O que fazem mulheres: Romance philosophico
Chapter 7
--Entre nós ha só uma reconciliação possivel. Vou fazer-lhe uma proposta: se o senhor a acceita, retiro-me contente de sair por um contracto; se a não acceita, vou de sua casa como fugitiva. O sr. Dias não dirá a alguem que deu um tiro em Antonio de Almeida; não fará suspeitar pelo mais pequeno indicio que Antonio de Almeida foi ferido, quando entrava no jardim d'esta casa; não proferirá o nome de minha mãe, contando ou ouvindo contar essa desgraça acontecida esta noite. Estas são as suas obrigações do contracto que lhe proponho; as minhas são as seguintes: sairei de sua casa, com minha mãe, porque o amor que tenho a minha mãe é incomparavel ao simples respeito que o sr. Dias me inspira; sairei, calando o segredo do seu crime, para que ninguem desconfie de que o senhor me surprehendeu com um amante. Auctoriso e quero que meu marido diga ás pessoas admiradas da nossa separação que o meu genio era intractavel, que a minha educação era pessima, que as minhas impertinencias de rapariga eram insoffriveis. Diga tudo o que lhe lembrar, em meu desabono, que eu com o meu procedimento desmentirei alguma desconfiança injuriosa que possa haver. Eu não levo d'esta casa o valor de um ceitil. Os meus bahus irão como saíram do meu guarda-roupa de solteira. O senhor fica na posse livre de tudo que tinha, menos de uma mulher que o ha-de infallivelmente flagellar. Essa mulher sou eu, sr. Dias, porque o não amo, nem se quer estimo. Respeito-o, temo-o, d'aqui a pouco hei-de odia'-lo. O homem que o senhor feriu ou matou creou-me nos braços, foi o primeiro rosto extranho que vi ao pé do meu berço, ha quinze annos que o via todos os dias, da amizade que lhe tinha ao amor que se pode ter a um homem delicado, generoso, e confidente das alegrias e maguas da minha familia, não ia grande distancia. Eu choro esse homem, sr. Dias, não é só a minha desgraçada mãe que o chora. Se ella era amante d'elle, eu, como filha, não tenho direito a censura'-la; como mulher de coração creio que lhe perdoaria. Tenho dito mais do que devo, e importa ao sr. Dias. Entendeu-me bem, quer que eu repita por outras palavras o que disse?
--Não é preciso... entendi bem...
--Qual é a sua resposta?
--É necessario pensar, Ludovina.
--Não lhe dou tempo a demoradas reflexões. Eu hei-de sair d'aqui logo que meu pae volte.
--N'esse caso, faz o que quizeres; mas eu hei-de dizer em toda a parte que Antonio de Almeida era o amante de tua mãe.
--E eu direi que era o meu amante; darei em publico quantas provas puder dar para o desmentir; hoje mesmo irei ser a enfermeira d'esse homem, se elle não tiver morrido. O sr. Dias será tido na conta de assassino, e assassino ridiculo, que mata o amante de sua mulher, e denuncia adultera sua sogra, para que se supponha que os seus merecimentos não podiam ser vencidos por um rival.
--Tu és uma serpente, mulher!--bradou o barão, fazendo com os braços e a cabeça as azas d'um alambique--És um dragão! foste o demonio que me appareceste em corpo e alma! Vae-te para as profundas do inferno, e nunca descanço tenhas noite e dia em quanto me não vieres pedir perdão de quereres deshonrar teu marido, que te deu palacios, e quintas, e carruagens, e tudo quanto cobre o sol. Vae-te para onde quizeres, ingrata mulher, e quando souberes que eu morri doudo vem tomar conta de tudo isto que é teu, porque o que vocês querem todos é acabar comigo, para ficarem com isto que eu ganhei com honra a trabalhar como um mouro!
Ludovina voltára as costas ao berreiro virulento de João José Dias.
Entrou no quarto de sua mãe, que não resurgira ainda do torpor febril. A creada, que lhe assistia, entregou á baroneza uma carta, sobrescriptada a D. Angelica. Era-lhe conhecida a letra de Antonio de Almeida. Alvoroçada com a aprazivel certeza de que Almeida vivia, Ludovina abriu a carta sem reflectir. Apenas viu no topo do papel «Angelica», simplesmente «Angelica», estremeceu, caindo em si. Era uma carta do amante, do amante de sua mãe. Repugnava-lhe o le'-la, mas a amizade instigava-a, desprezando os escrupulos de uma virtude intempestiva.
