O que fazem mulheres: Romance philosophico
Chapter 3
Que mais virtudes, ou maiores encomios a um bom caracter? Se pintei João José Dias feio, não é d'elle a culpa, nem minha. João José Dias era realmente muito feio.
Do Brasil vem muita gente galante.
Tenho na pasta um esboço de romances onde figuram quatro brasileiros bonitos.
Hão-de ver com que isenção de animo se escreve n'esta provincia das lettras.
Acabou-se o epilogo, e preveniu-se uma crise litteraria no Brasil.
IV
--Então a pequena está incommodada?--perguntou Melchior a sua mulher, que não declinava os olhos do cepo informe do sr. João José Dias.
--Um pouco incommodada.
--Vaes dizer-lhe que venha á sala, menina?
--Irei.
--Estou boa, papá--disse Ludovina entrando subitamente, e cortejando o hospede, que ella reconhecera de o ter visto outra vez.
--Tem a bondade de sentar-se, snr. Dias?--disse Melchior ao acanhado brasileiro, que mal pudera gaguejar um «creado de vossa senhoria» que corrigiu bruscamente em «vossa excellencia.»--Minha filha, quando hontem te disse que a Providencia me deparára para ti um digno marido, era d'este senhor que te falava.
--Tenho muito prazer em conhece'-lo--atalhou Ludovina com uma affabilidade e desembaraço que espantou a mãe, alegrou o pae, e lisonjeou o noivo.
--Para satisfazer a uma exigencia d'este cavalheiro--continuou Melchior--é preciso que tu digas se acceitas livremente a minha escolha, ou direi melhor a escolha com que te distinguiu o sr. Dias.
--Acceito muito de minha livre vontade--respondeu com firmeza D. Ludovina.
--Não lhe restam escrupulos?--tornou Melchior inclinando-se para o brasileiro.
--Não, senhor--disse elle--Estou satisfeito; o que eu não queria era que a menina viesse um dia a arrepender-se... e...
--Não espero tal desgraça...--interrompeu Ludovina, sem fitar os olhos no brasileiro.
--Da minha parte, hei-de fazer o possivel por lhe não dar desgosto, porque o meu natural é bom, e ninguem, até hoje, se deu mal comigo.
Ludovina ergueu-se, e pediu licença de retirar-se por um instante. D. Angelica entendeu-a, e seguiu-a pouco depois. Foi encontra'-la no quarto, afogada em soluços, curvada sobre o leito.
--Que é isto, filha?
--Nada, minha mãe...
--É muito, Ludovina; que tens?
--Precisão de desabafar assim. Estas lagrimas não fazem mal a ninguem. É uma victima que se entrega ao sacrificio, mas deixem-a chorar... Que vida, que futuro, meu Deus!
--Ludovina, não chores, e escuta-me. Eu não imaginava que teu pae te dera a semelhante homem. Tens razão... É repugnante, e horroroso. Não casarás com elle, menina.
--Hei-de casar, minha mãe. Mal o vi ainda; não tive ainda tempo de sentir repugnancia ou horror... Choro como victima, mas não d'elle; é do outro que me matou.
--Isso é que é cobardia, Ludovina! Pois não te fez nojo esse miseravel?
--Fez, fez; mais que nojo... É preciso que elle se não persuada que minha mãe lhe mentiu, quando lhe disse que a sua intenção era dar-lhe parte do meu casamento. Devo casar muito depressa, o mais breve que seja possivel.
--Casar por vingança?... Isto é um desforço desgraçado...
--Não caso por vingança, que elle não vale o odio. Caso para salvar a nossa dignidade, minha mãe. Hei-de simular quanto possa o contentamento da mais feliz mulher. Não tenho já coração para sentir desgostos. Será tudo estupidamente alegria na minha vida. Toda a gente dirá que eu amo... meu marido. As pessoas que souberem do meu namoro com esse infame, dirão que devia ama'-lo muito pouco a mulher que se deixou casar com um homem ridiculo. Quero que se diga isto; quero que me assaquem a calumnia de que eu sou mais uma das mulheres que se venderam á riqueza. O que nunca ninguem dirá é que eu infamei o homem que me comprou... nunca, meu Deus!... Pois a mãe está chorando agora, depois de me ter ensinado a ver o mundo como elle é? Não se arrependa, minha boa mãe. Deu--me a maior prova de amor fazendo-me escutar o que esse homem disse... palavras de tanta afflicção como vergonha para mim... Fiquei bem, estou desopprimida... vê? já não choro.
D. Angelica abraçou com vehemencia a filha, beijou-a como beijaria a creancinha de peito, e saíu, enxugando as lagrimas. Entretanto, conversavam assim, na sala, os snrs. João José Dias e Melchior Pimenta:
--Gostou dos modos da pequena, snr. Dias?
--Gostei muito; mas, a falar-lhe a verdade, pareceu-me que ella não olhava direita para mim!
--Recato de moça, pejo, e acanhamento, não acha que é muito natural?
--Isso sim; mas dava aquellas respostas tão... tão... tão desenganadas, que parecia ter por mim sympathia de mais tempo...
--Minha filha tem muito juizo, snr. Dias...
--Não duvido.
--E então quiz desde logo agradar a seu pae e a seu futuro marido.
--Ora, olhe; o senhor não se lhe dá que eu tenha com sua filha, cá em particular, uma conversasita?
--Pois não, snr. Dias! todas as vezes que quizer. Eu mesmo desejo que sonde o coração de Ludovina, e reconsidere a sua tenção, se vir que ella o não merece. Eu vou manda'-la.
--Faça-me esse favor.
Melchior procurou a filha, reparou nos indicios das lagrimas, e fingiu que os não percebia. Dizendo-lhe que viesse á sala, accrescentou:
--Lembra-te que fazes a tua felicidade e a de tua familia. Esse homem não será só teu marido, será um protector de todos os teus, e fará a tua independencia n'uma sociedade onde a formosura se estima como um meio de alcançar «fortuna», e a «fortuna» como um meio de se alcançar tudo. Entendeste-me, filha?
--Entendi, meu pae.
Ludovina entrou jovialmente na sala.
--Minha senhora,--disse o brasileiro, gaguejando--Eu fui toda a minha vida negociante, apenas sei ler e escrever, e digo as cousas assim como ellas me vem á idéa. Ora bem; a menina está resolvida a ser minha companheira de toda a vida?
--Sim, senhor, disse ainda ha pouco que sim.
--É verdade que disse; mas póde ser que o dissesse para contentar seu pae, e lá no interior sentisse outra cousa.
--Disse o que sentia, e repito o que disse.
--Quem sabe se a senhora tinha alguma sympathia por ahi, e que lá por eu ter alguns vintens seu pae a fizesse voltar-se para outro lado?
--Não, senhor, eu não tenho affeição a alguem.
--Porque depois eramos ambos desgraçados; e eu devo dizer-lhe, que tudo o que eu mais tenho estimado n'este mundo é a minha honra; até hoje, louvado Deus, ninguem lhe pôz o dedo sujo; e seria mais facil eu deixar que me tirassem a vida do que a honra. Trabalhei muito anno para a conservar, cheguei até esta edade sem ser offendido, e assim d'estes cabellos brancos que me vê, se alguem me atacasse a minha honra, tornava aos meus vinte e cinco annos. A menina entende-me?
--Creio que entendi, e sinto que v. s.ª me esteja offendendo com as suas supposições injuriosas.
--Isto é um modo de falar, sr.ª D. Ludovina, e perdoará se a offendi. Tudo o que lhe digo é em bem seu, e meu. Eu sou o que está vendo; a menina é nova e linda; se vê que se ha de arrepender, diga-me a verdade do seu coração, que eu arranjarei as cousas de modo que seu pae se queixe de mim e não da senhora.
--Já disse a v. s.ª que desejo ser sua esposa; não sei que mais deva dizer-lhe. Não me hei de arrepender, porque espero merecer sempre a sua estima e confiança; mas tenho um favor a pedir-lhe.
--Diga lá, seja o que fôr.
--Desejava que ficassemos na companhia de meus paes.
--Ficaremos; e quando formos passar algum tempo á nossa casa de Celorico, a nossa familia irá comnosco. Era só isso?
--Não tenho outra ambição.
--Isso pouco é... Ha-se de fazer tudo que a menina quizer: graças a Deus, temos mais que o preciso para satisfazer as nossas vontades. Agora, se quizer dizer a seu pae que já lhe disse o que tinha a dizer, vá lá, que eu fico á espera d'elle e de sua mãesinha para me despedir, até á noite.
D. Ludovina chamou o pae, sem saír da sala. Melchior, lendo o bom resultado das suas reflexões na cara jubilosa do radioso capitalista, convidou-o a jantar, quando elle se despedia. João José disse que jantára tres horas antes, e jantaria segunda vez com tão amavel companhia. Estava inspirado!
E cumpriu a promessa. Jantou, fez muitos brindes, e o ultimo, e mais solenne que fez foi o seguinte:
_Á saude de quem de hoje a um anno ha de ser meu compadre, e minha comadre!_
Melchior Pimenta agradeceu.
D. Angelica franziu a testa, fez-se branca de cera, e levou o calix aos labios.
D. Ludovina córou até ás orelhas.
A leitora faça o que quizer.
Eu não ri, nem córei: deu-me para chorar como uma vide, quando me contaram isto.
V
Inventou-se uma lua para os casados.
Os irracionaes teem uma lua; essa entende-se, sabe-se o que é. Mas o aluarem-se, á força, os casados, é uma idéa ingrata á decencia, feia, e deshonesta.
Uma senhora innocente que diz: «lua de mel» suja os labios, se preza a pureza n'elles; se, porém, sabe o que diz, se sabe o que é o favo, o _mel_ da lua, desdenha o pudor, e despreza-se.
Os noticiaristas das gazetas aforaram a phrase, sem saberem, talvez, que desaforavam as palavras. Os diarios do Porto, em 1856, noticiaram assim um casamento:
«Hontem ás nove horas da manhã, contraíram o sacramento do matrimonio o ill.mo sr. João José Dias, rico negociante que foi no Rio de Janeiro, com a ex.ma sr.ª D. Ludovina da Gloria Pimenta, filha do nosso amigo Melchior Pimenta. O sr. Dias deve á fortuna a escolha de uma noiva tão rica de prendas moraes como de formosura angelica. A gentil menina encontrou um honrado protector, cuja fortuna, sendo immensa, vale menos que a briosa reputação que tem. Os esposos vão passar a LUA DE MEL á sua quinta de Celorico de Basto, para onde partiram hontem de manhã acompanhados dos numerosos amigos dos ditosos consortes. Diz-se que o sr. Dias vae mandar construir um palacete no Porto, onde tenciona fixar a sua residencia. Damos os parabens á cidade invicta por tão valiosa acquisição.
A local está redigida a primor, como lá se faz sempre nas gazetas; mas aquella LUA DE MEL indigna-me.
Se querem que haja por força uma lua para os que se casam, façamos umas poucas de luas:
Lua de mel;
Lua de cicuta;
Lua de laudanum;
Lua de tartaro emetico;
Lua de mostarda ingleza;
Lua de oleo de ricino;
Lua de fel da terra;
Lua de salsa-parrilha;
Lua de raspa de veado;
Lua de jalapa;
Luas tónicas, luas antiphologisticas, luas irritantes, luas vomitas, luas drastricas, etc.
Convém, de seguida, observar, que a lua não influe por egual nos dois noivos. Cada um deve ter sua, nos casos exceptuados de casamento por paixão reciproca.
Tal marido é aluado em ovos molles, e sua mulher em jalapa.
Tal noiva saboreia-se nos dulcissimos favos da colmeia lunar, e o homem enjoa um cozimento salobro de raspa de veado, animal que muitas vezes lhe lembra, por causa das virtudes medicinaes, e outras causas.
Qual d'essas luas influiria em João José Dias, e qual em D. Ludovina da Gloria?
Eu não decido, porque sou supinamente ignorante em astrologia judiciaria. Conto os factos, e deixo as luas ao arbitrio do leitor.
Fez-se o casamento, e effectivamente partiram os conjuges para Celorico de Basto. D. Angelica tambem foi. Melchior Pimenta ficou para comprar terreno, e contractar o architecto e alveneis que deviam fazer o palacete, a toda a pressa.
Os cavalheiros de Basto receberam cartão do casamento. Esta usança das familias de bem, desconhecida a João José Dias, fôra lembrança da previdente D. Angelica: o fim era relacionar sua filha com as familias mais tractaveis de Basto, para que estas visitando-a, segundo o ceremonial, a distrahissem das melancolias do noivado.
Tudo lhe saíu ao pintar dos seus projectos. A fidalguia circumvizinha não desdenhou as relações do capitalista. O cartão enviado ás senhoras dizia:
D. ANGELICA THEODORINA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA PINTO CASTRO LEITE E LEMOS TEM A HONRA DE PARTICIPAR A V. EX.ª O CASAMENTO DE SUA FILHA A EX.MA SR.ª D. LUDOVINA DA GLORIA PIMENTA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA PINTO CASTRO LEITE E LEMOS COM O ILL.MO SR. JOÃO JOSÉ DIAS
Os appellidos heraldicos abalaram os espiritos pechosos d'aquella fidalguia de travessão que por alli enxamêa.
Devia ser filha segunda de casa muito distincta a que descera até aos fabulosos milhões do João da Chan-de-Cima: diziam-n'o assim os que d'aquelle modo chasqueavam o brasileiro, pouco dado com fidalgos.
Consentiram algumas familias em visitar os noivos. Um dos fidalgos, esmerilhando a procedencia genealogica de D. Angelica, descobriu que um seu tio-visavô sahira da casa dos Ciprestes para ir entroncar na nobilissima familia dos Pereiras e Sousas, em Paços de Gaiôlo, d'onde era oriunda a avó de D. Angelica. Feito o descobrimento, D. Ludovina achou-se prima de tudo que faz o lustre e ornamento de Celorico, Cabeceiras, Arco, e terras de Barroso.
João José Dias tambem era primo dos primos de sua mulher; e, de si para si, ao bom do homem dava-lhe para rir-se á socapa da parentella. A lingua não se lhe ageitava a chamar primos aos fidalgos da casa dos Ciprestes, aos do Reguengo, aos da Capella, e outros que frequentavam, mais do que elle queria, a casa e o espirito attrahente da sua sogra, espanto das fidalgas analphabetas.
Sem embargo, o capitalista simulava affectuosa estima aos hospedes, e contentamento com o ar festivo que sua mulher mostrava, tendo visitas.
D. Ludovina pagava as visitas, passava as noites em sociedade, primava em tafularia, ensinava as primas a vestirem-se, cuidava dos seus enfeites com desvelo, e gastava com seu marido o tempo necessario para projectarem passeios, romarias, e saraus por aquellas redondezas.
Annuia o conjuge, folgazão no rosto, e zangado por dentro. O bom siso dizia-lhe que sua mulher era uma creança, vezada a bailes, e ainda verde para gostar da quietação domestica. Bem via elle a innocente alegria com que Ludovina andava nos honestos brinquedos, e o desapercebimento, se não desprezo, com que ella acceitava as louvaminhas dos primos.
D. Angelica entendia o que o seu genro calava; conhecia a violencia que elle fazia ao genio e aos annos ronceiros, para andar n'aquella lufa-lufa de visita em visita, bifurcado n'um macho, que lhe contundia as carnes com o chouto ingrato. Receosa de que a impaciencia rebentasse em fim por algum dito menos delicado á mulher, quiz ella prevenir o desgosto de ambos, dizendo uma vez á filha:
«Convém conformarmo-nos um pouco aos costumes de teu marido, Ludovina. Teu homem não foi assim educado, e os annos extranham esta transição.
--Que quer a mãe que eu faça?
«Que espaces os teus passeios e visitas, que vivas mais em tua casa, que tenhas com elle algumas horas mais de convivencia.
--Que hei de eu dizer-lhe?!
«O que has-de tu dizer-lhe?!...
--Sim, mamã. Temos occasiões de estar duas horas juntos sem trocarmos tres palavras. Sou amiga d'elle; mas não sei como hei-de mostrar-lh'o de outro modo. Se querem que eu não receba visitas, nem vá a casa de quem me visitou, estarei em casa, contemplando os carvalhos e os castanheiros; mas eu não creio que se possa viver assim na aldeia. Se elle ainda me não disse nada, porque ha de a minha mãe censurar-me este desabafo que eu preciso? Eu a fugir de falar na minha situação, e a mãe a lembrar-m'a! Cuida que sou feliz? Diga, mãe, está persuadida que eu devo estar extasiada de contentamento deante de meu marido?
«Não creio que te devas extasiar, mas tambem não approvo que te arrependas. Como explicas tu a consideração, o respeito com que és tractada? Pensas que o seres casada com este homem te desmerecesse aos olhos d'esta gente, que lhe chama parente?
--E a felicidade é isso, mãe?!
«A felicidade não é cousa nenhuma d'esta vida, e, se alguma existe cá, é a que dá á consciencia da mulher casada o prazer de não envergonhar seu marido.
--Que palavras! Isso que quer dizer, minha mãe?
«Não t'as applico, Ludovina: respondi á tua pergunta. A felicidade no amor é um creancice dos quinze annos, e ás vezes dos quarenta; mas o desengano vem com todos os homens e com todas as edades. Não te persuadas que a vida te seria aqui mais risonha, por muito tempo, com um marido de tua escolha. Este homem, d'aqui a tres mezes, has-de ama'-lo como se ama um amigo. O outro, d'aqui a tres mezes, ama'-lo-ias com o afflictivo amor da mulher que enfastia, que se vê cada vez mais aborrecida, e compara os ardores dos primeiros mezes de casada com a fria sequidão dos que traz o cansaço. Poupaste-te ao maior dos infortunios, que é esse para a mulher que não quer curar a chaga do amor a seu marido com a peçonha da infidelidade, comprehendes-me, Ludovina? Eu não consinto que tu, sequer, recordes alguns exemplos de mulheres casadas que viste conciliadas com o despreso dos maridos, acceitando a adoração de outros, como vingança, e fazendo do crime uma necessidade. Lembra-te só d'ellas como mulheres que casaram apaixonadas, que doudejaram de alegria nos primeiros tempos, e pareciam cheias de felicidade para toda a vida. Não te recommendo paciencia, Ludovina, porque ninguem te dá causa de soffrimento; recommendo-te juizo. Este homem ha-de merecer a tua amizade: logo que a tenha, viverás da melhor affeição, da que mais dura n'este mundo; terás o bem que raras vezes fica de um amor ardente.
Estas e outras palavras modificaram a força motriz de D. Ludovina. Os passeios rarearam-se, os convites para reuniões foram esquecendo á mingua de estimulo e as massas amollecidas do sr. João José Dias recobraram vigor, com não menos gaudio do velho macho que as caminhadas traziam desmedrado e manhoso.
Estava já a lua de mel em quarto minguante, quando os noivos, voltando para o Porto, foram hospedar-se na casa paterna, em quanto não alugavam casa provisoria, onde esperassem que o palacete se fizesse.
João José Dias foi agradavelmente surprehendido em casa de seu sogro.
Convidado para um baile, em que Ludovina ia ostentar preciosissimos recamos de brilhantes, que seu marido lhe déra na vespera do casamento, João José Dias ao vestir a casaca nova, que seu sogro lhe mandava ao quarto n'uma bandeja, viu uma commenda pregada n'ella, e sobre uma salva de prata um collar com a cruz da ordem de Christo, pendente de um vistoso laço de fita.
--Que diabo é isto?--disse elle ao creado no requinte do pasmo.
«É um presente que faz a v. exc.ª o sr. Melchior.
--Diz-lhe que venha cá, e pega lá para cigarros--dizendo isto, o commendador lançou á salva... sete centos e vinte.
Não vos assombre este lance dadivoso de grandeza. Em successos de menor estimulo á munificencia, sei de outros arrojos de liberalidade, que desbancam João José Dias.
Ahi vão de passagem dois exemplos:
Um visconde, opulento pelos dons de uma bestial fortuna que o ama como a cousa sua, compra um quarto de bilhete da loteria hespanhola. O rapaz que, á custa de muito teimar, lh'o vendera, vae dar-lhe a nova de que a cautela fôra premiada com quatro mil duros. O visconde manda esperar o alviçareiro moço e traz-lhe umas calças de cutim sem fundilhos.
Outro, na passagem do rio Douro, escorrega do barco para a corrente, e mergulha; passados instantes, emerge á tona d'agua resfolegando, e pedindo soccorro. Travam-no os braços robustos do barqueiro que, em risco de morte, consegue salva'-lo, Vae leva'-lo á familia, mandam-no esperar á porta da rua, e recebe, como salvador d'uma vida cara aos seus, uma vida que os jornaes pranteariam com tarjas da grossura de um dedo, e vinhetas das mais funebres da typographia, recebe, finalmente, setecentos e vinte em cobre.
Isto é publico e notorio; mas não estava em chronica. Receio maguar a modestia dos generosos cavalheiros, por isso resalvo os nomes. Na quinta edição d'este livro, havidos os consentimentos respectivos, serão postos em estampa, para inveja de miseraveis sovinas, e estimulo á profusão da presente raça.
O commendador não era fona. Esse caínho feito não desluz os bizarros presentes que fazia á esposa e aos sogros. Ludovina era o primor da casquilhice, e do mais rico em gosto e droga. Para cada baile, para cada exposição do theatro lyrico, um vestido não visto, só comparavel aos que trajára antes, e inferiores aos que trazia depois.
Os _leões_ sertanejos, estes cinco ou seis pataratas, senhores de uma gloria tão productiva, que faz lembrar a dos dominios da corôa portugueza na Ethiopia, Arabia e Persia, os leões honorificos do Porto, se assestavam pertinazes os oculos na peregrina esposa do commendador, o mais que conseguiam era realisar o anexim nacional: «--viam-na por um oculo.»
João José Dias envesgava o olho de soslaio por sobre as feras; e, a meu ver, seria elle homem bastante para realisar, já não com um, mas com todos, a fabula do leão espinotado pelo orelhudo.
O commendador tinha em sua mulher inteira confiança, nada lhe alterava o conceito bem merecido; todavia era accessivel ao ciume sem causa. Nos bailes, andava o pobre homem sempre assustado. Não tinha socego, nem póro que não estilasse o suor da apoquentação. As affabilidades mais triviaes e innocentes da cortezia, um sorriso de Ludovina ao par dançante que a deliciava com ensosso palavrorio, o menor gesto de attenção a que a delicadeza obrigava a festejada dama, isso era um adstringente doloroso que apertava as entranhas do commendador.
N'um d'esses bailes, em que João José Dias emagreceu duas polegadas na circumferencia, appareceu Ricardo de Sá, que nunca mais vira Ludovina desde a vespera da sua derrota.
Audacioso até ao desatino, teve a petulancia de aprumar-se diante de Ludovina, com a luneta insultante. A filha de D. Angelica pediu o braço a uma amiga e saíu d'aquella para outra sala. O commendador não fôra extranho ao acto, e seguiu-a com disfarce. Ricardo, brincando com os berloques do relogio, e tregeitando o habitual sorriso do homem tragico de romance, seguiu de longe as duas amigas, simulou um encontro casual, estacou diante d'ellas, e montou a luneta.
D. Ludovina rodou sobre o calcanhar e voltou-lhe as costas. Á cabeça do commendador subiu um repuxo de sangue, e os lobulos das orelhas fizeram-se-lhe escarlates como ginjas.
D. Angelica, que espiava o successo da sala proxima, acercou-se de Ricardo de Sá, fitou-o com fulminante soberania, e disse-lhe a meia voz:
--O senhor é um miseravel tolo, que incommoda. Se se estima alguma cousa, não me obrigue a encarregar o boleeiro de minha filha de responder ás suas provocações.
--Mude de sexo como Theresias, e falle-me depois--disse Ricardo, dando á perna direita o costumado repuxão dos elegantes.
O commendador veio ao encontro de D. Angelica, e disse-lhe:
--«Aquelle sujeito com quem a senhora falou agora, não é um homem que eu encontrei em sua casa a primeira vez que lá fui?
--É.
--Que diabo anda elle a prantar-se diante de Ludovina?
--Já reparei n'essa acção repetida. Eu lhe conto, dê um passeio comigo--E tomando-lhe o braço, D. Angelica continuou:--Este homem foi uma afeição innocente de minha filha, e é hoje um ente desprezivel para ella e para mim.
--Escreviam cartas um ao outro?--interrompeu o commendador, bufando.
--Escreviam, sim...
--Porque me não disse isso a senhora?!
--Porque não merecia a pena dizer-lh'o. Que é escreverem-se cartas?
--Não é pouco, acho eu... E como acabou isso?
--Acabou, dizendo eu a esse homem que não voltasse a minha casa.
--E que quer elle agora?
--Vingar-se da unica maneira que póde: affligir minha filha... Ella ahi vem... não falemos n'isto.
D. Ludovina disse affectuosamente ao marido:
--Vamos embora? eu estou incommodada.
--Vamos, disse a mãe.
--N'esse caso, vou chamar a carruagem; esperem um pouco, que eu venho já--disse o commendador.
As senhoras foram esperar na sala menos concorrida. D. Ludovina arquejava em ancias, e falava aceleradamente a sua mãe.
Entretanto, João José Dias entrou na sala onde se dançava, e viu na porta fronteira Ricardo de Sá encostado, com a luneta em acção, e o cotovello direito apoiado na mão esquerda.
Foi ao pé d'elle e disse-lhe:
--O senhor sabe quem eu sou?
--Creio que já o vi em alguma parte.
--Faz favor de vir aqui que lhe quero fallar.