O que fazem mulheres: Romance philosophico

Chapter 8

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Quem leu a physiologia da geração sabe que ha cinco phenomenos caracteristicos d'essa funcção de mysteriosa origem. O primeiro d'esses phenomenos, cuja confusa theoria os imperitos podem lêr nas fontes respectivas, é influido pela acção de um ser directo e immediato, que os latinos denominam _pater_, os inglezes _father_, os allemães _watter_, os francezes _père_, os hespanhoes _padre_, e nós, com mais suavidade que todos os outros idiomas, _pae_.

_Pae_ quer dizer «productor, gerador» _Parens qui aliquem genuit_--isto a meu vêr, é claro como tudo o que se diz em latim.

Conclusão: Pae é aquelle que é pae.

2.º Ha paes postiços, paes contra-natura, paes testas de... ferro, paes _in mente legis_, na presumpção da lei, e na fé dos padrinhos de quem são compadres, por obra e graça de um sacramento.

Os homens, reconhecendo a inconveniencia de acceitar a natureza feia como ella ás vezes se apresenta deliberaram, de commum concerto, pôr-lhe mascara.

E como a natureza paterna era uma das que mais a miudo saía á gente com as suas deformidades medonhas, resolveram os desvelados reformadores corrigir os aleijões d'essa natureza, inventando o pae civil, o pae do assento baptismal, o pae da arvore de geração escripta em pergaminho, o pae que transmitte os bens e os appellidos, o pae, finalmente, que tem tudo que é paternal, mas não é pae.

Este invento honra a sagacidade humana; mas a causa que o incitou deturpa a humanidade, e opprime agramente os corações dos individuos virtuosos. Todavia, a mascara foi necessaria, logo que as fealdades deram nos olhos. Hoje acceita-se o remedio do mesmo modo que o travor da quina se tolera para combater a sezão. Os paladares mais melindrosos affazem-se á peçonha, e estomago ha ahi de pae postiço, que disputa a Mithridates a invulnerabilidade.

Eu não applaudo a _Sandice_ como Desiderius Erasmus; mas observo que o famoso theologo chamava «sandice» o que nós cá, gente bemaventurada da civilisação, denominamos «Cultura.»

Erasmus não deu pela theoria das mascaras. Pasmado da bonacheirona paz d'alguns paes impossiveis, exclama o mestre de Bolonha:

«Grande Jupiter! O que ahi não iria de divorcios, e peor do que divorcios, se a união do homem e mulher não fosse corroborada pela lisonja, pela complacencia, pelo esquecimento, e pela dissimulação, que formam o meu cortejo! Que raros não seriam os matrimoniamentos, se o homem de ante-mão esquadrinhasse os brinquedos da innocentinha noiva! Que rompimentos conjugaes, se o descuido ou a inepcia, não cegassem o bom do marido, para não enxergar os tregeitos e os feitios da companheira querida! Dizem que é toleima isto; deixa'-la ser; mas o grande caso é que marido e mulher vivem ás mil maravilhas, que reina a santa paz em casa, e os vinculos da alliança estão rijos. Isto é que é o essencial. Se ao pascacio dão nomes feios, que se lhe dá elle d'isso? Ve'-la a infiel a choramingar; para logo o pobre marido lhe sorve as lagrimas enternecidamente. Qual é melhor, ser assim bom, ou andar atormentado pelas furias do ciume?»

É boa a pergunta do theologo! O melhor é ser assim bom, ser assim illustrado, ser assim desbravado das velharias pundonorosas que obrigaram Cicero e Sulpicio Gallo a divorciarem-se das mulheres, um porque a sua lhe não respondeu a todas as cartas enviadas do exilio, outro porque a d'elle teve a impudicicia de saír um dia, sem coifa, á rua.

Aconteceu isto muito depois do reinado de Saturno, quando o pudor, como pondera Juvenal, já não morava nas primitivas cavernas onde os dois sexos se luravam sobre colchões de folhagem.

_Credo Pudicitiam, Saturno rege, moratam_ _In terris_...

já quando o genio tutelar do hymeneu andava corrido das pseudo-paternidades que se enxertavam, á sombra d'elle, nos illustres troncos de Roma:

_Antiquum et vetus est alienum, Postume, lectum._ _Concutere, atque sacri genium contemnere fuclri._

«Ó Postumo!--exclama o poeta--pois tu eras, até aqui, escorreito e atilado, e vaes casar

_Certe sanus eras: uxorem, Postume, ducis!_

Por esses tempos, a balbuciante civilisação dos espiritos engendrou a lei contra a qual se escreve este capitulo. As nupcias indicavam o pae: _pater is est quem nuptiæ demonstrant_. Agora, em pleno seculo de luz, somos mais romanos que os proprios romanos, tresandamos ao paganismo fetido, e difficultamos o divorcio para sellar o escandalo com o cunho sacramental da lei nova.

Como quer que seja, pae é aquelle que é pae, apesar do Direito Romano, e das Instituições de Direito Civil de Coelho da Rocha.

Não se adduzem os 3.º, 4.º e 5.º artigos da refutação, porque ninguem supporta um embrechado arripiante de textos latinos: e o auctor, com quanto assim grangeasse voga de romancista sumarento e condimentoso, seria lido apenas por tres ou quatro mestres de latinidade.

COROLLARIO

Melchior Pimenta era um dos paes presumidos na intenção do _Digesto_, na lei citada, do L. 5.º _de in jus voc_, e C. da Rocha no cap. _Paternidade e filiação legitima_.

XV

D. Angelica, afflicta com a longa ausencia de Ludovina, pedira ao marido que procurasse a filha. Melchior Pimenta correra a casa, alarmando os creados, que francamente lhe disseram que a senhora baroneza saíra na sege. Melchior suspeitou que a destemida Ludovina descera ao infimo degrau da desenvoltura, visitando o amante á hora do dia, no momento em que seu marido a abandonava aos terriveis juizos da sociedade. Com as mãos agarradas á cabeça, entrou o consternado pae no quarto da mulher, abafando de vergonha, como elle dizia.

D. Angelica, receosa de que tudo já fosse notorio a seu marido, apavorou-se, e quiz fugir do quarto.

«Que queres tu fazer agora, santa mulher?!--exclamou elle, sustendo-a com meiga brandura.--Deixa'-la perder-se de todo, já que ella assim o quer... Ahi tens como Ludovina te paga o sacrificio que fizeste da tua dignidade e da minha para a salvares. Ainda bem que o procedimento d'ella te ha de desmentir, Angelica...

--Que dizes?--atalhou a perplexa senhora.

«Que digo? pois eu não sei já tudo? Não me contou ella o que tu fizeste para capacitar o barão de que Antonio de Almeida era teu amante, e não d'essa desgraçada que tão mal aproveitou as tuas lições? O que tu fizeste, não devias faze'-lo sem tomar o meu parecer; porque, a falar verdade, se corresse o boato de que o escandalo era cousa tua, a minha honra soffria tanto como a de minha mulher. O que vale é que o barão não dirá nada, e o falatorio ha de acabar como acabam todos os escandalos, quando os faladores se cançarem. Mas, Ludovina! Ludovina! onde está esta mulher que nos anda envergonhando por lá?

«Estou aqui, meu pae--disse a baroneza com angelica serenidade, e sorriso de meiguice para sua mãe.

--Minha filha, minha santa filha, minha providencia!--exclamou D. Angelica abraçando-a com arrebatamento.

«Isso não é assim, Angelica!--disse carrancudo Melchior Pimenta.--Pergunta-lhe de onde vem, e reprehende-a, já que tão boa moral lhe ensinaste em solteira.

--Silencio, meu amigo. Vae...--atalhou com azedume D. Angelica--vae, e deixa-nos sós.

«Não tem geito nenhum!--accrescentou o austero pae.--É preciso saber-se para onde foi teu marido, Ludovina, e ir pedir-lhe perdão, perdão, antes que a sociedade saiba que elle te abandonou.

--Irei, meu pae.

«Irás; mas entretanto sáes de carruagem, e não dizes onde vaes... Onde foste tu, diz?

Ludovina abaixou os olhos, e não respondeu.

«Vês, Angelica?--proseguiu com virulencia Melchior--Não respondeu; já sabes d'onde ella vem... Já se viu no mundo um descaramento assim?

--Nem mais uma palavra a minha filha!--exclamou com impetuosa arrogancia D. Angelica--Nem mais uma palavra, porque se não, Melchior...

«Se não, o que?--interrompeu elle.

--Minha mãe, pelo seu amor lhe peço...--murmurou a baroneza, apertando-a ao seio, como se quizesse comprimir-lhe as palavras no coração.

Pimenta sahiu, como entrára, com as mãos agarradas á cabeça. D. Angelica, beijando soffrega a face da filha, dizia, soluçando:

«Ao que eu te expuz, minha querida victima! ao que tu quizeste sujeitar-te, Ludovina! Pesa-me mais a tua innocencia diffamada que o meu proprio descredito. Não, filha, isto não póde continuar assim. Deixa-me ser virtuosa no crime, deixa-me expiar a minha culpa com menos amargura. Esta expiação é a maior de todas, Ludovina. O meu coração está cheio de fel. Tu queres salvar tua mãe e matas-me, anjo do meu coração. É-me muito mais dolorosa a vergonha que tenho de ti, que da sociedade. Que o mundo todo me culpe, mas perdôa-me tu, filha!

--Mãe, por piedade... não me turve a satisfação d'esta pequena virtude. Olhe que não é heroismo isto, não, é a crença, a esperança de que a felicidade ha-de vir para todos nós, se me não desviarem do caminho por onde eu a busco...

«Para todos nós, filha! que innocencia, que illusão a tua! D'esta queda ninguem mais se ergue, e menos eu.

--Ergue, mãe. Verá que o desenlace d'este desgraçado enredo não ha-de ser o que a mãe espera.

«Oh, filha! tu queres que eu sobreviva a esse infeliz que mataram...

--Ninguem morreu, minha mãe. Olhe... aqui tem uma carta do sr. Almeida; escreveu-a elle com o proprio punho; está livre de perigo... Veja, veja o que elle diz...

D. Angelica abriu a carta com fervente soffreguidão, e leu o seguinte:

«Minha prezada amiga. Sei quanto deve ser-lhe penosa a noticia do triste acontecimento, que hontem se deu. Apresso-me a dar-lhe a certeza do nenhum risco da ferida, e rogo-lhe que se convença d'esta verdade, para ser mais suave a cura. De v. exc.ª amigo verdadeiro.--_Antonio de Almeida._»

«Isto é verdade, Ludovina?--exclamou ella erguendo as mãos, e apertando a carta ao coração--Isto é verdade, minha filha?

--É, juro-lhe que é...

«Como podes tu jura'-lo? quem o viu?

--Eu, mãe.

«Tu! viste-o, Ludovina? sem repugnancia, minha filha? Que inspiração tiveste de o visitar? O coração impellia-te? era o coração? diz, diz, que eu preciso acreditar n'uma influencia divina em tua nobre alma! Não me respondes, filha! Não queres dar-me a alegria completa! Foi só por caridade, por compaixão, que o visitaste?

--Foi por amor de minha mãe que o visitei.

«E elle? que fez quando te viu? abraçou-te? beijou-te? chorou nos teus braços, Ludovina? Disse-te alguma palavra que te espantou, augmentando a tua piedade? Fala, fala sem pejo. Aqui a vergonha é toda minha. A reserva já agora é impossivel entre nós, filha. Que te disse? responde...

--Nada, minha mãe...--balbuciou a baroneza.

«Nada?

--Que poderia elle dizer-me... para augmentar a minha piedade? bastava ser nosso amigo de tantos annos... lembrar-me eu que o vi sempre ao pé de minha mãe... recordo-me dos affagos que elle me fazia, dos bons conselhos que me deu sempre, das consolações affectuosas com que alliviava as minhas maguas, desde que infelizmente casei. Tanto como isto era sobejo estimulo á minha pena. E, depois, vêr quanto a mãe soffria... porque o prezava tanto como eu o estimava...

«Basta, minha filha, eu mortifico-te... Ha de custar-te amarguras terriveis essa delicadeza... Comprehendo-te, minha amiga... Agora vaes tu dizer-me por que meio has de restaurar o teu credito perante teu marido... Não me atrevo a aconselhar-te, Ludovina, por que ha em ti fortaleza de juizo que confunde a minha timidez e fraqueza... Faz o que quizeres de mim; eu obedeço-te, sigo-te cegamente; acceito conselhos de ti como do meu anjo da guarda.

--Eu não a aconselho, minha mãe... pelo contrario, supplico-lhe que me advirta, se eu me desencaminhar do bom caminho onde a consciencia me diz que estou agora. Toda a minha confiança está posta em Deus, que protege a innocencia e é misericordioso com a culpa. O mundo será cruel comnosco; seja, muito embora; nós supportaremos as cruezas do mundo, sem nos curvarmos aos seus juizos. Minha mãe ha de ajudar-me a vencer os dissabores passageiros da maledicencia, pensando em me fazer cada vez mais digna do seu amor. No tocante ao que ha de vir melhorar a nossa sorte, espero que virá, mas os meios não os sei. Hei de a este respeito consultar o nosso amigo Antonio de Almeida.

XVI

Consta-me que é geral o cuidado que está dando aos leitores o barão de Celorico de Basto.

Como este homem captou a benevolencia publica, mórmente a dos maridos, isso não sei eu.

Caprichos.

Commiseração, lastima e dó, não a faz decerto o marido de Ludovina. Eu de mim, apesar de quem me forneceu os apontamentos d'esta lugubre historia, mais de uma vez tenho dulcificado com as amenidades da linguagem o travor das informações insuspeitas. Faz-me zanga a felicidade d'este marido, se o confronto com outros «minotaurisados» iniquamente.

Não transijo com o estupido acaso que travou as relações de João José Dias e Melchior Pimenta. Rebello-me contra a Providencia, se me dizem que a Providencia entregára de mão beijada a rara joia de entre as mulheres a João José Dias.

Riquezas amontoadas pelo acaso, pelo trabalho, pela economia, pelo latrocinio, pelo talisman do buril, pelo fornecimento dos açougues humanos na America, essas riquezas, vejo-as, entendo-as, explico-as; porém, mulheres como Ludovina, corpos e almas de tanta perfeição, creaturas que privam com os anjos, assim sacrificadas a um Baal repulsivo de sandice e gordura, isto faz-me materialista, incredulo, e atheu; ou remontado em assomos de espiritualista, confesso a Providencia, mas tão sublime, tão ao longe das pequenezas d'este ponto do mundo, que não cura de saber se o zoupeiro João José casa ou não casa com a sylphidica Ludovina.

Não vou de encontro ás crenças de ninguem; Deus me livre. Todavia, raciocinemos, em quanto a razão de si apoucada, não contender com os dogmas indisputaveis da fé.

Saibamos, pois, o que é feito da sympathica personagem do barão de Celorico de Basto.

Pesquizei miudamente o itinerário de s. ex.ª, e colhi as seguintes informações, que podem auxiliar os alienistas no estudo das faculdades intellectuaes de muitos barões, no primeiro periodo do seu desmancho.

Sei que chegou a Baltar bifurcado n'um garrano, e o preto n'outro. Apeou-se ahi para reanimar o animo quebrantado da ensuada cavalgadura, cuja pulmoeira recrudesceu na subida da serra de Vallongo.

Simão, vendo que seu amo rejeitava a vitela proverbial da estalagem da terra, e, sabendo qual era o prato favorito d'elle, frigiu quatro ovos com rodelas de cebola, e poz-lhe deante a fritada provocante, cuidando que o acepipe mimoso abriria o apetite do melancolico barão. Baldado empenho, perdidos desvelos, mas não perdidos ovos, que os comeu o contristado preto, asseverando, a cada garfada, que os podiam comer os anjos, para ver se assim estimulava o jejum de seu amo impassivel.

Reparou o preto, em quanto encovava o almoço, que o barão, de vez em quando, sacava da algibeira o charuto horrendo, e resmungava em tom soturno:

--Foste a minha desgraça, tição negro do inferno!

E contemplando-o com os olhos coruscantes de terror, arremessava-o com frenesis impetuosos, e apanhava-o de novo para o esconder na algibeira!

«Que diabo é isto, senhor?--perguntára timidamente o preto.

--Não vês? é um charuto, que me ha de matar!

«Pois v. ex.ª fuma isso! Bote-o fóra, que tem má cara esse demonio!

N'estas e n'outras praticas semsaboronas, que não prestam para a tragedia, nem para a farça, chegaram á villa de Torrão, onde o nobre viajeiro apeou outra vez, e escreveu uma longa carta a sua mulher, na qual carta entre muitos outros periodos lamuriantes, dizia que não lhe era possivel fazer passar nada dos gorgomilos para dentro, e protestava deixar-se morrer de fraqueza para acabar mais depressa com o seu remorso. Pedia novamente perdão a D. Angelica, e rogava a sua mulher que tornasse a supplicar em nome d'elle o perdão de Antonio de Almeida. Outro sim, pedia á baronesa que mandasse dizer trezentas missas por alma do defunto Almeida, e outras tantas por alma d'elle testador, quando Deus fosse servido leva'-los á sua presença. O principal da carta guardava as fórmas testamentarias: faltava-lhe, porém, a condicional prescripta do «perfeito juizo e claro entendimento», posse de que o preto duvidava muito, e os da estalagem não duvidaram menos, quando o barão entrou a gritar que era um assassino, e estava já vestido e calçado nas profundas do inferno. Almas boas que o ouviram, tiveram-n'o em conta de possesso, e, se o barão não sáe, era filado pelo padre Anacleto da Sacra Familia, egresso arrabido, que a piedade da estalajadeira chamára para resar os exorcismos ao demoniaco.

O barão foi pernoitar na villa chamada Arco: (notem a paciencia de um romancista que sabe do seu officio.)

O cirurgião da villa, chamado por deliberação do preto para ver o amo, receitou um cozimento de fel da terra, tomado de manhã, e esfregações de oleo de amendoas na circumferencia do abdomen.

O barão mandou-o á fava com louvavel discernimento, e escreveu quatro folhas de papel almaço, que sobrescriptou a sua mulher. O contheudo do aranzel tremendo era o disparate lastimoso de uma cabeça febril, apavorada de visões sangrentas, que o forçavam a estropiar a syntaxe de um modo lastimavel, e a desbancar o methodo do imaginoso Castilho no invento da orthographia.

No dia seguinte, ás onze horas da manhã, chegou o barão á sua quinta de Celorico, onde, creio que já se disse, viveram frades n'outro tempo. A entrada do proprietario nos seus dominios foi assignalada pelo primeiro accesso de loucura formal.

Á entrada da antiga claustra, estava um S. Francisco de pau com o seu habito venerando.

O barão soltou medonhos gritos, clamando que o santo era o phantasma de Antonio de Almeida. A logica do preto foi insufficiente para convence'-lo de que o phantasma era o patriarca S. Francisco. Teimando aquelle em conduzi-lo pela mão ao pé da imagem, afim de convence'-lo com o tacto, o barão assentou-lhe na carapinha dois murros puxados d'alma, com os quaes o paciente preto tambem viu phantasmas luminosos.

Os primos circumvizinhos começaram a visitar o genro de D. Angelica, e saíam espantados do disparatar do barão, que descaía de uma conversação atilada para a historia do phantasma infesto, que apparecia na casa que fôra convento.

Fechado e trancado no seu quarto, o infeliz maniaco recitava monologos estirados em tom cavernoso. O charuto andava sempre á baila nas apostrophes descompostas, e recebia epithetos que esqueceram a Francisco Nunes.

Eram decorridas setenta e duas horas de jejum estreme, quando o barão pediu de comer a altos brados, e comeu porções incriveis de carneiro guizado com batatas, facilitando o transito d'estas com emborcados picheis do verdasco, predilecto seu.

Emergindo de uma especie de lethargia de leão sazonatico, o barão urrava como d'antes, recuando ao phantasma, que já não era S. Francisco sómente. Qualquer sombra se lhe afigurava aventesma, ou avejão como elle a denominava. O proprio preto, se lhe assumava de repente á porta do quarto, ou por entre as arvores da quinta, fugia espavorido á gritaria rouquenha de seu amo.

Os facultativos chamados pela parentella compadecida capitularam de demencia a cousa, e receitaram as sangrias e os vesicatorios. Os meios persuasivos para o levarem á cama nada conseguiram; os da força seriam inuteis, por que o preto espadaudo e possante, invocava o testemunho da sua cabeça confusa contra o projecto da violencia. Ninguem se queria arriscar ao perigo certo de um murro secco do barão.

Contava elle a toda a gente a historia do charuto que já trazia meio desenrolado n'um canudo de papel...

Se porém acontecia proferir o nome da sogra, vinham-lhe convulsões, e não acabava o conto. A historia, como elle a contava, fazia rir os ouvintes. Aquelle charuto fôra-lhe enviado pelo diabo em troca da sua alma. O charuto infernal obedecia á sua vontade, e despejava uma bala como uma clavina, em consequencia do que, elle barão, matára um homem, desfechando-lhe o charuto no peito. Acabada a historia entravam as larvas a rodea'-lo, e elle a esconder-se de cócoras atraz dos circumstantes.

Entenderam os cavalheiros de Basto que o barão fugira doudo á sua familia, e avisaram a baroneza, lembrando-lhe a conveniencia de o passarem a Rilhafolles, antes que a demencia se tornasse incuravel. Chegou o aviso já quando Ludovina, avaliando pelas cartas a desorganisação mental de seu marido tinha partido para Celorico de Basto.

Melchior Pimenta e D. Angelica julgavam temeraria a ida de Ludovina. O pae (_Pater is est etc._) queria acompanha'-la, receoso de que a presença d'ella enfurecesse o doudo. A baroneza recusou a protecção do pae, e respondeu á mãe com palavras que a fizeram córar, posto que adoçadas pelo respeito filial.

«Quando me casaram com este homem--disse ella--não se estipulou a condição de que eu o desampararia, se elle enlouquecesse. Augmentam os meus deveres, agora que elle mais precisa de uma amiga. A consciencia da minha boa mãe manda-me ir; o coração deseja que eu não vá. Devo obedecer á sua consciencia, para ser cada vez mais digna do seu coração.»

XVII

Ao cabo de tres semanas, Antonio de Almeida ergueu-se convalescente. As melhoras de D. Angelica augmentavam por egual com as d'elle; mas uma outra qualidade de soffrimento lhe amargurava a alma: era a saudade, o anceio de falar-lhe, a necessidade de recompensa'-lo dos perigos da morte com as suas lagrimas.

Almeida, porém, não lhe escrevia, não lhe dizia, ao menos, que o seu amor não succumbira á terrivel catastrophe, que a sua amizade, ao menos, venceria todos os estorvos.

«Que mal te fiz?

Diz D. Angelica em uma carta que lhe escreve.

«Uma grande desgraça aconteceu; mas essa desgraça foi de nós ambos, Almeida.

«A bala que te matasse, matar-me-ia. O risco em que a tua vida esteve, queres tu que eu t'o pague com a minha? A morte repelle-me.

«Quem me dera, meu Deus, quem me dera morrer, se ainda posso deixar-te de mim uma lembrança triste, meu amigo!

«Este teu silencio dóe-me tanto como se te houvesse perdido, e chorado na sepultura. Assemelha-se ao desprezo a tua frialdade. Bem sei que não pódes vir a esta casa, á casa de minha filha; mas que não faria eu para te encontrar, Almeida?

«Pois é possivel este desfecho de uma paixão que tantas lagrimas me ha custado! Soffrer vinte e dois annos, envelhecer agradecendo-te os tormentos e os remorsos que me empeçonharam a mocidade, para agora assim ser despedida da tua alma, sem que ao menos me digas até que ponto sou culpada no teu infortunio?

«Oh meu amigo, que infortunios seriam necessarios, que flagellos inventaria o inferno para me fazer deixar-te!

«Eu tinha d'antes noites desveladas de continuos remorsos--se tinha!... vós o sabeis, Deus meu!--e, ao cabo d'esse martyrio, sondando-me, Almeida, sentia-te mais dentro do meu coração, mais senhor da minha alma!

«Conspirassem todas as forças d'este mundo contra mim, fosse eu chamada para dar conta da minha honra, proferiria o teu nome com orgulho, offerecendo o rosto para todos os ferretes da ignominia. Isto assim era amor, amor insensato de mulher que faz da sua deshonra um heroismo!

«E tu pagas-me tão cruelmente, meu amigo! Adivinhas que em tres semanas os meus cabellos se fizeram brancos? Assusta-te a presumpção de que a minha face envelheceu? Não pódes já ver em mim signaes desvanecidos da Angelica dos dezoito annos? Tens razão, Almeida; estou velha, mas o coração, unica belleza que eu tinha, unico dote que fazia a minha vaidade de merecer-te, esse, meu amigo, aperfeiçoou-se através de vinte e dois annos, está hoje como não estava quando te assenhoreaste d'elle, aperfeiçoou-se em contacto com os dons sublimes do teu, encheu-se de amor que o ha-de matar, porque já não tenho peito que possa conter tanto fel!