-secretario Diogo Soares, no tempo em que a recovagem da correspondencia de Madrid com o arcebispo D. Sebastião de Mattos era desempenhada habilmente pelo padre. Sabia-se lá que o confidente delatara os conjurados. A nova da sua morte mysteriosa, receberam-na os fidalgos expatriados jubilosamente, e não menos grata lhes foi a presença dos vingadores das victimas do traidor. Além d'isso, o desforço do marido de Maria Isabel foi encarecido como feito de fidalgos espiritos; e tanto que, o velho Francisco Leitão, que só sahia do seu palacio para o d'el-rei, foi pessoalmente visitar Domingos Leite, e apresentar-lhe o habito de cavalleiro da ordem de Christo, com que a magnanimidade de Filippe IV o agraciava pelos motivos honrosos que o desterravam.
Quando o desembargador procurou o brioso portuguez na estalagem, estava com o fugitivo um homem entre cincoenta e sessenta annos, vigoroso, encorpado, vestido de baeta, e coberto de tabardo de borel.
--Pelo vestido, parece-me portuguez do Minho do nosso Portugal, este homem:--disse Leitão a Domingos Leite.
--É meu pae; chama-se Antonio Leite; é de Guimarães, cuteleiro de officio. Avisei-o de minha fuga, pedindo-lhe meios para subsistir em Madrid. O meu pobre pae veio trazer-m'os, e volta para a sua forja.
--V. m.ce não precisava de pedir recursos a alguem, sabendo que estão aqui portuguezes. E voltando-se para o cuteleiro, proseguiu:--Bom pae, escusa de mandar dinheiro ao seu honrado filho, que nada lhe hade faltar em Madrid.
--Mercês, meu senhor--respondeu Antonio Leite--mas, em quanto eu poder lidar na officina, o meu Domingos, querendo Deus, hade viver do que é seu. Só tenho este filho; e, graças ao Senhor, ainda sinto braços para a bigorna. Oxalá que o rapaz nunca me sahisse de casa; que, a esta hora, não andaria por terras alheias...
--_Terras alheias!_...--objectou o velho ministro de Filippe III.--Não é terra alheia Hespanha; hespanhoes todos nós somos...
--Nemja eu!--acudiu o cuteleiro--nem meu filho o hade ser, sem a minha maldição. Tanto eu como elle nascemos na rua de Infesta, em Guimarães, onde tudo é portuguez, desde que lá nasceu e se baptisou o primeiro rei de Portugal.
Francisco Leitão espirrou uns jactos de riso zombeteiro, e regougou por entre os insultos do catharro caquetico:
--Estas abusoens do povo, filhas da ignorancia, ainda mal que nos trazem divididos os filhos do mesmo tronco visigodo, e teimam em fazer nação um retalho de Castella, que já valeu muito sobre o mar, mas que pouco monta em terra firme. Meu honrado homem de Guimarães, dou-vos de conselho que não façais alardo do vosso patriotismo em Madrid, agora principalmente que tendes cá o filho, bem acolhido nos braços dos seus compatriotas, quando os compatriotas de lá o exterminam, e o enforcariam, se o houvessem ás mãos...
--Mas, sr. desembargador--interrompeu o vimaranense--o meu filho não tem crime de ir á forca; á forca devia ir o outro que...
--Meu pae--atalhou Domingos Leite, obstando referencias á causa do homicidio--o sr. desembargador não me accusa, para que meu pae me defenda. Isso pertence á justiça, que não se hade ver embaraçada com a minha defeza.
--Nem v. m.ce com a condemnação--accrescentou o ex-conselheiro de Portugal em Madrid.--Se em Lisboa os desforços das almas nobres são punidos como os crimes dos facinorosos de profissão, el-rei nosso senhor Filippe IV galardoa Domingos Leite Pereira com o habito da ordem de Christo, e admira-se que o duque de Bragança tão indignamente remunerasse a intelligencia do secretario do marquez de Gouvêa, alentado villão que se lhe vendeu pela mesma causa, que ainda se hade vender a el-rei de Hespanha.
--O sr. marquez de Gouvêa--observou Domingos Leite--não se vendeu.
--Então deu-se de graça como quem não achou comprador?--replicou o sarcastico Guedêlha, casquinando a sua asperrima risada.--Está v. m.ce bem informado. D. Manrique, filho do castelhano conde de Portalegre, não se vendeu: atraiçoou o rei que lhe deu a coroa de marquez. Mais infame, por consequencia, que os vendidos; que estes tem a desculpa da necessidade subornada pelo ouro; em quanto o marquez de Gouvêa se infamou gratuitamente.
Pereira Leite submetteu a replica ao respeito devido á provecta edade do conselheiro, e desviou a pratica incommoda, pedindo licença para não acceitar a mercê do habito de Christo.
--Porque não?--sobreveio o desembargador.