Chapter 13
Não marca Diogo de Paiva o tempo d'este successo; mas conjecturamol-o no meado do seculo XV, reinando D. João II. Este Fernão Cabral, que levou a mulher ao patibulo, era quinto neto de Alvaro Gil Cabral, que el-rei D. João I fizera alcaide-mór de Azurara. Computando o lapso das gerações poderão os curiosos, favorecidos por algum linhagista menos indulgente, determinar a época da tragedia. D. Maria era neta do almirante Nuno Vaz Castello Branco, e bisneta por sua avó paterna de Micer Antão Peçanha, almirante, que viveu no começo do reinado de D. Affonso V. De um dos filhos d'esta senhora decapitada procedeu Pedro Alvares Cabral, o descobridor do Brazil.
NOTA 12.ª
Estas miudesas do meu _M. S._são corroboradas com a seguinte noticia extractada das _Memorias de Diogo de Paiva de Andrade_: «Vicencia Correia, chamada depois _Dona_ Vicencia, foi filha de uma grande alcayota e bebeda, chamada Barbara, que morou na rua dos Cabides em Lisboa, reinando el-rei D. Sebastião, e tão perita no seu officio que o exercitava com destreza esquisita. Os seus primeiros annos passou bem divertida por industria da mãe e habilidade propria, e vivendo de mancebia com um fulano Cunha, teve d'elle um filho chamado Roque, e d'outro fulano Pereira teve uma filha chamada Marianna. Mudou depois de amorios com Francisco Leitão, com o qual casou; e este fazia tanta estimação da sogra, da mulher e da enteada, que todos viviam junctos, comiam á mesma mesa; e morrendo a enteada, que quiz casar com o porteiro que então era do Juizo de India e Mina e elle não quiz, tomou lucto publico. Servia n'este tempo Francisco Leitão de Juiz de India e Mina. Foi depois (por valias, e não por merecimentos, por ser homem de poucas lettras, falto de honra e atraiçoado) fidalgo da casa real, cavalleiro da Ordem de Christo, desembargador do Paço, do conselho de Portugal em Madrid, e lá teve grandes estimações, e a mulher, que era visitada dos grandes e senhores da corte. E da mesma sorte o foi n'este reino, onde o nosso D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa, bem conhecido pela sua litteratura, visitava D. Vicencia, e a presenteava.»
Acho noticia d'este marido de D. Vicencia em um dos papeis que appareceram em Madrid, por 1637, assignados pelo _Manuelinho de Evora_, que symbolisava o espirito revolucionario de Portugal. Como peça desconhecida, extrahimos o mais curioso d'ella. É uma satyra intitulada _Quadras que se mandaram a Sua Magestade para uma sala de bom retiro_. Figuram Philippe IV, as damas da corte, Diogo Soares, Miguel de Vasconcellos, Francisco Leitão,[15] o conde do Prado e Thomaz Dibio, o marquez de la Puebla, D. Jorge Mascarenhas, D. Antonio de Athaide, Mathias de Albuquerque e o conde da Vidigueira. Aqui se deparam ao leitor alguns nomes e appellidos que, rodados poucos annos, realçam em Portugal pela sua dedicação.
Diogo Soares tem um livro na mão com esta lettra:
_Este livro ensina os modos_ _De roubar os povos todos._
Miguel de Vasconcellos revê-se em uma taça de vinho com esta lettra:
_Nos bofes fel e vergonha;_ _E em ser ladrão atrevido_ _Sahi a meu pai cuspido._
Vai Francisco Leitão com esta lettra:
_Nasci de quem nasci,_ _Cazei com quem cazei,_ _E o prazo renovei_
E á margem: _Filius meretricis_.
Vae o conde do Prado e diz este mote:
_A missa ouço em S. Roque,_ _Beijo o chão antes que acabe,_ _A tenção só Deus a sabe._
Thomaz Dibio glosa-lhe o mote:
_As palavras são de um sancto;_ _Mas as obras joeiradas_ _São malicias refinadas._
O marquez de la Puebla é pintado a espreitar por uma porta com este mote:
_Desterrado y ocioso,_ _Miro solo la destresa_ _Con que hurta su Altesa._
E diz D. Jorge de Mascarenhas:
_Com capa de zelo vosso_ _Muito dinheiro ajuntei,_ _Sem elle e sem vós fiquei_
Mathias de Albuquerque, Jorge de Athaide, e o conde da Vidigueira, em camisa com uma vela na mão, tem esta lettra de D. Antonio:
_Mentir, calar, e fingir_ _Verbos de que tenho usado_ _Me pozeram n'este estado._
O mote de Mathias de Albuquerque diz:
_Sem tiro e golpe de espada_ _A Pernambuco larguei,_ _São e rico me fiquei._
Mote do conde da Vidigueira:
_Estes como eu fugiram,_ _E escaparam por taes modos,_ _Que eu vim a pagar por todos._
Diz o bispo do Porto:
_Sou de geração humilde;_ _Mas mui sagaz e astuto_ _Com duas pedras de p..._
Tem ementa á margem da trova, cuja ultima palavra é um _calemburgo_ que finge estar no tempo presente, modo indicativo do verbo _deputar_. Diz a glossa: _Este bispo, n'este anno, fez tudo aquillo que quiz, pondo e dispondo á sua vontade_.
Em livro mais de molde a demoradas exhumações historicas, darei ao leitor curiosa e ampliada noticia d'este prelado, definido pelo _Manuelinho de Evora_.
A nota, que já se vae delongando, não é despecienda como amostra do genero tão fallado como desconhecido que usaram os fermentadores da restauração, a despeito da espionagem que rastreava os audacissimos secretarios do _Manuelinho_.
NOTA 18.ª
Provavelmente, n'este anno de 1647, já Philippe IV e os seus ministros conheciam o timido animo do rei de Portugal, que mais covardemente se manifestou em 1650, depois da paz de Westphalia. N'este anno, pois, encarregou D. João IV o padre Antonio Vieira de negociar desde Roma o casamento do principe D. Theodosio com a infanta de Hespanha, dando esse enlace como caução unica e segura á fuzão iberica; por quanto, não tendo Philippe IV filho varão, áquelle tempo, succediam no throno de Portugal o principe portuguez e a princeza hespanhola; acontecendo, porém, a superveniencia de filho varão, reinariam em distinctos reinos, com alliança offensiva e defensiva. Além d'isso, dado que o rei de Hespanha teimasse em negar a legitimidade de D. João IV, este abdicaria no filho e na infanta. O padre Vieira tractou o negocio com os jesuitas castelhanos, em Roma, resalvando que Lisboa se constituisse a capital dos dois reinos fundidos em uma monarchia grandiosa. A proposta abjecta foi desprezada em Madrid. D. João IV, dando assim o pulso ao exame do poderoso inimigo, revelava quão depauperado lhe girava o sangue nas veias. E pelo que respeita ao jesuita medianeiro de tamanha protervia, teve de fugir de Roma onde o espiavam os sicarios do embaixador hespanhol. Judiciosamente escreve o sr. Manuel Pinheiro Chagas, relatando os pormenores d'este vilipendio: «Lembraremos ao leitor que n'isto se prova que se, depois da restauração de Portugal, houve algum traidor que, por interesses pessoaes ou de familia, projectasse vender á Hespanha a independencia da patria, esse traidor foi... D. João IV.» _Historia de Portugal_, tomo 6, pagina 106 e seguintes.
NOTA 19.ª
Narra fr. Claudio da Conceição, nomeando os filhos de D. João IV: «Teve fóra do matrimonio a senhora D. Maria, nascida a 31 de abril de 1644, de uma senhora limpa de sangue, que entrando depois no convento de Chellas professou a vida religiosa. Educada em casa do secretario de Estado Antonio de Cavide, entrou a 25 de março de 1650 no Mosteiro de Sancta Thereza de Jesus, das Carmelitas Descalças de Carnide, por ordem de el-rei seu pae a receber as instrucções da Madre Michaella Margarida de Sancta Anna, filha do imperador Mathias, e parenta do mesmo senhor rei D. João IV,[16] fundadora do dito mosteiro de Carnide em 1612, sendo vinte e dois annos successivos priora. Estimou el-rei muito esta filha, o que assás prova a seguinte carta que lhe escreveu antes de morrer: «_Minha filha, foi Deus servido que a primeira vez que tendes carta minha, seja despedindo-me de vós, dando-vos a minha benção acompanhada de Deus que fique comvosco, e lembrai-vos sempre de mim como eu o fio de vós. Escripta em Lisboa a 4 de novembro de 1656. Vosso pai, que fica com grande sentimento de vos não vêr._» (Traslada os legados do rei á filha; segue uma carta de D. Pedro, regente, á irmã; e prosegue na edificante biographia da virtuosa senhora). «A rainha D. Maria Francisca a foi visitar a Carnide, e lhe fez grandes honras merendando no seu apozento. A côrte lhe dava o tratamento de Alteza. Viveu sempre n'este mosteiro em habito de religiosa, ainda que era de materia mais fina. Propondo-se-lhe para esposo o duque de Cadaval com approvação regia, respondeu: que não sahiria da clausura senão em postas a tomar outro esposo, pois que já o tinha ha muito tempo»... Depois d'outros lanços assim piedosos, remata fr. Claudio: «Falleceu recebendo todos os sacramentos com summa edificação a 7 de fevereiro de 1693 quando contava quarenta e nove annos de edade» _Gabinete Historico, Tomo IV, pag. 214 e seg._Da mãe de D. Maria não houve frade nem chronista que sequer nos contasse como lá se foi derretendo em lagrimas a vida da freira que o rei dera como esposa a Jesus, depois de se enfastiar d'ella como barregan.
NOTA 20.ª
«O sr. rei D. João IV... vendo um dia meu pai que tinha a honra de ser seu trinchante mor com um Porpoint guarnecido com uma rendilha de prata, lhe disse: _vindes mui bizarro D. Antonio!; mas nunca fui tão rico que podesse ter outro similhante_. E assim era, porque sempre se vestiu de estamenha... E mandou que nenhum (vassallo) viesse ao Paço com os seus cabellos, por que elle os não conservava, e todos se tosquiaram». _Carta de Luiz da Cunha ao Principe D. José._
NOTA 21.ª
Esta allusão epigrammatica do christão novo requer illucidação necessaria aos leitores descuriosos de genealogias. No reinado d'el-rei D. Manoel veio a Portugal um rico mercador genovez, chamado João Francisco de Lafeta ou Lafetá. De amores com uma fidalga de nome Guiomar Freire, teve um filho illegitimo, e tambem teve uma cutilada legitima na cara, com que o brindou um parente da senhora namorada, e teve ainda outro filho de uma Judia fanqueira de Setubal, chamada Branca de Castro. É indeciso nos linhagistas se o successor de João Francisco era filho da fidalga, se da judia. É certo que o seu successor Agostinho de Lafeta administrou o vinculo que seu pai instituira, foi trinchante de el-rei D. João III, e casou com D. Maria de Tavora, filha de Ruy Lourenço de Tavora. Deste matrimonio nasceram dois filhos: João e Cosme. O primeiro casou com D. Antonia de Mello filha de Ruy Gomes de Azevedo, alcaide mor de Alemquer; o segundo casou na India com a filha de um advogado que lá chamavam por alcunha o _conde da barba rapada_. Os filhos d'este assignaram-se Tavoras, e os do segundo Lafetas. Emquanto o pae, cazando segunda vez com uma filha de Manuel de Mello, eivava de judaismo e melhor sangue ostrogodo, um filho de João Lafeta cazava com D. Maria de Vilhena, filha de Henriques Jacques de Magalhães, e D. Violante de Vilhena. D'este consorcio, procederam Christovão de Lafeta, que casou com sua prima D. Brites da Silva, filha do primeiro visconde de Fonte Arcada, e D. Violante de Vilhena que casou com Gonçalo Garcez Palha. D'estas ultimas allianças por diante, o appellido Lafeta é absorvido nos mais illustres das raças historicas, por modo que, no dizer de um genealogico de inexoravel critica, apenas haverá em Portugal trez familias tradicionaes que não estejam inquinadas do judaismo dos Lafetas genovezes, e da Branca de Castro, fanqueira de Setubal. Que lhes preste.
NOTA 22.ª
«Bem poderia referir outras muitas precauções que este principe (D. João IV) tomava para não ser enganado pelos seus ministros; e comtudo, conhecendo elle a innocencia de Francisco de Lucena, seu secretario de estado, o deixou condemnar á morte, porque os fidalgos o fizeram passar por traidor, não podendo soffrer que elle lhe aconselhasse que lhes não devia alguma obrigação em lhe porem a côroa na cabeça, pois lhe era devida, afim de que se não julgassem credores de grandes recompensas. Os descendentes d'este ministro justificaram depois de muitos annos a sua innocencia, e sua magestade lhes veiu a restituir as honras e os bens, em que eu tive alguma parte estando em Madrid.» _Carta de D. Luiz da Cunha ao Principe D. José._Esta carta muito notavel e pouco lida, publicou-a Antonio Lourenço Caminha em 1821, sob o titulo: _Obras ineditas do grande exemplar da sciencia do estado D. Luiz da Cunha, etc._Observa avisadamente o erudito sr. Innocencio Francisco da Silva que _escaparam na edição numerosissimos erros que ás vezes transtornam o sentido e intelligencia dos periodos_. É exactissima a censura. Possuo a mesma carta manuscripta, trasladada pelo academico Foyos, e que envergonha as incurias do editor da impressa.
O que raras pessoas terão visto sem lhe saberem a procedencia, é a peça explicativa do odio dos fidalgos, que acclamaram D. João IV, ao secretario de estado Francisco de Lucena. Encontrei-a entre os manuscriptos ineditos do chantre Manuel Severim de Faria (1583-1655). Intitula-se: _Carta de parabens, advertencias, avisos e conselhos que se suppõem e figura escrever do outro mundo o duque de Bragança D. Theodosio a seu filho o sr. D. João o Quarto, logo depois que pela lealdade da patria foi acclamado legitimo Senhor e Rey de Portugal_. É attribuida a Francisco de Lucena, e escripta em 1641. Trasladamos os conselhos do pae ao filho, ou antes do ministro ao principe: «...Resta que vos façaes tambem temer e respeitar dos maiores fidalgos, que, como vos viram nascer vassallo, e elles, por portuguezes, são invejosos e soberbos, mais com rigor e medo se sujeitam que com amor e brandura; e assim a vossa affabilidade com que os trataes, a vossa facilidade com que os admittis e ouvis, a confiança com que de ordinario comeis perante elles, o trage inferior de que, por dardes exemplo, vos vestis, tudo isto os faz a elles peores, mais ousados, menos comedidos. Filho, não é ainda tempo d'isto; virá ao diante, em que isto se vos estimará muito. Agora, o que n'este particular fazeis, tão fóra está de se vos gabar e estimar, que antes lhes serve de o motejarem uns com outros, attribuindo tudo a faltas naturaes, e que são avisos divinos, ao diante lhe virão assim a parecer.
«Até agora, filho, lidastes com vassallos que sempre foram vossos; agora lidaes com os que ha só dois mezes que o são. Não vos hajais com elles como se sempre o foram, comei raras vezes em publico para que se estime quando o fizerdes. Ouvi a todos que quizerem requerer deante de vós; mas não converseis com nenhum, para que, quando n'esta materia lhes fizerdes algum favor, o tenham por mercê.
«Olhai, Filho, que, como muitos d'esses fidalgos riram e folgaram comvosco sendo duque, com pouco azo que lhes deis, vos perderão o respeito devido como a Rey; e, se assim fôr, dai-vos por acabado, porque a principal guarda das coroas e sceptros é o respeito... A este fim vos digo que n'estes principios não soffrais nem dissimuleis aos fidalgos mais poderosos serem desmandados contra a vossa real pessoa, e contra a lealdade que vos devem: lembre-vos que o dissimular estes crimes é dar ousadia a maiores.
«Para os enfreardes ponde ferro em fogo em quem o merecer, e com o castigo de dois se emendarão os mais, e com o dissimulardes com elles todos se acabarão de damnar, porque os mais não vos hão de guardar e defender; e mais certo é que vos hão de vender e trahir, e, se poderem, matar».
Assim predispunha o secretario das mercês o animo do rei contra os conjurados de 1641; e relevantemente se mostrou serviçal, collaborando com o carrasco, pois que emprestou para a degollação dos fidalgos o cutello que trouxera de Madrid, por haver sido com elle decapitado D. Rodrigo Calderon.
NOTA 23.ª
Isto de ser agarrado pelas costas o duque de Vizeu, quando o Luiz XI portuguez o esfaqueou, não se vislumbra da historia, porque a historia dos governos monarchicos tem sempre sido escripta de joelhos sobre os estrados dos thronos. De feito, D. João II, quando resolveu matar o duque guarda-roupa das casas de Nuno da Cunha em Setubal, convidou trez homens _para testemunhas_ do feito: Diogo de Azambuja, Lopo Mendes do Rio, e D. Pedro d'Eça, alcaide de Moura. Este ultimo era um dos mais valentes homens de Portugal. D'elle diz Diogo de Paiva de Andrade, nas suas _Memorias_: _foy um Fidalgo a quem a natureza dotou de muito animo e grandes forças, e por isto El-Rey D. João II o escolheu quando quiz matar a D. Diogo, Duque de Vizeu a quem abraçou por detraz_. Eis aqui a singular missão da _testemunha_!
E, como prova da coragem de D. Pedro d'Eça e dos medianos espiritos do covarde matador do duque, refere Diogo de Paiva um bonito lance: Acontecendo em Moura matarem um homem uns criados seus (do alcaide) foram-se dois irmãos do morto queixar a El-Rey, e disseram-lhe que D. Pedro lh'o mandára. Pelo que, El-Rey o mandou vir á côrte, e esteve n'ella mais de dois annos, posto que, tirada a devassa, o não acharam culpado. Enfadado D. Pedro, disse a El-Rey, que pois sua Alteza não queria crêr que elle não tinha culpa na morte do homem, e os que o accusavam eram dois, que lhe fizesse mercê de lhe mandar dar campo com ambos, para assim se purificar: do que, agastando-se El-Rey lhe disse: «que tomára elle ser um dos dois». E D. Pedro lhe respondeu: «Não fôra Vossa Alteza meu Rey, e fosse com elles o terceiro».
NOTA 24.ª
Não é impertinente a noticia do processo de empeçonhar as balas. Acceitemol-a do livro inedito de um Mestre de Campo do exercito de D. Pedro II: «Tomarão licoctomum, que he outra casta de aconito ou de Rozalgar (não alteramos a orthographia do texto) e Napello, dos quais espremerão o sumo com hua empressa, que se receberá em hua vazilha de vidro, precatando-se de não lhe toccar com as mãos, a qual vazilha será exposta ao sol no mez de julho por espaço de 30 dias, recolhendo-a todas as tardes ao por do sol em hua cestinha coberta e guardada em logar calido, izento de todo cheiro forte, como de alhos ou cebollas, por os tais lhe embotarem a força; e ó outro dia ao sair do sol se torne a expor n'elle a vazilha até que o sumo se engrosse a modo de unguento que será pouco mais ou menos ao cabo do tempo dito; advertindo que na madrugada, antes que se tire a vazilha do cesto, para a expôr ao sol, hão de descobrir o sesto desviando-a d'elle, e o deixarão assim aberto por espaço de boa meia hora, antes de pegar na vazilha, e á tarde, antes de a arrecadar no sesto a cobriram com alguma cousa, o corpo mais desviado que poder ser. Despois tomaram trez ou quatro Rubetos que são sapos de sylvas grandes, e cheios de nodoas de varias côres, muito peçonhentos, e tanto mais o serão quando sejam apanhados em logares sombrios e frios como nos paues cheios de palha tabua. Estes serão metidos em uma vasilha de cobre de fundo redondo, capaz de os receber commodamente, com sua tapadoura que venha justamente com a boca da vazilha, que terá uma azêlha por cima pela qual poderá entrar a ponta de hua aste para delonge a poderem descobrir; ao lado da vazilha hum pouco por cima do seu fundo haverá huas cavas em forma de hua meia laranja, situado em modo de Bebedouros de Gayolas, e no meio do fundo da vazilha haverá hua fença ou abertura estreita que dará em hum segundo fundo, do mesmo metal, a modo de funil. As ditas covas a modo de Bebedouros, se encherão de oleo de Escorpião; feito o que, os sapos se meterão na vazilha que será bem e justamente coberta com sua tapadoura e assentada sobre uma trenpe, em modo que a ponta do funil do segundo fundo dê em a bocca de hua garrafa de vidro, assentada em hua tigella de agua fria, e a coisa assim desposta se fará hua cama em redondo de ladrilhos da altura da trempe que a cercará toda ao redor, na largura de dois palmos até dois palmos e meio, em cima da qual se accenderá um fogo de roda brando e moderado de carvoens afastados da vazilha um palmo, mediante o que a vazilha irá aquecendo pouco e pouco, dentro da qual os sapos sentindo a quentura não acostumada, de sequiosos e suados, arremetterão a beber o olio de Escorpião dos Bebedouros, que lhes fará bomitar toda a peçonha que dentro em si tiverem, a qual, cahindo pela abertura do fundo da vazilha no segundo fundo do funil, e deste á garrafa, continuará o fogo, no mesmo estado por espaço de 4 a 5 horas, e assim o deixarão athe o outro dia, em o qual, querendo abrir a vazilha, terão em sentido virar as costas da parte do vento, e com hua vara ou aste hum pouco comprida, que passará pela azelha da tapadoura, desviando se o corpo da vazilha, o mais que poder, a destaparão e deixarão assim aberta por espaço de outras 4 ou 5 horas, ao cabo das quaes seguramente se poderão chegar á vazilha, e recolher o veneno da garrafa, ao qual se poderá ajuntar o sumo das ervas dos aconitos dantes exprimidos, e juntamente anemona, sicuta, meimendro, mendragora, malla insana, berengella, pés de ganços de todas as castas, ranunculos, erva Moura, arsenico branco, e cerebros de rato e de gato».
É de recear que o leitor desconfie da capacidade d'este sugeito que mandava hervar as balas com succos de pés de ganço e miolos de gato e rato! Saiba, pois, que o auctor da receita foi um militar de elevada patente que exerceu em Portugal no reinado de D. Pedro II cargos importantissimos na guerra. Possuo com grande estimação dois manuscriptos ineditos de Miguel de Lescolle, que assim se chamava o Mestre de Campo. Um, é este de que trasladamos o processo de hervar as balas, e intitula-se: Recopillação de alguns fogos artificiaes, para offensa e defensa de praças, e embarcações, e de alguns outros para as alegrias e recreaçoens feitos pelo Mestre de Campo Miguel de Lescolle. O outro manuscripto, de primoroso calligrapho do começo do seculo XVIII, é: _Liçoens de Artelharia recopilladas e feitas por Miguel de Lescolle, Mestre de Campo intertenido na Provincia de Entre Douro e Minho, a cujo cargo está a conservação do trem de Artelharia, Armas e Muniçoens d'ella, e as fortificaçoens das Praças de sua fronteira por mandado do snr. Marquez das Minas, dos Conselhos de Sua Alteza, Mestre de Campo general, e Governador das Armas da mesma provincia_.
Um homem d'este vulto, se acreditava na peçonha dos pés de ganço e do cerebro dos ratos, é porque realmente, n'aquelles dias, a toxicologia era mais investigada que hoje.
NOTA FINAL