Leu o seguinte:
«Angelica, fui ferido com um tiro quando entrava no jardim d'essa casa. O segredo do meu assassino morrerá comigo. O meu ferimento dizem ser mortal. Não importa. Morro amando-te. Esperava assim morrer. Mas a tua honra, minha amiga? Não bastará a minha vida para salva'-la? Dá um beijo a tua filha, ao nosso anjo que eu não verei jámais. Sacrificamo'-la ambos, ao verdugo de... A febre deu-me este intervallo. Adeus, até ao céo dos desgraçados.--_A. de A._»
Ludovina rompeu em gemidos, e caíu de joelhos orando com o fervor da desesperação. Nada mais triste n'este mundo que o espectaculo d'aquelle quarto! Não é preciso grande coração e poder de phantasia para acceitar um quinhão de tamanha angustia. A alma de pedra estala de encontro a este conflicto que esmorece na pintura. Cada lagrima ardente de Ludovina bastaria a reaccender a luz de piedade apagada no coração humano. Já imaginastes uma vida com este immenso horto de agonia? Na previsão de todos os infortunios, concebeu alguem as torturas d'aquella mãe, e da filha que acceita a deshonra para salvar-lhe o nome? Desamparados da esperança e de Deus, cobrae alento nas dores com que não podeis, agradecei ao vosso anjo mau os supplicios vindos, pedi-lhe mais, pedi-lh'os todos, menos o calix de Angelica, e Ludovina, porque ha ahi o succo de todos os venenos provados n'este inferno da vida, obra prima de uma causa eterna, obra que mais me espanta a mim que a creação dos astros, do mar, e do homem.
A minha grande prova de Deus, da justiça, e da condemnação é este inferno. O outro... é inferior á Omnipotencia que deixou, no seio da creatura, aberta a garganta do abysmo, onde a alma se despenha a devorar-se.
XIII
Eu costumo reunir alguns peritos em letras magras como estas, e leio-lhes alguns capitulos dos meus romances, com adoravel modestia e exemplar submissão. Recito-lhes sempre um preambulo improvisado que estudo cinco horas, no qual os convido, com humildade de aprendiz inexperto, a que me corrijam as hyperboles desgrenhadas, me desbastem as excrescencias da taramelice a que sou atreito, e me recomponham os desatavios da fórma em que me descuido, se a imaginação desfila comigo pelos prados floridos do inverosimil.
Tão atilado é o arrolamento que faço dos meus arbitros, que raro de entre elles se desacredita admoestando ou corrigindo as perfeições que me escorregam do bico da penna, com primores de fundição esmerada. Esse raro, porém, se encalha em elegancia que não percebe e deturpa, cá o inscrevo no meu canhenho de pascacios, e nem sequer desaggravo o meu talento offendido com resposta comedida. A minha docilidade chega até este ponto, e não ha ahi que ver mais lhano e brando do que eu sou á opinião cortada dos meus amigos, que me fazem o obsequio de trazer da rua quatro superlativos encomiastas, antes de saberem que pabulo vou dar-lhes á sua admiração faminta.
Ha pouco acabei eu de ler os doze capitulos passados a quatro luzeiros do orbe litterario, e um d'elles, acabada a girandola dos elogios, teve a descocada impertinencia de me dizer uma cousa assim:
--Os teus romances do meio em diante adivinham-se.
--Ora essa!
--Adivinham-se, e coxeiam por isso. O sexto sentido do romancista é o invento da surpresa. A concatenação logica e natural dos successos damnifica a peripecia, e aguarenta a curiosidade do leitor.
--O leitor é que não é capaz de entender-te essa linguagem assaralhopada. Tu calumnias o gosto dos meus leitores. Sou informado pelo orgão da opinião publica, o orgão que eu mais respeito, o meu editor, que o bomsiso dos consumidores escolhe o romance verosimil, amalgamado com arte e discernimento, escripto de modo que seja o reflexo da sociedade, e que possa de per si reflectir tambem na sociedade, amoldurando-se nas fórmas costumeiras e exequiveis.
--Enfreia lá os impetos, modesto escriptor! não soltes a parlenda inexoravel. Concordo com o bom senso publico. O natural e o reflectido da vida apraz e captiva o leitor; mas a previdencia dos capitulos advenientes esfria o empenho, e dessabora a curiosidade.
--Acceito a correcção, e tu acceita a aposta. Se adivinhares o enredo dos capitulos subsequentes, eu prescindo dos meus titulos de Henri Heine, Alphonse Karr portuguez, e escrevo repertorios de hoje em diante. Se não adivinhares, escreve-me uma critica litteraria em que has-de provar aos incredulos basbaques que eu alojo na cabeça um d'esses lobinhos cerebraes que chamam «genio» os galiparlas da nossa terra.
«Acceito, e ahi vae o desenvolvimento do teu romance, nos pontos essenciaes: D. Angelica póde morrer de uma congestão cerebral, ou de um typho. Não questiono a morte; é certo que a matas brevemente, e a fazes pedir, na hora derradeira, perdão do escandalo á filha, e da traição ao marido. Antonio de Almeida já nos disse que morria, e elle que o diz é porque o sabe, e tu já o sabias antes d'elle. D. Ludovina vae para a casa paterna, e, a pedido de Melchior Pimenta, enxuga as torrentes caudaes do pranto que a saudade maternal lhe arranca, mas teima em não querer nada do abominado marido. O barão de Celorico, atassalhado pelo remorso, dispara apostrophes sem grammatica ao espectro de Antonio de Almeida, pega-lhe a febre socia predilecta dos romancistas pathologicos, solta quatro urros estridulos ao despegar-se-lhe a alma do sêbo corporal, e vê'-lo que morre boçalmente, sem deixar nada ao _Hospital do Terço_, nem ás _Velhas da Cordoaria_! A tua crueldade para com este homem irá ao extremo de lhe negares até um necrologio na gazeta, ignominia posthuma com que rematarás a biographia de um homem que teve o infortunio de ser cevado de enxundias, em quanto tu espirras ossos por todos os póros. D. Ludovina toma conta da herança, e...
--E, sabendo que tu és um portento de esperteza--atalhei eu--digno de substituir João José Dias, manda-te convidar pelo seu procurador para tomar chá ás quartas feiras; namora-te, casa comtigo, e o auctor é padrinho de primeiro pequeno. Ora, meu amigo, outro officio. Desquito-te da promessa do elogio; já nem «genio» quero ser á custa do teu estylo assoprado. Eu já disse em mais de um livro que não escrevo de phantasia. A verdade e a observação dispoem-me as situações como tu as não inventas. A natureza, que tu conheces, é tôla, meu amigo.
Disse.
XIV
Antonio de Almeida esperava em ancias a apparição de D. Angelica. Não lhe pedira, como vimos, essa derradeira e afflictissima prova de um amor de vinte e dois annos; mas ve'-la, apertar-lhe a mão, expirar nos braços d'ella, egualar o escandalo ao flagello de lance tal, isso alvoroçava-lhe o espirito, attrahindo-lh'o para a unica visão aprazivel e ao mesmo tempo angustiada que o detinha entre a vida e a morte.
As irmãs de Almeida ignoravam tudo o que se passára, excepto o ferimento mortal de seu irmão. A denuncia do barão de Celorico fôra segredada ao enfermo pelo proprietario da casa, seu antigo creado. A policia devassára do crime, e nada averiguára das respostas concisas e obscuras de Almeida. Suspeitavam as attribuladas irmãs que seu irmão tivesse tentado um suicidio, por desgostos desconhecidos, e calasse o desastre para occultar a fraqueza, e obviar a presumpções nocivas á honra de alguem, e á propria memoria.
N'estas conjecturas, annunciou-se o barão de Celorico de Basto. Almeida recebeu a parte d'esta visita com excitamento prejudicial ao seu estado. Os facultativos conheceram a exaltação inconveniente, e perguntaram-lhe se a presença do barão lhe era penosa.
--Não é--disse elle--que entre, e venha só, porque é necessario assim.
Entrou o livido barão, fechando a porta. Chegou-se ao leito do enfermo, e estacou silencioso, com os olhos rasos de lagrimas. Esteve assim instantes, ergueu as mãos, e ajoelhou sem proferir palavra.
--Que é isso, senhor?--disse Almeida.
«É um desgraçado que vem pedir perdão, snr. Almeida. Quem lhe deu o tiro foi este malvado infeliz que aqui está diante da sua vista. Eu cuidava que minha mulher me era infiel, e me deshonrava. Tive uma carta em que me avisavam d'isso. Encontrei um charuto no meu jardim. Disse-me a patrulha que do meu quintal saíra um homem fóra de horas. Tentou-me o demonio a tirar vingança de quem me deshonrava. Vi-o a v. sr.ª, e, sem pensar no que fazia, dei-lhe dois tiros. Depois soube tudo o que havia; minha mulher está innocente, e o senhor nunca me fez mal nenhum, e está ferido por mim. Se me quer entregar á justiça, aqui estou, snr. Almeida; chame toda essa gente que está em sua casa para ouvir a confissão.
--Levante-se, snr. barão--atalhou Almeida--Não diga a ninguem que me feriu; fique entre nós esse segredo para sempre. Eu depressa morrerei com elle, e o senhor viva sem se denunciar a pessoa alguma. Eu sabia que o meu assassino fôra o senhor. Se quer mitigar o seu remorso, respeite... a mãe de sua mulher. Se ella um dia precisar dos seus favores, faça-lh'os como os faria á viuva do homem que matou. Agora, vá em paz.
O barão retirou, enxugando as lagrimas. Entrou furtivamente em casa, e escreveu uma carta. Sahiu com o preto, e montou a cavallo á porta de um alquilador.
A carta, que escrevera, era sobrescriptada á baroneza; da qual carta se dá o texto viciado com as perdoaveis infidelidades da correcção ortographica:
«Ludovina, quando receberes esta, teu infeliz esposo já não está no Porto!!!! Vou por esses mundos de Christo penar o meu crime, até que o remorso dê cabo de mim!!!! que não tardará!! Fica n'esta casa, que é tua, minha amada Ludovina; para mim me basta um bocado de terra onde enterrar os meus ossos!!! Quando souberes o meu triste fim então perdoarás a teu infeliz e desgraçado marido!! Fui já pedir perdão ao Antonio de Almeida, e oxalá que eu morresse ao pé d'elle. Pela tua honra e vida te peço que trates tua mãe com todo o amor e carinho. Faz com que ella me perdôe o mal que lhe fiz. Não tive animo de ir onde a ella, pedir-lhe que fosse tão boa como foi para mim aquelle honrado homem, que Deus permitta não morra. Adeus Ludovina, desgraçada Ludovina!!! para sempre, adeus! Não me tenhas odio; tem antes compaixão de teu marido, que te escreveu esta com a cara coberta de lagrimas e o coração acabrunhado de remorsos. Adeus para nunca mais!!!!!»
Afóra a sobejidão de pontos admirativos, que são talvez signaes symbolicos da dôr indizivel do barão de Celorico de Basto, o que se nos depara n'essa carta é a simplicidade, a mudez, a phrase chan de uma verdadeira angustia. Em lance identico um marido letrado, e concedo até que romancista, não escreveria cousa mais pathetica e pungitiva.
Ludovina leu esta carta ao pé de sua mãe, que authomaticamente se deixava vestir para ser transportada n'uma cadeirinha, nem ella sabia para onde.
Melchior Pimenta trouxera de fóra a noticia do perigoso ferimento de Antonio de Almeida, e vendo que sua filha não se espantava da nova, porque não era então maré de fingimentos, ficou perplexo, e scismou no caso alguns minutos.
Uma idéa, entre muitas idéas (se o leitor concede que Melchior tivesse muitas idéas) o incommodava. Seria Antonio de Almeida amante de sua filha, e o barão, por consequencia, quem lhe dera o tiro? Era esta a conjectura que o preoccupava, quando Ludovina lhe disse que não podia fazer-se a mudança n'aquelle dia porque a receava perigosa para sua mãe.
«Vem cá, Ludovina--disse o sr. Pimenta, franzindo a testa sobrecarregada de cuidados--fallemos de espaço, e desembrulha-me este novello. O barão disse-me, ha pouco, que dera esta noite um tiro n'um homem que era o amante de tua mãe. Acabo de saber que Antonio de Almeida está ferido. Contei-te este acontecimento, que te não espantou. Vejo tua mãe doente. Lembra-me o que teu marido me disse... Quero explicações d'este mysterio.
--São muito dolorosas para mim as explicações, meu pae.
«Como dolorosas?!
--E muito, meu pae; vergonhosas até para que uma filha se atreva a dize'-las. Queira ignorar tudo, meu pae, ou tudo saber de outra pessoa que não seja eu...
«Porque não has de ser tu?
--Porque sou criminosa.
«Criminosa! mas o barão disse que estavas innocente.
--Foi a minha querida mãe que me salvou á custa da sua dignidade.
«Não entendo...
--Entende, meu pae. A amante de Antonio de Almeida era eu.
«Tu! pois tu!...
--Não me culpe, ou culpe-me, mas perdoe-me. Obedeci, quando me casaram com este homem, obedeci cegamente; mas o coração negou-se ao sacrificio.
«E Antonio de Almeida, meu amigo de vinte annos, que te viu nascer, teve a ingratidão e a infamia de te fazer a côrte, sendo tu casada?! Foi bem dado o tiro! Bem hajas tu, barão, que me desaffrontaste, e procedeste como homem de bem!
--Isso é improprio da sua nobre alma, meu pae. A culpa é minha só. Amei desde creança Antonio de Almeida, era amiga d'elle até o julgar superior a todos os homens. Pedi-lhe a felicidade do coração, que só elle podia dar-me. Amava-me por piedade; fazia-me esmola do seu amor. Fui eu que o matei. Já que me forçou a esta confissão, dir-lhe-hei mais que, na posição em que estou, considero-me responsavel das minhas acções más perante Deus e meu marido. O pae perdeu o direito de me injuriar na desgraça que lhe devo. Minha mãe foi mais generosa comigo. Fez, não sei de que modo, convencer-se o barão de que a amante de Antonio de Almeida era ella. Aqui tem a explicação das palavras que meu marido lhe disse, e não poude sustentar na minha presença. Minha pobre mãe, depois de victimar a sua honra á minha salvação, succumbiu á vergonha de si, e á dôr, talvez, de me ver indigna d'ella. Basta de explicações, meu pae. Estas palavras tem-me custado annos de vida. Se a minha deshonra reflecte no seu pundonor, perdoe-me; se me não quer perdoar, amaldiçoe-me, mas não profira na presença de minha mãe o nome de Antonio de Almeida. Mereço isto á sua compaixão?
«Não falarei mais n'esse homem por minha honra propria.
--Assim o deve á sua dignidade.
Ludovina foi chamada com urgencia ao quarto de D. Angelica. Encontrou-a vestida, disposta a sair, com o rosto escarlate do crescimento febril, e gestos de quem delira.
«Onde quer ir, minha mãe?
--Morrer em qualquer parte, Ludovina... Quero ar...
«Não ha de sair d'aqui; supplico-lhe que não saia, minha mãe.
--Não me dês esse nome... Eu não quero já ser mãe nem esposa...
Ludovina fez sair a creada, que testemunhava este dialogo.
«Não quer ser mãe nem esposa?
--Não. Sou amante de um homem que está moribundo ou morto. Quero que todo o mundo saiba, que o fui e que o sou. Desprezo tudo, não ha para mim deveres nem respeitos agora. Se elle está vivo, quero dar-lhe os meus ultimos instantes. Se morreu, quero chorar e morrer ao pé do seu cadaver.
«Fale baixo, por misericordia, minha mãe!
--Podem todos ouvir-me, não me escondo d'alguem, agradeço as affrontas, os desprezos, as injurias, agradeço tudo que fôr martyrisarem-me, com tanto que me matem depressa.
«Mas, minha mãe, attenda-me por piedade. Vou-lhe contar tudo, se me escuta... Sente-se, e ouça-me...
--Diz, anjo, diz...
«Antonio de Almeida não morreu, e talvez não morra. O barão escreveu-me uma carta em que se despede de mim, e me recommenda que lhe peça o perdão para elle. N'esta casa ignora-se tudo. Meu pae está convencido que sou eu a amante de Antonio de Almeida...
--Jesus! exclamou D. Angelica.--Como tu me castigas, Ludovina!
«Como eu a castigo, mãe?! por quem é, deixe-me ser boa para o meu coração, e indigna para todo o mundo. Sinto na alma alegrias tamanhas d'este meu procedimento!... isto é Deus que me premeia, minha mãe, é Deus que me dá em consolações do céo as amarguras, que o mundo me possa dar. Ora, se a mãe me envenena este prazer, mata-me... Deixe-me ser senhora de uma parte do seu coração e da sua vida. Obedeça-me, sim? não saia de casa; não saia, que talvez me não encontre viva quando voltar.
Ludovina abraçou-se, a chorar, em D. Angelica. Choravam ambas, com os rostos unidos, apertando-se cada vez mais. O seio da mãe desafogava de angustias soffocantes n'aquelle pranto. O da filha fortalecia-se de animo para arcar com a ignominia do seu descredito.
D. Angelica recaíu no entorpecimento. Ludovina chamou creadas para lhe assistirem, e executarem as prescripções dos medicos. Melchior Pimenta esperou que a filha saísse do quarto, e foi sentar-se, meditabundo e sombrio, ao pé do leito da enferma, tateando-lhe o pulso, e chamando-a com os maviosos epithetos do carinho. Angelica abria os olhos pávidos, encarava-o por momentos, e recaía na somnolencia.
Ludovina entrou na carruagem, deu ordem ao boleeiro, e apeou na Lapa. A trezentos passos d'ahi, morava Antonio de Almeida. Velando o rosto com um véo negro impenetravel á vista, a baroneza de Celorico, sósinha, subiu as escadas do amante de sua mãe.
Descia um medico ao qual ella perguntou o estado do enfermo. Respondeu-lhe que havia esperanças de salva'-lo. A noticia feliz alvoroçou-a. Receberam-n'a as irmãs de Almeida, maravilhadas de tamanha prova de estima. O doente conheceu-lhe a voz, agitou-se, quasi desfez o apparelho do curativo, e chamou-a com ancia.
Ludovina entrou no quarto, só, que assim o pedira ás amigas. Almeida apertou-lhe a mão, orvalhou-a de lagrimas, e murmurou balbuciante:
«É a boa nova... agora creio que vencerei a morte, minha amiga, filha do meu coração.
A baroneza ficou muda e convulsa. _Filha do meu coração_ foram palavras que lhe entraram como fogo no recesso da alma, fogo, porém, que, de repente, se mudára em sensação de intima doçura. Passados minutos de mudo anceio, Ludovina curvou-se para o seio de Almeida, e disse:
--A mãe está muito doente; mas sem perigo. A sua carta não lh'a entreguei, lia-a eu, e occultei-lh'a para a não matar.
--O barão denunciou tudo?
--Nada: tudo se ignora, e toda a gente ignora, só eu sei que ella o estima tanto como eu. É necessario que o nosso amigo concorra quanto puder para lhe dar allivio. Tem esperanças, não tem?
--Tenho. Os facultativos disseram agora que o ferimento não é mortal. Já não morro, minha... minha querida amiga, não quero morrer...
--Escreva a minha mãe, se pode. Diga-lhe isso, que eu levo a carta. Não fale em mim, não diga que eu vim cá.
Antonio de Almeida escreveu. Ao despedir-se beijou Ludovina na face, e disse soluçando:
«Será o beijo de um moribundo?
«Não diga tal, sr. Almeida.
«Se fôr...» e desentalando a voz dos gemidos que lh'a embargavam, proseguiu «se fôr... Ludovina... lembra-te sempre da situação em que te deu o seu ultimo beijo... teu pae.
A baroneza tremeu uma sezão de instantes. Quiz saír, mas o abalo quebrantou-lhe as forças, coando-lhe nos nervos o desfallecimento, e a perda quasi dos sentidos.
Almeida tocou a campainha, e disse á irmã que primeiro chegou:
--O ar d'este quarto fez mal a esta senhora: levem-n'a para a sala, e vá uma das manas acompanha'la.
Ludovina pediu que lhe mandassem buscar a sua sege, que a esperava na Lapa.
Cinco paginas que é melhor não se lerem
Este capitulo mira a alvo transcendental.
Nem mais nem menos, quer provar que o Codigo do Imperador Justiniano--corpo de leis que uma falsa piedade chama «Digesto», sendo elle a causa indigesta de muitas gastralgias intellectuaes--quer provar, digo, que o Digesto, entre muitas que não conheço, traz, uma lei de tamanho absurdo e insensatez, quanta é a indignação com que para aqui a traslado:
_Pater is est quem nuptiæ demonstrant._
Em portuguez comezinho:
_O pai é aquelle que se diz pae no assento do baptismo._
A versão é de christão catholico, entenda-se.
Aquella regra de jurisprudencia pagã não fala em assento baptismal. Se o legislador fosse baptisado, como estes de agora, a lei não saía assim.
Contra a qual lei temos a articular:
1.º Que o pae é uma entidade muito mais nobre, efficiente, cathegorica, e circumspecta. E demonstra-se: