O que fazem mulheres: Romance philosophico

Chapter 5

Chapter 53,971 wordsPublic domain

--Eis a prova da minha deshonra!--exclama, e ergue-se vacillante e cambaio. Entra em casa, e vê correr um vulto de mulher através de um passadiço. Corre impetuoso, e já o não alcança. Tresvariando, grita que ha ladroes em casa. Affluem os creados, buscam e rebuscam todos os cantos inutilmente. Ludovina e sua mãe acodem espavoridas, e encontram o barão, debatendo-se nos braços de dois creados, com um ataque de nervos. Ministram-lhe soccorros, conduzem-n'o á cama, querem vêr o que elle fecha na mão direita, e podem apenas lobrigar a ponta queimada de um charuto. Ludovina inquire com meiguice e pena o que é aquillo, e o desgraçado, maior e mais eloquente na sua angustia, responde:

«É a nossa morte!

Instam na explicação das respostas, e elle troveja:

--Não quero aqui ninguem!

Pasmam; e retiram-se, atemorisados.

«Estará elle doudo, meu pae?--dizia a baroneza, tremula de medo, apoiando-se nos braços do espavorido Melchior.

--Parece que sim, minha filha. Chamem-se medicos já. Este homem deve ter demasiado sangue. É ameaça de doudice, não póde ser outra cousa. «Que sorte a minha!--disse Ludovina lagrimosa. E foi para o pé do leito de seu marido.

* * * * *

--Se se verificar a demencia--dizia Melchior a D. Angelica, de modo que só todos nós pudemos ouvir--a administração da casa passa immediatamente para Ludovina, e Rilhafolles com elle. Este homem saíu muito outro do que eu imaginava. Ainda me não disse que deixasse o logar da alfandega, nem me offereceu um emprestimo com que eu possa tentar demanda contra os possuidores da minha casa. Tenho remorsos de ter dado a este alarve uma creatura tão perfeita como a nossa Ludovina!

D. Angelica não respondeu.

«Ainda te doe a cabeça, Angelica?

--Bastante.

«Já estavas a dormir, quando o barão gritou?

--Dormitava.

«Mas eu fui ao teu quarto, e já te não encontrei lá!

--Tinha corrido sobresaltada.

«Então pelo que eu vejo tinhas-te deitado vestida...

--É verdade, nem forças tive para desapertar os colchetes.

«Porque me não chamaste, filha?

--Não quiz incommodar-te.

«Ora essa!...

--Até logo, filho, vou ver se descanço um instante

«Vae, vae, menina.

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Ha reticencias que não dizem nada.

A litteratura merceeira, para justificar o adjectivo, inventou as carreiras de reticencias, as quaes correspondem aos pesos roubados da mercearia.

Eu abri loja, e vou com os outros.

Não me entrem, pois, a desconfiar que os pontinhos juntos fazem borrão n'este painel de bons costumes.

A sr.ª D. Angelica é excellente mãe, no meu conceito; e, no conceito do sr. Melchior Pimenta, é excellente esposa.

Póde morrer, que o necrologio já não coxeia.

IX

Não averiguei miudamente o que disse Ludovina a seu marido. Um dos dois medicos chamados ás sete horas da manhã para examinarem a supposta demencia, a pedido do Melchior Pimenta, disse-me que encontrára o barão febricitante, mas sem o menor suspeito symptoma de loucura. Accrescentou que o enfermo lhes dissera, que bebessem elles a tizana que receitaram; e lhes mandára pagar a visita, com recommendação de o darem por curado.

Ás nove horas já o barão tinha sahido, sem dizer a Ludovina o seu destino, nem acceitar o almoço.

Saíra pela porta principal, e entrára na rua para onde olhava a janella do jardim. Em frente d'essa janella, na margem esquerda da rua, estava com escriptos uma casa terrea. O barão perguntou, na vizinhança, quem era o proprietario da casinha, encontrou-o perto, alugou, pagou a casa, e recebeu a chave.

D'alli foi ao largo de S. Bento. Entrou n'uma loja de ferragem, e comprou uma clavina trochada, e um par de pistolas de coldres; e, n'outra parte, as munições de fogo.

Tornou a casa ao meio dia, pediu o almoço, e comeu á tripa fôrra. A baroneza, e D. Angelica assistiram ao almoço, e não conseguiram arrancar-lhe tres palavras. Quem o servia era o negro, que o acompanhára do Rio, e o adorava com o fervor nativo da sua raça. O barão chamou-o no fim do almoço, e disse em segredo:

«Esta chave é d'aquella casa baixa que tem o numero doze, defronte da janella do jardim. Vae á loja de ferragem no largo de S. Bento, com este bilhete. Hão-de entregar-te umas armas, e um embrulho. Pega em tudo isso, de modo que ninguem cá de casa te veja, fecha-o no tal casebre, e entrega-me a chave depois.

O barão foi passear no jardim, e recolheu o seu espirito em meditabundas reflexões.

Poucos dias antes, tinha elle ouvido uma historia que toda a gente sabe. Era aquelle conto de uma mulher adultera, que o marido inexoravel matára sem pau nem pedra, pondo-lhe diante dos olhos uma moeda de prata ao almoço, ao jantar, á cêa, a toda a hora, em todas as situações, até que a matou. Esta historia entalhára-se na memoria do barão com indeleveis traços. Contou-a a sua sogra, que a classificou de indecente para se dizer a senhoras. Contou-a a sua mulher, que não desculpou a victima, mas reprovou a fereza do verdugo. João José Dias fez a apologia do verdugo, e disse que «a honra de um homem só assim se vingava.» Ludovina fitou-o com espanto, e acreditou que o ciume seria capaz de desenvolver os instinctos ferozes de seu marido.

Era aquella historia o ponto convergente das meditações que o reconcentraram, por espaço de tres horas. D'esta longa e dolorosa encubação do pensamento deve-se esperar um parto, um monstro, uma façanha, mais ou menos plagiaria, da medonha expiação da adultera.

Chamaram-n'o para jantar: disse que jantaria em mesa á parte com sua mulher. Desceu ao jardim a baroneza, e perguntou-lhe a causa de tal exquisitice.

--Não dou satisfações--respondeu--Quero jantar, e almoçar sósinho comsigo.

--Isso é o mesmo que...

--Não me replique! tenho dito.

Fazia medo a cara do homem. Esverdinharam-se os refegos da papeira; as ventas fumegavam soluçando; testa e palpebras, tinham o escarlate da penca do perú assanhado.

Ludovina estava atterrada, e julgou-se em risco, ali, sósinha. Recuára para se evadir com dignidade, honrando a retirada, quando o barão lhe disse:

--Olhe, senhora!

A baroneza voltou-se, e viu o braço do barão erguido em attitude prophetica; e lá em cima no cucuruto da mão cebácea... o CHARUTO!...

--Que é isso?!--perguntou ella com mais curiosidade que espanto.

--Não sabe o que isto é? chegue-se cá!

Ludovina, indo receosa, disse:

--É um charuto... pois não é?!

--É um charuto! é um charuto! mulher traidora!--ululou o bordalengo com a grenha irriçada.

Ludovina recuou tres passos, tolhida de medo. O barão crescia sobre ella, com o braço no ar, arvorando o charuto. A pobre menina temeu as furias de um doudo, e chamou com afflictivo grito a mãe.

Acudiu D. Angelica, já quando o barão, mettendo as mãos nas portinholas da japona, á laia de idolo chinez, voltava as costas a sua mulher.

--Isto que é?!--exclamou D. Angelica.

--Está doudo rematado, minha mãe!--disse, a meia voz, a baroneza.

--Vae-se chamar teu pae, que chegou agora. Nós não podemos viver com um demente...

--Janta-se, ou não se janta?--disse o barão, caminhando para ellas com socegado semblante.

--Que desordem foi esta, sr. barão?

--Desordem! ora essa é fresca! Aqui, que eu saiba, não houve desordem nenhuma... Foi sua filha que viu uma cousa que a fez gritar... A culpa é d'ella.

--Que viste, Ludovina?

--Eu vi um charuto na mão d'este senhor; mas gritei porque elle me deu berros medonhos, e correu para mim com ares ameaçadores.

--Deixe-a falar, sr.ª D. Angelica--replicou o barão, sorrindo de um modo que confirmava a demencia--A cousa é outra... Vamos jantar, e, se minha mulher tem medo de mim, jantaremos todos juntos á mesma mesa.

Melchior Pimenta, informado da desordem, foi ao encontro do grupo que entrava em casa. D. Angelica, com um só dedo, fez-lhe dois gestos: um ao longo do nariz, para que se calasse, outro no centro da testa, para que as protegesse de um doudo furioso.

Sentaram-se á mesa, espionando os menores movimentos do barão. Viram-no tirar a mão da algibeira, extender o braço por sobre a mesa, e deixar caír, ao pé do prato da baroneza o charuto.

Ludovina lançou-o ao chão com a faca, dizendo:

--Olhem que porcaria!--E voltando-se para o creado que servia a sôpa:

--Atire isto lá fóra!

--Não atires!--bradou o barão.

--Porque não ha de atirar?!--Disse Melchior Pimenta.

--Porque não quero! e porque sou dono d'esta casa! e porque quero despicar a minha honra!... e porque vae tudo com mil diabos, ouviu?

Os talheres, os calices, as bandejas, e os pratos, resaltaram duas pollegadas acima da superficie: tamanho fôra o murro que o barão baixára sobre a mesa.

Ergueram-se todos. D. Ludovina fugiu por uma porta; D. Angelica por outra; Melchior Pimenta, enfiado, amarello, sem gota de sangue, antevendo um violento embate na sua cara com a terrina, seguiu a mulher, colorindo a retirada com a prudencia.

O barão embolsou o charuto, chamou o preto, e disse-lhe:

--Senta-te ahi, Simão; janta ao pé de mim, que és o unico amigo que eu tenho.

Ha, n'este lance, motivo para nos condoermos.

O barão não come, apesar do esforço. O bocado entala-se-lhe na garganta, comprimida pelos soluços. Depõe o garfo, e descáe o rosto, coberto de lagrimas, sobre as mãos. O preto, que não ousára sentar-se, vendo chorar o amo, cujo pão comera em liberdade, no espaço de vinte annos, chora tambem, e pergunta a medo a causa d'aquella afflicção. Responde-lhe em gemidos o bemfeitor, e ergue-se extenuado, e vacillante, como se os sentidos o desamparassem. O preto quer conduzi-lo ao quarto; mas o barão, um momento indeciso, pede o chapéo e sae.

As angustias d'este homem condemnam Ludovina?

Não. Ludovina é innocente como os anjos.

A peçonha mortal, que espedaça o coração d'este homem, tem-na elle na algibeira: é o charuto de Francisco Nunes.

X

É meia noite e um quarto no relogio da Lapa.

A casta lua dá a sua luz poetica a muitas impudicicias, e tolera o escandalo resignada. Casta lhe chamam os poetas, e é bem posto o epitheto. Só ella seria capaz de manter-se pura com tantos exemplos de corrupção. De mim creio que a tem salvado a distancia que a separa dos bardos que a namoram; e, se não é a distancia, é a impertinencia das cartas rimadas que lhe mandam. Muitas mulheres, menos castas que a lua, teem sido salvas pelo mesmo theor. Os poetas, que amam em verso, são uns puros desinfectantes da putrida impureza. Se todos fizessemos versos, e nos amassemos em oitava rima, eu lhes asseguro que este globo era um viveiro de anjos. A theoria de Hobbes seria uma calumnia, e a de Maltus um absurdo. Não andariamos travados em permanente lucta, nem a exuberancia da propagação assustaria os economistas. Havia só o risco de nos matar a fome; mas cada cysne teria um canto derradeiro com que esforçar a guerra á prosa que inventou os cereaes, o boi cozido, as acções do banco e a troca de um romance por quinhentos réis.

Isto occorreu naturalmente da castidade da lua.

Era, pois, meia noite e um quarto no relogio da Lapa, e fazia luar como de dia.

Ás dez horas e meia, tinha entrado para a casa numero 12, da rua *** um vulto sinistramente rebuçado: era o barão de Celorico de Basto. A casa tinha uma janella tosca de madeira, que se abriu cousa de meio palmo, depois que o encapotado entrou. De vez em quando, um raio da luz, caíndo sobre a fresta das duas portadas, resvalava no nariz do barão, dando-lhe o colorido de uma cidra avelada.

Soára o quarto depois da meia noite, quando a janella interior da grade do jardim se abriu cautelosamente.

Um objecto branco sobresaía na sombra: devia ser o lenço de uma mulher.

Cinco minutos, depois, n'uma extrema da rua appareceu um vulto encapotado, que fumava, caminhando cosido com o muro do jardim. A figura da janella desappareceu, e em seguida ouviu-se o ranger subtil da lingueta de uma chave. Era a porta do jardim que se abria ao avizinhar-se o vulto.

A distancia de tres passos da porta, o homem que fumava ouviu o ruido de uma janella que se abria, e parou, voltando-se para a janella. O que elle viu foi o lampejo da detonação de um tiro, e levou a mão ao hombro esquerdo. Seguiu-se um pulo incrivel do barão fóra da janella, a fuga precipitada do vulto, e um segundo tiro, que redobrou a força motriz do fugitivo.

Apitára uma patrulha ao cabo da rua, duas, tres, vinte patrulhas apitaram. A cem passos de distancia do local dos tiros, encontraram um homem extendido na rua, e disseram em voz alta, que o barão ouvira:--parece que está morto.

O barão, sem apressar o passo, entrou na porta do muro, e deu volta á chave. Olhou ao longo do jardim, e viu, por entre as sombras dos arbustos, contiguos á casa, perpassar um vulto, e sumir-se.

Abriu-se outra vez a janella da grade, ao tempo que as janellas das casinhas fronteiras se abriam. Alguns soldados perguntavam onde se deram os tiros. Respondiam unanimemente que foram dados alli, e mostrava-se uma bucha ainda fumegando, no meio da rua.

--Quem está ahi n'essa janella?--bradou um soldado ao barão, que estivera calado.

--Sou eu, sou o dono d'esta casa.

--E quem é o senhor?

--É o senhor barão--responderam os vizinhos.--Não, d'alli de certo não foi.

--Os tiros?--perguntou o barão.

--Sim, senhor, dois tiros que se deram aqui agora.

--Eu tambem, os ouvi, e por isso cá vim. Mataram alguem, ou foi patuscada?

--Não foi má a patuscada! Está alli adiante um sujeito extendido nas pedras, e, se não está morto, pouco lhe falta.

--Quem é? conhecem?

--Estão lá dois camaradas que o conhecem. Dizem que é um doutor de uma casa rica, chamado... lembras-te, 38?

--Acho que elle disse... Almeida.

--É isso, Almeida. O sr. barão conhece-o?

--Não me lembro d'esse nome. Elle ainda lá está? Eu vou lá ver se o conheço...

O barão seguiu a patrulha, até parar n'um grupo de soldados e paizanos, que rodeavam uma cadeira, onde estava assentado o ferido. Era coragem de cynico, ou desatino de demente? Mais que tudo isso: era o ciume!

--Eu conheço este sujeito--disse o barão com admiravel placidez.--E elle tambem me ha de conhecer, se estiver vivo. Olé, sr. doutor! Está aqui o barão de Celorico, conhece-me?

O ferido abriu a custo os olhos, e fez um aceno affirmativo,

--Eu offerecia-lhe a minha casa, mas a d'elle é perto d'aqui, acho eu.

--Nós sabemos--disseram os soldados.

--Pobre homem!--proseguiu o barão em tom compadecido.--Ainda a noite passada elle esteve n'um baile que eu dei...

Agglomeravam-se na rua os curiosos, quando o barão entrou em casa. Não ouviu o mais leve rumor. Entrou no quarto de sua mulher, e viu-a dormindo.

Parou ao pé do leito, e vascolejou nas mandibulas, alvares uma gargalhada estrondosa. A baroneza acordou, sentou-se no leito estremunhada sem saber o que ouvira, nem o que via.

O barão tirou da algibeira o charuto, chegou-lh'o ao pé dos olhos, e bradou:

--O tal patife não fuma outro.

--Que diz?--exclamou Ludovina.

--Faz-te de novas, mulher perdida! resa-lhe por alma, que a minha honra está vingada. Agora que digam o que quizerem.

E saíu do quarto, deixando apavorada a pobre senhora, que o julgou n'um terceiro ataque de loucura.

Ludovina vestiu-se apressadamente, e correu ao quarto da mãe.

Encontrou-a vestida, prostrada sobre o tapete do guarda cama, com a face caída sobre os degraus do leito. Ajoelhou ao pé d'ella, chamou-a, ergueu-a, agitou-a com a força da afflicção, e caíu com ella sobre a cama.

D. Angelica abriu os olhos pavidos, e vendo a filha, escondeu a face nas mãos, exclamando:

--Jesus, meu Deus!

--Que teve, mãesinha, isto que foi

--Nada, infeliz; foi um accidente...

--Por causa dos meus desgostos? ouviu o que aquelle homem me disse?

--Não, minha pobre martyr... imagino o que te diria... Oh... deixa-me ver se consigo chorar, senão estalo... mas não chores tu, filha, não quero que nos ouçam... É preciso que eu te salve, antes que a morte me leve com o encargo da tua reputação infamada...

--Eu não a entendo, minha mãe!

--Não pódes entender-me, Ludovina, não pódes... ai! deixa-me respirar, que eu não vivo uma hora assim...

A baroneza amparou a mãe até á janella, que abriu. D. Angelica rasgava com as mãos os espartilhos compressores do collete, e fincava entre os cabellos os dedos com vertiginoso desespero. N'este frenesi, susteve-se, comprimindo a respiração, para escutar as vozes que vinham da rua contigua ao muro do jardim.

Uma dizia:

--Ia morto.

Outra:

--A bala entrou-lhe no peito.

Outra:

--Pobre familia, que bocado tão amargo!

--Aquillo que é?--perguntou D. Angelica espavorida.

--Eu não sei, mãe!

--Esse malvado que te disse?

--Chamou-me mulher perdida; mostrou-me o charuto, dizendo que o patife não fumava outro; e que lhe resasse por alma...

D. Angelica expediu um grito, um ai vibrante, de uns que o seio arremessa de si, como se n'esse esforço expellisse um espinho arrancado ao coração.

Ao grito de Angelica succedeu o terror confuso de Ludovina.

N'este intervallo de silencio a lastimavel mãe concebeu um designio atroz. Deu um salto para precipitar-se da janella, e achou-se travada nos braços da filha, que pedia soccorro, a altos brados, repuxando-a para o interior do quarto, com a força miraculosa da angustia.

Ouviram-se passos no corredor. Ludovina exclamou:

--Entre quem é.

Abriu-se a porta, e surgiu o barão.

D. Angelica lançou-lhe um olhar torvo, e fulminante; fugiu, de um repellão, aos braços da filha; correu para elle com a sanha de uma possessa, e atirou-o fóra do quarto com o choque dos punhos furiosos, exclamando:

«Assassino! assassino!

Ninguem me soube dizer a qual genero do sublime truanesco pertencia, n'este conflicto, o barão de Celorico. Eu tambem me não cancei em averiguações, porque o resultado d'ellas seria sujar com salmouras despicientes um quadro de angustias, que não é novo na vida, mas afouto-me a dize'-lo que é novo no romance. Melchior Pimenta não apparecia, sendo o seu quarto paredes meias com o de sua mulher. Deliciava-se nas profundezas de um somno do qual só podia emergir, quando a ultima molecula de tres grãos de morphina se perdesse através dos philtros nervosos. O dormir do somnolento empregado da alfandega explica-se com as vigilias aturadas de D. Angelica. Vá sem reticencias.

Para nós é mais comprehensivel o espanto da baroneza do que estava sendo para ella o desespero de sua mãe. Se a pobre senhora suspeitasse que a demencia do marido era contagiosa; tinha desculpa. Tamanha afflição, descompostura tal de contorsões, de gemidos, de arremessos para a janella, chamando a morte, não podia ser procedente do amor maternal exaltado até á ira da leôa.

Ludovina ajuizava assim; mas não atinava com a razão possivel de effeitos tão extraordinarios no caracter inalteravel, e quasi duro de sua mãe.

Instava, supplicando-lhe o desafogo da sua agonia. D. Angelica apertava-a contra o seio com arrebatada e insolita ternura. Promettia dizer-lhe tudo, quando pudesse falar, na certeza de que a sua ultima palavra fosse um adeus a este mundo, e uma confissão de que dependia o credito de sua filha.

Foi um raio de luz para Ludovina estas palavras, cortadas por gemidos; esse raio de luz, porém, queimou-lhe o coração. Se Angelica reparasse na pallidez da filha, demasiado castigo seria da sua falta essa mudança. A parte da sua dôr, que até alli fôra remorso, seria depois vergonha, e vergonha de sua filha, tortura mil vezes mais pungente que a mordedura do remorso para a que soube ser mãe, e affrontou os deveres de esposa.

A baroneza mudou de semblante e de carinho, sentiu-se gelada e inerte ao pé da mãe, logo que meia luz do enygma lhe aclarou o entendimento.

«A mãe precisa descançar--disse ella com affectado gesto de carinho--Deite-se, que eu ajudo-a a despir-se, e ficarei ao pé da sua cama.

--Não, filha; eu não tenho descanço n'este mundo, nem no outro. Se ainda tenho algum direito á tua obediencia, deixa-me só; preciso de chorar lagrimas que nunca Deus permitta o teu coração as chore. Não pódes respeitar esta agonia, porque não a comprehendes, innocente martyr. Se soubesses... poderias abominar-me agora, para te compadeceres depois.

«Sei, mãe.

--Que sabes tu, Ludovina?! exclamou Angelica, abraçando-a convulsivamente.

«O meu silencio responde-lhe, mãe... Não soffra pela minha deshonra. Deus sabe tudo; não me importa o mundo; a Providencia fará vêr a verdade a meu marido, sem que o nome de minha mãe seja sacrificado. Cale-se, por quem é. Não diga nada ao barão, e poupe meu pae. Eu sinto-me com forças para não vergar a um peso de infamação que me não cáe sobre a consciencia. Se o meu amor a póde consolar, não diga o seu segredo a ninguem; não diga porque eu não sei qual dos dois descreditos é mais afflictivo para mim...

D. Angelica resvalou dos braços da filha, querendo ajoelhar-se-lhe aos pés.

Ludovina ajoelhou com ella, e n'este momento abriu-se a porta.

Era o barão de Celorico.

--Ouvi tudo--exclamou elle--Perdôa-me, Ludovina, pelas cinco chagas de Christo. E foge d'essa mulher, que é a causa de eu ser um matador.

--Tem razão; vae, minha filha--disse D. Angelica, afastando-a de si.

--Sr. barão--disse Ludovina--eu não deixo uma mãe culpada para seguir um assassino. Saia da minha presença, que o detesto. Apenas romper a manhã, deixo esta casa, deixo-lh'a para que o senhor caiba n'ella com o seu remorso. Matou um homem, sr. barão, um homem que não conhecia; matou-o a sangue frio, e será capaz de praticar uma crueldade menor matando-me a mim.

D. Angelica arrancou-se aos braços da filha com furioso impeto, e postou-se terrivel diante do barão, exclamando com uma toada de voz soturna e tremula:

--Com que direito assassinou um homem, scelerado, carniceiro?

O barão tremeu, recuou, e pendeu o queixo inferior relaxado pelo espasmo.

--Responda á amante do homem que matou; á mulher que acceita voluntariamente a infamia da sua culpa, para ter o direito de pedir contas ao assassino de Antonio d'Almeida. Querias, com essas mãos tintas de sangue, tocar em minha filha, miseravel algoz, que és tão estupido como sanguinario!

Ludovina, cingindo a cintura da mãe, arrastou-a para longe do barão, que parecia, ao passo que ella falava, ir-se petrificando.

A vehemencia da ira decaíu subitamente em syncope. D. Angelica encostou a face desfallecida ao seio da filha, que a levantou nos braços, e deitou no leito.

E voltando-se para o miserando homem, cujo rosto confrangido accusava os pungimentos do remorso, a baroneza, em tom de cólera mal reprimida, disse:

--O senhor não ha de ser mais feliz que as pessoas a quem deu a morte, e a eterna vida de lagrimas. Pediu-me perdão? eu já lhe havia perdoado as suspeitas, as desconfianças, os insultos, as vergonhas a que hontem me expoz na presença dos seus creados. Tudo lhe perdoei, em quanto o suppuz demente; hoje, que o considero um criminoso de morte, e que não tenho quem me defenda das suas mãos póde matar-me, que o não chamarei á presença de Deus para ser julgado.

--Ludovina--balbuciou o barão, com o rosto coberto de lagrimas--eu matei esse homem cuidando que era elle o teu amante...

--Era a mim que devia matar-me, senhor.

--Não podia ainda que quizesse, porque a minha tenção era matar-me e deixar-te viva, para que tu ao menos te lembrasses de mim com pena, quando já me não visses n'este mundo. Esse homem ainda não morreu, Ludovina; póde ser que se cure, e eu vou-me ajoelhar aos pés d'elle a pedir-lhe perdão, e, se tu quizeres, pedirei tambem perdão a tua mãe.

--Não fale n'essa infeliz a ninguem, snr. Dias, a ninguem. Aqui a deshonrada sou eu. Se o descobrirem como assassino de Antonio de Almeida, diga, se quer que eu o não amaldiçôe, diga que esse homem era o meu amante; mas não fale em minha pobre mãe...

«Que dizes tu, Ludovina? Pois tu queres que se diga que eu fui deshonrado por ti?

--Deshonrado está o senhor, desde já, desde que matou, ou quiz matar por uma suspeita um vulto desconhecido...

«Elle vinha entrando para o jardim, Ludovina, e tua mãe estava na janella...