O que fazem mulheres: Romance philosophico

Chapter 4

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Ricardo seguiu-o machinalmente, atravessou um corredor, e parou n'um patamar deserto:

--Eu sou o marido d'aquella senhora que vocemecê insultou lá dentro.

--Essa é muito boa! Eu não insultei senhora alguma!

--Se insultou ou não, sei eu. Fique-lhe de aviso que a sr.ª Ludovina tem um marido de quarenta e tantos annos, isso é verdade, mas capaz de pegar n'uma orelha dos pandilhas como vocemecê, e dar-lhe com a cabeça n'uma esquina, tem percebido?

O commendador desceu as escadas, e Ricardo de Sá, estupefacto e aturdido, atravessou o corredor, e entrou nas salas.

Pouco depois, entravam na carruagem D. Ludovina e sua mãe. O commendador não lhes disse palavra com referencia ao desforço solenne que tirára do bacharel.

Isto, se eu o não contasse, era cousa que morria ignorada porque o auctor embrionario do SECULO PERANTE A SCIENCIA nunca a diria.

VI

Esta inquietação damnificou a vida menos má do commendador, e o socego, apparentemente feliz, de Ludovina. A paz existia; era, porém, como a serenidade presagiosa de trovoada.

O marido recebia os convites para bailes, e queimava, á surrelfa, as cartas. Ludovina admirava o esquecimento, sem aventurar uma pergunta. Estes rebuços são a desgraça das familias, e o rastilho de polvora que espera uma faisca.

Ao theatro iam raras vezes. O commendador adoecendo quasi sempre no dia da recita, supportou no estomago muitas papas de linhaça, sem precisão. O seu achaque postiço era uma inflammação intestinal.

D. Angelica censurava o procedimento do genro; mas calava-se, para não dar anso á filha de romper em queixumes, que abafava com a esperança de melhor vida, ou desafogava em carpir-se sósinha. Melchior Pimenta achava que tudo ia bem, e dava-lhe mais cuidado a esperançosa apparição de um neto que a irritação de entranhas do capitalista.

Acabára-se o palacete, e fez-se a mudança. O commendador não convidava os sogros para viverem com elle. Ludovina, reagindo contra a tyrannia simulada disse que não saía da casa onde nascera, sem levar seus paes. João José acreditou na resolução, e disfarçou o intento, dizendo que nunca tivera outro.

Ludovina queixava-se á mãe da reclusão em que vivia cheia de aborrecimento e tedio; perguntava se era aquella a felicidade que dava o dinheiro; dizia que a pobreza e o ar livre eram preferiveis ao goso de cincoenta vestidos que se traçavam no guarda roupa, e da luxuosa mobilia que ninguem admirava.

D. Angelica, já aborrecida tambem, prometteu á filha entender-se com o genro, e muda'-lo por meios suaves.

--Que motivo ha, snr. commendador--disse D. Angelica--para se encerrar n'esta casa, cortando as suas relações com a sociedade que tão bem o tratava?

«Eu vivo assim melhor.

--Viverá!... não creio. O senhor, quando estivemos em Celorico, divertia-se nas sociedades, e já no Porto parece que folgava de que o vissem com sua mulher em toda a parte...

«Estou velho para andar a perder as noites. Esta minha inflammação de entranhas não me deixa. A saude está em primeiro logar.

--Tem razão; mas n'este mundo só se vive bem, sacrificando-se a gente uma á outra. O senhor é casado com uma menina habituada aos innocentes prazeres da sociedade, e eu, se me dá licença, dir-lhe-hei que não consentiria um casamento entre genios tão contrarios, se previsse o que está acontecendo.

«Então que é?

--É que minha filha não póde assim viver contente.

«Agora não! ella não se queixa: a senhora é que toma as dôres por ella.

--Não se queixa porque é muito delicada, muito soberba, ou uma sancta. O peor será quando ella se queixar... Isto assim vae mal, sr. Dias; mude de vida, confie em sua mulher que é um anjo de virtude, incapaz de offender a sua dignidade.

«Não duvido; mas estou melhor assim, e ella tambem não está mal, acho eu. Quem casa vive para seu marido, e para os filhos, se os tem. Isso de andar de bailarico em bailarico é bom para as raparigas solteiras que andam á pesca de marido. Até parece mal uma mulher casada a saltarilhar com um homem que lhe pega pela cinta, e anda alli com a cara ao pé da d'ella. Nada de bailes, sr.ª D. Angelica. Minha mulher, se quer passear tem ahi uma carruagem e eu estou prompto a acompanha'-la para toda a parte.

--Pois bem, não se frequentem os bailes, mas conservem-se as relações da nossa casa. Ludovina tem amigas, que extranham muito a vida encarcerada que ella passa. Porque não ha-de sua mulher visitar e receber as visitas de suas amigas?

«E isso de que livra? Isto de mulheres umas com as outras não dizem cousa boa. O melhor é cada um em sua casa.

--Que razão essa tão... tão singular!

«A final de contas, sr.ª D. Angelica, eu estou em minha casa, e entendo que faço bem. Não se lucra nada em apparecer. O mundo está uma pouca vergonha. Eu já sei como está o Porto, e como se vive por ahi. Não quero que minha mulher ande nas bôcas do mundo. Se Ludovina não fosse ao baile, onde lhe appareceu o tal namorado que ella teve, não tinhamos todos a zanga com que sahimos de lá. Em casa, em casa é onde se está melhor.

--Eu não me responsabiliso pelas consequencias, sr. Dias. Ludovina tem brios e pundonor; se ella desconfia que v. s.ª a encerra em casa, por suspeitar da lealdade d'ella, teremos grandes desordens e não terei poder para accomoda'-las.

«Eu não desconfio de minha mulher; se não vou aos bailes, é porque não quero que os outros desconfiem, e acabou-se.

O dialogo ficou aqui; mas ha ahi duas linhas que fazem honra á intelligencia equivoca de João José. Merecem ter segunda edição de versaletes:

EU NÃO DESCONFIO DE MINHA MULHER; SE NÃO VOU AOS BAILES É PORQUE NÃO QUERO QUE OS OUTROS DESCONFIEM.

Isto é uma grande idéa, das quatro idéas grandes que apparecem em cada seculo, e que, por engano, entrou na cabeça inhospita do commendador.

Pesem bem o quilate das duas linhas, que me ministrou João José, e verão que as melhores d'este livro são ellas.

O marido, que me está lendo, se tem cincoenta annos, e espreita os vinte de sua mulher, através do vidro embaciado que a experiencia lhe vendeu caro, não deve já agora perder a esperança de dizer, no auge do seu ciume, alguma cousa que possa ler-se em lettra redonda.

A indignação fazia os versos de Juvenal; porque não ha de o ciume fazer as prosas toleraveis dos maridos?

A idéa de João José, se fosse minha, ninguem me aturava a vaidade. Rogo aos escriptores contemporaneos, e aos futuros sabios, alinhavadores de remendos alheios, que se escreverem a seguinte maxima:

_Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes para que os outros não desconfiem;_ escrevam por baixo--_O commendador_ JOÃO JOSÉ DIAS.

As pessoas que melhores idéas engendraram, não teem sido as mais felizes. O commendador pertence ao martyrologio dos grandes pensadores. Os fados, os estupidos fados hão de castiga'-lo por essas poucas palavras com que elle arranjou um nicho, pôdre de barato, no templo da memoria.

O castigo começa.

VII

Ludovina disse um dia a sua mãe:

--Estou casada ha treze mezes, e sinto-me velha. Até aqui obedeci como creança, a minha mãe, a meu pae, e a esse homem, que entrou na nossa familia com certa auctoridade que me intimidava. Eu fui sempre docil, docil até á pusillanimidade. Se a violencia não fosse tamanha, este homem que chamam meu marido, teria feito a escravidão da minha alma para sempre. Assim não póde ser. Sinto-me outra; perdi os costumes de creança; envelheceram-me com os desgostos continuos, e por isso hão de soffrer-me agora emancipada.

--Que vem tudo isso a dizer, Ludovina?

--Que quero a minha liberdade, que hei de passar por cima da oppressão á custa de tudo.

--Ludovina! que linguagem é essa?

--É a da desesperação, e da justiça. Não pratiquei sombra de mau acto, por onde mereça este amargo viver que me dão. Quero saber porque vivo apartada das minhas amigas, e dos recreios, d'onde a minha reputação saíu sempre sem mancha.

--A quem o perguntas, a mim?

--Sim, á mãe, ao pae, e depois pergunta'-lo-hei ao dono d'esta casa, ao dono dos meus vestidos e dos meus braceletes. Se este me disser que a minha liberdade é o preço d'essas cousas, deixo-lh'as, e peço a meu pae a subsistencia que me dava d'antes. Se m'a negarem, Deus me inspirará o destino que me convém. Isto ha de decidir-se hoje. Ninguem soffria tanto tempo, por amor proprio, ou pela virtude da paciencia.

--Tens direito a interrogar teu marido, Ludovina; mas sê prudente; vence-o com razões moderadas, por não dizer humildes.

--E se elle, por maldade ou por ignorancia, suspeitar da pureza das minhas intenções?

--Fala-lhe como deve falar uma senhora, e confundi'-lo-has.

Veiu o commendador cortar o colloquio. Nunca tão achamboada e trombuda se mostrára a lerda physionomia do personagem. N'essa occasião, o achaque intestinal era veridico, segundo o testemunho do semblante. Era o ideal da fealdade, então, o sr. Dias!

D. Angelica, instada por um gesto da filha, deixára-os sós.

--É a primeira vez--disse Ludovina, sentada n'uma cadeira de braços estofada, com a formosa face encostada á palma da mão direita, e uma perna sobre a outra balouçando-se, deixando ver o pé de fada, através do rendilhado da saia que a velava.--É a primeira vez que falo a meu marido como se deve falar a um marido. Até aqui tratei-o como se trata um amigo que se respeita, um tio, um pae d'esses com quem se não tem muita confiança.

O snr. Dias abriu a bôca para entender melhor. D. Ludovina proseguiu:

--Poucas filhas ha tão respeitadoras como eu lhe tenho sido na qualidade de mulher. Tudo que ha n'esta casa, snr. Dias, seu tem sido, como seria, se eu aqui não fosse mais que uma pessoa extranha, sujeita á sua generosidade. A sua vontade é o movel das minhas acções. Em quanto o senhor me concedeu a liberdade honesta, que meus paes me concediam, acceitei-a, sem lh'a agradecer, porque achei isso tão natural como absurdo e impossivel o contrario. Logo que o senhor, sem me explicar a causa da sua mudança, de repente me afastou da sociedade, como se faz ás pessoas incapazes de viverem n'ella, acceitei tambem, sem me queixar, o captiveiro, e supportei-o seis mezes como uma mulher culpada que expia a culpa com a paciencia muda. O snr. Dias, sem saber o que fez, expoz sua mulher aos commentarios offensivos que a sociedade ha de ter feito á minha ausencia repentina. Deu um escandalo, sem necessidade de evitar outro. Disse á sociedade que não tinha bastante confiança em mim para me levar onde ha o bom e o mau.

«Estás enganada, menina, eu não disse isso a ninguem--interrompeu o commendador, que andou ás aranhas muito tempo antes que traduzisse para vulgar o estylo sentencioso da filha e discipula de D. Angela.

--Não o disse com a palavra; mas disse-o com as acções. Privando-me de ir aos bailes, de frequentar o theatro, de receber as minhas amigas de collegio, e as relações de minha familia, o que diria a sociedade?

«Lá o que ella quizer, menina...

--O que ella quizer, não, snr. Dias! Não consinto que se façam de mim conjecturas desairosas. Requeiro que o senhor me explique o motivo d'esta separação injusta a que me fórça.

«Não te zangues, Ludovina... Foi tua mãe que te metteu na cabeça essas palavras? Bem diz lá o ditado: «Livra-te da sogra, que eu te livrarei do diabo.»

--Respeite minha mãe, senhor! Eu não falo pela bôca de minha mãe; o meu silencio até hoje não era estupidez nem insensibilidade: era amor proprio, e outro sentimento mais nobre que o senhor não entende. Vamos ao essencial, snr. Dias. Teve alguma razão para me privar de viver como vivem todas as mulheres casadas da boa sociedade?

«Não, já disse que não. A cousa é outra...

--Qual é essa outra cousa?

«As boas pagam pelas más, e não ha mulher honrada para certa gente que vae aos bailes e aos theatros.

--Pois eu não estou disposta a sacrificar-me ás mulheres indignas. A minha consciencia é o meu juiz. Não me importa o que se diz de mim.

«Essa é de cabo de esquadra! Pois não se te importa o que se diz de ti?

--Que se diz, snr. Dias?

«Não sei; mas... elles lá sabem o que dizem.

--Elles quem? accuse-me sem piedade; repita as affrontas que me fazem; tenha a coragem de calumniar-me, se lhe é preciso inventar os meus crimes.

«Tu estás fóra de ti, Ludovina! Isso não é assim! Ahi anda espirito-santo de orelha... O teu genio não é esse...

--O meu genio é a minha dignidade, n'este caso. Responda-me: Offendi a sua honra?

«Não, já disse duas vezes que não.

--Faltei aos meus deveres de esposa?

«E ella a dar-lhe!

--Pois bem: quero viver como vivi nos primeiros seis mezes da nossa união. Quero ir ao theatro, aos bailes, ás visitas, como ia em solteira. Quero receber as minhas relações, como as recebi antes de ter metade da sua riqueza. Quero uma inteira liberdade como premio do meu procedimento para comsigo. Quero...

«Então isto, pelos modos, é «nós, el-rei, e justiça de Fafe!» Aqui não ha rei nem roque n'esta casa? é quero, e mais nada?

--Quero, sim, porque é de justiça o que já não tenho a baixeza de pedir; mas quando não, snr. Dias, meus paes teem uma casa estabelecida, e sobejos meios para eu me declarar independente d'essas riquezas com que o senhor me dotou, e que eu, de todo o meu coração, rejeito, porque não acceito o preço porque fui vendida.

Ludovina, já de pé, com o rosto inflammado, e os bellos olhos coruscantes de cólera, sahiu de um impeto, deixando o commendador attonito na mais palerma immobilidade. D. Angelica ouvira tudo;

--Excedeste-te, Ludovina--disse ella--mas fizeste-me orgulhosa de ser tua mãe. Acceito, de hora em diante, a responsabilidade das tuas palavras, seja ella qual fôr.

João José Dias nem palavra n'aquelle dia e no seguinte. Ao terceiro havia theatro lyrico. D. Ludovina mandou buscar camarote. Ás sete horas e meia mandou pôr os cavallos á sege, e disse a seu marido se a acompanhava ao theatro. O commendador fez-se verde-garrafa, desenrugou as palpebras quanto poude, e pasmou os olhos suinos na attitude imperiosa de Ludovina, que apertava o botão da luva, e enroscava no collo as marthas.

--Vem, ou não?--repetiu ella.

«Espera, que eu visto-me--disse o commendador, tomado d'uma especie de susto irreflectido, que em muitos maridos é o corollario de demorados raciocinios.

Fez impressão o apparecimento de Ludovina. Acharam-n'a mais donosa os amadores do pallido. O viço da florescencia tinha murchado ao lento deseccar da melancolia. Ficára a pelle assetinada, com as alvuras do desmaio, realçando o vivido fulgor dos olhos negros, assombrados da côr-violeta, que tanto encarece o rosto dolorido. Ponderaram os analystas que os tecidos cellulares do commendador estavam cada vez mais chorumentos e luzidios. Segredaram-se, ácerca das medranças d'elle, pilherias que incitam o riso, e ferem o melindre de ouvidos pudibundos.

Estes colloquios, que a estampa rejeita, ciciavam, por entre frouxos de riso, nos camarotes, onde estava a propria virtude, com cabellos á Stuart, e despeitorada á Aspasia.

Ludovina falava com meiguice ao marido, explicando-lhe o entrecho do _Trovador_, e aguçando-lhe a compuncção nas lamentações finaes da Ponti, que o commendador denominava uma «comedianta de mão cheia.» O ar de felicidade que se mutuavam, era o espanto dos observadores, e o castigo da maledicencia desapontada.

Seguiu-se um baile. A carta de convite não ficou, d'esta vez, no escriptorio do commendador. Ludovina primou mais que nunca em enfeites. A inflammação deu treguas ás entranhas de João José Dias. Era para ver como elle se tornava, sadio e durazio, aos prazeres do mundo.

Mas o interior de João José? Era um incendio para que a philosophia humana não inventou ainda bomba efficaz! Era o inferno do mouro de Veneza chorriscando aquelle humano torresmo!

Que via elle para se moer assim? Nada. Ludovina nem, sequer, dançava já danças de roda, de contacto, de aperto, e raras contradanças acceitava. Os cavalheiros, que se avizinhavam d'ella, com liberdade, eram os amigos de seu pae, ou de seu marido. Os outros, repellidos pela sisudez e gravidade com que os ella recebia, denominavam-na uma virtuosa grosseira, e apostavam que andava alli influencia de capellão incognito.

Que sandeus ciumes, eram, pois, os do commendador, que a fortuna poupava á sorte de pessoas tão conspicuas, e bem ageitadas de corpo e alma?

Batei n'esta sáphara, entendedores do coração humano, esmerilhadores do intimo dos _predestinados_ e _minothauros_ e _Sganarellos_ ao alcance da sciencia humana.

Cançar-vos-heis sem achar a razão da cousa. O axioma foi proferido ha quatro annos, e já tem tres edições com esta:

_Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes, para que os outros não desconfiem._

_O commendador_ JOÃO JOSÉ DIAS _(passim)_.

VIII

Raivando contra si proprio, o barão de Celorico...

_O barão de Celorico!_ Personagem novo no conto?

Novo! pois eu não disse já que João José Dias dera cinco mil cruzados ás urgencias do Estado, e seiscentos mil réis ao official maior da secretaria onde se fabricam os barões, e cincoenta moedas ao agente secreto das urgencias do Estado, e das urgencias dos estadistas?

Se não lêram isto já, perderam-se na typographia quatro tiras de composição a mais rendilhada a buril classico, a mais puritana de linguagem, com recheio de idéas substanciosas, e gordura de pensamentos!

Finalisava o capitulo VII por um baile de regosijo, que o novo titular estimulado pelo sogro, resolvera dar aos seus collegas, e mais amigos, que o felicitaram da mercê.

Esse baile correra amargurado para o barão de Celorico.

Ao caír da noite, recebera elle uma carta anonyma, da qual não pude haver copia, e, podendo inventar uma, não o faço, que m'o veda o proposito de fidelidade.

É certo, porém, que o contheudo d'essa carta entendia com Ludovina, meiga creatura, organisação melindrosa, que tanto a pesar meu hei de nomear baroneza de Celorico.

Não se póde aferir o grau de calumnia d'essa carta pelas carantonhas do barão, que a lia. Em carantonha perenne estava elle sempre, lastimoso Amphitryão, desde que a sombra de um Jupiter de casaca lhe assombrava os encantos da innocente Alcmena. Qual seria o espirito rasteiro que se quizesse vasar nas fórmas de João José para enganar-lhe a esposa? Esta pergunta faço-a aos que leram Plauto, Molière, e Camões. Nem ella, com tantos mimos e promessas de delicias, vos faria a vós, leitores sedentos, acceitar a transfiguração hedionda.

O barão tragou a affronta em quanto o bojo o comportava; depois, rebentou, chamando a sogra ao mais escuro do palacete, e dando-lhe a ler a torpe carta.

D. Angelica disse conhecer a mal disfarçada letra de Ricardo de Sá; convenceu-o de que o despeito de uma alma vil devia vir áquella infamia; appellou da calumnia para a consciencia do barão; obrigou-o a confessar que nunca sua mulher saíra de casa sem elle; fez, finalmente, resolver o pestilencial tumor que ameaçava, n'aquella noite, uma supuração escandalosa.

Raivando contra si proprio, (cá estamos na cabeça do capitulo) o barão de Celorico, não podia transigir com as razões da sogra. Terminado o baile, duas ou tres vezes amaxucára a carta na mão convulsa, para a lançar ao toucador de Ludovina, que desenfeitava as tranças e o pescoço.

--Que tens, meu amiguinho?--disse ella, que o vira, no espelho, fazendo esgares com os beiços--parece-me que está agitado!

«Estou bom, muito obrigado, estou como se quer.

--Que modo é esse de responder?--tornou ella, voltando-se de subito para o barão, que passeava, ou antes se rolava de parede a parede com achavascada impetuosidade.

«Está bom; deixe-me, que eu não estou bom, e qualquer dia dou um estoiro como uma castanha.

--O senhor está disparatando! explique-se.

«Foi o diabo o nosso casamento, sr.ª D. Ludovina.

--Nada de exclamações; clareza e franqueza, meu amigo! Que é isso?

«É os meus peccados; é o que eu lhe tenho dito duzentas vezes, e a senhora não quer crer que a sociedade do Porto está corrompida, e quem aqui estiver não póde dar boa conta de si.

--Vamos aos factos; applique... diga a que vem isso?

«Ahi tem o que é.

E arremeçou-lhe ao regaço a carta amarfanhada, que parecia uma pela.

A baroneza abriu-a serenamente, amaciou-lhe os vincos, e leu, sem signal de inquietar-se.

«Diz-se aqui que eu tenho um amante--disse ella sorrindo--que se corresponde comigo. O senhor crê isto? Responda, senhor; crê que eu tenho um amante?

--Não, senhora; mas, pelos modos, dizem-no, e a minha honra soffre com isso.

«Como soffreria com a verdade do aviso?

--Que é? não entendi.

«Se as suas suspeitas condissessem com este aviso, não soffreria mais?

--Matava-a, sr.ª D. Ludovina, dou-lhe a minha palavra de honrado, que a matava, e tiraria os figados pela bôca ao proprio diabo do inferno, e tinha alma de metter uma faca no peito para morrer ao pé de si!

Esta rajada sacudiu todas as fibras bambas do barão. Não teve remedio se não sentar-se, a resumar camarinhas de suor, impando, e arfando como folle de forja.

Ludovina, mais assustada que compadecida, tomou-lhe a mão, e com a outra enxugou-lhe a face.

«Soffre porque me não ama, porque me não crê...--disse ella.

--Não faças caso d'isto, não é nada... não é nada--regougou elle.

«Seja superior aos infames que nos invejam, meu amigo. Não lhes dê o prazer da vingança. A pessoa que lhe escreve, é um miseravel inferior ao meu desprezo.

--Já sei tudo... não falemos n'isso mais. Deite-se, que eu preciso de tomar ar.

«Onde vae?

--Vou ao jardim.

«Eu vou comsigo... espere um bocadinho.

--Não venhas cá, deita-te, que está fria a madrugada.

Foi.

Eram tres horas e meia da manhã. As trevas descondensavam-se. A nebrina do mar serpenteava por entre as ribas marginaes do Douro. O clarão da lua ia-se descórando ao arraiar do crepusculo. Era a hora menos poetica das vinte e quatro da rotação d'este planeta, onde ás tres horas e meia da manhã, dorme toda a gente que tem juizo, e sabe um pouco de hygiene.

O barão de Celorico não dava fé das bellezas matutinas que o rodeavam. Atravessou, sorvendo haustos de ar fresco, o passeio central do seu jardim, até parar no muro, que o extremava de outra rua. Esta rua é justamente aquella por onde vimos passar Francisco Nunes, raivando imprecações garrafaes contra o charuto incombustivel. N'esse muro havia uma gradaria de ferro, e portadas interiores. O barão abriu machinalmente a janella, e viu approximar-se d'ella um vulto embuçado, que lhe disse:

--Cuidei que tinhas adormecido! que demora foi essa?

--O que é?--exclamou o barão atordoado.

O vulto coseu-se com a parede, e, a passo rapido, desappareceu na meia escuridão.

Longo tempo, agarrado ás grades, o barão de Celorico, parecia ter perdido a memoria, a sensibilidade, o senso intimo. A patrulha, que recolhia ao quartel, vendo aquelle immovel espectaculo, através das grades, imaginou primeiro seria estatua do jardim; reparando attentivamente, ouviu o sussurro da respiração cavernosa, e decidiu que estava alli um homem.

--Olá!--disse um soldado.

«Que é?--respondeu o barão, espertando da lethargia.

--É d'ahi d'essa casa?

«Sou o dono d'ella.

--Então perdoará. Fizemos esta pergunta, porque ha de haver cinco dias que vimos saír ás quatro horas da manhã um encapotado d'aquella porta que alli está abaixo, chamamo'-lo, elle deu á canella, e sumiu-se-nos lá em baixo na travessa.

«D'esta porta que está na parede d'este jardim?--exclamou o barão.

--É como diz.

«A que horas?

--A estas horas, pouco mais ou menos.

«Um homem de capote?

--Tal e qual.

«E não viram mais ninguem?

--Parece-me que vi ahi n'essa grade uma figura de mulher, com lenço branco na cabeça.

«Obrigado, camaradas, muito obrigado, e boas noites.

O barão arremessou as portadas, e, levando as mãos á cabeça, atirou-se com brutal frenesi a um banco de pedra. Ao tempo que cáe em cheio, vê ao pé de si um objecto escuro. Apalpa, repara, examina: era o projectil fatal do charuto que Francisco Ennes, na vespera, arrojára para dentro.

O barão contempla o charuto na mão convulsa, e desentranha um rugido fremente, apertando-a, rábido e sanhudo.