O Regicida

Chapter 3

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Maria Isabel soluçava uns gemidos que a estrangulavam. Elle arrancou-lhe as mãos do rosto, e bradou-lhe:

--Olhe para mim! Nada de momos! Responda: que juizo fez de mim n'este espaço de tres annos em que a tenho tratado com os extremos de noivo no primeiro dia da sua felicidade? Imaginou que eu fosse um vil, que se habituou á deshonra, a troco de vinte mil cruzados da sua infame mulher? Responda, que o seu silencio obriga-me a arrancar-lhe do coração a resposta!

--Não...

--Não... o quê?..

--Eu nunca te suppuz vil...

--Suppoz-me então enganado?...

--Enganado... não...

--Então, vil... uma das duas coisas... Em que ficamos: vil, conformado com a deshonra, ou enganado, isto é, persuadido de que tinha casado com uma mulher honesta?

--Meu Deus!--exclamou ella afflictissima--Matae-me, Senhor!--e punha os olhos sinceramente supplicantes na imagem de Jesus.

--Pois que suppunha?--insistiu Domingos Leite--Cuidou que a sua devassa mocidade seria segredo entre Deus e o padre? Nunca lhe gelaram terrores a alma, prevendo que um acaso viria explicar a rasão que eu tive para a injuriar poucas horas depois que lhe dei o meu nome honrado e a minha vida sem mancha? A senhora deve ter tido remorsos de mentir tão torpemente a um homem que tinha direito a encontrar esposa honrada! Bem sabia que eu não era marido que se vendesse, e trocasse a ignominia da pobresa pela ignominia de uma manceba de clerigo com alguns mil cruzados. Quem a privou de me dizer, quando fallou a só commigo; que na sua vida havia desaires que a prohibiam de amar um homem de bem? Recorde-se... Não lhe disse eu que, apesar de lhe querer com toda a alma d'um primeiro amor, como não acreditava na efficacia dos meus meritos, reflectisse antes de me acceitar como marido, e não viesse para os meus braços com o mais pequeno affecto sacrificado á vontade de seus paes?

Maria Isabel prostrou-se aos pés do marido, exclamando:

--Foi verdade...

--Foi verdade!... e a senhora mentiu-me, cobriu-me de lama, fez-me o successor indissoluvel do padre!.. E que sou eu então diante de si e diante do mundo? A irrisão dos meus inimigos, e a compaixão aviltadora dos meus amigos!...

E, levantando-se de golpe, sacudiu phreneticamente a mulher, que lhe abraçava os joelhos, e, dados alguns passos, parou em frente d'ella, cruzou os braços, e rouquejou convulsamente:

--Ó miseravel! pôde assim, formosa e rica, aos quatorze ou quinze annos, resvalar á voragem das loureiras secretas por entre os braços d'um padre! Amou-o? diga, mulher impudica, amou-o?

--Pelas chagas de Jesus Christo!--volveu ella, ajoelhando-se-lhe novamente--Eu sei que vou morrer... Se me tu não matares, heide eu matar-me!. Ai! minha querida filha!... Ó Domingos, não desampares aquella creancinha que é tua filha!...

--Matar-se!--replicou sarcasticamente--As mulheres na sua condição não se matam, porque... estão mortas... Quem teve a coragem de se deshonrar perdeu a força moral que dá a rehabilitação...

--Eu era uma innocente...--soluçou Maria Isabel--Não sabia o que era deshonra... Passára a minha infancia entre meus paes. Minha mãe era tão virtuosa que nem me precaveu contra a maldade do mundo...

E, como os arrancos lhe embargassem a voz, o marido, que parecia ferozmente interessado na confidencia, disse:

--Continue... Vae-me contar por miudos a historia da sua... queda... Conte.

--Oh!.. pelo divino amor de Deus!--clamou ella--que queres saber d'esta desgraçada?... Eu só soube que estava perdida, quando te amei, porque então senti que era indigna do teu amor!..

--E não obstante... diga o mais... Conhecendo-se indigna, fez-me descer na rampa da infamia para me nivelar com a senhora!..

--Pois bem!--bradou ella com vehemente resolução--Esmague-me, que eu sou punida, e o senhor vingado!

--Heide reflectir...--retrocou Domingos Leite serenamente--Nem todas as mulheres são dignas de morrerem ás mãos de homens honrados. Entretanto, dê-me o infernal praser de lhe ouvir contar a historia dos seus primeiros amores.

E, dizendo, sentou-se, indicando-lhe com um tregeito de cabeça que se assentasse a seu lado. Ella hesitou; mas um arremêsso de impaciencia, e duas fortes punhadas que elle deu no espaldar do preguiceiro, incutiram no animo de Maria Isabel a suspeita de não sahir com vida de tamanha angustia.

Sentou-se ella, a tremer, com as mãos cruzadas sobre o peito e os olhos piedosos fitos no perfil do marido.

--Conte lá,--disse elle com os cotovellos apoiados nas pernas, a face entre as mãos, e os olhos postos no pavimento--conte desde o principio essa historia... Como foi que o padre lhe fez saber que a desejava, e como foi que a menina de quinze annos acceitou as doutrinas do mestre.

O dialogo seguido a esta intimação demorou-se meia hora, que devia figurar-se um dia de tormentos a Maria Isabel: tão dilacerantes cortavam as perguntas no pudor d'aquella mulher.

Porém, finalmente, no rosto de Domingos Leite Pereira já vislumbravam sentimentos de compaixão, porque os do rancor tinham posto a pontaria em outro alvo.

As ultimas palavras d'elle, proferidas com gravidade, mas sem tom de ira, foram estas:

--D'hora em diante eu continuo a ser seu marido perante o mundo; mas diante da senhora sou um estranho. Emquanto a mãe de minha filha assim quizer viver commigo, essa creança, que eu adoro, será sua tambem; mas, se este viver lhe não quadrar, eu sahirei com minha filha; e farei que ella nunca saiba quem foi sua mãe. Esta sentença não condemna o delicto da sua impuresa; condemna o enorme crime de me ter acceitado como marido. Concorda na minha proposta?

--Sim... concordo... Eu viverei como tua criada, se assim o quizeres; mas não me tires a minha filha.

--Retire esse tratamento do _tu_--voltou o marido com sobrecenho.--Nem uma palavra, nem um gesto que indique a maior ou menor alliança de duas almas que se estimaram, ou tredamente se dissimularam... Esta casa é bastante grande. Podem viver n'ella duas pessoas sem se encontrarem. A senhora é rica: administre o que tem: eu não tenho nada que vêr com os seus bens de fortuna. Ficamos entendidos. Qualquer infracção d'este pacto, estalará em tempestade sem bonança.

VII

Aquelle mercieiro, primo do mestre de Maria Isabel, attribulado agora pelas revelações que fizera a Roque da Cunha, avisou padre Luiz da Silveira, encarecendo os martyrios que lhe arrancaram o segredo.

O thesoureiro de S. Miguel de Alfama ponderou o melindre da situação, e maldisse a embriaguez que o levou á imprudencia de se gabar d'um delicto que elle julgava já esquecido e delido como o bôlo avinhado de que lhe espumara aos beiços a jactancia de ter sido amado da esbelta Maria Isabel Traga-malhas.

Trazia elle, ao tempo, requerimento bem protegido no paço, pedindo um beneficio na sé de Silves. O aviso do parente esporeou-lhe a diligencia na obtenção da prebenda; para o que, logo na mesma hora, se foi pessoalmente á côrte da Ribeira, e logrou alcançar do secretario de estado a promessa do despacho n'um dos seguintes dias.

No entretanto cuidou o padre de enfardelar o mais precioso dos seus haveres, sendo o sobre todos estimadissimo fardel, uma rapariga de bons quilates de bellesa, não sabemos se tambem discipula d'elle, se creatura já amestrada em amores, quando o cauto clerigo a installou na freguezia de S. Mamede, no _Bêco dos Namorados_,--nome gracioso que desdizia da immundicie d'aquella escura alfurja, apenas palmilhada a horas mortas, por um só namorado, que era padre Luiz. Este béco abria por uma das extremidades no _Terreirinho do Ximenes_, local azado para amantes clandestinos, visto que raro viandante por ali transitava depois das Ave-Marias.

Para afugentar o terror que o primo lhe incutira, pintando-lhe Roque da Cunha caudilho de uma horda de quadrilheiros facinorosos, padre Luiz fiava-se na convicção de que ninguem lhe suspeitava a lura, nem por aquelles sitios desfrequentados lhe faria espera. Ainda assim, como o seu mêdo era mais de clerigo do que de homem, e o escandalo o assustasse mais do que a lucta, cingiu um correão de pistolas, envolveu-se na capa longa de arruador nocturno, derrubou a aba do sombreiro aragonez, e, á hora do costume, sahiu com o intento de conduzir para casa do primo tendeiro a moça inquilina do _Bêco dos Namorados_.

Meia hora antes de elle entrar no _Terreirinho do Ximenes_, precederam-no n'aquella paragem, desembocando das _Pedras Negras_[2] dois vultos, que pareciam, no moverem-se umas sombras; e sendo dois homens, tão subtilmente deslisavam que difficil fôra estremar qual d'elles projectasse a sombra do outro.

--Hade passar aqui ou entrar pelo outro lado--disse Roque da Cunha a Domingos Leite--A tua paragem é esta; a minha é a outra. Dou-te o ponto mais arriscado, visto que m'o não cedes. Olha que o padre tem figados, torno a dizer-t'o... Até logo.

Domingos Leite retrahiu-se para o escuro de um arco sotoposto ao collegio jesuitico de S. Patricio, e acantoou-se no angulo mais comvisinho da passagem. O quarto de hora, que seguiu esta emboscada traiçoeira, arrastou-se vagaroso e dilacerante por sobre a alma ainda immaculada d'aquelle homem, que se via precipitado a um tal feito; que nem a vaidade nem o pundonor justificavam bastantemente a matar um homem desconhecido, que não o ultrajara, que era innocente nas suas angustias de marido e amante vilipendiado. Era atroz. Mas esse homem, ébrio ou infame, proferira com fatuidade o nome de Maria Isabel, conspurcando-lhe a fama, e assoalhando a deshonra do marido ao sêvo dos seus muitos inimigos, invejosos do patrimonio da esposa ou do rendoso officio com que el-rei lhe premiára intelligentes serviços. O orgulho afinal amordaçara o instincto da justiça; ainda assim, a batalha travada na consciencia de Domingos Leite era despedaçadora. A espaços, mettia-lhe horror na fantasia o pensar que rasgaria a punhaladas o peito do homem, cujo nome havia de ouvir dos labios d'elle mesmo; porém, se lhe negrejava no espirito a horrivel irrisão de encontrar-se rosto a rosto com o seductor da donzella, que se deixára poluir como um anjo de alabastro se deixaria inconscientemente despedaçar ás mãos de um ébrio furioso, então o pulso latejava-lhe iracundo no cabo do punhal, e o ouvido escutava com avidez o rumor de passos que lhe figurava a aproximação da victima.

N'este conflicto, ouviu o estampido d'um tiro, a curta distancia, e um grito agudo de voz de mulher. A detonação e o brado soaram do lado do _Bêco dos Namorados_. Promptamente reflectiu Domingos Leite que Roque da Cunha se encontrára com o padre; e, por saber que a arma do seu confidente era o punhal, inferiu que o outro desfechára com elle. Isto colligia correndo ao longo do bêco, de faca arrancada, e os olhos cravados no reluctar de dois corpos, sobre os quaes, a revezes, resvalava o frouxo clarão da lampada de um nicho.

Ao avisinhar-se dos dois vultos, entreviu o relampejo da lamina d'aço contra um corpo já cambaleante, e ouviu o rouquejar de moribundo, que pedia misericordia, ao mesmo tempo que de uma adufa de casa proxima estrugiam gritos _á-d'el-rei_.

A supplica de misericordia, que padre Luiz da Silveira vociferára, foi-lhe cortada pelo decimo golpe que Roque lhe vibrou ao peito; e quando Domingos Leite se abeirou do amigo, que alimpava o rosto banhado de sangue, já o mestre de Maria Isabel jazia morto.

--O ladrão crivou-me a cara de zagalotes!--murmurou Roque da Cunha--Olha do que eu te livrei, rapaz!... Vê lá se o diabo tuge, e toca a safar, que a barregan não se cala...

Domingos Leite olhou de revez para o cadaver que cahira de bruços, esforçou-se para ir examinar-lhe a respiração; mas as pernas tremiam-lhe.

--Não vais?!--disse Roque, embebendo na capa o sangue que lhe gotejava da face direita--Tu és covarde ou sandeu, homem?

--Podemos ir que elle está morto...--respondeu tiritando Domingos Leite.

--Podemos ir que elle está morto?--replicou sorrindo--Cá te avirás com o padre, se ressuscitar--volveu Roque, e sahiu pelo outro lado, descendo a calçada de S. Chrispim; e, atravessando o Beco do Bogio, baixaram até ás Portas do Ferro, onde morava o matador do padre.

Examinada a ferida, Domingos Leite decidiu, com a competencia de experto boticario, que o pelouro resvalára na maçan do rosto, sem ferir osso nem cortar veia importante.

O ferido, restaurando o sangue esgotado com uma botelha de vinho hespanhol, contou modestamente que o padre vinha entrando ao _Beco dos Namorados_, quando elle, ouvindo passos, se cozêra com a sombra de um cunhal, afim de o reconhecer, ao tempo que a lumieira do nicho lhe desse na figura; porém, ajunctou elle:

--O homem, a trez passos de mim, desembuçou-se, arremetteu commigo, poz-me a pistola tão perto da cára, perguntando-me quem eu era, que, a fallar-te verdade, se eu não tivesse alguma experiencia d'este mundo e a certeza de que ninguem morre duas vezes, talvez dissesse ao padre que fosse em paz e não contendesse com quem estava manso e quieto. Mas hasde tu saber, amigo do coração, que eu, quando tenho medo, mato mais depressa. Um gato brinca com a ratazana que a final estripa; mas, se é cão o inimigo, o gato crava-lhe as unhas logo nos gorgomilos, e não brinca. Deu-se com o perro do clerigo o mesmo cazo. Perguntou-me quem era, de pistola abocada. Respondi-lhe com as punhaladas, que o escrivão do corregedor ámanhã dirá quantas foram. Atirou-me á cabeça ainda antes que eu lhe tocasse. Folgo de ter luctado com um homem. Se eu tivesse matado um poltrão, isso havia de me custar remorsos, palavra de Roque da Cunha! Estás ahi a contemplar-me com uma cara de môço de côro da real capella, homem! Parece que o mestre de tua mulher, se até ha pouco te andava ás cavalleiras da honra, te peza agora ás cavalleiras da consciencia! Vamos a saber: estás contente commigo, ou querias que eu, em vez de matar o padre, lhe pedisse que me contasse historias do seu systema de ensinar raparigas?

--Sei que me não queres inxovalhar com esses remoques...--acudiu gravemente Domingos Leite Pereira--Eu sou um homem triste como todos os desgraçados, Roque!.. Se vês em meu rosto o terror, é porque a minha felicidade morreu primeiro que esse homem... que devia morrer. O meu desejo seria tel-o morto, para me apresentar á justiça, e dizer: «fui eu quem o matou; matem-me, que me dispensam d'um martyrio sem fim!..» E, se acontecer que a justiça te culpe, irei eu denunciar-me como matador. Agora, meu amigo, pelo que cumpre á minha obrigação para comtigo, sou a dizer-te que disponhas de tudo que eu valho, e da minha vida, que pouco vale.

--Tudo que tenho a pedir-te cifra-se em pouco--respondeu Roque da Cunha--Ámanhã fallas com o corregedor do bairro, e lhe dirás que estou doente: bem vês que não devo apparecer com o carão esfarrapado. Depois, trarás o betume com que se fecham estas gretas, e cuidarás de mim, mandando-me da estalagem do hespanhol do _Largo do Forno_ umas empadas de gallinha, e do armazem dos _Sete Cotovêlos_ algumas botijas do de Torres Novas. Feito isto estão saldadas as nossas contas; e, quando souberes que tua mulher t'as não dá direitas, abriremos novo saldo.

Uma hora depois, Roque da Cunha, affeito a dormir em conjuncturas analogas, admirava-se de não ter ainda adormecido: e Domingos Leite Pereira, entrando em sua caza com todas as precauções para não ser ouvido, fechou-se no seu quarto, abriu a janella para sentir na fronte esbrazeada o frio da noute, vagou a vista errante pelo ceu estrellado; e, chorando como nunca chorára, disse entre si:

--Porque sahi eu da tua sombra, meu pobre pai, que a estas horas dormes serenamente no regaço da honra!... Bem me dizias tu, minha sancta mãe, que eu fazia mal em deixar a caza, onde nunca chorara alguem até á hora da minha partida... para este inferno em que estou penando!

Ao arraiar da manhã, Domingos Leite ouviu, no corredor contiguo ao quarto, a voz da filha, que, por costume, se erguia de madrugada e ia deitar-se com o pai. Foi abrir a porta, tomou-a do collo da ama, agazalhou-a no peito, porque a menina tremia de frio, aqueceu-lhe o rosto com o respirar febril e cortado de soluços, e longo tempo anceou n'aquella tortura misturada com o desafogo aprasivel das lagrimas.

VIII

O assassinio do padre Luiz da Silveira foi explicado por varios modos, tanto que o cadaver appareceu, no _Bêco dos Namorados_, com dez punhaladas no peito.

Disse-se que os seus antigos consocios de infidelidade á patria, e contubernaes em patifarias, receiosos que elle lhes delatasse os delictos, visto que medrava na estimação dos ministros de D. João IV, o matariam para se desfazerem de um delator perigoso. Diziam outros, mais plausivelmente, que o padre acabára ás mãos dos vingadores do arcebispo Sebastião de Mattos e seus cumplices, levados ao patibulo pela delação do seu ignobil confidente. Outros finalmente accusavam sem rancor, antes com approvação, um tal licenciado Ruy Pires da Veiga, irmão da manceba do clerigo, desde que a viram abraçada ao morto, e reconheceram n'ella a menina que, dous annos antes, desapparecera de casa de sua familia honesta e abastada.

Instaurou-se a devassa.

O primeiro que mui secretamente se apresentou a fazer revelações na corregedoria foi aquelle mercieiro, primo do clerigo morto. O testemunho deste sujeito, forçado a confessar a Roque da Cunha o que ouvira respeito á esposa do escrivão do civel da corte, illucidava cabalmente a morte do padre Luiz.

No entanto, o escrivão do civel da corte continuava a exercer o seu officio, Roque da Cunha tambem, e ambos desassombradamente fruiam os seus direitos de cidadãos bem procedidos. Não succedeu o mesmo com Ruy Pires da Veiga, que se homisiou, quer envergonhado de ser o irmão da mulher teúda e manteúda do clerigo, quer receoso de que o prendessem por suspeito do homicidio.

Sabia-se, porém, e com grande espanto, que o rei mandára suspender a devassa. Os politicos inferiram d'ahi que na morte do antigo official de Miguel de Vasconcellos, e secretario particular do arcebispo de Braga, havia segredo de estado cujo rastro era perigoso farejar.

Volvido um anno sobre a morte do thesoureiro de S. Miguel de Alfama, Ruy Pires da Veiga, indigitado homicida pela maioria das opinioens, sabendo que sua irmã era já falecida de paixão em rigorosa clausura, appareceu na côrte a defender-se da calumnia. A voz publica, espicaçada por este novo estimulo, deu vida ao esquecido assumpto, concorrendo bastante o mercieiro com as suas revelações feitas em segredo, mas, a poucas voltas, divulgadas por toda a cidade.

Estes murmurios chegaram aos ouvidos de D. João IV, que de sobra sabia quem era o assassino directo ou indirecto do clerigo.

O rei estimava Domingos Leite Pereira, já pelos corajosos serviços que lhe prestára nos passos anteriores á sua acclamação, principalmente nos tumultos de Evora e recovagem de recados a Madrid e a Villa Viçosa, já pelos creditos em que o trazia abonado o seu ministro e mordomo-mór marquez de Gouvêa. E, posto que el-rei timbrasse na rigorosa execução das leis, suspendendo agora a devassa, parecia indultar Domingos Leite por que o delicto do padre, seductor da discipula, lhe era odioso; e a circumstancia da delação dos conjurados, feita por um seu confidente, não melhorava em seu particular conceito a condição perversa do traidor.

Perguntara o rei ao marquez de Gouvêa, quando se viu forçado a dar satisfação aos boatos que manchavam a justiça dos seus executores, o que sabia de Domingos Leite Pereira e de sua mulher. O marquez respondeu que o seu secretario, desde a morte do padre, nunca mais abrira um sorriso, nem dera azo a que se lhe perguntasse coisa relativa ao seu viver domestico:

--Mas vivem com apparencia de bem casados...--observou maliciosamente o rei.

--Um viver mais horrivel que a separação com escandalo publico, real senhor!--disse o marquez.--Ha um anno sei eu que nunca mais se fallaram nem viram de portas a dentro. Tem Domingos Leite uma filha que adora. Uma vez unica me fallou da sua desgraça, bem que me não desse novidade; porque eu, antes que elle a conhecesse, já a sabia das atoardas publicas, auctorisadas pelas gabações do clerigo. Então, n'essa vez unica em que Leite Pereira desafogou commigo, lhe ouvi dizer que pensava em sahir da corte, e recolher-se a Guimarães ao amparo de seu pai; mas que o não faria sem levar comsigo a filha; receava, porém, que a mulher, irritada por se lhe tirar a filha, desse occasião a divulgar-se um opprobrio nocivo á creança que elle queria defender da deshonra da mãe. Fiz quanto pude em despersuadil-o de tal proposito, incutindo-lhe sentimentos generosos de perdão á esposa por amor da filha. Este argumento não o convenceu, antes parecia exasperal-o; pois que, a seu ver, era indigna de misericordia tal mulher que, depois de o ter enganado quanto ao seu passado, e tendo a certeza que a morte do padre ninguem melhor do que ella poderia explical-a, em vez de viver amargurada do despreso do marido, ousava estadear-se nas igrejas e nas ruas com ar de senhora honesta, ou antes de mulher despejada que despreza os malsins da sua reputação, fazendo gala da sua formosura e riqueza...

--Tenho ouvido dizer que é muito formosa...--atalhou o rei.

--Não ha em Lisboa quem lhe dispute a primasia. Nunca Vossa Magestade viu mais galante mulher, sendo a côrte da rainha, minha senhora, a mais selecta de bellas damas!

--E o seu procedimento?

--Apparentemente bom--respondeu o mordomo-mór sorrindo--Digo apparentemente, porque não sei quantos astutos velhacos deixou em Lisboa o padre Luiz, nem Vossa Magestade crê que tão sómente os mestres de meninas tem a fortuna de armar em segredo as suas aboizes a estas avezinhas innocentes; e, depois que as avesinhas uma vez deixaram pennas das azas na esparrela, hade ser difficil fazel-as entralhar sem que ellas se guardem de perder a plumagem.

--Assim parece--assentiu o rei--Seja como for, Domingos Leite andaria melhor avisado se sahisse da côrte logo que vingou no padre a aleivosia da mulher, se aleivosia houve. Mandei suspender a devassa, quando eram já declarados os criminosos. Não consenti que se prendessem porque bastante causa dera o padre a ser castigado; e, alem disso, ás cegueiras do coração e do brio é mister conceder o que não concedemos aos matadores que matam de animo frio. É tambem culpado na morte do padre, como o marquez deve saber, um Roque da Cunha, que se tem salvo á sombra de Domingos Leite, e de alguns serviços que me fez. Sei que máo homem é, desde que ha seis annos me denunciou Mathias de Albuquerque por motivos de odio pessoal. Mas este e outros eguaes membros gangrenados não os posso amputar cerces, em quanto preciso me for espiar uns infames com outros infames. Se nos não valermos de quem os conhece de intimidade, não teremos quem nos ponha de sobreaviso. Já o marquez sabe a razão porque Roque da Cunha está logrando a impunidade de Domingos Leite. Porém, desde que Ruy Pires da Veiga voltou do seu voluntario desterro e passeia em Lisboa desmentindo e affrontando o boato, que lhe assacava a morte do padre, a devassa tem de proseguir, e os reos, muito a pezar meu, hão de ser presos, se estiverem no reino. Por tanto diga o marquez ao seu secretario que se retire sem demora de Portugal; e o homem, que o serviu na sua vingança, que se retire tambem, se Domingos Leite deseja salvar o cumplice. O julgamento de Domingos Leite correrá os seus tramites, e faremos que a sentença o não prive para sempre da patria.

O marquez de Gouvêa, bem que profundamente magoado, não ousou pedir ao rei que a devassa permanecesse suspensa. D. João IV esfriava a coragem dos poucos que privavam da sua confiança, quando dava ordens com tão carregado e resoluto semblante, quanto, antes de acclamado, era com todos os fidalgos ameno de tracto e docil aos votos alheios.

Bem quizera o amigo e protector de Domingos Leite rogar ao menos a delonga da partida, e n'esse intuito começou perguntando ao monarcha se era forçosa a sahida do seu secretario ainda n'aquelle mez de fevereiro, que ia em começo.

O rei respondeu: