O que fazem mulheres: Romance philosophico

Chapter 6

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--Cale-se! isso é mentira! minha mãe estava deitada na sua cama...

«Não estava, Ludovina...

--Estava, snr. Dias; não me contradiga, que eu juro contra as suas palavras em toda a parte.

«Então quem estava na janella, senão tua mãe?

--Era eu; já lhe disse que a deshonrada sou eu; esse homem que matou era o meu amante; sabe-o todo o mundo; sabia-o o senhor quando o matou; sou eu a causa de meu amante ser um cadaver, e meu marido um assassino. Sou, portanto, uma infame mulher que deve saír debaixo d'estas telhas. Ámanhã, ámanhã ha de fazer-se uma separação eterna entre nós. A sua honra fica assim completamente desaffrontada. Todos dirão que meu marido me expulsou com a ponta do pé de sua casa. Todos hão de admirar os brios do snr. barão que matou o rival, e não desceu á cobardia de matar uma mulher... Esta resolução é inalteravel; acabou-se tudo entre nós, menos a vergonha, a infamia, o escandalo que vae fazer dos nossos nomes um espectaculo para a irrisão de uns, e para a piedade de outros. Eis aqui a sua obra; a mim, como sua mulher, compete-me acceitar metade da responsabilidade...

D. Angelica sentou-se no leito, afastou, como em delirio, os cabellos que lhe cobriam as faces, e pediu uma gota d'agua, com supplicante instancia, proferindo os nomes das creadas da casa. Ludovina ministrava-lhe a agua, que ella repelliu com ira. Permaneceu estarrecida alguns segundos, com os joelhos a prumo entre as mãos; depois, caíu de chofre sobre o travesseiro, e murmurou longo tempo palavras inintelligiveis.

O barão tinha saído imperceptivel. D. Ludovina debruçou-se, debulhada em lagrimas, sobre o leito.

Melchior Pimenta, no quarto immediato, espreguiçando-se fazia com os abrimentos de boca uma toada em falsete, rispida como o uivar do mastim.

Abençoados quatro grãos de morphina que lhe povoastes o somno de deleitosas visões!

Melchior Pimenta, eu, quando quero phantasiar um marido bemaventurado, lembras-me tu.

Se vejo algum, desconcertado como as velleidades da metade que se despega, para entrar como excrescencia no complemento de outras existencias, que se reputam inteiras, dá-me vontade de lhes perguntar se já experimentaram a morphina.

Eu tenho visto a suprema felicidade dos minotauros.

Havia dois que espiritavam a galhofa de Melchior Pimenta; um, que repudiando, timbroso e austero, a esposa tentada pela cobra d'este paraizo terreal, onde as cobras inçam como em matagal bravio, recebe uma carta de dama d'alta estirpe, onde se lhe censura o burguez despique de peccadilho tão corrente em gente fina. O marido acceitára a correcção e a mulher incorrigivel. Melchior ria até caír.

Outro, amante da paz caseira e fricassés acirrantes, conhece no aspecto carrancudo da mulher, e no aguado dos molhos, os desvios do amante: inventa pretextos para aproxima'-los e ameiga os arrufos com um jantar campestre.

Outro... Melchior conhecia outro, e eu conheço-o a elle, e mais dez exemplares que Brantome não archivou,[4] todos aporfiando em delicias sublunares.

Mas o ditosissimo, o que vive e morre sem sentir na consciencia o toque despertador, o _momento_ da predestinação cumprida, esse é um só no meu catalogo.

Melchior Pimenta, se quizeres um dia erigir estatuas aos deuses tutelares da tua prosperidade, lembra-te de Ludwig que farejou no opio a morphina; de Seguin que a descreveu; e de Sertuerner que aperfeiçoou o processo da extracção.

Sem a morphina, não serias mais feliz que Octavio, que Cicero, que Domiciano, e tantos grandes e sabios do paganismo que podem, sem vergonha, apparecer diante de outros não menos sabios, e grandes senhores da christandade.

Nasceste n'um folle, Melchior Pimenta!

[4] Veja _Vies des dames galantes_, por le Seigneur _de Brantome--Discours premier_.

XI

Mulheres são os melhores juizes de mulheres.

Disseram philosophos e moralistas, uns, grandes santos como S. Paulo, e outros, grandes atheus como Voltaire, que a mulher é um ser exuberante de sensibilidade, e apoucado de raciocinio.

D'ahi vem o denegarem-lhes accesso ás sciencias abstractas, ás politicas, aos parlamentos, ao magisterio, ás regiões intellectivas do machinismo social, e mandarem-nas cuidar dos filhos, e fiar na roca.

Se o absurdo vinga, se, por alvitre grosseiro do mais forte, a mulher é um ente inepto para exercitar a razão, com que direito as julgamos e sentenciamos, segundo a razão, sendo as suas culpas demasias de sentimento?

A injustiça é flagrante e odiosa.

Privam-nas de razão para as excluirem das funcções que a requerem; sentenceiam-nas pela razão, se o sentimento, seu dom essencial, as desvia do piso demarcado por ella.

Isto é uma tyrannia, uma inquisição, uma crueza turca.

A mulher não pode ser julgada por nós. Somos os senhores feudaes da razão. A nossa alçada respira a prepotencia do baraço e cutello. Estamos em insurreição permanente contra o santissimo apostolado de Jesus, que baixou seu divino braço por igual sobre o homem e mulher.

Não podemos superintender no fôro do coração, porque a nossa jurisprudencia é toda de cabeça, e o nosso codigo em pleitos da alma é estupido ou hypocrita.

Quem é o juiz da mulher? O homem que a despenha do abysmo, onde a lançou o amor, ao abysmo do opprobrio.

É o homem, que lhe entalha o ferrete da ignominia na face onde imprimira o beijo da perdição.

O altar onde se adora uma mulher é ao mesmo tempo a ara onde ella se dá em holocausto. Peccadora por muito sentir e chorar, amar e crer, quando nos abre céos e céos de alegria e gloria, abrimos-lhe nós o inferno dos desenganos, e o supplicio extremo do descredito. O mundo não as exila, mas affronta-as; o coração não as encrimina, mas agonisa na horrivel soledade para onde a razão o desterra.

E somos nós os juizes, porque entramos n'uma herança usurpada pela força primeiro, e legalisada depois pelo sophisma escripto.

A mulher foi escrava do braço, antes de o ser da superioridade moral.

Quando o homem chamou a sciencia a dar um testemunho falso da sua primazia, a mulher, quebrantada pela escravidão do braço, não pôde remir-se com as forças do espirito.

Ainda assim, o tyranno, receoso da emancipação, fez em redor da escrava as trevas da ignorancia, para que a razão da mulher não pudesse conceber da luz o germen que a rehabilitasse.

Pegou de formosa flor, cercou-a de estevas, cobriu-a de sombras por onde o sol não podia coar uma restea reanimadora.

Esta machinação arteira sobreviveu a todas as borrascas sociaes. Os fautores, e ainda os martyres da egualdade perante Deus e perante a lei, nunca proferiram uma palavra, nem verteram gotta de sangue para o resgate moral da mulher.

O Filho de Maria disse que a mulher era egual ao homem, e levou para o céo o segredo da sua emancipação.

Ficamos nós cá, os açambarcadores do entendimento escrevendo livros, que sacrilegamente denominamos de moral derivada do Evangelho, e n'elles demarcamos a profunda raia que extrema RAZÃO de SENTIMENTO. A razão para nós, o sentimento para ellas. Se, todavia, o sentimento claudica nos preceitos da razão pautada e insoffrida, condemnamos a mulher pela culpa de se deixar perder na escuridade, á mingua de uma lampada que lhe negáramos.

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Não sei se rasgue estas cinco paginas do manuscripto. Se alguem me assegura que entre vinte mil leitoras (orça por isto o numero das senhoras que compram livros em Portugal) se me asseguram que entre as vinte mil ha duas que me entenderam a parlenda, e me ficam desejando muita saude e graça para servir a Deus, não rasgo as paginas, embora os homens me mandem, em portuguezissima phrase, bugiar.

Quando comecei o capitulo, tinha de olho dizer, á quarta linha, que, ácerca de culpas de mulheres, já mais consulto homens.

Mulheres são os melhores juizes de mulheres.

A respeito de D. Angelica, consultei uma sua amiga de infancia, tão virtuosa como indulgente; mas virtuosa--não me afiram lá a palavra pelo elucidario caseiro--virtuosa amando muito e com muito despego de pecos empecilhos, atravancados pela impostura.

Disse-me ella o seguinte:

«D. Angelica é das poucas mulheres que podem fazer do seu crime um titulo ao respeito das mulheres que sentem o coração pela dôr.

--Ao respeito!--atalhei eu, com fumos de juiz, vicio do sexo ingrato, onde por desventura me encontro.

«Sim, ao respeito, porque D. Angelica amando vinte annos um homem, juro-lhe que não teve uma hora de consciencia quieta, nem intrepidez para sacrificar o coração ao repouso da consciencia.

--Vinte annos! pois era amor de vinte annos o do tal Almeida que o barão de Celorico arcobuzou?

«Mais seria, talvez. Angelica era filha segunda de um fidalgo pobre do Minho. Foi educada comigo, no Porto, no recolhimento de S. Lazaro. Passava as festas do anno em casa de um doutor, que tinha filhas, e um filho que se formava n'esse tempo. Esse filho era o Antonio de Almeida, que o senhor conhece, e D. Angelica amou desde os quinze annos, com o amor immenso das sympathias contrariadas.

O doutor descobriu a affeição do filho, e impoz-lhe um violento termo, prohibindo-o de vir ao Porto nos dois ultimos annos da formatura.

As cartas de Antonio de Almeida recebia-as eu, e Angelica relia-as, ao cabo de dois annos de ausencia, com paixão cada vez mais entranhada.

O fidalgo pobre resolveu casar a filha com um rapaz que se dizia rico. Melchior Pimenta era filho bastardo de um conego opulento, e litigava a herança paterna, com a certeza do vencimento.

Angelica saíu do recolhimento sem saber para que fim saía. Friamente avisada de que havia de casar com Melchior Pimenta, embruteceu, ficou como tolhida, e desmemoriada do amor que alimentára tres annos.

Quando o coração reviveu do lethargo, a indiscreta menina escreveu ao pae de Antonio de Almeida, pedindo-lhe que a pedisse ao pae para casar com seu filho. Que innocencia!

Escreveu ao marido que lhe destinavam, confessando que não podia dar-lhe o coração.

O doutor, se ella lhe conviesse te'-la ía. Angelica era pobre. Melchior Pimenta não respondeu á carta, nem deminuiu as instancias.

O fidalgo, informado pelo doutor, agradeceu-lhe a probidade da denuncia, e accelerou o desfecho.

Angelica não soltou um gemido na presença do pae; sei que apenas lhe disse: «A historia de muitas mulheres desgraçadas começa como a minha.» Disse, e pôz a cabeça no altar do sacrificio. Ao marido apenas perguntou se recebera uma carta d'ella...

Participei a Almeida o casamento de Angelica. Respondeu-me elle que não acreditava a infamia emquanto a perfida não tivesse o cynismo de lh'a dizer. Modifiquei as palavras d'esta carta, contando-as á minha amiga. Ella soluçou nos meus braços muito tempo, e disse com vehemente resolução: «Pois sou eu que lhe vou dar parte do meu casamento, e offerecer-lhe a minha casa.» Que fazes tu, menina?--repliquei eu, longe de suspeitar a resposta: «Faço á prepotencia de meu pae o sacrificio da minha dignidade, e castigo um homem que me comprou.»

Julguei-a desvairada pela angustia, e reservei para melhor ensejo os conselhos que os meus vinte e cinco annos, já apalpados por amarguras de coração, podiam dar-lhe.

Effectivamente, Antonio de Almeida voltou formado, e frequentou a casa de Melchior Pimenta, que dava bailes, e figurava na primeira plana a favor de antecipações que fazia sobre o penhor do seu patrimonio.

Deixei de ser a confidente de Angelica, mezes depois. As suas cartas não eram confidencias: eram lagrimas, queixumes vagos contra a sua sorte, chagas de consciencia que só a morte podia cicatrisar. Entendi tudo, e fiz o que faz, ou o que raras vezes faz uma amiga: consolei-a na queda, como a aconselhára á beira do abysmo. Disse-lhe que mandasse a consciencia ao pae, e que ficasse ella com o coração. Não lhe falei em Deus, nem na Virgem, porque no infortunio de Angelica, não havia que vêr com cousas sobrehumanas.

O doutor farejava um casamento rico para o filho; achou-o, e marcou-lhe o prazo para se realisar. Antonio de Almeida rejeitou-o com toda a ousadia da desobediencia. Choveram maldições ás duzias, abriram-se os cancellos do inferno aos pés do obstinado moço. Peor que tudo isso, o castigo de Almeida foi ser expulso de casa, sem pão, nem habilitações promptas para ganha'-lo.

Angelica soube tudo por mim, e por uma carta do doutor, que a responsabilisava pela desgraça do filho. Vendeu algumas joias que tinha de sua mãe, e pediu-me a entrega do producto, como dadiva minha, a Almeida. O brioso moço, não sei como, soubera onde as joias paravam. Acceitou o dinheiro, comprou as joias e pediu-me que as entregasse a Angelica.

Duas almas assim nunca se separam. As ligações mais duradouras são as do crime, quando as virtudes do sacrificio reciproco chegam a esquecer-se da sua má origem.

Antonio de Almeida trabalhou dia e noite, até ser um advogado de fama.

Melchior Pimenta, ao cabo de quatro annos de casado, tinha perdido a demanda, e estava pobre. Antonio de Almeida cortou ás suas primeiras necessidades para emprestar a Melchior o fausto da casa. Angelica soube-o tarde; mas, sabendo-o, conheceu a pobreza de seu marido, e a delicada generosidade do seu amigo.

Fecharam-se as portas da sala, acabaram bailes e theatros, resumiu-se a vida de Angelica ao amor a sua filha, á adoração mais intima do amante, e aos respeitos affectuosos por seu marido.

Antonio de Almeida acatou o melindre de Angelica. Inventou pretextos para melhorar-lhe a vida, que ella não desejava melhor. Conseguiu fazer despachar Melchior Pimenta para a alfandega, comprando o despacho por alto preço.

Nem este mesmo sacrificio desconheceu Angelica. Os jornaes annunciaram a corrupção, e a minha atilada amiga adivinhou a causa. Melchior Pimenta, não. Esse perguntava se os seus merecimentos não eram demasiada recommendação para o despacho.

Sabe agora a vida de Angelica?

Se alguma vez o seu sestro linguareiro o levar a pôr em romance esta historia, accrescente que D. Angelica, ao despedir-se de Almeida para visitar o berço da filha, lavou-lhe muitas vezes o rosto com lagrimas. Diga que, outras muitas, o amante de Angelica, farto de a esperar na sala, e já receoso de algum successo triste, procurando-a, ia encontra'-la ajoelhada ao pé d'esse berço. E, depois que Ludovina se lançava aos braços de Almeida, com fervor mais de filha que de creança affeita a mimos e carinhos, o rosto de Angelica incendiava-se de pejo, como se o affecto e a virgindade do coração travassem peleja.

Em resumo, snr. romancista, acabo por onde principiei, e do que vou repetir faça uma maxima, por minha conta; mas não a enfileire a par da do commendador João José Dias:

HA MULHERES QUE PODEM FAZER DO SEU CRIME UM TÍTULO AO RESPEITO DAS MULHERES QUE SENTEM O CORAÇÃO PELA DOR.

D. Angelica está julgada e punida......................................... ..........................................................................

Entretanto foi Jesus para o monte Olivete:

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Então lhe trouxeram os escribas e os phariseus uma mulher que fôra apanhada em adulterio: e a puzeram no meio.

E lhe disseram: Mestre, esta mulher foi agora mesmo apanhada em adulterio.

E Moisés, na lei, mandou-nos apedrejar estas taes. Que dizes tu logo?

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Jesus, inclinando-se, escreveu com o dedo na terra.

E, como elles teimavam em interroga'-lo, ergueu-se Jesus, e disse-lhes: O que de entre vós está sem peccado seja o primeiro a apedreja'-la.

E, tornando a curvar-se, escrevia na terra.

Elles, porém, ouvindo-o, saíram um a um, sendo os mais velhos os primeiros; e ficou só Jesus e a mulher que permanecia, no meio, em pé.

Então ergueu-se Jesus, e disse-lhe: Mulher, onde estão os que te accusavam? ninguem te condemnou?

Ninguem, Senhor;--respondeu ella. Então, disse Jesus: Nem eu tão pouco te condemnarei: vae e não peques mais.

O SANTO EVANGELHO DE JESUS CHRISTO, SEGUNDO S. JOÃO--Capitulo VIII.

XII

Em quanto D. Angelica dormita os somnos curtos e sobresaltados da febre, a baroneza despertou o pae, chamando-o á ante-camara.

Melchior Pimenta, estremunhado e como ebrio dos aturdimentos da morphina, extranhou á filha a extraordinaria madrugada, e perguntou se o barão fizera alguma nova loucura.

--Não podemos continuar a existir n'esta casa, meu pae--disse Ludovina, sem saber ainda como sahir-se bem de lance tão perigoso para sua mãe.

«Então que houve? esse alarve que fez? será necessario amarra'-lo?

--O necessario é sahirmos; mas a mãe está muito incommodada...

«Que tem ella?!

--Os meus desgostos affligiram-n'a a tal ponto que está ardendo em febre, e não sei se poderá transportar-se.

«Vamos vê'-la.

--Pois sim vamos, mas não perca tempo. Um medico é o mais urgente agora. Veja-a; se ella estiver descançando, não a desperte, e vá dispôr as cousas em nossa casa para nos mudarmos logo, sim, meu pae?

«Mas que fez o bruto?! A gente ha de sair d'aqui sem dar uma satisfação á opinião publica? Não vês que esta saida precipitada auctorisa a maledicencia a calumniar-te como o barão te calumnia?

--Não tratemos agora da opinião publica, nem do barão. O pae saberá tudo. Venha ver a mãe, e vá depressinha, sim?

Melchior Pimenta entrou na camara de sua mulher. Tateou-lhe a testa que transpirava o suor da febre, sondou-lhe o pulso, afastou-lhe os cabellos dos olhos, e murmurou:

«Isto é doença séria, Ludovina!...

--Talvez não, meu pae... São afflicções que se curam com o socego da nossa casa. Não se demore. Vá por casa do medico e mande-o já. Se vir o barão não lhe diga nada, promette-me?

«Eu sei cá o que farei! Ao despedir-me, tenciono dizer-lhe que me não codilhou. Tu tens escriptura de dote. Quando quizeres, levantas vinte contos de réis...

--Pois sim, meu pae, esses negocios não são para agora. O que eu quero é a saude de minha mãe. Vamo-nos d'aqui embora, que eu torno a ser feliz... Se é meu amigo, não se demore; tire-nos d'este purgatorio.

Melchior Pimenta ia scismando no divorcio, e nos vinte contos, quando o barão lhe surgiu na extremidade do corredor.

--Bons dias, sr. Melchior.

«Bons dias, sr. barão.

--Isso hoje foi madrugar!

«Assim é preciso.

--Se não tem muita pressa, dê-me aqui uma palavra.

«Não posso, sr. barão, vou com pressa.

--Olhe cá, sr. Melchior, é preciso que nos entendamos.

«A que respeito?

--A respeito d'estas poucas vergonhas que aqui vão.

«Que chama o senhor poucas vergonhas?

--Homem! vamos falar claro; eu sei tudo, e o senhor, se o não sabe, saiba-o, e tome tento na sua vida.

«O sr. barão é que já perdeu o tento da sua. Essa cabeça está desmanchada.

--Desmanchada está a sua, e bem desmanchada, sr. Melchior. Entre cá, e ha de agradecer-me o que eu fiz, vingando a sua honra.

«A minha honra não póde ser offendida nem vingada pelo sr. barão.

--Estou a ter pena do sr. Melchior! Venha aqui dentro que eu conto-lhe tudo.

«Que ha de o senhor contar?!--disse Melchior entrando na sala.--Quer contar-me a historia do charuto?

--O charuto! o charuto agora já me não serve a mim; é ao senhor; veja lá se o quer, que eu dou-lh'o de boa vontade.

«É para isso que me chama, sr. barão? De que me serve a mim esse ridiculo instrumento com que o senhor está representando perfeitamente o papel de doudo?!

--Doudo quer o senhor fazer-me, mas ha-de-lhe custar... digo-lh'o eu... Sente-se ahi, e dê-me attenção, que o caso é muito serio...

Melchior Pimenta sentou-se impacientado. O barão de Celorico proseguiu, cerrando a porta da sala:

--O senhor tem vivido enganado com minha sogra, acho eu.

«O que?

--Tenha mão, não se atrigue, sr. Melchior. As desgraças são para os homens, e o remedio é atura'-las quando ellas chegam. Sua mulher não lhe tem sido fiel.

«O senhor está doudo, e, se não está doudo, é um infame malvado!--exclamou Melchior erguendo-se com arrebatamento.

--Sente-se, homem; eu não lhe tenho medo, nem metto a fala no bucho. Ouça, e faça o que quizer; creia ou não, saiba ou não saiba, o que eu lhe digo é que sua mulher tinha um amante, e eu dei esta noite um tiro n'esse homem cuidando que era o amante de minha mulher.

«O sr. barão sabe o que está dizendo? Se tem algum resto de juizo, desdiga-se da affronta que fez á minha honra.

--Affronta?! essa não é má! Pois eu vinguei a sua honra, sem saber o que fazia, e o senhor ainda diz que o affronto! Ora, meu amigo, o senhor é que me parece doudo! Acredite o que lhe digo, sr. Melchior. Este charuto era do amante de sua mulher, que entrava no meu jardim pela porta do muro, e vinha a esta casa todas as vezes que queria.

«Quem, sr. barão? diga quem, quando não um de nós ha de morrer.

Ludovina entrou precipitadamente na sala.

«Quem?! então não diz quem é o amante de minha mulher--repetiu Melchior, em quanto a baroneza cravava os olhos no semblante subitamente desfigurado do marido.

--Que indecentes palavras escuto, meu pae!

«Primeiro as ouvi eu a este miseravel que m'as disse!

--A meu marido? Desculpe-o que elle tem o juizo perturbado. O sr. barão não disse taes palavras com intenção de offender os pais de sua mulher, não é verdade? Essa calumnia foi, um desatino, uma irreflexão, não foi meu amigo? Dê uma satisfação a meu pae, que está afflicto como vê, ou então crave-se um punhal no seio, antes de repetir na minha presença que minha pobre mãe está infamada.

«Tens razão, Ludovina--murmurou o barão, com as lagrimas nos olhos--Eu estou doudo; o que disse é uma mentira; se fôr necessario, eu peço perdão ao sr. Melchior, e á sr.ª D. Angelica.

--Ouviu, meu pae? Vá, agora vá. Assim fez o que lhe pedi?

«Foi elle que me arrastou para esta sala... Sabe que mais, sr. barão? O senhor o que deve fazer é recolher-se a um hospital, antes que as auctoridades o amarrem. Eu vou requerer um exame ás suas faculdades intellectuaes...

--Meu pae!--murmurou afflictivamente Ludovina--pelo amor de Deus lhe peço que se retire, quando não, vê-me cahir aqui morta.

«Eu vou, menina.

E sahiu, reatando a meditação no divorcio e nos vinte contos.

--Não lhe disse eu já, sr. Dias--continuou Ludovina baixando a voz com maviosa brandura, e assumindo ares de penitente--não lhe disse eu já que o homem ferido pelo senhor era meu amante? que a mulher da janella do jardim era eu? que a culpada, a adultera, a infame, a digna de morte ou do seu desprezo é sua mulher?

«Mentes, mentes, Ludovina! eu ouvi tudo o que tua mãe te disse no quarto.

--Que importa o que o senhor ouviu? Tudo quanto meu marido disser contra mim, tudo o que a sociedade inventar contra a minha dignidade, hei-de certifica'-lo com o meu silencio, e com o meu divorcio. Tudo o que o senhor disser contra minha mãe, hei-de desmenti'-lo em publico, pondo em mim as nodoas que o senhor puzer na reputação d'ella. De maneira que meu marido, quando cuida salvar a sua honra, sacrifica-a, e provoca o escarneo do publico. Vê quaes são as minhas tenções, meu amigo?

«Tu não fazes isso, Ludovina!--rugiu iracundo o deploravel homem--Se fazes tal... Ludovina, se fazes tal...

--Que se ha-de seguir?

«Eu sei!... tu queres matar-me, mulher! mata-me, mas deixa-me a honra, que eu estimo mais que tudo. Dou-te tudo quanto tenho, deixo-te em liberdade, torno para o Brazil; mas não digas que me foste infiel; não digas que esse homem era teu amante. Peço-te isto de joelhos, Ludovina.

Era feio o espectaculo, mas fazia dó a postura humilde do barão. Ludovina, apiedada ou aborrecida da attitude, pôz-lhe as mãos nas espaduas, pedindo-lhe, affectuosa, que não estivesse assim.

E continuou: